quinta-feira, abril 20, 2017

TÁ PENSANDO QUE EU SOU IDIOTA?

Relançado em capa dura com ilustrações de Rafael Coutinho, edição de 30 anos de Forrest Gump desvenda toda a sátira que passou batida no filme com Tom Hanks


O Forrest Gump do livro, segundo o ilustrador Rafael Coutinho
Ser um completo idiota está na moda, como se pode perceber pela crescente popularidade de certas aberrações políticas.

Na verdade, esse pessoal é muito atrasado. Na literatura, ser idiota é “tudo de bom” há séculos.

Um exemplo mais ou menos recente é Forrest Gump – para muitos, apenas um filme com Tom Hanks.

Idiota caçula, pelo menos em comparação com o Cândido de Voltaire (século 18) ou Myshkin, de Dostoievski (O Idiota, século 19), Forrest Gump, o personagem, surgiu no romance homônimo do norte-americano Winston Groom, publicado em 1986.

Agora, Forrest Gump, o livro, volta às prateleiras em edição de luxo com capa dura, ilustrações de Rafael Coutinho e o excelente artigo Da página à tela: a reformulação de Forrest Gump, de Isabelle Roblin.

 Na verdade, os idiotas tem uma longa tradição na literatura com inúmeros personagens inesquecíveis, como Dom Quixote (idem, de Miguel de Cervantes), Policarpo Quaresma (O Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto) Ignatius J. Reilly (Uma Confraria de Tolos, de John Kennedy Toole), Chance (O Videota, de Jerzy Kosinski), Boo Radley (O Sol é Para Todos, de Harper Lee), Lennie (Ratos e homens, de John Steinbeck) e muitos outros.

Forrest Gump é idiota, mas o é com classificação científica: idiot savant, que é alguém que combina déficit de inteligência com algumas habilidades intelectuais (o personagem de Dustin Hoffman em Rainman também era idiot savant).

Capturado por pigmeus canibais
Forrest é este tipo de idiota. Sua incapacidade de aprendizado e absoluta ingenuidade o tornam alvo fácil para todo tipo de malandros, que se aproveitam de sua boa vontade.

Mas por ser savant (sábio, em francês) ele consegue, de alguma forma, superar todas as dificuldades, sagrando-se vencedor e tornando-se, muitas vezes, ídolo para milhões de outros idiotas.


Ria com ele, não dele

Filme largamente visto e revisto, o Forrest Gump dirigido por Robert Zemeckis, na verdade, aproveitou pouco do livro, que é uma sátira feroz da sociedade norte-americana. Sim, há muita diversão e risos nestas páginas – mas nem sempre para Forrest.

Grande (1,98m) e besta, ele é pego para fazer de tudo: joga futebol americano, vai à guerra do Vietnã, atua como dublê de gorila com Raquel Welch, toca gaita numa banda de hippies, joga pingue pongue na China, é capturado por pigmeus canibais e por aí vai.

Só que, enquanto o Forrest do filme é absolutamente inconsciente (de sua idiotia, do mundo etc), o do livro, narrado em primeira pessoa pelo próprio Forrest, toma conhecimento de sua imbecilidade desde o início. Não a toa, ele abre a narrativa dizendo que “ser idiota não é nenhuma caixa de chocolate”.

Isabelle Roblin, uma professora universitária francesa especializada em literatura anglófona e sua reescrita para o cinema, desvenda esse outro Forrest em seu artigo.

“O propósito de Forrest não é apenas fazer o leitor rir, mas também permitir que entenda a tolice e o absurdo do mundo onde vive, e em particular, da história e das instituições dos Estados Unidos, como os presidentes americanos, a Guerra do Vietnã, a NASA e a indústria do cinema, que são ferozmente satirizados. (...) O tom satírico do livro foi eliminado do filme, no qual o espectador ri do idiota, e não com ele”.

Como se vê, não há limites para a idiotia no cinema norte-americano...

Forrest Gump / Winston Groom / Aleph/ Trad.: Aline Storto Pereira/  392 p./ R$ 79,90

terça-feira, abril 18, 2017

MAPA: EM BUSCA DO LO FI PERFEITO

Antes projeto solo, o som indie  lo fi psicodélico do MAPA estreia formação com banda completa no NHL Festival 9, sexta-feira

MAPA, foto Liz Dórea
Um dos produtores mais ativos da cena independente, Cairo Melo tinha dado uma sumida, mas volta triunfante esta semana com dois eventos reunindo bandas e artistas bem promissores da nova geração local.

Hoje tem a Noite NHL no Quanto Vale o Show? (line up nas NUETAS), e sexta-feira, a nona edição do NHL Festival, com as bandas MAPA, Oddish e Flerte Flamingo, mais o rapper Beirando Teto (AKA Davizeira) e o DJ Dieguito Reis (Vivendo do Ócio). Uma night invocada.

O destaque aqui é o MAPA, anteriormente um projeto solo do músico Matheus Patriarcha, e hoje uma banda completa, com a adição de músicos de outras bandas do mesmo circuito, como Ramon Gonçalves (baixo, Aurata), Gabriel Burgos (bateria) e Rodrigo Reis (sax e sintetizador, ambos da Bagum), além do guitarrista Pedro Oliveira Barbosa, que já colaborava com Matheus.

"Mapa é a fusão do meu nome, MAtheus PAtriarcha, e que inicia-se como um projeto solo, mas logo  outras pessoas começam a agregar nas ideias, produções, arranjos... Desde sempre, nosso pensamento foi de ampliar a relação do projeto com os formatos, chegando a esse novo modelo Banda, com guitarra, baixo, bateria, sax, sintetizador... É muito satisfatório poder tocar com amigos - de outras bandas locais, inclusive", afirma Matheus.

A formação já soltou um single, a faixa Fim, sete psicodélicos minutos encharcados de guitarras cremosas e vocais lânguidos, uma belezinha.

“Fim  dá o pontapé inicial nessa nova ‘onda’ que estamos vivendo. Resgatamos uma música da fase antiga, que (des)organizamos  com novos elementos e fechamento do novo conceito sonoro e estético. Estamos em processo de gravação, mexendo literalmente nos arranjos e já posso adiantar que vem som e clipe novo ai , estamos finalizando e logo anunciaremos nas redes”, conta Matheus.

“Bem, adoramos as diferenças. Estamos em conjunto, nesse momento, articulando novos arranjos e com as contribuições sonoras da vivência de cada um, a coisa como um todo está bem empolgante e estamos super ansiosos para fazer shows e criar cada vez mais. A diferença, de fato, é nítida na sonoridade, por soar agora com linhas de vozes mil. Ainda com o pé no ‘menos é mais’, nos transporta para inimagináveis viagens sonoras, outras possibilidades”, diz Matheus.

Voltar ao Centro

MAPA, foto Liz Dórea
Íntimo de música e do violão desde criança, Matheus hoje trabalha como educador de musicalização em escolas e ONGs.

"Minha relação com música foi desde bem pequeno, começando a dedilhar o violão antigo do meu pai em casa. A partir de então, na adolescência me juntei com amigos e formei algumas bandas. Quando percebi que não conseguia parar de tocar, compor, me identifiquei totalmente e me joguei de cabeça na área artística. Hoje em dia além de atuar no projeto mapa, sou também Educador Musical, como Professor de Música e Musicalização em Escolas, ONGs, etc... Identifico-me bastante com artistas da MPB, antiga e nova, como, Marcos Vale,Vinicius de Moraes, Jards Macalé, Moraes Moreira, Gonzaguinha, Hermeto Pascoal, Ava Rocha, Liniker, Naná Vasconcelos, Negro Léo, bandas e artistas internacionais como Metronomy, Battles, Unknown Mortal Orchestra, Radiohead, Mac Demarco, John Frusciante, Jeff Buckley, Chastity Belt, etc", enumera.

Parte de uma cena recente que tem renovado o rock  local, Matheus acredita que é preciso descentralizar a cena do Rio Vermelho.

"A cena local se mostra bastante ativa no momento. Estão ocorrendo lançamentos, novidades, novas concepções, buscas de espaços para descentralizar a cultura do Rio Vermelho, expandindo um pouco mais para o centro da cidade e outros locais, e isso é bem legal", afirma.

“Não faz sentido ficarmos somente fazendo shows no mesmo local, sendo que existem outros locais maravilhosos em nossa cidade. Acredito quanto mais se faz de coração, quanto mais respiramos isso que fazemos diariamente, colocando como principal em nossas vidas, sendo o caso - para então - viver, respirar, colher e morrer na Arte, ou no que cada um desejar”, conclui.

NHL Festival 9 / Com: Beirando Teto, Oddish, MAPA, DJ Dieguito Reis, Flerte Flamingo / Sexta-feira, 20 horas / Dubliner’s / R$ 15 (lista), R$ 20



NUETAS

Rosa 😍 Ricardo

Rosa Idiota e Ricardo Elétrico fazem a Noite NHL no Quanto Vale o Show? hoje. Dubliner’s, 19 horas, colaborativo.

Manda Brasa Fest.

Os Informais, Lo Han, Duda Spínola e Ronco mandam ver no  Brasa Festival quinta-feira. Dubliner’s, 21 horas, R$ 20.

Desrroche no Pelô

A Desrroche lança seu novo trabalho, Conecte 1969, com show sábado.  Largo Pedro Arcanjo. 19 horas, gratuito.

