sexta-feira, junho 15, 2018

SÓ O AMOR CONSTRÓI - MESMO ENTRE OS MARGINAIS

Cinema: Stay Sick, novo filme de Alexandre Guena e Coletivo Os Sádicos, tem lançamento hoje, na Sala Walter da Silveira

O cinema marginal baiano está vivo e bem nos filmes do diretor Alexandre Guena. Hoje, ele lança sua nova obra, Stay Sick (literalmente, “Permaneça Dodói”), com um evento na Sala Walter da Silveira.

Junto ao filme, assinado por Guena à frente do coletivo Os Sádicos, serão exibidas duas outras obras suas: Walterville (cine-instalação premiada no Festival Nacional 5 minutos) e 1964 (de 2010).

Além dos filmes, haverá discotecagem do DJ BigBross e bate-papo com membros da produção, Tatiana Trad (artista Multidisciplinar e Mestra em Cultura e Sociedade - UFBA) e Rodrigo Araújo (professor de Filosofia do IFBA).

Stay Sick reafirma a veia autoral de Guena ao povoar a tela de personagens absolutamente amorais e à margem de qualquer tentativa de integração à sociedade.

Com 12 minutos em P&B, Stay Sick narra a trajetória da família Foxy (pai, mãe e bebê) pelas ruas de Salvador, entre pequenos assaltos, delírios à beira-mar e fartas doses de conhaque com leite e Sucrilhos.

A linguagem não engana: Guena é devoto confesso  da Nouvelle Vague, neo realismo italiano, John Cassavettes e (claro) Cinema Novo.

“É por ai mesmo. Adoro todas essas escolas de vanguarda. Acrescentaria o Cinema Marginal e o Dogma 95. Mas acredito que estamos apontando para algo novo e particular”, afirma.

“A originalidade sempre foi um ponto forte em todos os filmes do coletivo Os Sádicos. Porém, neste filme, as influencias estão mais claras, assim como existe um maior dialogo com o publico”, acredita.

Romance de rua

Se não há moral entre os personagens interpretados por Caio Graco e Raabe Aimi, o mesmo não se pode dizer do amor. À sua maneira, Stay Sick é um filme muito  romântico.

“É tudo fictício. Amo a ficção. A farsa. Bolei Stay Sick após conhecer a namorada do meu amigo Caio Graco. Eles eram tão lindos e malucos que fiquei alucinado pra filmar aquela paixão entre os dois. Isso está gritando e ardendo na tela”, afirma Guena.

“É um filme extremamente romântico ao seu modo. Imaginei eles constituindo família – e nesse menage a trois de ideias acabou se tornando um filme formidável”, acredita.

Apesar da premissa ousada, é lícito dizer que não há nenhuma cena assim, chocante no filme, no que tange ao sexo e violência.

A transgressão está no próprio conceito de um casal jovem com um bebê de colo cometendo assaltos sem qualquer consequência ou culpa.

Mas afinal de contas, quem são Os Sádicos? Guena responde em inglês: "'Sadistics' project eludes definition - Sadistics' films are a thrust of candid violence and über reality that pierce through your skull like a bullet - they've a life of their own. Shocking, daring, underground-rears-up-its-ugly-head movies: that's Sadistics".

Sempre ativo, Guena conta que está com a gaveta abarrotada de roteiros.

“Quem faz cinema não pode ficar parado. Tenho diversos roteiros na gaveta, escrevo muito mais do que filmo, e estou criando um filme onde um homem faz tatuagem no seu próprio corpo sozinho em sua casa”, conta.

“Também tem um projeto com Mariella Santiago que deve sair do papel em 2019. Agora estou preparando oficinas. Uma delas com meu amigo argentino Martin Fox Douglas e Marcos Pierry - que deve se chamar Fique Rico Fazendo Cinema Underground”, conclui.

Stay Sick Party / Exibição dos filmes Stay Sick, Walterville e 1964 / Com DJ Big Bross e bate-papo com Tati Trad  e Rodrigo Araújo  / Hoje, 19 horas  / Sala Walter da Silveira / R$ 10 e R$ 5

quarta-feira, junho 13, 2018

MAPA, AURATA E SOFT PORN PEGAM ESTRADA PARA OITO CIDADES DO SUDESTE. ANTES, SHOWS NO MERCADÃO CC

Rapaziada da Soft Porn, Aurata e Mapa junta, foto Lincoln Fonseca
Entupir um carro de instrumentos e bagagens  e pegar a estrada para sair tocando pelo Brasil. Toda banda de rock que se preze tem que, pelo menos uma vez, passar por esse ritual de iniciação.

Que o digam os Honkers, Cascadura e outras cujos nomes se perderam na purple haze do tempo.

Desta vez, são três nomes da novíssima cena local que encaram o desafio: MAPA, SOFT PORN e Aurata.

Trata-se da  NHL Tour 2018 Invisible Drums, que   vai passar por oito cidades do Sudeste entre 5 e 15 de julho: Vitoria (ES), Gov. Valadares, Montes Claros e Belo Horizonte (MG), São José dos Campos, Taubaté e  São Paulo (SP), fechando a viagem no Rio de Janeiro.

A iniciativa é dos próprios músicos (claro), em parceria com o bravo produtor local Kairo Melo, da NHL Produções Artísticas.

“Depois de passar mais de dois anos recebendo bandas de fora do estado em Salvador e programando algumas mini-turnês para estas mesmas bandas pelo interior da Bahia, resolvemos fazer valer o tal do intercâmbio cultural e fomos bater à porta das bandas que ajudamos a tocar por aqui”, conta Kairo.

“O pontapé inicial foi na última vinda do Bike (SP) a Salvador. Eles são uma das bandas mais bem articuladas da cena nacional e nos ajudaram bastante com vários desses shows. Quem também agilizou quase todo o estado de Minas Gerais foi o mestre Vitor Brauer e sua Geração Perdida”, detalha.

Para  esquentar os tamborins, as três bandas se apresentam dois sábados de junho (neste próximo e no dia 30), no Mercadão CC, nova  casa de Messias GB (brincando de deus).

“Serão como ensaios abertos e um pedido de benção ao nosso público para esse novo formato de show. Porque durante toda a turnê faremos um tipo diferente de apresentação, onde os três projetos solo estarão no palco, tocando juntos músicas dos três projetos”, conta o produtor.

“Os shows do Mercadão serão as primeiras experiências nesse novo formato,  serve pra firmar a ideia e apresentá-la ao nosso público antes do Brasil. Pra isso também convidaremos amigos geniais para nos acompanhar. O do dia 16  vai ter a participação da lenda Ivan Motosserra comandando as pickups”, acrescenta.

Aprendizado

Um detalhe que facilitou bastante é que as três bandas da tour são projetos solo que se utilizam de bateria eletrônica – daí o título Invisible Drums (literalmente, bateria invisível).

Além da experiência incrível de rodar pelo país levando sua arte a outros públicos, músicos e produtor aproveitarão para ampliar seus horizontes e fazer contatos importantes.

“Acho até que essa parte dos contatos tende a ser mais importante na visão geral. Vamos conhecer como funcionam outras cenas, aprender como é realmente um show na Rua Augusta (SP). E ainda por cima acompanhados de produtores e bandas que admiramos. Acho que a palavra chave  é aprendizado”, conclui.

NHL TOUR 2018 INVISIBLE DRUMS / Com  MAPA, SOFT PORN e Aurata / Sábado e dia 30 (sábado), 23 horas / Mercadão CC (Rio Vermelho) / R$ 10 

ENTREVISTA: CAIRO MELO (NHL PRODUÇÕES ARTÍSTICAS)

Como surgiu essa oportunidade?

Cairo Melo:  A oportunidade não surgiu, nós fomos atrás dela. hehehe. Depois de passar mais de dois anos recebendo bandas de fora do estado em Salvador e programando algumas minis-turnês para estas mesmas bandas pelo interior da Bahia, além de termos realizado nossa primeira tour pra o Centro-oeste em 2017, resolvemos fazer valer o tal do intercâmbio cultural e fomos bater a porta das bandas que ajudamos a tocar por aqui. O pontapé inicial foi na última vinda do Bike(SP) a Salvador. Eles são uma das bandas mais bem articuladas da cena nacional e nos ajudaram bastante com vários desses shows. Quem também agilizou quase todo o estado de Minas Gerais foi o mestre Vitor Brauer e sua Geração Perdida. Eu irei apenas nos finais de semana, de avião, enquanto a galera pega a estrada e passará mais de duas semanas circulando por esse Brasilzão.

