sexta-feira, julho 31, 2015

FAMA É PARA OS FÚTEIS

Festival: Em sua primeira edição, o Radioca chama o povo para conhecer um outro lado da música, menos famoso e mais legal
 
Cidadão Instigado, foto Haroldo Saboia
Parceiros no programa Radioca, da Educadora FM, o trio formado pelo jornalista Luciano Matos e os músicos Ronei Jorge e Roberto Barreto leva a agora sua proposta para outra plataforma: o Festival Radioca, que acontece amanhã e domingo, no Trapiche Barnabé.

Assim como no Radioca da rádio, o Festival busca trazer para o público local as boas novidades da música popular brasileira que não frequentam as playlists das rádios presas ao popularesco pelo jabá.

Então teremos no palco armado no Comércio nomes bem significativos do cenário atual, como o pernambucano Siba, a banda cearense Cidadão Instigado, a cantora paulista  Anelis Assumpção, a banda gaúcha  Apanhador Só e até a rediviva banda carioca Mulheres Que Dizem Sim, tida como precursora da cena los hermanizada que se desenvolve desde o fim dos anos 1990.

Em sua primeira edição, o festival foi viabilizado pelo Edital Bahia da Natura Musical. E mesmo não sendo um festival de grande porte, vem com tudo o que ocasiões do tipo tem direito, além dos shows em si: oficinas, mesas-redondas, Feira do Vinil, Mercadilho e os inevitáveis food-trucks.

Apanhador Só, foto Biel Gomes
Entre as mesas-redondas, merece especial atenção a do domingo, Como chegamos aqui? Um panorama dos últimos dez anos da cena independente, com mediação da coordenadora do festival, Carol Morena e participação de nomes de peso do jornalismo musical, como Bruno Nogueira (PE), Alexandre Matias (Trabalho Sujo - SP), Marcelo Monteiro (RJ) e Marcelo Costa (Scream & Yell - SP), além do trio realizador.

Em meio à correria da produção, Carol conta que “tudo está correndo surpreendentemente bem, na verdade”.

Paraibana, Carol já tem experiência na organização de festivais independentes em João Pessoa: “Só que lá nunca tinha dinheiro, era mais difícil. Então eu até brinco, dizendo que estou realizando meu sonho, que  é um festival em que eu concordo com tudo e com uma boa estrutura, patrocínio bom, equipe legal, pagando todo mundo”, comenta.

Já o realizador Ronei Jorge admite que “é um aprendizado. É estar do outro lado, chamar os artistas e ver todo o processo de  um festival, os cuidados com a equipe, a relação com as bandas, tudo”.

Música versus fama

Anelis Assumpção, foto Renato Stockler
Filha do inesquecível Itamar Assumpção (1949-2003), Anelis Assumpção é uma das grandes atrações do Radioca e conta que há tempos tenta lançar seu novo álbum, Amigos Imaginários, em Salvador: “Como é raro poder estar por ai, vou focar no repertório do disco, mas aproveitar também pra fazer algumas de fora”.

Em um cenário esquisito, onde ela é considerada uma grande artista, mas ainda é pouco conhecida pelo povão, Anelis considera que “o mercado independente se sustenta basicamente da corrente paralela, e a massa mesmo está de fora dessa corrente”.

“Não culpo quem não conheça nomes que já são pra mim como estrelas das artes. Não me culpo por não conhecer o Cristiano Araújo, que morreu há pouco, e era famoso. Somos muitas frentes. Aqui em SP mesmo, gosto de brincar que se falar meu nome na Praça da Sé em voz alta, ninguém saberá do que se trata. Gosto dessa imagem. Há sempre o que conquistar”, diz.



Já Fernando Catatau, guitarrista e mentor da cultuada Cidadão Instigado, vai em outra linha: “Já trabalhei com alguns artistas de grandes gravadoras, mas nunca me interessei por esse tipo de mercado. Esse lance de conquistar multidões é papo de comércio. Música vai bem alem disso”, afirma.

Com um elogiado terceiro álbum recém-lançado, Fortaleza, Catatau conta que “Muitas pessoas, principalmente em Fortaleza, vieram falar sobre a identificação com as letras. Isso  não tem preço. Por isso que eu falo que temos o público que merecemos”.

O Quadro chegou de Roskilde. Ft Luciano Imagens
“Quando eu escrevo uma critica ao sistema burguês que vem destruindo Fortaleza, muitas pessoas de vários outros cantos se identificam, porque não é um fato isolado. Em São Paulo, Salvador etc, a agressão é a mesma. Nos sentimos impotentes diante da máquina destruidora da construção civil. O que posso oferecer é minha música e minha indignação contra esse sistema”, conclui.

Atração local, O Quadro vem quente do festival de Roskilde (Dinamarca). “Foi genial. Público curioso, querendo disco, camisa e bis. Domingo vamos quebrar tudo”, avisa Ricô.

Sábado: Cidadão Instigado, Apanhador Só, Ifá Afrobeat, Pirombeira 

Domingo: Siba, Anelis Assumpção, Mulheres Que Dizem Sim, O Quadro 

Serviço: Trapiche Barnabé (Avenida Jequitaia, 5, Comércio) / 16 horas / R$ 30 R$ 15 / Vendas: Mito, Midialouca e Site Sympla / www.radioca.com.br

Leia ainda entrevistas completas com Anelis Assumpção e Fernando Catatau.

quinta-feira, julho 30, 2015

35 ANOS DANDO NO COURO

Show: Turnê comemorativa do Camisa de Vênus chega sábado a Salvador

Camisa 2015. Foto Mila Maluhy
É segunda-feira (27), quase cinco da tarde. E Marcelo Nova está morto – de cansaço, claro. “Rapaz, tô exausto. Morto!”, conta, pelo telefone.

“Fiz sete shows em nove dias. Quatro com o Camisa e três solo”, Mas os fãs baianos não precisam se preocupar. Neste sábado, o homem estará descansado e pronto pra botar pra f#$%.

É neste sábado que Salvador recebe o show comemorativo dos 35 anos de formação do Camisa de Vênus, a banda mais mal-criada, boca suja e afrontosa que já pisou por estas bem-comportadas bandas (com duplo sentido).

Liricamente mal-criada, claro. Afinal, este senhor não é mais um garotinho. Nem o baixista Robério Santana, único membro original na formação além de Marcelo.

Garotos são os outros músicos na banda: Drake Nova (guitarrista e filho de Marcelo), Leandro Dalle (guitarra) e Célio Glouster (bateria).

Quando pisarem no palco do Barra Hall, o Camisa já terá cumprido boa parte de sua turnê iniciada em maio, tendo passado pelo Rio de Janeiro, São Paulo (cinco noites entre o Sesc Vila Mariana e outras casas de show ), Fortaleza, Natal, Recife, Porto Alegre, Novo Hamburgo (RS), Belo Horizonte, Curitiba e Santo André.

 Entre um e outro, Marcelo ainda faz seus shows solo pelo interior de São Paulo. Se ele está curtindo? “Não poderia ser melhor. Na verdade, o Camisa tem 28 anos que não faz uma turnê”, lembra.

“A última foi em 1987, no lançamento do álbum Duplo Sentido. Até nos anos 1990, quando lançamos os discos Plugado! (1995) e Quem é Você  (1996) fizemos poucos shows, nada que cruzasse o país como agora. Então essa é a primeira tour em 28 anos, o que demonstra quão velho eu estou”, acrescenta.

No repertório, adequado para um show comemorativo, todos os sucessos que os fãs querem ouvir: Bete Morreu, Passatempo, O Adventista, My Way, Symca-Chambord, Silvia, Negue, Eu Não Matei Joana D’Arc, Gotham City etc.

Ficou facinho

Marcelo e Robério, os remanescentes
E não, não adianta perguntar: Marcelo não fala sobre a facção dissidente formada pelos ex-guitarristas Karl Hümmel e Gustavo  Mullen com o vocalista Eduardo Scott, que utilizou o nome Camisa de Vênus durante alguns anos em shows e até em um álbum ao vivo.

Em todo caso, ele diz que tem sido muito divertido voltar a tocar com seu velho parceiro, Robério: "Muito divertido, ele é meu parceiro e amigo há 35 anos. Foi com ele que montei o Camisa, ele foi a primeira pessoa a quem expus minhas ideias, a direção em que eu ia escrever as letras. Ele foi o primeiro parceiro do Camisa", afirma.

Ele afirma que a volta para essa série de shows foi motivada pelo convite feito pelo empresário Júnior Valladão (o famoso irmão de Nasi, do Ira!), da Agência Produtora.

