Terça-feira, Novembro 17, 2009

UMA ATRAÇÃO A CADA ESQUINA

Música e artes cênicas invadem a Av. Manoel Dias da Silva no evento-manifesto Hoje é Dia de Esquina!



No início da noite de hoje, um evento inesperado e de contornos inéditos promete agitar, durante uma hora e meia, dez esquinas da Avenida Manoel Dias da Silva, na Pituba. É o manifesto Hoje É Dia de Esquina! Para Humanizar a Cidade, que levará dez manifestações artísticas para as ruas do agitado bairro.

Idealizado pelos produtores Cássia Cardoso e Roger Ribeiro, o evento é inspirado numa iniciativa que o irmão de Roger, o multiartista Freddy Ribeiro, tocava no Rio de Janeiro, no agito do Baixo Leblon.

“Tinha esse espetáculo no Rio, que chamava Bonitos & Paranóicos, de Freddy Ribeiro com a banda qinho e os caras (grafado dessa forma). Eles se apresentavam toda terça-feira numa esquina do Baixo Leblon“, conta a produtora.

“Um certo dia de fevereiro de 2008, depois de algum tempo fazendo isso, um monte de artista teve a iniciativa de se juntar e fazer um movimento chamado Hoje é Dia de Rua!, que ia do Leblon até Ipanema. A cada esquina tinha uma atração diferente, isso durante duas horas“, continua.

“Adoramos a ideia. Aí, conversando com o irmão de Freddy, Roger, resolvemos adaptar o evento para Salvador“, acrescenta Cássia.

Diversidade musical

Em Salvador, o evento vai funcionar da seguinte maneira: a partir das 19 horas, todas as esquinas da Avenida Manoel Dias da Silva entre as ruas Bahia e Piauí receberão uma atração cada, que se apresentarão no passeio, em um espaço delimitado por refletores no chão.

O evento em todas as esquinas durará precisamente uma hora e meia, encerrando-se às 20h30. Moradores, motoristas e passantes testemunharão, nesse decurso de tempo, atrações de qualidade comprovada de música, teatro e circo.

Na música, a diversidade dá as cartas. Haverá o pop rock consagrado das bandas Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta, Retrofoguetes, Anacê e Banda de Rock. O samba do Recôncavo marca presença com o grupo Barlavento, assim como o jazz instrumental de Luizinho Assis, o hip hop do DJ Bandido (com intervenções do grafiteiro Denissena) e a MPB da cantora Simone Mota.

Teatro, circo e manifesto

Quem preferir teatro poderá assistir à Saga de Soraia, peça que será apresentada pelos premiados atores Aícha Marques e André Tavares. Pocket-play inspirada em antigos desenhos animados, conta a história da personagem-título, uma jovem nascida no subúrbio ferroviário que sonha em morar na Pituba.

Já a trupe de circo Malabares & Cia, especializado em apresentações de rua, promete trazer para a sua esquina o fascínio circense, lançando mão de vários tipos de performances.

Com essa movimentação toda, Cássia e Roger pretendem chamar a atenção do público para a necessidade de se ocupar as ruas de forma consciente e respeitosa. “Somos educadores e lidamos com cidadania e adolescentes e percebemos que, hoje em dia, os espaços públicos são tomados de uma forma que não beneficia o público“, avalia.

No evento será distribuído o Manifesto Hoje É Dia de Esquina!, que toca em assuntos importantes como barracas de praia, pontos de ônibus, praças e poluição sonora – certamente, um dos problemas mais sérios da Salvador contemporânea.

SERVIÇO



O quê: Hoje É Dia de Esquina! Para Humanizar a Cidade

Quem: 10 performances artísticas em apresentação simultânea:

1) Aicha Marques e André Tavares – Teatro
2) Anacê – Música
3) Banda de Rock – Música
4) Barlavento – Música
5) DJ Bandido e Denissena – Hip Hop e Grafite
6) Luizinho Assis – Música
7) Malabares & Cia – Grupo de Circo
8) Retrofoguetes – Música
9) Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta – Música
10) Simone Mota – Música

Quando: 17/11/2009 (terça-feira)

Horário: 19h00 às 20h30

Onde: Esquinas da Avenida Manoel Dias da Silva, entre as ruas Bahia e Piauí
Gratuito, aberto ao público, livremente nas ruas da cidade

http://diadeesquina.blogspot.com
http://twitter.com/diadeesquina

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Cariocas e africanos: novas cores nas HQs


Apesar de todo o avanço que as histórias em quadrinhos têm experimentado nas últimas décadas, aproximando-se cada vez da literatura e da linguagem adulta – deixando para trás a visão estreita de quem acha que são feitos apenas para crianças – ainda há poucas obras que dêem conta de questões “sérias“ como raça, miscigenação, racismo e mesmo da África enquanto continente, em oposição à visão colonialista da terra exótica, cheia de animais selvagens, tribos canibais, mistérios e perigos.

Essa lacuna vai aos poucos sendo preenchida com o lançamento de álbuns como os recém-chegados às livrarias Negrinha (Desiderata) e Aya de Yopougon (L&PM).

O primeiro, assinado por Jean-Christophe Camus (roteiro) e Olivier Tallec (arte), é em parte baseado na história da mãe e da avó de Camus, brasileiras que viviam no Rio de Janeiro do anos 50.

Já Aya de Yopougon, de Marguerite Abouet (roteiro) e Clément Oubrerie (arte), retrata a juventude da primeira, natural da Costa do Marfim, que vive em Paris já há algum tempo. No livro, Marguerite mostra um pouco da sua juventude no país situado na costa oeste do continente africano. O álbum da L&PM é o primeiro de uma série de quatro, a serem lançados posteriormente.

Ao seu modo, cada um deles oferece sua visão de negritude de acordo com o ambiente cultural e temporal em que as suas histórias se desenrolam: Negrinha, no Rio dos anos 50 e Aya, na Costa do Marfim, em 1979.

Jean-Christophe Camus, como ele mesmo diz na entrevista ao lado, fez Negrinha como parte de suas pesquisas sobre a sociedade brasileira, temas que lhe interessam pela ligação parental. Seu pai foi ninguém menos que o premiado cineasta francês Marcel Camus (1912-1982) , autor do clássico filme Orfeu do Carnaval (1960, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro).

Fascinado pela cultura afro-brasileira, Marcel acabou gerando Jean-Christophe de sua união com a brasileira Lourdes de Oliveira. Em Negrinha, ele conta um pouco como era a vida de sua mãe, mulata, e sua avó, negra que trabalhava de doméstica naquele Rio de Janeiro idílico dos anos 50.

