sábado, dezembro 29, 2018

A IGNORÂNCIA QUE NUNCA FOI BÊNÇÃO E SEU REVERSO

Em Flores para Algernon, Charlie vai da burrice ao QI elevado em questão de dias, mas há coisas que ele nunca entenderá

Cliff Robertson: Oscar pela atuação em Os Dois Mundos de Charly (1968)
Um ditado comum da lingua inglesa nos diz que “ignorance is bliss”: a ignorância é uma bênção, em tradução livre. Flores para Algernon, livro do norte-americano Daniel Keyes (1927-2014), primeiro confirma, depois refuta o dizer.

Lançado em 1966, Flores... é um clássico contemporâneo nos EUA: vendeu cinco milhões de exemplares e até hoje é estudado nas escolas.

Dois anos depois de chegar às livrarias, foi adaptado ao cinema, no filme Os Dois Mundos de Charly (Charly), que rendeu um Oscar de Melhor Ator para o esquecido Cliff Robertson no papel-título.

Na trama, acompanhamos a trajetória de Charlie Gordon, um homem de 32 anos com a inteligência (e a mentalidade) de um garoto de seis.

Selecionado para servir de cobaia em um revolucionário tratamento que promete transforma-lo em um gênio com QI de 130, o próprio Charlie é o narrador de sua história, a partir dos relatórios que os cientistas lhe pedem para redigir, descrevendo seu dia a dia a fim de avaliar seu avanço.

A evolução na escrita do personagem é um dos atrativos do livro. De início, tudo é mal-escrito, com muitos erros de ortografia, concordância e sintaxe.

À medida que o tratamento vai fazendo efeito, seus textos ganham não apenas exatidão técnica, mas também profundidade, muitos questionamentos e – ainda mais – infelicidade.

E aí entra a confirmação do ditado do primeiro parágrafo.

À medida que vai ganhando poder mental, o cérebro de Charlie começa a desenterrar, do fundo de sua memória, todas as lembranças de uma infância e adolescência infelizes.

Menino, Charlie era desprezado pelos pais. Após o nascimento de uma irmã caçula, foi entregue por eles para viver só em um abrigo.

Essas lembranças, aliadas à frustração que sente ao não ser correspondido em seu interesse amoroso e ao fato de ser tratado como um rato de laboratório pelos cientistas, vão tornando Charlie um sujeito cada vez mais angustiado e problemático.

A ignorância, de fato, era uma bênção para o pobre Charlie. Felizmente, porém, o livro de Daniel Keyes está longe de ser um elogio à ignorância e à burrice.

Com Claire Bloom como a Dra. Alice Kinian
Obra humanista

Com a inteligência aguçada e o conhecimento que vai adquirindo, Charlie ganha algo além da angústia de se deparar com certas verdades inconvenientes: a consciência de si, do outro e da sociedade que o cerca.

Em um dos momentos mais pungentes do livro, Charlie fica enfurecido em um restaurante, ao perceber que alguns clientes caçoavam de um servente que parecia sofrer do mesmo problema que ele.

“Que estranho é o fato de pessoas de sensibilidade e sentimentos honestos, que não tirariam vantagem de um homem que nasceu sem pernas ou braços ou olhos, não verem problema em maltratar um homem com pouca inteligência”, observa, em seu relatório.

Delicado, o livro de Daniel Keyes nos lembra da responsabilidade que a inteligência traz: cabe aos que tem consciência iluminar os que não tem, cabe aos fortes proteger e zelar  pelos fracos.


Profundamente humanista, Flores Para Algernon é uma obra atemporal, que discute diversos temas sociais pela ótica ora inculta, ora culta de seu personagem principal, alguém que quanto mais sabe, menos se satisfaz com respostas fáceis.

Alguém complexo como qualquer ser vivente, seja dotado de pouca, muita ou nenhuma inteligência. Todos dignos de viver plenamente.

Flores para Algernon / Daniel Keyes / Aleph / Tradução: Luisa Geisler /  288 páginas/ R$ 59,90/ www.editoraaleph.com.br


quarta-feira, dezembro 26, 2018

MESTRES DA NARRATIVA

Edições de luxo em P&B resgatam trabalhos esquecidos de dois grandes artistas das histórias em quadrinhos: Bernie Krigstein e Mike Mignola

Drácula, de Mike Mignola
Como se sabe, vida de artista não é fácil. Muitos só são reconhecidos e valorizados após a morte. Van Gogh é o caso mais famoso, mas Franz Kafka, Edgar Allan Poe, Claude Monet e Lima Barreto (entre muitos outros) também só atingiram a fama depois de mortos.

Nas HQs, o caso mais famoso talvez seja o de Bernie Krigstein. Já Mike Mignola, que está bem vivo, deu sorte: é reconhecido e festejado no mundo todo.

Mas Krigstein e Mignola tem um ponto em comum: ambos são mestres.

Não o fossem, edições de luxo como as de  O Perfeito Estranho (de Krigstein, pela editora Mino) e Drácula (de Mignola, pela Veneta) não seriam lançadas com tamanho cuidado e capricho editorial.

Natural do Brooklyn, Nova York, Bernard Krigstein  (1919 - 1990) tinha em si a marca dos grandes artistas: não se satisfazia com pouco.

“Esticava a corda”, como se diz, até conseguir o resultado que entendia ser o mais satisfatório.

Além da corda, Krigstein é mais conhecido por esticar outra coisa nos quadrinhos: o tempo. Artista plástico de formação acadêmica, o jovem Bernie queria mesmo era ser pintor.

Como nos Estados Unidos pós-crash da Bolsa isso estava  fora do seu alcance, começou a trabalhar desenhando histórias em quadrinhos.

Uma das HQs de Bernie Krigstein na edição da Veneta
Com sua formação sólida e talento natural, Krigstein começou a perceber que a linguagem dos quadrinhos, na época, ainda poderia ser melhor desenvolvida e se tornar uma forma de arte respeitável, e não apenas um passatempo ligeiro e descartável para crianças e pessoas de pouca educação, como era visto então.

Suas HQs, aos poucos, começam a ganhar certa sofisticação visual e formal, com desenhos classudos e diagramação de páginas insólitas.

Não que ele fosse o único: nomes como Winsor McCay (Little Nemo), Alex Raymond (Flash Gordon) e Will Eisner (The Spirit) já exploravam as infinitas possibilidades da narrativa sequencial antes de Krigstein.

O fato é que Krigstein, durante os anos da década de 1950 em que trabalhou na editora EC Comics, esteve na vanguarda da modernização da linguagem das histórias em quadrinhos.

O auge de sua produção é o conto Raça Superior, apontada por muitos críticos ainda hoje como a mais importante HQ já publicada.

E aí chegamos ao ponto em que Krigstein “esticou o tempo”. Cinematográfica, Raça Superior inaugurou um novo padrão de narrativa ao “descomprimir” a ação dos personagens em uma HQ.

A página de HQ mais estudada de todos os tempos
O exemplo mais perfeito disso está justamente na última página (vista ao lado colorida, pescada de uma edição americana).

Nela, vemos um personagem correndo passo após passo e caindo na linha do trem, o efeito do trem em movimento diante do personagem  parado na estação e depois ele lentamente se virando para ir embora.

Antes de Raça Superior, esse tipo de “decupagem” cinematográfica de uma cena simplesmente não existia.

“O que é fascinante é o que acontece entre um quadrinho e outro. [...] Olhe para toda aquela ação dramática que ninguém tem a chance de ver. É entre esses quadrinhos que a coisa realmente acontece. E, a menos que o artista possa mergulhar nisso, a forma permanece infantilizada”, disse Krigstein em uma entrevista citada pelo jornalista Rogério de Campos em sua introdução.

Não a toa, Krigstein é apontado por nove entre dez quadrinistas de ponta como influência direta.

Pode por aí na conta gente do naipe de Art Spiegelman (Maus), Chris Ware (Jimmy Corrigan, O Menino Mais Esperto do Mundo) e Daniel Clowes (Ghost World).

Frank Miller (do clássico Batman: O Cavaleiro das Trevas, entre outros) diz que o copiou, mesmo, na cara dura.

Estupenda, a edição da Veneta traz dezenas de HQs da fase áurea de Krigstein, (incluindo Raça Superior) e diversos textos sobre o artista, sua obra e sua época, incluindo um de seu biógrafo, Greg Sadowski, detalhando HQ por HQ.

Jogos de luz e sombras

Drácula, de Mike Mignola
Já Drácula, de Mike Mignola, é outro caso muito interessante.

Badaladíssimo entre os fãs (e na indústria das HQs) desde fins dos anos 1980, Mignola estourou mesmo ao criar o personagem Hellboy, lançado pela editora Dark Horse em 1994.

Sucesso estrondoso, o personagem já estrelou dois filmes longa-metragem dirigidos por Guillermo Del Toro e tem um terceiro prestes a chegar às telas em 2019.

Mas sua versão de Drácula, na verdade, surgiu antes disso, em 1992. Trata-se de uma adaptação em HQ do filme dirigido por Francis Ford Coppola, que foi um estouro de bilheteria naquele ano.

