terça-feira, agosto 15, 2017

NOSSO HOMEM EM BUENOS AIRES: VAN DER VOUS SE ESTABELECE NA ARGENTINA, ONDE LANÇOU SEU SEGUNDO ÁLBUM

Vitor Vous Matos, homem banda. Foto: Ieroque
Surgida em 2013 em Salvador, a Van der Vous foi pioneira na onda de bandas locais pós-piração los-hermânica, já namorando com  a psicodelia contemporânea de bandas como Tame Impala e Temples.

Após um elogiado primeiro álbum, La Fuga (2014), o band leader Vitor Vous Matos se mudou para Buenos Aires.

Na mala, levou o parcialmente gravado Espectro Solar. Lá, concluiu o trabalho e o lançou.

Com isso, a Van der Vous é agora, a exemplo do Tame Impala de Kevin Parker, um projeto solo.

“Estou de forma definitiva por aqui”, conta Vitor.

“Para produção de discos, por enquanto, sim,  não é algo definitivo (a permanência) dos integrantes da banda, (então) encaro a VdV mais como um projeto solo que conta com músicos (quando ao vivo) e participações em gravações”, acrescenta.

Na capital argentina, Vitor tem garantido sua sobrevivência como muitos outros músicos mundo afora: tocando nas ruas e estações de metrô – o famoso busking.

“Tive foco na construção e lançamento do novo disco e por agora trabalho como artista de rua no metrô de Buenos Aires, o que me permite viver de música e desenvolver improvisos e experiência para o próximo álbum”, conta.

“Sobre shows ainda não tive tempo para montar uma banda. Pretendo, antes disso, prensar o novo disco”, diz.

Psicodélico e objetivo

Ligeiro, Espectro Solar enfeixa dez faixas em menos de 24 minutos, o que facilita sua audição em tempos de pressa smartphônica – sem prejuízo para a estética psicodélica buscada pelo músico.

“O novo álbum é uma exteriorização pessoal de minha vida, colada nas canções. Não há foco estético, e sim, o desenvolvimento no atual momento”, despista Vitor.

A má notícia é que, tão cedo, não se verá shows da Van der Vous por aqui. “Por enquanto não há oportunidades (para a VdV) aí no Brasil. Por pouco iríamos tocar em São Paulo e realizar uma turnê sul-americana pela SecultBA, mas infelizmente o projeto não passou por falta de recursos”, diz.

“Aqui em Buenos Aires estou, aos poucos, conhecendo a cena e os festivais que ocorrem por aqui mas, por enquanto, meu foco principal está no desenvolvimento e trabalho como músico. Apesar disso, a resposta positiva com relação ao novo álbum me deixa tranquilo  – estou surpreso com as vendas no Bandcamp – e a divulgação diária no metrô está dando resultado. O disco completo está disponível no site oficial: www.vandervous.com. Para quem puder ajudar na prensagem do novo álbum, acesse: www.vandervous.bandcamp.com”, conclui.

www.vandervous.com



NUETAS

The Honkers show

Não vai sobrar um assento seco em todo o auditório: os fabulosos The Honkers recebem uma pá de convidados supimpas em  show comemorativo dos três anos da session Quanto Vale o Show?. Hoje, 19 horas,  Dubliner’s, pague quanto puder.

Laia e Levante!

As bandas Laia Gaiatta e Levante! se apresentam sexta-feira na Casa Preta (Rua Areal de Cima, 40, Dois de Julho). 19 horas,  R$ 15 (compartilhe post do evento e pague R$ 10 na lista amiga).

Bagunça no sábado

Flerte Flamingo, Bagum, Jadsa Castro e Djalma se apresentam na 3º edição do Bagunça. Sábado, 20 horas, no Clube Bahnhof (antigo Idearium). R$ 10 (lista), R$  20.

Neila, Irmão, Dyou

Integrante do coletivo Som das Binha, Neila Kadhí se apresenta com  MC Dyou e Irmão Carlos em nova edição da  Incubadora Sonora neste sábado, no  Portela Café. Às 22 horas, só R$ 5.

segunda-feira, agosto 14, 2017

LOKURA EM ALTA FIDELIDADE

Clássico do rock e da MPB, Loki?, de Arnaldo Baptista, volta em vinil 180 gramas via Polysom. Despercebida na época, obra ganhou status de cult graças à genialidade insana do ex-Mutantes

Arnaldo em 2017, divulgando nova mostra de quadros. Ft Henrique Queiroga
Ao contrario do que pensam muitos empresários e produtores, a música popular pode (e deve) tratar de outros temas além das dores da traição amorosa e demais banalidades correlatas.

Os males da alma, o isolamento e, digamos, os discos voadores já inspiraram grandes artistas e criarem obras referenciais, eternas.

No Brasil, um álbum movido a tristeza e loucura incipiente é há mais de 40 anos reverenciado como um dos melhores do rock nacional – e da MPB mesmo: Loki? (1974), do ex-Mutante Arnaldo Baptista, que agora volta às lojas no formato perfeito para ouvi-lo em toda a sua grandeza: em LP de vinil 180 gramas.

Gravado logo após sua saída dos Mutantes e do seu divórcio de Rita Lee, Loki? é o desabafo, o grito de dor de um homem extremamente talentoso e sensível em um momento especialmente frágil: isolado em um sítio na Serra da Cantareira (SP), entre o abuso do LSD e  a sanidade que começava a lhe abandonar, um processo de degradação que culminou em uma tentativa de suicídio em 31 de dezembro de 1981.

Felizmente, Arnaldo sobreviveu e – mesmo tendo de viver com as sequelas daquele período trágico – está hoje feliz, vendo sua obra (solo e com os Mutantes) ser cada vez mais aclamada como uma das mais fundamentais da psicodelia planetária.

Não a toa, nomes como Kurt Cobain, Sean Lennon, Devendra Banhart, Kevin Parker (Tame Impala)  e a revista inglesa Mojo, entre outros, já rasgaram declarações de amor ao eterno Mutante.

“(Estou) Adorando a vida, achando as coisas que acontecem de repente maravilhosas, que nem esse lançamento”, diz Arnaldo ao telefone.

Conhecido pelas obsessões audiófilas (guitarras, só marca Gibson e amplificadores, só valvulados), Arnaldo aprovou com louvor a qualidade sonora do vinilzão 180 gramas de Loki?: “Com a profundidade maior dos sulcos no vinil de 180 gramas, a agulha penetra mais, então dá um grave mais poderoso”, justifica.