A turnê é toda de carro? Vocês vão em um carro de passeio mesmo ou pelo menos conseguiram uma van?

CM: Sim, a turnê será toda de carro.Carro de passeio mesmo. Isso só é possível por serem três projetos solos. Mais uma das vantagens do Invisible Drums. hehehe

Imagino que dá um trabalhão coordenar as datas e locais todos, com o tempo hábil para chegar em cada local. Como foi essa parte do trabalho?

CM: E bota trabalhão nisso. Para você ter ideia só conseguimos fechar todos os locais e bandas de apoio agora, a um mês do início da turnê. É um trabalho pesado, mas gratificante, é aquela coisa de chegar e falar, na cara de pau mesmo, chama uma banda, se não der certo com esta, pede indicação de uma banda amiga, fala com um produtor local e se dispõe a qualquer acordo, aquela coisa. A questão do tempo hábil, planejamos a turnê levando em consideração o caminho e sempre pensando em quanto tempo leva de uma cidade pra outra. Isso não chegou a ser um problema. No geral, encontramos ótimos parceiros entre produtores que sempre quisemos trabalhar e bandas que sempre quisemos tocar.

Além de fazer shows, imagino que essas viagens são uma garnde oportunidade de fazer e estreitar contatos. Como a NHL e as bandas pretendem aproveitar essa oportunidade?

CM: Com certeza, acho até que essa parte dos contatos tende a ser mais importante numa visão geral da Tour do que as apresentações em si. Afinal vamos conhecer como funciona outras cenas maiores do Brasil, poderemos aprender como é realmente um show na Augusta em São Paulo, por exemplo e ainda por cima acompanhados de produtores e bandas que sempre admiramos. Acho que a palavra chave dessa Turnê será aprendizado. Para fazer funcionar mesmo essa estreitação de laços, preferimos sempre fechar os shows com produtores que já trocávamos idea virtualmente, ou com bandas que já vieram tocar aqui. Para assim, fechar o ciclo de intercâmbio e ter certeza que seremos bem recebidos. Claro que tem também a ousadia de chegar e falar com uma casa de shows como a Audio Rebel no Rio de Janeiro e conseguir fechar o show lá. Não fazemos ideia como alguns shows podem ser, mas teremos certeza que aprenderemos muito com todos.

Os shows no Mercadão são uma forma de esquentar as turbinas? O que podemos esperar desses shows?

CM: São exatamente isso. Serão como ensaios abertos e um pedido de benção do nosso público soteropolitano para esse novo formato de show. Porque durante toda a turnê faremos um tipo diferente de apresentação, onde os três projetos solos estarão no palco, tocando juntos músicas dos três projetos (inspirado principalmente nas últimas turnês de Vitor Brauer, que se juntou com Jonathan Tadeu e Fernando Motta, outros projetos solos de BH, e circularam o Brasil tocando juntos músicas dos três). Os shows do Mercadão serão as primeiras experiências com esse novo formato, portanto serve pra firmar mesmo a ideia e apresentá-la ao nosso público antes do Brasil. Pra isso também convidaremos amigos geniais para nos acompanhar nesses shows, como o do dia 16, que vai ter a participação da lenda Ivan Motosserra comandando as pickups.

Me diga o que vc realmente queria dizer mas eu não perguntei...

CM: O que quero dizer é que espero que essa tour incentive as bandas e projetos de Salvador e da Bahia a porem o pé na estrada e arriscar mesmo. Porque é assim que tem sido feito pela maioria das bandas que vem chamando atenção na cena alternativa nacional e eu acredito ainda ser um método pouco explorado pelas bandas e projetos baianos. Acredito que o intercâmbio cultural é a única forma de manter viva a chama da música alternativa nacional e deve ser explorada em todos os sentidos. Queria deixar também o chamado para os shows do Mercadão porque estes shows nos ajudarão a visualizar a recepção do público além de nos ajudar a tirar uma graninha que pode ajudar a encher pelo menos o primeiro tanque. hehehe

NUETAS

Barba cabelo bigode

Bem ativa nos últimos meses, a banda Flerte Flamingo se apresenta nesta quinta-feira em local inusitado, a Jack Navalha Barbearia e Bar (Av. Marques de Leão, 639, Barra). 19 horas, R$ 10

Honkers desplugado

Os fabulosos The Honkers estreiam set acústico (ou pseudoacústico) sexta-feira, na Tropos. 21 horas, pague quanto puder.

Paraíba orquestral

O Quinteto da Paraíba se apresenta de sexta-feira a domingo na CAIXA Cultural, dentro da série de concertos Brasil Orquestral, com curadoria do  diretor teatral Gil Vicente Tavares e do maestro Carlos Prazeres (Osba). No repertório, um cruzamento entre as músicas nordestina e de concerto. Além dos músicos, a bailarina e coreógrafa Bárbara Barbará também se apresenta. Sexta e sábado às 20 horas, domingo às 19 horas. R$ 10 e R $5.

terça-feira, junho 12, 2018

UM NOVO (E BELO) CAPÍTULO

Dono de impressionante consistência na carreira de mais de 25 anos, Ronei Jorge lança amanhã, com show no Teatro Sesc Pelourinho, seu primeiro álbum solo: Entrevista

Os dois lados (dos muitos) de Ronei Jorge, em foto de João Milet Meirelles
Amanhã, o cantor e compositor soteropolitano Ronei Jorge inicia um novo capítulo de sua carreira de mais de 25 anos: Entrevista, seu primeiro disco solo, será lançado com um show no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Desde 1992, quando surgiu  à frente da banda punk tropicalista Mütter Marie, Ronei vem construindo uma carreira das mais singulares do cenário local – e também uma das mais consistentes.

Singular também é o lugar de Entrevista em sua carreira. Fora o fato óbvio de ser o primeiro disco solo de um artista sempre ligado à bandas (Mütter, Saci Tric, Ladrões de Bicicleta), a obra traz o inquieto músico explorando outras estéticas e sonoridades.

“Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda queria também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios”, diz Ronei.

O que salta aos ouvidos é que, aqui, Ronei canta pela primeira vez acompanhado ao longo de todo o disco pelas vozes afinadas da dupla Carla Suzart (baixo) e Aline Falcão (teclado, piano e sanfona).

Juntas, as vozes de Aline e Carla auxiliam Ronei a implementar uma estética específica que ele buscou para Entrevista, algo entre Tom Jobim e Itamar Assumpção, que se utilizavam muito das vozes femininas para pontuar as harmonias e cantar em contraponto.

“Tanto Carla quanto Aline  cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho”, nota o artista.

Completam a banda o guitarrista Ian Cardoso (que já toca com  Aline na ótima Pirombeira) e o baterista Maurício Pedrão, parceiro de Ronei desde os Ladrões de Bicicleta.

Juntos, o quarteto Carla - Aline - Ian - Maurício formam a banda Dziga Tupi, nomeada pelo próprio Ronei, que, confessa, não sabe trabalhar sem uma banda pra chamar de sua.

”Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido”, conta.

“Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote”, diz.

Fora da caixinha

Indefinível – como de resto, tem sido seus discos ao longo da carreira – Entrevista é bem a obra de um artista que não aceita se confinar em caixinhas ou prateleiras de gêneros ou estilos musicais.

Aqui e ali é possível pescar suas referências – Caetano, vanguarda paulista, Tom Jobim – mas em nenhum momento se identifica a vontade de soar igual a eles.

“Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda”, aquiesce.

“Eu tinha pensado em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto”, detalha.

Com a produção rebuscada de Pedro Sá – responsável pelo  antológico Frascos Comprimidos Compressas (2009), com os Ladrões de Bicicleta – Entrevista ainda se vale de algumas participações especiais: Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi).

A bela capa é de outro ex-Ladrões, o guitarrista  Edson Rosa e é literalmente uma pintura. Uma embalagem à altura para tamanha beleza.

Ronei Jorge & Dziga Tupi: Entrevista / Amanhã, 20 horas / Teatro Sesc Senac Pelourinho / R$ 20, R$ 10

Entrevista / Ronei Jorge / Independente (com apoio do Fundo de Cultura, SecultBA e Sefaz) / Nas plataformas digitais / CD: R$ 20



ENTREVISTA COMPLETA: RONEI JORGE

Álbum finalizado e lançado, o que te passa na cabeça sobre a obra agora?