Esquecida, a HQ de Mignola ficou fora de circulação por vinte tantos anos – apesar do culto dos fãs do artista em torno da obra –, e só voltou em nova edição agora, em 2018.

Esplendorosa, a HQ, com roteiro do veteraníssimo Roy Thomas (o mais aplicado discípulo de Stan Lee), traz em si todas as qualidades que fizeram de Mignola um astro: os jogos de luz, o clima sombrio, o detalhamento de cenários, figurinos e as tomadas de ângulos insólitos.

Milhares de vezes adaptadas em todas as mídias possíveis, a obra de Bram Stoker tem nesta HQ e no filme que a originou uma de suas visões mais originais e emocionantes.

Com a arte de Mignola preservada em glorioso P&B, tem fôlego para seguir século 21 adentro como o clássico imortal que sempre foi.

O Perfeito Estranho / Bernie Krigstein / Veneta / Tradução: Dandara Palankof / 262 p. / R$ 94,90

Drácula / Bram Stoker, Roy Thomas, Mike Mignola, John Nyberg / Mino/ Tradução: Dandara Palankof/ 136 p./ R$ 84,90

sábado, dezembro 22, 2018

JINGOBÉU ROCK

Vivendo do Ócio e Canto dos Malditos na Terra do Nunca se juntam a cearense  Selvagens à Procura de Lei no Natal Inspire Music. É amanhã, no Largo Teresa Batista

Selvagens a Procura de Lei, foto Dario Matos
Entra ano, sai ano e o rock – no mundo, no Brasil, na Bahia – é como o samba: agoniza, mas não morre (grato, Nelson Sargento).

Multigeracional, desterritorializado, metamórfico,  poliglota, ideológico de origem: eis a fórmula da imortalidade do gênero jovem pai de todos –  todos – os outros.

Cabe, portanto, uma celebração à eterna juventude com três grandes bandas atuais, amanhã, no Pelourinho.

As baianas Vivendo do Ócio e Canto dos Malditos na Terra do Nunca se juntam à cearense Selvagens à Procura de Lei para fechar o ano roqueiro no evento Natal Inspire Music.

Também merece um brinde neste fim de ano a própria Inspire Music, produtora da dupla Érica Saraiva e Valdir Andrade, que se especializou em shows de artistas independentes: novos, veteranos, do rock, da MPB, do afrobeat etc.

Do consagrado Lazzo à rapaziada novinha da banda paranense Tuyo, passando por Ronei Jorge, Duda Beat, IFÁ, Liniker e outros, a Inspire tem realmente oferecido novas inspirações ao público local mais atento à música do que aos hypes da vida em projetos como a série Toca! (sempre no Goethe-Institut) e shows como o de amanhã no Pelô.

“A mesmice nos incomoda. Queremos provar que Salvador não se limita a rótulos, porque queremos opções na nossa cidade, e porque, assim, nos diferenciamos”, diz Érica.

“Já que não nos encaixamos nem no perfil megalomaníaco de inflacionar o mercado, nem no perfil daqueles que se concentram em editais, usar a criatividade e se utilizar de nossas redes de relacionamento para viabilizar projetos acabou como uma maneira de sobreviver”, acrescenta.

Engatados numa quinta, Valdir e Érica já fecharam uma programação para o verão, com Lazzo (dia 19) e IFÁ convida Anelis Assumpção (dia 8 de fevereiro, ambos  no Goethe).

Haverá mais datas, mas ainda estão em negociação.

O que se pode adiantar é que, sim, há planos de festival: “Essa é uma meta a ser concretizada nos próximos dois anos. Com certeza, no primeiro semestre, uma vez que a cidade já está bem atendida por festivais incríveis na segunda metade do ano”, afirma Valdir.

Banda por banda

Vivendo do Ócio, foto Rafael Kent
Negócios, negócios, rock à parte, o fato é que quem comparecer ao Largo Teresa Batista amanhã receberá na caixa dos peitos (há horas em que é melhor ir no popular) uma dose cavalar de rock do bom em três tempos.

Primeiro as visitas: de Fortaleza, a Selvagens à Procura de Lei (ou SAPDL) completa dez anos em 2019 e já lançou três álbuns: o mais recente, Praieiro (2016), foi sucedido por um DVD ao vivo (a ser lançado em janeiro), gravado diante de nada menos que vinte mil pessoas em sua cidade natal.

Brasileiríssimo e nordestino, seu som é acessível e popular no melhor sentido. No show, o quarteto faz uma prévia do que se verá no DVD: “Foi uma experiência nova de concepção do nosso show, montagem de reportório com músicas dos três discos, singles e até releituras de músicas em formato acústico. É esse formato que vamos fazer em Salvador, mais que merecido, pois faz um bom tempo que não passamos na cidade”, conta Caio Evangelista (baixo e vocal).

“Muito bom fazer uma data com os patcharas da Vivendo do Ócio. A gente já dividiu palco em muitas cidades, constantemente nos vemos por aí, mas nunca tivemos o prazer de compartilhar um momento assim em Salvador”, afirma.

Falando na Vivendo, que faz um dos shows mais arrasa-quarteirão do rock brasileiro, o quarteto baiano promete tocar exatamente o que seus fãs querem ouvir: “Abrimos uma enquete no evento do Facebook para nossos fãs dizerem as músicas que querem curtir no dia. Isso ajuda bastante a gente na hora de montar o repertório”, conta Luca Bori (baixo e vocal).

Mas não só: “Estamos gravando nosso quarto álbum, então vai ser bem difícil não tocar uma dessas músicas novas pela primeira vez aqui em Salvador”, avisa.

Canto dos Malditos na Terra do Nunca, foto Rana Tosto
E mesmo com single novo para sair já agora em janeiro, não deve ser difícil topar de novo com os patcharas ainda neste  verão: “Por enquanto nada marcado, mas no verão a gente não consegue ficar parado, né? Então com certeza deve rolar algo mais”, diz.

Last, but not least, a Canto dos Malditos na Terra do Nunca fecha a trinca de shows no Pelourinho com músicas dos seus dois álbuns.

Liderada pela cantora e compositora Andreia Martins, a CMNTN segue trabalhando na divulgação do segundo trabalho, Travessia (2017).

“Queremos tocar mais o disco, circular mais, trabalhar os clipes. Hoje tem esse jeito urgente de ouvir música, mas acho que temos que equilibrar”, reflete Andreia.

“O trabalho de um disco é intenso, é algo trabalhoso, pensado com cuidado. Não dá pra descartar tão rápido. Mas temos planos de lançar singles ano que vem sim”,  conclui.

Natal InsPire Music apresenta: Vivendo do Ócio, Selvagens à Procura de Lei, Canto dos Malditos na Terra do Nunca e DJ Zeca Forehead / Amanhã, 17 horas / Largo Teresa Batista / 1º Lote: R$ 30 (meia esgotada) / 2º Lote: R$ 40 e R$ 20 / Vendas: Sympla  e Lojas Soul Dila

terça-feira, dezembro 18, 2018

DOIS UMBIGOS

Feirense que mora no Rio, Caru lança parceria com Capinam: Umbigo de Vênus

Caru, foto Filipa Aurélio
Caru nem imaginava no que ia dar aquela carona ao poeta, a pedido de sua professora de canto.

“Ana (Paula Albuquerque, a professora) pediu para que eu buscasse ele (José Carlos Capinam) em casa e fôssemos juntos pra Escola (Baiana de Canto Popular). Eu já fiquei nervosa, né? Imagine, Capinan do meu lado ali no carro”, relata a jovem artista.

Depois da palestra do Tropicalista histórico, foram almoçar. Em meio a cafés e haicais, o poeta afirmou ter escrito versos perfeitos para a cantora.

“Levei o poema pra casa, para fazer uma canção. Hoje, estamos aqui, falando sobre essa parceria, que dei o nome Umbigo de Vênus, gravada no Estúdio Marini (RJ) e com um time de primeiríssima”, conta Caru, felicíssima.

Auxiliada por Paulo Mutti (produção, arranjos, guitarras e teclados), Alberto Continentino (baixo), Cesinha (bateria) e Kassin (mixagem), Caru botou Umbigo de Vênus, sua parceria com Capinam,  nas plataformas digitais, onde espera sua apreciação atenta.

Residente no Rio, esta inquieta feirense, arquiteta de formação, tem construído sua carreira à margem de grandes esquemas, mas, como se vê, muito bem assessorada.

Em seus planos não está a gravação de um álbum (“Não conseguimos mais consumir um álbum completo da forma como gostaríamos”, percebe), mas seguirá gravando singles, EPs e clipes.

"Vivemos num ritmo hiper acelerado, pautado em 15 segundos de 'stories' de aplicativos ou de vídeos de 1 minuto de duração. Quando o uso da plataforma streaming de música subiu vertiginosamente entre os usuários, logo logo se tornou o principal referencial de mercado no setor, então escolhi parar um pouco e entender esse novo público e a nova forma de consumir música hoje. A partir dessas reflexões, tracei um plano para investir em singles e trabalhar muito o lado audiovisual e artístico, tudo que complemente o single e ofereça uma experiência, além da esperada. Nesses últimos meses, por exemplo, foquei meus estudos na área de video mapping e design, agregando à minha primeira formação de arquiteta (com vasta experiência em cenografia), com intuito de enriquecer ainda mais a experiência que quero dar a vocês. Podem esperar novidades constantes, sem parar! Já estão no forno o clipe de “Umbigo de Vênus”, dois singles com participações queridas e ainda outro videoclipe", detalha a moça.

