terça-feira, abril 23, 2019

INDIE POP GAÚCHO INICIA TURNÊ PELO NE NA CAPITAL BAIANA

Quinta-feira: Tagua Tagua, do gaúcho Felipe Puperi, e a banda paraibana Glue Trip estreiam em Salvador no Bahnhof

Felipe Puperi AKA Tagua Tagua, foto Rafael Rocha
Rapaziada que gosta de novidade nos palcos locais tem destino certo na quinta-feira: o show que rola no Club Bahnhof com o gaúcho Tagua Tagua, a banda paraibana Glue Trip e a local Tangolo Mangos.

Tagua Tagua é o projeto solo do músico Felipe Puperi, um indie pop de tons experimentais e bem cosmopolita (mesmo cantado em português), ao gosto dos apreciadores de Beach House e afins.

Curiosamente, ele já passou pela Bahia  ano passado, tendo feito shows em Feira de Santana (no Fervura Feira Noise) e Vitória da Conquista (no Suíça Baiana), mas só agora chega a Salvador, primeira parada de uma turnê nordestina que ainda passa por Aracaju, Maceió, Recife e João Pessoa.

“Pra mim é muito incrível estar levando esse show pro Nordeste. O povo nordestino é maravilhoso, extremamente aberto a coisas novas, muito acolhedor e receptivo. Tenho ótimas lembranças da primeira vez e tenho certeza que dessa vez não será diferente, ainda mais tendo na rota várias cidades em que nunca estivemos”, derrete-se Felipe.

No palco, Felipe se apresenta acompanhado de três músicos: “O show é com a banda que está comigo desde o primeiro show do Tagua Tagua, ainda em 2017. São dois aracajuanos (Leo Mattos na bateria, percussão e programações e Rafael Findas no baixo) e um gaúcho (Jojô, na guitarra e sintetizadores)”, conta.

Escritores e produtores

A banda paraibana Glue Trip: 100 mil audições no Spotify. Foto Dani L.
No repertório, canções de seus dois trabalhos já lançados: Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018).

Pedaço Vivo foi gravado no Brasil, mas masterizado na gringa, pelo norte-americano Brian Lucey, com longa folha de serviços prestados para grandes nomes do rock e do pop.

"A masterização é a última fase do processo ao gravar um disco. É o toque final, o que equilibra a sonoridade do todo, ajuda a unir o trabalho e dá uma pressão no som. Também é importante para corrigir algumas frequências que estejam sobrando ou acrescentar algo que falte, como graves, médios e agudos. Estou acostumado a trabalhar com o Brian, ele é ótimo no que faz e tem um ouvido muito aguçado, dificilmente ele me manda uma manter e peço alteração, temos um gosto parecido", detalha Felipe.

Artista gaúcho e independente, Felipe / Tagua Tagua está feliz por iniciar uma turnê em, uma região distante da sua. Algo que pode ficar mais difícil nos próximos anos, com a economia e a política indo para o saco, como vemos. Ainda assim, ele não perde a esperança: "É uma tendência que as coisas fiquem mais difíceis pra cultura num geral nos próximos anos, mas pra artistas independentes sempre tem e sempre terá espaço, pois esses artistas estão acostumados a 'criar' esses espaços, a inventar as próprias oportunidades. E, mais do que nunca, é o momento de se movimentar pra fazer as coisas acontecerem, pra ocupar, pra se reinventar, criar festas, festivais independentes, mesmo sem saber onde isso vai chegar. Demanda existe, o público não sumiu, as pessoas seguem precisando de artistas novos, de novas ideias, de pessoas que as representem também".

Tagua Tagua, foto Rafael Rocha
Perguntado sobre suas influências, Felipe elenca escritores antes de outros músicos e bandas, o que não deixa de ser interessante: “Muitos artistas me inspiram e não  somente músicos. Gosto muito de filmes e livros, minhas composições muitas vezes nascem disso. A poesia sempre me ajuda a encontrar caminhos, gosto muito da Hilda Hilst. Me encanta também a romancista catalã Mercé Rodoreda”, conta.

De  som mesmo, ele cita uma gama de artistas black: do afrobeat de Tony Allen e Fela Kuti ao soul clássico de Marvin Gaye e Bill Withers, passando por Tim Maia e Cassiano.

Mas o que decifra mesmo seu som são seus gostos atuais: “Estou sempre atento a coisas novas também, mas daí minha busca é mais por sonoridade e produção. Atualmente, gosto muito dos produtores Danger Mouse (de álbuns como Rome, com Daniele Luppi, e Lux Prima, com a deusa indie Karen O), Gabriel Roth (selo Dap-Tone), Dan Auerbach (da banda The Black Keys) e Mark Ronson (Back in Black, de Amy Winehouse)”, conclui.

Tagua Tagua + Glue Trip e Tangolo Mangos / Quinta-feira, 19 horas / Club Bahnhof (antigo Idearium) / R$ 20 (Sympla) / R$ 30 na porta



NUETAS

Surrmenage sexta

O power trio Surrmenage (do ex-Dead Easy Arthur Caria) é a atração de sexta-feira no Bardos Bardos. 19 horas, pague quanto quiser. Sabadão é a vez de Tryxx Bomb e Malgrada, no mesmo esquema.