“Tenho a impressão de que Loki? foi o (meu trabalho) mais marcante, foi feito numa época da minha vida que eu precisava mostrar isso. Estava sem gravadora, sem conjunto, sem nada, Então foi uma coisa importante na minha vida e na minha carreira”, afirma.

Power trio sem guitarra

Arnaldo no sítio da Cantareira, 197? Foto Grace Lagoa
Ainda que seja considerado “de rock”, Loki? é – como os melhores discos de rock, na verdade – uma obra que transcende os limites do gênero, tornando-o quase indefinível.

A começar pelo fato de ser um disco que, apesar de ser considerado de rock, prescinde do seu instrumento mais simbólico: a guitarra. Quase todas as músicas apresentam apenas piano, baixo e bateria.

“Eu meio que me desapercebi disso, por que o disco (na época do lançamento) foi muito mal divulgado. O André Midani (então diretor da gravadora Philips) não gostava de mim, eu acho, aí não divulgou o disco. Então o pessoal não ficou sabendo”, diz Arnaldo.

Se o próprio Arnaldo nem tchuns para esse “mero detalhe”, o mesmo não se pode dizer dos seus parceiros Dinho Leme (bateria) e Liminha (baixo), colegas Mutantes que gravaram Loki? com ele.

“Quando comecei a gravar com o Dinho e o Liminha  não precisou de muito ensaio. Foi tudo no improviso, e o Liminha não queria assim, queria que fosse igual ao Yes: ‘Ah, não quero nada disso, tá parecendo Sérgio Mendes’! Aí eu disse ‘vai ficar assim mesmo’, e foi assim a gravação”, resume.

"Uma coisa que é importante na minha carreira, no sentido de experimentar sem guitarra, com o piano fazendo que nem no Oscar Peterson (Trio), no Zimbo Trio, uma parte total sem guitarra e no fim uma música só de guitarra (É Fácil)", acrescenta.

O resultado é uma coleção de dez faixas em 34 minutos que valem por um mergulho no mar de angústia que afogava o músico na época.

O que separa gênios como Arnaldo dos meros mortais é que, mesmo agonizante, o mergulho é pleno de arte: pianos que vão do clássico ao honky-tonky à bossa nova na mesma faixa (Será Que Eu Vou Virar Bolor?), teclados Moog emoldurando a mais sublime das dores (Desculpe), samba psicodélico com arranjo de Rogério Duprat (Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?), delírios molhados adolescentes (Vou Me Afundar na Lingerie) e por aí vai. Um monumento.

Outro fator interessante do álbum é sua capa, onde o músico aparece apoiado pelos braços sobre um cenário espacial. "Eu tinha uma casa  na Cantareira e a gente queria fazer uma coisa quase como se fosse num templo, né? Na foto, eu tô de costas para o céu na sacada da casa. Na contracapa eu tô deitado no chão com um anjo atrás de mim, uma estátua. Então ficou bonito", diz o músico.

Em 2013, Arnaldo disse a este jornalista que estava gravando um novo álbum para o qual já tinha até título: Esphera. Infelizmente, este ainda não viu a luz do dia, quatro anos depois.

"Ainda não tenho (previsão de lançamento). Quando me perguntam isso, eu sempre falo: 'a Lucinha é que sabe'. E ela fala: 'Deus é que manda'. É que ainda não tem nada certo, mas vai ser importante para o que vem acontecendo na música em relação a ele", afirma.

E finalmente: Arnaldo continua não gostando do Alice Cooper (como ele canta em Será Que Vou Virar Bolor?)? "Eu não gostava era de um caso que a Rita (Lee) tinha, que era com um roadie do Alice Cooper (quando este se apresentou no Brasil em 1974). Então falei isso para ser contra ele, até por que não gostava dele mesmo, por que matava animais no palco", justifica.

(Segundo o próprio Alice Cooper em entrevistas, pessoas na plateia jogaram uma galinha no palco durante um show. Ele jogou a galinha de volta, que acabou prontamente destroçada pela turba ensandecida).

Com o relançamento, Arnaldo, que hoje mora em um sítio em Juiz de Fora (MG), tem corrido algumas capitais fazendo shows.

“Fiz  três datas agora em Brasília. Tá pintando uma leva de shows que vai satisfazer meu público. Aí em Salvador ainda não sei, mas se pintar alguém que queira comprar, eu vou e faço”, afirma. Em outubro, ele se apresenta em Recife – dica pros Loki locais.

Loki? / Arnaldo Baptista / Polysom - Universal Music / Preço sugerido: R$ 89,90

terça-feira, agosto 08, 2017

ABRIGADO NO SITE DE MÚSICA DA REVISTA VICE, WEB-SÉRIE CENA MORTA É RETRATO DO HC LOCAL AGORA

Rosa Idiota (foto: Fernando Gomes): episódio on line nesta quinta-feira
Editoria de música da conceituada revista gringa / site de notícias Vice, o Noisey, em sua edição brasileira, abriu as portas para as bandas do hardcore baiano ao abrigar a série documental Cena Morta.

Com onze episódios de dez minutos cada, o primeiro já foi ao ar, com a banda Aphorism.

Quinta-feira entra on line o segundo, com a Rosa Idiota (que lançou  um ótimo álbum de estreia, ouçam no BandCamp).

A iniciativa – 100 % do it yourself, sem grana de governo, sem patrocinador etc – é de alguns abnegados militantes do HC  local: Fabiano Passos, Rodrigo Gagliano (Ivan Motosserra), Mari Martins e Eduardo Dudu Lima (TomanacaraHC).

“A série, inicialmente, foi um projeto encabeçado por Fabiano Passos (Estopim Records) aliado com o pessoal do Tomanacara (Eu, Rodrigo e Mariana) para fazer um documentário sobre a cena local. Já assistimos diversos documentários como  Botinada (2006) e American Hardcore (2006), falando das cenas de determinados locais. Mas Salvador não tinha o seu, e já passava da hora de ter. Problema é que descobri que fazer um documentário não é tão simples, cortar falas é horrível e se fossemos lançar naipe documentário teríamos de fazer uma pesquisa histórica maior, assim como reduzir o tamanho das falas para não ficar maçante”, afirma Dudu.

“Com a websérie isso não rola, é uma parada mais tranquila de se ver. E pelo que temos visto da recepção, geral já está esperando o segundo episódio”, acrescenta.

