quinta-feira, março 31, 2016

TODO MUNDO TEM PROBLEMA SEXUAL

Estreia: Zoom, coprodução Brasil-Canadá com Gael García Bernal e Mariana Ximenes, lida com metalinguagem, mas a proposta sofisticada se perde no humor adolescente

Emma (Alison Pill), faz uma HQ sobre Edward, seu homem dos sonhos
Metalinguagem é uma linguagem criada para falar dela própria.

Exemplo rápido: um filme que fala de um filme – como Zoom, a coprodução Brasil / Canadá dirigida por Pedro Morelli, que estreia hoje.

A prática não é nova. Há inúmeros filmes que apresentam narrativas dentro de narrativas para refletir sobre o próprio cinema, ou mesmo sobre o ato de criar.

Sem puxar muito pela memória, pode-se citar desde clássicos como Cantando na Chuva (1952), O Desprezo (1963) e A Noite Americana (1973) até filmes mais recentes, como Adaptação (2002) e a estética da “gravação encontrada”, inaugurada pel’A Bruxa de Blair (1999).

Zoom transita nessa seara com alguma habilidade, costurando três narrativas paralelas, sendo uma delas animação em técnica de rotoscopia – na qual o filme, após ser rodado com atores, é pintado, adicionando-se cenários e efeitos.

Um exemplo mais ou menos recente é Waking Life (2002), de Richard Linklater.

Bonecas russas

Edward (Gael García Bernal), dirige um filme sobre Michelle, modelo
Em Zoom, o espectador é inicialmente apresentado ao casal Emma (Alison Pill) e Bob (Tyler Labine), que trabalham juntos em uma pequena fábrica de brinquedos sexuais e costumam transar no horário do almoço.

Insegura e insatisfeita com seus atributos, Emma resolve fazer um implante de silicone nos seios.

À noite, em casa, ela desenha uma história em quadrinhos protagonizada por um idealizado homem dos sonhos, Edward (Gael García Bernal).

A HQ ganha vida como animação e vemos Edward, que é diretor de filmes de ação comerciais, lutando para se firmar como artista sério, fazendo um filme “de arte”,  estrelado pela modelo brasileira Michelle (Mariana Ximenes).

O filme de Edward, então, ganha a tela, mostrando uma modelo que luta para se tornar escritora, mesmo contra a vontade do marido, Dale (Jason Priestley, o eterno Brandon de Barrados no Baile).

No bloquinho em que rascunha seu livro, Michelle escreve sobre Emma, uma insegura funcionária de uma fábrica de artigos sexuais que desenha uma história em quadrinhos sobre Edward, diretor de cinema bonitão que dirige um filme sobre Michelle.

Fechado o triângulo (ou círculo) metalinguístico Emma / Edward / Michelle, o espectador fica confuso: quem “criou” quem? O que exatamente está sendo contado: a história de Emma, Edward ou Michelle? Aonde a história começa, aonde termina? Qual o sentido de tudo isto?

Perdido em piadas bobas

Michelle (Mariana Ximenes), escreve um livro sobre Emma, que faz uma HQ
A premissa, a princípio interessante, porém, se perde em meio ao tom de comédia adolescente que o filme assume em boa parte de sua projeção.

Mesmo “turbinada”, Emma continua com problemas com sua autoimagem. Irada, decide arruinar a vida sexual do seu personagem, Edward, dando-lhe um pênis minúsculo.

Edward passa quase todo o seu tempo de tela tentando resolver este problema, com direito  a menages frustrados e aparelhos milagrosos de aumento peniano.

Emma e Bob, por sua vez, ainda se envolvem em uma invasão domiciliar digna de um filme d’Os Trapalhões.

Já Michelle, que dá um pé em Brandon – ops, Dale – vem ao Brasil, onde tem uma iniciação lésbica com uma caiçara, interpretada por Cláudia Ohana.

Em comum, os três protagonistas compartilham a insatisfação com suas condições. Com generosidade, pode-se dizer que Zoom é um filme sobre inadequação.

Outro ponto a favor é seu bom ritmo. Apesar das piadas bobas, o filme nunca chega a ser chato, justiça seja feita.

Tudo se encaminha para um cruzamento das três narrativas no qual sobra adrenalina, mas falta uma conclusão satisfatória – tanto para reflexão da metalinguagem, quanto para a própria trama do filme.

Mais para um exercício de estilo superficial – entremeado por piadas sexuais manjadas – do que o filme “de arte” que se propõe a ser, Zoom pode ser assistido, no máximo, como  passatempo despretensioso.

Zoom / Dir.: Pedro Morelli / Com Gael García Bernal, Alison Pill, Mariana Ximenes, Jason Priestley, Tyler Labine, Claudia Ohana / 16 anos

Cotação: três rock stars.

terça-feira, março 29, 2016

SOFT PORN É BOA NOVIDADE DO INDIE ELETRÔNICO PSICODÉLICO

Soft Porn, foto de Manolo Garrido
 A rapaziada ligada ao selo NHL Produções sempre surpreende.

Além de produzir o psicodélico fanzine NIHIL e um festival periódico, o selo é orbitado por bandas de propostas diversas como Van der Vous, Mapa, Circo Litoral, Limbo, Aurata, Astralplane e Soft Porn.

Esta última é o simpático duo aí do lado.

Formado por dois Lucas – Brasil (DJ) e Spanholi (guitarrista) –, o Soft Porn pratica uma música eletrônica contemporânea bem up to date, com influências de queridinhos indies como Toro y Moi, Warpaint, Foals etc.

“Nossas influências vão um pouco além da música. A gente pensa na Soft Porn como um projeto multilinguístico, agregando documentários, projeções nos shows, samples e uma estética erótica dos anos 1990”, acrescenta Spanholi.

Sem mais do mesmo

Ambos os Lucas são egressos da extinta banda indie Você Me Excita, vista nesta coluna há alguns anos. O primeiro EP da Soft Porn já está disponível no Soundcloud e, sinceramente, não deve nada a muito gringo idolatrado lá fora.

“Na verdade, nossa identidade foi a junção de várias influências, apesar de gostarmos de muita coisa parecida, temos repertórios bem diferentes. Até hoje a gente ainda troca muito som e uma parte do tempo que estamos juntos é escutando e pesquisando outros projetos. A intenção era fazer algo experimental, já tem muito do mesmo acontecendo”, diz Lucas Brasil.

Viajandão, cosmopolita, colorido, Soft Porn é som para deixar corpo e mente vagando pelo éter.

Para conferir ao vivo, sábado eles se apresentam na quarta edição do NHL Festival, com Cine Iris (de Feira), Cartel Strip Club e Astral Plane.

“O show da banda conta com bateria (tocada por Matheus Patriarcha, baixo, guitarra, samples, CDJ e sintetizadores”, conta Spanholi.

“O objetivo é fazer esse intercâmbio cultural, conhecendo, aprendendo, agregando contatos e agora, no momento, estamos planejando uma tour pelo Nordeste até o meio do ano”, avisa Lucas Brasil.

NHL FESTIVAL 4 / Com: Soft Porn, Cine Iris, Cartel Strip Club e Astral Plane / Sexta-feira, 21 horas / Dubliner’s Irish Pub / R$ 10



ENTREVISTA COMPLETA: SOFT PORN

A Soft Porn ao vivo, foto Manolo Garrido
Vocês eram da Você Me Excita, banda indie de estética século 21. Podem contar o que aconteceu desde então, como a banda acabou e vocês se tornaram um duo de música eletrônica?

SP: A SOFT PORN foi criada pelo guitarrista Lucas Spanholi e pelo DJ Lucas Brasil e contou com a participação de Pedro Oliveira, antigo membro da Você me Excita, na produção do álbum “Vol. 1”. Agora a banda conta também com Matheus Patriarcha na bateria, fundador da Você me Excita e que atualmente se apresenta com seu projeto solo MAPA, que inclusive estará lançando seu álbum de estréia “prcr n” no mês de abril, pelo selo NHL Produções, que também lançou o álbum “Vol. 1”.

Como é no show? É live PA ou tem instrumento sendo tocado ao vivo também?

SP: O show da banda conta bateria, baixo, guitarra, samples, CDJ e sintetizadores.

Percebo que o Soft Porn busca uma linguagem mais cosmopolita, sem "namoro" com a estética baiana / tropical. É uma postura deliberada ou o som de vocês é assim mesmo, naturalmente?

SP: Isso surgiu naturalmente, nunca nos preocupamos em forçar a barra para parecer tropical ou “baiano”, nosso som acabou saindo mais urbano e eletrônico. Acho que essa coisa de identidade tem que ser espontânea, fluída. Não concordamos com essa ideia de uma identidade ou cultura local parada no tempo e estática, como se habitasse um museu. Salvador pode e deve produzir qualquer coisa. A grande frustração da cena do rock e da galera alternativa, em salvador, foi, e ainda é bastante, a de viver numa cidade que por muito tempo só se preocupou em vender musica baiana enlatada e pré-formulada. Parece que as bandas daqui sempre têm que pôr um elemento local de forma escancarada, como se tivéssemos, sempre, que sugar ou parecer com Raul, por exemplo. A cultura e a arte são libertadoras e emancipadoras, ao passo em que também queremos dizer muita coisa quando dizemos que somos de Salvador. Tá no sangue, tá na gente.