Com muito esforço, Olinda (personagem baseada na sua avó) conseguia criar Maria estudando na melhores escolas e frequentando aulas de balé entre o que restava da aristocracia carioca daquela época.

Ao desejar apenas o melhor para sua filha, Olinda a mantinha longe do Morro do Cantagalo (atual Pavão-Pavãozinho) onde nasceu. "Você não é uma negrinha; é morena, é quase branca", dizia Olinda para Maria.

Ainda assim, um dia, Maria conhece Toquinho, um menino do Cantagalo, vendendo amendoim na praia. Bom de samba, Toquinho encanta a menina, que tem pena de sua condição. Olinda, claro, faz de tudo para afastar os dois jovens.

Contudo, fica evidente o carinho do autor para com seus personagens. Mesmo Olinda, que poderia ser retratada como uma vilã, é na verdade, uma mulher pobre de boa alma, que todos os dias reza por todos os que conhece, incluindo o próprio Toquinho e Dona Ruth, a dondoca falida que ela acaba por acolher em seu próprio apartamento e ainda assim, a trata como empregada.

A arte de Olivier Tallec, baseada em fotos de família de Camus, do Rio dos anos 50 e de uma viagem que ele mesmo fez à cidade, é de encher os olhos: ensolarada, carregada de expressão.

Claro que não dá para exigir um tratado profundo sobre o preconceito racial no Brasil de uma dupla de quadrinistas franceses. Para se garantir, contudo, Camus consultou bastante Antonio Carlos Amâncio, um teórico do cinema, doutorado pela USP com uma tese sobre a representação do Brasil no cinema estrangeiro de ficção, como bem levantou Jotabê Medeiros, do jornal Estado de São Paulo.

Aya de Yopougon

Longe dos conflitos tribais, massacres e campos de refugiados que costumam ser a tônica do noticiário sobre a África, as gazelas da Costa do Marfim em 1979 só queriam saber de rebolar suas tassabas nos maquis, enquanto saboreavam alocôs com kutukus enquanto ficavam de olho nos genitôs.

Traduzindo: as meninas rebolavam suas bundas nos restaurantes ao ar livre onde se pode dançar, comendo banana frita em rodelas com vinho de palma, enquanto ficavam de olho nos rapazes com dinheiro para gastar. Assim é Aya de Yopougon: uma viagem divertida e leve à uma África colorida, sem fome ou guerras. Uma boa novidade para quem procura diversidade nas HQs.

No fim do livro, a autora incluiu uma série de “extras“ sobre a cultura, a culinária e a moda da Costa do Marfim. De início, há um pequeno léxico para entender melhor a história, com várias gírias locais como dye (bêbado), bodjô (bunda) e dêh (exclamação). Segue um guia ilustrado de como usar panos coloridos como sáris ou amarrados na cabeça. Outra dica útil (e ilustrado) ensina as meninas a rebolar a tassaba (bunda) ao caminhar. Seguem receitas de gnamankudji (suco de gengibre, afrodisíaco) e sopa de amendoim, que leva carne de boi, pasta de amendoim e especiarias.

Negrinha / Jean-Christophe Camus e Olivier Tallec / Trad.: Fernanda Abreu / Desiderata / 104 p. / R$ 44,90

Aya de Yopougon / Marguerite Abouet e Clément Oubrerie / Trad.: Júlia da Rosa Simões / L&PM / 112 p. / R$ 38


ENTREVISTA: JEAN-CHRISTOPHE CAMUS

Não fosse o fato de Negrinha ser publicada no Brasil, o franco-brasileiro Jean-Christophe Camus correria o risco de passar o resto de sua vida como um ilustre desconhecido na terra-natal de sua mãe – e onde seu pai, o cineasta Marcel Camus, realizou o clássico Orfeu Negro (1959),filme premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ensinado pelo pai desde criança a admirar e respeitar o povo negro, Camus é fã da música brasileira e é leitor de Gilberto Freyre. Nascido em 1962, é diretor artístico da editora francesa Éditions Delcourt desde sua fundação, em 1986. Em 1990, fundou o escritório de design gráfico Trait Pour Trait, ao lado de Guy Delcourt.

P: Lendo Negrinha, percebe-se que os autores têm um olhar muito terno para seus personagens, incluindo aqueles que poderiam ser retratados como “vilões“, como Olinda. Isso foi uma escolha consciente ou simplesmente aconteceu assim?

JC CAMUS: Foi uma escolha consciente. Olinda sabe que deve se sacrificar para prover uma vida melhor para sua filha. Ela daria sua vida por Maria. Ela é sua razão para viver, trabalhar, rezar. Queríamos uma mulher com uma face boa e má (ao mesmo tempo), com dúvidas, como qualquer pessoa. Às vezes, os pais precisam fazer escolhas ruins pelo bem dos seus filhos. É parte da dificuldade de ser mãe ou pai. Tentamos fazer o melhor – e às vezes, estamos errados.

P: Por que (a história é ambientada no) Rio de Janeiro dos anos 50? Foi a aura mítica? Mais fácil de encontrar referências fotográficas? Sua mãe é brasileira. Ela era uma jovem no Rio dos anos 50 como Maria?

JC CAMUS: Sim, minha mãe e minha avó tinham mais ou menos essas idades (dos personagens) nos anos 50, quando moravam em Copacabana. Essa é a única razão do período escolhido. Eu dei à ele (Olivier Tallec) algumas fotos da minha família daquela época e ele buscou ainda outras fotos e foi ao Rio também. Também mostrei a ele o maravilhoso filme Rio, 40 Graus (1955). Negrinha é inspirado na história da minha mãe e avó, mas toda a parte do Toquinho e da favela é ficção. Minha mãe nunca foi à favela. Mas minha avó ficava muito orgulhosa quando pensavam que ela era babá da minha mãe, até que ela se tornasse adulta!

P: Negrinha aborda com rara sensibilidade temas cruciais do Brasil, como raça e miscigenação. Aqui, o racismo nunca foi aberto, como na África do Sul ou EUA, e o senhor se mostrou muito a par de como as coisas se dão por aqui. Foi sua mãe quem te contou sobre isso?

JC CAMUS: Minha mãe nunca falava disso, mas estou a par disso já há muito tempo. Nasci e vivo na França, mas me sinto brasileiro também. Estou tentando entender a miscigenação brasileira. Li há alguns anos o livro do Gilberto Freyre, Maîtres et esclaves. Acho que é Casa Grande & Senzala em português. Estou sempre pesquisando e tentando entender minhas raízes. O livro é parte disso. Já estive no Brasil de férias, mas nunca morei por aí. Quem sabe um dia? Mas já estive em Salvador por dez dias, no Carnaval. Adorei! Meu pai (Marcel Camus) era diretor (de cinema). Ele era branco, mas fez um filme, Orfeu Negro, só com atores negros. Ele adorava o povo e a cultura negras. Sempre dizia para mim e meu irmão: ‘negro é lindo, cabelo pixaim também‘. Ele dizia que devemos ter orgulho de nossa parte negra.