Mantra Sounds sex.

O Festival Mantra Sounds bota Van der Vous, Soft Porn, Orelha Seca, Favna e Kazenin Mafia no Buk Porão (Pelourinho), Sexta, 19 horas, R$ 15.

Rock Esmeril sábado

O mesmo Buk Porão abriga o show Poesia Rock Esmeril, com Modus Operandi, Jato Invisível e Organoclorados, com participação de Beatriz Biscarde. Sábado, 19 horas, R$ 10 + 1 kg de alimento.

Rock, Rua, domingo

As bandas Dom Sá e Jato Invisível fazem Rock na Rua. Domingo,  10 horas, na Av. Magalhães Neto, Pituba. Free.

sábado, abril 20, 2019

PÁSCOA CELESTIAL

Música Com Bach e Mozart, Orquestra Juvenil da Bahia e Coro Juvenil do NEOJIBA brindam o domingo em concerto regido por referência mundial do período barroco

Chiara Bianchini, foto Karol Azevedo
Um domingo de Páscoa verdadeiramente celestial, ao som de Bach e Mozart. Isso é o que espera quem comparecer amanhã, ao Concerto de Páscoa, com a Orquestra Juvenil da Bahia e o Coro Juvenil do NEOJIBA.

A ocasião ganha ainda mais brilho com os auxílios luxuosos da violinista e maestrina suíça  Chiara Banchini e do maestro Ricardo Castro (diretor geral e artístico do NEOJIBA), desta vez ao piano.

No programa, três peças de Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791) e uma de Johann Sebastian Bach (1685 - 1750): ChristLag in Todesbanden, Cantata BWV 4 (do último), Adágio e Fuga em dó menor, K. 546, Concerto para Piano e Orquestra em Mi Bemol maior, K. 271 (também conhecida como Jeunehomme) e Sinfonia 25 em sol menor, K. 183.

Esta última é uma das peças mais marcantes de Mozart, tendo sido bem explorada no clássico filme sobre sua vida, Amadeus (1984, de Milos Forman).

Com a batuta em punho, uma autoridade mundial  em música clássica, notadamente a barroca (séculos 17 e 18): a já citada Chiara Bianchini.

Praticamente sócia do NEOJIBA (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), Bianchini participa, amanhã, do seu terceiro concerto com os jovens músicos da instituição em Salvador.

Natural de Lugano (maior cidade da chamada Svizzera italiana, região da Suíça que fala italiano), ela tem vasta experiência tanto em concertos quanto em estúdio, tendo gravado registros aclamados por crítica e público, como o Concerti Grossi de Arcangelo Corelli (selo Harmonia Mundi, 1992) e o Stabat Mater, de Antonio Vivaldi (mesmo selo, 1995).

“No início dos anos 80, fiz um curso sobre as obras de Bach, ministrado pelo grande especialista (Nikolaus) Harnoncourt (1929-2016, maestro austríaco)”, conta Chiara.

“Entendi que a música antiga, barroca e clássica que tocávamos de maneira muito romântica, não deveria ter sido tocada assim e me apaixonei pela pesquisa histórica e filológica da interpretação com instrumentos antigos”, conta.



ASANBA

Rapaziada dos sopros (madeiras), foto Karol Azevedo
O envolvimento de Chiara com o NEOJIBA começou em Genebra, quando seu amigo, o renomado luthier André-Marc Huwiler, lhe contou sobre o projeto idealizado por Ricardo Castro.

“Eu tinha acabado de me aposentar e tinha mais tempo livre e vontade de ajudar um projeto como o NEOJIBA”, relata.

“Eu sabia que eles nunca tinham visto ou tocado com cordas barrocas e pensamos em trazer alguns (instrumentos) da Europa para começar o trabalho de construção na oficina de fabricação de violinos”, acrescenta.

Huwiler é tão apaixonado pelo NEOJIBA que fundou, lá  em Genebra, a ASANBA (Association Suisse des Amis de NEOJIBA, Associação Suíça dos Amigos do NEOJIBA), que “quer ajudar e convidar jovens brasileiros do NEOJIBA a virem treinar no Conservatório de Genebra e na Escola Suíça de Fabricação de Violinos”, conta.

No concerto de amanhã, Chiara dá prosseguimento ao seu trabalho com a Orquestra Juvenil, avançando para o período final da música barroca, com a entrada em cena de Mozart: “Mozart está na fronteira entre o barroco e o clássico, e é um grande inovador para o seu tempo e para sua busca por uma nova linguagem, que se estabelecerá no final do século XVIII”, observa a maestrina.

“Com Ricardo Castro, tivemos a ideia de planejar um concerto de piano de Mozart. Acho que Ricardo é um excepcional pianista e estou muito feliz e honrada por poder tocar com ele. Perto do concerto, eu propus uma magnífica sinfonia que Mozart escreveu em 1773, aos 17 anos! Uma alegre sinfonia de um jovem cheio de energia, que é adequada para a Páscoa”, acrescenta.

