quarta-feira, fevereiro 22, 2017

30 ANOS DE CULTO DA MORTE

Reconhecida mundo afora, a banda baiana Headhunter DC faz show no Palco do Rock comemorando três décadas de som extremo

Headhunter DC, foto Frederico Neto
Três décadas de death metal – sem pausa, sem trégua, sem misericórdia – não é para qualquer um. Esse, em descrição mínima, é o status da pioneira banda baiana Headhunter DC.

Neste Carnaval, o antológico grupo liderado por Sergio Baloff (voz) e Paulo Lisboa (guitarra) comemora seus trinta anos com show no Palco do Rock e um lançamento triplo.

O mais importante entre os três CDs que a banda está lançando é a edição de luxo comemorativa de 25 anos do seu primeiro álbum, Born... Suffer... Die (1991, Cogumelo -  Mutilation Records).

O disco duplo traz o álbum original remasterizado, nove faixas bônus e DVD ao vivo com um show gravado em Recife, naquele mesmo ano de 1992.

Os outros dois são um bootleg (disco pirata) ao vivo gravado na Polônia (Death Kurwa! Live in Warsaw 2013), lançado pelo selo escocês Bestial Invasion, e o segundo volume do tributo Born to Punish The Skies... (Mutilation Records), com releituras de músicas do Headhunter por bandas do Brasil e do mundo.

“O  Born... Suffer... Die foi totalmente remasterizado a partir das fitas master”, conta Sérgio Baloff Borges.

“Ele já tinha sido relançado em 2002, por que até então ele não existia em CD, só em LP. Só que a edição de 2002 não ficou boa, o cara que fez a remasterização vacilou, não ficou legal. Essa remasterização de agora foi feita com Thiago Nogueira, ex-baterista nosso e um cara que tem intimidade com esse som”, explica.

Considerado um marco sul- americano do subgênero death metal,   Born... Suffer... Die tem sido aclamado como tal desde seu lançamento pela imprensa especializada mundo afora, levando com glórias o nome da banda (e o da Bahia) às profundezas do underground do metal mundial.

Não a toa, a revista Roadie Crew, o incluiu na sua lista d’Os 60 Grandes Álbuns do Metal Brasileiro.

Culto da morte ao vivo, foto Tapa Olho Imagens
Gravado em Belo Horizonte em maio de 1991, Born... Suffer... Die não tem crédito de produtor, o que significa que foi coproduzido pela banda e o engenheiro de som, creditado como Gauguin (homônimo do pintor pós-impressionista francês).

Na época, além de Baloff e Paulo Lisboa, a banda contava com Simon Matos (guitarra base), Ualson Martins (baixo) e Iaçanã Lima (bateria).

Ainda garotos, os membros da banda fizeram seu primeiro grande show em Salvador, abrindo  a estreia do Sepultura na Concha Acústica do TCA.

No dia seguinte, pegaram um avião para Belo Horizonte.

“Já tínhamos quatro  anos de banda, mas só tínhamos feito shows  para 100, 200 pessoas. Esse (da  Concha) foi para duas mil. Foi memorável. Tocamos numa quinta-feira. Na sexta, embarcamos para BH de contrato assinado  com a Cogumelo para três álbuns”, diz.

“Gravamos no Estúdio JG, lendário da cidade. Todas as bandas da Cogumelo passaram por lá. Tinha 16 canais, o que  para época era muita coisa”, lembra Baloff.

Divisor de águas

1995: com as figuraças Simon Matos e André Moyses (btr). Ft Facebook
Acompanhados no estúdio apenas pelo engenheiro de som de nome exótico, os cinco garotos de Salvador dispuseram de apenas seis períodos de seis horas cada – para gravar um clássico.

”Éramos pivetes, todo mundo novinho, sem experiência, então foi um grande pontapé inicial. Tivemos suporte do pessoal do Sextrash, que tinha terminado de gravar o disco deles”, lembra.

“A gente tirou sangue de pedra. O resultado foi incrível para a época,  uma explosão para a cena e uma divisor de águas para o metal extremo no Nordeste”, afirma Baloff.

“Esse disco ainda é um grande orgulho, como cada álbum da gente, até por que cada um saiu em uma época diferente. Na época, tava rolando um boom de death metal na Europa. Os grandes álbuns de death metal americanos e europeus saíram em 1991, mas no Brasil ainda não era tão divulgado. O  thrash dos anos 1980 tava saindo de moda. Em 1993 veio a moda do black metal”, diz.

“Então nosso disco saiu nesse hiato. Sempre remamos contra a maré, contra a moda. Somos contra mesmo. A maioria das bandas de nossa época, salvo raríssimas exceções, meio que falsearam. Muitas começaram death, viraram thrash ou até grunge. Nós, não. Sempre fomos death metal. Tá no sangue”, afirma Baloff.

Passado o show do Palco do Rock (e mais um no Dubliner’s Irish Pub em 18 de março), a Headhunter embarca em junho para shows no Chile e no Peru, com possibilidades de esticar até a Colômbia.

“Também tocamos em Vitória da Conquista em 29 de abril e em Feira de Santana, em 28 de maio. E ainda estamos fechando Fortaleza”, conta.

No segundo semestre, a banda para com os shows para gravar um novo álbum (o sexto da carreira), com vistas a uma nova turnê pela Europa em 2018 – a segunda da banda.

“Tocar Death Metal é uma eterna busca pela perfeição na música pesada e obscura da morte, musical e ideologicamente falando. Se o ímpeto por essa busca diminui com o tempo ou se acaba,  é hora de parar. Não é esse o nosso caso. A ideia é estar sempre tentando se superar a cada novo álbum. O Culto nunca para”, conclui Baloff.

Headhunter DC, Desafio Urbano, Electric Poison, Batrakia, Maldita (RJ), Awaking, Indominous, Act of Revenge e Overdose Alcóolica / Terça- feira (28), 18 horas / Palco do Rock (Praça Wilson Lins, Pituba) / Gratuito

Born... Suffer... Die  - 25th Anniversary Ed. / Headhunter DC / Cogumelo -  Mutilation Records / CD + DVD: R$ 35 (Vendas através do Facebook da banda)

Death Kurwa! Live in Warsaw 2013 / Headhunter DC / Bestial Invasion / R$ 30 (Vendas através do Facebook da banda)

Born to Punish The Skies... Tribute to Headhunter DC / Várias bandas / Mutilation Records / R$ 18 / Vendas: www.mutilationrec.loja2.com.br



terça-feira, fevereiro 21, 2017

RAUL DE BICICLETA? É O BICICLETRIO DE MARCOS CLEMENT & BANDA ARAPUKA NO CARNAVAL

Marcos Clement, Bicicletrio. Ft Antonio Chequer
Tem projeto cultural que é tão legal que todo mundo quer ajudar. O Bicicletrio Toca Raul, por exemplo: a ideia é tão incomum e o homenageado é tão querido que tanto a Prefeitura (Furdunço) quanto o Governo do Estado (Carnaval Pipoca) adotaram o projeto.

Trata-se de um nanotrio montando sobre uma bicicleta especial (pedalada por duas pessoas), com a banda Arapuka, do cantor Marcos Clement, tocando músicas de Raul Seixas em arranjos de marchinhas.

O Bicicletrio já se apresentou domingo no Furdunço e se apresenta sexta-feira no Pelourinho e sábado, no circuito Barra-Ondina.

“Desde 2005 a Arapuka vem fazendo homenagens a Raul no Carnaval. Já saímos em trios no circuito Barra-Ondina e até tocamos em palcos, como o de Itapoan. Quando a Secretaria de Cultura lançou o edital de nanotrios, tive a ideia de montar um trio em bicicleta tipo quadriciclo“, conta Marcos.

“Toda a engenharia de som e as adaptações da bicicleta foram projetadas por mim. Não é uma engenharia muito complexa, mas foi necessário muita pesquisa e consulta a especialistas, principalmente com relação à alimentação de energia para a sonorização que fosse possível colocar na bicicleta. Os músicos vão tocando no chão, acompanhando a bicicleta com um sistema sem fio, além de uma fanfarra que toca sem amplificação”, detalha o músico.

"São duas pessoas pedalando o Bicicletrio. Hoje, o Bicicletrio é alimentado a partir de baterias recarregáveis ligadas em um inversor. Estamos em negociação com uma empresa de energia solar para que possamos desenvolver um sistema de alimentação adaptado para a nossa bicicleta. No início do projeto, tínhamos pensado em energia gerada a partir dos pedais, porém a quantidade de energia gerada seria muito pequena principalmente por conta da baixa velocidade que a bicicleta desenvolve durante o desfile de carnaval, o que não possibilita a utilização desse meio para geração de energia", explica Marcos.

Trabalho autoral em breve

Marcos Clement e a moça - digo, mosca na sopa. Foto Antonio Chequer
Produção caprichada, o Bicicletrio conta com cada um de seus oito músicos vestidos como personagens de Raul: Cowboy fora da Lei, A Mosca, O Mago, O Hippie etc.