P: Você e Olivier estão agora trabalhando numa continuação para Negrinha?
JC CAMUS: Sim, estamos trabalhando em Negrinha 2. Se der tudo certo, vai para as livrarias francesas em setembro ou outubro de 2010. Se não mudarmos nada na história também, Maria voltará à favela e ainda fará uma viagem à Minas Gerais. Mais não conto, para não estragar a surpresa!

Terça-feira, Novembro 10, 2009

FOI O CHÁ, MENINO, FOI O CHÁ



4ª seletiva do Desafio das Bandas entupiu Boomerangue de gente em noite que deu Eddie e Chá de Abu nas cabeças

Casa cheia e um público bem animado marcaram a quarta etapa do concurso Desafio das Bandas na Boomerangue, neste último domingo. Os pernambucanos da banda Eddie, visivelmente felizes com a recepção calorosa da plateia, fecharam a noite – que teve a Chá de Abu como vencedora da seletiva.

As outras duas concorrentes foram as bandas Outros Três e Truanescos. Pelo regulamento, cada banda tem direito a apresentar quatro músicas no prazo de 15 minutos.

Na noite de domingo, as três bandas optaram pela estratégia de tocar três canções autorais, mais um cover.

Marcada para as 17 horas, a seletiva só começou por volta das 18h30, com a Outros Três. Ainda verdes, mas esforçados, o power trio formado por Thiago Lucas (baixo e vocal), Danilo Arcodaci (guitarra) e Marcel Lima (bateria) demonstrou indecisão entre ser uma banda de rock ou de reggae, com mudanças bruscas – e pouco convincentes – de andamentos.

Apesar do guitarrista promissor, ficou clara a pouca habilidade do jovem trio em formatar suas canções de forma coesa. Como cover, optaram por uma versão bluesy para a manjadíssima Garçom, de Reginaldo Rossi. Terminaram em terceiro lugar.

Na sequência veio a Truanescos. Com um pouco mais de tempo de estrada e visível desenvoltura em se relacionar com a plateia, demonstraram ainda um carisma relaxado sobre o palco, algo difícil de se encontrar em bandas novas.

Também nas músicas próprias os Truanescos demonstraram uma clara habilidade em construir canções bem acabadas, “com início, meio e fim“, como destacaram os jurados do noite Rogério Big Brother (produtor), Tiago Trad (baterista da Cascadura) e Osvaldo Braminha Silveira (da MTV local) em sua avaliação final. Como cover, surpreenderam com uma boa versão samba rock para Detalhes, de Roberto Carlos. Mereciam melhor sorte do que o 2º lugar.

Os últimos foram os primeiros

A terceira concorrente foi a Chá de Abu. E como diz o velho chavão de que “os últimos serão os primeiros“, acabaram vencendo a seletiva. Certamente contribuiu para impressionar o júri o bom número de fãs / amigos participativos que conseguiram arrastar para a beira do palco.

Ensaiadinhos, banda e plateia deram um belo espetáculo em uma das canções. Anunciada como sendo “sobre o Carnaval“, a música foi crescendo, e, em dado momento, os adeptos do grupo na plateia proporcionaram uma verdadeira batalha de confetes e serpentinas.

Visivelmente influenciados por Los Hermanos (até o nome da banda saiu de uma canção de Rodrigo Amarante), mandaram um cover ortodoxo, sem reinvenção, para Cara Estranho.

Original Olinda Style

Pouco tempo depois, a atração principal da noite, a banda Eddie trouxe para o palco da Boomerangue seu som Original Olinda Style e o alto astral que caracterizam suas apresentações.

Mesmo com público cativo, fizeram bonito numa apresentação animada, suada e cheia de hits, como Quando a Maré Encher, Bairro Novo Casa Caiada, Carnaval no Inferno, Estou Cansado Dessa Merda e I Wanna Be Sedated (cover dos Ramones).

Domingo que vem o Desafio das Bandas continua, com Flauer, Autoreverse e Incrédula na disputa. Márcio Mello e a banda Lou encerrarão a noite.

MAIS INFORMAÇÕES, FOTOS ETC: http://desafiodasbandas.atarde.com.br/

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

3º EDIÇÃO DO NOVEMBRO - MÊS DA MÚSICA TRAZ SHOWS INÉDITOS



Pelo terceiro ano consecutivo, o mês de novembro será o período de ouvir novos sons, conhecer novos artistas e se inteirar de novas formas de trabalhar a música – fora dos esquemões viciados que regem a indústria do jabá e empurra o que há de pior goela abaixo do público. É o projeto Novembro - Música em Todos os Ouvidos, que começa hoje.

Realizada pela Diretoria de Música da Fundação Cultural do Estado (Funceb), com o apoio do Pelourinho Cultural, o projeto conta com duas frentes de atividades: a maior e mais frequentada, certamente, serão os shows de grupos e artistas de destaque no cenário nacional nas Praças Pedro Archanjo e Teresa Batista, no Pelourinho.

A segunda frente é o III Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, com palestras e oficinas de produtores, músicos e organizadores de coletivos artísticos de Minas Gerais e Mato Grosso. Haverá ainda mesas-redondas com representantes do Ministério da Cultura (Minc), Secretaria de Cultura (Secult), professores universitários e outros ativistas e pesquisadores.

Todas essas atividades do Fórum se darão nas dependências do Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba) e terão entrada gratuita. Para participar dos laboratórios criativos Fórum da Música de Minas e Espaço Cubo & Instituto Fora do Eixo (MS), os artistas interessados devem enviar um currículo para o email musica.funceb@gmail. com. Já as mesas-redondas prescindem de inscrição. É chegar e assistir.

Cultura do ingresso

Para os shows, contudo, serão cobrados ingressos de R$ 10 e R$ 5 (meia). “Queremos incentivar a questão da cultura do ingresso, até por que é um preço bem acessível“, explica o diretor de Música da Funceb, Gilberto Monte.

“É importante não entrarmos numa lógica perversa de que, se é do governo, tudo é de graça. É necessário que as pessoas valorizem o ingresso. Se você gosta do seu artista, é bom pagar para vê-lo. É uma relação de troca“, reflete Gilberto.

