sábado, dezembro 27, 2014

NOITE PASSADA, 10 DISCOS SALVARAM AS VIDAS DE 100 PERSONALIDADES

LIVRO: Discoteca Básica compila as listas de 10 discos preferidos de 100 personalidades. Beatles e Caetano são os campeões de citação 

Zé Antonio Algodoal conseguiu a lista Top Ten de 100 figuras
Parece que a mania por listas – iniciada nos anos 1990 pelo escritor pop Nick Hornby – ainda está longe de acabar. Uma leva de livros sobre o assunto tem chegado às livrarias recentemente.

Para quem gosta de música, o mais interessante, é, de longe, o Discoteca Básica.

Subintitulado 100 Personalidades e seus 10 Discos Favoritos, trata-se uma compilação de Zé Antonio Algodoal (ex-diretor de programas da antiga MTV Brasil como Lado B e Supernovas) em formato de compacto sete polegadas no qual todo tipo de gente mais ou menos conhecida faz sua lista top ten.

Com bom trânsito entre personalidades interessantes no Brasil e fora dele, Algodoal conseguiu listas de gente como Jô Soares, Arnaldo Baptista, Kid Vinil, Laerte, Laetitia Sadier (Stereolab), Laura Ballance (Superchunk), Lúcio Ribeiro, Xico Sá, Mike Watt (Minutemen), Andreas Kisser (Sepultura), Edgard Scandurra e muitos outros.

O mais citado pelas 100 personalidades
Há ainda figuras que fazem o leitor franzir a testa, mas que valem pela curiosidade e às vezes até surpreendem por comentários razoavelmente abalizados, como Checho Gonzales (chef de cozinha), Dudu Bertholini (maquiador), Luciana Gimenez e Titi Müller.

Unânimes e obscuros

Apesar da diversidade de colaboradores, no fim das contas, os campeões de citação nas listas não poderiam mesmo ser outros que não os Beatles (primeiro lugar entre os 10 artistas mais escolhidos, com 25%) e Caetano Veloso (segundo, com 10.8%).

O santo-amarense foi seguido bem de perto por David Bowie e Rolling Stones (ambos com 10.2%).

O segundo mais citado pelos 100
Os discos mais citados nas listas também são deles: Revolver (1966, dos Beatles) foi listado por 18.7% dos colaboradores.

Já Transa (1972), álbum com as canções do exílio londrino de Caetano, foi citado por 13.3% das listas.

Secos & Molhados (1973), A Tábua de Esmeraldas (1974, Jorge Ben), Nevermind (1991, Nirvana) e o Álbum Branco dos Beatles (1968), vem logo em seguida.

Mas nem só de unanimidades se faz um livro de listas.

Também é possível pescar dicas de muita coisa mais ou menos obscura interessante, como Touch Your Woman (1972, da cantora country Dolly Parton), Sunken Condos (2012, do ex-Steely Dan Donald Fagen) e Quarteto Novo (1967, que contava com o percussionista Airto Moreira).

Há até quem se aproveite para vender seu peixe, como o ex-CQC Rafael Cortez, que incluiu seu próprio disco de violão instrumental (Elegia da Alma, 2011) na sua lista.

“Foi um daqueles sonhos na vida que você pode ou não realizar. E eu realizei”, justifica.

No fim das contas, Discoteca Básica é uma boa opção de livro para relaxar ou dar de presente.

Discoteca Básica: 100 personalidades e seus 10 discos favoritos / Zé Antonio Algodoal / Edições Ideal/ 224 p./ R$ 49,90

sexta-feira, dezembro 26, 2014

MISSÃO: SALVAR SAN FRANSOKYO

Inspirada em heróis obscuros da Marvel de estilo mangá, Operação Big Hero é  a aposta  Disney para a estação

Hiro e Baymax, o robô fofinho
Primeira animação da Disney com personagens da Marvel Comics desde que a casa do Mickey adquiriu a casa do Homem-Aranha em 2009, Operação Big Hero (Big Hero 6) estreou ontem nas telas como uma das apostas do estúdio para a estação.

Dirigida pela dupla Don Hall e Chris Williams, a animação, a primeira vista, lembra Os Incríveis (2004), filme da Pixar sobre uma família super-heroica.

Operação Big Hero porém, não traz uma família, mas um improvável grupo de jovens nerds super dotados, alunos de uma academia de gênios, que eventualmente se unem em torno de um menino e seu robô.

Tudo se desenrola na fictícia San Fransokyo, uma incrível cidade futurista, mistura de São Francisco e Tóquio.

É lá que o garoto gênio Hiro Hamada cria robôs lutadores para apostar em lutas clandestinas.

Até que seu irmão mais velho, Tadashi, o convence a sair daquela vida e aproveitar melhor seu potencial,  ingressando na escola para jovens gênios que ele mesmo frequenta.

Lá ele conhece Baymax, um adorável robô inflável (que venderá milhões de brinquedos), criado por Tadashi como um tipo de assistente médico pessoal.

Na academia, Hiro também é apresentado à turma de Tadashi: Fred (um doidão fã de monstros de filmes B), Go Go Tomago (japonesa durona e atlética), Wasabi (rastafári boa- praça com predileção por lâminas) e Honey Lemon (a nerdzinha fera em química).

Wasabi, Honey Lemon, Hiro, Baymax, Go Go Tomago e Fred
A motivação cria o herói

Como toda boa história de super-herói não está completa sem uma tragédia para criar sua motivação, um dia, algo muito ruim acontece na academia.

Após algumas idas e vindas, Hiro resolve ir atrás do malfeitor. Para isso, ele reprograma o robô Baymax, dotando-o de conhecimento sobre todas as formas de lutas, além de criar uma super-armadura de combate.

Na sua primeira investida, Hiro topa justamente com Fred, Go Go Tomago, Wasabi e Honey Lemon, que também estavam investigando a tragédia que se abateu sobre sua escola.

Os seis – contando com Baymax – se unem, formando então o grupo Big Hero 6 do título original.

Juntos, eles criarão suas identidades super-heróicas, uniformes e poderes – com os quais enfrentarão um super-vilão oculto que ameaça a cidade de San Fransokyo.

Tudo com direito a muita ação super veloz em cenários incríveis, explosões coloridas, emoção, comédia e demais procedimentos comuns aos blockbusters da Disney.

Criado para a Marvel pelo roteirista Steven Seagle e pelo desenhista Duncan Rouleau em 1998, o Big Hero 6 nunca teve suas HQs publicadas no Brasil.

As primeiras aparições do Big Hero 6 nas HQs da Marvel, ainda nos anos 90
Em sua estreia nas telas como Operação Big Hero, o grupo chega refeito e suavizado pela Disney, mas cumpre bem sua função de entreter enquanto passa aquelas boas e velhas lições sobre o valor da amizade etc.

Talvez alguns pais se incomodem com os eventos que levam à formação do grupo – mas, ei: o que é um herói sem sua própria tragédia pessoal?

Operação Big Hero / Dir.: Don Hall e Chris Williams / Vozes na versão brasileira de: Robson Kumode, Márcio Araújo, Fiorella Mattheis e Marcos Mion / Em cartaz no Cinemark, Cinépolis Salvador Norte, UCI Orient Barra, UCI Orient Iguatemi, UCI Orient Paralela, Cinépolis Bela Vista

quinta-feira, dezembro 25, 2014

DÁ PARA SER ARTISTA SEM SER UM POUCO LOUCO?

Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu é o forte testemunho de uma quadrinista na superação do transtorno bipolar 

Visto como uma condição de certa forma normal hoje em dia, o transtorno bipolar, quando atinge artistas, os leva a um sério dilema.

Em Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu, a quadrinista  Ellen Forney nos conta como o superou.

Condição que ora deixa o paciente eufórico, ora deprimido, o transtorno bipolar já atingiu inúmeros artistas, entre escritores e pintores: Vincent van Gogh, Georgia O'Keeffe, William Styron, Sylvia Plath, Joan Miró, Edvard Munch e Mary Shelley, entre muitos outros.

Ellen Forney, uma quadrinista underground norte-americana, vegetariana e bissexual de Seattle, não é bem a Sylvia Plath, que descreveu seu périplo depressivo (com direito a muito eletrochoque) no magnífico A Redoma de Vidro (1963).

Porém, de certa forma, ela fez algo melhor do que a pobre poeta que se matou enfiando a cabeça no forno a gás: Ellen Forney sobreviveu para contar como sobreviveu à montanha-russa emocional e fez ainda mais.