No vídeo da Aphorism vemos a banda entrevistada por Fabiano e ao vivo no estúdio – duas pauladas que não é brincadeira, não.

“Desde a minha adolescência eu estou envolvido ativamente com o hardcore, sendo através da Estopim, bandas ou coletivos que já fiz parte. Nos últimos anos passei a me dedicar muito ao audiovisual, mas foram poucas as vezes que uni as duas coisas. Percebi que existia muito pouco material de vídeos das bandas da cena hardcore aqui da Bahia na internet e que podíamos mudar isso, já que no nosso meio havia outras pessoas que trabalhavam com audiovisual. Fiz a proposta pra galera do Tomanacara, que aceitaram prontamente. Sempre pensei no projeto como um scene report, apresentando o que estava sendo feito e, de certa forma, esquecendo o caminho que foi trilhado até aqui. Foi a forma que achei para não ficar nostálgico. A nostalgia algumas vezes congela as atitudes das pessoas, que passam só a reverenciar o passado ao invés de usa-lo como uma referência. A idéia era mostrar as bandas que estão ativas, tocando, produzindo, algumas delas possuem membros ativos na cena a muito tempo, mas outras apresentam uma nova galera que está ai, fazendo as coisas acontecerem. O projeto foi criado para ser um longa metragem, mas no processo de edição percebemos que teríamos que retirar muitas falas boas, por causa do limite de tempo do formato, por isso resolvemos lançar como web-série”, acredita Fabiano.

Sim, ainda estamos nessa

E esse é o ponto central de Cena Morta: partir de um título auto-irônico para mostrar uma cena vivíssima, ativa, diversa e que não pede nem espera nada de ninguém.

“Sempre se ouve que ‘a cena morreu’, bom era no início da década de 00, ou ainda a velha pergunta: ‘Você ainda está nessa?’. Na real, a cena não está morta, você que não faz mais parte dela”, afirma Dudu.

“Tranquilo, pra algumas pessoas é só uma fase, para se recordar futuramente. Pra outros ela continua aí, criando laços, lançando bandas fodas, materiais fodas e ensinando pra muita gente que o ‘Faça Você Mesmo’ funciona. E uma prova disso é esta websérie. Então, nada mais justo que homenagear essas pessoas, que dizem que a cena está morta, com uma série muito bem produzida, com recursos próprios, coletividade e disposição”, acrescenta.

"(O título Cena Morta) É uma ironia sim, e essa ironia é reforçada pelo fato da série retratar tudo o que está sendo feito agora, sem nostalgia. Se a cena tá morta, então somos zumbis e eu não acredito em zumbis", arremata Fabiano.

O critério de seleção das bandas foi muito simples: estarem ativas. "Basicamente bandas que estavam bastante ativas no momento das gravações. Daí, tentamos pegar representantes de vários lados da cidade, região metropolitana e interior. Na real, bandas que acabam transitando nessa região Capital-Região Metropolitana-Interior", conta Dudu.

"Tivemos trabalho para escolher as 11 bandas que fazem parte do projeto, porque existiam várias outras que mereciam estar ali, mas tínhamos que fazer um recorte dessa cena, e talvez futuramente abranger outras bandas, de outras cidades do estado, um pouco mais distantes de Salvador. O critério foram bandas que estavam tocando, pegamos cartazes de eventos produzidos nos últimos meses e fomos pegando as bandas que estavam na correria", afirma Fabiano.

Mas porque, já que que estavam com a mão na massa, não documentar a cena rock local como um todo? "Dá trabalho... Mas na boa, o rock como um todo tem muito espaço. Existem casas de shows rockers, as coisas são mais 'acessíveis'. Provavelmente alguém vai fazer algum material sobre a cena rocker local, em algum dia vai. Sobre o hardcore, se não fossemos nós, ninguém faria", afirma Dudu.

"A cena rocker é recheada de pessoas talentosas nas artes em geral e no audiovisual também, outra pessoa pode produzir isso. Existem outros programas de música alternativa na Bahia que já fazem essa documentação, a exemplo do Lá Em Casa Sessions de Glauco Neves. O hardcore é um estilo bem específico, que não possui muita inserção nesse tipo de programa, por isso resolvemos que a gente mesmo tinha que criar algo nosso, com nossa cara e influências. Lembrando também que Joaquim Fauro está fazendo um ótimo trabalho filmando shows de música mais extrema que acontecem na cidade e está realizando um documentário sobre a cena punk local. Esperamos que o Cena Morta seja um motivador para outros projetos do tipo surjam", pontua Fabiano.

E o lance com o Noisey, como rolou?

"O jornalista que publicou a matéria é soteropolitano, Fernando Gomes, e sempre esteve envolvido no hardcore, já teve uma banda bem legal, a Veredicto, já registrou muito show através de suas lentes. Rolou e porra, foi uma divulgação ótima! Foi um excelente ponta pé inicial, nem imaginava que teríamos uma estreia boa assim", comemora Dudu.

“Fernando Gomes, um velho amigo e parceiro da cena, escreve para o site do Noisey/Vice e se ofereceu para conseguir o lançamento por lá, aceitamos logo de cara por nos identificarmos com o material produzido pelo portal. Além disso Fernando, que é um fotografo com bastante experiência em fotos de música e skate, fez o Still da web-série”, conclui Fabiano.

www.facebook.com/cenamorta



NUETAS

Cadinho de Novelta

Cadinho Almeida e a banda feirense Novelta estão no Quanto vale o show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto puder.

Jubileus, Barulho...

Jubileus, Barulho S/A e Basa tocam na Quarta do Pop Rock a partir das 21 horas. Dubliner's, R$ 10 e R$ 5.

Lourimbau quinta

Mestre Lourimbau, bluesman de berimbau em punho, faz o show Um Banquinho, Um Berimbau quinta-feira. Varanda SESI. 21 horas, R$ 20.

Júlio Caldas blues

Falando em blues, Julio Caldas convida Breno Pádua, Celso Dutra & Banda Malzer Blues. Sexta-feira, 22 horas, Casarão de Itapuã, R$ 10.

quinta-feira, agosto 03, 2017

UM FILME DE CINEMA

Bruna Linzmeyer é Luna Madeira, interesse romântico do protagonista
Baseado no livro Um Pai de Cinema (Ed. Record), do chileno Antonio Skármeta, O Filme da Minha Vida, que estreia hoje em todo o Brasil, é o terceiro e melhor filme dirigido por Selton Mello.