Pô gente, deixa o homem dormir! Foto JMM
Ronei Jorge: Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios. A capa de Edson Rosa é um presente, uma arte maravilhosa e que tem tudo a ver com o disco. As participações enriqueceram bastante o trabalho. Tem um álbum ali. Um caminho estético bem definido. A equipe, tanto no estúdio quanto na pós, foi fundamental. O entendimento de Tadeu Mascarenhas na técnica, Igor Ferreira na mix e Daniel Carvalho na master fez tudo começar e terminar bem. Acho que o maior desejo é que as pessoas escutem e que ele possa reverberar de alguma forma. Que as pessoas tenham a chance de escutá-lo com calma, o que hoje é mais difícil. Ele é bem representativo para mim artisticamente e bem fiel ao som que eu e a banda estávamos fazendo durante os ensaios.

O que te levou a chamar Pedro Sá para produzir este disco - fora o fato de já conhece-lo e aos seus métodos de trabalho? Que características você buscava no produtor?

RJ: Eu gostei muito de ter trabalhado com ele no ‘Frascos Comprimidos Compressas’ da Ladrões. Ali, ele já tinha me apresentado coisas que admiro muito numa direção de trabalho. Ele tem uma tranquilidade no estúdio que tem a ver com sua atenção, a ansiedade passa longe; então, você não vê ali um cara que quer te entupir de informação, você vê um produtor que quer que você renda da melhor forma possível e que te dá indicações sensíveis, sutis e importantes de como fazer isso. O ouvido dele está sempre atento – ele tem um ouvido muito musical –, mas ele só vai fazer observações precisas e inteligentes, no momento certo. Pedro é um produtor de pé de ouvido, chega junto de cada músico, ouve, pergunta, tenta buscar com cada um o melhor caminho para a música, sempre a serviço dela, do resultado final. Todo mundo fica bem tranquilo e seguro. Eu acho isso muito precioso, porque você tem no estúdio alguém em que você confia e admira. Você tem um produtor que entende o que você quer como resultado e consegue fazer uma leitura muito inteira do seu trabalho e potencializa ele tanto no estúdio quanto no acompanhamento na pós-produção. Além disso, é um amigo, um cara que abraçou esse projeto de uma maneira muito bonita e séria. Mesmo com dificuldades que surgiram, ele enfrentou tudo de maneira muito corajosa.

Você tem uma forma muito peculiar de escrever sobre - e descrever - relacionamentos. Que pistas você poderia nos dar para entender de onde vem essa lírica tão particular?

RJ: A gente que tá dentro do processo não percebe muito isso. Inclusive, algumas leituras são muito interessantes sobre o que escrevo. Um amigo, dia desses, me definiu como um falso romântico. Como se meu texto falasse de quem vê a ilusão, sabe que ela existe, mas não deixa de se envolver com ela. Palavras dele. Eu acho que tem realmente muito disso. Agora, a matriz disso é mais difícil ainda de se identificar. Acho que tem um pouco da experiência pessoal e de audição e leitura de artistas que admiro. No final das contas, essas relações humanas acabam abarcando um pouco de tudo. As nossas virtudes e vícios, culpa e prazer estão nessas relações. É mais universal, amplo, mas acaba falando de um monte de coisa. Desde nossos sentimentos mais íntimos, até nossa relação com as coisas do mundo político, profissional etc.

Como se deu seu encontro com esses músicos extraordinários que são Carla Suzart, Aline Falcão e Ian Cardoso? Como avalia a contribuição deles para o resultado final do álbum?

Dziga Vertov: Aline, Ronei, Carla, Ian e Maurício, foto João Milet Meirelles
RJ: Eu sou realmente um cara de sorte. Veja, não tiro minhas qualidades como um observador, uma pessoa que gosta de agregar, mas poderia dar tudo errado. Eu acabei juntando pessoas de lugares bem diferentes, mas que tinham em comum o fato de terem uma personalidade musical muito marcante. Ian eu vi quando fui jurado do Caymmi, fiquei fascinado com o fraseado, a técnica e a liberdade. Ian é muito livre e despido de preconceitos. Aline veio depois da saída de Lívia Nery. Eu tinha visto Aline com o Pirombeira e qualquer pessoa fica maravilhado com ela. Aline tem um vocabulário musical incrível e muita sensibilidade. Tem momentos que você percebe que ela está totalmente entregue à música, ali é o mundo dela, ela toca como se estivesse conversando, com uma naturalidade impressionante. Sabe tudo e mais um pouco. Toca demais. Carla eu conheci através de João Meirelles. João convidou ela para tocar com a gente no Tropical Selvagem e eu já cresci o olho naquela musicista de percepção sensível. Carla toca baixo de maneira muito particular, melodioso e com pausas e notas muito inteligentes. Além disso, tem um senso de conjunto muito apurado. Tanto Carla quanto Aline também cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho. Pedrão também tem essa característica particular, uma assinatura, uma preocupação com o timbre do instrumento, com a ambiência. Ou seja, todos eles contribuíram de forma decisiva nos arranjos, seja por característica própria, ou por nossas conversas e nossos ensaios constantes. Eu levei para eles minha ideia inicial e fomos lapidando juntos. Eles trabalharam nas músicas intensamente.

O álbum ficou bem indefinível, um traço próprio de artistas que não se satisfazem em caixinhas. Ao mesmo tempo, isso pode ser um problema na hora de "se vender" como artista, vender shows etc? Como você lida com essa corda bamba, esse fio de navalha?

RJ: Eu tinha pensado bastante em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto. Com a banda, fomos fazendo tudo isso. Eu nunca pensei em como lidar com essa indefinição porque a composição aparece para mim como uma necessidade, consequentemente, todo o entendimento estético que vai abarcar essas canções também: os arranjos, timbres, produção, a arte e finalmente o disco, a obra. Depois de feito isso tudo, você percebe o tamanho do pepino. Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda.

O nome Dziga Tupi é uma referência tropicalista? "Tupi or no tupi", aqueles lances todos? O Dziga é do (cineasta russo Dziga) Vertov?

Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido. Tem esses lances de raízes; tecnologia; brasilidade; mundo; passado; futuro, essas aparentes contradições e isso tudo é meio tropicalista. Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem uma banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote. Em relação ao nome, realmente eu parti do Dziga – sim, é o Vertov mesmo – por causa da relação com cinema que já tinha na Ladrões de Bicicleta. Fiz essa graça. Esse nome, que já é um apelido do diretor russo, tem uma sonoridade ótima. Assim como Tupi, que eu acho muito bonito. E é interessante pensar que teve uma TV Tupi. Mas, antes de tudo, é um apelido carinhoso, um nome afetuoso para esses músicos tão presentes nesse trabalho.

Saci Tric na revista Bizz 184 (nov 2000). Blog Disco Furado
Te conheci cantando na Mütter Marie, uma banda que em alguns momentos soava como Dead Kennedys, e ao longo das décadas você veio se refinando em suas bandas subsequentes. Você ainda se reconhece naquele início quase punk rock? O que o Ronei de 2018 diria àquele Ronei de 1992?

RJ: Diria: respire um pouco. Brincadeira. Acho que todas essas bandas foram importantes para minha formação. Ter encontrado com esses músicos – todos meus amigos até hoje – fez muito parte de minha formação. Desde a Mutter Marie, eu e meus amigos prezamos pela liberdade. Acho que a gente acabava não se enquadrando em nenhum gênero. E é interessante sua comparação porque o Dead Kennedys era uma banda que estava no punk, mas era meio fora da caixa. Na Mutter Marie, a gente de maneira torta já estava flertando com música brasileira. De uma maneira deliciosamente irresponsável, é verdade. Então, eu me reconheço nessa liberdade, nesse senso de coletividade, no desejo de estar constantemente burilando meu trabalho. Apesar de minha aparente tranquilidade, minha cabeça não tem muito sossego.

Tem planos de circular com este show pelo interior e outros estados? O que podemos esperar de Ronei e Dziga Tupi nos próximos meses?

RJ: Hoje, acho que não temos muito como prever o que acontece depois do disco pronto. Tem muitas variáveis possíveis. Essa coisa das plataformas digitais, da música passeando na internet, é um mundo muito vasto e muito imprevisível. O desejo de viajar com essa banda é imenso. Testar esse show, perceber novas possibilidades de interpretar essas e outras músicas, é o que queremos. Vamos ver como o disco e o show chegam nas pessoas.

sexta-feira, junho 08, 2018

A PENA DA GALHOFA DE UM BAIANO QUE "NÃO PRATICA"

Com cortejo saindo do Caboclo, Franciel Cruz lança hoje Ingresia no Icba

Em busca da moça do shortinho Gerassamba, Foto Sora Maia
Ao se deparar com a foto ao lado, o incauto leitor se detém por um instante, perguntando-se o que deve se passar na cabeça do retratado: a cotação do dólar? Eleições? O preço do combustível? Tsc. Na  cabeça do jornalista Franciel Cruz, que lança hoje seu primeiro livro, se passam  outras coisas.