Baggios, Vivendo e seus LPs

The Baggios e Vivendo do Ócio, duas das melhores bandas do rock nacional atual, lançam seus discos em vinil, Brutown e Selva Mundo, com show sábado no Portela Café. 23 horas, R$ 40.

quarta-feira, abril 12, 2017

RUMO AO DESCONHECIDO

Em 2012, Raphael Erichsen e três amigos foram os primeiros brasileiros no Rally Mongol, uma Corrida Maluca da vida real. A experiência está no livro Tudo Errado

Infinitas highways entre a Europa e a Ásia Central. Fotos Raphael Erichsen
As vezes, só o que você precisa é jogar tudo para o alto e pegar a estrada.

No auge da depressão por conta de uma separação, o documentarista Raphael Erichsen cruzou Europa e Ásia à bordo de um carro de passeio no rally mais insano do mundo, experiência narrada em seu livro Tudo Errado.

Em 2012, Raphael e mais três amigos (Pedro, Celina e Daniel) formaram a Brazil Nuts, primeira equipe brasileira a participar do Mongol Rally, uma não-competição organizada pela empresa britânica de aventuras Adventurists.

Em tempo: o rally é uma não-competição por que não importa quem chega primeiro. Na verdade, os primeiros a chegar são considerados perdedores, por que não aproveitaram a experiência.

No  Rally Mongol, os participantes devem sair de Londres e chegar em Ulan Bator, capital da Mongólia – distância equivalente a 1/3 da superfície da Terra.

Além deste livro, a experiência de Raphael foi narrada na série exibida pelo canal Multishow Rally Mongol (2012).

"O livro é um baita desabafo, uma maneira de expor o que eu estava sentindo e que a série não mostra”, conta Raphael, por email.

A simpática garotada da Mongólia
“Na verdade, o livro começou a ser escrito durante o rally. Nós ficávamos muitas horas por dia trancados no carro e cada um arrumou uma maneira de passar o tempo, eu resolvi escrever. Por outro lado, minha vida estava uma bagunça, e tudo o que estava acontecendo me parecia uma loucura, eu precisava botar aquilo para fora de alguma maneira. O livro foi escrito originalmente com uma caneta esferográfica e uma caderneta – acho que poucas pessoas ainda escrevem assim um livro”, acrescenta.

Não há rotas estabelecidas, e em muitos trechos não há sequer estradas. Os veículos não podem ser turbinados e sim, carros comuns – e velhos, de preferência, incluindo carros de bombeiros e ambulâncias.

Para completar, os participantes, de várias partes do mundo, se esmeram em fantasiar à si mesmos e aos carros.

Há bombeiros, carros com banheiras no teto, aviadores, super-heróis, carros revestidos de pelúcia – e por aí vai. Uma Corrida Maluca da vida real.

Toda essa loucura tem um pano de fundo humanitário: em Ulan Bator, os carros são doados à ONG Lotus Charity Foundation, que cuida das crianças de rua locais.

No trajeto, que durou cerca de um mês, Raphael e parceiros iam do céu ao inferno quase todos os dias.

Raphael Erichsen toma um fôlego 
A cada checkpoint, uma festa rave muito louca preparada pela organização. E a cada cidade, apuros nas mãos de figuras suspeitas (civis e uniformizadas) pela Turquia, Cazaquistão, Rússia e Mongólia.

Foi justamente no fim da viagem, em pleno deserto mongol, que o quarteto passou seu maior momento de aflição.

“O momento do resgate foi o mais dramático da história toda. Não só por eu achar que não ia sair vivo mas também porque a vida dos outros companheiros de time também dependiam da ação um do outro. O negócio é que como eu estava super frágil emocionalmente qualquer mosca que passasse eu já achava que as coisas iam dar errado e é muito ruim viver assim. Você sentir uma dor nas costas porque passou o dia inteiro dentro do carro e achar que já é um câncer fulminante – essa foi uma das minhas descobertas, que eu conseguia conviver comigo mesmo. No final das contas, o livro é sobre essas descobertas”, conta.

Um tema que permeia a narrativa é a dificuldade de confiar em estranhos - que ainda por cima não falam sua língua e muita vezes, sequer falam inglês. No livro, os Brazil Nuts aprendem na marra.

Cazaquistão? Rússia? Mongólia? Sta. Rita do Passaquatro?
“É um exercício diário, mas sim, procuro cada vez mais confiar nas pessoas. E é realmente difícil. O que acontece hoje é que eu passei a observar isso em outras pessoas e no geral elas tem muita dificuldade em confiar. E isso serve para tudo. Me parece que vivemos hoje em um mundo onde tudo é muito controlado e com pouca margem para erros. Errar é o mais divertido da história e aprender a conviver com isso pode ser muito gratificante. Então, se você confia, joga os dados e deixa as coisas acontecerem do jeito delas, normalmente você vai se surpreender positivamente. Já me dei mal muitas vezes também mas se você aprende a lidar com isso, consegue enxergar que isso pode não ser o fim do mundo”, reflete.

No fluxo de consciência

No trajeto, Raphael, Pedro, Daniel e Celina conhecem uma pá de gente maluca entre os participantes do Rally. De cara, o autor cultiva uma paixonite instantânea por Saskia, uma neozelandesa. Cheia de atitude e muito segura de si, Saskia logo se torna uma espécie de amuleto para ele, que a cada dificuldade, pensa como ela lidaria com a situação.

Brazil Nuts: Daniel, Celina, Pedro e Raphael
"Hoje em dia, todo mundo é amigo no Facebook e acaba que fica uma coisa muito superficial. Como documentarista, já passei muito por isso, de ter um convívio muito intenso com uma pessoa e depois que a jornada termina, você perde o contato e só da feliz aniversário quando lembra. A única pessoa, tirando meus companheiros de time, que eu fiquei muito amigo foi a Saskia, a heroína do livro, e sigo acompanhando o que ela faz. No momento ela está na Índia rodando um documentário sobre mulheres em situação de risco. Ela não para", conta.

Escrito de forma ultra espontânea, Tudo Errado é um relato de viagem frenético, que torna o livro difícil de largar, uma vez iniciada sua leitura.

Leitor voraz, ele não esconde que se inspirou nas trips dos beatniks. “Com toda certeza os beats me influenciaram muito. Li quando era mais novo, principalmente Charles Bukowski e John Fante, mas têm outras influências também. De certa forma, eu queria soar um pouco como Holden Caulfield n’O Apanhador no Campo de Centeio, do JD Salinger”, afirma.

“Outra coisa que  me preocupei foi ser o mais transparente possível. O livro é sobre uma entrega, e por isso ele tem uma linguagem muito coloquial – as pessoas dizem que se sentem numa mesa de bar comigo quando o leem e era bem isso que eu queria”, conta.

O senhor pode informar pra que lado fica Ulan Bator?
Em Tudo Errado, Raphael abre o peito e desnuda todos os seus medos, incertezas, desejos e traumas, incluindo a depressão e síndrome de pânico que estava tratando com remédios imediatamente antes de embarcar na viagem.

“Eu tento me lembrar de ir para a Mongólia todos os dias e para mim, isso significa lembrar de viver uma vida mais criativa, com mais vontade e menos monótona. Como eu digo no começo do livro, a vida é como uma roda gigante cheia de altos e baixos”, diz.

“De lá pra cá, já tive novos altos e vários baixos – quem consegue ser feliz o tempo inteiro? Posso dizer que eu não tomo mais remédios, o que mudou radicalmente minha vida. Posso dizer que eu não tomo mais remedios o que mudou radicalmente a minha vida. Hoje em dia quando tenho problemas com a minha cabeça tento resolver com leitura e esporte, ou tentando criar uma aventura nova para mudar de ambiente. Sair da zona de conforto é uma ótima maneira de se voltar contra essas pegadinhas que a mente faz com a gente”, conta Raphael.

Documentarista experiente, Raphael dirigiu o elogiado Ilegal, sobre a luta de algumas famílias brasileiras para conseguir importar remédio a base de maconha para filhos com epilepsia severa.

"Este ano sai um outro filme chamado Cara do Mundo, sobre um grupo de jovens da periferia de São Paulo, descobrindo o mundo através dos emigrantes e refugiados na cidade. Em abril, um filme que dirigi em 2014, chamado Radical (sobre o lendário surfista Dadá Figueiredo) entra no NetFlix no mundo todo, então estou trabalhando na divulgação dele também. E já estou planejando novas jornadas para novos livros também, vamos ver no que dá", avisa.

Tudo Errado / Raphael Erichsen / Impossível Editora / 288 páginas / R$ 50 / www.raphaerichsen.com.br

terça-feira, abril 11, 2017

DE PAULO AFONSO, ÓRBITA MÓBILE LANÇA ÁLBUM, HQ, FAZ TURNÊ POR QUATRO CIDADES E MINISTRA OFICINAS EM COMUNIDADES INDÍGENAS

Órbita Móbile, foto Luca Balthier
Vamos nessa que o espaço é pouco e os detalhes, muitos. De Paulo Afonso, a banda Órbita Móbile vai circular com seu show por quatro cidades do Vale do Rio São Francisco.

A Alembaía Tour começa em Paulo Afonso (sábado), segue por Rodelas (dia 17), Abaré (18) e termina em Chorrochó (19).

Viabilizado pelo edital setorial de Música da Fundação Cultural do Estado da Bahia, o giro tem como contrapartida a realização de oficinas de gravação e produção em comunidades indígenas da região: Tuxá (Rodelas), Truká Tupan (Paulo Afonso) e Pankararé (Glória).

Legal, né? Melhor ainda é saber que a banda tem um trabalho consistente. Sonho Robô alia música e HQ em narrativa de ficção científica com um rock vanguardista de muitas facetas.