Não que seja uma obra-prima da sétima arte ou que traga grandes inovações. Nada disso.

Assim como outra película baseado em obra skarmetiana, O Carteiro e o Poeta (1994), O Filme da Minha Vida seduz pela via do coração, ao combinar um texto lírico com uma fotografia deslumbrante e atuações sensíveis – e felizmente, sem exageros.

A trama, de simplicidade espartana, combina dois temas clássicos: o rito de passagem para a vida adulta e a busca do filho pelo pai.

Ambientada em uma cidade não definida na serra gaúcha no início dos anos 1960, tudo começa com o retorno do jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) ao lar, após concluir os estudos na cidade grande.

Ao saltar do trem, descobre que seu pai (o ator francês Vincent Cassel) vai embora naquele mesmo instante, de volta para seu país, a França.

Daí em diante, acompanhamos Tony restabelecendo seus contatos com a mãe (Ondina Clais), Paco (Selton Mello), o melhor amigo do seu pai e com as beldades locais, as irmãs Madeira: Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Beatriz Arantes), entre outras figuras.

Singeleza e metalinguagem

A medida que Tony vai se desenvolvendo na tela, vamos descobrindo mais sobre sua vida, seus relacionamentos e, claro, seu pai. Contar mais estragaria o espetáculo de quem vai assistir.

O que é importante dizer é que, de forma muito singela, sem apelar para qualquer tipo de cinismo, vulgaridade, violência ou efeito especial ostensivo, Selton Mello consegue plasmar na tela (recebam, rebanho de sacanas, um 'plasmar na tela' direto na caixa dos catarros!) um senso de maravilhamento pouco visto no cinema hoje em dia.

De quebra, ainda faz um belo exercício de metalinguagem ao levar o protagonista ao cinema – literalmente, na pele do seu próprio personagem – para assistir um filme clássico e utiliza-lo para espelhar seu próprio filme.

O Filme da Minha Vida / Dir.: Selton Mello / Com Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Beatriz Arantes, Ondina Clais, Rolando Boldrim / 14 anos

ENTREVISTA: SELTON MELLO

Entrevista feita em dupla com o jornalista e crítico de cinema João Paulo Barreto, que aliás, teve a paciência de transcrever tudo e a gentileza de me enviar o texto todo. Agradecido.

Selton e e o escritor Antonio Skármeta, que faz uma ponta no filme
Apesar de ser um filme de rito de passagem, ele também aborda muito a relação pai e filho. O tema lhe é caro?

Selton Mello: Eu tenho uma relação com meus pais muito boa. Eu e meu irmão. Eu cresci em um núcleo afetivo bem fechado e muito carinhoso. Então, esse é um assunto que eu gosto. E se você quer saber, é claro que é uma história de pai e filho, mas é também um filme muito sobre a mãe. E essa mãe... Eu gosto dessa coisa, já misturando os assuntos de elenco, pô, eu tinha o Johnny Massaro que é um expoente, um talento absurdo da geração dele, um menino realmente diferenciado, eu tinha o Vincent Cassel, um astro internacional, por que diabos eu ia botar uma atriz conhecida fazendo a mãe, entendeu? Aí eu puxei a Ondina Clais, que é uma atriz desconhecida do grande público, mas ela tem uma formação muito sólida no teatro. Ela trabalhou anos com o Antunes Filho, e também com o Bob Wilson, depois. Teatro, assim, na veia! E ela fez uma participaçãozinha no Sessão de Terapia. E eu gostei demais dela. E é uma idade que não tem muito assim, digamos... (pausa). É difícil você lançar alguém com quarenta e poucos anos. Aí eu pensei: ‘Poxa, eu quero botar a Ondina nessa. Fechar minha família com um rosto desconhecido’. Então, acho que é sobre esse trio

Já que você falou nela, sendo atriz de teatro, você teve que fazer algum ajuste de registro na voz? Porque no teatro, você emposta a voz. O cinema é algo mais intimo. Você teve que fazer esses  ajustes?

Ondina Clais, uma mãe de cinema maturada no teatro
SM: Meu trabalho é muito meticuloso como diretor. E, então esse trabalho não foi só com ela. Foi com o (Rolando) Boldrin, com o próprio Johnny. Eu trabalho de forma muito minuciosa. Às vezes é algo assim: ‘meio sorriso a menos’. ‘Sorrindo’! ‘Sem dente’! É nesse nível. ‘Não, não é sorriso aberto’ (faz uma cara alegre). ‘É um’ (faz uma cara amistosa). ‘É só uma onda boa. Deixa eu ver no teu olho’. É assim, milimétrico. Então, ela rapidamente se adaptou ali. Acho que porque ela tinha uma disciplina muito grande lá com o Antunes, no método dele. O meu era outro, mas é, tinha disciplina.

O filme remete muito a um sentimento nostálgico. Tem um vídeo seu se despedindo do Boldrin, no último dia de gravação dele. É perceptível sua voz embargada. Você falou da relação  com teu pai, que vocês assistiam ao programa do Boldrin juntos. Essa atmosfera nostálgica do filme foi sempre sua intenção?

SM: Foi. E isso, na verdade, de onde vem esse tom, é do próprio livro. O livro, quando eu li, eu falei: ‘puxa, tá ai o que eu gosto’. É um tom nostálgico, lírico, onde tem espaço para imaginação. É também divertido, com passagens divertidas. Uma história simples, clássica: início, meio e fim. Para todos os públicos, mas com viradas interessantes, com espaço para uma engenharia estética e emocional grande. Eu me cerquei de profissionais incríveis. Walter Carvalho (diretor de fotografia)! Foi um retorno depois do (filme) Lavoura Arcaica. Também emocional, também de pai e filho. Também é uma espécie de ‘pai de cinema’, o Waltinho. Então,  assim, retomar com ele, depois de tanto tempo. E o som, e a luz do sul. Tudo era material. O trem, a moto, a bicicleta, a casa da luz vermelha...

E no final, inclusive, você o dedica aos seus pais.