Quais são os planos de vocês para divulgar o trabalho da banda na Bahia e fora dela? Festas, festivais, clipes?

SP: Logo que lançamos o CD, nosso foco foi divulgar bastante pela internet. Tivemos uma resposta legal, principalmente de fora do Brasil. Nosso plano agora é tocar bastante, estamos nos aproximando mais do público mais eletrônico também e tá sendo massa. Estamos contando com o apoio da NHL Produções, que tem movimentado a cena, inclusive apostando em artistas de outros estados em bandas novas daqui, como MAPA, Limbo, Aurata, Astralplane. Também participamos do “Low-fi Processos Criativos”, evento criado por Ed Brass. O objetivo é fazer esse intercâmbio cultural, conhecendo, aprendendo, agregando contatos e agora no momento estamos planejando uma tour pelo nordeste até o meio do ano. Também acabamos de gravar um vídeo ao vivo pela produtora audiovisual USINA, que está forno e saindo em breve.

Quais são as bandas / DJs que influenciam o trabalho da Soft Porn? É visível (digo, audível) que a função dos seus tracks não é apenas botar o povo pra dançar, tem algo mais aí.

SP: Nossas influências vão um pouco além da música, a gente pensa na SOFT PORN como um projeto multilinguístico, agregando documentários, projeções nos shows, samples e uma estética erótica dos anos 90. Na verdade nossa identidade musical foi a junção de várias influências, apesar de gostarmos de muita coisa parecida, temos repertórios bem diferentes. Até hoje a gente ainda troca muito som e uma parte do tempo que estamos juntos é escutando e pesquisando outros projetos. A intenção era fazer algo experimental, já tem muito do mesmo acontecendo. Acho que as nossas maiores referências comuns do experimental mais eletrônico seriam o DARKSIDE, Nils Frahm, Machinedrum, David August e algumas coisas no formato mais de banda mesmo como Toro y Moi, Warpaint, Foals, Chromeo, Crystal Castles, Chromatics, Tame Impala, Glass Candy... É muita coisa diferente que cada um traz na bagagem também.

Fiquem a vontade para dizer o que realmente querem dizer, mas eu não perguntei.

SP: Vamos produzir, galera! Experimentar, criar coisas novas, contribuir pra o fluxo musical da nossa cidade, sempre dá pra inovar um pouquinho! E aos produtores de eventos, que contribuam também valorizando o novo.

NUETAS

O Retorno de Motrícia 

A nova Motrícia, com Daniela Dangel no centro
O Quanto Vale O Show? de hoje apresenta as bandas Motricia e Devaz. A primeira, após algum tempo parada, volta a cena estreando nova vocalista, a cantora Daniela Dangel Moraes. Hoje, 19 horas, Dubliner’s Irish Pub, pague quanto quiser.

Búfalos e Bilic sexta

Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes e Bilic Roll (ops, agora é só Bilic) quebram tudo sexta-feira. The Other Place Salvador (R. Ariston Bertino de Carvalho, 247, Brotas). 20 horas, R$ 10.

Sunday, metal Sunday

Domingão do cramunhão com as bandas de heavy metal Orgia Nuclear, Necrothrashers, Blessed in Fire e Death Tales. No Taverna Music Bar, a partir das 15 horas. R$ 20 (antecipado)  e R$ 25 (na porta).

segunda-feira, março 28, 2016

SUPER QUEBRA-PAU

Batman Vs Superman: A Origem da Justiça realiza o sonho dos fãs ao promover o duelo dos heróis. A abordagem sisuda do diretor Zack Snyder segue ditando o clima

Batman, Mulher-Maravilha, Superman: a Trindade da DC
Há, pelo menos, duas maneiras de se avaliar Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça, que estreou ontem na última quinta-feira.

Há a maneira do fã dos quadrinhos, nos quais estes personagens surgiram. E há a forma “adulta”, que ignora seu vasto legado pop-cultural e considera apenas o filme em questão.

O fã, já escaldado pela linguagem grandiloquente e sem humor demonstrada pelo diretor Zack Snyder no filme precedente, O Homem de Aço (2013) – além dos trailers do filme que estreia agora –, sabe o que esperar: super-heróis no sentido mais grandioso da palavra, maiores do que a vida, com feitio de deuses e filmados de baixo para cima, fora do alcance dos meros humanos.

A estética de Snyder deve muito às obras da chamada Era Moderna dos quadrinhos (dos anos 1980 para cá), quando o colorido psicodélico dos anos 1960 e 70 foi substituído por uma paleta mais sóbria e escura, que refletia os anos difíceis da Era Reagan e os heróis foram, ironicamente, humanizados, ao se ressaltar seus aspectos trágicos.

Para o fã que conhece todo este background, Batman Vs. Superman vale cada centavo do ingresso ao realizar, na tela grande e em alto estilo, seu sonho de criança: quem ganha num quebra-pau, Batman ou Superman? Dado seu respeito à mitologia do Universo DC, aliado ao ineditismo do espetáculo em si, Zack Snyder já garantiu seu lugar no céu dos nerds – garantido desde Watchmen (2008), aliás.

O Lex Luthor jovem, descolado e caricato de Jesse E.
Há, porém, o outro lado da moeda: Batman Vs. Superman tem, claro, seus defeitos. Henry Cavill, o Superman / Clark Kent, continua um bonecão de posto em cena, com sua atuação pouco expressiva.

Já Jesse Eisenberg, como Lex Luthor, é o oposto: expressivo até demais, à beira do exagero. Fica a impressão que sua atuação é uma homenagem torta ao Lex Luthor caricato do Gene Hackman nos filmes com Christopher Reeve.

A trama, por vezes, parece vitimada pelos atropelos do roteiro, que precisa incluir muitas cenas de pancadaria e efeitos especiais. Tragédias inomináveis (com o fetiche pós-11 de setembro mais acentuado do que nunca) acontecem à rodo, e quase não há consequências.

Ben Affleck (Batman / Bruce Wayne) e Gal Gadot (Diana Prince / Mulher Maravilha) estreiam razoavelmente bem em seus respectivos papeis, com a gravidade (o primeiro) e a altivez (a segunda) que os personagens exigem em boa medida.

Algum humor, tão presente nos filmes da Marvel, talvez fizesse bem aqui. Não há alívio cômico nesta aventura, só tragédia e gravidade.

Universo compartilhado

A trama de Batman Vs. Superman, a bem da verdade, é um prelúdio para os próximos filmes da Warner / DC Comics, que corre para estabelecer seu próprio universo cinematográfico compartilhado após o êxito dos filmes da Marvel.

Na tela, vemos o início de uma saga maior, que culminará na formação da Liga da Justiça.

Superman: Deus para uns, falso deus para outros tantos 
Há filmes previstos nos próximos anos para Mulher Maravilha, Batman, Aquaman, Flash e Cyborg. Os três últimos já aparecem de relance.

Tudo começa durante os eventos d’O Homem de Aço, quando um prédio da Wayne Enterprises em Metrópolis é destruído na luta do Superman com  Zod.

Irado, Bruce busca vingança contra o alienígena.

O resto, é melhor conferir na tela.

Batman Vs Superman: A Origem da Justiça / Dir.: Zack Snyder / Com Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons / Classificação indicativa: 12 anos

terça-feira, março 22, 2016

MARCONI LINS LANÇA PRIMEIRO CD SOLO E REAFIRMA VOCAÇÃO DE POETA MALDITO DO ROCK

Marconi Lins abre o verbo em foto de Fabian Chagas
Bardo do underground local, trovador das ruas, Marconi Lins já passou por bandas como Sindirock, Os Herege e Sombra Sonora. Agora, lança seu primeiro álbum solo, no qual reafirma sua vocação de poeta maldito do rock, de caráter bem urbano.

Adequadamente, o show de lançamento vai ser dia 3, no Palco Toca Raul, erguido recentemente em uma calçada do Rio Vermelho, com participações de Karl Franz, Hélio Rocha e Eduardo Scott.

No álbum, produzido pelo lendário Nicolau Rios, responsável pela sonorização de nove entre dez shows do rock local entre os anos 1980 e 90, ele  recebe uma pá de convidados.

Tem Luis Caldas (guitarra solo em I Don't Smoke), maestro Alfredo Moura (pianos e teclados em várias faixas), Karl Hümmel  (guitarra e co-autoria de Moscou-Amsterdam), Hélio Rocha (guitarra  em Entrando no Espelho), Oyama Bittencourt e Jerry Marlon (guitarra e baixo em  Bar Fly) etc.

“O disco partiu do convite do NRios Som e Studio para gravar uma música. As coisas foram fluindo no processo, e quando vimos, já tínhamos 12 músicas prontas”, conta.

Experiências vividas

No álbum, já disponível tanto em CD físico quanto em seu site para download gratuito, Marconi compilou composições novas e antigas em ordem cronológica.