Formada por Augusto Kuarupp (vocal), Igor Galindo (bateria), Matheus Carvalho (guitarra) e Mateus Fraga (baixo), a OM está lançando o EP Sonho Robô,  obra conceitual  transmídia, com música e história em quadrinhos.

“Sonho Robô é uma espécie de manifesto utopia, conclamando as pessoas para a necessidade de se desprender do pragmatismo da vida contemporânea e voltar a pensar no futuro. Mas a palavra utopia deriva de duas palavras gregas: utopos e outopos. O termo que nós mais comumente acessamos deriva de outopos, que tem a ver com uma sociedade ideal, onírica, intangível. Entretanto, quando derivada de utopos, utopia quer dizer apenas terra boa. Portanto, muito mais possível de materialização. A terra boa pode existir na nossa casa. E a partir de um senso ético,  de não fazer ao outro o que nós não gostaríamos que nos fosse feito. Acreditamos nessa possibilidade”, conta Augusto.

“O disco Sonho Robô, ao longo de suas seis faixas, traz a ideia de discussão crítica sobre a liberdade de sonhar no nosso cotidiano. O nome é inspirado no livro de Isaac Asimov, Sonhos de Robô (1986). Entretanto, diferente de  Asimov, nosso álbum não conta a história de robôs que sonhavam, mas de uma humanidade que, tendo perdido a capacidade de sonhar, construiu um algorítmo de Inteligência Artificial, chamado 'Sonho Robô'. Quando injetado no cérebro, ele provocaria as sinapses necessárias para a simulação de sonhos. Graças à tecnologia, ele foi concebido e amadurecido durante dez anos. Ao optarmos por uma narrativa de ficção científica, que nos dá liberdade de projetar esse universo onírico e de fantasia, vimos a possibilidade de distribuir a música da Órbita Móbile com métodos inovadores e complementares. Nenhuma arte existe sem a outra. O universo sci-fi sempre teve no quadrinho um aliado. Optar por uma narrativa transmidiática nos libertou para criar uma rapsódia narrativa inspirada no álbum”, detalha.

Músico experiente da região do Vale do São Francisco, Augusto conta que, aos poucos, Paulo Afonso está (re)construindo sua própria cena.

A cena de Paulo Afonso já foi muito mais profusa da que temos hoje, em termos de movimentação, de diversidade de bandas, no final da década de 1990. Naquela época éramos todos muito jovens e a cena foi desmobilizada por dois motivos. O primeiro, na era pré-internet, era impossível difundir o trabalho a partir de Paulo Afonso. Não existiam as plataformas alternativas massivas de música que temos hoje. E era muito difícil acessar os meios de comunicação da capital. O outro fator é que a cena de 90 revelou muitos bons músicos, que, por isso mesmo, acabaram sendo sugados pela indústria de cultura de massa, indo tocar em bandas de axé, de forró eletrônico, de pagode, o que, a pretexto de oferecer uma carreira profissional, acabou por interditar a maioria desses  músicos que eram ativistas da cena alternativa e underground. Ao longo desses anos, a cena  musical por aqui ficou flutuante. Depois de sofrerem as agruras da cultura de massa, os músicos retornaram para a cidade e começaram a investir em carreiras alternativas, focadas no próprio trabalho e, dessa vez, de forma profissionalizada.  2017 é, de fato, um novo momento digital. Tanto pela diversificação de plataformas de promoção e divulgação de músicas e carreiras nas redes, como pela possibilidade técnica de produzir os trabalhos de forma alternativa com acesso, gratuito ou não, às tecnologias de arquitetura musicais. Isso que faz com que carreiras como a nossa, ou como a dos Nelsons, possam ser notadas hoje em outras cidades, abrindo possibilidade de circulação não só em circuitos regionais, também nacionais e internacionais", relata.

Foto Fanny Oliveira
“Apanhado a dente”

O título Alémbaía é mais que uma turnê para a banda: é também um movimento, uma ideia.

“Optamos por chamar a nossa turnê de AlemBaía, que também é o nome de um movimento e rede cultural encampados pela Órbita Móbile, que já existem a partir de conexões artísticas, acadêmicas e tecnológicas. Esse é também um movimento para evidenciar a produção cultural que existe para além da Baía de Todos os Santos. Há uma tendência natural das pessoas que vivem nas grandes metrópoles de ter o horizonte de observação obnubilado pela extensão do corpo metrópole. Isso é refletido, inclusive, na produção midiática que tende a vivenciar apenas o que se produz na capital. As  políticas culturais, nesse contexto, possibilitam a inclusão de um interior quase sempre invisibilizado.  O projeto Sonho Robô – Música para Utopias, apoiado pela Funceb, foi possível a partir do momento que nos apropriamos da tecnologia dos editais, disseminada pela própria Secretaria de Cultura do Estado. E as poucas políticas públicas que ainda existem possibilitam mais do que o retorno ao interior, não só ao interior do estado, mas ao interior de cada um de nós, a origem subjetiva da nossa identidade. Nesse sentido, AlemBaia é o desbravamento da terra boa que nós mencionamos na concepção do álbum e da HQ. A utopia de um estado diverso, plural e de um interior visível”, afirma Augusto.

Descendente de nativos, o vocalista vê a realização das oficinas em comunidades indígenas como uma forma de retomar o contato com uma história que é dele – e também de todos nós.

“A  minha bisavó contava que a sua bisavó era índia nativa e fora apanhada a dente de cachorro por senhores de terra. Esse termo  “apanhado a dente” era usado para designar a apreensão de povos nativos através da caça com cães. Todas essas memórias são hoje apenas memórias. Mas minha tribo são as memórias. Oficialmente, eu não sou reconhecido enquanto indígena. Sou índio desterrado”, diz.

Foto Luca Balthier
“Essas memórias me dizem que a minha ancestralidade, para a qual me negaram conhecimento, ainda está entre os indígenas. Retomar o diálogo com os povos que me compõem é uma possibilidade de vivência e troca. O que a gente entende de tecnologia musical vai ser repassado nas oficinas para os povos Truká, Pankararé e Tuxá, que se estabeleceram ao longo do Itaparica. A escolha do sobrenome Kuarupp é artística. Kuarupp designa um ritual dos povos do Alto Xingu feito para a despedida dos mortos e encerramento do período de luto. O sobrenome sinaliza para a única conexão ancestral que ainda me é possível, a de dialogar com espíritos: conexão mística”, acrescenta.

Cumprida a fase da turnê e oficinas, a banda pretende seguir divulgando Sonho Robô pela Bahia e, eventualmente, trazer seu show à capital.

"Devemos tratar de forma mais detida do lançamento e distribuição gratuita do quadrinho. Pretendemos fazê-lo tanto em escolas e bibliotecas públicas do interior, como também na capital. Possivelmente, apostaremos ainda na possibilidade de difusão e lançamento em grandes livrarias e espaços dedicados a quadrinhos, e quem sabe estabelecer uma parceria com alguma editora que se interesse na nossa narrativa-plataforma. Como sempre, estamos desvendando tecnologias para fazer os nossos novos sonhos possíveis. E, é claro, devemos levar nossa turnê a outras praças e, certamente, Salvador estará na rota", conclui.

Alembaía Tour, com banda Órbita Móbile / Sábado, 22 horas: Paulo Afonso (Centro de Cultura Lindinalva Cabral, 16 horas, grátis) / Segunda- feira (17), 19 horas: Rodelas (Local: Praça Almeida Justinano Soares, grátis / Terça-feira (18), 19 horas: Abaré (Praça de Eventos),  grátis / Quarta-feira (19), 19 horas: Chorrochó (Praça da Matriz), grátis / www.orbitamobile.rocks



NUETAS

Lo Han, PacMen, Madame

Quinta-feira tem Lo Han, Madame Rivera e The PacMen no Groove Bar. O esquema é “open bar”, daí o preço um pouco mais salgado: R$ 49,90. Às 22h30.

Laia Gaiata e o homem-alvo

O power trio avant garde Laia Gaiatta volta com o show Vaia ao Oliveira´s Bar (Santo Antônio Além do Carmo) no sábado. O performer Rafael Rebouças faz intervenção como  o homem-alvo das fotos da banda. 20 horas,  R$ 10 ou R$ 20 (com EP da Laia Gaiatta).

Domingão do Ronei Jorge

Domingo, Ronei Jorge faz seu segundo show de uma temporada de quatro datas no Teatro Gamboa Nova. Repertório é de inéditas que estarão em seu primeiro álbum solo. 17 horas, R$ 20 e R$ 10.

sexta-feira, abril 07, 2017

GRAÇAS AO SERTÃO

Sertanília lança Gratia, seu aguardado segundo álbum, com show no Pelourinho neste sábado. Obra sai pelo Natura Musical

Anderson Cunha, Diogo Florez e Aiace Félix, em foto de Leonardo Monteiro
Dona Vande,  pele negra curtida pelos rigores de uma vida inteira no alto sertão baiano, olha para a câmera com serenidade na capa de Gratia (Natura Musical), o segundo álbum do grupo Sertanília, que tem show de lançamento neste sábado, no Pelourinho.

Rara líder feminina de um reisado em Pajeú do Vento, distrito de Caetité, Dona Vande simboliza e resume o espírito de Gratia: um olhar especial às mulheres do sertão.

“A gente escolheu a mulher como personagem chave para contar a história das músicas”, afirma a cantora Aiace Félix, que com Anderson Cunha (multi-instrumentista) e Diogo Florez (percussões), formam o núcleo do Sertanília.

No álbum, se ouvem em vinhetas a folia de reis de Dona Vande e Dona Leonídia, criadora do Terno de Reis de Contendas, comunidade quilombola de Maniaçu, também em Caetité.