“A empresa dele é uma das maiores agências de shows do Brasil. Tenho uma relação pessoal e profissional muito boa com ele. Em janeiro ele me ligou dizendo ‘parabéns, em 2015 faz  35 anos que você montou o Camisa’. Eu mesmo não tinha atentado pra isso”, relata.

“Aí ele disse que queria produzir essa turnê do Camisa. A partir daí tivemos algumas reuniões. Por que não me interessava fazer meia dúzia de shows”, conta.

Exigente, Marcelo pleiteou correr o país de cima a baixo com uma equipe técnica de primeira: “Eu quero som e luz primorosos. Depois falei com Robério e ele disse ‘tô dentro’. E assim foi. Como já tô com o Drake, Leandro e Celinho há sete anos, eu já tinha uma cozinha montada. Aí ficou muito fácil,  a verdade é essa”, diz.

Perto de completar 64 anos (dia 16 próximo), Marcelo ainda não pensa em lançar sua biografia tão rapidamente: “Tenho conversado com o (jornalista André) Barcinski. Mas vou devagar, é que surgiu uma febre de biografias impressionante no rock. A maioria é muito chata, só fala de droga, overdose, 'dei um murro na cara de fulano' e tal, essas coisas que mantem a mística do rock. Muito interessante para meninos, mas eu tenho 63 anos. Não me vejo como um Peter Pan do rock para percorrer esse caminho adolescente”, afirma.

A questão da biografia (ou autobiografia) para Marcelo Nova é algo muito importante. Justamente por isso ele não quer cair na banalidade comum às biografias de celebridades.

“O meu texto evoluiu por que me dediquei a isso.  Envelheci, e, com isso, veio a persistência de trazer mais consistência e complexidade ao meu trabalho”, afirma.

“Então vou devagar. Por que se um dia ela for lançada, certamente não será para criar mais polêmicas, fofocas, disse me disse. Isso você já  encontra na revista Amiga. Não precisa de autobiografia pra isso. E depois, adultos fazendo malcriação é muito feio, depõe contra”, observa.

Uma pergunta que não dava para deixar de fazer é perguntar como Marcelo vô o conturbado momento político - social brasileiro, com a lamentável dicotomia coxinha vs. petralhas dividindo a população.

"Olha, vou ter que voltar um pouco no passado. Meu pai viu o governo de Getúlio Vargas, Jânio, Juscelino. Eu era criança. Veio João Goulart e depois, o governo militar, depois Sarney, Collor de Melo, FHC e finalmente o PT. Ou seja, nós tivemos, nos últimos 60 e poucos anos, todas, absolutamente todas as vertentes ideológicas ou até mesmo algumas que nem tinham tanta ideia assim, mas foram todas: da extrema direita com os militares, a extrema esquerda. E todas as questões preponderantes do Brasil continuam sem serem resolvidas. Desde o mais básico, que é o saneamento básico! Começamos do chão, passando pela cultura, educação, desenvolvimento. Eu não voto há vinte anos. Quando preciso renovar meu passaporte, pago uma multa e tá resolvido. O que muda um país não é simplesmente a alternância de governos. O fato de você eleger um partido e tirar quatro ou oito anos anos depois é saudável, por que certos hábitos não se perpetuam, mas o que muda um país é a chegada de novas gerações, novas ideias. E isso, só o tempo pode tratar. Não se muda um país em 20, 30 ou 40 anos. Isso vai demorar muito mais tempo. A sucessão de pessoas, de gerações que se sucedem, não só na política. A vida acaba para quem morre. Para quem fica, continua como sempre foi", reflete Marcelo.

Com uma rotina de shows puxada, Marcelo conta que ainda não conseguiu se disciplinar para fazer exercícios, mas que tenta cuidar da alimentação.

"Não tenho nenhuma disciplina. Faço exercícios dois dias e depois fico dois meses sem fazer. Tenho preguiça de coisa metódica. Academia, nem pensar. Tentei uma vez e a instrutora disse 'você pega aqui' e tal. Aí tinha um cara de 40 anos do meu lado, de shortinho e luvinhas! Luvinhas de couro! Aí ele ia puxando ferro e fazendo aaaahhh! Aquilo me irritou profundamente, Pensei 'ou eu vou embora ou eu dou porrada nesse cara'. Isso não coisa de homo sapiens. Desisti. Foi a primeira e última tentativa. Mas procuro ter um pouco de cuidado na alimentação. Você fica sete dez dias na estrada, então tem que se cuidar, almoça um sanduíche,  janta na hora do lanche. Então eu tenho essa preguiça confessa, embora deva dizer que meu cérebro tá musculoso pra caramba, um verdadeiro Schwarzenegger!", ri Marcelo.

Procura-se caseiro

Espera-se que Marcelo um dia resolva isso, por que história para contar não lhe falta. Como a que ele relatou à reportagem, quando recepcionou em Salvador o guitarrista Mick Jones, guitarrista da banda inglesa Foreigner, da xaroposa I Want to Know What Love Is.

“Peguei e levei ele pra casa de praia do meu pai. Ele e a mulher ficaram extasiados com a comida da minha mãe. Ele me disse, quando for a Nova York, me procure”, conta.

Dois anos depois, em 1980, lá foi Marcelo bater na porta do homem.

“Ele me levou pra uma casa de campo a uma hora de Manhattan. Era cinematográfica. Aí ele diz: ‘Marcelo, você não quer vir pra cá e tomar conta, não?’ Pensei, quem sabe depois eu viro roadie da banda? Por outro lado, foi nesse mesmo período que sedimentei a ideia de ter uma banda de rock. Acabei optando por ficar no Brasil”.

A banda, como se sabe, toca sábado.

Show: Camisa de Vênus 35 anos / Abertura: Massa Sonora / Sábado, 22 horas (Abertura às 21 horas) / Barra Hall (Rua Barão de Itapuã, 218, Barra) / Pista: R$ 60 (meia), Camarote R$ 90 / Vendas: Balcões de ingressos e site Alô Ingressos / 16 anos

(NÃO) NOS ESQUECEMOS DELES

Filme: Clássico dos anos 1980, O Clube dos Cinco ganha exibição inédita em cinema no Brasil, via rede Cinemark. Produtor está no Brasil para comemorar os trinta anos

Que porra vamos fazer até as cinco da tarde presos aqui?
Um dos filmes mais cultuados das últimas décadas comemora três décadas.

Entre as muitas homenagens e tributos ao redor do mundo, O Clube dos Cinco ganha exibição em cinema (inédita) no Cinemark.

Hoje, em São Paulo, a exibição da cópia remasterizada será seguida de bate-papo com Andrew Meyer, produtor executivo do filme,  que veio ao Brasil participar do 4º Acting & Film Festival, uma iniciativa do Latin American Film Institute.

Um clássico contemporâneo e ícone da década de 1980, O Clube dos Cinco  (The Breakfast Club, 1985) não é, certamente, o filme mais famoso do diretor John Hughes (1950-2009). Este é o igualmente clássico Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, 1986).

Diferente do Curtindo..., O Clube dos Cinco não tem toda aquela produção, com direito a uma Ferrari  atirada pela vidraça da Ben Rose House, hoje patrimônio arquitetônico tombado da cidade de Chicago.

O Clube... é praticamente uma peça de teatro filmada, com elenco reduzido e um cenário que se limita a biblioteca de uma escola suburbana de Chicago, com direito a alguns passeios e correrias por algumas de suas dependências.

Presos na biblioteca

O elenco com John Hughes, de óculos
No filme, acompanhamos cinco jovens completamente diferentes entre si e que mal se conhecem, que são obrigados a passar um sábado inteiro “de castigo” na biblioteca por conta de suas indisciplinas, as quais o espectador vai descobrindo ao longo do filme.

Cada jovem corresponde a um estereótipo típico de qualquer escola no mundo.

Há Claire, a patricinha cheia de não-me-toques (a ruivinha Molly Ringwald, no auge da beleza). Brian, o CDF pressionado pelos pais (Anthony Michael Hall). Andrew, o atleta para quem não interessa o segundo lugar (Emilio Estevez). John, o  jovem durão de classe baixa (Judd Nelson). E por fim, Allison, a gótica esquisitona (Ally Sheedy). De olho em todos eles temos Richard, o diretor (Paul Gleason).

Ao longo do dia, todos acabam por se desnudar de alguma forma, expondo seus dilemas, problemas familiares e medos em uma convivência forçada que é praticamente uma terapia em grupo.

Quando o dia acabar, nenhum deles será mais a mesma pessoa.

O grande mérito do filme é essa abordagem universalizada e franca das dores e delícias de ser jovem, sem recorrer às baixarias e piadas de pum que se tornaram a regra nos filmes dirigidos ao público jovem.