“É um manifesto pessoal, mas sem cunho político. Meu texto é baseado em experiências vividas, não dá pra escrever um romance se nunca amou de verdade, soa fake”, percebe o cantor.

Fã de Bob Dylan, Raul Seixas e Lou Reed, Marconi rejeita ser um mero “influenciado” pelos seus mestres.

“Não tenho esse direcionamento, mas sim, são artistas que inspiram até hoje. Comecei a escutar Raul Seixas com 11 anos. Lou Reed e Bob Dylan tiraram o rock do mero entretenimento ao acrescentaram psicofilosofia nas letras. Mas esse  disco é diversificado, tem jazz, reggae, pop, e muito rock principalmente”, diz.

Acompanhado por Chico Sá (bateria), Danilo Raul (baixo) e Estevam Dantas (teclados), Marconi planeja levar o rock às ruas: “Vou aproveitar o projeto Ação Cultura Itinerante, para fazer o lançamento. Vamos levar o rock pras ruas, às praças, para onde a cerveja seja mais barata”, diz.

Show de Lançamento do Cd / 3 de Abril (Domingo) /  Projeto Ação Cultura Itinerante, Palco Toca Raul (Rio Vermelho, ao lado da Paróquia de Santana) / 17 horas, Gratuito (Mas pode doar 1 kg de alimento não perecível)

Baixe: www.marconilins.com



NUETAS

Doidão & Rivera

Prof. Doidão & Os Aloprados e Madame Rivera são as atrações do Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto quiser.

RestGate às quartas

A banda RestGate Blues comanda o evento semanal Blues na Faixa, todas as quarta-feiras, no Dubliner’s. No cardápio, muito blues, claro – e uma banda convidada. A banda de amanhã é a EXO Esqueleto, abrindo a night. 22 horas, gratuito.

Rock Libre sábado

As bandas Distrito 87, Duppy,  Fidha, Critério Algum, Contrapartida e Foda-se Cia. Ilimitada são as atrações da 1ª edição do Festival Rock Libre. Sábado, das 15 horas às 21hs no Jardim dos Namorados, evento gratuito.

ENTREVISTA COMPLETA: MARCONI LINS

Pode falar um pouco sobre o disco? São canções novas? Antigas? Um pouco dos dois? É um manifesto seu?

Marconi na gringa, em foto de Nara Nogueira
Marconi Lins O disco partiu do convite do N Rios Studios para gravar uma música, daí as coisas foram fluindo durante o processo de gravação, e quando vimos já tínhamos 12 músicas prontas. São canções antigas e novas também, coloquei até certa ordem cronológica no CD. É um manifesto pessoal, já que compartilho com o público, mas sem cunho político. Meu texto é baseado em experiências vividas, não dá pra escrever um romance se nunca amou de verdade, soa fake.

O álbum tem uma galera das boas tocando com você, não? Pode dizer quem tocou o que? (No CD não diz.)

ML: Então, a base do disco eu toquei guitarras e violão e o Chico Sá na bateria, e baixo em algumas faixas. O produtor Nicolau Rios, que teve a ideia de chamar essa turma boa, da qual ele é amigo. Luiz Caldas tocou guitarra solo na música I Don't Smoke, Leonardo Reis toca contrabaixo e violão em Descarte-me, Um dia, Branca de Neve. O maestro Alfredo Moura assina os pianos e teclados. O guitarrista Edu Nascimento toca em Vizinhança.  Chamei amigos do rock daqui de Salvador também, Karl Franz Hummel  assina parceria comigo no  título, Moscou-Amsterdam e tocou todos os instrumentos nesse track. O veterano Hélio Rocha também toca guitarras na canção, Entrando no Espelho. Pedro Barrunfo assina as guitarras na faixa O Tempo e Estelionatária. Tem também o  Oyama Bittencourt e Jerry Marlon que mandaram ver no blues Bar Fly. E ainda tem a turma da perfumaria, que enriqueceu ainda mais o álbum, Estevam Dantas (sanfona) e Julio Caldas (bandolim e slide violão), no  folk country O Segredo do Sucesso.  Marcos Dó7 (tompete), e Caio Dantas (saxofone). Gravei uma música, (Bar Fly) do Duda Brandão, um grande amigo roqueiro de Feira de Santana.

Você segue uma linha bem definida, influenciada por poetas do rock como Lou Reed, Raul Seixas e Marcelo Nova, Bob Dylan. Como você trabalha essas influências na sua obra?

ML: Não tenho esse direcionamento, mas sim, são artistas que inspiram até hoje. Camisa de Vênus fez uma revolução musical com o rock aqui em Salvador, até o filósofo Felix Guatari em passagem pelo Brasil, o citam como uma banda contra o sistema em seu livro, Cartografias do Desejo. Comecei a escutar Raul Seixas com 11 anos. Lou Reed e Bob Dylan tiraram o rock do mero entretenimento ao acrescentaram psicofilosofia em suas letras. Mas esse  disco é diversificado, tem jazz, reggae, pop, e muito rock principalmente.

Como você vê a atual cena rock local? Tem mais lugar para tocar? Tem bandas interessantes? Há um público em potencial?

ML: Não dá pra comparar o público do rock de hoje com o de 20 anos atrás, são distintos, o rock tem essa facilidade de se metamorfosear com novos estilos. Este novo público de rock de Salvador é pulverizado e bem eclético, um hipster odara que curte rock, mas ao mesmo tempo gosta de outros gêneros musicais. Eu gosto do público do metal e aí vejo potencial sim, na sua maioria formada por moradores de bairros periféricos de Salvador, e isso é ótimo.

Quais são seus planos para divulgar esse disco? Festivais? Shows pelo interior?

ML: Dizer que tem muitos espaços e que a cena nunca esteve tão bem, seria hipocrisia da minha parte. São poucas as casas voltadas para o estilo, e aí vale a lei da procura e da oferta; muitas bandas, e poucos espaços. As poucas casas que abrem para o estilo não se preocupam com o que seja conceito, o que vale mesmo para eles é a grana, se a banda tem público ta ótimo, as pessoas estão consumindo e divulgando o local. São os que mais ganham no momento com a cena. No final das contas os artistas praticamente pagam pra tocar, uma relação meio que prostituta e cafetão. Para o rock local ser um movimento de verdade é preciso sair dos barzinhos e das pragas das bandas covers. Os festivais de rock baiano praticamente acabaram e também não vejo nenhuma banda que seja a salvação do rock’n roll.

Bicho, o que você quiser dizer, que eu não perguntei, pode mandar bala aqui.

É o caminho natural de quem lança um álbum com músicas autorais por aqui. Sim, já que entrei nessa de gravar o disco, vou até aonde puder apresentar meu trampo. Mesmo quando não rolar de levar a banda, eu me apresentarei sozinho com voz e violão. Então, vou aproveitar a oportunidade da apresentação dentro do projeto Ação, Cultura Itinerante, para fazer o lançamento do CD. Vamos levar o rock pras ruas, para as praças, para um lugar que a cerveja seja mais barata. Também vai rolar várias participações: Karl Franz (Camisa de Venus), Hélio Rocha, Eduardo Scott, Celso Dutra, e outros que ainda vão ser confirmados. A banda que tocarei nesse dia é composta por, Chico Sá (bateria), Danilo Raul, (baixo), Estevam Dantas (teclados), e Marconi Lins (guitarra e voz). Meu caro, Faltou eu dizer que o Cd estará sendo vendido pelo preço de 15 reais no show, mas pode ser baixado gratuitamente no meu site: www.marconilins.com

segunda-feira, março 21, 2016

PODCAST ROCKS OFF DISCUTE A JOVEM GUARDA BAIANA COM ZEZÃO CASTRO



Nesta edição, Nei Bahia e Osvaldo Braminha Silveira Jr. recebem o convidado José Carlos Castro Jr., o popular Zezão.

Jornalista contemporâneo do blogueiro na Faculdade de Comunicação da Ufba nos gloriosos anos 1990, Zezão é também Mestre em Comunicação e Sociedade (também pela Ufba) e pesquisador de mão cheia das origens mais profundas do rock - em geral e do baiano em particular.

Autor de uma vasta pesquisa sobre a Jovem Guarda na Bahia (a ser publicada em livro em breve), Zezão traz Os Minos (banda de Pepeu Gomes formada em 1966), Waldir Big Ben Serrão e outras adoráveis obscuridades locais.

Entre as revelações adiantadas pela figura aqui no podcast, uma que é literalmente divina: Irmã Dulce é a madrinha do rock baiano!

Hein, como assim?!?

Aumente o som, preste atenção e aproveite esta verdadeira aula do professor Zezão.

Bônus:

sábado, março 19, 2016

MORTOS-VIVOS À FRANCESA

TV: Premiada com o Emmy, a série francesa Les Revenants volta ao ar hoje no canal +Globosat, com sua dramática trama de pessoas mortas que voltam à vida sem a lembrança de terem morrido

Retornados chegando à cidade
O que você faria se, um belo dia, um ente querido já morto  batesse à sua porta – vivo e exatamente como era, antes de morrer? Poderia ser sua filha, um ex-namorado, sua mãe.