SM: Na verdade, tudo eu dedico aos meus pais. Eles foram fundamentais na minha vida. Eles fizeram movimentos muito grandes por minha causa. E eu te digo o principal deles. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu já era ator. E estava na minha segunda novela da Bandeirantes. E a Globo me chamou. Era a chance de ir pra Globo. Para a gente era assim, que nem hoje se alguém me chamar para trabalhar com o De Niro. Aí eles disseram: ‘você quer?’ E eu falei: ‘Claro!’ Aí, meus pais, a gente morava em São Paulo,  se mudaram pro Rio, com toda família. Pô, deixando amigos para trás, costumes para trás, tudo para trás, por causa de um menino de 11 anos. É muito bonito o que eles fizeram por mim. Eu fico imaginando eu pai, se eu faria isso pelo meu filho. Cada vez mais eu acho muito impressionante o que eles fizeram. Foi uma aposta que deu certo. Então, tudo eu retribuo a eles. E nesse filme eu quis deixar claro.

Selton, esta é sua terceira parceria com o Marcelo Vindicato no roteiro. Como essa dupla cresceu? Escrever em parceria é melhor para você?

Selton como Paco e Johnny Massaro como Tony Terranova
SM: Foi muito legal porque a gente foi aprendendo juntos como é que faz isso. O Marcelo era um amigo de teatro. Começamos, quer dizer, eu já estava na estrada, mas a gente se conheceu no tablado. Atores, juntos. Na mesma turma de teatro. Fã de cinema. A gente era os nerds do cinema ali. Sabia tudo de cinema e adorava os atores e tudo, os diretores. E aí o tempo passou e ele sempre foi um cara muito brilhante, muito inteligente. Aí eu o incentivei a escrever. E ele começou a escrever curtas, um programa que eu tinha, o Tarja Preta, a gente experimentava uma coisas, aí veio meu primeiro longa, Feliz Natal, depois O Palhaço. E ele foi ficando bom nisso. Foi ficando estudioso disso. Então, é muito legal que nesse terceiro, primeiro porque foi nova a coisa de a gente adaptar algo. Porque os dois primeiros foram originais. Isso foi interessante. E é legal identificar que ele virou um roteirista, um técnico, um cara estudioso. Um cara que, assim: “aqui é um ponto de virada. Aqui é a hora de fechar um ato. Aqui tem abrir o segundo e descortinar o terceiro.” Sabe, um cara que olha na estrutura do roteiro? E isso para mim é muito bom. Porque eu sou o lírico da dupla. Eu sou o que escreve uma cena, até porque eu vou dirigir, então, às vezes, sei lá, uma das cenas que eu amo nesse filme é quando o Tony literalmente voa. Viajando naquelas duas irmãs e ele está enxergando um troço que não está acontecendo. A rubrica daquela cena é: “Tony em transe olhando as irmãs.” Mas eu sabia como eu ia filmar aquilo. Então, esse espaço para a imaginação e para a sensibilidade, na filmagem, é muito legal na parceria com o Marcelo porque ele me ajuda a dar uma cama bem estruturada para poder ter a arroubos de lirismo ao longo das coisas.

Outra coisa  interessante é a relação do filme com o próprio cinema, com cenas do (filme) Rio Vermelho (1948). As falas do John Wayne era para refletir o estado de espírito do personagem?

SM: No livro, o filme é outro. É outro Rio. É o Rio Bravo (Onde Começa o Inferno, 1959), com Dean Martin. Tentamos os direitos para esse, falaram que não tinha chance. Aí eu fui pesquisar outros filmes e achei Rio Vermelho. Porra, que filmaço. Melhor que o outro. Mais cinema. Aí fui atrás e rolou de liberarem os direitos. E, curiosamente, que eu acho que nada na vida é à toa, era pai e filho, mas ali o (ator) Montgomery Clift era um filho bastardo. Um menino que ele cria e depois trai o pai e tal. Então eu fiquei vendo o filme como louco para tentar achar ecos deles e usar no meu, ficava tentando achar rimas visuais. Por exemplo, o Montgomery Clift sobe em um cavalo, o Cassel sobe no trem. Algo espelhando. Fiquei esmiuçando aquele filme.

Eu ia te perguntar sobre essa cena, especificamente. Você falou agora a pouco do modo de direção exemplificando os sorrisos e ela é um enquadramento perfeito do que você quis dizer. Do Johnny tendo aquele sorriso. E ela se confunde com o lúdico, porque toca Carmen, e o som é diegético, ela está dentro daquela cena do filme.

SM: É verdade.

Então, você brinca com isso. Quando ele flutua, é o carimbo de que o filme é lúdico.

SM: Exatamente.

Então, você pode se deixar levar por isso. Houve essa intenção?

SM: Totalmente. Essa cena eu tinha um expectativa grande de filmar. Inclusive, ela demorou. Porque pela ordem de nosso cronograma, ela era, sei lá, quinta semana. Mas eu falava muito com o Waltinho que essa cena era um guia para o filme todo. Porque é como se fosse um filme que não tocasse o solo. Como se fosse um filme em suspensão. Como se fosse um grande sonho. O filme é filmado como um grande sonho. Poderia ser um grande sonho desse protagonista. Aliás, de repente pode ser que nada disso realmente aconteceu. A figura do Boldrin é uma figura mítica. Se bobear, vai que não tem um maquinista. Se bobear aquilo ele ta imaginando. Mas, assim, (pensativo). Nisso, quando tinha ali o neorealismo, e o Fellini falava assim: “Deus me livre da realidade, eu quero mais é sonho”, aí eu estou de braços dados com ele. Porque, assim, de realidade, a gente já está cheio. Inclusive, tempos duríssimos. Abre o jornal, e tudo que a gente vê são desgraças. Desigualdade, roubalheiras. Eu pensei: “não, sonhe! Pelo amor de Deus.” Uma das capacidades do cinema é fazer sonhar. Assim, você entrar no cinema e aquilo é um templo dos sonhadores. Você entrar ali é como sonhar acordado. Você está diante de uma tela e você esquece por um período o que está acontecendo ali fora, ou pelo menos espera-se que aquela obra tenha a capacidade de fazer você esquecer do que está do lado de fora. E entra em um mundo. Então, filmar é criar um mundo. É criar uma atmosfera. Então, os personagens possuem uma linguagem própria. Assim, a Luna fala coisas que uma menina da idade dela não falaria. Não importa. Eu não estou filmando a realidade. Eu estou filmando uma representação emocional de uma realidade que eu criei. De uma cidade fictícia ao sul do Brasil, mais ou menos nos anos 1960. Eu acho que essa foi a beleza de fazer esse trabalho. E é bonito. Porque quando você faz algo com essa força emocional, pula da tela e vai par ao público. O público recebe pela via afetiva, assim. É muito bonito, cara.