Quase morta, muito viva

Caru, foto Filipa Aurélio
Em Salvador para a temporada de verão, Caru por enquanto só tem na agenda uma participação no evento do músico Gabriel Póvoas, o Sarau Som das Sílabas (confira serviço no fim da matéria).

“Cheguei em Salvador com o intuito de gravar e preparar materiais bacanas para  2019. Aliás, estou doida para fazer novas parcerias e já estou paquerando o jeito de produzir do Gabriel”, avisa a moça.

Ultra-espiritualizada em suas reflexões e produções, Caru atribui esta condição à uma experiência de quase morte pela qual passou.

“Aos 17 anos, no dia 17 de dezembro, sofri um acidente de carro bem grave lá em Feira de Santana e quase perdi minha mão direita. Acho que não me dou bem com esse número”, ri.

Caru passou três meses internada em Salvador e foi aí que passou pela EQM.

“Que nada mais é que um estado alternativo de consciência. Sensações inexplicáveis de conforto e paz, análise de vida, luz branca, silhuetas e retorno ao corpo físico. Tudo o que eu disser sobre essa experiência será menor do que foi realmente sentido. É algo além. Contudo, essa experiência me refez como ser humano apenas com 17 anos. O meu processo se iniciou ali e não parou mais. Autoconhecimento, silêncio, respiração, acolhimento, observação e outros exercícios começaram a fazer parte do meu caminho como indivíduo”, detalha.

"As experiências de vida que tive até aqui me fizeram refletir sobre absolutamente tudo. O caminho - acredito - não é negar o mundo materialista que vivemos (invariavelmente), é nadar de forma harmônica sem perder a sanidade e empatia. Logicamente que num mundo “ideal” eu jamais estaria pensando em marketing, produção executiva, assessorias, gráficos, públicos, consumo, etcetera etcetera etcetera, tava só fazendo música e cantando para o vento. Faço isso hoje? LÓGICO, e MUITO (!!!!) Mas não só isso. Preciso compreender o funcionamento deste mundo para saber como faço o uso da minha consciência espiritualizada. O fazer da arte com bases espirituais fortes foi a chave para aprimorar a forma de me comunicar com estes indivíduos tão diferentes - mas tão iguais  - que o formam", prossegue.

"Vamos reaprender a conversar - AO VIVO - com as pessoas, reaprender a paquerar sem o uso de aplicativos. Não sejamos colecionadores infinitos de 'matchs'. Vamos voltar a colecionar afeto? Não queira colocar cada um em uma caixinha. É inútil. Homens, não nos podem. Homens, entendam a nossa luta. Meninas que ainda não entendem, vamos conversar de cabeça aberta sobre feminismo. Nós lutamos também por vocês. Não sejamos radicais. Vamos voltar a nos olhar nos olhos. Vamos usar a tecnologia a favor da saúde comportamental, como verdadeiros transformadores que somos. Não deixe seu amigo isolado em casa, ele pode precisar de você. Ofereça conversa acompanhada de um café e bolo de fubá. Ofereça um abraço sem motivo. Se doe. Pra que esse medo? Pra que esse medo de falar? Pra que esse medo de amar? Seja do jeito que for, seja quem quiser ser. Agora. Ame", conclui.

Sarau Som das Sílabas / Gabriel Povoas com os convidados Caru e Luar Méndez / Dia 26, as 19 Horas /  Pastelaria Flor do Lácio (R. Euler de Pereira Cardoso, Stella Maris) / Acesse: www.caruoficial.com.br



NUETAS

IFÁ Manifesta sexta

A espetacular IFÁ faz seu baile Manifesta sexta-feira no Commons Studio Bar. 22 horas, R$ 15 (Sympla) e R$ 25.

Ian Cardoso no Sesi

O guitar hero Ian Cardoso (Pirombeira) faz seu show solo Reina  no Teatro Sesi. Sexta-feira, 20 horas. R$ 30 e R$ 15.

Ronei com Baile E.N.

Ronei Jorge faz  Sessão Especial no Commons, sábado. 20 horas,  R$ 20. Com o mesmo ingresso, curta o Baile Esquema Novo que é logo depois.

Natal rock ‘n’ roll

Vivendo do Ócio, Canto dos Malditos e Selvagens a Procura de Lei fazem Natal antecipado no Largo Quincas Berro D’Água. Domingo, 17 horas, ingressos no Sympla.

segunda-feira, dezembro 17, 2018

DOMINGO NO TCA: EXCELÊNCIA MUSICAL QUASE DE GRAÇA

Pianista de livre trânsito no cenário erudito internacional, Simone Leitão volta à Bahia para concerto com Orquestra Juvenil

Simone Leitão em pleno ofício e profissão de fé
Apreciadores e amantes de Música – favor manter a caixa alta, revisor – tem um compromisso absolutamente inadiável amanhã: testemunhar mais um encontro da pianista Simone Leitão com a Orquestra Juvenil da Bahia (NEOJIBA), na sessão saideira de 2018 do Domingo no TCA (que custa só R$ 1 a entrada).

As razões já estão claras no enunciado: é música de altíssima qualidade, executada com maestria, quase de graça.

Mineira, Simone vem a Salvador dentro de turnê internacional que já passou por São Paulo, Quito, Curaçao, Miami e Los Angeles, viabilizada pela CCR via Lei Rouanet.

No repertório, a magnífica Rhapsody in Blue, de George Gershwin, que muitos lembram pela abertura do clássico Manhattan (1979), de Woody Allen.



“É um concerto bem eclético. O público vai poder assistir a orquestra só, com coro e com solista (eu). Escolhemos a Rapsódia em Blue  por ser uma obra bem descontraída e acessível, já que o concerto é matutino e de formação de plateia”, conta Simone.

“Essa obra também é uma das minhas favoritas. Ela trata a forma piano e orquestra bem dentro do idioma de jazz e blues. O toque pianístico é diferente, dá para explorar sonoridades que não exploraria por exemplo nos grandes mestres alemães, russos e franceses. A orquestração é excelente, de forma que toda a orquestra poderá ser ouvida, assim como a solista. Não vejo a hora de tocar com eles”, diz.

A relação de Simone com o Programa NEOJIBA não é de hoje. Este é o terceiro concerto que fazem juntos desde 2010.

“O NEOJIBA é uma grande paixão minha. Saber que no Brasil temos um projeto como esse me traz aquele bálsamo de esperança todo dia”, afirma.

“Musicalmente, é sempre uma troca maravilhosa. Esses jovens são muito musicais e bem orientados. Ricardo Castro é uma inspiração para mim desde que era adolescente e ele já ganhava concursos mundo afora. Ou seja, privilégio, muita troca gostosa e alegria enorme”, acrescenta.

O entusiasmo não é a toa. No Rio de Janeiro, ela mantém desde 2012 seu próprio projeto de qualificação de jovens músicos, a Academia Jovem Concertante

 “Queria um espaço de encontro desses jovens, para que o potencial deles fosse trabalhado ao máximo e que o resultado fosse levado para novos públicos. Na primeira edição tivemos dois grandes talentos do NEOJIBA. Um jovem violista extraordinário, fruto do projeto: Laércio Souza e um grande percussionista: Isaac Falcão”, conta.

“Desde então sempre convidamos os jovens do Programa NEOJIBA. Quando vem alguém da Bahia já sabemos que o nível será elevado para o grupo todo”, afirma.

Fora de Bach não há nada

Simone, foto Rodrigo Lopes
Doutora em Piano Performance e Musicologia (University of Miami), Mestre em piano pela Academia de Música da Noruega e Bacharel em Educação Musical pela Uni-Rio, Simone faz na média de 40 apresentações por ano mundo afora.

Em 16 de janeiro, Simone se apresenta mais uma vez no Carnegie Hall (Nova York), uma das casas de show mais tradicionais do planeta. Do TCA um domingo de manhã a night do Carnegie, ela garante apreciar demais as duas ocasiões.

"São momentos diferentes. Carnegie Hall é aquele momento onde o solista é testado na pureza do seu ofício. Eu me preparo como um atleta para uma prova final de olimpíada, para um momento como esse. É gostoso ver o crescimento cada vez que volto lá. Ver que estou conquistando aquele público e me sinto parte daquela atmosfera. Não deixa de ser uma grande conquista para uma pianista brasileira nascida no interior de Minas, como eu. O roteiro dessa turnê foram nove cidades. Tem de tudo. São cinco países representados. Essa turnê só foi possível acontecer através da Lei Rouanet, com o patrocínio e a visão do Instituto CCR. Pude tocar nos Andes, Caribe, Brasil, Califórnia e agora Salvador, Carnegie Hall e Costa Rica. Tocar para novos públicos, tanto os cultivados com a linguagem de concerto ou os novos públicos, é sempre desafiador e rico. Minha habilidade como intérprete é testada aí ao máximo, afinal estou interpretando obras e preciso que o público entenda, seja tocado e se emocione. Por que no fim de tudo, salas tradicionais ou não, público conhecedor ou não, o importante é a comunicação que existe entre o palco e a platéia. O encontro entre as histórias pessoais diversas e a mágica que nos une em nossa condição humana. Essa ponte, a música instrumental clássica faz muito bem! Não existe barreira para a excelência. Quando se toca bem e com propriedade, todo mundo entende e se emociona. É só trabalhar duro e se entregar. A música faz o resto", declara.