Poucas delas são sérias – e nenhuma tão vulgar quanto os assuntos citados. Em Ingresia: Chibanças e Seiscentos Demônhos (P55), Franciel versa, com a verve que seus amigos e seguidores do Facebook conhecem, sobre um assunto de muito maior monta: aquilo que ele chama de “A Enigmática Chinfra Baiana”, título de uma das dezenas de crônicas do livro.

Fruto de uma bem sucedida campanha de crowdfunding – termo que detesta – Ingresia reúne os melhores textos publicados por Franciel em blogs e redes sociais na última década e meia. Tudo por insistência dos amigos.

“Amigo, você sabe, não é raça de gente. Então, este livro, na verdade, é uma forma de me livrar  deles. Ou, melhor da sua ladainha”, conta.

“Você tá num bar, querendo conversar sobre coisas importantes, tipo a cotação do bitcoin, e o cara fica em seu ouvido ‘Françuel, você tem que lançar livro, tem que lançar’... Quem porra aguenta isso? Não tem amizade que resista. Assim, o livro também é uma forma de preservar os amigos”, acrescenta.

Natural de Irecê, Franciel vem se tornando, ao longo das décadas, uma das maiores autoridades desta qualidade (ou defeito) indecifrável conhecido como “baianidade” – embora negue.

“Jamais serei autoridade em qualquer disgrama. Meu lugar de fala na baianidade é um samba-reggae de uma nota só: sou baiano, mas não pratico”, despista.

“Na verdade, este conceito do que entendemos de baianidade é esta ficção criada, especialmente pela dupla Caymmi & Jorge, com o auxílio pernicioso do Cabeça Branca. O fato é que esta baianidade se resume ao roteiro do dendê, mas a Bahia é muito maior do que isso”, afirma.

Tradicional de primeira

Com orelhas de Xico Sá, prefácio de Cláudio Leal e posfácio póstumo (escrito em 2014) por André Setaro, Ingresia desde já se configura em um dos lançamentos literários mais aguardados / badalados desta – como ele costuma dizer – “besta e bela província”.

Tão badalado que inaugura um novo – e desde já, tradicional – tipo de evento: o cortejo literário.

Em volta do carrinho de café multimídia da agitadora cultural Ana Dumas, Franciel, Núbia Rodrigues (que também lança seu livro infantil Sítio Caipora) e amigos sairão do caboclo do Campo Grande em direção ao ICBA, onde se dará a sessão de autógrafos.

“O livro bebe na fonte, com o perdão da má palavra, da iconoclastia. Então, quando Ana Dumas ofereceu o seu glorioso Carrinho Multimídia para animar a chibança, eu pensei logo em meter zuada”, diz.

“Conversei com Núbia e acertamos de marcar o primeiro e já tradicional cortejo literário. Sim, na Bahia é assim: a zorra nem começou direito e já é tradicional. Então, não sei o que será o cortejo literário. É o que acontecer. Vamos estar no pé do caboclo no Campo Grande chorando, caminhando, cantando e vendendo livro até chegar ao Pátio do ICBA, onde acontecerá o lançamento propriamente dito”, conclui.

Lançamento dos livros Ingresia, de Franciel Cruz, e Sítio Caipora, de Núbia Rodrigues / Hoje,  15h59 / Haus Kaffee (pátio do ICBA) / Gratuito

Ingresia: Chibanças e Seiscentos Demônhos / Franciel Cruz / P55/ Orelha: Xico Sá/ Prefácio Cláudio Leal/ 260 p./ R$ 30

ENTREVISTA COMPLETA: FRANCIEL CRUZ

Incentivado pelos amigos podemos entrar em diversas roubadas. Essa é uma delas?

Franciel Cruz: Totalmente. Amigo, como você bem sabe, não é raça de gente. Então, este livro, na verdade, é uma forma de me livrar  dos amigos. Ou, melhor dizendo: da ladainha deles. Porra. Você tá num bar, querendo conversar sobre coisas importantes, tipo, sei lá, cotação do bitcoin, e o cara fica em seu ouvido "Françuel, você tem que lançar livro, tem que lançar"... Quem porra aguenta isso? Não tem amizade que resista. Assim, o livro também é uma forma de preservar os amigos.

Seu estilo de cronista tem muita verve e neologismos. Que autores o influenciaram? Alguém é capaz de te influenciar?

FC: Sim. Sou totalmente influenciável. Exatamente por isso, me lenho todo. A pessoa amiga diz: vamos comer água e usar substâncias não recomendadas pela Carta Magna. E eu, todo trabalhado no influencialismo, aquiesço.  Mas na seara, digamos assim, literária óbvio que sempre rola umas influências, pois tudo acaba lhe (con) formando.  Dos tradicionais & consagrados, creio que Rubem Braga. Aliás, não compactuo com a avaliação de que ele é lírico, no sentido romântico. Na verdade, acho que o lirismo dele está mais próximo da violência, da aspereza. Óbvio que os críticos não concordarão comigo, graças a Jehová. A propósito, outra influência é Jehová de Carvalho. A Bahia precisa ler Jehová. É um cronista superior.  

Dizem que a baianidade foi uma invenção do trio ACM, Jorge Amado e Dorival Caymmi. Como uma autoridade no assunto, o que há de folclórico e o que há de verdadeiro nessa tal baianidade?

FC: Não faça isso comigo. Jamais serei autoridade em qualquer disgrama. Meu lugar de fala na baianidade é um samba-reggae de uma nota só: sou baiano, mas não pratico. Mas, derivo.  Na verdade, creio, este conceito do que entendemos de baianidade é, realmente, esta ficção criada, especialmente pela dupla Caymmi & Jorge, com o auxílio pernicioso do Cabeça Branca. O fato é que esta baianidade se resume ao roteiro do dendê, mas a Bahia é muito maior do que isso. Tem a Bahia do sertão, inventada por Elomar e cantada ancestralmente pelos repentistas. O que acho chato é que este baiano de Salvador passou a acreditar tanto nesta invenção que acabou se deixando levar pela enxurrada, perdendo um tanto assim da espontaneidade. Mas é do jogo também

Em diversos textos você fala das pequenas tiranias dos chamados "donos da cidade", sejam ricos ou pobres. Por que o baiano - ou pelo menos, o soteropolitano - tem essa tendência ditatorial de padaria?

FC: Rapaz, creio que acontece muito é que o baiano se acha muito importante, seja para o bem ou para o mal. Tem este negócio da chinfra, de tirar os outros pra otário. E isso acaba resvalando nesta coisa de achar que pode fazer o que bem entender sem se preocupar com o outro. Óbvio que, não necessariamente, isso é só ruim. Esta coisa de se achar dono da cidade tem seu lado positivo porque há uma identificação com a disgrama toda, o que torna muita coisa engraçada.

O que é um cortejo literário? 

FC: É outra ficção. O que aconteceu foi o seguinte. Eu não queria ficar preso ao empolamento literário. O livro bebe na fonte, com o perdão da má palavra, da iconoclastia. Então, quando Ana Dumas ofereceu o seu glorioso Carrinho Multimídia para animar a chibança, eu pensei logo em meter zuada. Minha amiga Núbia Bento vai lançar Sítio Caipora, no mesmo dia e local. (Aliás, comprem a obra dela. Ao contrário do Ingresia, é muito boa). Continuando. Pois bem. Quando Ana ofereceu o equipamento, eu conversei com Núbia e acertamos de marcar o primeiro e já tradicional cortejo literário. Sim, na Bahia é assim: a zorra nem começou direito e já é tradicional. Então, sinceramente, não sei o que será o cortejo literário. É o que acontecer na hora. Vamos estar no pé do caboclo no Campo Grande chorando, caminhando, cantando e vendendo livro até a chegada ao Pátio do ICBA, que é onde acontecerá o lançamento propriamente dito. 

Deu muito trabalho selecionar e editar as crônicas? Foi você mesmo que fez tudo isso, correto? Que tipo de cuidado - ou descuidado - te orientou nessa labuta?