“Os figurinos são de Alethea YF, Nane Sena e Nilzete Clement. A cenografia é baseada na música S.O.S. e tem até um disco voador em cima da Bicicleta. A cenografia é de Ives Quaglia, que trabalha com papietagem e reaproveitamento de material”, conta.

No repertório, clássicos e também músicas mais obscuras de Raulzito, em ritmo de frevo e marchinhas.

"Estamos fazendo uma leitura mais carnavalesca nas músicas de Raul, são arranjos especiais para o carnaval, onde fazemos uma mistura do rock e do frevo em canções como Eu Nasci Há 10 mil anos Atrás, Al  Capone e Rock das Aranha, por exemplo. Essas misturas são coisas que o próprio Raul fazia, como quando ele misturava rock com baião ou com xaxado. O repertório apresenta também clássicos de Raul como Maluco Beleza e Metamorfose Ambulante em ritmo de marchinha e até a música Eterno Carnaval, que originalmente é uma marchinha, composta e gravada por Raul Seixas, mostrando que o carnaval também fazia parte do universo de Raul, que também gravou junto com Wanderléa marchinhas de carnaval para programas de televisão", detalha.

"Tem um sabor diferente tocar no carnaval. Não gosto do carnaval que segrega e que as pessoas da pipoca ficam sofrendo para dar espaço aos grandes blocos. A proposta do Bicicletrio é fazer um carnaval onde nós possamos, tanto a banda quanto o público que nos acompanha, brincar com nossos amigos, nossa família e nos divertir", afirma Marcos.

No ano passado, a Arapuka fez uma ótima série de shows no Teatro Eva Herz, Contando Raul Seixas, nos quais Marcos cantava músicas e contava histórias vividas por Raul, além de receber convidados como Wilson Aragão, parceiro de Raul na inesquecível Capim Guiné.

"Estamos reformulando o show Contando Raul para voltar a cartaz em 2018, com novas histórias e novo repertório. Foram mais de 50 shows ao longo de dois anos em cartaz. Para 2017, a banda Arapuka está montando um show especial com vários convidados para o Dia Municipal do Rock em 28 de Junho que é também aniversário de Raul Seixas", conta.

Este ano, Marcos lança seu primeiro álbum autoral, com direção musical de Jô Estrada e produção musical de André T.

“No dia 11 de março, abro o show de Zeca Baleiro na Concha Acústica com parte desse repertório, que tem  parcerias com compositores como Wilson Aragão e Alice Ruiz. O disco está programado para sair em junho deste ano”, conclui.

Bicicletrio Toca Raul / Sexta-feira (24): Pelourinho, 19 horas / Sábado (25): Circuito Dodô (Farol da Barra – Cristo), 14 horas / Gratuito

NUETAS

2blues e Caian hoje

2blues e Caian são as atrações do  Quanto Vale o Show? hoje. 20 horas, Dubliner’s, pague quanto quiser.

PdR 2017 na Pituba

Mesmo com todas as dificuldades e críticas, o Palco do Rock segue marcando presença no Carnaval. Este ano, o festival rola em uma localização mais central (Pituba) e a programação traz boas bandas todos os dias. Vamos destacar algumas. Sábado vale curtir Drearylands, Nervochaos (SP), IV de Marte, Jato Invisível e Pastel de Miolos. Domingo curta Vandex, Malefactor, Os Informais e Karne Krua (SE). Segunda-feira, o lance é Benete Silva, The Cross, Ronco, Inner Call, Circo de Marvin e Clube de Patifes. E terça-feira não perca Headhunter DC, Maldita (RJ), Batrakia, Indominous e Overdose Alcóolica. Praça Wilson Lins (Pituba), grátis.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

A NOITE É DA FOLIA RETRÔ

Baile: Retrofolia, banda surgida dos Retrofoguetes, é a atração de hoje  na Commons, com repertório de Armandinho, Dodô & Osmar

Kaverna à frente do Retrofolia, foto Sidney Rocharte / SecultBA
Turistas desinformados podem não ter a menor ideia, então que preste-se aqui o serviço: o  mais legítimo som  do Carnaval baiano, que foi criado pelo Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar, é a programação de hoje na casa Commons Studio Bar, a cargo do grupo local Retrofolia.

Armandinho, Dodô & Osmar, o trio, continua na ativa e se apresenta diversas vezes nos próximos dias, sendo insubstituível e imperdível.

Seus mais fieis discípulos, contudo, fazem essa prévia no baile de hoje, com todo o punch acumulado em décadas de atividade na cena roqueira local.

Inicialmente um projeto paralelo e sazonal da banda instrumental Retrofoguetes, o Retrofolia, aos dez anos, é uma banda  independente, afirmam seus integrantes.

“Sim, o  Retrofolia e o Retrofoguetes são duas bandas distintas.  O que foi um dia um tentáculo dos Retrofoguetes hoje é uma outra banda, com mais dois integrantes: Paulo Chamusca (guitarra), nosso amigo  de infância, e Kaverna (vocais)”, afirma o guitarrista Morotó Slim.

Ele conta que a banda / projeto surgiu ao encontrar amigos do rock local na folia.

“Acho que o Retrofolia foi um start interessante para mostrar o que era a guitarra baiana para a galera mais jovem que ia aos shows de rock e depois eu encontrava atrás do trio de Dodô & Osmar no carnaval”, diz.

“Aí, conversando com Rex (baterista) resolvemos agilizar algo para satisfazer tanto a gente, que amamos esse som, quanto essa galera que tinha necessidade de um Carnaval melhor”, afirma.

No show de hoje, a nata do repertório de Armandinho, Dodô & Osmar – tanto temas instrumentais quanto com vocais. “A intenção é fazer a coisa mais próxima possível do original. Não é releitura. Queremos tocar como as pessoas deixaram de tocar, coisas da década de 1970 que nem os Macedo (Armandinho e família) tocam mais”, diz Morotó.

Kaverna, Chamusca, Fábio, Rex, Morotas e Julio. Foto Clara Marques
Animadíssimos, os bailes do Retrofolia costumam receber muitos convidados, entre membros da família Macedo e parceiros da cena independente.

Infelizmente, até o fechamento desta matéria, nenhum convidado confirmou hoje.

“Tem muito evento na cidade, esse verão ta bombando, né? O povo tá sem dinheiro, mas tem festa pra cacete, então nada confirmado ainda”, diz Morotó.

Kaverna vai de Frida

Membro mais recente do grupo – apesar de participar como convidado desde o primeiro baile – o mineiro Kaverna tem muita experiência de palco, tendo participado da banda de rock brega Veludo Cotelê nos anos 1980.

"Vim para a Bahia (nos anos 1990) com 34 anos. Eu ia cantar no Fera Gorda (projeto da produtora de Ivete Sangalo). O projeto acabou, mas eu fiquei por aqui mesmo. Na época, eu pesava 134 quilos. Já cheguei a pesar 184. Hoje estou com 98. Apesar disso, sou judoca há 27 anos, inclusive sou árbitro da Federação Baiana de Judô. Também joguei handebol por 16 anos, tenho uma vida ligada ao esporte. Hoje malho de segunda a sexta, duas vezes por dia: academia de manha e corrida de noite. Então, tô no gás total para esses shows. Tenho até um sapato especial para o carnaval, um Kangoo Jump. Carlinhos Brown também usa. Comprei para me destacar, mas depois vi que também era bom para correr", relata a figura.

No Retrofolia,  é uma verdadeira usina de alegria, apresentando-se sempre de fantasia. Hoje, ele vai de Frida Kahlo.

“Trago essa irreverência desde o Veludo Cotelê,  em que eu já cantava fantasiado. Nunca subi no palco sem figurino, tem que ter uma roupa especial – e sempre ligada à comédia. Apesar disso, nunca subi no palco (de um teatro) como ator, mas sou rádio-ator, já fiz TV e cinema também, mas sou mais atuante como radio-ator, por que faço muitas vozes. Isso me facilita bastante. Como sou músico e publicitário, tudo entra na receita”, afirma Kaverna.

Viva a guitarra baiana, minha porra! Foto Aristeu Chagas / SecultBA
Orgulhoso de fazer parte de um grupo que resgata uma das mais belas facetas da música baiana, Kaverna destaca que o Retrofolia também ajudou a repopularizar a guitarra baiana.

“Quando o Retrofolia começou,  a guitarrinha estava relegada a Armandinho. Hoje tem um monte de gente tocando e fazendo. Contribuir para isso  me deixa feliz, por que é um instrumento nascido na Bahia, que  merece todo carinho e homenagem”, afirma.

"Esse repertório tem uma coisa incrível, que agrada a músicos e leigos. É uma música difícil de tocar e fácil de ouvir. Isso é uma coisa muito difícil de acertar, agradar aos músicos e ao público. Eles (Armandinho, Dodô & Osmar) conseguiram e a gente bebe desta fonte", conclui.