Seu último álbum, Bach Piano  Recital (MSR Classics) expôs sua paixão pelo compositor alemão, que fez 333 anos de nascimento em 2018. “Bach é a música pura. Sem ajuda extra. Não é canção, não conta uma história, não descreve, ainda não serve a forma. É um processo. Música pura”, diz.

“Veja o que os grandes disseram dele. Beethoven: 'Bach é o infinito'. Shostakovitch: 'Bach é o maior amigo da humanidade'. Schumann: 'De todas as fontes que me inspiram, a única inesgotável e que nunca me canso de voltar é a música de Bach'. Villa-Lobos: 'O único que me influencia é Bach. Bach é o resultado de tudo o que veio antes dele na evolução da música ocidental, mas também consegue ser o alicerce para tudo que veio depois. Música de concerto, jazz,  rock,  até o pop. Tocar a música dele é um exercício de fé pra mim. Em Bach eu vivo o meu êxtase religioso no palco e fora dele. A música antes de Bach apontava para Bach e a música depois dele, olha de volta para ele. E o mais bacana é que ele viveu e trabalhou duro, cuidou dos filhos, era um cara legal, companheiro. Como um bom protestante, fez tudo para Deus e pela alegria e privilégio de trabalhar. Ele não se preocupou em ser uma estrela. Ele nunca saiu da Alemanha e a música dele é a mais tocada em todo o mundo. Simplesmente uma lição de vida em tudo”, conclui.

Aí conhece.

Domingo no TCA: Simone Leitão e Orquestra Juvenil da Bahia / Amanhã, 11 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / R$ 1

sexta-feira, dezembro 14, 2018

QUATRO MILHÕES DE PLAYS DIGITAIS NÃO PODEM ESTAR ERRADOS: DUDA BEAT É A RAINHA DA SOFRÊNCIA POP

Fenômeno pernambucano, que estreia em Salvador, e baiana Majur encerram hoje no Icba a série de eventos Toca!

Eduarda Bittencourt, AKA Duda Beat, foto Ana Alexandrino
Quem curte uma novidade promissora em música pop tem um bom programa para hoje: a estreia em palcos soteropolitanos da cantora pernambucana Duda Beat.

A apresentação, que ainda conta com abertura da baiana Majur, encerra a primeira temporada do ótimo evento Toca!, que levou aos palcos do Icba - Goethe-Institut e Pelourinho diversos artistas jovens ainda pouco conhecidos do grande público, mas que já contam com muitos fãs angariados via plataformas digitais e redes.

Com mais de 4 milhões de plays do seu álbum Sinto Muito bombando nas plataformas digitais, Duda fecha 2018 surfando na crista de uma onda de sucesso que poderá leva-la ainda mais longe em 2019.

Mais: na última terça-feira (11), ela foi anunciada vencedora do Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) na categoria Revelação (Música Popular).

“Foi uma surpresa, artistas muito talentosos estavam competindo comigo na categoria, e acredito que todos nós somos de fato revelações do ano. Mas fico extremamente honrada em receber esse prêmio”, conta a cantora.

E hoje, ela não apenas pisa pela primeira vez em um palco de Salvador: ela pisa pela primeira vez na própria cidade.

“Tô super feliz. Desde o início da turnê Sinto Muito as pessoas de Salvador pedem pra eu ir tocar aí, e enfim rolou! Nunca fui a Salvador nem pra passear, agora finalmente vou conhecer a cidade que sempre quis ir”, comemora a artista.



Ela vai para as cabeças

Duda, foto Ana Alexandrino
Nascida Eduarda Bittencourt, Duda Beat se inscreve em uma categoria de cantoras brasileiras que aliam certo apelo pop com aclamação crítica, assim como Letrux, Mãeana, Alice Caymmi, Luiza Lian etc.

Contemporâneo, o som de Duda conjuga pop eletrônico, tecnobrega e dub com letras de pura dor de amor cantadas sem meias palavras e em indisfarçável sotaque recifense.

O resultado é uma dualidade estética cosmopolita / provinciana muito interessante.

“A estética (da sonoridade do álbum) foi meio a meio. Eu trouxe algumas referências e Tomás Troia (produtor) trouxe outras. Elas conversavam bastante, principalmente pelo fato de que eu e Tomás somos amigos de longa data, então basicamente ouvíamos as mesmas coisas. O processo todo foi uma delícia”, conta.

Bixinho, sua música com maior número de plays (mais de um milhão de streams só no Spotify) é bem representativa do som e da poética de Duda: romântica, dançante e ligeiramente triste. Não à toa, já andou sendo chamada de “Rainha da Sofrência Pop”.

“Meu disco fala de dor de amor, mas tambem de empoderamento, pois luto pelo amor. Sofri isso e coloquei pro mundo. Ser Rainha da Sofrência Pop pra mim é um termo que me define. Faço um som para sofrer e dançar e conversar com diversos nichos”, diz.

Em ascenção, Duda é, definitivamente, uma das apostas de 2019. Pensa que isso a assusta? Pensou errado: “Não me assusta. É importante ser hype pra depois ganhar o mundo certo? Estou trabalhando para ser ampliado esse reconhecimento sim, se depender de mim vou para as cabeças”, afirma, confiante.

Se cuida, Anitta.

TOCA! apresenta: Duda Beat (PE)  e Majur (BA) / Hoje, 17h30 / Pátio do Icba - Goethe-Institut /    1º lote: R$ 50 (meia esgotada) / 2º Lote: R$ 60 e R$ 30 / Vendas: Sympla, Haus Kaffee (Pátio do Icba), Soul Dila (Shoppings Barra e Salvador)

quarta-feira, dezembro 12, 2018

BAHIA DE TODOS OS SONS

Segunda edição do CMC Festival 2018 - Ciclo de Música Contemporânea traz à cidade artistas sonoros experimentais de diversas vertentes 

Arto Lindsay: parceria com Julien Desprez e Ilê Aiyê. Foto Anitta Boa Vida
Ao contrário do que muitos pensam, música, além de entretenimento e trilha sonora de balada, também é uma forma de arte – em múltiplas maneiras, plataformas e estilos.

A segunda edição do CMC Festival 2018 - Ciclo de Música Contemporânea pode ser uma boa introdução aos desavisados, além de ótima pedida aos apreciadores habituais.

“Esta edição foi possível graças aos apoios institucionais, trabalho que vimos construindo pacientemente há 3 anos. Além do Goethe Institut (Icba) que já é uma parceiro antigo, contamos com uma parceria direta com o Ministério da Cultura da França, via Coaxx Coletif (associação de músicos criativos, baseada em Paris, da qual Julien Desprez faz parte), conta Edbrass Brasil, coordenador e curador do CMC.

“Na linha dos apoios diretos destacamos o Pro-Helvetia (fundação suíça para a cultura), que possibilitou a vinda do Luca Forcucci, e o Teatro Vila Velha, além dos apoios dos programas de Residência Artística Vila Sul (Goethe Institut) e Instituto Sacatar, que viabilizou a vinda da Cara Stacey. Por outro lado, a falta de um patrocinador ainda persiste, mas acho que é uma questão de (pouco) tempo. A cada edição é um novo aprendizado e isso reflete também na composição da equipe, no trabalho de captação de recursos, etc. Continuamos trabalhando com uma ética colaborativa com outros produtores locais e do Brasil, artistas e técnicos, que acreditam e apostam no projeto, mas numa perspectiva de ampliarmos essa rede da música criativa na América Latina”, acrescenta.

Cara Stacey, da África do Sul: parceria com suíço Luca Forcucci
Este ano, tendo como tema a questão dos territórios, das fronteiras e  margens, o CMC traz em seus três dias (de hoje até sexta-feira) 14 artistas de destaque no cenário da música experimental mundial, que atuarão em seis concertos e outras atividades.

"Este ano ainda foi uma curadoria centralizada. A aposta em 'problematizar a questão dos territórios, das fronteiras, das margens, propondo um encontro entre as tradições e as vanguardas musicais, borrando distinções com outras pulsações' permitiu pensar a programação, menos focada em nomes, mas em duplas de atrações, que em alguns casos são abordagens diferentes do material sonoro", observa Edbrass.

Destaque para duas sessões do Painel dos Inventores, definido no material de divulgação do CMC como “um bate-papo performado sobre arte, ciência e tecnologias ligadas às práticas artísticas contemporâneas”. Os Paineis rolam amanhã e sexta-feira, das  17h às 19 horas, na Biblioteca do Icba - Goethe Institut.