“O reisado é uma tradição essencialmente masculina, com poucas representantes mulheres. Dona Leonídia e Dona Vande, duas mulheres negras de comunidades do alto sertão, trazem muita força ao disco”, acrescenta Aiace.

Manifestação folclórica brasileira de origem europeia que remonta aos celtas que habitaram a península ibérica, o Reisado (ou Terno de Reis ou Folia de Reis) também resume a proposta musical do Sertanília, que busca no Nordeste profundo o que há de mais antigo e legítimo em nossa tradição musical.

“Essa é a linha que move o Sertanília: o encontro do homem ibérico com o negro e o índio no sertão. Aí é onde o som do Sertanília nasce. Esse encontro é a essência primeira do sertão brasileiro, do Brasil profundo. Daí nasce a música mais antiga do Brasil, que é o que pesquisamos em campo. É um sertão muito antigo, de antes do sertão folclórico, alegórico, de Luis Gonzaga”, afirma Anderson Cunha.

“Me criei entre Caetité e Guanambi. Minha vida foi vendo ladainha, procissões, reisado entrando e saindo de casa o tempo todo. Esse é o sertão que me interessa”, conta.

Em suas incursões pelo sertão, Anderson, Aiace e Diogo já se depararam com lugares e pessoas que mais parecem ter saído de uma máquina do tempo.

Sertanília na sua formação estável há quatro anos. Foto Leonardo Monteiro
“Isso se dá por conta do isolamento. Essa região (no Sudoeste baiano)  tem a mesma distância para Brasilia, Belo Horizonte ou Salvador. Esse isolamento está acabando aos poucos, mas ainda é uma região de difícil acesso, então as tradições populares se mantem ainda bem originais, com hábitos e manifestações muito antigas”, diz Anderson.

“Tem terno de reis que canta em latim. Os caras não sabem ler e escrever, mas cantam em latim. Então é um Brasil bem interessante”, admira-se.

Convidados de primeira

Com um som mais robusto e pesado em relação ao primeiro álbum, Ancestral (2012), Gratia reafirma o talento extraordinário do trio, que, nestes últimos anos, amadureceu a própria musicalidade e  conseguiu reunir em torno de si uma formação estável de notáveis músicos de apoio, como Fernanda Monteiro e Ricardo Erick (violoncelos), Raul Pitanga, Mariana Marín (percussões) e João Almy (violão).

“De fato, a gente está mais junto, justamente por termos quatro anos sem muita alteração. O grupo todo está mais integrado”, confirma Aiace.

Convidados de alto nível também dão um brilho a mais à obra, como o violoncelista Jaques Morelenbaum (em Castela e Devagar), a cantora pernambucana Renata Rosa (em O Mundo Dentro da Minha Cabeça, também participa do show de lançamento no sábado) e a cantora espanhola Guadi Galego (em Devagar).

“A Guadi é da Galícia (região espanhola da qual vieram muitos imigrantes ao Brasil), e há muito tempo queríamos fazer algo com ela. O grupo dela, o Berrogüetto, tem um perfil bem semelhante ao do Sertanília, eles pesquisam  as raízes mais profundas da música galega”, conta Anderson.

Universal, mas profundamente ligado às suas raízes, Gratia é a obra que alinha o Sertanília à grupos e artistas como Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Cordel do Fogo Encantado, Siba, Cabruera, Zé Ramalho e outros. Um disco para ontem, hoje e amanhã.

Show Gratia, do grupo Sertanília / Convidada: Renata Rosa (PE) / Amanhã, 21 horas / Largo Tereza Batista (Pelourinho) / R$ 20 e R$ 10

Gratia / Sertanília / Produzido por Anderson Cunha / Natura Musical / Preço não informado

quinta-feira, abril 06, 2017

HOMERO E CAYMMI SE ENCONTRAM NA ODISSEIA BAIANA DE FILIPE LORENZO - HOJE, NO SESC PELOURINHO

Filipe Lorenzo, foto Rafael Martins
Quem tá ligado já sabe: uma turma nova e talentosa tem renovado a música popular brasileira feita na Bahia.

Nomes como Giovani Cidreira, Ian Lasserre, Bruna Barreto, Dimazz, Jadsa Castro, Kalu e outros tem apresentado trabalhos de alto nível, dialogando com a tradição da MPB, com a cultura popular, com o rock, com o experimentalismo etc.

Um desses “outros” é Filipe Lorenzo, que lança seu primeiro álbum, Odisseia Baiana, com show quinta-feira, no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Professor de História na rede municipal, aluno do curso de Música Popular da Ufba, Filipe promove em sua obra um encontro entre Homero (aquele d’A Odisseia) e Caymmi em plena Baía de Todos os Santos, em uma obra de musicalidade delicada.

“Acredito que Caymmi e Homero se encontram em pontos cruciais da Odisseia. Quero evitar superinterpretações, então busco ser cauteloso neste sentido da conceitualização. De qualquer forma, penso que ambos construíram as suas histórias através do mar e da leitura que fizeram dele. Acredito que são figuras que souberam traduzir o mar e todo o seu mistério, beleza e horror de forma original e inovadora para suas respectivas épocas e povos. Homero é responsável por carregar um quinhão de referências fundamentais para a estruturação da cultura do ocidente, assim como Caymmi é fundamental na construção de uma cultura tipicamente baiana”, arrisca Filipe.

“Posso assim dizer que os dois são referências culturais imortais, souberam trazer a temática do trânsito entre o caos e o cais como transformadores das suas realidades, juntando espiritualidade, aventura, divindades e amores”, diz.

Filipe começou cedo, e como quase todo mundo dessa geração, já passou por banda de rock.

"Comecei a minha relação com a música como apreciador, desde muito cedo. Cresci em casas (pais separados) que se ouvia de Xangai a Beatles, dos Mutantes a Gipsy Kings. Tenho um pai que sempre tocou violão, desde muito jovem tive interesse. Comecei a aprender violão aos 12 anos, tomei aulas com Rubem Tavares e depois comecei a estudar por conta própria.Tive banda quando adolescente, tocava guitarra e buscava uma sonoridade mais voltada para o rock, grunge, heavy metal. Com 17 anos formei o grupo Caracol com alguns amigos, que tinha uma pegada mais samba rock e forte influência do som contemporâneo da época: Incubus, Los Hermanos, Scambo... Após a dissidência do grupo, mudamos a sonoridade e criamos a Panos e Mangas: Eu, Daniel Reuter e Ítalo Marques. A partir daí começamos a tocar mais o universo da MPB, de forma acústica. Voltei ao violão e comecei a cantar algumas canções. Aos 21 anos ingressei na Escola Baiana de Canto Popular, de Ana Paula Albuquerque. Fiz formação lá e cheguei a trabalhar como professor de canto posteriormente, por um tempo. Hoje faço o curso de Música Popular na UFBA desde 2012. Por conta do meu ofício como professor municipal de história, a universidade não tem sido o principal espaço de aprendizagem, mas sim a vivência e experiências de palco e o trabalho pessoal em casa. Quando decidi produzir o disco, em 2015, a Panos e Mangas deixou de se apresentar, decorrente também de demandas externas dos outros integrantes", relata.

A hora de rodar

Filipe Lorenzo, foto Rafael Martins 
Falando (e cantando) bonito assim, não foi difícil atrair grandes músicos para seu projeto, como Mateus Aleluia, Sebastian Notini, Paulo Muttti  e os já citados Ian e Bruna. E mais: Antônio Carlos & Jocafi lhe deram uma música inédita para ele gravar: Mirê Mirê.

“Fico muito honrado em fazer parte desta nova cena musical baiana... costumo dizer, sem falsa demagogia, que sou fã dos meus parceiros. Pois suas canções e criações me emocionam e me tocam da mesma forma que muitas canções de grandes mestres da MPB. Acredito que é uma cena que vem se fortalecendo nos últimos 5 anos, através principalmente do intercâmbio de canções e de participações. Desde o meu projeto da Panos e Mangas, sempre tive o desejo de unir músicos, musicistas e compositores(as) nas apresentações. Promovemos encontros e a partir daí se abriu um campo frutífero de produção... me entendo no meu projeto pessoal não só como compositor mas também como intérprete e estou sempre antenado à procura de novas parcerias e canções que possam integrar o repertório. Vejo que é uma cena que tem referências similares do que se compreende por música, para além de uma questão estritamente geracional... talvez tenhamos a sorte de sermos muito generosos entre nós, sem disputas de ego ou vaidades. Vejo uma turma que quer crescer mas quer levar o resto do pessoal junto, creditar, dar espaço, oportunidades”, observa.

Em sua música, Filipe traz muita delicadeza, tanto em sonoridade quanto em seus conceitos. Algo que cai bem, em um momento onde a brutalidade - física e retórica - parecem dominar a sociedade.

"Há um dito de Mateus Aleluia na faixa Africanizar, do meu disco, que acredito que sintetize muito bem o que penso sobre o poder cultural. Ele diz: 'Nós revigoramos nossos pés em contato com o rude chão. Nós somos filhos do canto e da dança. Seremos. Somos'. Não acredito que há caminho para justiça social, gentileza, cuidado com o outro sem o poder da arte. Não acredito num futuro inclusivo da sociedade brasileira sem a estruturação da arte-educação na escola e vida dos(as) jovens. Salvador fez recentemente 468 anos de uma história marcada por violência e injustiça, mas o que nos caracteriza fortemente como povo mundo afora está arraigado na nossa resistência cultural. Na resistência cultural do povo negro, principalmente. Quando o Seu Mateus diz o que diz, nos mostra que há um cordão que liga claramente a nossa história a este processo de construção do que queremos ser. Seremos este exemplo de povo que consegue revigorar os pés nas adversidades, através do canto, da música, do fazer e expressões artísticos? Seremos, se somos", afirma.