Em seus 97 minutos, os cinco jovens fazem de tudo naquele pequeno cenário: se odeiam, se confrontam, se identificam, se apoiam, riem, choram, surtam, dançam, fogem do diretor pelos corredores  e até compartilham um inocente baseado. Enfim, vivem com uma intensidade que nunca haviam experimentado.

Baseado em diálogos rápidos e inteligentes, O Clube dos Cinco tornou-se imediatamente um filme cult, com direito a inúmeras citações na cultura pop desde então, além de ter rendido a banda inglesa Simple Minds o maior hit de sua carreira, (Don't You) Forget About Me.

A oportunidade de assisti-lo na tela do cinema é algo inédito, já que, na época, o filme não foi exibido no Brasil, tendo sido lançado direto em VHS.



Atemporal

Andrew Meyer
Em (brevíssima) entrevista exclusiva por email, Andrew Meyer afirma que “O Clube dos Cinco se tornou cultuado por que é um filme atemporal, com temas os quais qualquer um pode se relacionar: o conflito de gerações e as ‘camadas’ que os estereótipos (o nerd, o atleta etc) vão deixando pelo caminho”.

Como um filme que se apoia integralmente na força das atuações e nos diálogos, O Clube... precisava de um elenco perfeito para cada papel.

“Eu estava lá (nos testes) com o diretor de elenco. E não, eu não chamaria ninguém diferente”, afirma – com razão.

Ele conta que conheceu John Hughes ao ler o roteiro de uma de suas primeiras comédias: “Eu dirigia uma companhia de produção e li o roteiro de Férias Frustradas (National Lampoon’s Vacation, 1983). Achei muito engraçado e daí voei até Chicago para conhece-lo”.

O Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985) / Dir.: John Hughes / Com  Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson, Molly Ringwald e Ally Sheedy / Cinemark Shopping Salvador / Sábado (23h55), domingo (12h30) e quarta-feira (19h30) /  R$ 14 e R$ 7

quarta-feira, julho 29, 2015

DUO DOS IRMÃOS JENDE, BÚFALOS VERMELHOS & A ORQUESTRA DE ELEFANTES QUEBRA TUDO NESTA QUINTA NO TAVERNA

Los hermanos: Jamil & Thiago Jende formam um duo irado
Os irmãos Thiago (voz e bateria) e Jamil Jende (guitarra) já participaram – juntos ou separados – de algumas bandas do cenário, como No Off, TenTrio e Trônica.

Depois de shows com os duos sergipanos The Baggios e Lacertae, se ligaram que eles mesmos também já formavam um duo e começaram a trabalhar em repertório próprio.

Daí surgiu sua banda atual, a Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes, que já se apresentou em palcos da capital e do interior.

“A Búfalos surgiu após o fim da Trônica. Aí ficamos eu e meu irmão”, conta Thiago.

“Quem compunha as músicas era eu mesmo, mas sempre tivemos dificuldade de conseguir músicos que colassem mesmo numa banda”, diz.

Nesta semana, a dupla fraternal faz show na série  Noites Big Bross - Brechó Discos, com outra banda legal: Novelta, da ótima cena feirense.

Em seu espaço no site Toque No Brasil, é possível ouvir quatro faixas já gravadas pela banda que confirmam o talento dos irmãos em um som pesado, entrosadíssimo, cru e com influências classic rock.

“A The Baggios influenciou o processo inicial. Na época que toquei com eles (com a TenTrio) conversei muito com Júlio (Andrade, guitarra do The Baggios) sobre como suprir o grave numa banda de rock sem baixo e ele me deu muita ideia”, relata Thiago.

Mas quem pensa que, só por que se trata de um duo, a influência se limita a White Stripes e Black Keys, se engana.

“Tentamos trazer nossas influências de sempre: Led Zeppelin, Black Sabbath, Beatles, Secos & Molhados, Rita Lee & Tutti-Frutti, Mutantes e Raul”, enumera.

Álbum em breve

Depois de lançar um EP ainda no ano passado, Thiago e Jamil rodaram por Serrinha, Feira de Santana, Camaçari e inferninhos do Rio Vermelho.

“Agora já temos repertório completo para gravar um álbum. Queremos gravar no segundo semestre e vamos arriscar na produção caseira. Depois mandamos para um bom técnico mixar”, planeja.

Nessa quinta, confira os Búfalos e os Elefantes quebrando tudo ao vivo e desconstruindo Dos Margaritas (Paralamas).

Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes e Novelta (Feira de Santana) / Taverna Music Bar / 21 horas, R$ 10

Ouça: http://tnb.art.br/rede/bufalosvermelhoseaorquestradeelefantes



NUETAS

Cascadura replay # 1

Cascadura das Antigas! Fábio & Cia fazem todo o repertório do primeiro CD, #1. Showzaço para cantar junto hits imorríveis do rock baiano, como Nicarágua, A Verdadeira História do Doutor Cascadura, Julio's Boogie e muitas outras. Participações do meu guru, o baixista (e hoje compositor erudito) Alex Pochat e do grande guitarrista Toni Oliveira. Portela, sexta, 22 horas, R$ 30.

Wry, Teenage Buzz, Inventura e Tsunami

A excelente banda indie Wry (Piracicaba) faz show sábado, com Teenage Buzz, Inventura e Tsunami, mais o DJ Elettra (leia-se Messias GB). É a quarta (ou quinta?) visita do Wry a Salvador, desde o início do século. O blogueiro assistiu a pelos menos uns dois shows históricos desses caras em Salvador. Leia aqui a resenha do show no (saudoso) Miss Modular, há exatos dez anos. Uma pena que o melhor músico da banda (com todo respeitos aos remanescentes, que também são muito bons), o baterista Renato Bizar, não responda mais pelas baquetas do grupo, substituído por André Zanini. A Teenage Buzz está em alta, com um excelente álbum recém-lançado (aguardem matéria). E a Tsunami fará homenagem ao seu líder, Maicon Charles, que morreu afogado em junho último. Ou seja, será uma night de muitas emoções em um fim de semana muito concorrido em termos de shows. Sábado no Dubliner’s, 23 horas, R$ 15.

ATUALIZAÇÃO - Quinta-feira, 30

Amanhã, 31, o blogueiro discoteca na inauguração da comic shop Hell's Kitchen. Confiram flyer. Como sempre, compartilharei com os incautos presentes tanto o meu péssimo gosto musical, quanto minha inépcia no comando do programa Virtual DJ. Quem avisa, amigo é.

segunda-feira, julho 27, 2015

FINALMENTE, A MAIOR BANDA DE ROCK DO MUNDO

Relançamento: Original de 1971, o clássico álbum Sticky Fingers ganha edição comemorativa de luxo. Um dos discos definitivos do rock, o LP reúne diversos marcos

A divertida foto de divulgação de 1971. Foto: David Montgomery
O título mais comumente associado aos Rolling Stones é nada mais, nada menos que “A Maior Banda de Rock do Mundo”. É moeda corrente. Todo mundo já leu ou ouviu  por aí.

Mas poucos sabem o por que da honraria ou o que exatamente eles fizeram para merece-la. A resposta em duas palavras: Sticky Fingers.

Agora, o clássico álbum de 1971 acaba de ganhar edição comemorativa.

A versão nacional vem com o álbum original remasterizado e um CD bônus com versões alternativas inéditas e ao vivo, com destaque para a performance de Eric Clapton em Brown Sugar e a versão acústica de Wild Horses.

No exterior, a edição saiu tripla, com o disco 3 trazendo um show inteiro na Universidade de Leeds, naquele mesmo ano.

E sim, é claro que os Stones fizeram grandes álbuns ainda nos anos 1960 com o saudoso Brian Jones, como Beggars Banquet (1968) e Let It Bleed (1969). Só que, nessa época, os Beatles ainda existiam.

E mais: apesar de excelentes, esses (e outros) álbuns ainda não traziam em si o foco que tornou SF uma obra fechada, exata, na qual cada nota, riff e levada parece milimetricamente encaixada no lugar certo – e ainda assim, poucos álbuns soam tão soltos, sujos e espontâneos.

Entre os especialistas, SF é quase unanimidade como um dos melhores discos de todos os tempos e o  melhor dos Stones – sim, por que há quem prefira o álbum seguinte, o duplo Exile on Main Street (1972).

Mas enquanto Exile por vezes perde o foco em suas 17 faixas, SF fechou a tampa em dez – todas essenciais, clássicas.

Na época, o disco foi esperado com grande expectativa pelos fãs, imprensa e indústria. Afinal, seria o primeiro disco dos Stones após a perda trágica de Brian Jones e subsequente entrada de Mick Taylor.