Samy Ben Redjeb, foto Alexander Habermehl
"Os encontros acontecem dias 13 e 14, das 17 às 19 horas na Biblioteca do Goethe Institut e reunirão os artistas multimídias, inventores, programadores e pesquisadores Pedro Filho, Bruno Rohde, Glerm Soares e Victor Valentim, respectivamente, que compartilharão suas experiências e descobertas com o público. Resumindo, é um bate-papo sobre temas complexos de maneira acessível ao grande público. Cito como exemplo o tema explorado pelo artista e programador Bruno Rohde: 'ESMERIL (2018) é uma plataforma livre para criação, performance e distribuição musical - um aplicativo que reproduz músicas em formato aberto e permite uma nova experiencia de escuta interativa, com manipulação de parâmetros para criação em tempo real de novas composições. [ARRAST_VJ] (2017) é um software livre para criação e performance audiovisual, desenvolvido como ferramenta expressiva e didática em live cinema, vj, live visuals, video mapping, visual music, instalações e outras práticas", detalha.

Nos concertos e nos Paineis, artistas atuando solo ou em duo / grupo.

Um encontro que deve ser bastante curioso é o que une dois guitarristas: o norte-americano /  pernambucano Arto Lindsay e o francês Julien Desprez com Thiago Nassif e percussionistas do Ilê Aiyê – concerto que Edbrass vê como  simbólico deste CMC.

“A questão proposta na curadoria este ano vem a ser uma pergunta sobre qual seria o papel de um festival produzido na Bahia neste contexto global de ascensão de um pensamento nacionalista, territorial, avesso às diferenças e aos entrelaçamentos culturais que caracterizam a produção afro-diaspórica nas Américas”, diz.

Julien Desprez, da França, foto Alexia Allsaints
“Juntar um Mestre do Ilê Aiyê como o Mário Pam e mais oito percussionistas a dois expoentes (Lindsay e Desprez) da guitarra criativa experimental do cenário mundial, foi a nossa primeira tentativa de resposta”, afirma o produtor.

De fato, foi o encontro entre Lindsay, Desprez, Nassif e o Ilê um dos motores para a própria realização do festival este ano. ”Eu sou absolutamente fã do Arto, desde a época do No Wave (movimento de vanguarda dos anos 70) até os discos mais pops e atuais. A possibilidade de vê-lo junto com esses dois artistas luminosos, que são o Julien Desprez e o Thiago Nassif, impulsionou todo o trabalho destes meses”, conta.

E tudo começou com um telefonema inesperado: “Era o Thiago Nassif, dizendo que o Arto queria falar comigo. Levei um susto. AÍ fui informado que o Desprez faria uma turnê por São Paulo e Rio, e que eles prepararam um projeto especial para tocar exclusivamente em Salvador”, relata.

“De lá para cá, já se passaram seis meses e, não só o show, mas o festival tomou forma e cresceu muito nesse período”, acrescenta.

"O Ciclo de Música Contemporânea - CMC hospeda a residência artística de Julien Desprez, referência quando se fala em guitarra experimental na Europa. Na sua estadia em Salvador, está desenvolvendo pesquisas ligadas a gestualidade no samba de roda, percorrendo algumas cidades do recôncavo baiano, além de colaborar com músicos e outros agentes locais", conta Edbrass.

Resumo de três noites

João Meirelles e Bruno Abdala, foto Filipe Cartaxo
Em três noites de concertos, Edbrass tentou desenhar toda a diversidade trazida pelos diferentes artistas.

“Na primeira noite, unimos o experimentalismo com sintetizadores, uma proposta mais drone (estilo minimalista), ambiente do duo João Meirelles & Abdala, com um DJ especializado em música africana dos anos 70 e 80, Samy Ben Redjeb (selo Analog Africa), descreve Edbrass.

“Na segunda noite teremos um enfoque mais voltado para a experiência de som e projeção de imagens, aproximando-nos do universo do cinema expandido. É uma noite em que o público pode esperar um clima mais poético e imersivo. E o encerramento traz a participação de um dos nomes de destaque na cena experimental nordestina,  Eric Barbosa (CE), e o grande encontro da Noise Music com o Samba Reggae”, detalha.

CMC Festival 2018 - Ciclo de Música Contemporânea / De hoje até sexta-feira /  Teatro Vila Velha (Hoje) e Goethe Institut (amanhã e sexta) / R$ 30 e R$ 15/ vendas: Bilheterias TVV, Goethe Institut, Ingresso Rápido e Sympla / www.cmc2018.webnode.com

terça-feira, dezembro 11, 2018

DEZ ANOS DE SADISMO PRODUTIVO

Amanhã: Alexandre Guena e coletivo Sadistics fazem fuzuê para  comemorar uma década de filmes muito loucos no Mercadão CC

Lenda viva da cultura alternativa local, o cineasta Alexandre Xanxa Guena comanda amanhã a festa de dez anos do seu coletivo The Sadistics, uma trupe formada por “um bando de desocupados e párias que produz obras de arte a preço de banana. Por enquanto”, como ele mesmo define.

Na linha “pague quanto puder”, o evento leva ao Mercadão CC outras lendas do underground local: Artur Ribeiro (ex-Treblinka e Theatro de Seraphin), o DJ / cartunista Bruno Aziz (Rock Sujo) e a performer Persie, além dos filmes da galera exibidos no telão.

“Vai ter Persie, que tá rodando o Brasil com esse pocket show, Bruno Aziz, um autêntico grunge nas pickups, Artur Ribeiro, que é o nosso Ian Curtis, performance, goiabada, marmelada e um vídeo inédito da banda Trêmula, projeto extraordinário do guitarrista Peu Souza, que deixou muita saudade”, detalha Xanxa.

Na ativa desde os anos 1990, Xanxa dirigiu inúmeros clipes para bandas do cenário rock. Há dez anos começou a realizar filmes (médias e curtas-metragens) sob a assinatura coletiva The Sadistics.

“Decidimos assinar coletivamente em 2008, com o vídeo experimental Walterville, que levou dois prêmios no Festival 5 Minutos. O nome Sadistics foi dado por mim e Hannah Romã Bellini Sarno no ano seguinte, quando tivemos que defender os filmes na Comunidade Internacional de Cinema Filmaka”, relata Xanxa.

"A maioria dos filmes podem ser assistidos no canal Stella Maris Filmes no youtube e no www.vimeo.com/alexandreguena. Temos mais de 3 horas de filmes produzidos", conta.

Subversivo e artístico

Melancólicos, obsessivos, febris, incorretos, marginais, os filmes dos Sadistics bebem direto nas fontes do Cinema Novo, Nouvelle Vague, John Cassavetes e Udigrudi dos anos 70.

Não a toa, já chamaram atenção até na gringa, ganhando elogios de Harmony Korine, roteirista do clássico Kids (1994) e diretor-símbolo do cinema indie com o bizarro Vidas sem Destino (Gummo, 1997).

“(Comemoramos) Participação no Festival de Berlim. Crítica do Harmony Korine. Crítica de Rodrigo Araújo na revista Barril. Crítica da Ivana Bentes e do cineasta Arthur Omar. VMB com Dead Billies. VMB com Pitty. Clipe pro Sonic Youth. Recentemente o filme Adieu, Julie, da garota prodígio dos Sádicos, Thaís Demelo, foi finalizado e já coleciona quatro seleções em festivais internacionais”, conta Xanxa.

“O mais importante é que ocupamos desde telas de boteco às mais prestigiadas salas de cinema da Bahia e do mundo, com conteúdo subversivo e verdadeiramente artístico. A selvageria só cresce e estamos conseguindo provocar e tirar o público da inércia. Nossa meta é preparar o nosso público para uma vida que pode ser tudo, menos ordinária”, conclui.

Agora, Xanxa & Cia preparam seu próximo filme, Wake Up Cinderella. Acompanhe.

"O futuro é obscuro e incerto. Vemos coquetéis molotov por todo o Brasil. Mas não vamos parar de fazer Cinema. O próximo filme se chama Wake Up Cinderella o qual estou escrevendo com a atriz principal, Priscila Gradvohl, com participação da nova agregada Izzie Fairchild e outros veteranos do grupo de sádicos. Estamos abrindo um crowdfunding ainda este mês", conta.

"(Financiamos  nossos filmes com) Pequenos furtos, apoio de estabelecimentos locais e mais recentemente CROWDFUNDING. Vamos fazer uma vaquinha virtual para levantar fundos pro próximo filme intitulado Wake Up Cinderella – A Mulher Que Amava Demais", conclui.

10 anos do coletivo Sadistics / Com Dj Bruno Aziz, Persie, Arthur Ribeiro e exibição de Filmes / Amanhã, 19 horas / Mercadão cc /  Pague quanto puder / www.vimeo.com/alexandreguena

NUETAS

Catarinenses no BB

Voltando de Natal (RN), onde se apresentaram no Festival Dosol, as bandas catarinenses Taunting Glaciers e Acidental se apresentam hoje, no Bardos Bardos, às 19 horas. O colunista é fã da TG e recomenda. Colaborativo.