Eu queria te perguntar algo nessa linha. Tirando Feliz Natal, que é algo um pouco mais acido, O Palhaço, e esse filme agora, você parece rejeitar um certo cinismo que está meio que estabelecido hoje em dia. Você não gosta dessa linguagem? Não te interessa essa linguagem mais cínica, mais (estalando o dedo) fugaz?

SM: Eu acho que podem ser fases da vida, também. Assim, aí a vantagem de ser ator. Então, como ator, eu faço de tudo, inclusive muitas coisas cínicas. Mas como realizador, que aí é uma representação do meu espírito, do que eu penso da vida. Que garrafa é essa que eu estou jogando ao mar? Eu quero que o público sonhe. Que o público saia bem do cinema. Que pense nos seus pais. Eu já comecei ter depoimentos do tipo: “noss, esse filme é muito lindo. Lembrei de meu pai que morreu. E assistir esse filme foi uma loucura porque eu lembrei de coisas que eu gostaria de ter falado.” Isso mexe em lugares, assim, muito... E em uma estrutura clássica. Não é um filme cabeça. É um filme para todo mundo. É um filme com um potencial de comunicação. Que é outra coisa que me interessa. Essa via do meio. Ele não é um filme cabeça e não é claramente um blockbuster. É um filme que tenta ser um filme comercial refinado. Um filme com um apelo popular, sendo um biscoito fino. Sendo bem cuidado. É você oferecer ao público o melhor. Fotografia, trilha edição de arte, acabamento, é um presente bem embalado.

As arrebatadoras irmãs Madeira: Petra (Bia Arantes) e Luna (Bruna L.)
Uma outra coisa que me chamou atenção é a forma como as irmãs Madeira são fotografadas. A Bia Arantes surge parecendo uma diva dos anos 1940. Foi intencional, então?

SM: Foi. Eu filmei a Bia como se filma a Liz Taylor, a Rita Hayworth, Ava Gardner. O semblante dela é bem clássico. Ela tem mesmo a aura de estrela antiga. A Bruna já é mais a Shirley MacLaine. Os olhos dela chamam atenção na tela.

Sim. Ela tem um conjunto bem arrebatador.

SM: Exatamente. E aí... Eu acho (pensativo) que é filmar com... O protagonista, é ele quem conduz a história. Então, o diretor ele anda com os braços dados com o protagonista. Então, é como se eu filmasse esses personagens pelo ponto de vista dele. Sabe, aquilo é como ele vê as irmãs. Assim, a mãe e a falta que a mãe sente, é como provavelmente o Tony imagina que a mãe está se sentindo com a ausência do pai. Então, eu acho que isso.

O filme possui algo que é bem atraente que são os anos 1960. A gente não tem uma linha do tempo definida para essa década, mas algumas pistas são dadas, como a luta do Jofre, o rádio. E Do livro, vocês captaram muita coisa disso ou se foi mais algo seu?

SM: Veio muito do livro e tem muito de mim, também. Foi ótimo, pois o Skarmeta me deu total carta branca. Vocês não leram o livro, certo?

Não, não li.

Johnny Massaro é Tony Terranova, um jovem em busca do pai
SM: Então, eu te digo várias coisas que são do filme e não do livro. Por exemplo, no livro ele resolve o final todo junto com o Augusto Madeira. Eu falei: “não, não. Eu resolvo esse menino antes e o final é da família. Só.” Bicicleta e moto: é uma metáfora que eu criei. O maquinista. Tem uma cena que eu parei e pensei: “deixa eu pegar esse maquinista e colocar ele como uma figura mítica que costura o filme, que tudo viu, que sabe tudo”.

É o velho sábio.

SM: Ele viu tudo. Porque a gente não pode dar spoiler. Mas, fora dos gravadores, a gente pode dizer. Ele viu a Petra indo grávida, ele viu que foi a Paco que levou, ele viu eu e o Cassel voltando e pensando no que a gente ia fazer agora. “Vai ficar lá que eu me escondo aqui.” Ele sabia de tudo o tempo todo. Ele sabia de tudo, mas também sabia que tudo tem hora de acontecer. Então, ele estava só filmando, literalmente, o Tony. E tem um plano no filme que é um plano do Walter Carvalho. Ele falou: “Esse aí eu vou ter que fazer”. Eu falei: “Waltinho, ok. Você merece. A nossa parceria foi tão boa que eu te dou esse plano de presente.” Ele falava que, na Paraíba, na meninice dele, ele lembra muito claramente que as latas de filmes eram levadas pelos maquinistas. E iam de trem. Ele lembra disso, com o Vladimir Carvalho. E ele queria fazer esse plano. Eu falei: “Waltinho, vamos fazer esse plano”. Porque, afinal de contas, ta lá. A gente revela isso, tem ali as latas. Ou seja, o cara levava o filme para o cinema. Ele sabia tudo, mesmo. E sabe que a vida tem seu ritmo. Ele não pode se intrometer. Então, é linda a participação do Boldrin.

Em 2012 eu conversei com o Walter quando ele esteve aqui divulgando o documentário sobre Raul Seixas. E nós falamos  sobre a qualidade do profissional atento, que está na hora certa e no momento certo. Eu lembrei disso hoje, fazendo a pauta, pois eu acho que ele se encontrou fazendo esse filme.

SM: Que legal.

Quando você me fala acerca disso, desse plano dele das latas de cinema, é algo meio que confirma isso.

Pois é. Ele lembrou da infância dele na Paraíba. Que os filmes eram levados pelo trem. Muito bonito, cara. Muito bonito. Então, assim, a essência do livro está toda no filme e eu precisava ir além das páginas. Porque eu precisava de um conflito. Meu personagem é totalmente diferente no livro. No livro, ele é um amigão. Ponto. Aí eu pensei: “peraê, deixa eu pegar esse amigão que é engraçado e dar um outro contorno pra ele para que ele tenha uma virada e seja o cara que talvez seja o pivô de tudo.” E ficou um personagem interessantíssimo. Porque boa parte do filme você fala assim: “ah, o Selton pegou esse aí pra se divertir.” Aí no final você fala: “Caramba! Olha o que esse Paco é.” Então ficou um personagem bem rico e diferente do livro, também.

Um acerto que eu achei sensacional é como eles são parecidos. O Johnny Massaro e o Vincent Cassel.

SM: Um dos melhores castings do cinema brasileiro nos últimos tempos.

O nariz do Massaro. Ele tem aquele perfil francês.