Naqueles tempos, auge da indústria do disco, as bandas ligadas as grandes gravadoras – não importa o seu tamanho – eram obrigadas por contrato a comparecer com (pelo menos) um álbum novo por ano.

Lançado em 1971, Sticky Fingers encerrou um hiato de dois anos desde o Let It Bleed – uma eternidade para os padrões da época.

Mick J. (de virote?) bocejando na photoshoot
“Sticky Fingers eleva ao estado de arte o amálgama stoneano de blues e rock com um toque country mais pronunciado, graças a influência de Gram Parsons”, opina o economista Osvaldo Braminha Silveira Jr., ex-diretor da MTV na Bahia e estudioso incansável do rock clássico.

Ex-membro da banda The Byrds, Gram Parsons (1946-1973) ficou amigo de Keith Richards e Mick Jagger no final dos anos 1960, estimulando na dupla o interesse pela música country. O resultado apareceria em canções como Dead Flowers e Sweet Virginia (do Exile...).

“Tá tudo ali em termos de rock ‘n’ roll: irreverência, deboche, perigo,  relatos barra pesada, a perda da inocência e das ilusões, fazendo de Sticky Fingers um dos discos definitivos do rock”, acrescenta.

Outro nome fundamental no resultado de SF foi a entrada do guitarrista Mick Taylor na banda, recrutado para substituir o membro fundador Brian Jones, encontrado morto em sua piscina em 1969.

“SF marca a chegada definitiva de Mick Taylor, o melhor músico que passou pelos Stones. Gravado na estrada (no Alabama e na Inglaterra), tem blues, country e gospel traduzidos na linguagem pop de uma forma que nenhuma banda estadunidense chegou perto – mas aquele bando de ingleses fica a vontade, com total intimidade”, observa o químico Nei Bahia, outro aficionado, parceiro inicial de composição de Fábio Cascadura.

“É tão bom que quase ninguém lembra que a capa é obra de um tal de Andy Warhol”, sugere. Close de um homem “animadinho” em calças jeans justas, a ousada capa original trazia um zíper real, que, quando era aberto, revelava a cueca do rapaz.

Não se pode esquecer também a importância do produtor Jimmy Miller (1942-1994), um dos grandes produtores do rock clássico, que ainda assinou outros três álbuns dos Stones: os já citados Beggars Banquet, Let It Bleed, Exile on Main Street e ainda Goats Head Soup (1973).

Fim da Era Beatle

A estreia do selo Rolling Stones Records (e o logo da língua) foi com o SF
Superlativo em qualquer ângulo que se analise, Sticky Fingers é álbum de muitos marcos: tem a estreia de Mick Taylor, a influência country de Gram Parsons, a capa inovadora de Andy Warhol e ainda mais um: a estreia do selo Rolling Stones Records, que trouxe consigo o famoso logo da boca com a língua pra fora, um triunfo de design de John Pasche.

E, finalmente, com Sticky Fingers os Stones conseguiram  sair da sombra dos Beatles: “Depois de dois discaços consecutivos – Beggar´s Banquet e Let It Bleed, os Stones soltaram este petardo, provando que a Era Beatle pertencia ao passado”, provoca o artista Miguel Cordeiro.

“E foi então que ali se consolidou a frase de que eles eram ‘a maior banda de rock ’n’ roll do mundo’”, conclui, certeiro.

Faixa a faixa

Brown Sugar: O riff de abertura é tão clássico, tão característico e sacana que dá até para visualizar Keith Richards se curvando sobre a Fender, daquele jeitão. Em um boogie imperialista, Mick canta sobre “ingleses de sangue quente” enlouquecidos pelas moças de um puteiro em New Orleans.  

Sway: Outro riff que já entra lascando bonito, desta vez em ritmo hard blues. A voz de Mick mais rasgada do que nunca, plena de dor e Nicky Hopkins brilhando ao piano. Boa de chorar.

Wild Horses: Por falar em chorar, quem não fica com uma lágrima com essa aqui simplesmente não tem coração. Balada country levada ao violão, é as vezes meio difícil saber se Mick canta sobre uma certa nostalgia da infância ou se é mera dor de corno. O fato é que é uma das músicas mais dilacerantes do rock.

Can't You Hear Me Knocking: Faixa que começa R&B e cai num batuque latin jazz de rachar o assoalho. O assunto são as drogas, a fissura por mais uma dose. Não a toa, embala a abertura do filme Profissão de Risco (Blow, 2001), ambientada em uma plantação de coca no 3º Mundo. Grande momento de Bobby Keys (sax).

You Gotta Move: Releitura de um clássico  spiritual afro americano popularizado pelo bluesman Mississippi Fred McDowell. “Você pode ser rico ou pobre, mas quando o Senhor estiver pronto, you gotta move (você terá de ir)”.

Bitch: A faixa mais  agressiva e veloz de SF abre o lado B do vinil original. Riff sacanérrimo e balanço de arrasar. A vontade é de se acabar na primeira fila do show

I Got the Blues: Balada soul de arrepiar todos os pelos do corpo. O solo de Hammond de Billy Preston é uma pintura

Sister Morphine: Diz a lenda que essa é só da  Marianne Faithfull (gravada por ela em 1969), mas no disco aparece creditada a ela, Jagger e Richards. Espetacular visão em primeira pessoa de alguém prestes a morrer em uma cama de hospital. Ry Cooder quebra tudo no slide

Dead Flowers: Faixa mais debochada do LP, esse country influenciado por Gram Parsons. Sacaneia uma patricinha que se acha a Rainha do Underground

Moonlight Mile:Talvez a faixa menos apreciada do LP. Balada folk estradeira sobre a solidão da vida em turnês intermináveis

The Rolling Stones / Sticky Fingers / Rolling Stones Records - Universal Music / R$ 45,90

sexta-feira, julho 24, 2015

JERRY ADRIANI REPASSA CINCO DÉCADAS DE MÚSICA NO SESC CASA DO COMÉRCIO

Show: Com ingressos esgotados, produção abriu mais uma sessão do show 50 Anos de Carreira no sábado, as 18 horas

Jerry. Foto:  Rodrigo Meneghello
Houve um tempo em que rádio era sinônimo de AM. Nesse reino, os ídolos populares tinham feitio de galã de novela e voz de derreter corações femininos.

Nesse reino, poucos foram tão amados quanto Jerry Adriani. Hoje e amanhã, esse nobre senhor se reencontra com os corações que conquistou nos últimos 50 anos.

No show 50 Anos de Carreira, Jerry volta a Salvador para repassar a carreira em duas noites no SESC Casa do Comércio.

E a procura foi tanta que os ingressos esgotaram, levando a produção a abrir mais uma sessão no sábado, às 18 horas.

No repertório constam desde os hits que fizeram sua fama, como  Doce Doce Amor (primeira composição de Raul Seixas a ser gravada), Um Grande Amor, Querida e Indiferença, além de suas releituras para Renato Russo (e Legião Urbana), Elvis Presley e do já citado Raulzito.

Não por acaso, os 50 anos de carreira de Jerry coincidem com os 50 anos da Jovem Guarda, movimento ao qual foi associado logo de início.

“O show aí é de comemoração dos 50 anos da Jovem Guarda e da minha carreira. Então fazemos um retrospecto dando ênfase para as canções da JG. Mas não deixo de cantar Elvis, Renato Russo – de quem eu gravei um álbum inteiro – e Raul, que foi muito ligado a mim no início de nossas carreiras”, conta Jerry.

“Considero que hoje essas canções da Jovem Guarda,  moralmente falando, já são de domínio publico. Então o show passa pelo movimento: Roberto Carlos, Erasmo, Renato & Seus Blue Caps e por aí vai. Além de Elvis, que eu cantava desde que era aspirante”, acrescenta.

Outro Jerry Adriani

Aos 68 anos, Jerry continua ativíssimo, fazendo shows pelo país, aparições em programas de TV e gravando discos em que busca se renovar como artista.

Em setembro, ele lança um álbum novo com o qual promete surpreender  público e crítica, intitulado Outro Jerry Adriani.

É um trabalho totalmente diferente de todos que já fiz, com  canções de Lenine, Ivan Lins e Aldir Blanc. Canto até em inglês e francês”, conta.

“As duas únicas faixas que tem a ver com meu estilo são Judiaria (Lupicinio Rodrigues) e Medo da Chuva (Raul Seixas)”, acrescenta Jerry.

Incentivador de Raul Seixas em seu início de carreira, Jerry tem uma longa relação com a Bahia, estado que lamenta não visitar mais vezes para shows: “Isso é uma tristeza pra mim. Sou fã ardoroso da Bahia e estou  muito feliz com esses dois shows”, diz.