Por sugestão de Eduardo Torres, diretor musical do NEOJIBA, foi incluído também no programa a cantata BWV4, escrita por Bach para a Páscoa. “Para colocar Bach e Mozart em relação, a peça ideal é Adagio e Fuga, de Mozart. De fato, Mozart admirava muito a música de Bach e escreveu várias fugas usando um tema de Bach”, conta Chiara.

Priscila, a discípula

O maestro / pianista Ricardo Castro e a spalla Priscila, foto Karol Azevedo
Um outro destaque muito importante neste concerto amanhã estará à frente da orquestra: é a jovem spalla (primeiro violino)  Priscila Gabrielle Rodrigues.

Aluna de Chiara, ela foi admitida para um curso na área de música antiga em Basel, na Suíça, para onde embarca em breve.

“Conheci Priscilla aqui em Salvador e imediatamente senti seu interesse pela música barroca e por uma maneira diferente de realizá-la. Priscilla é uma boa violinista, corajosa, muito séria, e tenho certeza que ela merece estudar em uma grande e boa escola suíça, em Basileia, onde eu ensinei violino barroco por 20 anos”, elogia Chiara.

“Por isso, ajudei-a a apresentar-se no concurso de entrada, que é muito difícil – e ela foi admitida. Estou muito feliz e acho que quando ela voltar, poderá trazer todo seu conhecimento para jovens músicos brasileiros”, afirma.

Como autoridade em barroco, Chiara aprecia muito as igrejas soteropolitanas, construídas naquele período: “Claro! As igrejas do Pelourinho são magníficas e foram construídas no período renascentista e barroco. Certamente o colonialismo e a igreja trouxeram a cultura europeia para cá, mas também prejudicaram muito a cultura brasileira”.

“Ainda me sinto um pouco magoada quando penso que meus ancestrais europeus aproveitaram a riqueza sul- americana para construir seu império, despojando o povo”, conclui.

Concerto de Páscoa / Com a Orquestra Juvenil da Bahia e Coro Juvenil do NEOJIBA / Regência: Chiara Banchini / Piano: Ricardo Castro / Amanhã, 16 horas / Igreja Batista Sião (R. Forte de São Pedro, 68 - Campo Grande) / Entrada franca

quinta-feira, abril 18, 2019

MODELO DE VIDA

Momento relax do jovem Chico, foto Cynira Arruda
Memória Vida e obra de Chico Buarque são celebradas na fotobiografia Revela-te, Chico, um livrão de arte que dimensiona o tamanho do gênio

Artista, cantor, compositor, sambista, trovador, escritor, dramaturgo, ícone, ídolo, poeta,  “pão”, pai, filho, avô, esportista, subversivo, especialista da alma feminina e Julinho da Adelaide: Chico Buarque não é nem nunca foi um só. É muitos.

E no livro de arte  Revela-te, Chico, todos eles estão contemplados.

Organizado pelo designer e jornalista Augusto Lins Soares e com textos do  jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, o livrão de capa dura é, como o próprio Augusto define, “uma fotobiografia”.

Fruto de árdua e longa pesquisa em arquivos diversos (de pessoas físicas e jurídicas), Revela-te, Chico reúne 210 imagens, muitas delas raras e inéditas, além de mais 22 obras de arte, sendo 21 delas criadas especialmente para o livro.

A única que já estava pronta é o retrato que o pintor Di Cavalcanti (1897-1976) fez de Chico em 1972 – e que desde então repousa na parede de sua casa, longe dos olhos do público até ser publicada.

Que galera é essa, meu rei? Foto David Drew Zingg
“A ideia foi fazer um livro de arte, contando a história dele por meio da fotografia, já que já existem  varias biografias dele, mas nenhuma com a narrativa visual como condutor”, conta Augusto, por telefone.

“Como busquei principalmente sobras de ensaios e reportagens, tinha muito material disponível – mesmo na época do filme (fotográfico). Em  um cálculo aproximado, em alguns acervos, como no do Jornal do Brasil, cheguei a ver umas duas mil imagens”, afirma o autor.

Além do JB, Augusto fuçou outros acervos bem importantes, como Folha Press, institutos Moreira Salles, Antônio Carlos Jobim, Museu da Imagem e do Som (RJ), Editora Abril, Funarte e ainda de  alguns fotógrafos.

“Desse material todo que pesquisei, publicamos apenas um por cento. E nem teria como ser de outra forma”, observa.
 
E mesmo assim, teve acervo que ele sequer pôde pesquisar: “O acervo da Editora Bloch (das revistas Manchete, Amiga e Fatos & Fotos) está bloqueado por razões jurídicas. Na Manchete, a foto era muito importante, deve ter  muita coisa boa ali”, lamenta.

3 momentos, 3 critérios

No aconchego do apê / biblioteca em Paris, foto João Wainer
Diante de tanto material, era necessário estabelecer critérios claros para que uma foto merecesse ser publicada. Augusto estabeleceu três critérios básicos.