Agenda Retrofolia: O Carnaval das Guitarras Baianas:
  • Hoje, 22 horas / Commons Studio Bar (Rua Doutor Odilon Santos, 224, Rio Vermelho) / R$ 20 (no local) ou R$ 15 (fantasiado ou com o nome em www.commons.com.br/lista amiga)
  • 24 de fevereiro (sexta-feira), 22 horas / Largo Pedro Archanjo, Pelourinho / Gratuito

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

O GROOVE SOLO DE IRMÃO CARLOS

Irmão Carlos lança álbum solo com show gratuito sábado, no Rio Vermelho

Irmão Carlos, foto Ted Ferreira
Figura fundamental da cena independente com sua atuação no Espaço Dona Neusa, onde há mais de uma década promove shows, oficinas e outras atividades, Irmão Carlos ainda não foi devidamente apreciado pela própria música.

Sábado, quando lança seu primeiro álbum solo, é boa oportunidade para começar a faze-lo.Auto-produzido, auto-bancado e gravado no Estúdio Caverna do Som, parte do Espaço Dona Neusa, Carlinhos, como é conhecido, contou com ajuda dos amigos e admiradores via crowdfunding para viabilizar as cópias físicas do disco e o show de lançamento, que será na rua e gratuito, no Palco Toca Raul (Rio Vermelho).

“Só mandei o disco para masterizar em São Paulo. O resto, fiz tudo, da composição à mixagem.  Aí os caras do estúdio que masterizou, o Absolute Master, se amarraram no som e resolveram patrocinar também”, conta, feliz.

“Eles vem pra Salvador curtir o show e tudo. Imagine? Aqui a gente dificilmente consegue patrocínio, aí vem uma galera de São Paulo  patrocinar e prestigiar. Está tudo caminhando da melhor forma”, afirma.

"Quando decidi fazer esse solo decidi que era o momento em que me sinto sem pele, sem casca, os nervos expostos, hora de botar tudo que é bom e ruim pra fora. Isso veio muito da angústia e da ansiedade de ser também o momento em que eu saio da casa de Dona Neusa, depois de 39 anos, depois de muita coisa acontecendo na vida. E o disco foi sendo feito assim, nesse momento de transição. Entre compor e gravar foram dois anos", relata.

Convidados de primeira

Depois de três álbuns à frente da banda O Catado, Irmão Carlos, o disco, vem demonstrar a imensa habilidade do músico para criar grooves funk de rachar o assoalho – sem soar vazio nas letras, influência de bandas dos anos 1980, como Skowa & A Máfia, Talking  Heads e Titãs, sua preferida.

“Esse disco traz uma mudança pra mim, por que tem a raiz, eu me mantenho no funk. Mas também visito a música eletrônica e o blues”, conta.

Nas letras, aborda temas atuais, como o mito meritocracia, devidamente desmascarado em Seu Lugar.

“Muitas coisas que ficaram escondidas e não podíamos falar, estamos falando mais abertamente agora: o racismo, o machismo, a homofobia. Estamos podendo falar, debater, quem é contra, que é a favor, ouvimos argumentos de um lado e de outro. Então as letras são relacionadas a coisas que vivi. Estudei em escola particular e não percebia aquela coisa velada (racismo), mas com o tempo você começa a perceber o que acontecia na época. Tipo por que naquele dia tal eu não pude entrar naquele tal lugar?”, afirma.

Outra habilidade de Carlinhos é o da agregação. Em diversas faixas, convidados locais de primeira linha abrilhantam suas composições.

Engrenagem da Ilusão conta com a IFÁ Afrobeat e seus metais em brasa. E Quando Eu Acordar traz o guitar hero Eric Assmar, W Raimundo tem Enio (que aliás, faz o show de abertura no sábado), Me Engasguei Outra Vez no Jantar apresenta Alexandre Tosto (da Scambo) e Flutuar é Uma Vontade tem o guitarrista e produtor Junix.

“A gravação foi uma Disneylandia, cada encontro foi uma festa. A IFÁ passou um dia inteiro aqui. Iam fazer uma música só, mas Jorge Dubman (bateria) e Fabricio Mota (baixo) se empolgaram e gravaram outra,  Me Engasguei..., com Tosto”, conta.

“Já com Eric Assmar foi engraçado. Ele chegou com um slide raro, de vidro de remédio americano. Aí eu tava com  uns amigos no estúdio e aconteceu um acidente, o negocio caiu no chão e quebrou. Ele ficou triste, mas não baixou a guarda. Olhou de um lado, olhou de outro, pegou uma garrafinha de cerveja long neck e meteu nas cordas. E saiu o som que ele quis”, relata, admirado.

No show de sábado, porém, ele não conta com convidados. O foco será nele e na sua banda.

"A prefeitura, dona do Palco Toca Raul, entra com o palco e a liberação (junto à Sucom), eles tem um acordo com a Sucom, algumas secretarias que eu precisaria oedir autorização. Eles já fazem isso internamente, já facilita. A grana para som luz e cobertura foi para a equipe do Tio Bill, que é uma das melhores. Ele mesmo (Bill) deu a ideia, 'vamos fazer esse show na rua', 'mas eu não tenho dinheiro', 'ah, venha conversar vamos fazer uma parceria'. Então foi assim, tá tudo dando certo. No show não tem convidados. Tem o show de abertura de Enio e o meu, comigo e minha banda, que é uma mistura (de membros) da Suinga, com Tabuleiro Musiquim e Gazumba: Silvio de Carvalho (guitarra), Danilo Figueiredo (baixo), Allan Villas Boas (bateria) e Marcos Felipe (teclados). Eu também toco uns brinquedinhos eletrônicos", conclui.

Irmão Carlos: Show de lançamento / Abertura: Ênio / Sábado, 18 horas / Palco Toca Raul (ao lado da Paróquia de Sant’Ana, Rio Vermelho) / Gratuito

terça-feira, fevereiro 14, 2017

OS INFORMAIS SE JOGAM NO CARNAVAL COM TRIO NO FURDUNÇO E SHOW NO PALCO DO ROCK

Os Informais, foto Rafael Almeida
Já foi o tempo que roqueiro baiano se satisfazia em se esconder, camisa preta no lombo, do Carnaval.
Cada ano que passa, mais bandas buscam espaço na (alerta de clichê) “folia momesca”.

Para o trio pop rock Os Informais, periga virar tradição: este o segundo ano que a banda liderada por Daniel Calumbi se apresenta no Furdunço (no domingo, dia 19).

Detalhe: sem abrir mão de se apresentar no reduto roqueiro por excelência do Carnaval, o Palco do Rock, no dia 26.

“Fazer rock para multidões no carnaval tem um sabor mais que especial. Tudo está mudando, o mundo é dinâmico e precisamos quebrar os paradigmas”, afirma Daniel.

“Essa conversa que o rock precisa de segregação está defasada. Sabemos que o gênero nos últimos dez anos está dialogando com 'guetos', tem muita banda boa, muito som de qualidade, mas a forma como essa comunicação é feita talvez deva ser repensada. Acredito que o rock tem capacidade de penetrar na massa, assim como foi nos anos 1980, e o carnaval é uma excelente oportunidade para atacarmos”, acrescenta.

Selecionados via edital, Os Informais levarão para sua apresentação no trio elétrico diversos convidados do rock local: Dieguito Reis (Vivendo do Ócio), Ronco, Batrákia, Irmão Carlos, Conversiveis, Duda Spinola e A Feira. “Talvez um nome forte surpresa aconteça mas ainda não está confirmado”, avisa Daniel.

“Foi (seleção) através de edital, e recomendo (a outras bandas), sim. Não é um processo fácil, pois exige muito empenho. Nos esforçamos bastante em todo o processo, pois não temos produtora. Viramos ‘nossa produtora’ e arcamos com esse ônus. Agora, com certeza, virá o bônus”, acredita.

“Somos pioneiros nessa proposta de trazer um trio de rock no pré-carnaval e queremos colocar em evidência também nossos amigos da música que estão ralando assim como nós, para fortalecer a cena rocker baiana”, diz Daniel.

Potencial comercial

Uma das poucas bandas da cena a praticar um som de considerável potencial comercial, o trio formado por Daniel  (voz), Mário Borba (guitarra) e Elton Cardoso (bateria) está se preparando para virar a mesa em 2017: “ Estamos guardando a nossa munição para dar um tiro de canhão. Estamos pesquisando muita coisa, nos conectando a muita gente. Mas nossa intenção é justamente chegar com tudo pronto: um álbum bem produzido, bons clipes, bons shows e público. A partir daí buscaremos produtoras, mas sempre trabalhando paralelamente, porque na realidade em que vivemos, ser músico apenas é um luxo”, afirma o cantor.