É esta situação que se apresenta na premiada série francesa Les Revenants, que volta ao ar a partir de hoje a noite, no canal +Globosat.

Já exibida no Brasil pelo canal MAX, a série, que tem apenas duas temporadas com oito episódios cada, ganha agora esta reexibição, uma boa oportunidade para quem não conseguiu assistir da outra vez.

Ambientada em uma isolada cidadezinha nos alpes franceses, Les Revenants mostra o que acontece quando pessoas mortas, de repente, voltam à vida, sem a lembrança de terem morrido, perplexos, em estado de confusão mental.

Quando seus parentes se deparam com os “retornados”, instala-se um drama familiar sombrio – com toques de sobrenatural – ao estilo dramatúrgico francês, com seus diálogos pesados, entremeados por silêncios e sussurros.

A trama centra-se em alguns personagens. Há Victor (o jovem ator Swann Nambotin, um achado da série), o menino sinistro e mudo cujos pais ninguém sabe quem são, e que é temporariamente adotado por Julie (Céline Sallette).

As irmãs gêmeas Lena e Camille (retornada): estranheza
Camille (Yara Pilartz), outra personagem de destaque, morreu em um acidente com um ônibus escolar, com várias outras crianças. Quando volta, encontra sua irmã gêmea Lena (Jenna Thiam) crescida, criando uma estranha situação.

Há Simon (Pierre Perrier), um jovem noivo que se suicidou pouco antes do casamento, e volta em busca de sua noiva, Adèle( Clotilde Hesme), agora casada com Thomas (Samir Guesmi), um tira local.

Já Serge (Guillaume Gouix), o serial killer local, voltou após ser assassinado pelo próprio irmão, Toni (Grégory Gadebois). Como seria de se esperar, algumas vítimas de Serge também voltam, como Lucy (Ana Girardot), personagem que terá grande importância no decorrer da trama.

Ao longo dos episódios, vamos descobrindo aos poucos as relações entre esses personagens e sobre o passado da cidade, que, algumas décadas antes, sofreu uma inundação com centenas de vítimas fatais após o rompimento de uma barragem, ao estilo Mariana.

Em ritmo lento, porém constante, Les Revenants se vale das excelentes atuações de seus atores e da ambientação intrigante, misteriosa, do seu desenvolvimento narrativo.

Como um bom produto francês, não oferece respostas fáceis e mastigadinhas, a exemplo de suas contrapartes norte-americanas. Em Les Revenants, mais vale a viagem em si do que o destino final.



Climão fúnebre

Camille, Lena, Serge, Lucy, Julie, Victor, Simon, Milan, Claire, Jerome
Outro ponto forte da série – e grande  responsável pelo seu climão fúnebre – é sua trilha sonora, criada pela banda escocesa de rock instrumental avant garde Mogwai, muito cultuada no circuito indie desde os anos 1990.

A base de piano, violoncelo, xilofone, guitarra e bateria espartana, a música do Mogwai é melodiosa e sombria na medida certa, potencializando um certo sentimento de pesar que permeia a obra.

Mais para Incidente em Antares (livro de Érico Veríssimo publicado em 1970) do que para The Walking Dead, Les Revenants é na verdade baseado em um filme francês de mesmo nome, lançado em 2004 e dirigido por Robin Campillo.

Com o tema aprofundado ao ser adaptado em série por Fabrice Gobert, Les Revenants é uma grande reflexão sobre vida e morte – ou melhor, como passamos pela vida e como reagimos à morte.

Com seus personagens atormentados e cheios de defeitos, a série é como um espelho partido de nossa própria fragilidade.

Les Revenants / Dir.: Fabrice Gobert / Com Anne Consigny, Clotilde Hesme, Frédéric Pierrot, Céline Sallette / Hoje, 21h30 e 22h30 (dois episódios) / Reprises: Domingo, 23h30, Quinta- feira, 13 horas e sexta-feira, 2 horas / Canal +Globosat

quarta-feira, março 16, 2016

AMOR SUPREMO PELO JAZZ

HQ: Em Coltrane, o italiano Paolo Parisi busca algo além do relato biográfico. Os resultados remetem ao sax fluente do seu personagem

Na capa do seu álbum Blue Train (1957), vemos John Coltrane com a mão no queixo e o olhar distante.

O registro do fotógrafo Francis Wolff – e as incontáveis horas de audição do jazzista norte-americano – marcaram para sempre um jovem do outro lado do Atlântico.

Não é por outro motivo que é a sua reprodução desta imagem icônica que estampa a capa de Coltrane, elogiada HQ biográfica de um dos mais geniais e influentes músicos do século 20.

“A primeira vez que ouvi Coltrane eu tinha 16 anos”, conta Paolo, por email.

“Eu tinha essa coletânea de faixas raras e alternativas de sessões com ele, Lee Morgan, Bud Powell, Kenny Dorham, Horace Silver. A capa era a foto do álbum Blue Train, de Francis Wolff, com design de Reid Miles”, diz.

Obcecado, Paolo devorou o álbum até gravar na mente cada nota.

“Posso lembrar e cantar cada nota ainda hoje. Me impressionou muito o som, a atitude na vida e na arte de Coltrane. Para mim, ele é um dos mais poderosos e completos músicos na história da humanidade”, diz.

Solo em quadrinhos

Em Coltrane, a HQ, o traço elegante e preciso de Paolo Parisi se presta a atuar como o sax do músico que dá título a obra, solando sobre sua vida e obra com aquela atitude de quem se recusa a aceitar ideias prontas.

“A ideia era criar uma narrativa não-sequencial no livro todo, como algo próximo a um solo de free jazz. Uma seleção de fragmentos curtos da vida pessoal, carreira e música do Trane”, afirma Paolo.

“Poderia escrever centenas de linhas sobre o sentido da história, mas é muito mais legal quando o leitor constrói seu próprio sentido”, acredita o autor.

Por isso mesmo, Paolo dividiu o livro em quatro capítulos, cada um com o nome de uma das quatro faixas de A Love Supreme (1965), álbum divisor de águas na sua carreira e considerado sua obra-prima,

“No A Love Supreme encontramos esta peculiaridade única: quatro partes, e não, quatro faixas. O próprio termo ‘parte’ remete a uma ‘seção’ de algo maior. Em um certo sentido, me remete também aos capítulos de um romance”, percebe.

Indicado tanto para fãs de jazz, quanto de boas HQs, Coltrane tem leitura ágil e agradável em suas idas e vindas no tempo.

Com diálogos curtos e muitas passagens rápidas, Paolo guia o leitor pela vida e obra do saxofonista, cobrindo  desde passagens de sua infância pobre na racista Carolina do Norte, até suas parcerias com Miles Davis, Thelonious Monk e Duke Ellington, além das relações amorosas, o vício em drogas e a consciência política.

“Podemos vê-lo sendo músico e homem nos anos 1950 e 60 nos Estados Unidos, seus relacionamentos, seu gênio – mas também seus limites e fragilidade. Isto é o que realmente me interessa, o que talvez seja o foco do livro”, afirma.

Ao tentar captar a essência da alma de Coltrane no nanquim, Paolo decifra para o leitor algo que está no âmago do próprio gênero.

“Penso no jazz como uma forte expressão de comunidade, algo urbano feito por gente pobre, que não tinha nada além de música. Jazz como pertencimento, como unidade espiritual”, diz.

Coltrane / Paolo Parisi / Veneta / 128 páginas / R$ 44,90

ENTREVISTA COMPLETA: PAOLO PARISI

Para você, o que é importante ao produzir uma biografia de um músico em quadrinhos? Quadrinhos são silenciosos, música não. Como resolve esse dilema?

Paolo Parisi: Não penso em quadrinhos como uma mídia silenciosa. Por que seria? O que você quer dizer com "silenciosa"? Eu sinto os sons quando leio algo, por que estou dentro da trama, se a narrativa é boa . Não acho que seja um dilema. É apenas um ponto de vista diferente.

Em poucas palavras, por que John Coltrane?

PP: A música está sempre presente em minha vida, esta ligação com o som é mais forte do que com outras mídias, e também como designer gráfico, sou apaixonado pelas capas dos selos Blue Note Impulse!. A primeira vez que ouvi Coltrane eu tinha 16 anos. Eu tinha essa coletânea de faixas raras e alternativas de sessões com ele, Lee Morgan, Bud Powell, Kenny Dorham, Horace Silver. A capa era a foto do álbum Blue Train, de Francis Wolff, com design de Reid Miles. Ouvi esse disco por muito tempo para aprender, até gravar em minha mente cada melodia, refrão, batida. Se tornou uma obsessão, eu acho. Posso lembrar e cantar cada nota ainda hoje. Me impressionou muito o som, a atitude na vida e na arte de Coltrane. Para mim, ele é um dos mais poderosos e completos músicos na história da humanidade. Ele sempre representou uma espécie de guia para mim. Penso no jazz como uma forte expressão de comunidade, algo urbano feito por gente pobre que não tinha nada além de música. Jazz como pertencimento, como unidade espiritual. Vamos pensar na AACM de Chicago (Association for the Advancement of Creative Musicians) ou no Black Artists Group de Saint Louis. Aqui encontramos um link estritamente musical para a política e a educação na comunidade afrodescendente americana. Penso no Coltrane ativista também: ouça o Olatunji Concert ou Live in Japan ou Ascension ou “Alabama” (composição dedicada às vítimas de uma bomba da Ku Klux Klan em uma igreja de Birmingham em 1963). Ornette Coleman disse uma vez: “Acho que o som tem uma relação mais democrática com a informação, por que você não precisa do alfabeto para entender música”. Música é um ambiente concreto, a mídia das mudanças sociais. Um código de entendimento imediato. Neste sentido, considero os quadrinhos também como uma mídia democrática, barata, impactante e com conteúdos de altas qualidades culturais. "Coltrane" é a consequência natural de todo este material: meu amor pelo jazz, narrativa e cultura pop.