“Valor histórico: a foto que contextualiza o tempo em que foi feita. Qualidade estética: uma composição bonita, uma luz bonita, o registro de uma época. E por fim, memória afetiva: às vezes, a foto não é conhecida, não é aquela que foi divulgada, mas te remete a uma época”, detalha.

“Tudo isso foi importante. Montei uma linha do tempo a partir dos livros que contam a história dele e fui complementado com informações novas, que foram emergindo ao longo da pesquisa”, conta.

Um craque desde gruri, Acervo Inst. Antonio Carlos Jobim
Livro na mão, a primeira coisa que se percebe é que ele se divide em três partes: “São três momentos. Primeiro temos os retratos de Chico feitos por  grandes fotógrafos. Em seguida, a linha do tempo, que é o maior bloco. E fechando, as obras de  artistas, abrindo com Di Cavalcanti”, detalha.

“Isso dá uma contemporaneidade à obra. Não temos  nenhuma imagem fotográfica nova, produzida para o livro. Tudo estava disponível em arquivos. Então, de original mesmo, temos as obras dos artistas plásticos”, nota.

Ele conta que Chico não teve qualquer interferência no projeto, apenas liberou o uso de sua imagem: “Conheço o Mário Canivelo, assessor de imprensa do Chico. Falei com ele, ele consultou Chico, que achou interessante. Só disse que não ia participar. Foi tranquilo”

Viabilizado através da Lei Rouanet, o livro está à venda, mas também está sendo distribuído em escolas, bibliotecas e fundações culturais.

Um grande artista inspira outros grandes artistas


Além das fotos, Revela-te Chico é enriquecido com obras de artistas visuais brasileiros, como Di Cavalcanti

Como não poderia deixar de ser, um projeto como este, sobre, um dos nomes mais importantes de nossa cultura, só poderia mesmo contar com outros grandes nomes na sua seleção de imagens – fotográficas e artísticas.

Na parte fotográfica, como pode ser visto em uma pequena amostra na página anterior, reúne mais de 50 grandes fotógrafos, como Adhemar Veneziano, Adriana Pittigliani, Alécio de Andrade, Arlete Soares, Bob Wolfenson, Bispo, Bruno Veiga, Carlos Horcades, Cristiano Mascaro, Cristina Granato, Dadá Cardoso, Daryan Dornelles, David Drew Zingg, Fernando Seixas, João Farkas, João Wainer, Leo Aversa, Luiz Garrido, Madalena Schwartz, Marisa Alvarez Lima, Maureen Bisilliat, Murillo Meirelles, Paulo Garcez, Paulo Salomão e Ricardo Chaves.

Da mesma forma, o organizador se esforçou em selecionar artistas para criar retratos de Chico, a fim de oferecer um material absolutamente inédito à obra.

São 22 imagens. 21 uma delas foram criadas especialmente para Revela-te, Chico.

A única que já estava pronta é a de Di Cavalcanti, que abre a série.

Todas as outras foram encomendadas por Augusto.

“A (pintura) do Di é a única que não foi feita para o livro,  mas era inédita e do acervo dele mesmo. Ele liberou fotografar e está no livro”, conta.

“As outras todas eu pedi aos artistas e eles toparam meu desafio, que era fazer um retrato de Chico sem te-lo como modelo vivo. Alguns artistas recusaram. Todas as imagens foram feitas para o livro e depois cada artista ficou com sua obra”, acrescenta.

Cada artista, uma técnica

Além de Di Cavalcanti, que dispensa apresentações, alguns artistas presentes no livro são J.Borges, Paulo Bruscky, Regina Parra, Alex Flemming, Daniel Lannes, Nino Cais e Rodrigo Freitas, entre outros.

As técnicas são variadas. Há as clássicas pinturas à óleo (Di, Parra, Camila Soato, Marcelo Amorim, Bel Magalhães), acrílico (Lannes, Adriano Melhem, Gunga Guerra) e aquarela (Ingrid Bittar, Danielle Carcav).

J. Borges, mestre da xilogravura, o retratou jovem, na sua técnica consagrada.

E há trabalhos curiosos, como a instalação de Claudia Hersz, o bordado em linho de Bel Moura ou o prosaico e eficiente lápis de Ramonn Vieitez.

Revela-te, Chico / Augusto Lins Soares (org.) e Joaquim Ferreira dos Santos (textos) / Bem-Te-Vi / 240 p. / R$ 145

quarta-feira, abril 17, 2019

UMA CANTORA EM BUSCA DA PRÓPRIA VOZ

Apaixonada pesquisadora e belíssima cantora, Alissa Sanders e banda fazem show sábado, no Tamar

Alissa, fotos Thamires Mulatinho
Se tem alguém cuja opinião o colunista leva em alta consideração, este alguém é Ronnie Von. Há alguns anos, o Príncipe da Jovem Guarda recebeu em seu programa  de TV, o Todo Seu, a cantora norte-americana Alissa Sanders. O homem só faltou beijar os pés da moça, tamanha sua admiração pelo seu talento.