Os Mizeravão é 20

Uma das bandas de festa mais escrachadas de todos os tempos, Os Mizeravão comemoram 20 anos sábado no  Mercadão CC, 20 horas, R$ 20

Velhas Virgens é 30

Ícone do rock independente, a banda paulista Velhas Virgens volta a Salvador com seu show comemorativo de 30 anos. As locais Lo Han e Overdose Alcóolica fazem as honras da casa. Sexta-Feira, 21 horas, no Salvador Music Place. R$ 60 + 1 quilo de alimento.

PROCURA-SE NOVAS IDEIAS

Em evento no Rio de Janeiro, Petrobras abre inscrições para edital  de chamada pública em música. Valor total é de R$ 10 milhões. Inscrições até o dia 4

Rio de Janeiro*

Milton, Diego, Lenine e Anna, foto Nelson Perez, Ag. Petrobras
Localizada no coração do Rio de Janeiro, em plena Lapa, o centro de cultura Casa do Choro foi o local escolhido pela Petrobras para anunciar seu primeiro edital cultural de chamada pública desde 2012.

Intitulado Petrobras Música em Movimento 2018, o programa de patrocínio disponibilizará R$ 10 milhões para iniciativas musicais em três categorias: Circulação de Shows, Festivais e Projetos Especiais Inovadores.

As inscrições já estão abertas, são gratuitas, podem ser feitas no próprio site da Petrobras  e vão até dia 4 de janeiro. Mais detalhes no box ao lado e no site de inscrição.

Estavam lá para apresentar o programa o gerente de Patrocínios e Eventos da Petrobras Diego Pila, o Gerente de Patrocínios Milton Bittencourt, o cantor Lenine e sua empresária / esposa Anna Barroso.

Lenine acaba de lançar o DVD ao vivo Em Trânsito, uma parceria da gravadora Universal com a  Petrobras, e aproveitou para bater um papo com a plateia de jornalistas sobre o trabalho mais recente e a importância dos patrocínios tanto para artistas novos, quanto para notórios, como ele.

“Sou de um tempo em que a música se apropriava dos teatros e fazia longas temporadas. Isso não acontece mais”, observou o músico.

“(Bancar) Produção de show só com venda de ingresso não fecha. Não fecha mesmo. Então você ter isso acessível e subsidiado ao público é fundamental”, afirmou.

Em Trânsito foi uma espécie de rascunho do Música em Movimento 2018, já que não colocou o produto (DVD / disco) como o objetivo, e sim, a obra. Quando a Petrobras aceitou patrocina-lo,
Lenine não tinha sequer o repertório. O disco foi gravado no fim do projeto. Resultado: Grammy Latino na prateleira de Lenine.

“A indústria (fonográfica disse ‘não’ pra mim por mais de dez anos. Mas um não rotundo, gigante. Nesse processo, descobri parceiros como a Petrobras. Mas sou uma exceção”, afirmou Lenine.

Precursora em editais

Lenine e Anna, aquela foto porca do blogueiro que não pode faltar
Na apresentação do programa, Milton Bittencourt lembrou que a gigante brasileira do petróleo é pioneira no modelo de editais para patrocínio de projetos culturais no Brasil.

“A Petrobras é precursora em editais para seleção de projetos culturais, praticamente inventou  este formato”, disse.

“A área de comunicação da Petrobras tem três pilares de patrocínio: Cultura, Esporte e NCT (Negócios, Ciências e Tecnologia). Na Cultura, pode-se patrocinar via editais de seleção ou por escolha de grandes projetos, como o balé Grupo Corpo (há 18 anos), a Companhia de Dança Deborah Colker (há 22 anos) e a Orquestra Petrobras Sinfônica (há 31 anos)”, detalhou.

No edital Petrobras Música em Movimento 2018 há algumas premissas que devem ser observadas pelos candidatos ao patrocínio.

Exemplos: 10% do valor deve ser investido em comunicação, exclusividade para a chancela ‘Petrobras Apresenta” e realização das atividades nas cidades indicadas pela Petrobras.

Em entrevista ao Caderno 2+ após o evento, Bittencourt acrescentou que, a princípio, não há problemas em um projeto ser beneficiado tanto pela Petrobras quanto por um edital regional, por exemplo.

“Sim, acredito que seja possível. Estamos abertos para questão do projeto ser ampliado. Com o valor que patrocinamos,  a ideia é que o projeto consiga acontecer com esse valor. Mas outras parcerias, outras leis poderiam entrar para ampliar o projeto”, disse.

Antes, no palco, Diego Pila disse algo parecido: “A Petrobras está em um momento de recuperação, a tendência é voltarmos a usar a Lei Rouanet, que não usamos desde 2012. Mas leis estaduais também são factíveis de serem usadas sem problema”, afirmou.

O aconchegante auditório da Casa do Choro, mantida pela Petrobras Foto RL
Uma curiosidade é a terceira linha do edital, Projetos Especiais Inovadores. Segundo Milton, a ideia surgiu a partir de uma identificação com o posicionamento da Petrobras como empresa inovadora: “A ideia é trazer projetos inovadores tanto em tecnologias novas quanto em formato. A gente viu aqui que Lenine subverteu em seu projeto a  ordem em que as coisas acontecem, como criação de álbum, show”.

“A questão da inovação entra muito ligada a esse posicionamento de imagem da Petrobras como empresa que busca inovação e inventividade. A é fazer essa ligação através dos projetos de cultura que vamos patrocinar”, conta.

A periodicidade do lançamento do edital é também algo ainda em aberto, mas deverá ser frequente: “A ideia nossa é que tenhamos essas chamadas mais focadas durante todo o ano, a gente tenha alguma acontecendo. Dentro de Cultura temos três linhas que são Música, Audiovisual e Artes Cênicas. Temos previsão de realizar a cada semestre pelo menos uma de Cultura”.

* O repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da Petrobras

RESUMÃO: Petrobras Música em Movimento ‘18

  • Três categorias: Circulação de Shows, Festivais e Projetos Especiais Inovadores 

  • Valor total: R$ 10 milhões (previsto) 

  • Duas faixas: Cada categoria terá duas faixas de valor: uma maior, outra menor. Veja a seguir 

  • Circulação de Shows: Faixa Novos Talentos contempla projetos até R$ 350 mil, com pelo menos quatro shows em três estados. Faixa Grande Circuito é para projetos entre R$ 350 mil e R$ 1 milhão, com  mínimo de sete shows em quatro estados 

  • Festivais: Faixa menor patrocinará projetos até R$ 600 mil (para duas edições). A outra faixa contempla projetos entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão, também para duas edições 

  • Projetos Inovadores: Verba de até R$ 2 milhões. Para iniciativas com novos formatos e tecnologias 


  • Prazos: Inscrições até 4 de janeiro de 2019. Execução dos projetos a partir de julho

sábado, dezembro 08, 2018

COMO TAPEAR E EXPOR RACISTAS COMO OTÁRIOS QUE SÃO

Adaptado por Spike Lee, Infiltrado na Klan derrapa na linguagem, mas mantém interesse ao detalhar humilhação à KKK


Adam Driver e John David Washington como Flip e Ron
Existe uma diferença sutil entre oportunismo e senso de oportunidade. Oportunismo geralmente é a busca de vantagem pessoal em detrimento de princípios ou normas.

Já senso de oportunidade é aquilo que o diretor norte-americano Spike Lee demonstrou ter em abundância ao adaptar para o cinema o livro Infiltrado na Klan, de Ron Stallworth.

Em um momento no qual muitos buscam justificar seu racismo (ou supremacismo branco, boa porcaria) evocando “liberdade de expressão”, o livro de Stallworth e o filme de Lee demonstram como é fácil tapear e expor essa gente como ela é: grandes otários.

No livro, o ex-policial Stallworth conta o caso verídico de como, quase por acaso, conseguiu se infiltrar na centenária Ku Klux Klan, organização racista norte-americana surgida pouco depois da derrota do sul escravista na sangrenta Guerra da Secessão (1861 - 1865).

Detalhe crucial: Stallworth é negro.

Os primeiros contatos do tira, então um negão black power em plenos anos 1970,  com a KKK foram por telefone, daí eles não terem percebido o “detalhe”.

Incrédulos diante da audácia de Stallworth, seus superiores no departamento de polícia de Colorado Springs não tiveram outra opção senão embarcar na investigação, designando seu colega Flip Zimmerman para atuar como Stallworth nos encontros  da KKK, enquanto o próprio Ron seguia falando ao telefone e conduzindo a investigação.

Topher Grace (Eric, de That 70's Show) é David Duke, líder da KKK e brother de Trump
Bem-sucedida, a empreitada desmascarou membros da KKK infiltrados no NORAD (North American Aerospace Defense Command), órgão responsável pela segurança aeroespacial dos EUA, além de ter impedido ações de afirmação do grupo na cidade.

Relatório de tira

Sobre o filme muito já se falou – inclusive aqui no Caderno 2+ – e pode-se acrescentar que ele fecha com chave de ouro um ano que começou combativo com o igualmente espetacular Pantera Negra, da Marvel.