Sobre a série de apresentações programadas para o Pelô, o diretor de música está satisfeito: “Inclusive, ampliamos o número de shows. Esse ano serão cinco datas (ano passado foram quatro), continuando com esse perfil de tentar trazer o máximo possível de atrações inéditas. Esse ano, as únicas atrações que já vieram à Salvador foram (a cantora) Maryana Aydar e (a banda) Maquinado, do Lúcio Maia (Nação Zumbi)“.

Outras atrações de peso são a cantora Maria Gadú, a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, a banda Macaco Bong e o coletivo Instituto.

NOITES TEMÁTICAS

A agenda de shows no Pelourinho será regida por noites temáticas, começando hoje, com a Noite Black, apresentando o cantor local Dão e a banda-coletivo Instituto.

“O Instituto vem com B Negão e outros nomes importantes, apresentando o show Racional, baseado no clássico álbum do Tim Maia“, avisa Gilberto Monte. “Já Dão é um ótimo cantor de black music (no sentido setentista da coisa), algo que, por incrível que pareça, não temos muito em Salvador“, admira-se. Dão faz no show o repertório do seu primeiro álbum, Para Embelezar a Noite.

Já amanhã o público poderá conferir a primeira Noite das Cantoras (de uma série de duas), sempre com duas atrações de fora, mais uma anfitriã baiana.

Cantoras de lá e de cá

“Teremos duas noites de cantoras por que no ano passado, durante a seleção das Segundas Musicais (série de shows na Sala do Coro do TCA), tivemos um número grande de cantoras inscritas. Tá rolando uma safra interessante, daí resolvemos sincronizar os novos nomes que estão surgindo no Brasil com as daqui“, detalha.

A primeira noite feminina conta com a paulista Tiê, a mineira Marina Machado e a local Manuela Rodrigues. Esta última embarca para São Paulo em breve, onde negociará o lançamento do seu segundo CD. “Tem um selo que está me namorando, mas não há nada certo ainda“, conta a moça. “A inciativa da Funceb é muito boa, você não precisa ceder a nada. É onde a gente está respirando“, reflete.

Já Tiê tem chamado a atenção pelo estilo intimista, inclusive estrelando uma série de vinhetas assinadas por ela mesma, na MTV Brasil.

Instrumental-Indie

A terceira etapa do Novembro - Música em Todos os Ouvidos é a chamada Noite Instrumental-Indie, e levará para o palco, no dia 11 (quarta-feira), os locais Retrofoguetes, a mato-grossense Macaco Bong e Cooperatronix, um projeto que une em uma só apresentação as bandas Maquinado (projeto do guitarrista da Nação Zumbi Lúcio Maia) e Guizado (do trumpetista carioca Gui Mendonça).

Nesse dia, a atração mais esperada deverá ser a banda instrumental do Mato Grosso, cujo CD Artista Igual Pedreiro (2008) foi considerado o álbum do ano pela revista Rolling Stone.

No dia 13 acontece a segunda Noite das Cantoras, com a paulista Mariana Aydar, a carioca Maria Gadú e a baiana Márcia Castro. Um trio que, além da letra “M“, compartilha a grande atenção que vêm recebendo da mídia e do público nos últimos meses, incluindo música em trilha-sonora de novela da Globo (Gadú) e indicações ao Prêmio Tim de Música (Castro).

Noite das Orquestras



A quinta e última etapa do projeto chama a atenção para o fenômeno de revalorização das chamadas big bands: a Noite das Orquestras, apresentando a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana(São Paulo), Ska Maria Pastora (Pernambuco) e Orkestra Rumpilezz.

“Essa Noite acontece no Dia da Consciência Negra (20), privilegiando os ritmos negros. Teremos duas orquestras de ska mais a Rumpillez, cujo som é baseados nos toques dos terreiros“, comenta Gilberto. “Tem crescido bastante nos últimos anos essa tendência de retomada de grandes formações“, observa.

Sensação independente, a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana tem gerado bastante burburinho com sua proposta de tocar, no ritmo do ska e do reggae primordial, clássicos brasileiros como Águas de Março (Tom Jobim), Ticotico no Fubá (Zequinha de Abreu), Carinhoso (Pixinguinha) e até mesmo O Guarani (Carlos Gomes).

Idealizada pelo guitarrista e produtor Sérgio Soffiatti e pelo trompetista Felippe Pipeta, a OBMJ surgiu quando a dupla descobriu que já haviam orquestras no Japão e na Europa com essa proposta. “Aí achamos uma vergonha e resolvemos fazer a nossa“, conta Sérgio.

“A receptividade tem sido incrível. Semana passada tocamos no Circo Voador, casa lotada, povo enlouquecido“, conta. O aguardado 1º CD sai no início de 2010, com um repertório ampliado.

FÓRUM É EVENTO PARALELO

Paralelo à série de apresentações no Pelourinho, o projeto Novembro - Mês da Música, abarca, no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, o III Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, com dois laboratórios criativos e duas mesas-redondas abertas ao público via inscrição por email (para os laboratórios).

Esses últimos trarão para Salvador as experiências realizadas pelos coletivos Fórum da Música de Minas e dos mato-grossenses Espaço Cubo & Instituto Fora do Eixo.

“A ideia aqui é se aprofundar. No primeiro dia eles apresentam suas atividades e linhas de ação nos seus respectivos estados. No outro, o pessoal daqui formula suas perguntas e troca ideias e no terceiro, a gente já parte para um debate sobre como isso poderia ser feito na Bahia“, explica Gilberto Monte.

“Até para o pessoal de lá entender as expectativas e dificuldades daqui. Por isso é importante ter esses dias: para que o pessoal se conheça“, considera.

Espaço Cubo / Fora do Eixo

Empresário da banda Macaco Bong e um dos idealizadores do Espaço Cubo, Pablo Capilé é um dos principais agitadores do circuito independente nacional, hoje. Em Salvador, ele vai ensinar aos ativistas musicais a “como se conectar em rede e mapear a cadeia produtiva da música local no sentido de organizar coletivos e associações para trabalhar em conjunto“, explica o próprio.

Disseminado Brasil afora, os coletivos associados Espaço Cubo / Instituto Fora do Eixo hoje tem representantes nas cinco regiões do País. “Então vamos levar um representante de cada região no sentido de exemplificar como cada um trabalha, de acordo com as dificuldades de cada lugar“, acrescenta Pablo.

Hoje os coletivos trabalham com uma cadeia de produção que começa nas bandas associdas, passando pelos festivais da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), e casas noturnas.

PROGRAMAÇÃO

Shows

06/11/2009: Noite da Black Music. Com Instituto (SP) e Dão. Praça Pedro Archanjo, 20h.