Você escolheu uma narrativa não-cronológica para ilustrar os principais momentos da vida de Coltrane. Como você organiza esses momentos em uma narrativa coerente?

PP: A ideia era criar uma narrativa não-sequencial no livro todo, como algo próximo a um solo de free jazz. Uma seleção de fragmentos curtos da vida pessoal, carreira e música do Trane. Poderia escrever centenas de linhas sobre o sentido da história, mas é muito mais legal quando o leitor constrói seu próprio sentido. No A Love Supreme encontramos esta peculiaridade única: quatro partes, e não, quatro faixas. O próprio termo "parte" remete a uma "seção" de algo maior. Em um certo sentido, me remete também aos capítulos de um romance. Essas quatro partes criam o todo do álbum, concluindo com um solo / poema espiritual (Psalm), do próprio Trane. A Love Supreme também a "fronteira" para a produção seguinte do saxofonista: Ascension, de 1965, no qual Trane começa a experimentar explicitamente algo realmente diferente dos álbuns anteriores, em termos de sonoridade e composição. Eu só trabalhei deste ponto de partida: uma história do Trane em quatro capítulos que remetem às quatro partes do álbum. Podemos ve-lo sendo músico e homem nos anos 1950 e 60 nos Estados Unidos, seus relacionamentos, seu gênio - mas também seus limites e fragilidade. Isto é o que realmente me interessa, o que talvez seja o foco do livro. Também vemos estritamente relacionadas ao mundo do jazz, a máquina dos negócios e, não menos importante, a luta política e social dos movimentos pelos direitos civis da comunidade afro-americana.

Como você se inspira para desenhar os músicos em ação? Por meio de vídeos e fotografias ou você frequenta cafés e casas de show com papel e lápis?

PP: Não costumo desenhar em público. Geralmente, me inspiro em fotografias e vídeos, livros, capas de discos, material da web ou simplesmente catados na rua.

Muitos músicos norte-americanos de jazz tiveram de migrar para a Europa, em busca da atenção que não encontravam em sua terra natal. O jazz é mais afeito ao gosto europeu?

PP: Muitos artistas diferentes se mudaram para Paris em busca de novos empregos e trabalhos. Acho que, se você quer viver da própria arte (ou pelo menos tentar), deve estar pronto para se mudar para onde sua arte funciona melhor. Na França, a cena é vibrante, e consequencialmente, há uma forte política para promover a cultura em seu sentido total.

A Itália tem uma das maiores indústrias de HQ do mundo, liderada pela Sergio Bonelli Editore. Como esta indústria dialoga com artistas independentes como você? Ou são dois mundo separados?

PP: Tenho alguns amigos que trabalham como cartunistas profissionais, mas não estou tão interessado na indústria dos quadrinhos. Prefiro ligar meu trabalho às pessoas e editores que entendem o faço.

terça-feira, março 15, 2016

DU TXAI & OS INDIZÍVEIS MOSTRAM BOAS CANÇÕES NESTE SÁBADO NO TAVERNA

Ricardo Cadinho, Du Txai e Felipe Dieder, foto Uanderson Brittes
Guitarrista derradeiro da  Cascadura, o nativo de Porto Seguro Du Txai honra a tradição dos guitar heros revelados pela banda de Fábio Casca não apenas pela habilidade evidente com que manipula as seis cordas, mas também pela sensibilidade que demonstra em seu trabalho solo.


Bem acompanhado pelos Indizíveis – o baixista Ricardo Cadinho (seu colega nos tempos do Casca) e o baterista Felipe Dieder (Maglore) –, Du se apresenta neste sábado no Taverna, com o ex-Adão Negro Duda Spínola, que também se lançou solo recentemente.

Na internet já há algumas faixas do trabalho de Du, além de um clipe muito legal, para a música O Mergulho.

“Minha banda virou Du Txai & Os Indizíveis perto do término da Cascadura”, conta o músico.

“O lance de bater com o fim da banda foi coincidência, não teve essa coisa de ‘ah, vai acabar, vou fazer algo’. Algumas dessas músicas são bem antigas, de uma banda que eu tinha ainda em Porto Seguro, a Revolução Praiana, em 1999”, relata Du.

No show deste sábado, o guitarrista fará um set mostrando este seu trabalho: “O plano do show é mostrar 16 músicas autorais, mais algumas coisas que são influências, para pontuar. A gente sempre usa esse trunfo, a depender do contexto, para amarrar alguma coisa. Pode ser um cover, alguma coisa do Cascadura”, diz, bem humorado.

Músico 100% do seu tempo, Du conta que “tem meses que é sushi, tem meses que é pão com manteiga. Como diria Itamar Assunção, é vida de artista”, ri.

Por isso mesmo, o rapaz se divide com outros trabalhos, como as bandas de cover Rock Forever (Beatles) e The Poor Boys (Creedence Clearwater Revival).

“Vai pintando uma coisa ou outra. Entre a arte e o trabalho, a gente vai tentando trilhar um caminho. As coisas nem sempre andam na mesma direção, claro. Mas vivo de música há muito tempo já”, relata.



A paciência de trator

Dono de uma voz surpreendente, Du canta as vezes meio falando, encaixando uma pá de palavras corridas em frases que parecem caóticas, mas que acabam tocando pela sinceridade e sensibilidade.

A faixa do clipe, Mergulho, talvez seja a mais bem acabada desta leva, com sua levada a lá Belchior / Bob Dylan: “Toda vez que lavo louça eu lembro dela / e aquela paciência de trator que ela sempre teve / fluida, intensa, viva, imensa, imersa em nós de saudosismo / e espuma de sabão”.

“Já me falaram dessa semelhança com Belchior, mas nem escutei muito, confesso. Já o Dylan, sim. Cresci escutando Beatles, Bob Dylan, Gil e Caetano pra caramba, então não deixa de ter contexto. Era o feijão com arroz lá em casa. Meus pais tinha uma discoteca bem interessante”, lembra.

Vale ficar atento ao trabalho de Du Txai & Os Indizíveis.

Duda Spínola e Du Txai & Os Indizíveis / Sábado, 22 horas / Taverna Music Bar (Rua da Paciência, 127, Rio Vermelho) / R$ 15

www.facebook.com/DuTxai



NUETAS

Trigger & Legacy

O Quanto Vale O Show? de hoje leva ao palco do  Dubliner’s Irish Pub as bandas Trigger e Legacy. 19 horas, pague quanto quiser.

Rockambo: Calafrio

Três das melhores bandas da safra recente inauguram o evento mensal  Rockambo, que sempre trará uma banda do interior para a cidade. A excelente Calafrio, de Feira, é a interiorana da vez, com as locais Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes e Ronco. Quinta-feira, 21 horas, no Dubliner’s Irish Pub, R$ 10.

Scambo, Irmão...

As musicistas do Som das Binha: aos domingos no Cronópios
Sábado tem mais uma edição do Ponto Sonoro no Espaço Cultural Dona Neuza, com Scambo, Irmão Carlos e mais uma banda ainda não divulgada. 17 horas, gratuito.

Som das Binha

As mulheres comandam a jam session Som das Binha. Neste domingo e no próximo (27), 17 horas, no Cronópios (Rua Direito do Santo Antonio, 179), pague quanto quiser.

segunda-feira, março 14, 2016

ANIVERSÁRIO MALDITO

Emissoras pagas Space e Canal Brasil comemoram (comemoraram) os 80 anos de Zé do Caixão com maratona da série biográfica e exibição de seus clássicos

Mojica em seu longa mais recente, Encarnação do Demônio
Hoje Ontem, as hordas do mal se agitam agitaram em júbilo sangrento. Zé do Caixão, o patrono das trevas, completa completou 80 anos arrastando sua carcaça putrefata (e a de muitos outros pobres diabos) neste plano de existência.


Na verdade, foi no dia 13 de março de 1936 (curiosamente, uma sexta-feira), que nasceu o  cineasta e ator José Mojica Marins, criador do personagem.

Célebre desde sua primeira aparição em 1963, no filme  À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Zé do Caixão (ou seria o Mojica?) ganha programação especial em sua homenagem, em dois canais da TV paga.

O Space exibe hoje exibiu ontem, a partir das 19 horas, uma maratona com todos os episódios (seis) da série biográfica Zé do Caixão, com o ator Matheus Nachtergaele em grande atuação no papel-título.