“Tenho uma longa relação de amor com a Bahia e muitos amigos, como Raul e Os Panteras, que foram minha banda de apoio por um tempão”, conclui.

Jerry Adriani: Show 50 Anos de Carreira / Hoje, 21 horas e Sábado, 21 e 18 horas / Teatro SESC Casa do Comércio / R$ 80 e R$ 40 / 14 anos



ENTREVISTA COMPLETA: JERRY ADRIANI

Como vai ser o show, Jerry?

Jerry. Foto: Rodrigo Meneghello
JA: Nosso show aí é de comemoração dos 50 anos de JG e da minha carreira. Fazemos um retrospecto dando ênfase maior para as canções da JG, mas não vou deixar de cantar Elvis, Renato Russo e Raul Seixas que foi muito ligado a mim. Ao meu convite, ele produziu três trabalhos meus e eu gravei a primeira música dele, fui eu que fiz o convite para ele ir ao Rio. Não podemos deixar de atender ao pessoal que tem expectativa de ouvir clássicos como Querida e Indiferença, além da JG em si, que foi um movimento do qual eu vim. Considero a coisa da JG um movimento que hoje essas canções, moralmente falando, já são de domínio público, no sentido que o público já se apoderou delas. Então no show eu passo por RC, Erasmo, Renato & Seus Blue Caps e por aí vai. Além de Elvis que eu cantava desde que era um aspirante.

Sua a carreira e a de Raulzito estão intimamente ligadas. Alguma homenagem a ele no show?

JA: Eu costumo cantar Medo da Chuva. Inclusive, fiz um disco novo que lanço em setembro, que é um trabalho totalmente diferente de todos que já fiz, com canções de Lenine, Ivan Lins e Aldir Blanc. Canto até em inglês e francês. O título é Outro Jerry Adriani. As duas únicas coisas que tem a ver com meu estilo é uma que já foi gravada pleo Arnaldo Antunes, Judiaria (Lupicinio Rodrigues) e Medo da Chuva (Raul Seixas).

O senhor tem uma longa relação de carinho com a Bahia, né?

JA: Tenho ido pouco aí, o que é uma tristeza pra mim, pois sou fã ardoroso da Bahia. Estou muito feliz com esses dois shows, que é como um reatar de uma longa relação de amor que tenho com a Bahia e os amigos, como Raul & Os Panteras. Apesar de que Eládio (d'Os Panteras) cometeu uma injustiça comigo outro dia, dizendo que eu não tinha nada a ver com a ida deles ao Rio, que tinha sido o Chico Anysio. Isso é verdade, só que eu fui a ponte, Chico me usou como ponte. Chico ajudou mesmo Raul & Os Panteras, mas quem deu força fui eu, eu botei eles numa casa e eles foram minha banda de apoio por muito tempo. Então foi chato pra mim o Eládio dizer isso. Mas comigo ou sem migo (risos), Raul era Raul e ia fazer sucesso de qualquer jeito

50 anos de carreira. Como o senhor avalia essas cinco décadas?

JA: Em agosto de 1965 acontecia o primeiro programa da JG na TV. A JG veio nessa esteira da beatlemania, chamada de Turma do Iê Iê Iê. Mas de carreira eu tenho muita alegria, não esperava essa longevidade que eu tive, mas a gente nunca acha, né? Graças a Deus, temos nosso publico. A JG tem um público muito fiel e eu tive a sorte de aparecer junto, trazendo alguma coisas novas, pois canto música italiana e tenho um vínculo com o rock que antecedia a JG. Eu fiz muito Elvis que Raul queria que eu fizesse. Depois o Renato Russo (no disco Forza Sempre). Tive algumas coisas que me deram uma boa sobrevida e estou muito contente e feliz e vamos continuar, especialmente agora com esse disco novo.



Ainda sente o preconceito da MPB que via cantores como o senhor (e outros considerados bregas) como algo menor?

Nos anos 1960.
JA: Isso me lembra a canção Resposta ao Tempo, do Aldir Blanc. No caso da JG, foi por causa da falta de ligação com o movimento político. Em si, o rock 'n' roll não atuou no campo político, mas indiretamente sim. Proibido Fumar era uma canção politica e Caetano entendeu isso por que é inteligente pra caramba. Aliás, esses baianos foram os primeiros entender isso, que o jovem era o grande contestador. Mas achavam que a JG era americanizada. Claro, a raiz era o rock, mas o rock é um movimento que, apesar de americano, é mundial. A JG ajudou a derrubar um monte de barreiras, pois antes não havia cantor de rock no Brasil. Eram versões, e a JG começou a nacionalizar isso aí. Dai veio  antipatia, o 'abaixo a guitarra'. Mas como abaixo a guitarra, se aí na Bahia você tinha Armando Macedo e Dodô inventando a guitarra baiana aí? Depois, todos eles usaram a guitarra também. Quem entendeu isso primeiro foi o pessoal da Tropicália, que ficaram do janela do hotel vendo a passeata lá de cima. Em comparação com a situação de antigamente, hoje a JG é considerada cult. E outra, ela trouxe uma brasilidade para o rock. A gente passava horas e horas no estúdio fazendo laboratório. Era um som universal com coisas brasileiras e a expressão do jovem. Se o cara usa brinco, deve a JG.

O senhor identifica seguidores nas novas gerações?

JA: Sim, modestamente falando, eu vejo. Não quero ser cabotino, dizer 'estão me imitando'. O Renato Russo me disse que a voz dele era parecida com a minha por que ele também era fã do Elvis, logo somos da mesma escola. Minha escola é na verdade o canto lírico italiano e Roy Orbison. O Raul até queria que eu gravasse Elvis logo no início, mas eu tinha medo. Mas sim, vejo em alguns cantores sertanejos e de rock um pouco  da minha escola, que é o vozeirão arranhado. A gente começou a fazer esse tipo de coisa. Mas eles não estão me imitando. É a escola. E não tem como não ter uma influência, um registro, uma escola.

quarta-feira, julho 22, 2015

PODCAST ROCKS OFF SAI DA MOITA E VOLTA DISCUTINDO DOC DO BANGUELA, CENA LOCAL DOS ANOS 90 E ANÚNCIO DE FIM DO CASCA

Tchau, galera! Valeu! Foto: Leo Monteiro
Depois de um longo e tenebroso verão, o podcast Rocks Off volta, depois de perder quatro programas seguidos por conta de rebeldia tecnológica.

Neste programa, Nei Bahia, Osvaldo Braminha Silveira Jr. e este blogueiro fazem uma pequena turnê pela alameda da memória rumo aos gloriosos anos 1990, a saber: o documentário Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94, a cena local da época e o anúncio do fim das atividades da Cascadura.

ENJOY - se puder....

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Bônus: trailer.

FINALMENTE, LO HAN LANÇA PRIMEIRO ÁLBUM COM SHOW GRATUITO, SEXTA-FEIRA

Rapaziada da Lo Han. Foto: Uanderson Brittes
O colunista é testemunha: desde 2005, a banda local Lo Han vem batalhando  pelos palcos de inferninhos e festivais, apresentando seu rock estilo classic, fortemente influenciado por bandas como Deep Purple e Whitesnake.

Agora, depois de dez anos dando a cara pra bater, o sexteto apresenta seu primeiro álbum, Get High.

E que estreia: produzido por um especialista neste tipo de som, o bluesman Álvaro Assmar, o álbum é extremamente bem gravado – e reproduz com perfeição a sonoridade analógica em 11 faixas em que o peso dos riffs de guitarra se alterna ao suíngue das levadas de baixo e bateria e à psicodelia do órgão Hammond.

“É culpa de Álvaro”, brinca o vocalista Rafael Breschi, o RB.

“Na verdade, em 2011 nós queríamos gravar um EP. Falamos com Álvaro, que sabe tudo de rock clássico. Ele pegou e falou ‘não percam tempo, vocês tem um repertório bom, vamos gravar logo um disco’”, relata.

Nesta sexta-feira, a gangue (Álvaro participa) lança o disco com um show gratuito no Teatro do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), que será gravado e transformado em um especial a ser exibido pela TVE.

“A Lo Han é uma banda de rock clássico. Não nos preocupamos em fazer nada com sonoridade atual. Esse e o nosso DNA e é importante deixar isso claro. Quem curte esse som vai encontrar no nosso disco e nos nossos shows”, avisa RB.

Lo Han Soluções Criativas

A capa ducacete de Kin Noise (PE)
Os caras são tão empenhados em reproduzir a sonoridade setentista que acabam recorrendo a soluções criativas próprias.