07/11/2009: Noite das Cantoras 1. Com Tiê (SP), Marina Machado (MG) e Manuela Rodrigues. Largo Teresa Batista, 20 horas.

11/11/2009: Noite Instrumental-Indie. Com Macaco Bong (MT), Cooperatronix (Maquinado + Guizado) e Retrofoguetes. Praça Pedro Archanjo, 20h.

13/11/2009: Noite das Cantoras 2. Com Maria Gadú (RJ), Mariana Aydar (SP) e Márcia Castro. Praça Pedro Archanjo, 20 horas.

20/11/2009: Noite das Orquestras. Com Orquestra Brasileira de Música Jamaicana (SP), Ska Maria Pastora (PE) e Orkestra Rumpilezz. Praça Pedro Archanjo, 20 horas.

Ingressos: R$ 10 e R$ 5, a partir das 16 horas, somente nos dias e locais dos shows.

III FÓRUM DE MÚSICA, MERCADO E TECNOLOGIA – Programação

DIA 10-11 (TERÇA): ABERTURA
LOCAL: PÁTIO DO ICBA
HORÁRIO: 20H

DIA 11-11 (QUARTA): Encontro do Fórum Nordeste de Gestores Públicos da Música
Fechado ao público

DIA 12-11 (QUINTA): Laboratório: Fórum da Música de Minas
FACILITADORES: Maurílio “Kuru” Lima, Makely Ka e Vitor Santana
LOCAL: Sala 5 – ICBA
HORÁRIO: 9H-12H (manhã)

DIA 12-11 (QUINTA): Laboratório: Espaço Cubo e Instituto Fora do Eixo
FACILITADORES: Pablo Capilé, Talles Lopes, Otto Ramos e Gabriel Cardoso
LOCAL: Sala 5 – ICBA
HORÁRIO: 14H-17H (tarde)

DIA 13-11 (SEXTA): Laboratório: Fórum da Música de Minas
FACILITADORES: Maurílio “Kuru” Lima, Makely Ka e Vitor Santana
LOCAL: Sala 5 – ICBA
HORÁRIO: 9H-12H (manhã)

DIA 13-11 (SEXTA): Laboratório: Espaço Cubo e Instituto Fora do Eixo
FACILITADORES: Pablo Capilé, Talles Lopes, Otto Ramos e Gabriel Cardoso
LOCAL: Sala 5 – ICBA
HORÁRIO: 14H-17H (tarde)

DIA 14-11 (SÁBADO): Laboratório: Fórum da Música de Minas
FACILITADORES: Maurílio “Kuru” Lima, Makely Ka eVitor Santana
LOCAL: Sala Nobre – ICBA
HORÁRIO: 9H-12H (manhã)

DIA 14-11 (SÁBADO): Mesa 1: Indústrias Culturais e a Economia da Música
FACILITADORES: Representantes do MINC, SECULT-BA e Luiz Carlos Prestes (a confirmar)
LOCAL: Teatro do ICBA – ICBA
HORÁRIO: 10H-12H (manhã)

DIA 14-11 (SÁBADO): Laboratório: Espaço Cubo e Instituto Fora do Eixo
FACILITADORES: Pablo Capilé, Talles Lopes, Otto Ramos e Gabriel Cardoso
LOCAL: Sala 5 – ICBA
HORÁRIO: 14H-17H (tarde)

DIA 14-11 (SÁBADO): Mesa 2: Redes: Música e Ativismo
FACILITADORES: Jeder Janotti, Cláudio Manoel e H.D.Mabuse
LOCAL: Teatro do ICBA – ICBA
HORÁRIO: 15H-17H (tarde)

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

MICRO-RESENHAS ENQUANTO NÃO APARECE ALGUM ASSUNTO MAIS PALPITANTE...

O Leitor Apaixonado / Ruy Castro
Mestre e exemplo a seguir para toda uma geração de jornalistas culturais e biógrafos, Ruy Castro tem a habilidade mágica de transparecer uma profunda intimidade com todos os assuntos abordados em seus textos. Em O leitor apaixonado - Prazeres à luz do abajur, então, o homem está totalmente em casa: trata-se de uma coletânea dos seus melhores textos acerca de livros e seus autores. Há também textos sobre os jornalistas que o inspiraram ao longo de sua carreira, como Paulo Francis e Carlos Heitor Cony. O de Francis, divido em duas partes, especialmente, é uma delícia e ajuda o leitor a descobrir o homem por trás daqueles óculos de aros grossos e voz empostada. Ruy é o cara.Companhia das Letras / 352 p. / R$ 49,50 / www.companhiadasletras.com.br








Amabile / Kátia Dotto
A cantora e guitarrista carioca Kátia Dotto (ex-Leela, ex-Penélope) chega ao seu primeiro álbum solo com Amabile. De sonoridade suave – muito de acordo com sua voz – o CD surpreende mais pela bem azeitada produção, a cargo da baixista Érika Nande, do que pelas composições em si. Elaborado, o disco vai muito além do pop comum, acomodando violas, bandoneon, metais, órgãos Hammond e Fender Rhodes com notável habilidade. Ainda assim, é um disco de canções simples, que se ouve com facilidade. Independente / R$ 15


Viagem ao fim da noite / Louis Ferdinand Céline
Um dos autores mais brilhantes e viscerais da literatura francesa, Céline sujou seu nome ao distribuir panfletos pregando o extermínio de judeus em plena França ocupada. Moralmente ambíguo como seus personagens em Viagem ao fim da noite, uma de suas obras-primas, deve ser lido com distanciamento e a consciência da sua desabrida falta de caráter.Companhia das Letras / 536 p. / R$ 29,50 / www.companhiadasletras.com.br




Whiteout - Ponto de fusão / Greg Rucka e Steve Lieber
Continuação de Whiteout, ótima trama policial ambientada na Antártida, Ponto de Fusão traz a agente Carrie Stetko de volta ao deserto gelado, envolvida em uma intrincada trama envolvendo ogivas nucleares russas. Não tem mais aquele sabor de novidade do 1º álbum, mas a personagem mantém o carisma e Steve Lieber continua retratando a brancura polar com rara beleza. Noir em negativo. Vale lembrar que o filme baseado no primeiro álbum Terror na Antártida, entrou em cartaz hoje mesmo nos cinemas de Salvador. Foi detonado pela crítica, mas arrisco dizer que vale uma ida ao cinema...Devir / 113 p. / R$ 21,50 / www.devir.com.br