“2017 já está sendo um ano maravilhoso para Os Informais. Começamos trabalhando neste projeto do Furdunço e um show insano no Palco do Rock, que  também é um evento muito importante pra nós. Após  o ‘Carnaval Informal’ nos concentraremos no álbum e a partir daí, criaremos um plano de ação focado nele, com shows, clipes, merchan e projetos nossos. O maior desafio em 2017 é a nossa música, queremos produzir um álbum impactante mesmo com músicas marcantes e finalmente deslancharmos com a banda”, promete.

"(Em 2016) Tivemos alguns imprevistos no meio do percurso e priorizamos os shows, para monetizarmos a banda e produzirmos um álbum com tudo que uma banda de rock tem direito.  Vamos  dar uma pausa agora em março e começaremos as gravações com André T. Inclusive já tivemos um encontro em estúdio com ele, a fim de apresentar as músicas novas, com certeza este álbum deve sair até julho de 2017. Apesar de tentar evitar a expectativa, temos consciência que este álbum será um divisor de águas na história d'Os Informais. São dez anos acumulando música e finalmente temos as melhores na mão, a expectativa é a melhor possível", conclui Calumbi,

Agenda Os Informais / 19.02: Furdunço, 14 horas (Circuito Orlando Tapajós) / 26.02: Palco do Rock  / 09.03: Sport House (Lauro de Freitas)  / www.facebook.com/osinformais



NUETAS

Coquetel, Exu Over

As bandas Coquetel Banda Larga e Exu Overdrive são as atrações no Quanto Vale o Show? de hoje. 19 horas, Dubliner’s, pague quanto quiser.

Pasolini, Pierry, Laia

Música, cinema e literatura se atravessam toda quintas-feira no Cinemex, mais um evento Low Fi Processos Criativos (leia-se Edbrass Brasil). Nesta quinta, exibição do curta-metragem Os muros de Sana (Le mura di Sana’a, 1971), de Pier Paolo Pasolini, seguido de comentários do crítico e pesquisador Marcos Pierry. Na sequência, show da Laia Gaiatta. 20 horas no  Lebowski Pub (Rua da Paciência, 127, Rio Vermelho), R$ 10.

Saideira: Vinil 69 com Lo Han

Mas se  teu lance é rock  mesmo, sem “homenagem” ao Tropicalismo pra pagar de intelectual, pinta no Dubliner’s sábado que a Vinil 69 e a Lo Han tão prometendo botar a casa abaixo. Até por que é o último show da V69. Ou seja: loucura vai perder. Sábado, 22 horas, R$ 10.

sábado, fevereiro 11, 2017

MINHA MICRO-RESENHA TE AMA

Edição desprivilegiada para um clássico

Segundo álbum do Metallica, Ride The Lightning (1984) foi relançado em edição de luxo em um pacote com seis CDs, livro, poster, o escambau. Lá fora. No Brasil, a gravadora optou economizar em um CD simples, sem uma faixa bônus sequer. Metallica / Ride the Lightning / Universal / R$ 29,90







Um violino à serviço do Brasil

Violinista erudito, Ricardo Herz gosta mesmo é da (sofisticada) música popular brasileira. Neste álbum, investiga o choro (Atlântico, de Ernesto Nazareth), o maracatu (Brisa) etc. Uma delícia que só podia ser do Brasil. Ricardo Herz Trio / Torcendo a terra / Scubidu Music / Preço não divulgado






Power trio avant garde

Não vamos enganar ninguém. A música deste álbum não é para todos os gostos. Trata-se de trio sax- guitarra-piano a investigar os limites do avant-garde via jazz e erudito. O plantão aqui é rigoroso. Xô preguiçosos. Lanca / Roda / Sê-lo! / Ouça, Baixe: www.selonetlabel.bandcamp.com 







Pop sinfônico

Cantor de talento indiscutível, Mika se faz acompanhar por orquestra e coro no Teatro Sociale Di Como (Itália). O resultado é um concerto  pop sinfônico de alta categoria. Estão aqui seus hits Grace Kelly, Stardust, Boum Boum Boum e outros. Mika / Sinfonia Pop / Universal Music / R$ 36,90







Sarcasmo com palitinhos

Uma das webcomics (quadrinhos para a internet) de maior sucesso do mundo, as tiras Cyanide & Happiness chegam ao Brasil em versão impressa. Personagens toscos (palitos) em situações mais toscas ainda do dia a dia. Humor com inteligência e trogloditismo. Cyanide and Happiness: Zoo da Porrada / Kris Wilson, Rob DenBleyker, Matt Melvin e Dave McElfatrick / Devir / 199 p ./ R$ 45


Bruna Surfistinha pela ótica do cliente

Ex-executivo da Livraria Saraiva, Ricardo Daumas estreia na ficção com um romance sobre um homem de negócios que, obrigado a se mudar do Rio para São Paulo, se encanta com sua vizinha, uma garota de programa. A partir daí, começa a questionar sua própria moral. Quem de fato, se prostitui? Amor de Puta / Ricardo Daumas / Sensus / 280 p. / R$ 34,90







Barbárie generalizada

Excelente peça de jornalismo em quadrinhos, este relato da trajetória do Sendero Luminoso, grupo terrorista peruano, é assombroso pelo detalhismo de sua pesquisa e pela crueldade praticada por ambos os lados do conflito (SL e militares). Deveria ser estudado em escolas. Sendero Luminoso / Luis Rossel, Alfredo Villar, Jesús Cossío / Veneta / 208  p. / R$ 64,90






Rock "careta", graças a Jah

Quem ainda tá nesse papo de que o rock já era tá por fora. No apagar das luzes de 2016, o trio alagoano Necro saiu com esse petardo de rock, careta que só: pesado, psicodélico, alucinado. Ouça: Azul Profundo e Viajor. Bravo! Necro / Adiante / Abraxas / Ouça: www.facebook.com/necro.al







Fábio Júnior style

Galãzinho zona sul canta suas baladinhas melosas para mocinhas com hormônios em chamas. Até aí, nada demais. O problema é que, de fato, aqui nada se salva. A começar pela onipresente e insuportável Amei Te Ver. Detestei te ouvir. Tiago Iorc / Troco Likes Ao Vivo / SLAP / R$ 29,90







Lyra carioca

Sobrinho do bossa novista Carlinhos Lyra, Cláudio Lyra chega ao segundo álbum seguindo a trilha aberta pelo tio, com um som carioca para carioca ouvir. Não é ruim, mas... Ouça: Esparrela do Brasil.  Cláudio Lyra / Autobiografia Não Autorizada / Lunatikus Diskus / Preço não divulgado






Versos livres

Esta coletânea reúne poemas dos doze livros já lançados pela autora carioca. Seus versos não buscam a rima, mas a sutileza dos sentimentos e a concisão da forma. Às vezes, pode-se dizer tudo em duas linhas: “Não é a dúvida que duvida / É a certeza que se engana”. Comigo / Fernanda Oliveira /  Imprimatur / 216 páginas / R$ 37







ETs gente fina

Mestre da narrativa infanto-juvenil, Orígenes Lessa (1903-1986) conta aqui a história do encontro entre um garoto esperto, Gil Vicente, e um grupo de visitantes extraterrestres baixinhos e de barbicha ruiva. Ao lado dos amigos interplanetários, Gil embarca em uma agitada aventura rumo a maturidade. Os Homens De Cavanhaque De Fogo / Orígenes Lessa / Global / 136 p. / R$ 39






Clássicos populares do Pará

Aos 79 anos, o paraense Pinduca, Rei do Carimbó, chega ao 36º álbum, fazendo uma releitura de seus hits clássicos para as novas gerações. Para os baianos, lembra bastante a lambada. Um belo artista popular. Pinduca / No Embalo do Pinduca / Ná Music - Natura Musical / R$ 29,90







Rael das rimas

Na manha, sem (muita) marra, o rapper Rael manda seu recado em um álbum de sonoridade suave e suingada, cortesia do produtor Daniel Ganjaman. Ouça: Livro de Faces e Falacioso. Rael / Coisas do Meu Imaginário / Laboratório Fantasma - Natura Musical / R$ 19,90








Saga sensível

Ye, um menino tímido que vive em uma vilazinha em local e tempo indefinidos, recebeu um sopro do Rei Sem Cor. Doente, ele parte em busca da bruxa que deverá cura-lo. No caminho, encontra piratas, monstros e malandros. Belíssima HQ de fantasia em preto & branco, indicada para todas as idades. YE / Guilherme Petreca / Veneta / 176 p. / R$ 59,90







Máfia na capital do pecado

Em seu segundo livro publicado, a escritora santista Cláudia Lemes explora o gênero noir em um romance de vingança ambientado na máfia italiana de Las Vegas. Em um texto cru, ela conta a história de Charlie, dividido entre o ódio pelo próprio pai e a paixão que sente pela esposa dele. Um martíni com o Diabo / Cláudia Lemes / Empíreo / 336 páginas / R$ 44,90