Na sequência, por volta da meia-noite, vai ao ar o filme As Fábulas Negras (2014).

Filme de episódios, conta com a mais recente produção de Mojica na direção, no segmento O Saci, releitura do diretor para o famoso personagem com uma perna só do folclore nativo.

Difícil vai ser para os fãs decidir qual filme assistir, por que, no mesmo horário, o Canal Brasil inicia o ciclo Mostra Zé do Caixão 80 Anos, com seu longa-metragem mais recente, o assombroso A Encarnação do Demônio (2008).

Nos domingos seguintes, o Canal Brasil ainda exibe os clássicos À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1966),  O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1967), O Despertar da Besta (1969) e  Delírios de um Anormal (1977).

Versão dramática

Mateus Nachtergaele e grande elenco, em Zé do Caixão, a série
Baseada na biografia Maldito: A vida e o Cinema de José Mojica Marins, de André Barcinski e Ivan Finotti, que foi relançada no início do ano pela editora Darkside, a série Zé do Caixão tem o próprio Barcinski na criação dos roteiros, em parceria com Ricardo Grynszpan.

“A série é uma versão dramática da vida de Mojica em seis episódios, cada um centrado na produção de um filme importante de sua carreira”, conta Barcinski.

“O tema principal da série, a meu ver, é a luta de Mojica para fazer seus filmes. Ele era capaz de fazer qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – para filmar”, acrescenta.

Como a série de TV é também uma dramatização de eventos reais, alguns ajustes precisaram ser feitos, em nome da fluidez narrativa.

“A base da série é o livro que fiz com o Ivan, mas é claro que algumas coisas tiveram de ser adaptadas para ajudar dramaticamente a série”, afirma.

“Personagens foram ‘fundidos’, datas foram ajustadas, etc. Algumas histórias que relatamos não aconteceram exatamente nos períodos cobertos pelo episódio. Mas não existe nada ali que tenha sido inventado, tudo realmente aconteceu”, diz Barcinski.

Inventor do crowdfunding

Mojica e José Celso Martinez em Encarnação do Demônio
O jornalista, que conta com um grande número de seguidores do seu trabalho em cultura pop desde a publicação do seu livro Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano (1992, a ser relançado em breve), conta que estreou em roteiro de ficção com a série.

“Foi sim, nunca havia escrito ficção antes. Foi maravilhoso trabalhar com um roteirista como o Ricardo Grynzspan, que já tinha experiência em séries dramáticas, a aprender como selecionar o que realmente é importante ser contado”, diz.

“Sou jornalista e obcecado por fatos e detalhes, então, por isso, no início, tive certa dificuldade em compreender que a série precisa focar em alguns aspectos, não pode ser uma coisa ampla como um documentário, sob o risco de ficar chata e didática”, percebe.

Na série, vemos o ser humano José Mojica Marins – mais do que Zé do Caixão – com seu problemas e erros, como, por exemplo, o vício em estimulantes. Barcinski conta que, na época em que escreveu a bio, o cineasta chegou a reclamar da revelação pública.

“Só mostramos o texto pra ele com o livro pronto. Mojica ficou irritado por termos revelado várias histórias sobre alcoolismo e problemas pessoais, mas quem não ficaria? Mas ele nunca pediu que mudássemos uma vírgula. Acho que ele foi censurado o bastante na carreira para saber como é horrível fazer isso com alguém”, conta o autor.

Para além do mérito de sua obra, Barcinski ressalta o espírito de independência total do cineasta, que nunca gozou das benesses da extinta Embrafilme, como tantos dos seus colegas “sérios”.

“Mojica meio que criou o crowdfunding nos anos 50, quando vendia papéis em filmes para os alunos de suas escolas de cinema”, diz.

“Era a única maneira que ele tinha pra bancar os filmes. Até 2008, quando dirigiu Encarnação do Demônio, Mojica nunca recebeu um centavo do Estado. Pelo contrário: o Brasil só fez censurar seus filmes e prejudicar sua carreira”, afirma.

“A patrulha ideológica atingiu sim, o Mojica, já que o cinema dele era considerado ‘alienado’. No fundo era inveja, porque Mojica sempre foi sucesso de público”, conclui.

Luzes, câmera, caixão!

As Fábulas Negras
Hoje: Episódios 1 ao 6 da série Zé do Caixão / Canal Space / 19h15

Hoje: As Fábulas Negras / Canal Space / 0h

Hoje: Encarnação do Demônio  / Canal Brasil / 0h

Dia 20: À Meia-Noite Levarei Sua Alma / Canal Brasil / 0h 

Dia 27: Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver / Canal Brasil / 0h 

3 de abril: O Estranho Mundo de Zé do Caixão / Canal Brasil / 0h

10 de abril: O Despertar da Besta / Canal Brasil / 0h

17 de abril: Delírios de um Anormal /  Canal Brasil / 0h

ENTREVISTA COMPLETA: ANDRÉ BARCINSKI

A nova edição de Maldito, pela Darkside
A série é baseada em sua biografia do Mojica, escrita com o Ivan Finotti. O quanto do livro, mais ou menos, foi pra tela? Alguma "liberdade poética" (sem ironia) foi tomada ou o que vemos nos episódios é 100% real?


André Barcinski: A série é uma versão dramática da vida de Mojica em seis episódios, cada um centrado na produção de um filme importante de sua carreira. O tema principal da série, a meu ver, é a luta de Mojica para fazer seus filmes. Ele era capaz de fazer qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – para filmar. A base da série é o livro que fiz com o Ivan, mas é claro que algumas coisas tiveram de ser adaptadas para ajudar dramaticamente a série. Personagens foram “fundidos”, datas foram ajustadas, etc. Algumas histórias que relatamos não aconteceram exatamente nos períodos cobertos pelo episódio. Mas não existe nada ali que tenha sido inventado, tudo realmente aconteceu.

Lembro que, no início dos anos 1990, Mojica tornou-se cult nos EUA, originando o culto ao Coffin Joe. Seu livro foi a partir desta constatação, de um grande talento a ser devidamente reconhecido - e de uma grande história a ser contada?

AB: Na verdade a ideia do livro veio antes disso. Conheço Mojica desde 1985 e sempre achei sua historia de vida sensacional. Fiquei espantado quando percebi que havia pouquíssima literatura sobre ele, e botei na cabeça que ele merecia um livro. Ivan e eu levamos uns cinco anos fazendo a bio, que saiu em 1998.

Vi na série que Mojica foi viciado em bolinhas por um tempo. Quando vocês escreveram o livro, ele teve alguma reserva a este tipo de revelação? Ou ele apoiou vocês de forma irrestrita?

AB: Só mostramos o texto pra ele com o livro pronto. Mojica ficou irritado por termos revelado várias histórias sobre alcoolismo e problemas pessoais, mas quem não ficaria? Mas ele NUNCA pediu que mudássemos uma vírgula. Acho que ele foi censurado o bastante na carreira para saber como é horrível fazer isso com alguém.

Nachtergaele como Mojica em Zé do Caixão e amiga
A série é uma beleza de ambientação, atuações e narrativa. Como foi para você, um jornalista e escritor, participar da criação dos roteiros? Foi sua primeira experiência no ramo?

AB: Foi sim, nunca havia escrito ficção antes. Foi maravilhoso trabalhar com um roteirista como o Ricardo Grynzspan, que já tinha experiência em séries dramáticas, a aprender como selecionar o que realmente é importante ser contado. Sou jornalista e obcecado por fatos e detalhes, então, por isso, no início, tive certa dificuldade em compreender que a série precisa focar em alguns aspectos, não pode ser uma coisa ampla como um documentário, sob o risco de ficar chata e didática.

Nos anos 1970, Glauber Rocha chamou a atenção para o talento legítimo de Mojica, mas o pessoal não levava muito a sério (nem a ele nem ao próprio Glauber, imagino). A patrulha ideológica que o tachava de "alienado" afetava Mojica de alguma forma?

AB: Glauber falava pros amigos, mas nunca escreveu uma linha sobre o Mojica. Quem o elogiou mais destacadamente foram cineastas como Rogério Sganzerla, Luis Sergio Person, Carlos Reichenbach e Jairo Ferreira.  A patrulha ideológica atingiu sim o Mojica, já que o cinema dele era considerado “alienado”. No fundo era inveja, porque Mojica sempre foi sucesso de público.

Também vi na série que Mojica buscava financiamento independente privado para seus filmes - algo impensável hoje em dia, com todo mundo pendurado na Lei Rouanet e côngeneres. O que isso nos diz sobre ele e seus filmes?

Detalhes da edição nova de Maldito
AB: Mojica meio que criou o crowdfunding nos anos 50, quando vendia papéis em filmes para os alunos de suas escolas de cinema. Era a única maneira que ele tinha pra bancar os filmes. Até 2008, quando dirigiu “Encarnação do Demônio”, Mojica nunca recebeu um centavo do Estado. Pelo contrário: o Brasil só fez censurar seus filmes e prejudicar sua carreira.