Residente em Salvador já há alguns anos, Alissa volta e meia faz shows em palcos amigáveis ao jazz vocal da cidade. E neste sábado, o feriadão em Praia do Forte vai ficar ainda melhor com seu show no Projeto Tamar.

No palco, ela e sua banda, formada por Márcio Pereira (guitarra), Giroux Wanziler (baixo) e Laurent Rivemales (bateria) apresentarão standards do jazz e da MPB.

Acontece que Alissa, felizmente, não é só uma cantora de velhos (ainda que maravilhosos e eternos)  standards. Ela é uma apaixonada pesquisadora dos caminhos que a música oriunda da diáspora africana faz pelo mundo, incluindo Brasil, Estados Unidos, Venezuela, Oriente Médio.

“Meu universo é jazz, apesar de eu não me considerar uma cantora de jazz tradicional.  Eu não escuto jazz o dia todo e nunca estudei de forma formal.  Eu canto jazz porque é algo que sinto no corpo, quando sai minha voz, sai soando como uma voz de jazz, com os ritmos e sotaques do jazz e é parte da minha história, minha herança”, afirma.

“Então no show  você vai ouvir standards como My Funny Valentine, Body and Soul, Social Call, All the Things You Are, etc.  De brasileiro, algumas coisas de bossa nova, porque é a forma de música brasileira que de certa forma mais facilmente ‘casa’ com o jazz”, conta.

"Porém, meus novos trabalhos e o show que estou desenvolvendo atualmente com músicos em São Paulo e Etiópia traz musicas populares de vários gêneros brasileiros e americanos, ingleses e até israelenses para o universo do jazz. As vezes esquecemos que os standards de jazz e bossa nova foram músicas populares dos tempos passados. Acho que o repertório de jazz pode e deve incluir musicas contemporâneas também. Em meu próximo show, Playlist, que estou produzindo com pianista e diretor musical Marcos Romera (em São Paulo) você vai ouvir músicas de Radiohead, Björk, Idan Raichel (de Israel) e outros. Música autoral está a vir também, mas isto é um processo um pouco mais lento para mim. Me considero uma intérprete mais do que uma compositora. Mas tenho muitas histórias para contar e só eu conheço elas. Aí vou ter que desenvolver a habilidade de fazer composições autorais. (Me) Vejo fazendo isto em parceria com outros músicos. Estou muito na onda da colaboração", detalha Alissa.

Mas vamos por partes. Olha só que bonito o relato de sua chegada à Salvador, há alguns atrás: “Sem duvida, foi a espiritualidade e uma chamada de meus ancestrais que me trouxe para Bahia.  Quando era adolescente, vi uma reportagem numa revista negra muito importante nos EUA, chamada Essence.  A reportagem mostrou a Festa de Boa Morte e falou da Irmandade (em Cachoeira).  Nesta época, não chegava muitas informações sobre outras culturas negras, a não ser as da África. Fiquei fascinada e pensei na hora que um dia iria conhecer este lugar com pessoas que parecia comigo”, conta.

“Dez anos depois eu estava na Venezuela, lembrei da reportagem e resolvi ir para a Bahia.  Peguei um voo de Caracas para Manaus e depois para Belém, e de Belém para Salvador de ônibus: 33 horas!  Quando cheguei em Salvador e desci na rodoviária, lembro do cheiro que meu nariz encontrou. Foi minha primeira vez em Salvador, mas o cheiro que encontrei foi familiar, conhecido. Não entendi porque.  Busquei na memória um imagem ou lembrança do cheiro. Na casa de alguém: uma tia, minha avó?  Mas não encontrei a memória nesta vida. Tenho certeza que o cheiro de Salvador despertou uma memória de vidas passadas - minhas ou do meus ancestrais.  Minha conexão com essa terra é forte”, afirma.

"O que mais me atrai na música baiana é na verdade a música tradicional: samba de roda, samba chula, as manifestações musicais do Recôncavo da Bahia. Como minha experiência com o cheiro de Salvador, encontro em Samba de Roda, Samba Chula uma reconhecimento profundo, mesmo que estou ainda conhecendo e agora começando a estudar mesmo com músicos no Recôncavo. Quando escuto, parece que minha alma reconhece os sons, os ritmos e que meu processo de escutar e aprender a tocar e cantar é apenas uma processo de relembrar algo que está já dentro de mim. Uma coisa ancestral sem duvida", acrescenta.

"Mas os estilos populares que curto são muitos!  Mais fácil dizer o que não curto: sertaneja, arrocha, Axé music, 'pagode da baixaria', como se referem meus amigos às músicas com uma palavra no verso e dois acordes para acompanhar a melodia de uma nota só", conta.

Cachoeira, Mali

Comissária de bordo da American Airlines, Alissa morou 12 anos em São Paulo, mas agora fixou residência em Salvador, de onde parte para shows e pesquisas musicais pelo Brasil e o mundo.

"Gostei de (morar em) São Paulo, mas nunca senti a mesma familiaridade - nunca me senti em casa, do jeito que me sinto na Bahia. Depois de 12 anos de vai e volta entre os EUA e SP, mudei minha residência para a Bahia de novo. Agora tenho uma residência em Salvador, porém estou viajando muito no exterior", conta.