Humanista, Filipe também acredita que só a arte e a cultura podem nos salvar da barbárie.

"Passamos um momento de extrema intolerância, de cisões e de embrutecimento da sociedade. Os fatores são multi-transversais e complexos, ainda estamos observando o bonde passar e não sabemos muito bem aonde isso tudo vai dar, mas me fica uma sensação imensa de que a arte precisa entrar nesse jogo como um instrumento de sensibilização e educação. Precisamos aprender a ouvir o outro, a enxergar o outro, a ler o outro e precisamos estar dispostos a compreender o que o outro quer dizer. Não há nada que nos conscientize mais para isso do que a literatura, o teatro, a música e todas as ramificações de expressão artística. A luta por uma institucionalização desta forma de pensar é precisa, porém dura, afinal, a arte liberta, faz questionar e não é de interesse de certas correntes políticas, as quais muitas vezes estão ocupando os espaços institucionais, que o povo possa pensar fora da caixa e da mediocridade. Então sim, acredito que a arte possa nos salvar da barbárie", reflete.

Com passagens “voz e violão” por Brasília e São Paulo, Filipe quer agora viajar seu show com banda  completa.

“Bom, o trabalho de agora é exatamente este. Levar a Odisseia para além da Bahia... Tenho uma produtora em Brasília, que é uma cidade que tenho algum envolvimento musical, inclusive fiz um pré-lançamento lá em Outubro do ano passado, mas em formato solo: voz e violão. O plano é fazer o show com banda e o lançamento oficial do disco lá no segundo semestre, no Clube do Choro. Tive uma experiência em São Paulo no Teatro Commune em novembro, num projeto chamado Invasão Nave, também em formato reduzido: Eu e Paulo Mutti. Estamos buscando os SESCs e sempre antenados pra festivais e curadorias... é um trabalho árduo, de paciência e persistência... Estou buscando também estabelecer contato no interior do Estado, muitas vezes subutilizado e subestimado pelos artistas da capital. Tenho muito desejo de passar com a Odisseia pelo recôncavo e espalhar as canções e poesias dos poetas de cá”, conclui.

Odisseia Baiana, de Filipe Lorenzo / Hoje, 20 horas / Teatro Sesc Senac Pelourinho / R$ 20 / www.facebook.com/filipelorenzo



NUETAS

Pastel, Laia e livro

O Quanto Vale o Show? de hoje terça-feira última é foi só diretoria: Pastel De Miolos e Laia Gaiatta, com o lançamento do livro Blasfêmias & Orações, do Reverendo T. Intervenções de Lima Trindade, Sandro Ornellas, Gustavo Rios, Katia Borges, Isaac Fiterman, Nalini e Orlando Pinho. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto puder. (Ops, já foi! Foi mal!)

Ivan e Gigito’s blues

Sexta-feira tem Ivan Motoserra e o bluegrass de Gigito no Dubliner’s. 22 horas, R$ 10 (até 0h), R$ 20 (após).

Weekend agitado

Batrákia, Drearylands, Lúpulla e muitas outras bandas (veja no cartaz) estão no festival Vida Rock Nova, sábado e domingo na Concha Acústica Roger Batera, em Lauro de Freitas. 17 horas, 1 quilo de alimento não perecível.

quarta-feira, abril 05, 2017

ALGUÉM LÁ EM CIMA GOSTA DELA

“Deus” na adaptação cinematográfica do best-seller A Cabana, a oscarizada Octavia Spencer falou com A TARDE sobre o filme

Erramos: se alguém lá em cima gostasse dela, não a tinha posto neste filme
Filmes baseados em livros best-sellers são sempre um desafio para seus realizadores, que tem de escolher entre agradar aos leitores ou ao público em geral.

A adaptação de A Cabana, um sucesso estrondoso que vendeu 25 milhões de cópias mundo afora, é um exemplo.

Estrelado por Sam Worthington (Avatar) e Octavia Spencer (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Histórias Cruzadas, 2012), A Cabana tem o primeiro no papel de um pai que tem sua fé abalada ao perder sua filha caçula de forma violenta.

Octavia atua como Deus, que se ocupa de conduzir Mackenzie, o pai interpretado por Worthington, em uma longa (longa, mesmo) jornada espiritual para restaurar sua fé.

No Brasil para promover o lançamento do filme, a atriz contou por telefone ao jornal A TARDE que sim, ela é religiosa, mas não foi isso que a atraiu ao projeto.

“Eu li o livro e amei. Mas sim, sou uma pessoa de fé. Gostei do livro e das questões que ele traz para as pessoas de fé que passaram por tragédias em suas vidas. Achei que era um conceito maravilhoso”, afirma.

Deus com postura de mãe

Jesus, Mack, Deus e Espírito Santo: eles vão aprontar mil e uma confusões!
A obra literária de William P. Young é de perfil fortemente religioso,  indicada à leitores cristãos (católicos, evangélicos ou protestantes).

O filme, portanto, não teve muita alternativa, podendo ser facilmente classificado como “de nicho” – no caso, religioso. Nicho que tem crescido bastante nos EUA, vide o sucesso de filmes como Deus Não Está Morto (2014), sua continuação de 2016 e uma terceira parte já anunciada.

Spencer, que não é boba, está bem ciente da natureza deste filme. “Sei que este é um filme sobre fé e há um público específico para este tipo de filme. O que gosto no projeto é a sua mensagem de esperança e inspiração que ele invoca. Por isso escolhi fazer parte dele”, diz.

“Esta é uma abordagem mais filosófica de Deus. (Na preparação para o papel) Basicamente, conversei com um amigo pastor e li um monte de livros. E daí pus tudo de lado. Para mim, o mais importante era atuar com humanidade. Daí adotei a postura de uma mãe com seu filho”, conta.

Apesar de sua mensagem religiosa pouco sutil, há que se admitir que o filme faz uma escolha corajosa ao retratar Deus como uma mulher negra, em um momento no qual o racismo e intolerância parecem ter perdido a vergonha de se expor livremente.

“Tenho certeza que houve muitas reações (de gente preconceituosa) assim, mas não me preocupo com isso. Se tem gente olhando pra minha raça, então eles realmente não prestaram atenção à mensagem do filme”, afirma.

Atriz oscarizada, Octavia conta que a vida não muda após a premiação.

“Estou mais ocupada e com menos tempo para conviver com a família, mas a vida continua muito parecida com a de antes do Oscar. O trabalho muda. Exponencialmente”, diz.

RESENHA: Tom pesado arruína mensagem religiosa e narrativa cinematográfica

"Isso, bata os ovos com farinha, manteiga e açúcar. Eis sua fé restaurada"
No pega pra capar do grande mercado cinematográfico mundial, volta e meia alguém descobre um nicho de público até então mal servido.

O púbico de perfil religioso (ou gospel) é um deles, tendo se revelado com mais força após o enorme sucesso de Deus Não Está Morto (2014), filme sobre um aluno que desafia seu professor de filosofia ateu para um debate – e acaba convertendo-o. Na prática, uma peça de propaganda.

A Cabana parece ter sido feito para os olhos deste mesmo público. Baseado em um best seller avassalador, o filme narra a jornada espiritual de um pai (com um segredo em seu passado, que surpresa!) que começa a duvidar de Deus após ter sua filha assassinada.

Um dia, ele recebe um misterioso convite para comparecer na cabana onde as roupas de Missy, a menina morta, foram encontradas.

Entra em cena Octavia Spencer como Papa, que era como Missy chamava Deus. Outros dois personagens surgem com o Deus / Octavia: Jesus (o ator Aviv Alush) e Sarayu (Sumire Matsubara), formando a trindade Pai, Filho e Espírito Santo.

Até aí, tudo bem, não há nada de errado em filmes de temática religiosa.

O problema com A Cabana é que seu tom é muito pesado na mensagem que tenta a todo custo passar: converta-se ou sofra uma vida triste e sem redenção.

Vão ler Dickens

Revoltado com seu Deus por ter deixado sua filha ser morta de uma maneira horrível, Mackenzie Mack Phillips é conduzido por esta representação da Santíssima Trindade em trajes hippies por uma excruciantemente tediosa jornada espiritual na qual ele não terá outra alternativa, a não ser voltar a acreditar em Deus.

Há arcos dramáticos bem parecidos, como o clássico Um Conto de Natal, de Charles Dickens, onde um avarento é levado por três espíritos a rever sua postura.

"Oi, sou a Sabedoria e vivo em uma caverna, mas não sei escolher vestidos" 
Só que, o que em Dickens é maravilhamento e emoção real, aqui é um tremendo porre, uma sequência insuportável de liçõezinhas de moral sem qualquer estofo.

Pelo filme, devemos acreditar em Deus por que sim e pronto. Fé é fé, certo?

Desculpem os tementes a Deus, mas não.

Para quem não é exatamente praticante, A Cabana tem efeito contrário: a vontade de cometer maldades contra quem fez este filme chatérrimo é quase irrefreável ao sair do cinema.

Inclua-se aí a brasileira Alice Braga, que vive uma personagem chamada Sophia, uma espécie de representação da sabedoria, que vive em uma caverna.

De novo, uma imagem interessante.

De novo, arruinada pelo blá blá blá moralista carola pseudoesotérico de deixar Paulo Coelho de orelhas em pé.

Sem contar o figurino horroroso que a fizeram vestir, digno de uma debutante de cidadezinha do interior.