A fama de Mojica nos EUA ainda existe ou o Coffin Joe já foi esquecido por lá?

AB: Claro que existe, tanto que Tim Burton veio ao Brasil e só queria duas coisas: ver o Carnaval e conhecer Coffin Joe.

Filmes e romances de gênero costumam ser vistos como "menores" por parte da crítica - e Mojica, com seus filmes de terror extravagantes, foi vítima desse preconceito. Por que isso é um erro?

AB: Acho que a história do cinema está cheia de exemplos de filmes de terror que viraram clássicos, do “Nosferatu” de Murnau às histórias de Drácula e Frankenstein produzidas pela Universal nos anos 30. O cinema noir americano tem muito de mistério também. Reduzir a importância de um gênero é uma besteira, seria como dizer que Edgar Allan Poe era mau escritor ou que Goya era um pintor vagabundo.

Mojica é o maior cineasta do Brasil?

AB: Perguntas assim são muito pessoais, mas, na minha opinião e para  meu gosto, ele é o maior cineasta que o Brasil já teve. Não conheço um filme brasileiro tão forte, transgressor e impressionante quanto “Ritual dos Sádicos / Despertar da Besta”.

Bonus-track: Sei que não estamos no seu blog e vc responde se quiser, mas off-topic: Barulho vai ser relançado? Quando? Muito obrigado.

AB: Vai sim, pela Darkside. Não sei se em 2016 ou ano que vem. Estou lançando pela mesma editora a biografia do João Gordo, que deve sair em agosto.

quarta-feira, março 09, 2016

FINALMENTE, UMA BANDA LOCAL QUE NOS LEMBRA: HEAVY METAL TAMBÉM É ROCK 'N' ROLL

Inner Call é heavy metal com elementos de rock ‘n’ roll. Confira show neste sábado

Rapaziada da Inner Call. Fotos: Rafael Almeida 
O cenário do heavy metal local está agitado.

As bandas estão se apresentando em festivais no interior, agitando apresentações no exterior e gravando álbuns que são lançados por selos especializados do Sudeste – alguns, inclusive, são lançados também fora do país.

A banda da vez aqui é a Inner Call, que acaba de lançar seu primeiro álbum pelo selo paulista  MS Metal Records e se apresenta neste sábado com outros dois pesos pesados locais: Drearylands e Veuliah.

Só que a Inner Call tem uma história um tanto  diferente. Formada em Salvador em 2008, a banda se desfez há alguns anos.

Seu baterista, Luiz Omar, teve de se mudar para São Paulo, por razões profissionais. Lá, ele resolveu reformar a banda, com outros músicos.

“Como eu pretendia continuar o projeto, pedi permissão aos demais membros para prosseguir”, conta.

“Após um longo período de buscas, a banda se estabilizou com uma boa formação e partiu para a gravação das músicas que viriam a compor o álbum”, relata.

Gravado o álbum com músicos paulistas e Luiz Omar, eis que o batera teve de voltar a capital baiana.

“Em comum acordo com todos na formação que gravou o álbum, eu retornei as atividades da banda para Salvador, cujo processo transcorreu sem maiores traumas e com a amizade mantida”, garante o músico.

Metal com rock ‘n’ roll

De volta, Luiz conseguiu recrutar de volta o vocalista original, Roberto Índio.

“E a turma das cordas, Alexandre Vitorino (guitarra e vocal), Uiliam Rocha (baixo) e Benson Lisboa (guitarra),  compõem um excelente time, que tenta ser o mais fiel possível aos arranjos originais, para que a quem veja o show ouça o que está gravado no CD”, afirma Luiz.

Um lance legal da Inner Call é que seu som não tenta ser o mais gutural ou radical de todos os tempos, algo comum entre as bandas metálicas baianas.

“A Inner Call é uma banda de heavy metal que usa elementos do rock ’n’ roll e flerta também com o thrash metal. Mas tem no metal tradicional sua influência mais forte”, diz o baterista.

Com a formação fechada e disco na praça, o quinteto agora parte para o corpo a corpo da divulgação, com alguns shows marcados, videoclipes e uma viagem a São Paulo em vista: “Temos objetivos muito claros. O primeiro é, claro, agendar shows que agreguem valor à banda”, conclui.

Metal Union Bahia: Com Drearylands, Veuliah e Inner Call / sábado, 22 horas / Dubliners Irish Pub / R$ 30

www.innercall.com.br

ENTREVISTA COMPLETA: LUIZ OMAR (INNER CALL)

Vejo que, quando você teve de se mudar para São Paulo, levou o nome da banda junto e a reformou por lá, com outros músicos. Essa formação gravou o disco e depois se desfez. Agora você está de volta a cidade com o nome, o disco e outros músicos locais. Todo esse movimento não comprometeu a identidade da banda, não?

Luiz Omar, durante o show no Palco do Rock 2016
Luiz Omar: Vamos lá Francisco. Esse é um ponto que sempre me preocupou e acabou fazendo que a decisão fosse adiada por muito tempo. Quando eu me mudei para SP, por razões profissionais a banda já andava um pouco parada, digamos assim. Até então não tínhamos definido pelo fim das atividades, mas a turma que ficou em Salvador acabou, literalmente, tocando projetos paralelos e a banda definhando. Então, como eu pretendia continuar o projeto, pedi permissão aos demais membros para prosseguir. Na capital paulista, após um longo período de buscas, a banda se estabilizou com uma boa formação e partiu para a gravação das músicas que viriam a compor o álbum. Já com todas as músicas gravadas e o disco prestes à ser lançado eu sentia que havia uma divergência muito grande de direcionamento para os planos futuros da banda, o que começou a criar atritos entre alguns integrantes e prejudicar a divulgação da banda e do álbum. Paralelamente a isso eu já estava de volta à Salvador, o que tornava os custos de ensaios e shows altos. Chegou um momento que essa decisão mais séria era necessária, uma vez que muita coisa estava envolvida e, em comum acordo com todos na formação que gravou o álbum, eu retornei as atividades da banda para Salvador, cujo processo transcorreu sem maiores traumas e com a amizade mantida. O Contato com os ex-membros é frequente e sempre recebo deles mensagens positivas para que a banda cresça cada vez mais. Como eu citei no início, essa decisão sempre me preocupou e um dos motivos era exatamente a questão da identidade. Minha primeira atitude quando da decisão de retomar a banda em Salvador foi justamente procurar a formação original. Infelizmente questões profissionais ou mesmo outros trabalhos musicais impediu uma volta perfeita. Mas, o Roberto Índio, vocalista original, aceitou o convite e hoje é, novamente, a voz da Inner Call. A turma de cordas, Alexandre Vitorino (guitarra e vocal), Uiliam Rocha (baixo) e Benson Lisboa (guitarra) - que compõem um excelente time - tenta ser o mais fiel possível aos arranjos originais, para que a quem veja o show ouça o que está gravado no cd. Eu diria até que a banda hoje soa um pouco mais pesada, mas é a Inner  Call que está no palco.
 
Pode contar um pouco como foi essa experiência no cenário metálico paulista?

LO: Experiência sempre é enriquecedora. Em são Paulo você convive com o que pode ser chamar de a nata da cena metálica nacional. A maioria das bandas que querem seu lugar no cenário acaba se mudando para a cidade. E junto com elas, a concorrência por espaços, todos eles. O cenário já é consolidado, existe um circuito de bares e casas voltadas basicamente rock e/ou metal e uma ampla gama de pessoas que tentam viabilizar a cena. Poderia até destacar alguns nomes. Mas, para não cometer a injustiça de esquecer algum vou me abster de fazer isso. Isso sem contar a quantidade de shows internacionais que de tão frequente já está se tornando rotineira. Hoje, quem mora em S.Paulo já está selecionando que show internacional irá ver, tamanha a quantidade deles. Você tem mais facilidade de acesso à produtores que sabem trabalhar com heavy metal e estúdios tops. Para citar uma situação, ensaiávamos em um estúdio cujo proprietário era roadie do Sepultura e não raro nos encontrávamos com músicos do Angra e outras bandas. Gravamos com um produtor altamente conceituado na cena.
 
O álbum foi gravado em SP. Pode contar quem produziu e como foram os trabalhos de gravações?

LO: Francisco, todas as músicas são, praticamente, composições minhas. Exceções feitas para Inner call, que tem origem na formação original e por ser fruto de três mentes distintas acaba carregando a influência dessas e I’m back (this is rock’n’roll) cuja estrutura melódica é composição de Márcio Farias, onde eu escrevi somente a letra. E essa música tem mais de 20 anos, mas soa tão forte e atual que eu não queria deixa-la de fora do álbum. Dessa forma, o direcionamento musical da banda acabou em minhas mãos e, tirando o trabalho de mixagem, que foi feito à distância, o trabalho de gravação foi relativamente simples. Fizemos uma pré-produção, para ajustar o tempo das músicas com metrônomo e eu só entrei em estúdio após ter devorado cada beat. A gravação de bateria foi feita em 04 horas e dois takes. Na semana seguinte, foram registradas cordas e vocais e aí partimos para a mixagem. A produção ficou dividida entre mim e o Pablo Nec, que fez a mixagem no Rio Grande do Sul, pois ele acabou se mudando para lá e essa foi a parte mais complexa do trabalho. O Pablo mixava a música, me enviava o piloto por e-mail para que eu ouvisse e dissesse o que desejava ser mudado. Essa etapa foi cansativa, demorada e difícil, gerando muito stress. Para se ter uma ideia, Bad minds precisou ser refeita e eu acabei gravando os novos arranjos de bateria em Salvador, no caverna do Som e enviando por e-mail para o produtor mixar no RS. Deu trabalho, mas o resultado final está sendo muito bom, as resenhas publicadas até o momento estão aprovando.
 