Em maio, ela viaja para Israel e Etiópia: “Ano passado comecei um projeto chamado Finding My Voice (Encontrando Minha Voz).  O projeto é tanto uma busca de identidade sonora e artística, quanto uma busca para minha voz como uma artista no mundo. Qual mensagem tenho para compartilhar, quais histórias posso contar”.

"Intuitivamente, entendi que colaborar com outros artistas fará parte do processo e que precisava viajar como parte desta busca. Me inspirei no trabalho do Idan Raichel e seu projeto de montar uma banda com pessoas de varias países do mundo, cantando vários estilos em várias línguas e também com seus trabalhos em parceria com Vieux Farka Touré. Senti que a trajetória dela poderia me apontar no meu caminho. Resolvi ir para Israel para encontra-lo. Ai fui! Não sabia que lá ele é TÃO famoso. Ele é como a Ivete Sangalo de Israel, só que é homem (rsrsrs). Mas é deste nível de fama.  E fui tão empolgada que consegui conhece-lo! Me deu muitos conselhos bons e falou do seu processo de criação e várias ideias. Passei dois meses em Israel e neste tempo também procurei conhecer a cena de música lá para entender o que deu inspiração ao projeto do Raichel. Vi que lá em Israel musica pop inclui música em várias línguas culturas. Isto é algo que jamais ocorreria nos EUA e que não vemos no Brasil. Tem cantores de pop de origem da Etiópia cantando em sua língua-mãe, tem musica árabe de vários países, tem estilos que tem raízes em culturas do leste europeu, tem tantas sabores bons na sopa de musica que é o pop israelense. Me inspirei muito nisto e tive a oportunidade de fazer dois shows lá com músicos israelenses tocando músicas brasileiros! Olha só. Uma americana em Israel cantando musica brasileira. Isto é minha vida! Etiopia eu passei no caminho para Israel.  Sempre quis visitar e é tão perto que resolvi dar um pulo lá. Minha cidade natal, Los Angeles, tem muita gente de Etiópia e Eritreia e sempre as pessoas acharam que eu vim destes países. Fiquei três semanas em Addis Abeba bebendo da fonte de EthioJazz e conhecendo vários músicos que tocam este gênero, inclusive uns americanos. Também tive a oportunidade de conhecer estilos tradicionais da Etiopia. O país tem mais de 80 grupos étnicos e o povo fala mais de 80 línguas. Cada região tem sua dança, seus ritmos e cantos. Foi fascinante poder beber desta fonte de cultura profunda e milenar.  Um dos músicos que conheci lá foi oHaddis Alemayehu, conhecido como HaddinQo, que veio para o Brasil a meu convite e passou o Carnaval aqui na Bahia. Nesta troca realizei meu sonho de colaboração e foi incrível ver a troca entre Haddis e os músicos brasileiros.  Ele não conhecia nada sobre música brasileira quando chegou aqui. Mas conseguiu entender na linguagem de música brasileira coisas que podia conectar com a linguagem da música dele. As colaborações que fizemos foram inspiradoras e lindas.  Foi embora da Bahia apaixonado pelas músicas e pela cultura e as pessoas daqui e temos planos para desenvolver mais colaborações e intercâmbios entre músicos e a musica do Etiópia e do Brasil. Volto agora para participar numa oficina de canto sagrado em Israel e de fazer uma apresentação, fortalecer os laços com os músicos e amigos em ambos países e de dar continuação ao processo de Finding My Voice que iniciei em 2018. Na Etiópia vou poder viajar um pouco pelo pais também", detalha.

E assim ela vai fazendo conexões entre a música que se faz aqui e em outras partes do mundo. No Recôncavo, por exemplo, ela descobriu conexões entre o som regional da viola machete com a música do Mali, norte da África.

“Fui numa apresentação de lançamento da Cartilha de Samba Chula, uma obra-prima produzida por Katharina Doring (pesquisadora e professora na UFBA e UNEB) e Sinésio Góes (um artista e educador que nasceu nas tradições de música e dança de matriz africana no Recôncavo e viaja o mundo todo para mostrar, ensinar e ajudar preservar as tradições). Teve um senhor, chamado Aurélio, tocando viola machete. Só ele, tocando e cantando.  Me arrepiei.  Fiquei quase em transe”, relata.

“Ouvi nas melodias, nas escalas, no jeito de tocar e no estilo de cantar a ligação entre essa música e a de Ali Farka Touré, (o músico mais popular) do Mali.  As notas parecem contar a história de como o povo negro chegou nas terras americanas e de tudo que deixou para trás. Sento e ouço a mesma conexão e ligação entre o blues dos EUA e a música de Ali Farka Touré. Como que vejo essa similaridade?  O povo africano que chegou nas Américas perdeu seus parentes, seus bens, seus nomes, suas línguas, suas identidades, por conta do processo de ser escravizado. Porém, o processo da escravidão não podia apagar a memória e a cultura desse povo completamente. A música é um alimento para a alma do ser humano. Claro que os africanos nas Américas tocaram e cantaram as músicas de suas terras e foram passando a memória das músicas de geração em geração - sempre mudando por conta das influências novas, experiências novas, o próprio processo de evolução e transformação. Mas a raiz permanece e é esta raiz que forma a ligação, ou seja a similaridade entre o blues nos e EUA e o samba no Brasil”, conclui.