Sobre minha vagina

Comediante stand-up e atriz de sucesso, a protagonista da série Inside Amy Schumer faz neste livro mais ou menos o que já faz em seus shows: fala com uma franqueza chocante e divertidíssima sobre sexo, auto-imagem, relações diversas e, claro, da própria vagina. Ousada. A garota com a tribal nas costas / Amy Schumer / Intrínseca/ 336 p./ R$ 39,90 / E-book: R$ 24,90







Nobres tradições

Herdeiros de uma estirpe de cantadores ancestrais, os irmãos Marinho levam adiante a gloriosa tradição de sua cidade, São José do Egito (PE), berço da cantoria. Ouvi-los é se conectar com o que há de mais nobre na cultura popular. Em Canto & Poesia / Em Canto & Poesia / Independente / Ouça: www.facebook.com/EmCantoEPoesia






Manifesto desesperado

Álbum mais pesado de Moby desde Animal Rights (1996), These System Are Failing é o desesperançado manifesto do artista diante do mundo cada vez mais irracional. Som  no limite do HC digital. Ouça Are You Lost In The World Like Me e Don't Leave Me. Moby & The Void Pacific Choir / These Systems are Failing / Lab 344 / R$ 32,90






Sinfonia brasileira contemporânea

Menino prodígio do piano, o pernambucano Vitor Araújo lançou um dos álbuns mais importantes de 2016. Neste duplo, ele bota orquestra e tradições indígenas e afro brasileiras para dialogar. O resultado soa esplendoroso. Vitor Araújo / Levaguiã Terê / Ouça - baixe: www.naturamusical.com.br

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

HISTÓRIAS EM SOM, HISTÓRIAS EM LETRA

Fundador do punk no Brasil, Clemente Nascimento (Inocentes) lança primeiro álbum solo e um belo livro de memórias com Marcelo Rubens Paiva

Clemente & A Fantástica Banda Sem Nome, com Joe Gomes. Ft Tinho Sousa
Filho de um baiano de Cruz das Almas, Clemente Tadeu Nascimento é figura fundadora do movimento punk brasileiro.

Após mais de três décadas à frente da banda Inocentes, saiu no final do ano passado com seu primeiro disco solo e um livro, este em parceria com Marcelo Rubens Paiva.

“Agora só falta o filme”, diz ele ao telefone, encaixando na sequência sua famosa risada meio esganiçada.

Autor do histórico manifesto do punk brasileiro – “Vamos pintar de negro a Asa Branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer” – Clemente inaugura uma nova fase na vida e na carreira com  Antes Que Seja Tarde (o disco) e Meninos em Fúria (o livro).

No disco, lançado via selo Hearts Bleed Blue, ele toca acompanhado da Fantástica Banda Sem Nome, trio formado por  Joe Gomes (baixo), Johnny Monster (guitarra) e Rodrigo Cerqueira (bateria).

O baixista, anteriormente conhecido por Joe Tromondo, é figura histórica do rock baiano: é ex-baixista dos The Dead Billies, Retrofoguetes e Pitty. Clemente diz que é fã de Joe desde o tempo dos Billies.

"Conheço Joe desde o tempo dos Dead Billies em um Abril Pro Rock em Recife. Ele veio me entregar um CD da banda. Sou fã deles, fiz questão de leva-los para tocar no (extinto programa da TV Cultura) Musikaos (apresentado por Gastão Moreira, tinha Clemente como produtor). Gastamos uma grana para traze-los à São Paulo", lembra.

“Mas é isso, formei a banda com os caras que gosto, que tem o tipo de som que me agrada. Cada um complementa a banda de um modo. Joe é um maestro. Toda hora tá dando palpite: ‘vamos mudar um arranjo aqui’ e tal. Ele  apita em tudo e é e divertido demais”, conta.

Marcelo Paiva, sua "cadeira chique" e Clemente. Foto Julia Moraes
Ele diz que a estreia solo foi motivada pela busca de fazer algo diferente do que fez ao longo de décadas com sua antiga banda.

“Foi justamente esses 30 e poucos anos de Inocentes que me motivou, né? Você acaba querendo fazer alguma coisa diferente que a banda não permite. Ou até permite, já fizemos experiências, mas achei que não ficou legal. Desta vez, resolvi fazer fora da banda”, afirma.

Rock brasileiro, mas sem batucada ou fazer referências ao Tropicalismo para soar descolado, Antes Que Seja Tarde guarda como principal semelhança ao Meninos em Fúria, um certo um caráter intimista, um compromisso apenas consigo mesmo.

“A gente não queria ser nada nesse sentido, sabe? Tô cansado dessa coisa de ficar respondendo ‘o que é punk?’ de novo. Não representamos nada além de nós mesmos”, diz o homem que representou o punk.

O cadeirante doidão

Clemente no movimento punk do início dos anos 80, foto Rui Mendes
Já o livro Meninos em Fúria, sub-intitulado E o som que mudou a música para sempre, é um livro de memórias da dupla que o assina.

O texto de Marcelo, o célebre autor de Feliz Ano Velho, claro, predomina, o que é até natural.

Marcelo foi testemunha ocular da ascenção do movimento punk paulista no final dos anos 1970, início dos 80.

No livro, ele costura, com habilidade, sua própria biografia com a de Clemente e a contextualização política, social e artística daqueles anos agitados.

“A gente adorava ver o Marcelo no meio da bagunça dos shows punks. Era o cadeirante doidão, todo mundo queria empurrar a cadeira dele. Hoje ela é chique, mas na época, não, sempre tinha alguém pra empurrar. E todo mundo ficava doidão, se divertia, ninguém sabia que ele tinha escrito um livro”, lembra Clemente.

“Mas faz tempo que sentia isso, essa necessidade de contar minha história. O Ratos de Porão (banda de João Gordo) e o Inocentes começaram em 1981, mas o Inocentes já era uma banda veteranos. Eu comecei em 1978, com Restos de Nada, depois Condutores de Cadáver. É uma história que estava meio no vácuo, que precisava ser contada”, diz.

Em 1986, o Inocentes fez o impensável para uma banda punk: assinou  com uma multinacional e lançou seu primeiro disco, Pânico em SP.

“E depois teve esse lance de ter ido para a Warner, o que fez de mim ‘traidor do movimento’. Mas o movimento era uma bosta, os caras só queriam saber de brigar, e a gente, de tocar”, ri Clemente.

Curiosamente, o livro de Clemente e Marcelo saiu quase ao mesmo tempo que Viva La Vida Tosca (DarkSide Books), as memórias de João Gordo, em parceria com o jornalista André Barcinski.

Em entrevistas, o Gordo jura que teve a ideia primeiro e que a contou para Clemente durante seu programa Panelaço (You Tube).

“E foi mesmo! É que  o Marcelo escreve muito rápido!”, admite Clemente, às gargalhadas.

“Mas deixa eu te contar uma coisa: há vários anos, no site Showlivre (onde  trabalha), eu tinha um programa, Pé na Porta. Eu ia na casa dos artistas bater papo. Um dos primeiros foi o Gordo. Logo depois ele criou um programa igual na MTV, Gordo Visita”.

Agora tá tudo certo.

Clemente & A Fantástica Banda Sem Nome / Antes Que Seja Tarde / Hearts Bleed Blue Records / R$ 29,80 / www.hbbstore.com

Meninos Em Fúria / Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento / Alfaguara - Cia. das Letras/ 224 páginas/ R$ 39,80

terça-feira, fevereiro 07, 2017

CONHEÇA BENETE SILVA, PRODÍGIO DE COSME DE FARIAS E MAIS NOVO GUITAR HERO BAIANO

Benete Silva, foto Lucas Cerqueira
Senhoras e senhores, esta coluna tem imenso prazer em apresentar aos leitores um jovem músico que com certeza ainda dará muito orgulho à Bahia: Benete Silva.

Guitarrista que honra com louvor a tradição dos guitar heroes baianos, Benete estreou em 2016 com o álbum Rock na Favela, um disco instrumental que deixa qualquer fã de Joe Satriani com um sorriso de orelha a orelha.

O surpreendente vem agora: morador do bairro de Cosme de Farias, Benete é um autodidata que aprendeu a tocar, compor, arranjar e gravar praticamente sozinho.

“Tenho 24 anos, comecei a tocar em 2010, quando ganhei a primeira guitarra dos meus pais. Porém tudo começou com meu primeiro instrumento, um violão que ganhei aos 8 anos de idade. Como meu pai sempre ouviu rock e sempre tive essa influência, migrar pra guitarra foi um processo natural. Nunca tive professor, aprendi três primeiros acordes com o meu pai e o resto com amigos, revistas e principalmente na internet”, conta.

"Eu cresci ouvindo rock como Beatles, Rolling Stones, AC/DC, Guns 'n' Roses, System of a Down etc. Mas a paixão por instrumental surgiu quando estava navegando na internet e achei um vídeo de um guitarrista americano chamado Paul Gilbert, tocando uma música chamada Technical Difficulties. Nesse momento eu pensei: 'Quero ser capaz de tocar essa música'. Além de me apaixonar por música instrumental, foi nesse momento que eu decidi virar guitarrista", relata.