Talvez eu não tenha vivido em vão... / Vários autores

“Eis a morte, devemos tirar-lhe o chapéu“, disse o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de Inocência, pouco antes de morrer. Esta e muitas outras “famosas últimas palavras“ de artistas, estadistas, filósofos e até mesmo genocidas como Adolf Hitler e Benito Musssolini (“Atirem em meu peito“) vêm acompanhadas de dados biográficos e pequenos resumos neste curioso livro. Landmark / 240 p. / R$ 34 / www.arquetipodg.com.br











Glaucio Christelo / Piano Rock
Nos anos 70, o americano Richard Clayderman ficou famoso ao traduzir em versões simplificadas para piano standards da música erudita e popular. Ficou famoso como o músico de elevador mais rico do mundo. Agora, em plena era digital, o carioca Glaucio Christelo lança uma obra parecida, só que com standards do rock e música pop. Sua abordagem sisuda e pouco ousada para clássicos como Smells Like Teen Spirit, Beat It e Creep só reforçam a comparação. R$ 24,90 / Coqueiro Verde






Grooveria / Avenida Brasil

Especializado em samba rock, a banda Grooveria ficou célebre em São Paulo por promover uma das melhores opções da concorrida night paulistana. Residente no Na Mata Café por nada menos que sete anos, o grupo lança agora o CD / DVD com o show que o tornou famoso, gravado no mesmo local. Formada por competentes músicos profissionais e demonstrando grande entrosamento, traz um repertório eclético, que vai de Adoniran a Prince, passando por Edu Lobo e Noel Rosa. Universal / R$ 24,90 (CD)








Serrote nº 2 / vários autores
A revista literária Serrote, publicada pelo Instituto Moreira Salles chega a sua segunda edição com uma excelente seleção de textos abordando os mais variados assuntos. Destaque para o a saudação do crítico e escritor James Agee aos heróis do cinema mudo (um ensaio clássico), John Updike declarando sua paixão pelos quadrinhos e a carta aberta de Groucho Marx, representando os Irmãos Marx aos Warner Brothers. Muita classe. Que venha logo a Serrote 3!Instituto Moreira Salles / 224 p. / R$ 29,90 / www.ims.com.br













A Abadia de Northanger / Jane Austen
Uma das mais importantes autoras da língua inglesa, Jane Austen (1775-1817) ficou famosa por seus romances de críticas de costumes, como Razão & sensibilidade e Orgulho & preconceito. Em A Abadia de Northanger, aqui apresentada em edição bilíngue, Austen mantém a crítica afiada, mas diminui o tom em seu romance mais juvenil, acompanhando uma jovem fascinada pelo local do título. Landmark / 288 p. / R$ 41 / www.arquetipodg.com.br

Terça-feira, Outubro 27, 2009

GABRIEL BÁ EM DOSE DUPLA

Umbrella Academy e Pixu, dos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon em parceria com autores estrangeiros, chegam ao mercado

Como dizia um antigo apresentador de televisão, o céu é o limite para os irmãos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon. Em questão de dez anos, os rapazes paulistas saltaram dos fanzines artesanais vendidos de mão em mão para a posição de premiados astros internacionais.

Agora, duas de suas obras mais recentes, publicadas primeiro nos Estados Unidos, chegam ao Brasil, via editora Devir: Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse e Pixu.
A primeira é o trabalho de estreia de Gabriel Bá em um projeto marcadamente mainstream de super-heróis, terreno ainda pouco explorado na produção de ambos os irmãos.

Premiações

Escrita por Gerard Way, mais conhecido como o vocalista da banda de rock My Chemical Romance, Umbrella Academy saiu nos EUA pela editora Dark Horse, uma das maiores do mercado americano e já garantiu a Bá dois prêmios Harvey consecutivos de Melhor Desenhista, em 2008 e de novo, em 2009.

O segundo trabalho é Pixu (também pela Devir), uma HQ de terror psicológico e claustrofóbico assinada a oito mãos: Bá, Moon, a italiana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos.

Trata-se do segundo trabalho da equipe multinacional. O primeiro, uma coletânea intitulada 5 – que ainda contava com o reforço de outro brasileiro, Rafael Grampá (da impressionante Mesmo Delivery) –, faturou o prêmio de Melhor Antologia no Prêmio Eisner – tão ou mais prestigioso quanto o Harvey.

Postura sóbria

Apesar de todos os prêmios, convites, possibilidades e adulação, é impressionante a serenidade e a seriedade da postura dos irmãos. “O que eu quero fazer na minha vida é isso (quadrinhos). E é isso que eu vou continuar fazendo“, responde um incisivo Gabriel Bá, quando perguntado sobre o efeito na cabeça dele quanto a tudo o que aconteceu nos últimos anos.

Atualmente, ele e o irmão estão desenvolvendo juntos seu primeiro trabalho para o selo Vertigo (DC Comics): Daytripper, uma minissérie em 10 edições, ambientada no Brasil. “Poder escrever uma história nossa é uma satisfação, não importa onde ela se passe. Não é uma coisa ufanista. Toda história que eu fizer vai ter o Brasil“, demarca.

Da mesma forma, Bá mantém o tom incisivo quando responde sobre o trabalho com Gerard Way: “Eles (da Dark Horse) me mandaram uma sinopse e eu gostei da proposta. Peguei o trabalho por isso, não por que o cara canta numa banda de rock famosa. Não é esse tipo de coisa que norteia minhas decisões“.

Minissérie em 6 edições, Umbrella teve uma continuação, Dallas, já anunciada pela Devir, mas sem previsão de publicação no Brasil, por enquanto.

Umbrella surpreende; Pixu decepciona um pouco no final

Na apresentação de Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse, um entusiasmado Grant Morrison saúda a série de Way e Bá como “um dos melhores gibis desta década“. O escocês, autor de obras como Os Invisíveis e Homem Animal, sabe do que fala.


Não que UA seja um primor de originalidade. Não é. Mas traz aquele sabor exótico encontrado nas melhores HQs do próprio Morrison, nas quais qualquer coisa pode acontecer – incluindo uma Torre Eiffel revoltada e uma musicista capaz de massacrar multidões com acordes no seu violino. Uma leitura divertida.

Já em Pixu, o quarteto responsável tem sucesso em criar o clima de terror, mas falha no final, que pareceu um tanto brusco.

Umbrella Academy/ Gerard Way, Gabriel Bá e Dave Stewart / 192 p. / R$ 34

Pixu / Gabriel Bá, Becky Cloonan, Vasilis Lolos e Fábio Moon / 128 p. / R$ 18,50 / Devir

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Big Bands agita Pelô nesse fim de semana

Com a crise, 2009 não foi fácil para festivais independentes. Mas, como na Bahia o rock não conta mesmo com a iniciativa privada, festival acontece graças a edital

2009 tem sido um ano de vacas magras para o rock independente brasileiro – em que pese o fato deste segmento, na verdade, nunca ter tido um período de fartura propriamente dita.