Alissa Sanders (EUA) / sábado, 19 horas /  Projeto TAMAR (Praia do Forte) / R$ 60 e R$ 30



NUETAS

A Flauta Porn no BB

Amanhã tem o indie eletrônico do Soft Porn no Bardos Bardos. 20 horas, pague quanto puder.  E na quinta-feira, véspera de feriado, a banda A Flauta Vértebra, da ótima cantora Sohl, se apresenta no mesmo bat-local e esquema.

Quinta de blues

Na quinta-feira também tem Julio Caldas e Cássio Nobre fazendo Blues Sessions no Solar Gastronomia (Rio Vermelho). 20h30, R$ 15. Mas tem mais blues nesta quinta, com a banda Restgate Blues no Lebowski Pub. 20 horas, R$ 10 (antecipado) e R$ 15.

Maragogipe rocks

Essa é pra quem já está ou vai para o Recôncavo no feriadão. Sábado rola a 4ª edição do Festival Aleluia Rock, com Duda Spínola, Vovó do Mangue e Jack Doido. A partir das 20 horas, na Fundação Vovó do Mangue, em Maragojipe, entrada gratuita.

Páscoa Sonora

E depois de todo o chocolate do domingo de páscoa, sue um pouco com a Sonora Amaralina no Mercadão.cc. Baita som às 19 horas, R$ 10.

quinta-feira, abril 11, 2019

UMA SAGA HOMÉRICA NA BAÍA DA GUANABARA

Luzes de Niterói,  mais uma obra irretocável de Marcello Quintanilha, consolida o autor como um mestre das HQs aos 48 anos

Aos 48 anos, Marcello Quintanilha é, muito possivelmente, um dos maiores artistas brasileiros vivos.

Quadrinista e ilustrador múltiplas vezes premiado no Brasil e no exterior, ele marca mais um golaço em sua nova HQ: Luzes de Niterói (Veneta Editora).

Autor de obras espetaculares como Tungstênio (Veneta, 2014, adaptada para o cinema por Heitor Dhalia em 2017) e Talco de Vidro (Veneta, 2015), Quintanilha volta à sua cidade natal em Luzes de Niterói,  uma agitada aventura parcialmente inspirada em fatos da vida do seu próprio pai, jogador de futebol na cidade fluminense durante a década de 1950.

Com sua narrativa ágil, personagens cativantes e diálogos engraçadíssimos, Quintanilha não dá fôlego ao leitor.

A HQ gira em torno dos amigos Hélcio (o jogador de futebol inspirado em seu pai) e Noel, seu melhor amigo, portador da deformidade física popularmente conhecida como “peito de pombo”.

Residentes em uma comunidade de pescadores, Hélcio e Noel um dia percebem um bote pescando com bomba no mar, a alguns quilômetros da praia.

(Curiosamente, Tungstênio, ambientada em plena Baía de Todos os Santos, tem sua trama iniciada da mesma forma: pesca com bombas).

Hélcio e Noel logo imaginam que a área próxima ao bote estará coalhada de peixes mortos boiando, e que o pescador não terá como recolher todo o seu “produto”.

Resolvem pedir um bote emprestado a um dos pescadores da comunidade e se põem a remar na direção do pescador anônimo.

E aí começa uma louca odisseia (no sentido homérico mesmo) dos dois amigos no mar (e também fora dele),  envolvendo pescadores, futebol, a histórica vedete Luz del Fuego (1917 - 1967) e o primeiro campo naturista do Brasil, fundado por ela em uma ilha na Baía da Guanabara.

Caudaloso, o texto de Quintanilha às vezes dá uma canseira no leitor: os dois protagonistas da HQ simplesmente não param de discutir e zoar um com a cara do  outro.

Mas até isso Quintanilha usa em benefício da obra. As DRs e amolações da dupla são ditas em português de época, com direto a muitas gírias do tempo do guaraná com rolha e referências culturais a fins.

O resultado é muitas vezes hilariante, evidencia a pesquisa do autor em seu esforço para tornar os personagens mais verossímeis e reais.

Por fim, a arte de Quintanilha segue afiada: seu talento para retratar tipos populares bem brasileiros com dignidade, sem reduzi-los a meras caricaturas, é praticamente único no cena das HQs no Brasil.

A narrativa gráfica é outro ponto alto, ora acelerando o ritmo, ora fornecendo respiros, com quadros em silêncio.

A sequência da tempestade que colhe os amigos no bote é um exemplo do primor que é o trabalho desse rapaz.

Unindo comédia, drama, crônica social e suspense, Luzes de Niterói é mais uma obra irretocável de Quintanilha.