Pior filme do ano.

A Cabana (The Shack) / Dir: Stuart Hazeldine / Com Sam Worthington, Octavia Spencer, Alice Braga / 12 anos / Estreia: 6 de abril

segunda-feira, abril 03, 2017

LAMENTOS (E ALEGRIAS) SERTANEJAS

Premiado no Festival da Educadora FM, o grupo Matita Perê finalmente lança primeiro álbum, Reino dos Encourados, um resgate do artista popular Giberval Melo

Matita Perê é Rafael Galeffi, Luciano Aguiar e Borega. Foto João Alvarez
Um dos segredos mais bem guardados da música baiana finalmente estreia em álbum cheio – 17 anos depois de formado, o grupo Matita Perê lança o CD Reino dos Encourados com show gratuito sexta-feira, no Espaço Gonzaguinha (veja serviço no fim da matéria).

Já lançado em Feira de Santana no último dia 29, Reino dos Encourados  é mais do  que a estreia do trio formado por Borega, Luciano Aguiar e Rafael Galeffi.

É também o resgate da memória e da obra de um artista popular de valor, que a Bahia esqueceu (ou mal conheceu): Giberval Melo (1939-2006).

Pai de Borega, Gilberval nasceu em Juazeiro do Norte (CE) mas ainda jovem se estabeleceu em Feira de Santana, onde trabalhou como funcionário do Banco do Brasil. Lá, desenvolveu sua carreira paralela.

“Meu pai foi bancário do Banco do Brasil, compositor e artista plástico. Na terça-feira (28), véspera do lançamento do CD em Feira de Santana, completou 11 anos de sua partida, Chicão. Nasceu em Juazeiro do Norte (CE). Meu avô mudou-se com a família primeiro para Petrolina (PE), depois para Jacobina (BA), onde meu pai viveu sua adolescência. Aos 23 anos, deixou o Derba em Salvador, para tomar posse na Agência do BB em Feira. Foi na Princesa do Sertão que ele encontrou sua arte, como compositor e pintor de olhar especial para as temáticas do vaqueiro e da existência humana diante da aridez do sertão”, relata Borega.

Reino dos Encourados nasceu de um desafio proposto ao trio pelo médico César Oliveira, proprietário do jornal Tribuna Feirense.

“Foi um convite do meu amigo, médico e cronista César Oliveira, proprietário do jornal Tribuna Feirense. Durante a confraternização de final de ano do jornal, em Feira de Santana, em 2015, numa rara oportunidade em que pude ir. O filho dele levou violão, toquei uma música de meu pai, Andarilho, todos ficaram encantados, pediram mais, toquei Carro de Boi e outras”, conta Borega.

“De repente, ele levantou a ideia, disse que apoiaria esse registro e me pediu prazo e orçamento. Procurei os matitas, eles aceitaram o desafio, e a gente fez o caminho do Reino dos Encourados. Este é o primeiro álbum oficial. A gente brinca – o nosso primeiro álbum com código de barras (risos). Gravamos um disco demo em 2002, meio ‘marginal’, que não passou por processo de fábrica, foi sendo copiado em computador mesmo, mas que teve um alcance fantástico, com qualidade técnica e que toca até hoje na rádio Educadora, por sinal. Das oito faixas, três são baiões. Um destes nós regravamos, a canção Rosiana, uma letra belíssima de Luciano Aguiar em referência ao Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Então esse sertão sempre nos acompanhou, tanto na criação autoral quanto na escolha de repertório a se trabalhar. Aliás, a escolha do nome Matita Perê como proximidade a Tom Jobim, autor de música e disco com esse nome, é porque esse LP dele, assim como Urubu e Stone Flower (Quebra Pedra), traz esse sertão pra dentro da obra dele. No Reino dos Encourados, isso está escancarado. O maestro soberano sempre me influenciou nos arranjos, a flauta, o cello, o caminho harmônico. Depois dele é o Dori Caymmi”, conta.

Como pintor, Gilberval participou de coletivas com artistas importantes, como Juraci Dórea e Antonio Brasileiro.

Em 1978, destinou a renda da sua primeira exposição individual, O Sertão,  para bancar parte dos gastos para a construção da Casa do Sertão, museu hoje pertencente à Universidade Estadual de Feira de Santana.

“Giberval retratou, também no canto e na composição, a alma catingueira de Feira e região. Levou essa verve sertaneja para os festivais de música que participou no País, como em São Paulo e Londrina (PR), e no disco que lançou, de forma independente, em 1987”, acrescenta Borega.

Deste LP de 1987, que teve participação de músicos de primeira linha como Alfredo Moura, Luizinho Assis e Carlinhos Brown, o trio pinçou a faixa Carro de Boi, uma das cinco da autoria de Gilberval no CD.

"Gravado em 16 canais no estúdio WR, em Salvador, o elepê Lembranças tem oito canções de sua autoria, arranjadas por Carlinhos Marques e com a participação de músicos da banda Acordes Verdes, como os tecladistas Alfredo Moura e Luizinho Assis e o percussionista Carlinhos Brown, além do lendário maestro Orlando Silveira, no acordeon", conta.

Suas obras seguem preservadas pela família de Borega, incluindo as telas, os desenhos e as gravações caseiras.

"Temos algumas gravações caseiras. Não temos todos os registros de suas composições gravadas, temos as letras, mas não o registro melódico de todas. Minha mãe, dona Zuleide, tem um acervo de telas e ainda ilustrações em blocos de desenho, que preservamos com carinho. O ano passado, reunimos pouco mais de 50 telas para que meu amigo, fotógrafo e jornalista João Alvarez, fizesse a reprodução. Ele chamou o colega Dario Guimarães para realizar a tarefa com ele", continua Borega.

Uma delas, Andarilho, registrada em 1984, aparece no álbum como vinheta e também como faixa de abertura, devidamente rearranjada e executada pelo Matita, com João Omar  (filho de Elomar) no violoncelo.

De fato, a obra de Gilberval se encaixou como uma luva à estética buscada pelo grupo, um diálogo em alto nível com a cultura popular.

“O Matita reverencia e sempre reverenciou a cultura sertaneja, uma das mais populares e ricas do país, expressa em todas as linguagens artísticas e matéria prima de grandes mestres brasileiros. Algo para muito se orgulhar. Seus ritmos, como o xote, o baião e o xaxado, são prato cheio para um aprofundamento estético. E a proposta do grupo de usar uma linguagem musical sofisticada sem nunca deixar de ser popular está nitidamente presente no Reino dos Encourados”, afirma Rafael Galeffi.

“Em meio a versos singelos, notas serenas ou tensas, muito mistério é destilado na harmonia das cordas, do fole do acordeão, nas intervenções percussivas e por aí vai. Sobre esse lastro, surgem no disco momentos de improvisações jazzísticas e até uma citação à Ária da 4ª Corda, de J.S.Bach, na canção Andarilho, de Giberval Melo. Esta última, no arranjo de Borega e no violoncelo do maestro João Omar, filho do gênio Elomar, nos permite, por exemplo, traçar um paralelo entre a música clássica europeia e a herança cultural do divino, evocando uma atmosfera musical de introspecção própria do sertanejo nordestino. Há, no álbum, muitas pistas para se chegar ao Reino dos Encourados”, acrescenta.

Obra de Gilberval, uma das várias que estão na  capa e encarte de Reino... 
Além de João Omar, outros grandes músicos também participaram das gravações de Reino. "O Matita costuma se definir como um grupo, não uma banda propriamente. Em toda a sua trajetória sempre convidou músicos de primeira linha para formar o time com o qual apresentaria cada trabalho. Para o Reino dos Encourados, realmente foi montado um timaço, levando em consideração as escolhas de timbres para os arranjos, as afinidades e também as amizades construídas em anos de labuta musical. Além dos três matitas, mais dezessete músicos deram um toque maestral ao trabalho. A todos eles, nossa eterna gratidão. Vale destacar também as participações afetivas e belas de Priscila Magalhães, interpretando o xote Licor de Jenipapo, e Luizinho Melo, que canta com o irmão Borega em Timidez, música do pai, Giberval Melo. As gravações foram feitas entre os meses de fevereiro a novembro de 2016, em Feira de Santana e Salvador. Os arranjos foram pré-concebidos por nosso Borega, arranjador do grupo. Dentro de uma estrutura bem delineada, houve muita liberdade para os músicos, entre frases escritas, criarem vozes, darem cores sonoras, possibilitando que cada um deixasse sua marca e seu diferencial", detalha Rafael.

A estrela é a música

Com 17 anos, o Matita é quase uma lenda em certos círculos culturais da cidade. Com apenas um EP artesanal lançado em 2002, faz poucos shows, apesar de ter um vasto acervo de composições ainda não registradas. Sua música  guarda muita influência de Tom Jobim e Dori Caymmi, entre outros.

Em Reino dos Encourados, o trio finalmente demonstra sua excelência musical em cinemascope.

Não a toa, o álbum já nasce premiado, com a faixa Baião Bachiado, de Borega, vencedora do Festival da Educadora FM 2016, como Melhor Música Instrumental.

Com este primeiro álbum finalmente lançado, o trio faz planos para o futuro. “O Matita tem uma perna só, mas cobra o escanteio e corre pra área pra cabecear”, brinca Luciano.

“Este ano, o palco do Matita será preferencialmente do Reino dos Encourados, um projeto que se estende para além do disco, com arranjos para músicas como Lamento Sertanejo (Gil e Dominguinhos) e Pau de Arara (Gonzagão e Guio de Moraes), além de composições próprias como Maria Sol, minha e Borega”, acrescenta.