Porém, como “vaso ruim“ não quebra mesmo, Salvador terá – pelo menos – um bom festival este ano: a 2ª edição do Big Bands, que acontece neste fim de semana, no Pelourinho.

Idealizado pelo produtor Rogério Big Brother Brito, com quase 20 anos de atividades junto ao rock local, e organizado com o auxílio de um dedicado grupo de parceiros, o Big Bands dá continuidade não apenas ao trabalho de Big (como é conhecido), mas também não deixa morrer a ideia de um festival que dê conta de alimentar o cenário local – incluindo aí um público carente de opções – com atrações relevantes do cenário indie nacional, como o gaúcho Frank Jorge, os goianos da Black Drawing Chalks e os pernambucanos da Julia Says.

Além de evidenciar alguns dos nomes mais significativos da esfera roqueira daqui mesmo, como Nancy Viegas, Estrada Perdida e Demoiselle, entre outros .A grade ainda tem o acréscimo de três mesas redondas reunindo convidados importantes – locais e de fora – para discutir os assuntos que movem a produção e divulgação da música independente em todo o Brasil.

O pior ano dos festivais

Claro, ninguém faz isso sem patrocínio – públicos e / ou privados. No caso do Big Bands, o apoio foi público mesmo. (Aliás, mais notório do que o trabalho de Big, só mesmo o gélido desprezo do setor privado em relação ao rock local – não raro, tratado a pontapés pelo empresariado soteropolitano, mal acostumado com os números astronômicos proporcionados pela indústria carnavalesca).

“O Big Bands foi viabilizado por que ganhamos em 2008 o edital Tô No Pelô, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb)“, conta o organizador.

”E o apoio vem dos parceiros de sempre: MTV Salvador, Boomerangue, Se Ligue etc. Graças à Jah, tá tudo caminhando bem, a divulgação já tá indo pra rua... Tudo foi feito com bastante antecedência, então agora nem tá dando tanto trabalho. Agora estamos mais é na expectativa mesmo”, continua, tranquilo.

Claro, nem tudo são flores. 2009, como já se disse mais acima, tem sido um ano especialmente difícil para o setor independente, que, como qualquer outro, também sofreu a rebarba da crise mundial que se abateu sobre a economia entre o fim de 2008 e o 1º semestre deste ano.

Associado à ABRAFIN (Associação Brasileira dos Festivais Independentes), Big conhece por dentro os meandros da política que move (ou paralisa) a realização desses eventos.

”Esse foi o pior ano pros festivais”, vaticina. ”O Abril Pro Rock, por exemplo, diminuiu um dia, até por que a Petrobras retirou o patrocínio, e pelo Brasil afora, muita gente fez festival capenga esse ano só pra cumprir tabela – para não deixar de comparecer e demarcar território, na esperança de que a coisa melhore em 2010”, observa.

Boas expectativas para 2010

Mesmo com todas as dificuldades, Big vê espaço para o crescimento não só do rock local, mas também de festivais como o seu e o outro que ele também ajuda a organizar, o Boom Bahia – aquele que, no ano passado, trouxe de Seattle a lenda grunge Mudhoney, lotando a Praça Pedro Archanjo, no Pelourinho.

”Claro que teremos mais uma edição do Big Bands em 2010, com certeza”, garante. ”E o Big Bands vai crescer, mas não substituir o Boom Bahia, que ainda tem chance de rolar em breve. Veja só: Goiânia, que é uma cidade bem menor que Salvador, tem quatro festivais. No Tocantins eles têm mais quatro bons festivais de médio porte. No Tocantins! É só raciocinar: lógico que Salvador cabe muito mais. Então temos mais é que que fazer o Boom Bahia também, em paralelo ao Big Bands”, reivindica.

Então, segue aqui uma informação importante às bandas candidatas aos próximos festivais Big Bands e Boom Bahia: ”Esse negocio de MySpace pra mim não cola. Eu gosto da coisa física. Se o CD não chegar na minha mão, dificilmente eu vou ouvir”, avisa.

O festival Big Bands começa nesta sexta, com uma festa na Boomerangue. No sábado e domingo, ele segue para sua base, na Praça Teresa Batista (Pelourinho), a partir das 15 horas. A entrada é gratuita, mas a produção incentiva a doação de um livro infanto-juvenil usado.

ENTREVISTA: FRANK JORGE

O rock gaúcho sempre foi um planeta à parte no cenário musical brasileiro. Desse mundo saíram diversas figuras exóticas que enriqueceram de forma inestimável o rock brasileiro, como um punk brega (Wander Wildner), um inexpugnável poeta hermético (Humberto Gessinger), um duende psicodélico alucinado (Júpiter Maçã) e o guardião da Jovem Guarda, Frank Jorge. Na ativa desde os anos 80, Frank integrou bandas essenciais do rock sulista, como Cascavelettes e Graforreia Xilarmônica. Em carreira solo há dez anos, virá à Bahia pela primeira vez na vida, divulgar seu novo CD, Volume 3. Em paralelo, coordena o curso Formação de Produtores e Músicos de Rock da Unisinos.

E aí, Frank? Vai ser o seu primeiro show por aqui, correto?

Frank Jorge: Cara, te juro que não é exagero: é um sonho meu conhecer a Bahia em função de sua importância histórica e tal. Em festival às vezes fica aquela coisa meio marrenta de participar de gigs e tal, mas eu tô numa outra idade. Eu quero conhecer outros locais, as vielas, dar voltas a pé. Sabe, antes mesmo de cursar Letras na PUC, eu já era fã do Gregório de Mattos Guerra. Eu recitava poemas dele nos shows dos Cascavelettes nos anos 80, fã total! Só não vou beijar o chão por que eu não sou o papa. (risos) Mas vai ser muito bom ir à Bahia nesse momento tão peculiar. Nasceu o filho da Ivete , tem a Vivendo do Ócio... (risos) Não, tô brincando! (Recompõe-se) Vamos com a banda completa: duas guitarras, baixo, bateria e teclado. Teremos músicas dos três CDs solo mais umas quatro da Graforreia Xilarmônica. Garanto que o show não deixará a desejar em crocâncias, harmonias e deboche!

E a palestra (Produção cultural e formação musical), como será?

FJ: Olha, por sorte, eu não vou estar sozinho, senão só ia falar besteira. (risos) Na verdade, vou tratar da trajetória musical, onde você aprende na paulada a lidar com gravadora, casa noturna, internet etc. Não que com o tempo, você adquira know how e vá ficar milionário (risos), mas dá pra ficar mais exigente quando a situação permite, avaliar quando as coisas possibilitam uma evolução. Tem locais que você toca por convicção, por que agrega a tua trajetória tocar lá. Basicamente isso, vou falar de tempo e trajetória.