FC: Eu fiz aquele tradicional trabalho de separar o joio do trigo. E claro, escolhi o joio. Muito joio e alguns trigos. A criatura vai lendo um bocado de coisa ruim e aí se depara com algo mais ou menos e pensa: este menino tem futuro. Mas para não deixar sua pergunta sem resposta (já vai ser a última questão, né?), seguinte. Eu praticamente havia perdido todas as coisas que rabisquei porque um abençoado, que não vou nem dizer o nome pra não dar azar, deletou a porra toda. Então, o trabalho inicial foi tentar relembrar o que já tinha escrito e onde poderia achar. Nesta labuta infeliz, reuni mais de 150 crônicas. E passei para Flávio Costa, autor do bom livro Caçada Russa (comprem, é bom, ao contrário do Ingresia), que fez uma seleção inicial. Depois fui relembrando de outras crônicas e contei com a leitura mais do que atenta de Davi Boaventura e, last but not least, Tom Correia. Óbvio que eles não têm culpa pelo resultado disgramado. Ao contrário, tentaram ajudar, mas sou teimoso. Então, o que me orientou foi a teimosia.   

Quando sai o próximo livro? Romance, contos ou autoajuda?

FC: Vou escrever o livro sobre o conceito que desenvolvi na feitura deste, chamado marquetingue-bulén. Nesta portentosa obra, vou ensinar as pessoas a venderem seus livros iguais aos mascates e cobrar iguais aos ciganos. Vai ser um fenômeno. 

quinta-feira, junho 07, 2018

GRANDE HOTEL

Promovido internacionalmente pela Sony, o duo português Dead Combo apresenta majestosa música instrumental em Odeon Hotel (com participação de Mark Lannegan), uma ponta de iceberg para os brasileiros descobrirem o novo pop d'além mar

Pedro Gonçalves e Tó Trips, foto Daniel Costa Neves
Donos de grande musicalidade – que nós brasileiros, certamente incorporamos em nossa história comum –, os portugueses só costumam ser lembrados pelo fado, o gênero luso por excelência.

O que muitos de nós aqui deste lado do oceano nem desconfiamos é que a cena pop portuguesa vive um de seus melhores momentos, gerando artistas que produzem uma música que soa muito nova, vibrante e intrigante para ouvidos desavisados – como os nossos.

Um exemplo perfeito é o duo instrumental lisboeta Dead Combo, que agora pode ser ouvido pelos brasileiros sem muito esforço, já que está tendo seu novo álbum, Odeon Hotel, largamente promovido nas plataformas digitais pela Sony Music, sua nova gravadora.

Antes de sabermos mais sobre Odeon Hotel, um breve histórico do Dead Combo, formado em 2002 pela dupla Tó Trips (guitarras) e Pedro Gonçalves (contrabaixo, kazoo, escaleta e guitarras).

O duo se formou após um encontro fortuito de Tó e Pedro depois de um show, quando o primeiro pediu uma carona ao segundo, sem saber que este também não tinha carro.

Voltaram ao Bairro Alto (centro antigo lisboeta) andando juntos e, quando lá chegaram, já tinham decidido gravar um álbum instrumental em homenagem ao icônico violonista pátrio Carlos Paredes.

Inicialmente underground mesmo em Lisboa, só começaram a ser notados por um público mais amplo a partir de de 2008, com seu quarto álbum, Lusitânia Playboys.

No som, a essência da guitarra portuguesa, mais inflências de música africana, da surf music e das trilhas sonoras western-spaghetti de Ennio Morricone.

Em 2012, começaram a ganhar notoriedade internacional ao aparecerem no episódio dedicado à Lisboa do programa Sem Reservas, do badalado chef e escritor Anthony Bourdain.

E agora chegamos à Odeon Hotel, que marca – o que se espera ser – uma virada na carreira do Dead Combo.

A começar pelo produtor, Alain Johannes, um requisitadíssimo profissional do circuito rock internacional, com discos de nomes como Queens of Stone Age, PJ Harvey e Chris Cornell no currículo.

Odeon Hotel também marca uma evolução clara no som do duo, que aqui soa mais "banda" do que nunca, com a incorporação de diversos músicos à sua linha de frente nas gravações e nos shows: Alexandre Frazão (bateria), Bruno Silva (viola d'arco), Mick Trovoada (percussão) e João Cabrita (saxofone).

Nos fones, o Dead Combo soa realmente renovado, mais universal, mas sem abrir mão de sua identidade. Algo que, de fato, era a busca do duo, conta Pedro Gonçalves pelo telefone.

"Sim, o próprio fato de contratarmos o Alain para produzir o disco tem um bocado a ver com o fato de que os outros discos foram sempre produzidos por nós. E estávamos nos sentindo um bocado estagnados dentro do mesmo sítio, estávamos prisioneiros de nossas ideias", conta o baixista.

"Daí chamarmos o Alain para nos libertar um bocado. Ele foi muito responsável pelos sopros e pela bateria ter um papel muito importante neste disco também. Foi graças a ele que se moldou este som do Dead Combo", acrescenta.

Dead Combo, foto Daniel Costa Neves
GENTRIFICAÇÃO LISBOETA - Além do produtor, outro convidado estrangeiro muito especial marca presença em Odeon Hotel: o vocalista Mark Lannegan, revelado em plena explosão grunge de Seattle pela banda Screaming Trees e hoje em uma cultuada carreira solo.

Lannegan agracia com sua característica voz cavernosa a única faixa com letra do album, I Know, I Alone, que nada mais é do que um dos poemas escritos em inglês por Fernando Pessoa, musicado pelo duo.

"O Lannegan apareceu primeiro, antes do Alain, neste disco. Nós o convidamos para gravar uma música. Mas aí passaram alguns meses e decidimos continuar a gravar o disco que já tinha umas três músicas prontas. Foi uns seis meses depois disso que decidimos terminar de gravar o disco, e então contratar um  produtor, daí falamos com Alain Joahnnes", conta.

Considerado pela imprensa lusa como o "menos português" dos álbuns do Dead Combo, Odeon Hotel reflete na verdade, o boom turístico e imobiliário vivido pela capital portuguesa nos últimos anos, com muitos de seus recantos tradicionais vivendo o já conhecido processo de gentrificação.

"Sim, de certa maneira os nossos discos tem acompanhado essa evolução da cidade. E esse também tem um bocadinho dessa atenção. Lisboa tem sido um bocadinho invadida pelo turismo em massa. Daí a piada do Hotel Odeon", conta Pedro.

"O sítio onde as fotos da capa e da divulgação foram tiradas é um antigo cinema em Lisboa que agora vai ser um condomínio de apartamentos de luxo. Então, o disco tem tudo a ver com esse processo de gentrificação, com as mudanças da cidade", acrescenta.

Com essa exposição internacional vitaminada via Sony Music, o duo luso agora espera se tornar mais conhecido mundo afora, incluindo o Brasil. "Esperamos que sim, a aposta é essa, agora vamos ver se conseguimos ganhar a aposta ou não", ri Pedro.

Na verdade, O DC já se apresentou no Brasil, mais precisamente em Recife, em 2011. Agora em 2018 já tem uma volta a Pernambuco garantida, com uma apresentação no festival MIMO, em Olinda.

"Já fomos ao Recife há muito tempo. E vamos no proximo festival MIMO, que agora também existe em Portugal. Mas vamos tocar no original brasileiro", conta.

Outro aceno da banda ao Brasil está em uma das faixas de Odeon Hotel: a melancólica faixa Dear Carmen Miranda – algo irônico, dado que a charmosa Carmen era portuguesa de nascença. "Sim é um aceno ao Brasil e à Carmen Miranda mesmo. É um aperto de mão, digamos, ao Brasil", diz Pedro.

Com a promoção digital – e esta nova vinda – do duo português ao Brasil, um dos efeitos que se espera é também dar a conhecer ao público a brilhante nova geração do pop português, que tem em nomes como Deolinda, Linda Martini e PAUS (assim mesmo, em maiúsculas) uma ponta de iceberg para os interessados vislumbrarem.

"Sim, poderia haver por parte do estado português um incentivo para exportar música que não seja só o fado. Claro que o fado é muito característico e é muito único, mas há muitas outras coisas além do fado que poderiam ser escutadas também, poderia haver um apoio nesse sentido", conclui Pedro.



Abaixo, dicas para conhecer outros nomes do novo pop português 

Linda Martini / Linda Martini (2018, Sony)

Quinto álbum da banda indie lisboeta, uma pancada como não se ouve mais de bandas similares no Brasil. Contemporâneo, combina guitarras pesadas, batidas quebradas e letras melancólicas. Destaque para Boca de Sal, É Só Uma Canção e Caretano.