Qual estilo de heavy metal a banda segue - ou se aproxima mais? O que acha desse lance do heavy metal ser tão fragmentado em subgêneros?
 
LO: A Inner Call é uma banda de Heavy Metal que usa elementos do Rock’n’Roll e flerta também com o Thrash Metal. Mas, tem no Metal tradicional sua influência mais forte. A fragmentação do Heavy Metal em tantos sub-gêneros se dá basicamente pela necessidade do mercado em criar rótulos. Todas as bandas que usam denominações diferentes junto com o nome metal seguem um padrão de mercado. Evidentemente que alguns elementos são usados para que essas denominações façam algum tipo de sentido, mas todas as bandas partem do principio fundamental e insubstituível que é o Heavy Metal...long live to metal!!!
 
Quais os planos da Inner Call para 2016?

LO: Temos objetivos muito claros para 2016. O primeiro é, claro, agendar shows que agreguem valor à banda. Já temos algumas datas em eventos importantes, como 12/03 no Irish Pub, junto com dois pesos pesados da cena baiana que são a Drearylands e Veuliah e dia 09/04, temos o Vida Nova Rock, na concha acústica de Lauro de Freitas. Esse último, inclusive, tem caráter social, pois arrecadará alimentos, roupas e brinquedos para doação à sociedade local. Dia 17/04 faremos no Taverna a festa de lançamento do cd com alguns convidados especiais, incluindo um pocket show da banda. Vamos soltar dois singles até maio para apresentar a nova formação e também será gravado o vídeo-clip de um dos singles. O show realizado no PDR 2016 foi gravado em vídeo e dele serão extraídos dois clips que em breve serão disponibilizados. Para o segundo semestre estamos agendado em uma breve tour em SP e estamos agendando outras datas no estado. Em breve divulgaremos mais e boas notícias.

O vocalista original, Roberto Índio, de volta ao posto no Palco do Rock
Como vê o cenário do metal baiano?

LO: O cenário Metal Baiano está passando por um momento muito especial, muitas bandas de forte representatividade e que haviam encerrado suas atividades em meados dos anos 2000 estão voltando e novas bandas de qualidade estão surgindo, além de bandas tradicionais que não pausaram suas atividades estão fazendo muitos shows desde 2014. Um exemplo dessa mescla é o show que faremos no dia 12 de Março onde teremos a Drearylands em seu segundo show de retorno, a Veuliah que é uma banda que se manteve em atividade e a Inner Call que é uma banda rodada, mas "nova" na cena Baiana. Muitas outras bandas de qualidade mantém seus trabalhos e a consciência de união está bem mais latente, o que é importantíssimo. O que precisa ainda ser melhorado é a presença do publico que, em determinados eventos ainda se mostra em quantidade bem inferior à qualidade das bandas. Salvador sempre foi um celeiro de grandes bandas e músicos muito competentes e 2016 promete tornar isso bem evidente.

sexta-feira, março 04, 2016

A MAIOR BANDA DE ROCK (DE GARAGEM) DE TODOS OS TEMPOS: THE ROLLING STONES – MORUMBI, 27/02/2016

DE GARAGEM, SIM, POR QUE NÃO? Por Márcio "Rocks" Martinez

Menino Mick no Morumbi. Foto Lucas Lima / Uol (Posso tirar, se chateou)
Saímos sábado de manhã subindo a Rua Augusta sem pressa, rumo à galeria Ouro Fino onde minha esposa grávida de 4 meses da nossa filha queria comprar umas roupas infantis numa lojinha que geralmente vamos quando estamos em SP.

Após comprar uns bodies e vestidinhos de rock para Rafaela usar quando chegar cantando a este mundo e até completar um ano, continuamos andando pela galeria e vi na vitrine da loja Fock Fashion umas camisas dos Stones (óbvio!) que me interessaram para ir ao show.

Havia levado uma daqui mas estava meio velha, cheirando a guardada, já quase um baby look devido à proeminência de uma barriga aumentada aos 44 anos de idade e acabei comprando uma com uma imagem estilizada do Exile On Main Street, cinza grafite.

Saímos satisfeitos, descemos ao centro, demos o velho e obrigatório passeio pelo Mercado Municipal para umas também obrigatórias rodadas de Brahma Black (só lá conseguimos beber essa maravilha de Chopp escuro), almoçamos e rumamos ao apê na Lapa do casal que nos hospedou hospitaleiramente e que ficaria de nos levar ao Morumbi e nos pegar após o evento, dada a condição da minha esposa, com uma barriga parecida com a minha, eufórica por participar desse momento histórico, assim como eu, que só havia assistido aos Stones na (sempre) ótima companhia do dono deste brega (ooops, blog!) Nos idos de 1995, no Hollywood Rock no Rio de Janeiro.

Estava me sentindo cansado após os périplos desse dia? Sim, era o que eu achava, mas, após um banho frio relaxante e despertante, a euforia circulando pelo sangue como uma droga estimulante, a expectativa para logo mais nos consumindo de ansiedade, não havia nesga de cansaço pelo corpo, era estranho...

Pulando o blá blá blá de como se chegar ao estádio coisa e tal, chegamos e encontramos na frente da arena os amigos que também foram de Salvador, porém iam ficar na pista comum, enquanto nós na pista premium, resultado de economias que fizemos desde 2014 quando já se anunciava a possível vinda dos septuagenários roqueiros a esta terra tupiniquim ainda em 2015.

Nos separamos e, antes de entrar no espaço do show propriamente dito, comprei duas camisas-souvenir da turnê e entramos para providenciar os copões-souvenir da Budweiser, mais lembranças desta data que estava prestes a se tornar inesquecível...

Nem dei bola para os esforçados Titãs, já no final da sua apresentação de abertura, tanto era a fome, a vontade, a ansiedade por ver os verdadeiros titãs do rock, os responsáveis pela formação roqueira básica e clássica deste escriba prolixo que vos relata.

Welcome The Rolling Stones...

Guitarras rasgam as PAs de cima a baixo, anunciando que ninguém ali iria estar para brincadeira; Jack Flash entra pulando e se contorcendo (assim permanecendo o show inteiro!), segue com aquela que a gente gosta de qualquer jeito porque é só Rock’n’Roll, passa pelos dados que rolam igual a pedra até hoje para nunca criar limo, depois estamos todos fora de controle, alucinação geral, All Down the Line foi uma grata surpresa até então, mas nada, jamais, seria tão surpreendente e inusitado quanto a música escolhida pelo público para aquela noite memorável: She´s a Rainbow...

Numa brincadeira com meu amigo Nei, quando eu disse que votaria nessa sem nem saber que ela faria parte da lista de quatro a serem escolhidas pelo público um dia antes do show, ele me disse: “psicodélico você!!!”, no que repliquei que até eu tocaria essa ao vivo... Que inocência a minha... Gritei, esperneei, gargalhei não acreditando na bruta coincidência do que estava acontecendo, She’s a Rainbow, maaannn! Inacreditável, emocionante!

Em Wild Horses, fui às lágrimas, pensando em meu filho Marcelo, de quatro anos que, um dia, espero, venha a ser tão fã quanto eu (nós) dessa bandinha louca desvairada que nos faz parecer ainda moleques aos quarenta e lá se vão anos...

Bom, teve a sessão “agora só as putas”, parafraseando nosso amigo Cláudio Imortal Esc, com Honky Tonky Women, voltando quatro músicas mais tarde com Miss You; a épica Gimme Shelter, sempre catártica ao vivo, as guitarras parecendo querer implodir mais e mais a cada nova canção apresentada, o que quase acontece em Brown Sugar, para o grand finale de You Can’t Always Get What you Want com o Sampa Coral (arrepiante!) e o final de praxe, Satisfaction.

Estado de êxtase total, absurdo completo, adrenalina fluindo, pensem numa banda que hoje em dia toca como se ainda estivessem num boteco Honky Tonky só que na imensidão de um estádio! Era isso que soava, ainda melhor e mais jovem do que nos shows que fomos anos atrás...

Que mais posso dizer? Guitarras no talo, estridentes como numa banda de garagem, molecagens afins de vocês sabem quem, todos no palco rindo e se divertindo pra caralho, absolutamente nada burocrático, enfim, vivemos exatamente aquilo que já sabíamos como seria, ou melhor, suspeitávamos, com surpresas ainda possíveis a essa altura, que nos fazem sair de um evento desse com um sorriso largo no rosto, rasgando de orelha a orelha.