SM: Exato. E o encontro dos dois, assim, o Cassel ficou encantado com o Johnny. Imediatamente ele viu que era um menino diferente, especial, e o Johnny não se intimidou com o Cassel. Poderia, né? “Puxa , é o Vincent Cassel!” Mas, não ele ficou ali seguro. Eles ficaram super amigos e foi muito bonito o encontro dos dois. Casting ideal. Grande acerto.

O astro francês Vincent Cassel, o pai: mais brasileiro do que eu ou você
E ele vem crescendo no Brasil. Trabalhou com o Heitor Dhalia no À Deriva, agora contigo...

SM: Ele trabalhou com o Cacá Diegues, também. Vai ser lançado em breve.

Olha só. Fala português já fluente.

SM: Ele já é um carioca. Joga capoeira.

É, ele aparece jogando capoeira na terceira parte de 11 Homens e um Segredo.

SM: O Cassel? Não lembrava disso. Ah, ele ta um brasileiro. Ele é um pai mítico no filme. Um pai que permeia o filme. Exatamente de um ponto de vista... assim, é o sentimento do filho . O pai é quase um sentimento. Então, você tem o Cassel, ele é um ator, assim, é um bicho cinematográfico. Aquele cara que você põe a câmera assim e acontece muita coisa. Forte a figura dele.

Cresce.

SM: Algo assim, Marlon Brando. Vai, exagerando, mas Marlon Brando. Essas grandes figuras do cinema. O Cassel tem esse peso. Quando eu botei a câmera nele a primeira vez, eu olhei assim...

E ele é bem galã francês. O feio bonito.

SM: O feio bonito, mas, assim, com uma presença em cena muito forte. Então, quando eu volto, de vez em quando tenho aquelas lembranças, e é o Cassel ali sendo pai, tem uma força muito grande.

Ele fez um filme magnífico a pouco tempo, chamado Meu Rei.

SM: Pois é. Dizem que é bonito, né? Eu não vi. Mas ele gosta bastante desse filme.

Eu gostei bastante desse filme.

SM: Ele tem orgulho desse filme.

Trazendo o papo para o atual, assim, o que você acha, se você quiser dar sua opinião, claro, o que você achou do Sergio Sá Leitão para ministro da cultura?

SM: Cara, eu conheço o Sérgio já há algum tempo e eu acho ele um cara bem preparado. Acho que o audiovisual pode estar bem amparado. Eu acho que ele pode ser uma boa escolha. Pode ir bem.

Você falou agora a pouco acerca das fases de seu trabalho, que pode trazer um caminho mais cínico ou áspero, ou algo mais doce e lúdico. Como foi a experiência de viver o Chris, em Soundtrack? Foi a segunda parceira com a dupla de diretores 300ml.

SM: Isso. Cara, eu achei um roteiro bem inventivo. Toda a ideia dos cara, foi algo bem peculiar, assim. E um personagem denso, mas bonito, porque é um artista. Então, com suas questões que eu me identifico. Eu sei os dilemas daquele personagem. Então, foi ótimo. Assim, eu fiquei muito tempo dirigindo o Sessão de Terapia. Foram três anos. Então, eu sai de la´seco para atuar. Fazia tempo que eu não atuava tanto. Você vê que eu voltei agora com fé. O Ligações Perigosas, o Soundtrack, O Filme da Minha Vida, onde eu tenho um papel pequeno, mas importante, um coadjuvante de peso. E vem aí o Treze Dias Longe do Sol, que é uma minissérieque eu fiz para a Globo e que estreia em janeiro. Estou filmando agora com o José Padilha para o Netflix. Estou bem ator.

É a série sobre a Lava Jato?

SM: Sim. Chama-se O Mecanismo. É uma série sobre a corrupção no Brasil.

Tem planos de voltar com o Sessão de Terapia?

Tony e a poética casa da luz vermelha do filme
SM: Olha, cara, planos tem. Vontade, tem. Mas tem que achar um momento para isso. Porque exige um mergulho grande ali. Na escrita,. Foi um trabalho denso. Fiquei três anos fazendo.
Dentro de uma sala. Então, era bonito, mas era forte demais. Então, precisava dar uma pausa dali.

Já sabe qual será o seu próximo projeto como diretor?

SM: Em cinema, não. Mas estou adaptando para a Globo, em minissérie em dez capítulos, um sonho de vinte anos, que é O Alienista, do Machado de Assis. Amo esse conto. Já pensei em fazer em cinema várias vezes e é caro. Aí resolvi fazer ali em minissérie porque eles têm aquela estrutura, cidade cenográfica. Só não sei quando pois ainda, mas será a minha estreia na Globo  como diretor e ator. Eu vou fazer o Simão Bacamarte, esse médico que estuda o limite entre a razão e a loucura, machadianamente. E, pô, Machado de Assis para a massa, né? Botar Machado para o grande o público é sempre um prazer. Mas não sei quando eu devo fazer isso. A gente entra em uma fila ali de muitos projetos. Mas estamos trabalhando nisso.

terça-feira, agosto 01, 2017

BERIMBAU E VIOLÃO CHEIOS DE BOSSA: DUO B.A.V.I. AGRADA TORCEDORES DE TODOS OS TIMES

Berimbau Aparelhado (Anderson) e Violão Inventável (João) Foto Joana Rizério 
Violão e berimbau cheios de efeitos: Duo B.A.V.I. agrada torcedores de todos os times

Lembram daquele episódio de  um professor do curso de Medicina da Ufba, que disse que o berimbau, “Um dos símbolos da Bahia, não é o tipo de instrumento para pessoas inteligentes”, afinal, “ele tem uma corda só”? Lembram?

Novidade fresquinha da música baiana, o Duo B.A.V.I. subverte as palavras do equivocado professor, utilizando-se do seu próprio áudio  em seu show.

Depois que ouvimos a gravação da asneira toda, o percussionista Anderson Petti mostra toda sua “pouca inteligência”, dando um show com seu Berimbau Aparelhado – o B.A. do duo. O V.I. (Violão Inventável) fica por conta do violonista João Almy, outra fera.

Amigos do curso de música da Ufba (olha ela aí de novo), João e Anderson se juntaram no Duo B.A.V.I. em busca de uma linguagem musical própria.