O que acontece aqui, com Infiltrado na Klan, é que o livro é um “bicho” bem diferente. Stallworth não é escritor, é um agente da inteligência policial.

Dito isto, é preciso cravar: seu livro é quase um relatório.

Os fatos são contados tim tim por tim tim sem muito brilho literário, mas com muita exatidão. Enfim: às vezes o texto pode ficar enfadonho, “positivo, operante”?

Isso, porém, pode  não anular em nada o interesse do leitor em seguir acompanhando a evolução da ousada investigação, que humilhou bonito uma das instituições mais vergonhosas do planeta.

Daí o senso de oportunidade do cineasta Spike Lee, citado lá no primeiro parágrafo. Se o livro às vezes derrapa na linguagem de relatório, o filme que dele resultou acrescenta suspense, emoção e catarse – muita catarse – ao potencializar a humilhação imposta à KKK com um discurso cinematográfico poderoso e engajador.

Leia o livro, veja o filme, cuspa nos racistas.

Infiltrado na Klan / Ron Stallworth / Seoman / Trad.: Jacqueline D. Valpassos/ 216 p. / R$ 39,90

quarta-feira, dezembro 05, 2018

MAIS VALEM AMIGOS NA PRAÇA DO QUE DINHEIROS NO BANCO

Eduardo Scott reúne time de craques do rock em ótima estreia solo, Scott & Friends

Eduardo Scott, foto Jessica Silva
Eduardo Scott tem é história nessa Bahia besta e bela.

Veterano do rock local, na ativa desde o início dos anos 1980 com a antológica Gonorreia, eis que a figura volta à cena com seu primeiro álbum solo, intitulado Atitude.

Poxa, mas que título mais batido, “rock atitude”, que conceito mais cansado, reclama o atento leitor habitual desta coluna.

O colunista confessa que pensou o mesmo. Nada como escorregar no preconceito.

No aparelho (ou no seu streaming predileto), o álbum pega o ouvinte no contrapé com uma coleção de (doze) faixas inspiradas, compostas de riffs empolgantes, estilos variados faixa a faixa e letras divertidas, muito na linha da crônica social mordaz que era a marca do rock geração 80.

Ajudou, certamente, estar cercado de gente boa. Desde a coprodução (e guitarras) a cargo da fera Jô Estrada às participações de figuras ilustres, como Álvaro e Eric Assmar, Márcio Mello, Gustavo Müllen, Thathi, Sylvia Patricia, Fernando Nunes, Cláudio Lacerda, Dominic Smith e outros.

“Ter ícones como Márcio Mello, Álvaro Assmar e Sylvia Patricia, que são referências cada um no seu estilo, foi de uma importância vital ao projeto”, afirma Scott.

“Por isso, eu e Jô já estamos começando a pensar no volume dois, com mais amigos que tenho no rock nacional. Além dos ícones que participam deste, fiz questão de convidar  novos artistas que vem se destacando na cena baiana, que foram a Rock Night Club, Thathi e Invena. Além da ilustre participação internacional do inglês Dominic Smith”, conta.

"(Essas parcerias todas) Surgiram da forma mais tranquila que poderia ser. O fator principal foi serem meus amigos e facilitarem o máximo a realização do projeto, isentando royaltes etc. Entre a ideia, as gravações e finalização, foram dois anos pra ficar pronto. Mas valeu a pena, pois depois de uma bagagem que tenho ao longo de 35 anos na área, tinha que ficar com qualidade classe A para que eles se sentissem orgulhosos de estar presentes. Tanto que o padrão, desde a capa, criada em pop art pelo artista plástico André Dragão seguiu um padrão internacional de criação e produção", afirma.

Tony Stark no Gandhi

No início dessa década, Scott viveu uma aventura e tanto ao se juntar aos guitarristas fundadores do Camisa de Vênus (o já citado Gustavo e o recentemente falecido Karl Hümmel) em uma versão do Camisa, com Scott substituindo Marcelo Nova.

A aventura terminou quando Nova  impediu legalmente o trio de gravar músicas inéditas com o nome da banda. Mas se serviu de algo, a aventura deixou Scott afiado em seu canto punk de clara inflexão “venusiana”.

Essa inflexão se prestou  bem à letras como Homem de Ferro (na qual Tony Stark vem à Bahia e sai no Filhos de Gandhi), Algo Mais (que parece algo que Arnaldo Antunes deixou na gaveta) e a ramoneana Eu Não Sei Votar.

“Desde a minha primeira banda, Gonorreia, ter no repertório letras com crônicas sociais sempre foi minha marca. Minha passagem de cinco anos no Camisa me fez pensar ainda mais na importância da mensagem ao fã“, afirma.

No início de 2019, Scott faz um show gratuito no Bar 30 Segundos para lançar o CD. Depois disso, pega a estrada.

“O show de janeiro será um pocket Show com cerca de 40 minutos, será um agradecimento com os convidados do CD presentes. Aí em fevereiro é que saímos em turnê, com o show completo em Salvador, interior da Bahia e o outros estados do Brasil. O show completo terá só quatro musicas do Atitude, o restante do repertório terá Camisa, Raul, Billy Idol, Gonorréia, entre outros. O repertório do novo show irá contar muito dos sucessos de minha carreira para ter a participação e interatividade do público”, conclui.

Eduardo Scott: Scott & Friends - Atitude / Show de lançamento: 23 de janeiro, Bar 30 Segundos (Gratuito) / CD: R$ 30 (Vendas: Mercado Livre, Facebook e BardosBardos)



NUETAS

Doidão, Organos, galera de Rondônia e Paraíba

O B-23 Lounge Music Bar realiza a segunda edição do seu Festival Pop & Rock sábado, com seis bandas, duas delas de fora da Bahia: O Retrô Ativo (de Rondônia) e Baião d’Doido (da Paraíba), mais as locais Professor Doidão & Os Aloprados, Lote 7,  Organoclorados e R.A.I.N. 20h30,  R$ 20.

Exo, Declinium et al

No sábado também tem o MCC Rock Sessions, com ExoEsqueleto, Declinium, Gérbera e o DJ Elettra (Messias GB). 15 horas, R$ 10, no Mercadão CC.

Metal no Teatro IV

A rapeize do metal também tem alternativa, com a 4ª edição do Metal no Teatro. No palco do Teatro Solar Boa Vista tocam  Erasy (Feira de Santana), Jack Doido e Inner Call. Sábado, 17 horas, R$ 20.

sábado, dezembro 01, 2018

A ARTE DA SUPERAÇÃO SEGUNDO O POWER METAL

Uma das maiores bandas do metal brasileiro, aclamada mundialmente, o Angra volta à cidade para lançar o álbum ØMNI

Felipe, Bruno, Fabio, Rafael e Marcelo, foto Henrique Grandi
Uma das mais aclamadas bandas de heavy metal do país, o Angra volta à Salvador no show de lançamento do seu álbum mais recente, ØMNI.

No show, parte de uma extensa turnê que começou em março na Europa e já passou pela Ásia, Estados Unidos e Canadá, o Angra mostra canções do ØMNI e também outras preferidas dos fãs.

“Vai ser um apanhado da carreira, enfatizando o momento atual, que é o ØMNI”, conta o guitarrista Rafael Bittencourt.

“Sim, desde março, as plateias no mundo inteiro tem algumas coisas em comum e também algumas particularidades. A Europa a gente já frequenta há muitos anos, e esta foi nossa primeira grande turnê nos Estados Unidos, fizemos 31 show nos EUA e Canadá. E na Ásia também foi muito legal, no Japão foi o primeiro público internacional que tivemos, desde o começo da banda. A gravadora JVC, do Japão, se interessou pela banda em 92 e lançamos nosso CD em 93 e desde então temos uma parceria muito próxima com eles. Os fãs japoneses são muito leais, carinhosos e fervorosos, então foi muito legal apresentar este novo momento para públicos já muito conhecidos da banda e receber esta aprovação. Fãs que já assistiram shows de todas as fases da banda virem dizer que este foi um dos melhores shows do Angra que eles já viram, então este tipo de elogio vale muito a pena. E a banda tem evoluído muito sim, no próprio repertório novo, porque teve momentos da turnê que a gente fazia show praticamente todos os dias. Isso vai aprimorando a sonoridade da banda, o entrosamento também - seja pessoal, como musical. Posso dizer que este é um grande momento para o Angra”, conta o músico.

Trabalho mais elogiado da banda – dentro e fora do Brasil – desde Temple of Shadows (2004), ØMNI foi uma espécie de prova de fogo para o quinteto.

Razão: era preciso superar a perda do guitar-hero Kiko Loureiro, recrutado pelo ídolo norte-americano Dave Mustaine para integrar (há quem diga que foi para salvar) sua banda, a icônica Megadeth.

“Esse disco é muito, muito importante pra mim, porque ele mostra mais uma vez uma superação de contrariedades, que são as mudanças de formação”, afirma Rafael.

Ao que parece, a tarefa foi cumprida com louvor, para alívio do único membro fundador ainda no Angra, Rafael: “Sim, (o ØMNI) tem sido muito elogiado. E eu fico muito feliz, trabalhei muito pra isso. No meio do processo já tinha noção que tínhamos um álbum muito forte nas mãos, e eu esperava que as pessoas sentissem que houve uma retomada no entrosamento da banda”, afirma.