Ciente do estrago que a medicação prescrita – carbolítio, ou apenas, lítio – causa na sensibilidade das pessoas, Forney, a princípio, se recusou a usar o remédio.

“Ao lado das minhas românticas preconcepções sobre o que era ser um artista louco, estavam minhas aterradoras preconcepções sobre o que era ser um artista medicado”, escreve a quadrinista.

Estabilizador de humor, o lítio pode ser destruidor para quem depende da sensibilidade para trabalhar: entre seus muitos efeitos colaterais, causa visão borrada, tremor nas mãos (ambos desabilitadores para uma desenhista) e, por fim, embotamento cognitivo – ou seja: a pessoa, literalmente, não entende nada.

De artista, médico e louco...

Como a bipolaridade alterna picos de euforia (mania) com abismos de tristeza (depressão), Forney traçou diversos planos para como lidar com a deprê quando esta batesse.

Claro que nada disso deu certo – e a artista caiu na mais profunda das depressões. Resultado: aderiu ao lítio receitado pela psiquiatra. E é aí que sua luta para superar sua condição realmente começou.

Contar mais é estragar a leitura, mas a HQ – recomendada a adultos – é o belo testemunho de uma artista que transitou pelos extremos das emoções humanas, conseguiu voltar para contar como foi e ainda tenta inspirar outras pessoas que passam pelo mesmo problema.

O melhor de tudo é que, no processo, Forney criou uma obra muito interessante e ilustrativa.

Sempre em primeira pessoa, ela descreve de forma muito viva suas sensações, seus relacionamentos e família, além de fornecer muitos dados científicos e estatísticos sobre o transtorno bipolar – todos devidamente referenciados com suas fontes no apêndice do livro.

No fim das contas, Parafusos é uma obra que nos dá uma outra perspectiva sobre aquele velho ditado que dizia: “De artista, médico e louco, todo mundo tem um pouco”.

Porque as linhas que separam o artista do louco são muitas vezes borradas como a visão de um medicado por lítio. Sem um tiquinho de loucura, como alguém que se quer artista pode enxergar o que o homem comum não vê – e assim, criar sua arte?

Caso contrário, o que se cria é só comércio. Aí não é mais arte. É entretenimento vazio. É Carnaval na Bahia.

Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu / Ellen Forney / Trad. Marcelo B. Cipolla/ WMF Martins Fontes/ 250 p./ R$ 39,90

quarta-feira, dezembro 24, 2014

CARTEL STRIP CLUB É BOA APOSTA PARA 2015

O Cartel, em foto de Dudu Assunção
Novinha no cenário, a banda local Cartel Strip Club foi a terceira colocada no Desafio da Bandas – a ótima Teenage Buzz, vista há mais de dois anos nesta coluna, foi a vencedora.

O colunista blogueiro foi  jurado na ocasião e confessa que, de cara, não se impressionou muito com a Cartel em sua performance na final do concurso de bandas promovido pelo jornal A TARDE.

Porém, ouvindo o que banda já gravou e está disponibilizado no You Tube – as faixas Conference Call e Valentina –, é possível perceber que o sexteto é mais interessante do que o que a performance ligeiramente nervosa no Desafio deixou entrever (ou entreouvir).

E quem pensa que o sexteto ficou chateado com a medalha de bronze, é melhor pensar de novo: “Sendo uma banda que começou em julho, não tem muito material gravado, só apareceu para o publico com  o Desafio e chegou à final, foi um ganho muito interessante nossa participação”, reflete o tecladista Rodrigo Chamusca.

“Tivemos uma resposta muito boa do público,  maior até do que nossa colocação final no Desafio. É principalmente isso que gente leva”, acrescenta.

Não às panelinhas

Rodrigo é aluno da Facom - Faculdade de Comunicação da Ufba e lá ele conheceu Ana Esther. Através de amigos comuns e “do rock”, os dois foram  conhecendo os outros membros.

“Toda banda começa assim, né? Nessa percepção das afinidades, de gostar das mesmas  bandas e de tocar. Aí viemos compondo e fazendo planos“, conta Rodrigo.

Com a ajuda de amigos, gravaram um vídeo, com o qual se inscreveram no Desafio das Bandas – e o resto é história.

Agora, a banda se prepara para gravar seus primeiros registros, mas não um CD cheio ainda. É cedo, diz Rodrigo.

“Já temos repertório para um show inteiro, mas inicialmente vamos lançar singles e EPs”.

“É que queremos trabalhar mais, amadurecer as composições. A tendência natural é nos empenharmos para fazer composições melhores para termos o que escolher na hora de gravar um álbum cheio”, observa.

Por essas declarações aqui já deu pra perceber que Rodrigo é um carinha esperto, articulado.

Como é sempre bom conversar com quem tem o que dizer, o colunista blogueiro quis saber o que mais ele gostaria de dizer em sua primeira entrevista a este jornal blog.

“Uma coisa que percebemos no processo do Desafio é que é preciso fortalecer a cena. As  gerações anteriores se prenderam muito a panelinhas. Não dá pra ficar engessado num trecho só do circuito. Temos que tocar com bandas que nos façam sair da  zona de conforto, se aventurar fora do nosso nicho”, reflete.

"Panelinha enfraquece a cena, é ruim pra todo mundo. Se todo mundo tiver essa percepção, o processo é natural: sem hierarquia, nem panelinha”, afirma.

O Cartel é Ana Esther (vocal), Bruno Fontes (bateria), Juarez Junior (baixo), Rodrigo (sintetizador), Thiago Vinicius (voz e guitarra) e William Marques (guitarra).

Hoje, a Cartel Strip Club  se apresenta com a Exoesqueleto no projeto Quanto Vale o Show?, capitaneado pelo produtor / DJ / ícone Rogério Big Bross. Boa oportunidade para conferir a garra da rapaziada.

Sorry, galera, foi ontem. Era para ter postado isso aqui ontem também, mas me passei....



NUETAS

No Palla  neste NatalPalla é uma gíria antiga, a mesma coisa que “bandeira”. No Palla, portanto, é não dar bandeira. E também é a festa dos meninos da Vivendo do Ócio em São Paulo, que chega a Salvador pela primeira vez na noite de Natal. No som, a discotecagem fica por conta dos quatro membros da banda, mais um DJ surpresa convidado. Então nesse Natal o esquema é o seguinte: forra o estômago com a família e depois pinta lá no Dubliner's. Amanhã, 23 horas, R$ 15.
 
Scambo fecha 2014

Sábado (27), a Scambo faz seu show / festa de confraternização de fim de ano no Portela Café. Adorada pelo seu público, a banda costuma fazer dos seus shows grandes celebrações, com os fãs cantando junto todas as músicas. Um feito e tanto para uma banda 100% independente e que não manda ninguém sair do chão. Antecipado: R$ 20. Na hora,  R$ 40.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

A VIDA E AS MORTES DE ASSIS VALENTE


Assis Valente nos arcos da Lapa (RJ), em 1951
Em seu novo livro, o jornalista baiano Gonçalo Junior reconstrói a biografia de Assis Valente, genial compositor baiano – e revela seu vício em drogas e a depressão que o levou a se atirar do alto do Corcovado

Enquanto parte da classe artística e o Congresso lutam para manter a história e a memória    brasileiras no obscurantismo, guerreiros como Gonçalo Junior (e outros) afiam suas penas para trazer à luz a realidade dos fatos sobre grandes vultos históricos.

Desta vez, o jornalista baiano, autor de A Guerra dos Gibis, O Homem-Abril e Maria Erótica & O Clamor do Sexo volta seu escrutínio para um conterrâneo genial: Assis Valente (1911-1958).

Fruto de décadas de pesquisa, sua biografia para o compositor tem mais de 600 páginas e é superlativa até no título: Quem samba tem alegria: A vida e o tempo de Assis Valente, compositor das célebres Brasil Pandeiro, Cai, cai, balão, Camisa listada e Boas festas.

Recheado de revelações, o livro estabelece o vício em cocaína do artista e sua depressão. Compositor preferido de Carmen Miranda, teve dezenas de sucessos, mas nunca foi feliz de fato e vivia afundado em dívidas.

O desespero o levou a se atirar do alto do Corcovado. Por incrível que pareça, sobreviveu.

Nesta entrevista, Gonçalo Junior conta de suas motivações, da personalidade do biografado, a não-tramitação lei das biografias no Congresso, cita as razões do seu quase anonimato (apesar de todos conhecerem suas canções) e rebate as insinuações acerca do seu suposto homossexualismo, levantadas por alguns pesquisadores.