"Trabalhamos na viabilização desse projeto, que é perfeito para o período junino, por exemplo, e depende de uma equipe de músicos forte e sobretudo de uma boa produção. Também mantemos de pé o desejo de trazer novamente ao palco o show Curimã Lambaio, em homenagem ao mestre Caymmi. Além disso, outro disco também será gravado ainda este ano. Já agora em abril, entramos em fase de pré-produção. Com relação a vídeos e outras mídias para além da música, aos poucos estamos nos apropriando dessa linguagem. Não duvide que algo de bom venha pela frente", acrescenta.

Músicos por vocação, mas não por profissão, Borega, Luciano e Rafael nunca puderam se dedicar integralmente ao grupo. Mas sem mágoas.

“Meu parceirão Borega costumava dizer, emocionado, em shows, que, por enquanto, nós não podíamos viver da música, mas que tão pouco poderíamos viver sem ela. O Matita, no nosso coração, parece ser eterno, como na lenda”, conta Luciano.

“Ou seja, enquanto estivermos por aqui, ele estará lá, pois não é uma banda almejando sucesso, mas sim uma concepção partilhada, um projeto em plena confabulação, continuação e aprimoramento. Eis a razão de sua longevidade. A estrela é a música. Qualquer ascensão pública não será meio, mas consequência. Neste momento, com o disco, temos fé de que demos um imenso impulso no moinho, fazendo-o girar. Até mesmo porque já encontramos meios de gravar outro CD e continuar a escoar essa extensa obra represada. Sim, nosso sonho é que a música nos recolha de vez para ela, tome todo nosso tempo e nos garanta uma vida digna. Os passos estão sendo dados”, conclui o músico.

Matita Perê / Show de lançamento: Reino dos Encourados / Sexta-feira, 19h30 / Espaço Gonzaguinha do Restaurante Gibão de Couro (Rua Mato Grosso, 53, Pituba) / Entrada franca / www.grupomatitapere.com.br

sexta-feira, março 31, 2017

O CORAÇÃO DA MULHER BIÔNICA

Estreia: Trama cyberpunk de visual alucinante, Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell  traz Scarlett Johansson como uma androide em busca da própria identidade 

Scarlett
Versão live action fiel de um clássico desenho animado japonês, Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell é uma delirante ficção científica cyberpunk com referências várias, como Blade Runner, Pinóquio, Robocop e Matrix.

Scarlett Johansson é Major, uma androide de última geração a serviço de um órgão governamental obscuro, o Setor 9.

Major é a primeira de uma nova espécie: seu cérebro é humano e seu corpo, uma máquina ultraconectada, ágil, super forte etc.

Ela não se lembra quem foi quando ainda era humana, já que suas memórias foram apagadas pelo Setor 9.

Em suas missões, Major é auxiliada pelo seu parceiro Batou (Pilou Asbæk), pelo chefe do Setor (Takeshi Kitano) e sua “médica” (Juliette Binoche).

Na trama, acompanhamos sua investigação para deter Kuze (Michael Pitt), um super hacker capaz de possuir qualquer pessoa ou máquina, já que no futuro descrito pelo filme, tudo e todos estarão conectados em uma rede global / neural.

O filme é bem fiel à sua fonte de 1995, O Fantasma do Futuro (Ghost in The Shell), de Mamoru Oshii, que por sua vez é baseado no mangá homônimo, de Masamune Shirow.

Pilou Asbaek como Batou, o fiel parceiro de Major
O diretor Rupert Sanders chega mesmo a reproduzir sequências inteiras do desenho – o que em si, não é ruim, já que boa parte do público ocidental nunca viu o original.

Humano versus máquina

Visualmente alucinante, a cidade do filme tem no clássico Blade Runner: O Caçador de Androides (1982) sua evidente referência – com o acréscimo de holografias publicitárias do tamanho de edifícios por todo canto.

Nesse futuro, como de resto em qualquer obra que se alinha à estética cyberpunk, a humanidade não é muito diferente da que temos hoje, apesar de todas as melhorias e implantes cibernéticos: os ricos e fortes seguem oprimindo os pobres e fracos e as conexões entre os poderes político e econômico são tão ou mais corruptas.

Nesse cenário, Major surge como uma alma frágil – apesar de toda a sua força –, às voltas com suas memórias truncadas, um sentimento de isolamento que só quem é a única (ou a primeira) de sua espécie é capaz de sentir.

O conflito a leva a buscar sua identidade (Robocop) e até sua mãe (Pinóquio).

Essas questões do conflito humano versus máquina servem como pano de fundo para a trama de ação sci fi em um blockbuster multimilionário – portanto, não dá mesmo para esperar muita profundidade.

Mas tem lá seu charme – aliás,  inescapável até pela presença da protagonista.

O final difere um pouco da versão japonesa, pendendo para o lado comercial do cinemão norte-americano, mas nada que chegue a anular a experiência que, recomenda-se, seja em 3D.

Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell / Dir.: Rupert Sanders / Com Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Juliette Binoche / Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shopping Salvador Norte, Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela / 14 anos

terça-feira, março 28, 2017

LIDERADA POR EX-MAR REVOLTO, ALQUÍMEA LANÇA ÁLBUM SÁBADO NO ESPANHOL

Allefe, Geo e Petão. Foto Ney Santos
Membro fundador da antológica banda baiana Mar Revolto, o guitar hero Geo Benjamin volta à cena local liderando o power trio Alquímea.

A banda lança o álbum Flower Power neste sábado, com um show no festival de cervejas artesanais Beer, Rock & Blues, no Centro Espanhol.Com um som fortemente calcado no suíngue pesado e psicodélico de Jimi Hendrix, Flower Power é um bom veiculo para a excelência instrumental de Geo, Petão (baixo) e Állefe (bateria) – que diga-se de passagem, são pai e filho.

“Hendrix sempre foi a minha referencia e inspiração, e ainda é. Na minha adolescência eu comecei tocando contra baixo em bandas de escola e quando eu ouvi Hendrix pela primeira vez, eu tinha 16 anos, quis mudar imediatamente pra a guitarra. Aquele som pra mim soava mágico e muito original, apesar de um pouco estranho. Enquanto meus amigos (Octávio Américo e Raul Carlosgomes, do Mar Revolto) ouviam Beatles e Rolling Stones, eu só ouvia Hendrix”, conta Geo.

“Sim, a banda Alquímea tem o clássico modelo do Power Trio, típico das bandas de rock do final da década de 60 e o nosso repertório autoral  tem à ver com aquela década, onde se processou grandes transformações no mundo com o surgimento da cultura hippie ou movimento da contra-cultura. Por isso o CD chama-se Flower Power, onde se ouve na faixa de mesmo nome: "...sou mais um, vivi o Flower Power, creio ainda existe amor. Sou um a mais, de espinho, espada e amor no peito pra salvar a flor..."; se referindo à necessidade de unirmo-nos em favor da  preservação ambiental, uma das tônicas do nosso trabalho e uma das tônicas da geração Paz & Amor, declara.

Pioneiro da música independente no Brasil, Geo lembra que o primeiro álbum do Mar Revolto (1979) foi gravado fora das grandes gravadoras, as quais à época, dominavam o mercado com mãos de ferro.

"Na época da formação da banda, éramos basicamente uma banda de rock influenciada por tudo que ouvíamos na época embora com estilo próprio: Beatles, Rolling Stones, Led Zepplin, Hendrix, Cream, Deep  Purple, Yes, The Who e etc. Fazíamos um trabalho autoral e tocávamos em colégios, universalidades, teatros e no interior da Bahia, sempre levando mensagens de otimismo e de positividade nos nossos shows. Depois de atuar bastante na Bahia, sentimos a necessidade de ir pra outros centros e de registrar em disco o nosso trabalho. Isso foi muito antes do surgimento da Axé Music. Moramos no Rio de Janeiro no intuito de gravar o nosso primeiro disco, onde colocamos no nosso rock elementos da musica nordestina. Tal gravação aconteceu em 79. Esse disco (Long Play), foi um marco na história dos discos independente no Brasil pois apesar de existirem algumas gravadoras interessadas em nos contratar, nós preferimos fazer a nossa gravação de uma maneira totalmente independente, coisa dificílima na época, pois recusamos a nos adequar aos interesses do mercado promovido pelas multi-nacionais do disco, que queriam que gravássemos um tipo de música "água com açúcar", totalmente diferente da filosofia e proposta musical do grupo Mar Revolto", relata.

O Mar Revolto no tempo flower power. Geo é primeiro à esquerda em cima?
“Assim sendo,  gravamos o nosso primeiro LP, sendo esse, o quinto LP independente feito no Brasil (um marco na historia), contrariando os interesses econômicos e de controle de mercado por parte das gravadoras existentes na época, das quais sentimos posteriormente uma certa perseguição por tal atitude, pois elas tinham receio que essa ideia de "ser independente" poderia vir a atrapalhar no futuro o seu controle mercadológico e de artistas "fabricados". Durante toda essa vivencia no eixo Rio, SP e BH, onde fizemos inúmeros shows em teatros, clubes e festivais, efetivamente tivemos o reconhecimento não só dos seguidores/fans da Bahia, Rio, SP e BH, que sempre nos acompanhou, mas sobretudo dos inúmeros artistas, produtores, poetas, atores, diretores de teatros, músicos, artistas plásticos, jornalistas e etc, que reconheceram no trabalho do Mar Revolto a autenticidade na música e na filosofia promovida pela banda. Achamos então, que o nosso trabalho e o nosso dever fôra cumprido”, acrescenta.