Na faixa The World Will Change Your Mind o tecladista Ricardo Lopo construiu ele mesmo uma réplica do famoso amplificador Leslie, só para reproduzir com seu órgão Hammond uma timbragem característica de outro teclado, o Fender Rhodes, aquele de Stevie Wonder em Superstitious.

“Ele mesmo construiu, aí gravou e logo depois pifou. Foi só para gravar mesmo”, conta RB. Por aí dá pra ter uma ideia do capricho dos caras na confecção de Get High.

“Álvaro deu uma aula. E Alexandre (Amoedo)  e Caio (Aslan, guitarras)  tem muito bom gosto, toda uma preocupação de fazer tudo analógico. Se tiver alguma interferência de plug in, é mínima” , garante.

Disponível para audição em plataformas de streaming on line como Deezer, Spotify e Rdio, Get High saiu pelo selo Star Blues, de Álvaro, tem uma arte linda do pernambucano Kin Noise e também pode ser adquirido em CD nos shows, por R$ 20. Uma pechincha.

Lo Han – show de lançamento do disco Get High / Sexta-feira, 20 horas / Teatro do IRDEB (Rua Pedro Gama, 413, Federação) / gratuita / CD: R$ 20



Ouça Get High:

Deezer: http://www.deezer.com/album/10756922

NUETAS

Calafrio e Bilic Roll

Já vistas na coluna, as bandas Bilic Roll e Calafrio (Feira de Santana) se apresentam quinta-feira no Noites Big Bross- Brechó. Taverna Music Bar, 21 horas, R$ 10.

Selvagens na cidade

A banda cearense Selvagens à Procura de Lei (cartaz ao lado) traz a Salvador o show de lançamento do seu novo álbum, Praieiro. A banda é uma boa novidade do rock nacional (sim, isso existe). A night ainda tem Teenage Buzz, Circo de Marvin  a DJ Carol Morena. Sexta-feira, 22 horas, Portela Café, R$ 20 (antecipado) e R$ 30 (na porta).

Callangazoo vezes 2

Na sexta e no sábado também tem a banda Callangazoo lançando seu quarto EP, Dipatchara. Teatro Gamboa Nova, 20 horas, R$ 10 e R$ 20.

terça-feira, julho 21, 2015

GENTILEZA E LIBERDADE

O ex-Maria Bacana André LR Mendes lança quinto álbum solo em cinco anos, tentando não perder tempo com bobagem

André LR Mendes é um amante a moda antiga. Foto: Cintia M.
Quem vê o  rapaz baixinho, parrudo e tatuado passando na rua nem imagina que ali vai um dos compositores mais prolíficos da música baiana.

Desde 2011, o cantor e guitarrista André LR Mendes tem se dedicado a lançar um álbum por ano, sempre no dia 15 de julho, data do seu aniversário.

O deste ano se chama Arquipélago e – assim como os quatro anteriores – está disponível para download no www.andremendesmusica.com.br.

Juntos, os cinco álbuns somam mais de 60 canções inéditas, gravadas em estética  espartana: voz, violão (ou guitarra), alguma percussão ou efeito eletrônico sutil embalando letras e melodias suaves, plenas de artigo cada vez mais raro –  especialmente na música baiana: delicadeza.

Se nos três primeiros (Bem-Vindo à Navegação, Enfim Terra Firme e Amor Atlântico), ele ainda lançava mão do serviço de produtores (andré t. no primeiro, Jorge Solovera nos outros dois), nos dois últimos (Surfbudismo e Arquipélago) ele passou a se autoproduzir através do aplicativo Garage Band, do iPad.

“A qualidade de gravação não chega a ser similar a de um estúdio profissional”, admite André. “Mas se você tem atenção aos arranjos e à execução, não fica tão aquém, não. Fora que você tem a liberdade de gravar a hora que quiser e testar arranjos a vontade”, afirma.

E para ele, essa facilidade gerada pela tecnologia digital é caminho sem volta: “Meu caminho é esse”, afirma o músico.

“É libertador. Faço tudo: da composição até a parte gráfica, só usando essa ferramenta. Então é o  ‘faça você mesmo’ –  a máxima do punk rock – total para os dias de hoje. Apesar do som não ter nada de punk”, observa André.



A saga da Maria Bacana

Matéria sobre a Maria Bacana. Revista Showbizz, 199?. Do 90'Underbahia 
De fato, não tem nada de punk rock no som que ele faz hoje. Mas tinha bastante, quando ele começou a chamar atenção nos anos 1990, ao liderar o power trio local Maria Bacana.

Admirada por grandes nomes do rock nacional como Wander Wildner e Dado Villa-Lobos, a banda lançou um único álbum autointitulado pelo selo Rock It! (de Dado), em 1997, legando hits do subterrâneo como Caroline e Primavera.

Não foi a toa que o guitarrista da Legião Urbana fez questão de lançar a antiga banda de André pelo seu selo desde 1995: o punk rock melódico e de letras sensíveis da Maria Bacana era claramente influenciado pela banda liderada por Renato Russo, então agonizando no leito de morte.

Lançado o álbum em 1997, a imprensa chegou a comparar a Maria com a Legião e tudo. Infelizmente, uma série de fatores levaram a banda a naufragar fragorosamente.

Sobre essa história, longa e complicada, vale buscar na internet o texto de Ricardo Cury que conta a saga da Maria Bacana.

Com os vinte anos daquele álbum histórico se aproximando, fica a pergunta: não rola um showzinho pra comemorar, não?

André no clipe da faixa Casa. Foto: Cintia M.
“Olha, tá todo mundo vivo e ninguém deu facada em ninguém, então não vejo por que não”, sinaliza.

Perda de tempo é ler os comentários

Mas agora André está mesmo concentrado é em divulgar Arquipélago. Quinto da série de álbuns solo iniciada em 2011, marca um momento bem difícil para o músico: a perda da mãe, no início do ano.

“O tema do disco é a transformação da vida. A transformação de algo difícil é algo positivo. Uma gotinha de amor e positividade nesse oceano de intolerância das redes sociais”.

“Até  falo sobre isso numa música: ‘Amor não é perda de tempo / Perda de tempo é ler os comentários do Uol’, na faixa O Amor Não Se Perde”, conta André.

Músico que, infelizmente, pouco se apresenta ao vivo devido a todas as complicações inerentes ao fato de ser um artista independente, André diz que pretende fazer um show para lançar Arquipélago.

“Tô doido para fazer show. Mas o alcance dos discos é muito maior. Artista solo, sozinho mesmo, tem que contar com a boa vontade dos amigos para tocar. Viajar é complicado, mas estou aberto para qualquer convite daqui ou de fora da Bahia, em qualquer formato: com banda, voz e violão, o que for”, avisa.

Elogiado a cada lançamento pela imprensa especializada (como a revista Rolling Stone e o site Scream & Yell), André convida quem tiver interesse a baixar seus discos: “É de graça, mas quem quiser pode contribuir com R$ 5, um valor simbólico”.

André Mendes / Arquipélago / Independente / Baixe: www.andremendesmusica.com.br

sábado, julho 18, 2015

ELRIC DE MELNIBONÉ GANHA EDIÇÃO NACIONAL E É BOA INTRODUÇÃO PARA AS FANTASIAS ANARQUISTAS DE MICHAEL MOORCOCK, O ANTI-TOLKIEN

Se JRR Tolkien (O Senhor dos Aneis) correspondesse aos Beatles da literatura de fantasia épica, seu conterrâneo Michael Moorcock certamente representaria os Rolling Stones.

E no primeiro volume de sua saga Elric de Melniboné estão evidenciados todos os porquês desta comparação.

Lançado há pouco no Brasil em  bela edição de capa dura, Elric de Melniboné Livro 1: A Traição do Imperador é a porta de entrada mais comumente utilizada por leitores do mundo todo para adentrar os universos delirantes de Moorcock, hoje um senhor de 75 anos, que ajudou a virar a literatura de fantasia e ficção científica de cabeça pra baixo entre os anos 1950 e 60, quando editou a revista inglesa New Worlds.

Foi sob sua batuta que, sintonizada no nascente movimento da contracultura, floresceu a chamada New Wave da FC, formada por escritores como JG Ballard (Crash), Roger Zelazny e Samuel R. Delany.

Anti-Tolkien declarado, o inglês escreveu já em 1978 um ensaio arrasador contra o Senhor dos Aneis, obra que comparou ao Ursinho Puff de A. A. Milne. (Leia aqui Epic Pooh na íntegra).

“O Senhor dos Anéis é uma confirmação perniciosa dos valores de uma classe média moralmente falida”, declarou, em 2011, ao The Guardian.