ENTREVISTA: GONÇALO JUNIOR

Gonçalo por Fernando Amorim | Ag. A TARDE
O que motivou o livro? A lacuna editorial (de ainda não haver um trabalho mais aprofundado sobre o homem e sua época), o fato dele ser um conterrâneo genial, a vontade de demonstrar sua real dimensão para a cultura brasileira, o desafio jornalístico de desvendar os mistérios em torno de sua vida ou tudo isso junto? Ou nada disso?

GJ: Tudo isso junto e um pouco mais. Claro que acreditar que Assis Valente não recebeu ainda a devida atenção no sentido de dimensionar o quanto sua vida foi trágia é um estímulo e um desafio. Sou baiano e sempre quis escrever algo ligado à cidade que mais amo, que é Salvador, embora tenha nascido em Guanambi e me mudado para a capital ainda criança. É o pagamento de uma dívida. Temos tantos artistas geniais. Adoraria biografar, por exemplo, Luiz Caldas, que considero gênio e me permitiria contar um pouco da axé music, da indústria musical de Salvador nesses 30 anos. Mas Assis me interessou mais no primeiro desafio. Tem a ver com algo mais pessoal.

Como foi seu primeiro contato com a música de Assis na infância? Foi daí que veio seu interesse por ele? Ou foi depois de adulto?

GJ: Cresci ouvindo Assis no Carnaval, no São João e no Natal, com suas marchinhas inesquecíveis como Cai cai balão e Boas Festas, principalmente. Em nossa casa era o que mais se tocava no toca-disco. Meu pai é uma enciclopédia ambulante da história da MPB. Nasceu em 1930, dois anos depois, surgiu o rádio comercial. Ele cresceu ouvindo Carmen Miranda, Mario Reis, Francisco Alves, Bide e Marçal, Aracy de Almeida, Noel Rosa e muitos outros. Acompanhou os 30 primeiros anos do rádio e guardou muita coisa em sua memória prodigiosa. Ele adorava fazer introduções antes de tocar os discos. Contava as mesmas histórias sempre. Por ter perdido um irmão que se matou, citava a tragédia de Assis como um exemplo de que tirar a própria vida não resolve nada. Cresci fascinado por sua história, queria saber como alguém que faz um samba chamado Alegria se atirou do Corcovado para a morte – e escapou por milagre.

Esta biografia de Assis é também um estudo muito detalhado de sua época, incluindo diversos aspectos culturais (claro), sociais e econômicos que enriquecem muito a leitura e portanto, a cultura geral de quem o lê. Quanto tempo você levou para produzir este livro, da ideia inicial à entrega dos originais à editora? Em que ponto você percebeu que não poderia falar de  Assis sem estar profundamente familiarizado com sua época e tudo que o cercava?

GJ: Eu passei uns 20 anos, desde a adolescência, na década de 1980, juntando material sobre Assis: discos, livros, recortes de jornais e revistas. Creio que foi o primeiro livro que pensei em escrever. Tanto que, em 1999, quando passei uma tarde inteira entrevistando Dorival Caymmi em seu apartamento no Rio e sabia que Assis tinha sido importante na sua vida, conversamos um tempão sobre ele. Ali já estava definido que escreveria sua biografia e aproveitei a oportunidade. O livro foi escrito ao longo de 32 meses, entre 2009 e 2011. Percebi que a depressão que mataria Assis tinha muito a ver com coisas que aconteciam à sua volta, como o lado nada glamouroso do mundo do rádio, os roubos de composições, as intrigas, as fofocas, as chantagens de radialistas para conseguirem co-autoria como condição para tocar as músicas nas rádios. Está tudo lá, inclusive os nomes dos vilões dessa história, que ajudaram a arrastar Assis para a cocaína, o que destruiu sua vida e acho que é a maior revelação desta pesquisa.
Assis aos 14 anos

Durante uma entrevista que fizemos há quase dois anos, vc me contou que  estava tendo problemas em lançar o livro por que o setor jurídico da  editora estava com um certo medo de processos dos descendentes de Assis, por conta das revelações que você faz em torno da relação do biografado com  drogas. Como esta questão se resolveu? A editora resolveu peitar o que viesse ou foi feito algum acordo com a família de Assis? Isso afetou de  alguma forma o conteúdo do livro?

GJ: Não, não tiraram uma vírgula, a não ser na revisão. Não houve conversa com a família no sentido de pedir autorização. Simplesmente a editora resolveu correr o risco em nome da liberdade de expressão, estimulada pela discussão que provocou aquele episódio deplorável e mesquinho protagonizado por Roberto Carlos. Somos o país mais hipócrita do mundo. Impossível ter outro pior. Essa discussão das biografias é meramente financeira, embora pudessem alegar direito de uso de imagem. Faça um bom acordo com as famílias e elas não vão se importar com honra nenhuma do biografado. Não foi assim que a biografia de Garrincha (Ruy Castro) foi liberada? Quando o livro voltou às livrarias, estava exatamente como antes e a família com a conta bancária gorda. E os argumentos sobre honra e reputação foram abandonados.

Anteontem (quarta-feira, 10), o senador Agripino Maia (DEM-RN) manobrou para que a lei das biografias não fosse adiante,  praticamente engavetando a lei por tempo indeterminado, a pedido do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO). Isso pode ter algum efeito imediato na publicação do seu livro? E a longo prazo, em que isso afeta seu  trabalho e o de outros biógrafos no Brasil?

GJ: Natural que quem tem sujeira para esconder fique apavorado em liberar as biografias, dentro dos preceitos democráticos e da livre expressão, como diz a nossa Constituição. Só tem um caminho para impedir que esse engavetamento aconteça: a sociedade civil voltar a pressionar o Congresso. E vai voltar, basta um novo processo surgir e causar indignação na opinião pública. Creio que chegamos a um ponto sem volta nesse sentido. No momento, as maiores editoras do Brasil estão contratando e produzindo grandes biografias que devem chegar às livrarias a partir do ano que vem. Elas têm a opinião pública, a imprensa e boa parte do judiciário, inclusive ministros do STF, a seu favor e vão bater de frente com essa palhaçada de usar uma lei abusiva e censora em prejuízo da história do país. A questão é simples: falam em biografias que denigrem figuras públicas. Pois bem: quem pode me citar um exemplo? A de Roberto Carlos, que nem os advogados dele leram porque usaram argumentos financeiros?

Assis foi ilustrador de revista erótica
Todo mundo conhece Brasil Pandeiro, Boas Festas e Cai Cai Balão. Mas poucos conhecem seu autor. A que você acha que se deve esse semianonimato de Assis Valente?

GJ: Depois de morto, ele ficou quinze anos praticamente esquecido. A sociedade desse que é, repito, o país mais hipócrita do mundo, não perdoa suicidas. Isso é praxe cultural, moral e religiosa. Os suicidas vão para o inferno e aqui, entre os vivos, são jogados no limbo. Assis foi um caso assim. Quando morreu, o presidente da Câmara Municipal do Rio não deixou velarem o corpo dele lá, alegou que não era famoso o suficiente para tamanha honraria. Na verdade, ele não o fez por se tratar de um suicida. Nessa época, Assis andava sujo, barba por fazer, sem tomar banho, delirante, consumido por seu vício pela cocaína. Essa revelação me foi feita pela afilhada, que conviveu com ele por treze anos. Não é invenção ou especulação irresponsável, como dizer que ele era homossexual a partir de interpretações das letras de seus sambas. Contesto isso com segurança no livro, apenas ao não fazer referência a isso. A não ser que me provem com documento que Assis não foi vítima de especulação sobre sua sexualidade bem depois de sua morte. Não vale dizer que a tia do primo da vizinha do porteiro do colégio contou que conheceu um cobrador de ônibus cujo nome não sabe mas garantiu que teve um caso com ele. Não dá, né? E é isso que fazem. Usam Camisa Listada, E o Mundo Não se Acabou e Fez Bobagem para afirmar que as letras são cifradas com simbologias gays. O que dizer, então, de Folhetim, de Chico Buarque? Me poupe.

Há a possibilidade de algum dia o livro ser adaptado em filme ou série  de TV? Alguém já te abordou quanto a isso?

GJ: Não, ninguém me procurou nesse sentido. Assis teve a vida mais trágica da história da MPB. Só o dia da morte dele, que relato em 15 páginas, daria um grande filme. Tomara que isso aconteça no sentido do Brasil rever seu valor e fazer justiça a um gênio esquecido.