Com o apoio dos pais, Benete se aplicou em seus estudos e logo estava gravando seu álbum.

“O disco foi gravado no meu quarto! Por muito tempo quis gravar minhas músicas, mas não tinha dinheiro pra pagar produção, mixagem ou músicos, então decidi aprender todo o processo de produção e mixagem, passei um ano pesquisando na internet e buscando informações. Depois gravei o álbum no meu quarto usando apenas um computador, a guitarra e pedaleira”, relata.

"Eu fiz sozinho todo o processo musical, arrumei o baixo emprestado com um vizinho e grande amigo, Madson Expedito, e gravei. Também programei a bateria os teclados sintetizadores e percussões, também fiz a edição, mixagem e a masterização. O violão gravei na casa de um amigo talentoso chamado Lucas Pitangueiras, que me forneceu o seu violão e os equipamentos necessários de graça. A arte do álbum foi feita Cássio Sá, e as fotos por Jean Nogueira, Lucas Cerqueira e por minha namorada Carolaine Casais, que abraçaram o projeto e me ajudaram sem nenhum custo. É como diz o ditado: 'Quem tem amigos não precisa ter dinheiro'", acrescenta.

Planos com orquestra

Benete Silva, foto Carolaine Casais
Com um baixo emprestado de um amigo (Madson Expedito), o violão de outro (Lucas Pitangueiras) mais o auxílio de mais amigos e da namorada na arte e nas fotos do disco, Rock na Favela saiu.

“Esse processo me proporcionou um crescimento pessoal e musical incrível, aprendi na pratica que é possível fazer qualquer coisa, mesmo com pouquíssimos recursos, basta ter muita vontade e buscar o conhecimento”, afirma.

“Durante todo o ano de 2016 toquei sozinho, hoje estou acompanhado de músicos incríveis: Bruno Credidio na bateria e Tamires Estrela no baixo. Eles tocarão no álbum novo que começarei gravar esse ano”, promete.

Benete, que ainda estuda Engenharia Mecânica (Ufba) e dá aulas de guitarra, já planeja álbum novo e mais: com orquestra.

"Em 2017 quero tocar o máximo possível, em qualquer lugar que abrace o meu som, seja em Salvador, no interior ou até fora do Estado, se surgir oportunidade. Os shows naturalmente divulgam meu álbum. Além disso já estou trabalhando num álbum novo, que pretendo lançar no final do ano ou começo de 2018. Será um álbum que terá duas versões com oito músicas cada: uma versão heavy metal instrumental com muita guitarra e outra focada só em instrumentos de orquestra", revela.

Morador de bairro periférico, Benete espera, com seu talento e seu trabalho, ajudar a diminuir o preconceito de que só se ouve pagode e funk na favela.

"Exatamente, existe muito 'rock na favela' em Salvador. Na verdade, a grande maioria das bandas de nossa cena surgem na periferia, mas como o pagode e o arrocha são predominantes, criou-se um estereótipo de que apenas eles são gêneros que representam a favela, o que não é verdade. Existe diversidade e qualidade em termos de cultura na periferia, e eu quis, de alguma forma, expressar isso e despertar a curiosidade das pessoas colocando 'Rock na favela' como tema do meu álbum. A receptividade está sendo incrível, considerando todas as variáveis, pessoas que não gostam necessariamente de rock (e muito menos de rock instrumental) ouviram e aprovaram o álbum, e isso me deixou muito feliz", conclui,

https://www.facebook.com/benetesilvaofficial



NUETAS

Romanelli, Aurata, Elettra

Romanelli (DJ e produtor italiano residente em Florianópolis), Aurata (post-rock, chillout, jazz, experimental) e DJ Elettra (leia-se Messias Bandeira) fazem o Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s Irish Pub, 19 horas, pague quanto quiser.

Água Suja semanal

Não custa lembrar: a banda Água Suja segue fazendo a jam Blues Free Salvador todas as quartas-feiras. Dubliner’s, 22 horas, gratuito.

Laia Gaiatta sábado

Depois de um breve giro pelo sudeste, o trio de blues rock avant garde Laia Gaiatta traz o show Vaia à Tropos (Rua Ilhéus, 214, Rio Vermelho). Sábado, 19 horas. Pague quanto quiser (acima de R$ 20, leva CD da banda).

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

A BOSSA É PUNK NA IRONIA ERÓTICA DE VAN BOTTI

Van Botti, anteriormente conhecido como Vandex, lança álbum de bossa nova com convidados de primeira em show gratuito hoje, no Teatro Sitorne

Vandex - ops, Van Botti, em foto de Sora Maia
Ao longo da carreira, é comum artistas assumirem diferentes personas de acordo com o trabalho que desenvolvem no momento, como David Bowie ou mesmo Paul McCartney (com seu projeto Fireman). O baiano Evandro Botti, pelo visto, é adepto da prática.

Hoje, ele lança seu primeiro trabalho sob a alcunha Van Botti, Manifesto Punk Bossa, com um show gratuito no Teatro Sitorne, no fim da tarde.

A ocasião será filmada, gravada e posteriormente lançada em DVD e disponibilizada na internet.

Anteriormente conhecido como Vandex, Van Botti se apresenta como um cantor de bossa nova linha João Gilberto / Chet Baker (pelas letras em inglês).

A ideia é lançar o álbum no Brasil e depois tentar a sorte no circuito internacional de clubes e pequenos teatros de jazz / instrumental.

Vem daí a principal razão para a mudança de nome, de Vandex para Van Botti.

“O nome Vandex já é uma marca registrada nos Estados Unidos (de uma empresa ligada a construção civil), então não poderia usá-lo nas apresentações no exterior, por isso optei por um nome que é de fácil entendimento em outras línguas”, explica o músico.

Convidados ilustres

Surgido na cena rock local como fundador e baixista da antológica banda Úteros em Fúria (1986-1995), Evandro Botti se tornou Vandex na década passada, quando desfez sua banda posterior à Úteros, o duo Guizzzmo, que criou com o guitarrista Luis Fernando Apu Tude e pela qual passaram muitos músicos.

A fim de seguir uma nova direção na carreira, buscou na bossa nova que sempre apreciou – e que chegou a praticar em faixas gravadas do duo Guizzzmo – a nova orientação.

Para arredondar a nova proposta, concedeu à linguagem da bossa a irreverência que sempre lhe foi peculiar nas letras – daí o “punk” no título do trabalho –, e buscou também auxílio técnico / artístico de grandes músicos locais ligados ao gênero.

Gravado aos poucos em seu próprio estúdio (o Em transe) ao longo de um ano, Manifesto Punk Bossa contou com os arranjos de uma verdadeira autoridade da bossa nova, o violonista Aderbal Duarte, além da participação de músicos de primeira linha, como Tuzé de Abreu, André Becker, Gabi Guedes, Victor Brasil, Alexandre Vieira e Mou Brasil.

No site do músico (www. vanbotti.com) já é possível ouvir a primeira faixa liberada do projeto, Lost in The Storm, um suingado sambinha remetendo a coqueteis à beira-mar.

Van Botti, foto Sora Maia
Homenagem ao cinema

No show de hoje, Van Botti receberá diversos convidados que participaram do disco.

Além do vídeo do show completo, o show também produzirá as imagens que comporão o clipe da faixa já citada, que será uma homenagem ao cinema baiano.

“A ideia do clipe é uma homenagem à bossa nova, ao cinema e será uma grande brincadeira, mesclando o novo e o antigo no audiovisual baiano, uma mistura de gerações. Será algo inédito em Salvador”, afirma o músico.

Com trinta anos de atividades na música, Evandro Botti fundou a Úteros em Fúria ainda adolescente, em 1986.

Em 1993, após fazer nome na cidade e shows no Rio de Janeiro e São Paulo, banda lançou seu primeiro e único álbum, Wombs in Rage, pelo selo carioca Natasha.

Após o fim da banda em 1995, por problemas de saúde do guitarrista Emerson Borel, Evandro e Apu se juntaram no duo Guizzzmo, que chegou a contar com Magary Lord (pré-fama) na percussão e se apresentou duas vezes no festival Abril Pro Rock.

Já como Vandex, lançou em 2010 o álbum Ironia Erotica.

O projeto Manifesto Punk Bossa tem o patrocínio do Fazcultura, programa de incentivo fiscal da Secretaria de Cultura, Secretaria da Fazenda e Governo da Bahia.

Van Botti: Manifesto Punk Bossa (gravação de DVD) / Hoje, 16 horas / Teatro Sitorne (R. Dep. Cunha Bueno, 55 - Rio Vermelho) / Entrada Gratuita / Ouça: www.vanbotti.com

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

VOZEIRÃO SOLO

Ed Motta traz hoje e amanhã ao Café-Teatro Rubi seu show solo, no qual toca guitarra e teclados. No repertório, sucessos e releituras

Artista hoje em dia mais apreciado fora do que dentro do Brasil, Ed Motta traz a Salvador, pela primeira vez, seu show solo. As apresentações são hoje e amanhã, no Café-Teatro Rubi do Sheraton da Bahia Hotel.