Madeira / PAUS (2018, Sony)

O quarteto de formação inusitada (dois bateristas que cantam, tecladista e baixista) namora forte com o kraut rock e propôe um som bastante instigante em seu novo álbum grravado na Ilha da Madeira (daí o título). Vale ouvir a faixa-título e L123. Inusitado, vibrante.






Mundo Pequenino / Deolinda (2012, Universal Music)

O grupo mais tradicional dos aqui listados, o Deolinda combina uma forte influência do fado com uma farta dose de ironia, humor e algum romantismo, aliado aos vocais belíssimos de Ana Bacalhau (esse é o nome dela mesmo, sério) e os instrumentais acústicos extremamente sofisticados. Um primor. Ouça agora Musiquinha, Seja Agora, Semáforo da João XXI e Há-De Passar.






terça-feira, junho 05, 2018

CAPÃO, FEIRA E CONQUISTA NA MIRA DA VIOLA

Depois de passar por Cabo Verde, duo Viola de Arame volta a tocar pelo interior

Cássio e Júlio na Vila do Capão, sábado passado (02.06). Foto Flávia Maciel
Artistas solo e também de acompanhamento para diversos outros músicos, Júlio Caldas e Cássio Nobre voltaram a se apresentar em duo com seu projeto Viola de Arame.

Depois de lançar um belíssimo álbum instrumental em 2011 e percorrer diversas cidades, Cássio e Júlio se dedicaram mais às carreiras solo, além de garantir o pão em outras atividades.

Mais recentemente, estiveram na ilha de  Cabo Verde (na costa atlântica da África), participando Atlantic Music Expo 2018, evento que reúne produtores e artistas da África, Europa e Américas.

Daí essa nova série de apresentações pelo interior da Bahia, passando pela Vila do Capão (sexta-feira última), Vitória da Conquista (quinta-feira) e Feira de Santana (dia 15).

“A série de shows faz parte da contrapartida para o  Fundo de Cultura da Bahia (FCBA) pelo apoio recebido para participação na Atlantic Music Expo 2018”, conta Júlio.

“Durante essas apresentações, realizamos rodas de conversas sobre as ações de empreendedorismo voltadas para a difusão da música instrumental”, acrescenta.

Nas apresentações, Cássio e Júlio voltam ao formato duo, sem acompanhamento de baixo e percussão. “Tem músicas novas e músicas do disco Viola de Arame, lançado em 2011. O repertório retoma o formato duo acústico que inclui desde Jacob do bandolim até Beatles”, conta Cássio.

Para Salvador, por enquanto, não há previsão de shows.

“Estamos com esses shows programados e tentando articular apresentações em Salvador e na região metropolitana. Estamos abertos a convites”, afirma Júlio.

Mas quem curte o som bonitão do Viola não perde por esperar. “Estamos no momento compondo e estudando formas de angariar recursos para produção do novo álbum”, anuncia Cássio.

Viola de Arame, foto Maíra do Amaral
Priorizando o interior

Projeto à base da viola de arame, uma das muitas variações brasileiras do instrumento medieval português, o duo pratica um som majestoso, que investiga a tradição nordestina  e suas origens europeias.

Com centenas de apresentações realizadas desde seu início em 2008, o Viola de Arame sofre com as duras condições de trabalho que costumam encontrar em Salvador.

“Começamos a priorizar shows fora de Salvador porque percebemos que é difícil tocar na capital devido as condições ruins que são colocadas para o artistas realizarem seu trabalho e o público que não comparece, se compararmos com outros locais”, conclui Cássio.

Shows Viola de Arame: Quinta-feira, 21 horas: Café Society (Vitória da Conquista) / Dia 15,  21 horas: Cúpula do Som (Feira de Santana)



NUETAS

Skanibais e Tonha

Quinta-feira (dia 7) tem Skanibais e Forró Zé de Tonha no Velho Espanha (Barris). 19 horas, pague quanto puder.

Danilo faz Cazuza 2

O cantor Danilo Medauar volta a apresentar seu show  Todo Músculo que Sente, um tributo ao Cazuza.  Elaborado, o espetáculo tem direção de Lelo Filho  (Cia. Baiana de Patifaria), que trouxe sua equipe para  trabalhar na cenografia e iluminação. Quinta-feira,  20 horas, Teatro Módulo, R$ 60 e R$ 30. Doe dois quilos de alimentos e pague R$ 35.

Água Suja sábado

A incansável banda Água Suja faz jam session de blues com os convidados Lacerda (ex-Talkin’ Blues) e Celso Dutra. Sábado, 22 horas, na Varanda do SESI. R$ 30 (só em espécie).

Siege of Hate na Bahia

A banda cearense de metal extremo se apresenta sábado em Salvador com Aphorism, Deformity BR e Antiprofeta. No Club Bahnhof (Rua Guedes Cabral, 20, Rio Vermelho), R$ 25.

quarta-feira, maio 30, 2018

ALIENS VISITARAM A TERRA E NEM TCHUNS PRA NÓIS

Clássico da FC soviética, Piquenique na Estrada traz conceitos muito originais, mas patina em uma narrativa arrastada

Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979
Um dos temas mais caros à ficção científica, a visita de seres de outro planeta à Terra já rendeu zilhões de histórias.

Poucas porém, tão originais quanto Piquenique na Estrada, um clássico da FC soviética.

Lançado em 1972, Piquenique foi escrito pelos irmãos Boris (1933 - 2012) e Arkádi Strugátski (1925 - 1991). Em 1979 o livro foi adaptado ao cinema pelo diretor Andrei Tarkovsky, que o converteu em outra de suas explorações psicológicas em câmera lenta e ares cult, o premiado  Stalker (1979).

Voltando ao livro, sua originalidade reside não na forma como é escrito – uma forma quase ortodoxa, na verdade – mas na abordagem do tema dos visitantes aliens.

Tudo se desenvolve na fictícia cidade canadense  de Harmont, em cujos arredores os alienígenas pousaram e, depois de algum tempo, simplesmente foram embora.

Não houve comunicação – ou tentativa de – dos ETs para com a humanidade. A área que os visitantes ocuparam e, depois de algum tempo, abandonaram, logo foi isolada pelas autoridades, já que lá foram deixados objetos, radiações e substâncias completamente desconhecidas – muitas tóxicas – para humanos.

30 anos depois, ninguém sabe ainda quem eram os aliens, de onde vieram, para onde foram ou que fizeram.

A chamada “zona de visitação” – uma das seis que receberam aliens simultaneamente na Terra – ainda está isolada e somente alguns aventureiros destemidos (ou malucos mesmo) se arriscam a entrar lá.

Conhecidos como stalkers, esses soldados da fortuna penetram na zona em busca dos tais  objetos e substâncias deixados  pelos aliens, alguns deles extremamente valiosos.

Estudados pelos cientistas, algumas tecnologias aliens já são utilizadas como fontes de energia. Outras permanecem uma incógnita.

Nesse cenário, a narrativa acompanha um stalker, Reddrick Schuhart, em suas idas e vindas à zona ao longo de alguns anos, bem como as implicações políticas e econômicas em Harmont, a vida dura dos stalkers e as consequências para a saúde do contato direto com as bugingangas aliens.

Stalker, 1979
Previsão de Chernobyl

Até aí, uma premissa e tanto para qualquer obra. Pena que a narrativa, apesar de recheada de conceitos tão interessantes, seja tão arrastada.

A ideia de que os aliens, aparentemente, não tinham qualquer interesse nos terráqueos e simplesmente fizeram uma parada no meio da viagem – daí o título do livro – é muito instigante e nos confronta com a insignificância da humanidade perante o universo.

O conceito da zona de visitação é também uma baita metáfora, pronta para múltiplas interpretações – além de soar muito como uma previsão da tragédia soviética que foi o desastre de Chernobyl, ocorrido meros 14 anos depois do lançamento do livro.

Ainda assim, os irmãos Strugátski pareceram patinar em uma narrativa desfocada, mais preocupada em desvendar o dia a dia mais ou menos banal de Schuhart – sua filha pequena sofreu deformações horríveis pela radiação alien – do que em enfiar o pé na lama negra – substância alienígena, capaz de transformar ossos humanos em macarrão.


Há de fato sequências muito boas, mas chegar  lá vai exigir certo esforço do leitor.