Em que medida você acha que a obra de Assis foi importante no  desenvolvimento da chamada "linha evolutiva" da MPB, aquela que desembocou  na bossa nova, tropicalismo, a MPBzona de Chico-Caetano-etc?

GJ: Não sei se chegou tão longe, mas me parece que ao introduzir a melancolia no samba – que teria adeptos e seguidores como Caymmi (Saudade da Bahia, por exemplo), Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola e Batatinha – ele mostrou novas possibilidades para o gênero, que renderia variações mais celebradas pela classe média e os intelectuais como a bossa nova. Para mim, Assis e Noel foram os dois modernizadores do samba e os dois maiores compositores da era de ouro do rádio, sem diminuir a importância de Ary Barroso e Lamartine Babo, entre outros. Claro que coloco Caymmi – o pai da bossa nova, creio – como posterior a isso, embora tenha sido revelado em 1939.

Próximo do fim, Assis era a imagem da decadência
É muito comum descobrirmos que artistas que transmitem muita alegria em sua obra eram na verdade depressivos, tristes e viciados em drogas. (Aliás, algo muito comum em comediantes também). Você diria que Assis se encaixa nesse perfil?

GJ: Perfeitamente. Assim como Assis, esses artistas têm, em comum, uma doença grave que só nas últimas décadas tem sido estudada, tratada e compreendida: a depressão. Não é coragem ou covardia que leva o sujeito a se matar. Não tem nada a ver. A depressão simplesmente tira o interesse pela vida. E, muitas vezes, provoca alterações radicais de humor, vão de um extremo a outro. Por isso, Assis recorreu terapeuticamente à cocaína. Em Alegria ele escreveu: “Vou cantando fingindo alegria para a humanidade não me ver chorar”. Acho que um psicólogo ou psiquiatra pode explicar melhor isso.

Assis pegou a transição dos tempos do teatro de revista para o rádio.  Como ele se relacionou com a nascente comunicação de massa? Ele compreendeu sua importância de cara?

GJ: Assis foi um gênio instintivo ao perceber a força do rádio e as possibilidades de promoção, de se tornar famoso. Ele queria a fama para se fazer notar na Bahia, em Salvador, que o recusou como cartunista brilhante que ele era. Queria mostrar para o pai branco que era uma pessoa especial e merecia carinho e atenção. descobriu-se um marqueteiro nato e ganhou muitos inimigos por isso. Era odiado por se promover tanto na condição de compositor e não cantor - só esses podiam brilhar. Os amigos faziam intrigas, fofocas, porque ela saía na rua com os bolsos cheios de fotos suas que distribuía e dava autógrafos no verso. Ele era tão astuto que, antes de ter seu primeiro samba gravado, convenceu o jornal O Globo a fazer uma concurso para escolher um cantor que interpretaria a marcha que ele em fez em homenagem ao próprio jornal. Isso tudo aconteceu entre 1932 e 1939, quando ele emplacou uma centena de sucessos, ao menos. Um caso impressionante. Só Carmen Miranda gravou 23 músicas suas. A maioria caiu na boca do povo.

Em que medida você acha que a relação de Assis com entorpecentes foi decisiva para a sua ruína? Ou ele teria se arruinado mesmo que fosse "careta"?

GJ: Se ele fosse careta, continuaria a fazer músicas tristes e melancólicas como Boas Festas (Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel). Foi a doença que o inspirou a fazer músicas assim, não as drogas. A cocaína veio depois, quando Carmen Miranda foi embora do Brasil e ele perdeu sua maior intérprete. Por outro lado, a droga o destruiu, impediu de criar, mais arrastou-o para a sarjeta e ao endivadamento desesperado, motivo para seus gestos de loucura, combinados com o grave quadro depressivo: matar-se por causa de dívidas. No livro, falo dos dramas de Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Zezé Fonseca e outros que tiveram suas vidas arruinadas e até se mataram (como Zezé Fonseca, a musa de Orlando) ou tentaram.

A indústria fonográfica e a cena musical é um meio assediado por marreteiros em busca de lucro fácil e imediato não é de hoje, como vemos no seu livro. Como você avalia a postura geral de Assis nesse "antro"?

GJ: Assis e grandes compositores como Ary Barroso e Lamartine Babo reagiram com firmeza e se afastaram dos concursos de sambas e marchas ainda na década de 1930. Ary presidiu uma entidade de compositores e de arrecadação de direitos autorais e botou a boca no mundo, denunciou esquemas de jabás e apropriações de sambas e direitos autorais em jornais convencionais e nas páginas de revistas importantes como Carioca, O Malho, Revista do Rádio e Radiolandia, cujas coleções completas eu consultei para o livro. Só a Carioca teve 600 números. Na época havia um esquemão selvagem de propina que no meio se chama jabá ou jabaculê. Depois, piorou, quando passou-se a pagar até mesmo para não tocar os concorrentes. Alguém precisa escrever um livro sobre isso ao longo do século XX.

Alguma possibilidade de lançamento de Quem Samba Tem Alegria em  Salvador, com sessão de autógrafos?

GJ: Adoraria. Mas fico meio inseguro. Sai de Salvador há 17 anos, perdi o contato com muita gente - amigos, colegas de colégio e faculdade - e temo que ninguém apareça.

Quem samba tem alegria / Gonçalo Junior / Civilização Brasileira / 644 p. / R$ 65

quinta-feira, dezembro 18, 2014

USINA MÚSICA: PRIMEIRA TEMPORADA DE WEBSÉRIE FOCA ARTISTAS DO MOVIMENTO BASS BAHIA

Frame do Episódio 1, com o DJ Rafa Dias, AKA ÀTTØØXXÁ e seus dreads
No sempre difícil cenário da música alternativa baiana, um dos maiores aliados na divulgação de bandas e artistas é o uso esperto das novas (ou nem tão novas assim) ferramentas digitais do audiovisual.

Nos últimos anos, algumas iniciativas ajudaram a criar uma visibilidade importante para a cena local, como Mê de Música e Vandex TV (há outras, mas a memória do colunista blogueiro falha no momento).

Agora uma outra produtora na cidade cria vídeos de divulgação dessa produção independente: Usina Música.

Idealizado pelo videomaker Rafael Souza, da produtora Usina Films, a websérie Usina Música iniciou com cinco episódios em sua primeira temporada:  ÀTTØØXXÁ (projeto do DJ Rafa Dias), Mauro Telefunksoul, Afrocidade (grupo de Camaçari) e Lucas Brasil vs. Kongo (dupla de DJS que se apresenta back to back, ou seja: juntos).

“O Usina Música nasceu da vontade de fomentar, divulgar e fortalecer a música alternativa na Bahia”, afirma Rafael.

“Atrelado a isso, queremos focar também no audiovisual. Não é só um produto audiovisual de música, mas os dois juntos, o tempo todo. Queremos as pessoas vejam que aqui conseguimos criar produtos de qualidade”, reivindica.

O projeto foi lançado com uma grande festa sábado passado retrasado na Casa de Taipa, em Camaçari, com shows de todos os artistas da temporada e direito a um ônibus saindo do Rio Vermelho para a galera de Salvador que quis comparecer.

Porta de saída

Frame do Episódio 2, com o DJ Mauro Telefunksoul (de boné)
Como o leitor mais atento pôde notar, essa primeira leva de episódios foi dedicada a DJs e artistas mais ligados à cena eletrônica.

Rafael conta que, nos próximos, o leque de estilos será mais amplo.

“Sim, não vamos fazer só música eletrônica até por que o pessoal já reclamou, a ideia é fazer também Scambo, Baiana System, Bemba Trio, o pessoal da MPB, do rock, toda a música alternativa da Bahia”, conta.

Produzida de forma 100% independente até aqui, Rafael pretende buscar apoio em editais para ampliar o escopo do projeto.

“Em 2015 vamos tentar um edital para ver se fazemos seis episódios  e seis videoclipes e divulgar um por mês, alternando entre um e outro”, diz.

“Tem muita coisa boa na cidade que surge e depois morre por que não tem porta de saída, não conseguimos fomentar da forma correta”, avalia Rafael.

Conheça: youtube.com/usinafilms


quarta-feira, dezembro 17, 2014

CAJAT: INFLUENCIADO POR CAZUZA, EX-NEOLOGIA ESTREIA SOLO COM CD E SHOW NO PORTELA

Cajat, em foto de Filipe Rodrigues
Às vezes não adianta tentar se enganar.