Mas é mais por sua vasta obra que Moorcock é, há algumas décadas, um dos autores mais cultuados do mundo.

Anarquista pragmático autodeclarado, seus protagonistas – denominados coletivamente de Campeões Eternos – são seres atormentados e de moral ambígua, mas sempre em busca de libertação.

“Meus livros frequentemente lidam com heróis aristocráticos, deuses e assim por diante. Todos eles terminam com uma nota que afirma enfaticamente que não se deve servir nem a  deuses nem a mestres – mas tornar-se o próprio mestre”, afirmou o autor à pesquisadora  Margaret Killjoy no livro  Mythmakers & Lawbreakers (AK Press, 2009).

Moorcock é influência declarada para todo mundo que veio depois, de Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison, a Game of Thrones e True Detective.

Herói imperfeito

Elric, seu personagem mais famoso, exemplifica com perfeição sua declaração. Imperador de Imrryr, a Cidade dos Sonhos, Elric é o príncipe guerreiro albino de longos cabelos brancos e olhos vermelhos, versado em magia negra, dado a crises de melancolia, viciado em drogas e apaixonado pela prima, Cymoril.

Em suma: um perfeito astro do rock.

(Não a toa, Moorcock, além de ser cultuado por muitas bandas e astros do rock que escreveram letras e álbuns baseados em suas obras, colaborou pessoalmente com as bandas Blue Öyster Cult e Hawkwind, escrevendo letras. Veteran of Psychic Wars, do BÖC, é a mais conhecida delas, constando inclusive da trilha sonora da clássica animação Heavy Metal: Universo em Fantasia, de 1981).


Veteran of 1000 psychic wars por queenhunter

Já o  povo de Melniboné, hedonista, imperialista e orgulhoso, dizem, descende não de macacos, mas de dragões.

Neste primeiro volume – de seis – Elric sofre um golpe de estado do seu próprio primo, Yrkoon,  que ainda aproveita para desposar a própria irmã, Cymoril.

Em sua luta para recuperar trono e pretendente, Elric invoca deuses, demônios e elementais, navega em embarcações mágicas, invade nações distantes, empunha espadas sugadoras de almas e penetra em outros mundos.

Tudo isso em menos de 200 páginas de uma narrativa trepidante e rica em suas descrições: “E quando o elmo se iluminou com a pouca luz (...), uma sombra branca revelou feições finas e belas... um nariz reto, os lábios curvados, olhos oblíquos. O rosto do Imperador Elric de Melniboné fitava a escuridão do labirinto enquanto ouvia os primeiros sons da aproximação dos invasores pelo mar”, escreve Moorcock.

Curiosamente, Elric nunca foi adaptado para o cinema. Todos os projetos para transpô-lo para a tela acabaram naufragando por uma ou outra razão.

Mas diversas HQs com o personagem já foram publicadas, inclusive no Brasil. Quem estava vivo e lia quadrinhos nos anos 1980 deve lembrar de sua aventura com Conan, publicada pela Marvel nos anos 1970, com roteiro de Roy Thomas e desenhos espetaculares de Barry Windsor-Smith.

Também foram publicadas por aqui uma graphic novel, A Cidade dos Sonhos (Ed. Globo, 1990) e uma minissérie em quatro edições, Navegante nos Mares do Destino (Ed. Abril, 1991).

Nos anos 1980 e 90 diversas outras HQs do personagem foram publicadas por outras editoras nos Estados Unidos.

Pontinha de um iceberg literário gigantesco, este primeiro volume de Elric é, espera-se, apenas o primeiro dos muitos livros  de Moorcock que ainda precisam ser publicados no Brasil, como o premiado Mother London, as aventuras do agente secreto Jerry Cornelius e a série do Multiverso, entre outros.

Elric de Melniboné Livro 1: A traição do Imperador / Michael Moorcock / Generale/ 182  p. /  R$ 41,90 / www.editoraevora.com.br


sexta-feira, julho 17, 2015

DIVERSÃO TAMANHO FAMÍLIA COM HERÓIS EM MINIATURA

Paul Rudd mandou bem com como o Homem-Formiga
Homem-Formiga, a segunda aposta do Marvel Studios em personagens praticamente desconhecidos do grande público (depois do espetacularmente bem-sucedido Guardiões da Galáxia) se mostrou acertada novamente.

 Assim como na estreia do grupo de aventureiros espaciais, a chegada do Homem-Formiga ao universo cinematográfico da Marvel se dá em uma história de origem, na qual conhecemos o personagem principal e como ele veio a se tornar um super-herói capaz de diminuir de tamanho e se comunicar com formigas de diversas espécies.

Até aí, nada demais. O que realmente impressiona é a habilidade com que a produtora equaciona com absoluta exatidão um personagem quase desconhecido com atores escolhidos a dedo, um roteiro perfeitamente equilibrado entre cenas de ação, FC, comédia, toques de drama e efeitos especiais – tudo na dose certinha, sem pecar nem pelo excesso, nem pela falta.

Elenco afinado

Evageline Lilly deixou a ilha de Lost para trás, finalmente
Paul Rudd, que encarna o personagem-título, foi um achado.

Comediante menos expressivo da “gangue” do diretor Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos), fazia sempre o cara “simpático-porém-meio- bronco”  em filmes como O Idiota do Meu Irmão (2011), Eu Te Amo, Cara (2009) e Faça o Que Eu Digo, Não Faça o Que Eu Faço (2008).

Em Homem-Formiga, Rudd floresce e se assume como a estrela do show, mesmo que do seu jeitão relutante de sempre.

Já Michael Douglas está claramente se divertindo como o cientista criador da tecnologia de redução e herói aposentado.

Quem também aparece muito bem é Evangeline Lilly, a eterna Kate de Lost, em seu primeiro papel de destaque após tantos anos ilhada.

Corey Stoll, na pele do vilão Darren Cross / Jaqueta Amarela poderia até ser melhor aproveitado, aparecendo mais da segunda metade para o final do filme, mas como se trata de uma história de origem, compreende-se.

Corey Stoll é Jaqueta Amarela, o vilão
Mas ninguém rouba  cenas tão bem quanto Michael Peña como Luis, o melhor amigo de Scott Lang / Homem-Formiga.

Carismático, o chicano tem sempre uma gracinha desconcertante na ponta da língua, arrancando risadas da plateia a cada aparição na tela.

Típico conto hollywoodiano do loser que se torna herói, Homem-Formiga é um filme tão amigável que poderia ser uma daquelas produções da Amblin (produtora de Steven Spielberg) dos anos 1980.

No fim das contas, parece que a troca de diretor pouco antes do início das filmagens não alterou muito o resultado que já se esperava.

Peyton Reed manteve muito do que Edgar Wright, inglês idolatrado por filmes cult como Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead, 2004) e Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, 2010), já tinha delineado.

O resultado é mais um belo recanto no mundo narrativo que a Marvel se ocupa em construir.

quinta-feira, julho 16, 2015

PONTO FINAL: CASCADURA ANUNCIA FIM DA BANDA PARA NOVEMBRO

Em nota divulgada no Facebook, banda fundada por Fábio Cascadura alega dificuldade de conciliação entre compromissos profissionais e pessoais. Shows já acertados até novembro serão cumpridos

Cadinho, Thiago, Fábio e Di Txai. Foto Givas Santiago
A notícia foi publicada ontem no Facebook e gerou tristeza entre os fãs: a Cascadura, uma das principais bandas baianas, anunciou que estará encerrando suas atividades até o mês de novembro, quando cumprirá seus últimos shows.

“Nós do Cascadura desejamos comunicar à todos que acompanham nossa carreira (...) que, no segundo semestre deste ano de 2015, encerraremos as atividades da banda”, diz o anúncio.

Em seguida, vem a justificativa: “Tomamos essa decisão levando em consideração a circunstância de já não ser mais possível conciliar os muitos projetos profissionais e pessoais que temos, com as demandas de uma banda como o Cascadura”.

Procurado pela reportagem por telefone, o líder e fundador Fábio Cascadura Magalhães reforçou a posição: “Viemos conversando algum tempo sobre isso, então foi um processo natural. Já há algum tempo não conseguimos mais conciliar nosso projetos pessoais com a banda”.