“Fiquei surpreso, mas fiquei mais ainda foi satisfeito. Trabalhamos pra isso, realmente nos dedicamos, porque com a saída do Kiko, senti que teríamos que fazer um esforço triplo, quádruplo, pra sustentar a perda de um integrante tão icônico pra banda”, diz.

Queen, Raulzito e Sandy

Foto Henrique Grandi
No lugar de Kiko entrou Marcelo Barbosa (ex-Almah), que se juntou à  Felipe Andreoli (baixo), Fabio Lione (voz) e Bruno Valverde (bateria).

“O Ømni é  a celebração dessa formação que se consolidou  com entrada do Marcelo. É uma formação moderna, de músicos que conhecem muito power metal (estilo do Angra) mas que também trazem outras novidades, estilos e influencias. A sonoridade da banda vem mudando muito através dos anos. Então esse momento celebra essa formação com Fabio Lione, vocalista que é muito conhecido pelo pessoal do power metal por conta da carreira que ele fez no Rhapsody”, afirma.

De fato, Ømni é um baita disco de heavy metal com a marca do Angra  desde sua fundação, em 1991: o caráter ousado.

Assim como a outra banda brasileira de metal mais aclamada mundo afora, Sepultura, o Angra valoriza ritmos e instrumentos brasileiros desde seu segundo álbum, o clássico Holy Land (1996).

“Sim, o Angra tem essa coisa de misturar elementos e tal. Acho que é uma coisa um pouco natural porque eu gosto muito de estilos diferentes, eu ouço frequentemente músicas de estilos muito diversos. Então na minha cabeça é natural essas conversões de estilos, essas mixagens. E eu tenho influências de muitas bandas e artistas, o próprio Queen sempre misturou muita coisa, o Raul Seixas, que é um ídolo que eu tenho, sempre muitos estilos, tinha uma liberdade criativa muito grande e eu sempre persegui essa liberdade. O processo é um pouco intuitivo por que eu acho que soa natural aquilo que já está incorporado dentro do músico, mas é também resultado de muita experiência no estúdio, porque você precisa passar um  tempo ali, tem um um processo empírico, tentativa e erro e isso também conta”, afirma Rafael.

Em Ømni, eles dão um passo além, convidando Sandy (sim, a filha do Xororó) para cantar em trio com Fabio e Alissa White-Gluz (da banda sueca de death metal Arch Enemy), na faixa Black Widow's Web.

O resultado é arrebatador. Conceitual, a faixa traz Sandy e Alissa fazendo a mesma personagem, a viúva negra do título, e Fabio como sua vítima, ora seduzido pela sua face suave (Sandy), ora aterrorizado pela sua fúria (na voz gutural de Alissa).

E essa é outra grande característica da banda: as narrativas épicas, que, planeja Fábio, um dia chegarão às telas: “Sim, tenho muita vontade de  adapta-las para filme, animação, game. Ou até quadrinhos. Quero muito realizar isso no futuro próximo”, diz.

Angra: ØMNI World Tour / Amanhã, 18 horas / Salvador Music Place (Patamares) / Promocional: R$ 70 +  1 quilo de alimento não perecível / Front stage: R$ 140 / 18 anos

sexta-feira, novembro 30, 2018

MARK JOHNSON (PLAYING FOR CHANGE): "NADA É MAIS FORTE DO QUE O PODER DA MÚSICA"

Um dos primeiros fenômenos musicais da internet, o Playing For Change volta hoje a Salvador, na Concha Acústica do TCA, quatro anos depois da sua estreia na cidade.

PFC Band em ação, foto Wadih Chlink / Divulgação
No palco, 11 músicos de diversos países, línguas e estilos, todos em torno de um mesmo objetivo: levar uma mensagem de paz e positividade pelo mundo por meio da música.

Atenção para a chamada com nome, instrumento e país de origem dos músicos: Grandpa Elliott (voz e gaita, EUA), Mermans Mosengo (voz, percussão, guitarra, do Congo), TIti Tsira (voz, África do Sul), Chantz Powell (vocal, trompete, EUA), Louis Mhlanga (voz, guitarra, Zimbábue), Robin Moxey (voz, guitarra,  EUA), Roberto Luti (guitarra, Itália), Mateo (sax, França), Claire Finley (baixo, EUA), Ehssan Karimi (bateria, Irã - EUA) e Keiko Komaki (teclados, Japão).

Na entrevista, Mark Johnson, produtor e fundador, fala sobre o PFC, o show, os músicos e o mundo hoje.

Como vai ser o show em Salvador? Que músicas vocês vão tocar? Tem participação de  algum músico local prevista? Vi que no vídeo de Sittin’ On The Dock of The Bay (clássica canção de Otis Redding) tem alguns artistas de Salvador.

Mark Johnson: A banda PFC está voltando a Salvador, um de nossos lugares favoritos no mundo para fazer música. Estamos chegando com uma banda de 11 músicos de oito países diferentes, incluindo Grandpa Elliott, de Nova Orleans. Também receberemos no palco por um grande artista local de reggae, Paulo da Luz, que vai cantar Rasta Children com a banda. Este clássico de Dennis Brown (1957-1999, astro jamaicano do reggae) está em nosso novo álbum, chamado Listen to The Music.



Como  faz para juntar e organizar tantos músicos de tantos países e línguas diferentes em torno de um projeto (e um repertório) em comum? Isso não pode ser simples.

MJ: A música nos une. Este ano a PFC Band completa dez anos e assim somos como uma família que fala muitas línguas diferentes, mas que usa a música como linguagem comum. Cada artista traz diferentes canções e estilos musicais, daí nós combinamos tudo junto, pois acreditamos que a world music acontece quando o mundo faz música junto.

Todos os artistas da PFC Band são músicos de rua? Existe alguma característica em particular dos músicos de rua?

MJ: Nem todos os membros da PFC Band são músicos de rua. Começamos nas ruas para nos conectarmos com as pessoas pelo coração, mas o Playing For Change sempre foi sobre música e qualquer um que queira tocar, das ruas para os palcos e aos corações das pessoas. Grandpa Elliott e Roberto Luti vieram das ruas, mas Louis Mhlanga, do Zimbabwe e África do Sul é uma lenda da guitarra no continente africano e, juntos, eles mostram ao mundo que grandes talentos podem ser encontrados em todo canto.

O fantástico Grandpa Elliott na gaita, foto Vinicius Grosbelli / Divulgação
O Playing For Change foi um dos primeiros grandes fenômenos musicais da internet, com o vídeo de Stand By Me. Vocês esperavam tamanha aclamação mundial?

MJ: Enquanto viajávamos pelo mundo gravando Stand By Me, tínhamos consciência de que estávamos criando algo especial unindo músicos de tantas origens diferentes, mas nem imaginávamos que o vídeo seria assistido mais de 100 milhões de vezes em mais de 195 países. Isso significa que mais de 100 milhões de pessoas viram o mundo de uma forma nova, um mundo unido por um coração e uma canção, um sonho tornado realidade para todos os músicos e demais envolvidos no Playing For Change.

O Playing For Change já é um movimento de 16 anos. Porém, o mundo parece um lugar cada vez menos unido e amigável, com nacionalistas, políticos e militantes de extrema direita em ascenção no mundo todo, inclusive no Brasil. O que deu errado?

MJ: Uma grande lição que aprendi nesses 16 anos trabalhando com o Playing For Change é que não importa quantas coisas venham nos dividir na vida, nada é mais forte quanto o poder da música para nos unir. Eu percebo que o mundo está mesmo parecendo um lugar cada vez menos amigável, mas o mundo também é grande, e há luz e amor em todos os lugares que percorremos. Como diz a famosa canção, “talvez não seja tarde demais para aprender a amar e esquecer como odiar” (“Maybe it's not too late / to learn how to love / and forget how to hate”, da música Crazy Train, de Ozzy Osbourne). Todos nós podemos aprender muito com a música, e agora, mais do que nunca, devemos deixar o amor triunfar sobre o ódio em todo o mundo.

Vejo que a Fundação PFC criou escolas de música e programas de educação musical em várias partes do mundo. Alguma chance de termos uma dessas aqui em Salvador?

MJ: Temos um novo programa de educação musical do PFC no sul do Brasil, em Curitiba, e adoraríamos criar um outro em Salvador. Na primeira vez que visitei Salvador, perguntei a uma pessoa daí onde poderia encontrar um bom percussionista na cidade, e ele riu e me falou que se eu balançasse uma árvore, cairia um monte de músicos. Eles estão em todo canto. Um lugar musical como Salvador é um sonho para visitarmos, nos apresentar e, espero algum dia, trabalhar com a comunidade local para criar um programa musical da Fundação PFC no futuro. Outra importante lição que aprendi com o Playing For Change é que alguns sonhos se realizam.

Playing For Change / Hoje, 19 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 100 e R$ 50 / Camarote: R$ 200 e R$ 100 / Vendas: bilheteria TCA, SACs Barra e Bela Vista e no www.ingressorapido.com.br