Apresentação solo significa dizer que o cantor se apresentará sozinho no palco, sem banda – ora tocando guitarra, ora tocando piano.

No repertório, um apanhado da carreira e dos gostos pessoais do artista: Colombina, Fora da Lei, Daqui pro Méier, Tem Espaço na Van e até clássicos dos flashbacks, como Ebony Eyes (1983, de Rick James e Smokey Robinson).

“Essa coisa do show solo eu comecei faz uns dez anos”, conta Ed por telefone do Rio de Janeiro.

“Fiz muito em pequenos bares, eventos de empresas. Canto músicas de artistas que eu gosto e coisas minhas. Em Salvador mesmo eu nunca tinha feito. Até já fiz em Ilhéus e Feira de Santana, em shows corporativos”, acrescenta.

De caráter intimista, o show solo é meio como passar uma noite na sala de estar do artista, uma forma de testemunhar até mesmo seu método de composição.

“Eu diria que é uma forma de mostrar como eu faço as músicas, que é sempre ao piano ou violão”, diz.

“(Para o show solo) Eu tenho um mapa de músicas, tem tipo umas trinta, que  eu vou sentindo o clima pra montar o repertório. Aí dentro disso eu vou mexendo, às  vezes rola um Burt Bacharach, uma Rita Lee, um Tom Jobim, a famosa Ebony Eyes, Ainda Lembro (dueto com Marisa Monte, de 1991), esse tipo de coisa”, detalha o músico.

Possível DVD em Frankfurt

Indo e voltando do exterior direto para shows no próspero circuito jazzístico internacional (europeu, principalmente) Ed lamenta não estar conseguindo circular pelo país com sua banda para fazer shows. Seus últimos dois álbuns, AOR (2013) e Perpetual Gateways (2016) quase não tiveram shows no país.

Em ambos, Ed perseguiu a estética de gravação denominada AOR, muito utilizada entre os anos 1970 e 80, com uma diferença: o álbum AOR foi gravado no Brasil, enquanto o Perpetual foi gravado em Los Angeles, com muitos dos músicos originais do estilo.

"Mas olha, se der bobeira, eu até gosto mai do AOR. Foi um disco gravado no Brasil com músicos brasileiros. Tem um cuidado ali que é fora do normal. E eu adoro o disco novo, claro. Mas o outro tem algo... acho que é meu melhor disco até hoje", afirma.

“O Perpetual só teve um show de lançamento no Brasil, em São Paulo. Semana que vem vou fazer a oitava tour desse disco na Europa, com quase vinte dias. Ele já  foi apresentado em milhares de cidades. Semana que vem faço Alemanha, Itália, Suíça, Dinamarca e Suécia”, enumera.

“O Brasil é um mercado que mudou muito,  e não só pra mim. Outro dia  eu estava em São Paulo para um show solo e tinha um outro colega, surgido na mesma época que eu, fazendo o mesmo formato de show solo. É que os custos estão mais altos mesmo”, vê.

"Mas também tem uma coisa natural do tempo. Vou fazer 30 anos de carreira, então é meio natural também. Mas que bom que eu consegui abrir um espaço. Na Europa é como se eu fosse artista novo, no segundo disco. Para parte do público alemão é isso, a divulgação da gravadora foi forte nesses últimos dois discos. Antes até tinha meus discos lançados no Japão, Europa. Quando o cara (a gravadora) paga o disco, tem que ter algum retorno. Como os alemães pagaram, isso muda tudo. Mas aqui (no Brasil), o Perpetual foi bem também, a imprensa foi muito generosa, está em algumas listas de melhores do ano. Então fiquei bem surpreso, contente e agradecido", afirma.

Contratado por um selo alemão, o Must Have Jazz (o mesmo de nomes como Tangerine Dream e do pianista revelação  Jacob Collier), Ed se faz acompanhar na Europa por uma banda local.

“Qui no Brasil minha banda é pequena. Outro dia até fiz um show em Porto Alegre, no Pepsi on Stage com minha banda e tudo. Fazia tempo que eu não tocava com a banda - em qualquer lugar do Brasil. Infelizmente (essas ocasiões) tem sido raras pra mim. Já lá na Europa, minha banda tem um alemão, um francês, um finlandês e um holandês. A gente se encontra uns dias antes, ensaia e pega a estrada. Tem uns cinco anos que trabalho assim”, diz.

Nome de peso (sem trocadilho) no selo, Ed tem sua imagem ornamentando a foto de capa do Facebook do Must Have Jazz. Não a toa, o show da turnê em Frankfurt será gravado e talvez saia em DVD.

“Mas nada certo ainda. Tem que esperar pra ver como vai ficar.  É uma apresentação ao vivo que não posso repetir, então talvez vire um disco ao vivo e DVD. Vou ser acompanhado pela minha banda de lá e uma big band de Frankfurt, a HR Big Band”, conta Ed.

Ed é fã do Beto

Gourmet e enólogo, Ed frequenta o restaurante Paraíso Tropical (do chef Beto Pimentel) todas as vezes que vem a Salvador, chegando a se referir a ele como o melhor restaurante do Brasil.

“Gosto demais de ir no Beto, sou fã dele. Acho que a comida dele influenciou um monte de gente no Brasil que hoje faz  uma coisa parecida, que é a comida moderna brasileira, algo que  ele é pioneiro, já faz desde os anos 1990”, diz.

“Mas também gostaria de prestigiar alguma coisa que ainda não conheço. Queria conhecer alguma coisa na onda do Beto, da  comida afrobrasileira”. Fica a dica aos chefs.

Ed Motta Solo / Hoje e amanhã, 20h30 / Café-Teatro Rubi – Sheraton da Bahia Hotel / R$ 120 / Vendas: Bilheteria Café Teatro Rubi (3013- 1011) ou no site www.compreingressos.com

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

COM OS PÉS NO CHÃO

Financiado pelos fãs, Animal traz uma Scambo mais rock em um álbum de muitas inquietações soteropolitanas

Graco, Pedro Pondé e Alexandre Tosto. Foto Walter Abreu
Banda local que conta com um vasto (e apaixonado) público, a Scambo contou com o apoio deste para gravar e lançar seu novo álbum, Animal.

Lançado com um concorrido show no último dia 13 no Pelourinho, o álbum foi viabilizado por bem sucedido crowdfunding (financiamento coletivo) via plataforma Catarse.

A meta da banda era arrecadar R$ 50 mil para bancar produção, gravação, mixagem, masterização, arte, prensagem, direção de arte etc. Arrecadaram quase R$ 65 mil.

“Sinceramente, eu esperava (um resultado assim)”, diz o guitarrista / baixista / tecladista  Graco, que integra a banda com Pedro Pondé (vocais) e Alexandre Tosto (guitarra).

“Mas sempre dá aquele frio na barriga, né? Foi minha primeira experiência (com financiamento coletivo), mas ao mesmo tempo sei que a Scambo tem público, tem fãs, as pessoas tem um carinho enorme pela banda”, acrescenta.

Produzido por Luis Fernando "Apu" Tude nos Estúdios WR, Animal chega com uma marca: apesar de manter a pegada pop, é o disco mais rock da Scambo.

Mas não é isso que o torna melhor ou pior do que quaisquer outros álbuns da banda. É apenas sua característica mais evidente.

No som há ecos de Los Hermanos (Saída, Por Fora), Strokes (Animal) e até Camisa de Vênus (Ei Você, arrasadora).

“Apu é um cara que é parceiro nosso há muito tempo. Os discos Vermelho (2005) e Preto (2004) foram feitos com ele também, então é um cara que sempre gostou da banda, sempre acreditou. E  a gente vê o prazer dele em trabalhar conosco”, conta Graco.

“A gente podia ter pego a grana do crowdfunding e ido gravar em São Paulo. Mas isso não tem ver com a Scambo. Apu é um cara com um conhecimento grande, que somou no conjunto. Esse disco foi feito por cinco pessoas: eu, Pedro, Alexandre, Apu e Fernando (Maia, produtor executivo da banda)”, enumera.

Ponto fora da curva

Scambo, foto Walter Abreu
Outra coisa que se pode perceber rapidamente é que, apesar de não parecer a intenção da banda, Animal é um compêndio de inquietações pessoais e sociais bem comuns aos soteropolitanos.

Essas inquietações tipicamente soteropolitanas estão bem explícitas nas letras das duas últimas faixas, Carnaval e Ei Você.