É como diz o título daquele documentário sobre três irmãs cantoras cegas, A Pessoa é Para o Que Nasce. E parece que Paulo Cajat, ou apenas Cajat, nasceu para tocar seu rock.

E olha que ele ainda tentou se sair dessa (cof cof) roubada: “Eu fundei a banda Neologia com Ian Lasserre e Túlio Lima. Depois saí e parei com a música por uns quatro anos”, conta o rapaz.

“Foi o tempo que me formei em psicologia e trabalhei por dois anos nessa área e em educação, mas sempre tendo a música por perto, sempre compondo. E ainda  fiz meu TCC sobre música”, relata.

“E embora eu gostasse do que fazia, não adiantava: eu queria ser músico”, afirma Cajat.

Após muito refletir, o rapaz acabou cedendo aos seus anseios e assumindo para si mesmo o que realmente queria.

“Esse foi um período em que vivenciei muitas coisas, um mergulho interno grande. Compus muito sobre esses questionamentos existenciais: que rumo tomar, o que eu queria para minha vida, como viver a partir da minha verdade e como assumir isso para as pessoas e minha família”, relata.

Quando emergiu desse “mergulho interno”, Cajat já tinha o repertório de um álbum inteiro em mãos.

Intitulado Noite Fria, o CD é uma belezinha: muito bem produzido e executado, é forte e claramente influenciado por Cazuza.

E o show de lançamento já é depois de amanhã (quinta-feira 17), no Portela Café.

Letras autobiográficas

Ao lado do parceiro musical Renato Nunes, Cajat reuniu diversos músicos para tocar nas faixas em um álbum que, segundo o próprio, não é uma mera reunião de canções: “As músicas se relacionam entre si,  não são soltas. O começo é mais dark, com afinações mais baixas. Depois fica maias dançante e termina mais acústico”, detalha.

“Tudo para delinear a história do disco, o que foi um processo muito íntimo. São músicas que retratam muito minha vida, com letras autobiográficas”, conta.

O toque final que deixou tudo com o som profissa que se ouve no CD foi dado por andré t na mixagem e Carlinhos Freitas (de São Paulo), na masterização.

Pois é. Enquanto tem gente que só canta vulgaridade e babaquice para lucro imediato, Cajat quer se expressar. Isso é arte. Agora cabe ao público apreciar (ou não) o esforço. Boa sorte.

Show de lançamento: “Noite Fria” / Quinta-feira, 21 horas / Portela Café (Rua Itabuna, 304, Pq. Cruz Aguiar, Rio Vermelho) /  R$ 15  e R$ 20 (com o CD)

Ouça: www.cajat.com




NUETAS

Poções Rock City

O Festival Ruídos no Sertão 2015, realizado em Poções (444 quilômetros de Salvador), anunciou quatro atrações internacionais de dar tremeliques em qualquer camisa preta. São quatro vocalistas de heavy metal amplamente conhecidos pelos fãs do gênero: Tim Ripper Owens (ex-Judas Priest), Blaze Bayley (ex-Iron Maiden), Mike Vescera (ex-Ingwie Malmsteen) e Udo Dirkschneider, o baixinho com voz de trovão da antológica banda alemã Accept. As locais Malefactor e Batrákia também já estão confirmadas. O evento tem patrocínio do Governo do Estado através do Fundo de Cultura. Datas e valores serão divulgados em breve.

Móveis no Portela

Os brasilienses da big band Móveis Coloniais de Acaju fazem seu baile muito doido amanhã, no Portela Café. Os rapazes divulgam seu terceiro CD, De Lá Até Aqui. 22 horas, R$ 30.

Maglore com Sarina

Contratada pela Deck  (a “casa” do rock baiano, já que ainda tem Ptty e Vivendo do Ócio), a Maglore faz dois shows com a banda Sarina. Sábado em Feira de Santana , no Antiquário Pub 21 horas, R$ 15. Domingo na Commons, 18 horas, R$ 15.

terça-feira, dezembro 16, 2014

PODCAST ROCKS OFF FAZ AS CONTAS: HEAVY METAL + PUNK + COLLEGE RADIOS = ROCK ALTERNATIVO

O ma-ra-vi-lho-so (ui) Judas Priest, uma das bandas formatadoras do metal
Neste episódio, Nei Bahia e Osvaldo Braminha Júnior discutem como o heavy metal, o punk rock e as college radios, patinhos feios dos anos 1980, vieram a moldar o rock alternativo que estourou no inicio dos anos 1990, com o grunge, The Year Punk Broke etc.











OBRA DE (E SOBRE) GREGÓRIO DE MATOS EM CINCO VOLUMES É PREMIADA PELA APCA

Lançada em outubro, a coleção em cinco volumes Gregório de Matos: Poemas atribuídos - Códice Asensio-Cunha, foi anunciada esta semana retrasada como vencedora na categoria literatura do 59º Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

A coleção foi organizada por dois especialistas em literaturas luso-brasileiras: João Adolfo Hansen, da USP, e Marcello Moreira, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

De São Paulo, onde já se encontrava para participar de uma banca de avaliação e proferir palestra com Hansen, Marcello se disse “bastante feliz, pois não esperava receber nada”.

A premiação certamente se aplica, dado o caráter titânico da tarefa incumbida aos dois pesquisadores.

Como o título dá a entrever, a coleção reúne todos os poemas atribuídos ao Boca do Inferno que circularam de mão em mão pela Cidade da Bahia (como Salvador era chamada no tempo do poeta), entre o final do século 17 e o início do século 18.

Folhas de mão em mão

“Esse poemas circularam em volantes, folhas soltas. E mais do que em papel, circularam muito na oralidade: recitada e cantada”, conta Marcello.

“Em um segundo momento do processo de transmissão, as folhas eram reunidas e costuradas, encadernadas, dando origem a livrinhos de mão, manuscritos e constituídos com essa folhas soltas”, descreve.

O Códice Asensio-Cunha é justamente um desses livros manuscritos. Marcello e Adolfo trabalharam mais de três anos no tratamento do material – que ainda não acabou.

“O programa de pós-graduação em literatura brasileira da USP mandou o convite ao Hansen para a edição dos poemas atribuídos ao Gregório. Hansen me convidou para preparar a edição com ele e trabalhamos por três anos”, conta.

“A edição ainda não está acabada. Editamos quatro volumes do Códice e um livro de apresentação do conjunto, mas ainda falta editar muitos poemas, que precisam de tratamento filológico. No segundo semestre de 2015 devem sair os dois volumes que faltam”, revela.

Sobre a questão dos poemas atribuídos ao Gregório, Marcello pontua que, “de todos os manuscritos que sobreviveram e estão no Brasil, Inglaterra, Portugal e Estados Unidos, nenhum deles foi escrito pelo próprio poeta”.

“Não há ‘manuscrito autógrafo’. Como essa poesia foi reunida e atribuída com o nome dele, não podemos dizer com certeza que de fato todos os poemas são dele. Por isso dizemos que  são atribuídos”, detalha.

“E  mesmo que tirássemos todos os poemas que com certeza podemos atribuir a outros poetas, o que restasse ainda não se poderia dizer com certeza que era do Gregório”, observa.

Polêmica baiana

Apesar do peso da pesquisa de Marcello e Adolfo, a coleção tem sido vista de esguelha pela intelectualidade baiana ligada ao estudo da obra de Gregório.

Em artigo publicado em A TARDE no dia 8 de novembro, o jornalista e pesquisador João Carlos Teixeira Gomes lamentou que sua pesquisa, bem como as de Fernando da Rocha Peres e Silvia La Regina não tenham sido citadas na bibliografia.

Marcello rebate: “Ele faz uma queixa que me pareceu pessoal por que diz que não foi citado. A explicação é simples: nesse livro, tratamos de letrados, manuscrituras”, afirma.

“Trabalhamos códices e cancioneiros de Gregório. Tentamos rastrear as matrizes dos cancioneiros de Gregório e quais são os cancioneiros de poetas anteriores que serviram de modelo para os de Gregório. Esse tipo de pesquisa não foi feita nem por João Carlos, nem por Silvia La Regina ou por Fernando da Rocha Peres”, conclui Marcello.