Em tempo: a edição primorosa da Aleph traz um prefácio da cultuada escritora Ursula K. Le Guin (A Mão Direita da Escuridão) e posfácio do próprio Boris Strugátski, no qual narra as dificuldades de se escrever e publicar um romance tão simbólico nos tempos do totalitarismo soviético.

Piquenique na estrada / Boris e Arkádi Strugátski / Aleph/ Trad.: Isadora Prospero e Tatiana Larkina/  320 p./ R$ 59,90


terça-feira, maio 29, 2018

CONCORRENTES DA PESADA

Concurso de bandas de heavy metal Maniac Metal Fight começa domingo no Groove

Rapaziada jovem e cheia de estilo da Graveren, foto Victor Casarão
Além de uma cena vasta e diversa, o heavy metal na Bahia tem um público de nicho dos mais fieis.

Igualmente fieis são os empresários João Carlos Maniac da Guia e Alexandre Afonso.

O primeiro já produziu inúmeros shows, além de ter mantido a loja Maniac por muitos anos.

E Alexandre é o homem da rádio on line Rock Freeday, além de também trabalhar na produção de shows.

Agora, eles trazem de volta o concurso  Maniac Metal Fight, que terá quatro seletivas com três bandas cada e começa domingo, no Groove Bar.

A vencedora será premiada com a gravação de duas faixas em estúdio profissional.

“Em acordo com as bandas, substituímos os prêmios de segundo e terceiro lugares por ajuda de custo para as bandas. Achei bem legal, sensato e democrático”, afirma João.

Domingo, na primeira seletiva, se apresentam as bandas Graveren (de black metal), Cães (sludge/doom) e Awaking (thrash / prog).

As próximas seletivas ocorrem nos dias 10 de junho (com Electric Poison), Honra e Jigsaw), 1º de julho (Evening Star, Snake of Death e Blessed in Fire) e 15 de julho (Severed Spirit, Eminent Scorn e Old Chaos).

“O evento contempla vários sub estilos do metal: black, death, sludge, doom, heavy metal, prog metal, thrash etc”, enumera João.

Galera da Awaking, mandando bem no quesito simpatia. Foto divulgação
“A importância maior é o aquecimento da cena, tanto para o público, como para as bandas e mídias especializadas –  para quem vive o estilo e vive do gênero. Oportunidade para algumas bandas tocarem em uma estrutura profissional e mostrarem de verdade seu trabalho, revelar novos expoentes e formar  público”, detalha o produtor.

“Dou dez paus!”

Para o júri, um time de veteranos de absoluta responsa: Lord Vlad (Malefactor), Fábio Gouveia (Veuliah) e Leonardo Leão (Drearylands).

A seleção das bandas inscritas foi feita pelo próprio João.

“As inscrições foram via Facebook e fiz a seleção com base em critérios de qualidade do trabalho. Não me ative a tempo de estrada nem sub-estilos”, diz.

Nos eventos haverá sorteio de brindes e exposição de fotos da cena. “Teremos um espaço onde as pessoas poderão dar sua opinião sobre a cena, bandas e  evento. Tudo será filmado e postado nas mídias sociais do MMF”, conclui.

Maniac Metal Fight – 4º edição / 1ª seletiva com Awaking, Cães e Graveren / Domingo, 19 horas / Groove Bar / R$ 15 (1º Lote), R$ 20 (Sympla) e R$ 25

NUETAS

Igor Gnomo, Coutto

A caminho da Argentina, onde farão dez shows em três cidades, o Igor Gnomo Group (Paulo Afonso) se apresenta com os sergipanos da  Coutto Orchestra no Teatro Sesi Rio Vermelho. Quinta-feira, 20 horas, R$ 20 e R$ 10.

Jazz na Av. vezes 2

Muita graça e alegria no Música de Quinta. Foto divulgação
Evento semanal adotado pelo público, o Jazz na Avenida faz duas sessions  nesta semana para comemorar sua formalização como associação cultural. Mais sobre isso em breve. Quinta tem a cantora Claudia Garcia e Banda BB-Blues. Sexta, Laurent Rivemales Trio e grande jam session. 18 horas, entrada gratuita

Música e teatro

A Outra Companhia promove mais uma edição do Música de Quinta neste sábado. No repertório, sucessos populares com direito a performances teatrais e poesia. Sábado, 15 horas, no Calçadão do Politeama (Rua Politeama de Cima). Pague quanto puder.

segunda-feira, maio 28, 2018

SINAIS DO SOM

Paralamas do Sucesso traz show do novo álbum Sinais do Sim à Concha Acústica do TCA neste domingo. Bi Ribeiro fala sobre a apresentação e a influência da Bahia nos anos 1980

Herbert, Bi e Barone, não necessariamente nesta ordem. Ft Maurício Valladares
Um feliz caso de talento, longevidade e preferência popular, o Paralamas do Sucesso chega aos 36 anos de atividade absolutamente consolidado como uma das principais bandas do rock brasileiro.

Amanhã, eles se reencontram com o público soteropolitano na Concha Acústica, trazendo à cidade o show do seu mais recente álbum, Sinais do Sim.

Ontem eles já se reencontraram com os baianos ao se apresentar no Ária Hal, em Feira de Santana. "Sim, faz um bom tempo que não tocamos em Feira", admitiu o baixista Bi Ribeiro por telefone na quinta-feira (24), um dia antes de embarcar para a Bahia com Herbert e Barone. 

"Já tocamos muito no antigo (Clube de Campo) Cajueiro. A gente faz o Brasil todo, um monte de cidades no interior. Não tem tempo ruim pra gente, não. Não tem lugar que não vamos", afirma, animado.

Outro fator de animação é o próprio palco onde se dará o show, o solo sagrado da Concha Acústica do TCA, nacionalmente reconhecido como um dos melhores locais para apresentações de música popular.

"Ah sim, a Concha é um dos palcos mais amados do Brasil, sem dúvida. E a gente etm orgulho de ter uma história grande nesse palco, desde os anos 1980", disse o baixista.

Nesta turnê, como é natural quando se lança um álbum novo, o repertório misturará sucessos e músicas de Sinais do Sim, além de algumas surpresas. "É o show do Sinais do Sim, o lançamento do disco mesmo. A gente encerrou no ano passado o show dos 30 anos, que a gente levou 4 anos fazendo, só com hits", lembra.

"Então este ano vamos fazer um repertório de show que conversa bem com o repertório do disco do novo, incluindo algumas músicas antigas que nao tocávamos há um tempão, outras que nunca tínhamos tocado ao vivo e claro, alguns sucessos que são inescapáveis. O show está bem redondo, azeitado, sem arestas, muito gostoso de tocar e divertido para o público também", detalha Bi.

RUPTURA

Barone, Bi e Herbert. Nesta ordem. Foto Maurício Valladares
Um fato pouco lembrado – e que coloca o Paralamas acima de boa parte de seus colegas de geração – é que foi o trio que, em 1986, em pleno auge midiático do rock brasileiro, promoveu uma pequena grande revolução com seu álbum Selvagem?, no qual assumiu uma estética tropical brasileira.

Neste álbum, o trio aprofundou suas influências jamaicanas – já presentes desde o primeiro disco via The Police, a quem eram acusados de copiar nos dois primeiros discos –, além de incorporar batidas brasileiras, a guitarrada paraense e o hi life (estilo africano), entre outros.

O que menos gente ainda se lembra - ou sabe - é que uma parte dessa nova inspiração veio da temporada que Herbert, Bi e Barone passaram em Salvador no verão de 1985 – justamente aquele fatídico verão, ano zero da axé music – logo após o show do trio no primeiro Rock in Rio.

"(Essa influência baiana) Foi subliminar. O Selvagem? não tem nenhuma música assim, baiana. Mas depois do Rock in Rio nós passamos o Carnaval aí em Salvador. Eu nunca tinha ido e fiquei fascinado com os blocos afro, com a coisa crua da percussão e voz", lembra Bi.

"Ficamos malucos com aquilo tudo que gente via. Aí começamos a fazer associações, a coisa da região Norte, a coisa da África, o reagae, o xaxado, o baião. Aí quando vimos o Olodum, lascou. A África é aqui agora. Não tem nada igual no mundo. Ficamos loucos e começamos a frequentar os ensaios", relata.

Essa postura ia na contramão de 99% das bandas de sucesso de então, que se limitavam a reproduzir a sonoridade e a estética do pós-punk inglês, então a última bolacha do pacote do rock.