"Já éramos amigos desde a graduação na EMUS (Escola de Música), Petti cursava percussão e eu violão. Até coincidiu de tocarmos na mesma banda, o Sertanília, só que em épocas diferentes, quando entrei ele já tinha saído das percussões. Mas o impulso de nos juntarmos mesmo veio de conversas informais sobre experimentação, mistura de instrumentos acústicos com sonoridades eletrônicas, enfim, um trabalho que Petti desenvolveu quando estudou na Alemanha e que eu já queria fazer com o violão.  Daí marcamos uns encontros pra fazer som com esses elementos, como um laboratório, trocando ideias, tocando , gravando algumas coisas, sem compromisso. Penso que imprimimos no nosso som muitas influências do que aprendemos na Escola de Música, como o entendimento de não se acomodar com o que já é de determinada linguagem ou idiomático no instrumento. Já no final do meu curso, eu estudava um repertório mais moderno, pesquisava sobre técnicas expandidas (aspectos não explorados pela técnica tradicional do instrumento) no violão de concerto e acabei conhecendo outras referências de técnica expandida no violão popular também. O negócio é que, para o que é feito no Duo B.A.V.I., consideramos influências muito além do que aprendemos na academia, da nossa própria história por exemplo, tanto como músicos, quanto como viventes numa cidade pulsante, potente culturalmente e num Estado igualmente diverso e imenso", relata João.

Resultado? Em poucos shows, uma notável aceitação de público e crítica, com direito a indicações no Prêmio Caymmi e música (Na Cordadeira) tocando na Educadora FM.

“A todo momento somos surpreendidos por uma novidade boa, seja lá um convite pra tocar em um evento legal, a matérias na imprensa. Já foram 14 shows até 21 de Julho deste ano e já temos data até outubro. Estamos digerindo tudo com muito carinho e sempre agradecidos ao apoio permanente das nossas amizades, que sempre dissipam o nosso conteúdo nas redes sociais”, conta Anderson.

“Não é fácil nem simples trabalhar com música independente. Conseguir essa visibilidade foi (e é) trabalho de formiguinha, a cada show, nas redes, no trato com quem trabalha com a gente. Somos apenas dois no palco, mas ao longo dessa trajetória recente formamos um equipe muito competente, que torce pela gente, se empenha e com profissionalismo, sem 'brodagem'. Além disso existe algo que é muito valioso para o músico, produzir algo nosso, com a nossa cara, nosso discurso, nossas viagens, nossas ideias e dialogando com nossa realidade também. Então que boa essa recepção, só é mais impulso para levar o Duo B.A.V.I. adiante”, acrescenta João.

Envolvimento sensorial

Mas qual o segredo da dupla? Como toda música de boa cepa, é quase indefinível, caminhando com muita habilidade na corda bamba entre o experimental e o popular.

“Valorizamos a criatividade, o gosto por tocar e por envolver sensorialmente quem aprecia, a performance, a poesia e a canção. Até costumamos dizer que nossa música é semi-instrumental”, afirma João.

E afinal, o que é um Berimbau Aparelhado? E um Violão Inventável?

"Para a modificação, já começa com o uso de um violão de sete cordas sem a linguagem do choro, sem necessariamente explorar as baixarias e o acompanhamento. E para explorar seu som por completo, uso recursos de percussão sobre regiões do corpo do violão, chiado ao esfregar uma mão sobre as cordas graves, som de caixa com uma corda sobre a outra, tapping em notas e acordes e outras possibilidades sonoras que for descobrindo. O violão tem um captador e no preamp do captador também mexo nas frequências, quando quero fazer outros sons, percutir no violão, etc. Criamos loops e convenções ao vivo, texturas melódicas que vão se sobrepondo, algumas vezes com samplers que pré-produzimos, outras músicas com bases também feitas ao vivo. Além disso usamos efeitos variados, como delay, reverb, oitavadores, enfim, o máximo do que nossos pedais nos possibilitarem", detalha João.

"O berimbau que uso é específico para músico e muito distante do berimbau da capoeira. Tem outra espécie de cabaça, capotraste para sustentar a afinação e tarracha. Um desmembramento de um instrumento de corda como o próprio violão, só que, com uma corda só. O arco de violino, garrafa de vidro ou até o dedo se tornam opções para tirar som do berimbau. A partir daí, é possível modular as frequências tornando o som dele irreconhecível, se assim desejarmos", conta Anderson.

"Sendo que tudo isso é usado com um senso estético, pensado na hora do arranjo, nada sem propósito", acrescenta João.

Nas composições, esses recursos todos são usados em favor de diversos modos de construir uma música.

"Não temos um jeito só de construir nossas músicas, inclusive algumas são muito menos pensadas do que outras. Desde o surgimento do Duo B.A.V.I. até agora, o modo como lidamos com a aparelhagem ligada aos instrumentos amadureceu de um jeito que já conseguimos visualizar o que é possível fazer ou  o que pode dar microfonia, por exemplo", afirma João.

"A primeira música que fizemos chama-se, Na Cordadeira, é um pagode groove arrastado que foi nascendo em etapas, à medida que íamos dominando os nossos aparelhos modificávamos a música adicionando elementos melódicos, rítmicos e onomatopeias ao invés do canto comum”, completa Anderson.

Em setembro, o Duo será a única representação baiana no Festival Música Mundo, em Belo Horizonte.

"Temos a nossa primeira viagem programada pra Belo Horizonte, em 5 de Setembro tocaremos em uma feira internacional de negócios na música. O Festival Música Mundo selecionou 20 projetos, dentre 260 inscritos nacionais e 58 internacionais. Somos os únicos da Bahia fazendo parte do showcase", conclui João.

Se liga neles.

www.facebook.com/duobavi/



NUETAS

QVoS niver com Ivan

A maravilhosa Ivan Motosserra abre hoje o mês de aniversário (três anos!) do Quanto Vale o Show?, com convidados supimpas. Cola lá no Dubliner’s, 19 horas, pagando o quanto puder.

Marconi lança clipe

O bardo urbano Marconi Lins faz show para lançar clipe da música Moscou / Amsterdam. Sexta-feira, 22 horas,  Lebowski Pub, R$ 10.

Via Sacra e Pastel

Via Sacra e Pastel de Miolos quebram tudo no Buk Porão. Sábado, 20, horas, R$ 10.

Baia no domingão

Baia volta à Salvador para mais uma session voz e violão na Varanda do Sesi – desta vez, lançando o álbum Alter–Nativo, de faixas raras ou não lançadas. Domingo, 17 horas, R$ 40 reais ou R$  30 (via email baianavaranda@gmail.com).