Poemas atribuídos – Códice Asensio-Cunha / Gregório de Matos / Autêntica/ Cinco volumes a R$ 45 cada, em média

quinta-feira, dezembro 11, 2014

NATURA MUSICAL ANUNCIA CONTEMPLADOS DOS EDITAIS PARA 2015

Gal Costa, Larissa Luz, Sertanília, Mariella Santiago, Festival Radioca e Cartilha da Samba Chula foram os contemplados da Bahia em curadoria que contou com Charles Gavin, Goli Guerreiro e Alexandre Matias
Mariella Santiago durante sua apresentação no Bourbon Street
Foi com uma bela festa no Bourbon Street, uma das casas de show mais tradicionais de São Paulo, que a Natura Musical anunciou a leva 2015 dos contemplados do projeto, hoje mais respeitado do que o cast de qualquer gravadora tradicional.

Foram anunciados 30 projetos em seis editais diferentes, disponibilizando R$ 6,4 milhões.

O Edital Bahia corresponde a R$ 1 milhão desse montante e contemplou cinco projetos, sendo três artistas e dois coletivos: Mariella Santiago (que vai gravar um DVD ao vivo, com shows de lançamento em cinco cidades), Larissa Luz (que grava seu segundo CD solo) e Sertanília (que também grava seu segundo álbum).

Os projetos coletivos são o Festival Radioca (criado a partir do programa de rádio transmitido pela Rádio Educadora) e A Cartilha do Samba Chula, que produzirá um CD, um DVD e um livro de atividades pedagógicas a partir da tradicional manifestação cultural do Recôncavo.

Outra baiana contemplada foi Gal Costa – no Edital Nacional -, que vai gravar um álbum ao vivo só com canções do gaúcho Lupicínio Rodrigues (com apresentações em sete cidades), intitulado Ela Disse-me Assim.

Os outros contemplados no Edital Brasil foram Chico Cesar (que grava um álbum de inéditas após sete anos), Bnegão & Os Seletores de Frequência (CD inedito), pianista e cantora Maíra Freitas (CD inédito) e o pianista pernambucano Vítor Araújo (CD com a Orquestra dos Prazeres).

Outros destaques foram Elza Soares, Emicida (Edital São Paulo), Nei Lisboa, Filipe Catto, Luiz Carlos Borges (Edital Rio Grande do Sul), Flavio Venturini, Trio de Cordas (Edital Minas Gerais), Dona Onete, Felipe Cordeiro e Sammliz (Edital Pará).

“Foi um trabalho árduo”, disse Fernanda Paiva, gerente de apoios e patrocínios da Natura.

“Foram mais de 4,2 mil inscrições de todo o Brasil. Mas estamos muito felizes em inaugurar o ano de comemorações dos dez anos do Natura Musical (em 2015), estreando também os editais do Rio Grande do Sul e de São Paulo”, afirmou.

“Nós tentamos sempre contemplar três cestas, digamos assim: Artistas Consagrados, Novos Talentos e Formação & Legado. Assim buscamos revelar a excelência artística e a relevância cultural da música brasileira”, acrescentou Fernanda.

Além dos editais nacional, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pará também foram contemplados com seus próprios editais.

A curadoria foi coordenada por Charles Gavin, também responsável pelo edital nacional e pela comissão de curadores regionais. Na Bahia, a responsável pela curadoria foi a antropóloga Goli Guerreiro.

“A gente (os curadores) recebeu todos os projetos que eles selecionaram para ser analisados. Aí depois nos encontramos aqui em São Paulo, para debater. Muitas vezes tínhamos que convencer outros curadores a votar em tal projeto, por que, para ser contemplado, ele tem que ser unanimidade”, contou Goli.

“Mas na verdade, na votação dos projetos da Bahia, todos esses que foram contemplados foram unanimidade”, completou o jornalista Alexandre Matias, curador do Edital São Paulo.

“Foi muito comentada a força dos candidatos da Bahia”, acrescentou Goli.

“A coisa mais importante é dar essa panorâmica na cena baiana. Selecionar um festival foi fundamental, é um prêmio para os artistas independentes. O caráter étnico dos trabalhos de Mariella e Larissa também foi peça chave. É muito importante colocar em cena artistas com esse tipo de conteúdo”, observa.

Outro ponto positivo do Natura Musical foi o intercâmbio entre cenas regionais que o projeto acaba por estimular.

“Sou um músico regional nativista com 52 anos de carreira”, conta o gaúcho Luiz Carlos Borges, contemplado no edital Rio Grande do Sul, que vai produzir uma biografia com CD e partituras.

Sammliz, ex-Madame Saatan, estreia solo pela Natura Musical em 2015
“Me sinto reconhecido com esse projeto da Natura. O Brasil é um país tão grande, né? Acaba que muitos artistas se resolvem em suas regiões e não circulam. Por isso é tão legal esse intercâmbio através desses editais”, observa.

Já a cantora paraense Sammliz ficou conhecida pelo Brasil como vocalista da banda de heavy metal Madame Saatan.

Em seu trabalho solo que será gravado por meio do edital Pará, ela parte para uma abordagem com elementos regionais e de eletrônica. “Mas a base continua sendo o rock”, avisa a moça.

Outros baianos presentes no Bourbon Street foram Anderson Cunha e a cantora Aiace, que perfazem dois terços do trio Sertanília.

Aiace e Anderson Cunha, do Sertanília, grupo contemplado no Edital Bahia
“Tô muito feliz”, disse Anderson. “Trabalhamos tanto, com tanta seriedade, que a recompensa veio”, acrescentou.

“Isso para mim é também um reconhecimento para o sertão baiano. Depois de 30 anos de axé, acho que os baianos estão aprendendo a olhar para o outro lado da Bahia”, apostou Anderson.

Larissa Luz também estava lá e disse que “o edital veio em boa hora, pois eu já estava com a ideias do segundo disco todas na cabeça”.

Com faixas autorais e releituras, Larissa disse que o seu disco terá parceiros importantes da cena baiana. “Mas prefiro dizer quem serão no momento certo”, despistou.

Badalada, a festa ainda contou com um pocket show com a participação de diversos artistas contemplados, como Elza Soares, Felipe Cordeiro, Mariella Santiago, Dona Onete, Filipe Catto, Larissa Luz, Emicida e a banda paulista Alafiá.

O jornalista viajou a São Paulo a convite da Natura Musical.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

PODCAST ROCKS OFF DISSECA RORY GALLAGHER

Dónal, irmão de Rory e a estátua do guitar hero em Ballyshannon
Nei Bahia, Miguel Cordeiro e Osvaldo Braminha Silveira dissecam o mago irlandês da guitarra: Rory Gallagher (1948-1995).

Nascido na cidade de Ballyshannon, Gallagher foi revelado no power trio de blues rock Taste, ainda nos anos 1960.

No anos 1970, em carreira solo, embasbacou o mundo com a garra, a criatividade e a musicalidade dos seus solos.

Morreu em Londres, em 14 de junho de 1995, por complicações após uma cirurgia de transplante de fígado.

Não me perguntem por que ele precisou de um fígado novo...

Cultuadíssimo pelos fãs através de gerações, hoje há até um festival com seu nome em sua cidade natal.

A edição de 2015 é em maio, veja: http://www.rorygallagherfestival.com/.

(Inda dá tempo, Nei!)



BÔNUS: Rory Gallagher Irish Tour 1974 


Ballyshannon

quinta-feira, dezembro 04, 2014

BIBLIOTECA DESENHADA

Soneto 20, de Shakespeare, por Aidan Koch
Cânone Gráfico Volume 1 traz adaptações de 51 clássicos da literatura universal por grandes nomes das HQs

De alguns anos para cá, as adaptações de obras literárias em quadrinhos se tornaram um filão de mercado disputado pelas editoras, de olho na verba do PNBE (Programa Nacional Biblioteca nas Escolas). O lançamento Cânone Gráfico Vol. 1, porém, é de uma espécie muito diferente das adaptações convencionais.

Organizada pelo jornalista e ativista norte-americano Russ Kick, o volume – com feitio de tijolo – é uma antologia que reúne adaptações de trechos de obras do cânone literário universal, por alguns dos artistas mais conceituados dos quadrinhos mundiais.

Precedidas por bons textos de apresentação das obras, as adaptações estão, a bem da verdade, mais para uma livre interpretação de cada artista para o livro em questão, tal a liberdade criativa e a ampla diversidade de estilos.

Um bom exemplo é a adaptação de Molly Crabapple para As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, que consiste em apenas três (esplêndidas) ilustrações mudas de uma página cada – e, ainda assim, a desenhista resume o drama epistolar francês.