"Inclusive, a gente faz pouco show e pouca turnê por que gostamos de fazer tudo com planejamento e cuidado. Isso acontecia quando tínhamos muito tempo livre e pouca atividade profissional fora da banda. Hoje, pra fazer uma simples reunião é uma ginástica. Não falta disposição (para shows e turnês), mas é tão difícil conciliar as demandas de cada um. Pô, se é difícil se juntar para uma reunião, imagina gravação de disco, turnê, shows? Então discutimos bem, fomos amadurecendo (a decisão de acabar), até voltamos atrás e depois repensamos. Chegamos a conclusão na boa, todo mundo entendeu. Uns entendem com tranquilidade, outros nem tanto, mas todos concordamos em terminar agora. Tudo foi discutido entre a gente, o que já tínhamos marcado, alguns shows, e aí,  cancela ou faz? Mas dá para fazer de boa, sem inventar histórias, de foma honesta. Poderíamos levar a formação atá o fim do semestre e só depois anunciar, mas decidimos vamos falar logo e ser honesto para não rolar telefone sem fio", relata.

Fábio é hoje professor de História em duas escolas (uma particular e uma pública, estadual). “E também desenvolvo uma pesquisa sob orientação acadêmica. Estou terminando meu trabalho de iniciação científica”, conta.



Processo de dispersão

Cândido, Toni, Pochat, Jean e Fábio nos gloriosos 90's
Formada hoje em dia por Fábio, Thiago Trad (bateria), Du Txai (guitarra) e Ricardo Cadinho (baixo) a Cascadura surgiu no cenário em 1992, ajudando a compor uma geração brilhante do rock baiano, na qual se destacaram bandas como  Úteros em Fúria, The Dead Billies e brincando de deus, além da Dois Sapos & Meio e Inkoma, as quais revelaram Peu Souza e Pitty.

Lançaram cinco álbuns, todos muito queridos pelos fãs da banda e do rock baiano em si: Dr. Cascadura #1 (1997), Entre! (1999), Vivendo em Grande Estilo (2004), Bogary (2006) e Aleluia (2012).

No próximo dia 31, a banda cumprirá no Portela Café a primeira data dos shows de despedida, executando todo o repertório do primeiro álbum, comemorando os 20 anos de sua gravação, realizada em 1995, nos Estúdios WR.

“A ideia desse show do dia 31 é resgatar o Cascadura das Antigas,  um projeto que fazemos anualmente com ex- membros convidados, para tocar o repertório dos dois primeiros discos”, conta Fábio.

“Então temos algumas ideias de reeditar esses eventos nesse ‘processo de dispersão’ da banda. Deve rolar show acústico e homenagens as ex- membros. Ainda estamos definindo”, diz.

Depois do “processo de dispersão”, Fábio, Thiago, Du e Cadinho seguirão seus próprios caminhos, musicais ou não.

"A vida musical segue. Thiago tem vários projetos: Bailinho de Quinta, Bahia Experimental e aulas em comunidades carentes. Outro dia ele fez uma tour de quase dois meses pelo Brasil, Argentina e Uruguai com o Bahia Experimental. Nessa mesma época pintou convite para um show (do Casca) em São Paulo, daí veio outro. Esperamos Thiago terminar a turnê para irmos a SP. Fomos e daí rolaram ainda mais convites. Só que quando marcaram a data, chocou com minha agenda acadêmica. Protelamos para outubro. Essas coisas do cotidiano mostram para gente que ou vamos levando de qualquer jeito ou tomamos uma atitude mais séria, com um encerramento transparente, claro", conta.

“Carreira solo eu ainda não pensei. Vou deixar rolar. No momento eu me vejo mais dedicado a carreira acadêmica, que está sendo muito gratificante. A prioridade agora é dar um desfecho bacana para a banda”, conclui Fábio. 

Show: Cascadura das Antigas / Com Cascadura e convidados / 31 de Julho, 22 horas / Portela Café / R$ 20 (antecipado, no www.sympla.com.br)  R$25 (lista amiga) ou R$ 30 (na porta)

quarta-feira, julho 15, 2015

CALAFRIO, DE FEIRA: ROCK SEM INFLUÊNCIA DE MPB E COM REFERÊNCIA A DOSTOIEVSKI

Calafrio. Foto: Guilherme Caixeta Andriani.
Se cuida, Salvador.

Enquanto por aqui os hipsters (com o perdão da má palavra) repisam Novos Baianos, trio elétrico e MPB de formas pouco convincentes, a  cena roqueira do interior volta e meia surge com novidades reanimadoras. Feira de Santana que o diga.

Olha só a experiente banda Calafrio, que tem quase dez anos de estrada e lançou há alguns meses  o ótimo EP Bater de Frente, seu terceiro.

Em cinco faixas, o quarteto liderado por Siddhartha Gautama (voz, guitarra) faz um pequeno tratado rocker contemporâneo (outra má palavra), que soa reconhecível em suas referências (Led Zeppelin, grunge, stoner) e de quebra aponta adiante, afinal, “pedra que rola não cria limo”.

“Bater de Frente é um disco  conceitual, sobre quatro vidas dentro de um local. O trabalho de capa tem uma pegada visual de HQ”, conta o vocal.



Dostoievski e acordeom

“Começa com Nerva, que fala de nossa filosofia. Nos inspiramos nos dilemas do homem moderno, com referências do Crime & Castigo de Dostoievski, sobre uma pessoa que não consegue viver com um segredo e a culpa”, descreve Siddhartha.

Hein? Enquanto o colunista catava o queixo no chão, o rapaz continuou falando da sua faixa preferida do EP, Segunda Chance.

“Essa é sobre uma menina que se autodestrói. Se boicota para começar de novo. E tem um clipe bem legal, por que todo mundo imaginaria que teria uma mulher inconsequente, mas botamos um homem vestido de mulher, um crossdresser”, conta.

Já a última faixa, A Mão Pesada do Destino, é um tango-rock, com o acordeom de  Rogerinho Ferrer emprestando uma sofisticação sônica inusitada ao som do Calafrio.

"Começamos a banda em 2006, eu e Pedro (Patrocínio, voz e guitarra). No início se chamava Dogma. Um ano depois passamos para Calafrio, pois já tinha uma banda chamada Dogma. Lançamos logo o primeiro EP em 2006 mesmo, aí mandamos para o Palco do Rock e fomos selecionados. Depois teve também uma seleção para o palco Guetto Square no Festival de Verão, com curadoria do Carlinhos Brown. Fomos selecionados, tocamos e foi ótimo. Lançamos o segundo EP em 2008, com a música Ácido, que se tornou um hit local, o pessoal pede bastante nos shows, popularizou mais o som da banda por aqui. Mas o cenário era um pouco diferente então a internet não estava ainda tão presente. Depois de um tempo, o batera teve que morar fora fora, mas mantivemos a banda. Com o início do Feira Coletivo rolaram alguns festivais, de um sacode na cena, aí voltamos a trabalhar mais, nos descobriram e muita gente começou a nos procurar por aqui. Começamos tudo de novo e particpamos de outros festivais", relata.

"Aí em Salvador, já tocamos no Palco do Rock, no Festival de Verão e em um bar que não lembro mais o nome. Na volta, quase fomos para as cucuias. O motorista bateu a van. O cara desmaiou no posto de gasolina e deu ré, quase que a van bateu na bomba. Depois disso ficamos meio traumatizados", ri Siddharta.

Se o(a) dileto(a) leitor(a) curtiu, vale baixar o trabalho da banda no seu site e mais: comparecer no show que eles fazem por aqui no dia 23, dentro da série de eventos Noites Big Bross - Brechó Discos.

“Vamos tocar o EP novo, mais músicas do primeiro EP com nova roupagem. É nosso melhor repertório. Estamos em nossa fase mais madura em letras e arranjos”, diz.

A Calafrio é Siddhartha Gautama (voz e guitarra), Pedro Patrocínio (voz e guitarra), Vinicios Borges (baixo) e Robson Souza (bateria).

Ouça / Baixe: www.calafrio.com.br

Noites Big Bross - Brechó: Calafrio e Bilic Roll / Dia 23 (quinta-feira), 21 horas / Taverna Music Bar  / R$ 10



NUETAS

Flauta e Cartel

O Noites Big Bross - Brechó Discos apresenta nesta quinta-feira as bandas A Flauta Vértebra e Cartel Strip Club. No Taverna, 21 horas, R$ 10.

Domingueiras do HC

O coletivo hardcore Tomanacara promove show colaborativo com as bandas Dimak, Sbórnia Social, Antiporcos e Barrunfo do Samba. Ainda tem bate-papo sobre mobilidade urbana com Daniel Bagdeve (Bike Anjo SSA), exposição de shapes da ESC Skate Art e mini-bazar cultural.  Domingo, na pista de skate do Imbuí, 14 horas, colabore com o valor de um ingresso.

Encontro com Buenas

Nosso amigo Tarcísio Buenas manda avisar que o lançamento do seu livro, 18 de maio, quanto tens por dizer..., é nessa sexta-feira. No bar O Líder, Largo 2 de julho, a partir das 19h30. Leia mais sobre aqui.