A primeira, em ritmo de ska, é a crítica mais franca e virulenta à indústria carnavalesca já posta em canção na Bahia: “Festa sacana feita por gente com grana que ganha muito mais grana / Manipulando a cultura / Muitos artistas aceitam esses senhores pra não / Ficarem longe dos refletores / (...) / Não vou tirar meus pés, meus pés do chão”.

Já Ei Você é um punk rock light na sonoridade mas pesado na mensagem: “Você que não tem sobrenome olhe pra mim você / Não é gente bonita / Hoje eu não vou sair porque eu tenho medo de assalto / Eu tenho medo de ser sequestrado eu morro de medo de morrer porque / Porque eu sou o idiota perfeito”.

“Esse conflito é nosso também, vivemos em uma cidade violentíssma e todos sofremos com isso. Mas acreditamos em ocupar a cidade em todos os sentidos, precisamos ter intimidade com a rua, ela não pode ser estranha. Então essa música é  um desabafo nesse sentido”, afirma Graco.

Bastante requisitada para shows pela cidade e pelo interior do estado, a Scambo é mesmo um ponto fora da curva no cenário da música independente local – na cena rock então, nem se fala.

De carreira errática, surgiu no fim dos anos 1990 e formou público rápido. Em meados da década passada, alçou voo para o eixo Rio - São Paulo, mas as pressões foram demais e um rumoroso conflito interno pôs fim à banda em 2006.

Somente em 2011 o trio remanescente se reuniu, graças à intervenção do já citado Fernando Maia. Em 2012, lançaram Flare, um belo disco acústico para marcar o retorno.

“Nossa carreira é meio caótica. Ela não é bem desenhada. Mas mesmo assim o público só cresce. A Scambo passou cinco anos parada e quando voltou era outro público, que se juntou ao publico antigo”, diz.

Em 2016, a banda ganhou nova projeção nacional ao participar do reality show Superstar, da Globo.

“Com o Superstar e agora no crowdfunding, vimos a força que temos na vida das pessoas. Pessoas que botam o cartão de crédito em um site e compram um álbum que ainda não ouviram. Isso foi muito bom e estamos muito agradecidos”, conclui.

Animal / Scambo / Produção: Apu Tude e Scambo / Independente / Preço não divulgado / www.scambooficial.com.br



Faixa a faixa: Animal

Inevitável: Três batidas na porta anunciam o riff de guitarra slide e a voz suave de Pedro: “Na hora certa veio / me acertou em cheio”. Boa abertura, ganha o ouvinte de cara

Saída: De início surf music e miolo pop rock, parece uma crítica ao sadismo de quem curte ver a miséria alheia

A Sombra: Riff de guitarra e sequência synth que emolduram lembrete: “Tudo isso que está para acontecer / Já foi decidido muito antes de você”

Por Enquanto: Balada melancólica que cresce e pesa com intensidade

Por Fora: Lembranças de início de namoro, vistas de longe, de fora

Eu Quis Dizer: Terceira faixa melancólica, formando miolo tristonho. Levada blues

Animal: De Tosto, a  faixa-titulo é sobre instintos animalescos e retoma peso e velô

Quase: Acelerada, um tratado sobre o cansaço

Carnaval: Direto de esquerda na festa rica

Ei Você: Punk rock com letra de punk rock. Cool

terça-feira, janeiro 31, 2017

A DAMA DE VERMELHO

Famosa marca italiana de bebidas contrata diretor oscarizado e astro de Hollywood para filmar curta. O blogueiro esteve no lançamento em Roma a convite da Campari, representando o jornal A Tarde

Clive Owen e a deusa Caroline Tillette em Killer in Red
O cenário feliniano de Roma no inverno é o pano de fundo perfeito para o diretor italiano Paolo Sorrentino e o ator inglês Clive Owen lançarem o curta-metragem Killer in Red.

O evento, com direito a premiere, tapete vermelho e sessões de entrevista para repórteres do mundo inteiro, é uma ação da tradicional fabrica italiana de bebidas Campari.

Assim como outra famosa marca italiana, a Pirelli, a Campari lança todos os anos um sofisticado calendário reunindo grandes fotógrafos e top models.

Este ano, para sair da rotina, foi criada uma ação intitulada Campari Red Diaries, na qual se insere o curta do Sorrentino com Clive Owen.

Além do super produzido filme de sete minutos, a marca também escolheu doze bartenders do mundo inteiro para contar histórias e apresentar seus drinques exclusivos criados para a marca.

Entre os doze, há dois brasileiros: Thalita Alves, que representa a Austrália com o coquetel Anita, uma homenagem à Anita Garibaldi, que leva cachaça Sagatiba Envelhecida, e o ítalo-brasileiro
Fabio La Pietra, do bar Peppino, em São Paulo, que apresenta no mês de agosto a receita de “A Hora Incomparável”.

Diretor conhecido pela verborragia visual que costuma derramar em filmes premiados como A Grande Beleza (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) e A Juventude, Sorrentino admite que teve
de se conter para dar seu recado em apenas sete minutos.

"Eu tenho a tendência de falar muito, mas eles (os produtores) queriam um filme curto, então tive
de me segurar. Mas é difícil para mim ser conciso, é complicado", afirmou.

Mesmo assim, o diretor fez um belo filme, ainda que de cunho mais publicitário. Seu Floyd, o bartender vivido por Clive Owen, é tão desiludido e relutante quanto os personagens principais
que povoam seus longas.

"A ambiência do bar ajuda muito, por que é um lugar em que as pessoas estão naturalmente
propensas a se socializar. Então é um cenário ótimo a se explorar".

Já o ator principal não se fez de rogado. Vestiu o uniforme de bartender e foi aprender in loco
como misturar drinques. "O figurino é muito importante. Até por que se a roupa não estiver correta, o papel não parte do ponto certo. Até os sapatos contam", afirmou o ator, que ainda contou que fez um estágio de bartender no bar de um amigo em Los Angeles.

Thalita Alves, a simpática bartender brasileira residente na Austrália
Sobre seu diretor em cena, Owen também não poupou elogios: "Sou um grande fã de Paolo, é um grande profissional no auge da forma".

A sessão de rasgação de seda, claro, teve volta. "Clive é um dos melhores atores desta época. Foi uma honra trabalhar com um ator inglês que traz em si toda a tradição da atuação teatral inglesa", disse Sorrentino.

De estética noir-publicitária, Killer in Red não poderia prescindir de um dos principais elementos da estética noir: a femme fatale, aqui interpretada pela atriz franco-suíça (e ruiva) Caroline Tillette, sempre de vermelho, citando a cor da bebida.

"Caroline é um exemplo perfeito de desejo masculino e nos filmes noir, o desejo masculino é sempre fatal. Nesse sentido, Caroline é devastadora", disse Sorrentino.

Diante da plateia de jornalistas do mundo inteiro, Bob Kunze-Concewitz, CEO do Gruppo Campari, pontuou que, "depois de 70 anos de calendários, é fácil cair na zona de conforto. Desta vez, fizemos questão de subir o nível".

"Clive Owen, neste contexto, representa o carisma e a paixão de Campari. E o filme ficou ainda
melhor do que eu esperava. Na verdade, eu fiquei arrepiado", acrescentou.



ENTREVISTA (OU TENTATIVA DE): PAOLO SORRENTINO

Em A Grande Beleza e também em A Juventude, seus personagens principais são homens desiludidos, cansados do mundo que os cerca. Você diria que Floyd, o bartender de Killer in 
Red, segue esse padrão?

Signore Sorrentino orienta Clive Owen em cena
Paolo Sorrentino: Não, eu não acho que Floyd está cansado do mundo. Eu acho que Floyd está excitado com o mundo. Eu acho que este homem entende que o casamento é melhor que a transgressão fora do casamento. E acho que isto é sempre uma boa notícia.

Killer in Red é esta grande e bela peça de propaganda. O senhor acha possível conceder sentidoo artístico à linguagem publicitária?

PS: Não sei dizer, por que na verdade não estou nem certo sobre o que é arte. Eu não sei.

Percebo uma grande influência da fotografia de moda e da publicidade em seus filmes. Você diria que essas linguagens são uma influência em sua carreira, em sua arte?

PS: Nada disso. Por que não sei quase nada de moda e muito pouco de publicidade.

O senhor disse na coletiva que a ambiência do bar o fascina, por que nele as pessoas estão propensas à se socializar. Fazendo um paralelo com sua série da HBO The Young Pope, o senhor diria que o bartender seria uma espécie de padre e o bar, sua igreja? Afinal, o bartender ouve as confissões das pessoas...

PS: (Pensa por um momento). Va bene. Eu aprecio sua interpretação. Gostei, faz sentido.

Que espécie de oportunidade o senhor vislumbrou neste projeto? O que o trouxe a ele?

PS: Não é por aí. Para nós, italianos, Campari é uma marca familiar, algo que te acompanha ao longo da vida, algo a que você se apega. Campari é parte de nós. O projeto era bom, e a proposta, interessante. Haviam características neste projeto que achei que eu poderia fazer algo a respeito, então, eu fiz.