Diário Londrino, de James Boswell., po R Crumb
Já Robert Crumb, um dos maiores gênios da história da arte sequencial, fiel ao seu estilo verborrágico e graficamente rebuscado, faz uma releitura fidedigna e detalhada para um trecho do Diário Londrino, de James Boswell.

Outro enorme mérito do Cânone Gráfico Vol. 1, desta vez vez para o organizador Russ Kick, é a inclusão de textxtos religiosos, cartas, manifestos e clássicos ancestrais pouco conhecidos do público ocidental, como O Livro Tibetano dos Mortos, Apu Ollantay (peça teatral da tradição oral inca), Popol Vuh (poema épico maia), Poemas (de Rumi, poeta persa da tradição sufi), Mahabharata (poema épico indiano) e muitos outros, todos belamente vertidos em arte gráfica.

Projeto em três volumes, este primeiro, lançado no Brasil pelo Barricada (selo de HQ da Boitempo) começa justamente daquele que é considerada a primeira narrativa humana: A Epopeia de Gilgamesh, recuperada de tábuas babilônicas datadas de mais de dois mil anos antes de Cristo.

O primeiro volume se encerra com ó já citado As Ligações Perigosas, de 1782.

Espera-se que a editora dê prosseguimento à coleção, cujo segundo volume começa em Kubla Khan (1797), poema do inglês Samuel Taylor Coleridge e encerra com O Retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde).

O terceiro volume é inteiramente dedicado ao século 20, Coração das Trevas (1899, de Joseph Conrad) à Graça Infinita (1996), de David Foster Wallace.

Fabuloso encontro de literatura e arte gráfica, projeto maluco e ambicioso, Cânone Gráfico acaba tendo valor por si só, independente do vasto elenco de gênios vivos e mortos envolvidos em sua feitura.

Altamente recomendado.

Cânone gráfico I: clássicos da literatura universal em quadrinhos / Russ Kick (org.) / Barricada - Boitempo / 456 p./ R$ 118

terça-feira, dezembro 02, 2014

RESTGATE BLUES, DE SALVADOR, PROMOVE FESTIVAL DE BLUES NO CAPÃO, ESTE FIM DE SEMANA

Distintivo Blue, de Vitória da Conquista, inspirou a criação do festival
Vista nesta coluna em agosto (na coluna Coletânea, quando assumida em agosto pelo colega de redação Gabriel Serravalle), a banda Restgate Blues está assumindo um papel de protagonista no fortalecimento da cena blueseira local.

Além de organizar shows gratuitos mensais em seu bairro (Resgate), a rapaziada promove este fim de semana o II Encontro de Blues da Chapada Diamantina.

O evento, organizado de forma independente e viabilizado através de crowdfunding (via Catarse), rola sexta-feira e sábado na adorável vila do Vale do Capão, com shows de bandas da capital e do interior à noite e oficinas musicais e ecológicas durante o dia.

A programação de shows traz as bandas Distintivo Blue (Vitória da Conquista), Mendigos Blues (Itabuna), Três de Vinte, Meia noite no Alí (Itaberaba), Noite Vermelha e a anfitriã, Restgate Blues.

O vocalista da Restgate, Wylsel Jr., conta que foi a banda de Conquista que o inspirou a organizar o festival.

“Um dia, a Distintivo Blue criou uma catalogação de bandas de blues do Nordeste no (finado) Orkut. Cadastrei a Restgate Blues e fiquei surpreso com a quantidade de bandas que tem aqui na Bahia”, relata.

Na época, Wylsel, que morava no Capão, resolveu fazer um festival de blues no local. “Comecei a me comunicar e, como estava no Vale, e não imaginava que fosse sair de lá, falei com o dono do Circo do Capão e  planejamos o projeto por lá: shows do circo e jam em um café da vila”, conta.

Só que, depois de algum tempo, ele teve de voltar a morar em Salvador. No ano passado, o guitarrista da Restgate estava por lá e avisou Wylsel que haveria uma oportunidade, durante a festa do padroeiro da vila.

Meia-Noite no Alí, banda "meio de Itaberaba, meio de SSa"
“Em questão de um mês fizemos um evento pequeno, mas que deu bastante gente, com a Restgate, Três de Vinte e o gaitista Luiz Rocha”, relata.

Planos para 2015

No festival deste ano, a turma conseguiu ampliar o leque de atrações – e promete um evento ainda maior para 2015.

Independente, o festival foi viabilizado através de doações no Catarse e apoio dos comerciantes locais.

"De Salvador, tem a gente, a 3 de Vinte e a Noite Vermelha, que é uma banda cover do Barão Vermelho, mas que também tem um trabalho de blues que pouco apresentam. A 3 de Vinte nos foi apresentada pelo Luiz Rocha e faz um som na linha Chicago, estão trabalhando um repertório autoral agora", conta.

"Tem outra que é meio de Itaberaba, meio de Salvador, a Meia-Noite no Alí. É que em Itaberaba tem um bar chamado Alí. Aí o pessoal perguntava que horas eles tocavam e eles diziam que era Meia Noite no Alí", relata.

"A Distintivo Blue fez a catalogação que me inspirou a buscar esse evento. É uma banda espetacular. Tem um site muito bacana e é a única banda do Nordeste inteiro que participou de uma coletânea de blues brasileiro. Tem uns 4 EPs gravados e já fizeram vários shows pelo Nordeste e devem estar se mudando para Curitiba em breve. Fazem um trabalho muito bom há um bom tempo em Conquista. São muito profissionais, mas como lá não tem muito retorno, pararam por oito meses. Eu enchi o saco deles para não pararem, aí eles voltaram", conta.

“Estamos aprendendo, tomando as porradas, encaixando as peças. (Ano que vem) Queremos fazer em agosto. O dia 1º, um sábado, é o dia mundial do blues, então vamos tentar chamar atenção para isso”, conta.

“Já temos o projeto pronto para inscrever em um edital. Vai ser mais planejado”, promete.

II Encontro de Blues da Chapada Diamantina / Sexta-feira e sábado, 19 horas / Oficinas: 10 e 15 horas / Vale do Capão (Palmeiras) / Gratuito

NUETAS
 
Festival de metal local

O I Bahia Metal Festival é  sábado,  com Keter, Rattle, Malefactor, Headhunter D.C. e Trepanator. Boa mostra do som local. 18 horas, Alto do Andu. R$ 40 (Foxtrot, Midialouca).

Daganja free

O rapper Daganja faz show gratuito quinta-feira no Dubliner’s, com o coletivo hip hop Família Ugangue.  22 horas, grátis.

Alumínio também


O reggaeman Alumínio lança seu novo CD Eu Sou o Barro em show gratuito sexta-feira, no Largo Quincas Berro D´Água. 20 horas, grátis.

Les Royales na sexta

Sexta tem Les Royales no Dubliner’s. 23 horas, R$ 15.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

O REI E ECO

Show de Roberto Carlos na Itaipava Arena Fonte Nova seguiu à risca roteiro rígido que é sua marca, com exceção da surpresa Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. O ponto negativo foi a qualidade do som: prejudicada por eco e reverb, as palavras do Rei estavam quase incompreensíveis

O céu limpo de noite estrelada se abriu para a audiência real do último sábado com Roberto Carlos, na Itaipava Arena Fonte Nova.

Os súditos acorreram em massa ao estádio e começaram a se acomodar nas arquibancadas e cadeiras dispostas no campo duas horas antes do início do espetáculo, previsto para as 21h30.

Aqui e ali surgem faixas e cartazes empunhadas pelos aldeões,   saudando a visita real. “Grupo da 3ª idade de Muritiba saúda o Rei Roberto Carlos”. “Te amo, RC. Ass.: Isa Torres”. “Estamos juntos no Novembro Azul”, arriscou uma, fazendo referência ao mês de prevenção ao câncer de próstata.

Ainda havia um outro banner, que exibia apenas a foto da fã, abraçada ao Rei, na típica foto de camarim pós-show. A imagem que vale mil palavras, com o perdão do clichê.

Por todo o estádio, é possível perceber a predominância feminina do público, especialmente de mulheres acima dos 45, 50 anos.

Espevitadas em seus melhores vestidos de festa, elas percorrem a pista em passinhos rápidos, indo e voltando do open bar, sorridentes como na noite dos seus 15 anos, a expectativa pela chegada do príncipe encantado evidente nos olhos atentos e nos rostos corados pela agitação.

“Não perco um show do Roberto”, confirma Inah Borel, um copo de cerveja em cada mão – o segundo era para uma amiga, claro.