Há alguns anos, Carlinhos Brown, que acompanhou a banda entre 1981 e 83, anunciou que ia produzir e lançar um álbum novo do Mar Revolto. O disco está gravado há algum tempo, mas ainda aguarda lançamento. Senta que lá vem história.

“Carlinhos Brown foi um dos integrantes do Mar Revolto em uma das fases da banda entre os anos 1981 a 1983, antes da banda terminar. Após o termino da banda eu fui morar no Rio de Janeiro, abandonando mais tarde a atividade de músico depois de ter acompanhado em excursão  o artista Gilberto Gil e nos anos 90 montei um estúdio de gravação, produtora e selo musical, trabalhando exclusivamente como produtor musical, prestando serviços de produção, locação de estudio e lançamentos de artistas de diversas gravadoras multinacionais sediadas no Brasil. Após esse período já de volta à Bahia, sempre que encontrava com Brown, ele manifestava, por diversas vezes, o interesse em fazer um CD com o Mar Revolto, tendo o rock como estilo musical que ele estava muito interessado em se envolver, compondo, tocando e cantando. A princípio eu não me mostrava muito interessado pois já havia tempos que eu não tocava e estava ocupado com outras coisas. Raul Carlosgomes, me ligou certa vez dizendo que Brown tinha falado com ele pra a gente se reunir e "fazer um som". Combinamos então em nos encontrar em um determinado estúdio: eu, Raul (bateria) e Octávio Américo (baixo) pra ver se ainda a gente se entendia musicalmente. Pois bem, quando começamos a tocar e improvisar vimos que a "energia" e a sintonia ainda tava no "sangue". Liguei imediatamente pra Carlinhos Brown e falei que tava rolando o som. Ele apareceu em minutos com muita vontade de nos ver juntos, tocando. Quando abriu a porta a gente já tava a mil, aí ele pegou imediatamente o microfone e mandou ver. A sintonia foi perfeita. Nessa mesma tarde compomos uma música, "Marina dos Mares", minha em parceria com ele e após esse "ensaio", ele nos convidou pra participar do seu CD que estava em fase de produção. Participamos como Mar Revolto desse seu CD solo,  e daí que veio a ideia de gravarmos um CD de rock com o título de "Carlinhos Brown é Mar Revolto". Começamos a montar o repertório imediatamente e em seguida a ensaiar. Músicas inéditas de Brown feitas exclusivamente para o projeto e músicas antigas do Mar Revolto que não tinham sido gravadas anteriormente mas que sofreram um upgrade nas letras, compostas por Brown, além de três  músicas minhas em parceria com ele sendo uma dessas com participação de Raul e Octávio. Depois de alguns meses o CD foi finalizado com a capa e tudo mais . Durante o processo, nos apresentamos no Festival Gueto Square, dentro do festival de Verão em SSA, no Festival de Inverno de Conquista e na entrega do prêmio Bahia Recall no TCA, sempre anunciando o lançamento desse novo CD. A partir daí, Brown começou a ficar muito ocupado, cumprindo uma extensa agenda de shows no Brasil  e no exterior. Sentimos que seria difícil ele conseguir lançar o CD da maneira que ele queria,  ao mesmo tempo que ele começou a sentir vontade de remixar o disco todo e logicamente de remasterizar todo o material, pois, inventivo como todos sabemos que é Carlinhos Brown, ele queria o máximo de satisfação pessoal nesse trabalho e a todo momento quando se tinha tempo, ele queria sempre melhorar a produção. A partir daí, acredito que por falta de tempo, por indisponibilidade de técnico de gravação nesse período para dar continuidade ao processo de remixagem e por ele ter que ficar ausente por causa dos compromissos na Europa, Estados Unidos e Ásia, o projeto foi caindo no esquecimento. Mas, acho que qualquer dia ele ainda lança, pois esse trabalho é atemporal”, aposta Geo.

Com o fim do Mar Revolto, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde atuou em estúdios.

“Sim, após o termino do Mar Revolto, como tinha falado antes, fui morar no Rio. Lá, depois de alguns anos tocando com vários artistas e trabalhando como músico em alguns estúdios, resolvi montar uma produtora com estúdio próprio e um selo musical distribuído pela Polygram, hoje Universal Music. Tive uma relação muito boa com todas as gravadoras sediadas no mercado, onde produzi diversos artistas, a exemplo da cantora Amelinha (Polygram), Cia. Clic com a cantora Carla Vizi (Polygram), o trio dance music de nome Lilith liderada pela globeleza Valéria Valença (Polygram), cuja musica Todo Amor é Bom, composição minha e do saudoso Bruno Nunes foi abertura do seriado Sex Appeal da Rede Globo;  a banda de reggae Central do Brasil (Wanner/Continental), a cantora baiana Silvinha Torres em parceria com o também saudoso Wesley Rangel (BMG), a cantora amazonense Eliana Prints (Geo&Cia/Polygram), o grupo carioca de samba Fora de Série (Virgen/EMI) entre outros menos conhecidos. Passaram também pelo meu estúdio, nomes como Jorge Vercilo, Ana Carolina, Cássia Eller, Gilberto Gil, Paulinho Boca, Moraes Moreira, Edil Pacheco, Armandinho, Jussara Silveira, José Augusto, Negritude Junior, Banda Eva, Banda Mel, Beto Barbosa, Banda Magnificos, Reginaldo Rossi e Jerry Adriani entre tantos outros”, relata.

Sal da Terra

Foto Ney Santos
De volta à Bahia, Geo mora em Santo Antônio de Jesus, onde toca um hotel fazenda com um estúdio de gravação e montou a banda.

"Esse foi um 'achado' mágico. Desde quando voltei do Rio, depois de ficar 18 anos trabalhando com produções em estúdio, eu vim me estabelecer  em Santo Antônio de Jesus, onde eu tinha passado parte da minha infância e adolescência antes de me mudar para Salvador, quando integrei o Mar Revolto. Posteriormente ao meu regresso, tive o prazer de conhecer Petão, hoje baixista da Alquímea, que trabalhava como músico e produtor de diversos artistas da região, tendo realizado trabalhos com Seu Jorge, Edson Gomes, Peu Meurray, entre outros, e que tinha um filho de 9 anos que tocava muito a bateria e era uma espécie de menino prodígio da cidade, muito elogiado e respeitado por todos. O filho de Petão chamava-se Állefe que a partir da idade de quatro anos, já tinha começado a tocar bateria, tendo ainda bem jovem acompanhado o guitarrista Kiko Loureiro em apresentações de shows e oficinas de música. Állefe sempre recebeu muitos convites para morar em SP e nos Estados Unidos para acompanhar artistas consagrados e continuar os estudos do instrumento. O tempo foi passando, Állefe continuou no interior, sempre estudando o instrumento e tocando com muitos músicos de SAJ e de Salvador. Durante todo esse tempo, eu sempre estava de olho neles pois já tinha a ideia de dar continuidade ao projeto Alquímea que eu tinha começado com outros músicos locais e aquela pegada de pai e filho tinha tudo a ver com a ideia do Power Trio que eu realmente queria: um baixista marcante, seguro e presente, e um baterista livre, solto, com técnicas jazzisticas aplicadas ao rock. Pronto, Alquímea tava de cara nova, tendo o pai Petão no baixo, o filho Állefe na bateria e eu, Geo Benjamin, como uma espécie de 'mãe' do projeto,  na guitarra e vocal. Enfim, a família tava formada", relata Geo.

No momento, as suas atenções estão voltadas para a Alquímea.

“O trabalho de divulgação do CD da banda Alquímea já começou. Já esta sendo executada  em mais de doze rádios no interior da Bahia a música O Sal da Terra, composição de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, lançada em LP pelo Beto em 1981, que fez muito sucesso na época. Fizemos um arranjo na nossa pegada rock nessa música que é de uma poesia e de um lirismo maravilhoso e que tem uma mensagem totalmente de acordo com "os tempos atuais", onde, na canção, prega-se a fraternidade universal, a união entre os seres humanos e um futuro mundo novo sem opressões, desigualdades e com a paz reinando no planeta. Também uma das tônicas presente  no contexto do nosso trabalho autoral, que pode ser ouvida nas músicas que compõe o CD Flower Power. Além das rádios convencionais, estamos   também sendo executadas em várias web rádios, destacando-se a Radio Rock Freeday que também lançou recentemente um CD na sua coletânea anual com a música "Roubalheira" além da musica O Sal da Terra estar sendo executada em sua programação diária”, conta.

“Após essa temporada de lançamento do CD e shows incluindo o interior da Bahia, queremos fazer o mesmo em SP. Acredito que no segundo semestre mas, antes disso, em Maio, já estarei indo pra preparar o terreno pra nossa excursão”, conclui Geo.

Alquímea / Festival Beer, Rock & Blues / Sábado, 19 horas / Clube Espanhol / R$ 35 /  www.alquimea.com



NUETAS

Malgrada, Búfalos

O Malgrada Trio e o duo Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes são as atrações no Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto puder.

Primata rodando

O guitarrista master Ricardo Primata promove desde ontem uma série de workshops por várias cidades. Ontem ele passou por Juazeiro e Petrolina. Hoje ele está em Senhor do Bonfim (na Rios Eletrônica), amanhã é Jacobina (Eletrônica Ednailsom).  Quinta-feira é em Conceição do Coité (Musical Show) e sexta, Feira de Santana (Som Brasil).

Velas para Sputter

Rodrigo Sputter Chagas (Honkers) comemora aniversário discotecando sexta-feira, 17h30, no Brooklyn (Bonocô Center, Loja 17). Grátis.