"Pois é, tinha essa tendência forte do pós-punk na época. E a gente veio com uma coisaa mais tropical, mais pro reggae, mais pra África. A gente se sentiu ali (na Bahia) olhando para uma coisa viva. Inclusive, esse ano a gente foi na Virada Cultural assistir o Olodum", conta.

Paralamas do Sucesso: Sinais do Sim / Abertura: Nobad / Amanhã, 19 horas / Concha Acústica do TCA / R$ 80 e R$ 40 / Camarote: R$ 160 e R$ 80 / Vendas: Bilheterias TCA, SACs shoppings Barra e Bela Vista e www.ingressorapido.com.br

quinta-feira, maio 24, 2018

VIGIANDO AS MARÉS

Baluarte da música pernambucana contemporânea, a banda Eddie chega ao sétimo álbum, Mundo Engano, fiel ao próprio imaginário, mas aberta à parcerias 

Eddie, prenunciando tempestades. Fotos Beto Figueroa
Banda muito querida do público local, que costuma lotar seus shows em Salvador, a Eddie lançou há poucos dias um novo álbum – o sétimo da carreira –, Mundo Engano.

Produzido pelo chapa de cena pernambucana  Pupillo (baterista da Nação Zumbi e requisitado produtor), Mundo Engano traz um Eddie menos soturno do que no álbum anterior, Morte e Vida (2015).

Ainda assim, aqui e ali há ecos (mesmo que sutis) do conturbado momento sócio-político-econômico por que passa o Brasil, tendo sempre o mar e suas marés como reflexo e metáfora.

A começar pela primeira faixa, A Correnteza. Em levada intimista,  a voz grave de Fábio Trummer anuncia tempestades no horizonte – imagem condizente com a própria capa do álbum, de Helder Santos.

“As ondas quebram em volta / Explodirão / Os ventos castigantes / Vão, vem e vão / A noite é fria e longa / Desolação / A luz é pouca e cinza / Preste atenção”, canta Fábio, quase declamando.

A impressão se desvanece aos poucos a partir da segunda faixa, O Mar Apaga, um samba surf carregado de reminiscências de antigos amores na praia e no carnaval de Olinda.

No frigir dos ovos, mais um belo álbum de uma banda de identidade muito forte – e fiel à si própria.

“Adorei o resultado final”, afirma Fábio, por telefone. “Pupillo, além de amigo pessoal da banda, conhece muito  bem nosso trabalho. Há muito tempo que ele comentava que queria produzir um disco nosso. Foi sensacional”, conta.

“O mais bacana foi perceber que o que gente tinha de ideia musical, que nós mesmos não conseguíamos verbalizar, ele conseguia sentir, tamanha sua sensibilidade. Ele capta tudo. É um maestro de ritmos, uma área que gente gosta de testar coisas novas”, relata Fábio.

Eddie vigia. Foto Beto Figueroa
Iemanjá, Martin, Salvador

Financiado por uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo (que demonstra o prestígio da banda entre seu público), Mundo Engano também traz uma série de convidados até então inéditos em álbuns da banda, como o guitarrista baiano Martin Mendonça (Pitty), o violonista virtuose Guri Assis Brasil e o escritor Marcelino Freire, autor do pema-protesto Para Iemanjá, convertido em canção.

Vale citar: “Minha Rainha/ Não fui eu quem jogou ao mar essas garrafas de Coca/ As flores de bosta / Não mijei na tua praia / Juro que não fui eu”.

“Martin foi sugestão de Pupillo. Eu já o conhecia, aí eu disse: ‘perfeito, ele tem a técnica do violão de  cordas de aço e slide perfeitas. Eu até podia tocar, mas ele é tecnicamente apurado. Buscamos esse tipo de solução neste álbum, trazer um nivel técnico de pessoas que tocam seus instrumentos muito bem”, conta Fábio.

Lançado o álbum, Fábio,  Alexandre Urêa (percussão & voz), Andret Oliveira (trompete, teclados & samplers), Rob Meira (baixo) e Kiko Meira (bateria) começam a fazer os shows de lançamento pelo Brasil, começando por  São Paulo, amanhã e sexta-feira, no Sesc Pompeia.


Os fãs baianos, infelizmente, ainda terão de esperar um pouco para conferir o novo show do Eddie: “Estamos conversando com um festival para setembro. Existe a intenção deles e nossa, mas ainda é cedo para bater o martelo”, conta.

“A gente busca ir sempre à Salvador por que acreditamos que é a cidade que melhor nos entende,  tanto quando Recife ou Olinda”, conclui Fábio.

Eddie / Mundo Engano / Independente / Nas plataformas digitais


terça-feira, maio 22, 2018

SOMBRAS E LUZES DE UM SÁBADO À TARDINHA

Declinium, banda do melhor vocalista do rock baiano, faz show sábado com PdM e Jato Invisível

Oreah (centro) e a Declinium na foto de Faustino Menezes
OK, o colunista agora pede licença e avisa: às favas com a imparcialidade jornalística.

Uma das bandas locais preferidas desta coluna está de volta à cena com material inédito e show.

A Declinium, banda de Camaçari que é praticamente um Joy Division baiano, lança neste sábado, com um show no Estúdio Casarão, Sombras e Luzes, seu novo álbum.

Ou quase novo. Consta que as cinco faixas de Sombras e Luzes foram registradas há mais de dez anos, mas só agora elas viram a luz do dia.

“Tem um montão de histórias a respeito desse disco, mas a real é que a gente tinha essas músicas guardadas há um tempão e não sabíamos o que fazer com elas”, conta Oreah, vocalista e baixista.

“Então, como não conseguimos lançar um disco novo esse ano a trinca de selos (Brechó, BigBross, São Rock) resolveu lançar. Foi uma ideia do Wilson (Santana), dono da Brechó Discos”, acrescenta.

Dono da voz mais bonita e impressionante do rock baiano, Oreah – codinome de Erivaldo Reis – revela que, por incrível que pareça, ele nunca fez aula de canto:

“Não man, na real eu nunca pensei em cantar numa banda, saca? Queria ficar no meu canto, tocando meu baixo e bebendo cerveja, mas como nunca conseguimos um vocalista, eu comecei a cantar”, conta.

“Pra mim foi um lance natural. Antes da banda eu não cantava nem no banheiro. Vou aprendendo um pouco a cada dia. Tem uma galera aê que acha que eu levo jeito”, diz.

Calejados e com fome de bola

Fundada no ano 2000 em Dias D’Ávila mas baseada em Camaçari, a Declinium segue em plena atividade.

“Cara, a gente nunca para. Em 2017 um dos guitarristas resolveu sair, aí entraram Everton Mendonça na guitarra e Tiago Matos nos teclados. Começamos a ensaiar e compor as músicas pro próximo disco, mas banda independente você sabe como é. Já temos o próximo disco pronto, só falta grana pra gravar, se a gente pudesse já tinha saído”, conta.

“Dar tempo é um lance que não existe pra gente. Quanto a shows, estamos sempre fazendo, A Declinium toca pelo menos uma vez por mês até outubro”, acrescenta.

Além de Oreah, Everton e Tiago, a Declinium conta com Ericson França (bateria) e Leandro Rodrigues (guitarra).

“Sábado vai ser o nosso segundo show em Salvador com essa formação. Vamos tocar algumas canções com os amigos da Jato Invisível e Pastel de Miolos. Todo mundo calejado  mas com fome de bola”, conclui.

Pastel de Miolos, Declinium e Jato Invisível / Sábado, 16 horas / Estúdio Casarão (Center Condomínio Pedras do Vale, Bonocô) / R$ 15



NUETAS

Show de Calouros

Notas cinematográficas na coluna de hoje. Atenção para o curta-metragem Show de Calouros, que conta com nosso querido Rodrigo Sputter Chagas (The Honkers) no elenco e tem canções de Glauber Guimarães. Direção de Diego Haase e Rodrigo Araújo. Assista sexta-feira, 19 horas, na Sala de Arte Ufba. Gratuito.

Miles, Jonas, Marcelo e o circo

Sábado, dia 26, o gênio do jazz Miles Davis faria 92 anos. Para comemorar, o Cidade Picolino promove a Balada CineCirco. Às 18 horas tem exibição de documentário sobre Miles. Às 19, exibição do filme baiano Jonas e o Circo sem Lona, seguido de bate-papo. E 21 horas, show do Marcelo Brasil Quinteto em Tributo a Miles Davis. Tudo lá no Circo Picolino, em atividade de atividade de extensão da Universidade Livre do Circo. A contribuição é espontânea.