“Só não fui em Las Vegas. Meu sonho é conhecer o camarim do Rei, mas acho que deve ser  impossível”, lamenta.

Outra distração antes do show é observar as figuras folclóricas que seguem Roberto. Circulando pelo gramado, havia – pelo menos – dois sósias a caráter, que a todo momento eram abordados para tirar fotos e conceder entrevistas à imprensa.

Um deles, Gabriel Silva, é radialista em Rio Real, a 202 quilômetros de Salvador.

“Faço algumas aberturas de shows”, conta. Mas o senhor canta? “Estou tendo aulas de canto e tenho tentado interpretar as músicas de Roberto Carlos. Desenvolvo um trabalho cultural gratuito”, fez questão de frisar, muito educado.

Outra figura é o pintor Raimundo dos Santos, que vestia uma camisa (que parecia jamais ter sido lavada) da escola de samba Beija-Flor, com o tema do carnaval 2011: Roberto Carlos.

“Eles ganharam por que apostaram nele”, garante. E o senhor viu o desfile? “Não, essa camisa me enviaram de lá do Rio, mas eu vou em tudo que é show dele, desde 1978”.

Às 22 horas, com meia hora de atraso, o estádio fica as escuras e o povo urra. O espetáculo vai começar.

Eduardo Lages, maestro e líder de torcida, rege orquestra e público ao som do medley que cria o clima para a chegada do Rei. Adequadamente, todos se levantam em respeito (e excitação), à entrada em cena da inconfundível figura cabeluda de blazer branco impecável, o rugir da multidão que já lhe parece inseparável.

Ao clima sinatriano de Emoções, percebe-se que o cenário é o mesmo do show no TCA em 2011: fundo preto todo furadinho e iluminado por trás, criando o efeito “noite estrelada”.

O repertório, exceção feita ao hit mais recente Esse Cara Sou Eu (que confirmou sua condição ao ser uma das músicas mais aplaudidas do espetáculo), também é basicamente o mesmo.

E nem poderia ser diferente: é isso mesmo que as pessoas esperam ouvir. “Que prazer ver vocês aqui em Salvador, na...”, faz uma pausa para conferir o teleprompter aos seus pés: “Arena Fonte Nova”.

Orquestra afiada, repertório recheado de hits, o Rei simpático, infalível (justiça seja feita: o homem é incapaz de desafinar) e a vontade (de camisa fora da calça!): foi tudo nos conformes.

O maior pecado da noite, sem dúvida, não estava no palco: foi a qualidade do som que se ouvia na Arena (pelo menos assim o foi na área reservada às imprensa).

Entender as palavras do Rei – fosse cantando ou falando – era uma tarefa quase impossível.

Uma mistura de eco com reverberação interferiu de forma mortal na qualidade do som, transformando as palavras de Roberto em uma sopa de letrinhas difusa, quase sempre incompreensível, indistinguível. O efeito era de alguém falando em um túnel, com as palavras reverberando de uma parede a outra.

Pecado imperdoável para quem pagou ingresso, não importa o valor, seja R$ 20 ou R$ 500.

Alheio ao problema, o Rei seguiu sua rotina, com todas aquelas canções que ele fez para nós, até atacar com uma surpresa: Aquarela do Brasil.

Com o reverb, a louvação de Ary Barroso ganha um efeito inusitado de eco distante, tão distante quanto o  Brasil idílico imaginado pelo compositor.

O show chega ao final com Jesus Cristo e o tradicional ritual das rosas beijadas e distribuídas ao público no gargarejo. Algumas são arremessadas para o meio do povo, outras entregues diretamente na mão da súdita.

Alguém passa um berimbau. O Rei o recebe, examina o instrumento puxa a corda junto ao ouvido, faz cara de aprovação e o passa ao assistente ao seu lado. São dez minutos de ritual. O Rei se despede e se retira.

As luzes se acendem, o povo se dirige às saídas. De repente, o som volta e o Rei também, para o bis. Com as luzes do estádio acesas, Roberto canta Amigo.

A canção termina, o show já terminou. É hora de encarar um engarrafamento digno de Rei.

Veja galeria de fotos aqui.

quarta-feira, novembro 26, 2014

O EXTRAVAGANTE SOUVENIR DE UMA EX-ARTISTA DE RUA

Silvia Machete em foto de Arthur Nobre
No sempre concorrido cenário de cantoras da música popular brasileira, uma coisa difícil de se encontrar ultimamente é personalidade. A carioca Silvia Machete, felizmente, não sofre deste mal – e seu novo álbum, Souvenir, confirma isto.

Parece  que só há cantoras de três tipos: as animadoras de auditório (também são ótimas vendedoras de eletrodomésticos), as que  imitam Gal Costa abertamente e as que se revestem de uma aura de vanguardismo hype, mas que só convencem os muito jovens e / ou desinformados.

Silvia Machete, que chega agora ao quarto álbum, não se encaixa em nenhuma dessas três categorias.

“Isso é uma coisa boa. Mas pode ser traiçoeiro também, pois num mundo de rótulos, quando você não tem nenhum, acaba ficando fora da prateleira”, reflete a cantora, em entrevista por email.

“Acho que isso se deve pelo fato de ser sido  influenciada a nunca ser igual aos outros, pois cada um é de um jeito mesmo”, acrescenta.

Cantora afinadíssima e showoman capaz de entreter qualquer plateia com seu timing para bom-humor,  jogo de cintura e números de malabarismo aprendidos em anos atuando como artista de rua, Silvia mostra em Souvenir que, mesmo não fazendo parte de turmas ou movimentos, anda cada vez mais bem relacionada.

"Sim, toda a teatricalidade vem desse outro trabalho, eu uso praticamente tudo que a prendi na Rua, no palco. Foi uma grande oportunidade", confirma.

O álbum traz faixas compostas exclusivamente para ela por mestres como Moraes Moreira (Nada), Eduardo Dussek (Totalmente Tcha Tcha Tcha) e Jorge Mautner (Ba Be Bi Bo Bu), além de releituras inspiradas de Chico Buarque (Tatuagem) e Angela Ro Ro (Tango da Bronquite, com participação da autora).

Há ainda uma faixa autoral composta pela própria Silvia (2 Cachorros) e outras duas de autores portugueses muito conceituados além-mar: o trovador dos anos 1970 Sérgio Godinho (Espetáculo) e o roqueiro Jorge Palma (Trapézio).

O resultado é um álbum que, se não é o mais alegre e dançante de Silvia, ainda encanta o ouvinte pela versatilidade com que sua bela voz passeia por toda essa diversidade sem que a obra perca a unidade.

“Sim, fiquei satisfeita (com o resultado do CD). A gente se surpreende com as coisas e isso faz parte do processo”, diz.

“Mas não tenho um método. Sempre começa com uma única ideia e elas vão rodando, gerando outras. Depois você fica um tempo sem olhar muito, vendo de longe, até se envolver profundamente mais uma vez. Em algum momento verá que as peças estão encaixadas”, descreve Silvia.

Brasileiros e portugueses

Ela conta que conseguiu a participação de Moraes, Angela e Dussek da forma mais simples: “Fui atrás deles. Me identifico muito. São contadores de história, teatrais. A Ro Ro em especial, é uma figura feminina muito interessante. Compositora, performer, grande personalidade. A gente dá risadas”.

Já o encontro com o português Jorge Palma foi mais inusitado: “Ele é um pianista, cantor e compositor que veio num dos meus shows em Lisboa. Se empolgou e subiu no palco pra cantar. Não sabia quem ele era, mas o público sabia. Foi um sucesso”, relata.

Quando foi pesquisar o trabalho de Palma, se encantou com Trapézio, faixa que regravou em Souvenir.

“A música de Portugal é tão rica, assim como a poesia, a literatura em geral. O brasileiro é complicado, não liga pra quase nada, nem mesmo pros países vizinhos, pois acha que aqui tem tudo”, vê.

“Na verdade, os portugueses são tão melancólicos quanto a gente. O samba é muito triste também. Sabemos curtir um blues”, ri Silvia, que agora espera um convite para trazer o show de Souvenir a Salvador.

“Quero voltar! Alguém pode me convidar? Tem cenário, tem muitas novidades. Sempre tem, não vejo a hora de me apresentar aí novamente”, conclui.

Souvenir / Silvia Machete / Coqueiro Verde Records / R$ 19,90 / www.silviamachete.com / www.coqueiroverderecords.com