E o curso de Produtores e Músicos de Rock, a quantas anda?

FJ: Tá rolando superbem! Formamos a primeira turma, com 21 alunos, em agosto último. E uma segunda turma, menor, se forma em janeiro... Independentemente de não ter ficado satisfeito com o título do curso – uma questão mercadológica –, ele trabalha com gerenciamento de carreira e formação musical. Apesar de ter o termo “rock“ no título, o cara que nos busca quer se preparar para o mercado, saber sobre áudio, direito autoral, produção.

Como está o rock gaúcho?

FJ: É difícil precisar. O rock aqui era mais Beatles e Stones. Passado esse tempo, tá muito disseminado as bandas que copiam Los Hermanos, Arctic Monkeys, Strokes. O pessoal fez uma leitura meio errada, copiando Franz Ferdinand para atingir tal público, isso é a maior roubada. Dá para fazer música pop com mais identidade. Também tem que dar um crédito, pois é um período de transição: muita ferramenta, muita rede social e pouco know how do que já existiu na música.


NUETAS

A importância da doação de livros

Assim como nos festivais Boom Bahia em 2007 e 2008, o Big Bands faz um apelo à rapaziada que vai comparecer para que tragam pelo menos um livro usado (de preferência, didático ou infanto-juvenil). Todos os livros arrecadados serão doados para o acervo da Biblioteca Zeca de Magalhães, do Centro de Referência Integral de Adolescentes (CRIA). “É muito importante que a galera traga o livro didático para doação. Não vai ter porteiro na entrada cobrando, ninguém vai ser barrado se não trouxer. Mas para a gente é como um ‘opcional obrigatório‘“, brinca Rogério Big Brother.

Nancyta & Radiola consolidam parceria

A cantora Nancy Viegas, um dos grandes talentos locais presentes no Big Bands, aproveita o show no festival para consolidar uma parceria que promete bastante, com a banda Radiola. “Fomos juntos para a Espanha há alguns meses, e foi muito legal. Nós nos identificamos muito e eles meio que traduzem tudo o que eu já passei, de sde a banda Crack!, passando pelos Grazzers, até a fase atual (do CD Mezzodelirante)“, conta. No show, Nancy & Radiola executam boa parte do repertório da cantora em suas diversas fases, além de músicas dos dois CDs da própria banda.

Baixe as músicas novas de Messias

O ex-brincando de deus Messias Guimarães Bandeira aproveita a semana em que estreia seu show solo no festival Big Bands para lançar mais duas músicas novas: Offbeat e Broadcast Your Escape. Ambas fazem parte do seu aguardado (e ambicioso) projeto escrever-me, envelhecer-me, esquecer-me. Trata-se de um álbum triplo, reunindo 32 canções, a ser lançado em CD, vinil e MP3, “nas próximas semanas“, segundo o próprio. Com produção de andré t., as faixas estão disponíveis no site www.reverbnation.com/messias, onde já há outras três, lançadas anteriormente.

AS BANDAS DO BIG BANDS

O Melda: Banda de um homem só, O Melda é o mineiro Claudão Pilha, guitarrista que toca acompanhado de programações e um “capacete percussivo“. (Sexta).

Demoiselle: rock setentista e acessível
Formada por dois guitarristas (Toni e The Flash) revelados na Cascadura, mais uma competente vocalista (Ivana), a Demoiselle tem no Led Zeppelin sua maior influência, sem deixar de ser acessível.

Pastel de Miolos: Veteranos do punk rock baiano, estão mais ativos do que nunca e lançaram CD recentemente (Sábado).

Nancy Viegas & Radiola: A inesperada parceria que está dando o que falar no rock local. Promete um show animado e arrojado. (Sáb.)

Tom Bloch: rock denso, eletrônico
O duo Tom Bloch, formado por Pedro Verissimo (vocais) e Iuri Freiberger (produtor e baterista), é outra boa atração do Big Bands de sábado, com seu rock indefinível, sóbrio e eletrônico.

Messias: o veterano do indie rock baiano estreia seu novo trabalho ao vivo.

Frank Jorge: o homem que vai largar a Jovem Guarda por todo o país faz seu primeireo show na capital baiana.

Irmãos da Bailarina aliam peso e poesia
Com um som denso, pesado, aparentado do stoner rock, a Irmãos da Bailarina se caracteriza também pelas letras poéticas do vocalista Théo Filho, de pegada MPB.

Julia Says: electro rock do Recife
Formado pelos músicos Pauliño Nunes (vocal, guitarra, violão e sintetizadores virtuais) e Anthony Diego (programações, bateria e percussão), a dupla de electro rock recifense Julia Says se apresenta no domingo na Praça Teresa Batista. Surgida em 2007, traz influências vanguardistas na forma livre como busca criar suas canções, sem se prender aos formatos prévios – sejam do rock ou da música eletrônica. Já se apresentaram em festivais importantes, como o Rec Beat, o Coquetel Molotov e de Inverno de Garanhuns. Vale a pena buscar na net o divertido vídeo de Mohamed Saksak.

Mortícia: Uma das revelações do ano passado, pratica o que eles mesmos chamam de MPB: Música Pesada e Barulhenta. Conta com o carismático Leonardo Leão (Os Mizeravão) nos vocais. (Domingo).

Yun-Fat: Talvez a banda mais vanguardista de todo o elenco do festival, misturam death metal com bossa nova(!). (Dom).

Black Drawing Chalks: Essa rapaziada de Goiânia é uma das revelações deste ano. Hard rock acelerado e setentista, mas em releitura atual, o que equivale dizer que lembram bandas como Forgotten Boys e Death From Above 1979. (Dom).

Estrada Perdida: Uma das bandas mais radicais de Salvador. Peso e poesia em sintonia, mas de uma forma totalmente diferente dos Irmãos da Bailarina, por exemplo. (Dom).

Mesas-redondas

Serão três, na sexta-feira. Inscrições: festivalbigbands@gmail.com.

Rede Música Bahia: organização de redes de trabalho Com Emmanuel Mirdad, Eric Taller, Jair Guimarães e Vince de Mira.

Produção cultural e formação musical: entrar e permanecer no mercado independente Com Messias Bandeira, Frank Jorge, Iuri Freiberger e Rex (Retrofoguetes).

Abertura e manutenção de casas noturnas Com Theo Filho, Cláudio Vieira Rocha e Rafael Bandeira.