Já lançada na Europa – antes da edição brasileira –, angariou entusiasmados elogios da imprensa especializada.

Diálogos de ouvido

Residente em Barcelona desde meados da década passada, Quintanilha vem publicando quadrinhos e cartuns na imprensa desde os 16 anos, no final dos anos 1980, quando ainda assinava com o pseudônimo Marcelo Gaú.

Foi sob o nome artístico que lançou, em 1999, seu primeiro álbum autoral: Fealdade de Fabiano Gorila (Conrad).

Ali já mostrava o talento que vinha maturando na década anterior: os personagens profundamente brasileiros e populares, os diálogos francamente capturados “de ouvido” nas ruas, os desenhos exatos  e uma narrativa ágil, muito envolvente.

Logo foi “pescado” pelo mercado europeu, ilustrando a série  Sept Balles Pour Oxford (da editora belga Le Lombard).


Mudou-se para Barcelona, passando a fornecer ilustrações para diversos jornais e revistas da Europa.

A partir daí foi só sucesso: Tungstênio, resultado de uma breve temporada em Salvador, foi amplamente saudada pela crítica e premiada no maior festival de quadrinhos da Europa, Angoulême.

Já Hinário Nacional (2015) ganhou um Prêmio Jabuti.

Luzes de Niterói / Marcello Quintanilha / Veneta/ 232 p./ R$ 109,90 / Edição em capa dura, cor

terça-feira, abril 09, 2019

PANÇO VEM FAZER SOMBRA EM SALVADOR

Ex-Jason, o carioca Leonardo Panço lança o álbum Sombras, sexta, no Bardos Bardos. Night ainda tem show da Rosa Idiota

Leonardo Panço, foto Mauro Pimentel
Figura muito significativa do underground brasileiro desde os anos 1990, o músico e jornalista carioca Leonardo Panço estará em Salvador sexta-feira, lançando sua última produção, o belo álbum Sombras (disponível na versão física apenas em cassete).

Ele aproveita e também traz para vender seu fanzine Esopsa e seu álbum anterior, Superfícies (2005) , que também é um livro de fotos dele mesmo.

A banda local Rosa Idiota faz as honras (e a trilha sonora) da casa.

“Vou passar por cinco cidades do Nordeste, incluindo Salvador. Tô indo lançar meu primeiro zine em 19 anos. Todo lindo, de fotografias P&B tiradas em máquina analógica na Alemanha há 10 anos. Tem alguns textos  curtos inspirados pelas fotos”, conta Panço.

“Lanço também o Superfícies, meu livro/disco. E acabei de lançar meu terceiro disco solo e vou levar em primeira mão os cassetes mais lindos do mundo comigo”, afirma.

Baterista Guitarrista da cultuada banda carioca de hardcore Jason (do clássico Odeia Eu, de 1998), Panço se aventura a cantar pela primeira vez só agora, em seu terceiro álbum solo.

O primeiro, Tempos (2004), tinha vários cantores (inclusive nossa Nancyta Viegas). E Superfícies era instrumental.

Uma extemporânea gema pós-punk oitentista, Sombras é um must para fãs de bandas brasileiras da época, como Violeta de Outono, Mercenárias e Smack, entre outras: uma trip que, apesar de psicodélica, é também cinzenta e niilista.

“Acho que o que eu mais enxergo (em Sombras) é o Violeta de Outono. Não foi intencional, mas é que ouvi muito. Cure, Smiths, Finis Africae, Depeche Mode, New order. Junto com o punk nacional. Replicantes demais”, enumera.

Também contribuiu na sonoridade 80’s do disco a gravação com instrumentos de época.

“Ir terminar o disco em BH com o Léo Marques (da banda mineira Transmissor) tinha isso também. Tudo lá é vintage. Gravei com amplificador dos anos 50, guitarras dos anos 60, 70. Violão Giannini. Dá essa sonoridade. Escolher quem está do seu lado já é 80% da estética. O Dave, baixista, ama Robert Smith como eu. Guitarrista foda, eu acho. Coisas simples, mas lindas. É por aí que eu me guio”, afirma.

Sputter e Sandra

Panço, foto Mauro Pimentel
A única versão física de Sombras, por enquanto, é em cassete. Mas será que as pessoas que compram cassete hoje em dia o fazem só pelo fetiche do objeto vintage ou realmente tem toca-fitas para ouvir?

"Adoraria lançar em LP também, seria lindo. Mas tá fora da minha realidade financeira no momento. CD comercialmente não vale mais, pelo menos não pra mim. Cassete tem uma tiragem pequena né, foram 68 cópias somente. 59 amarelas e 9 azuis. As 10 primeiras que vendi, as pessoas compraram pra ouvir mesmo. Ficou lindo demais, super pró", afirma.

Inicialmente, ele adotou a estratégia de distribuir Sombras por Whatsapp e email. Mas depois se rendeu e subiu o disco nas plataformas digitais.

"Olha, o single funcionou super bem por zap, foi pra centenas de pessoas. Comecei a mandar o disco por e-mail e rolou uma resistência grande. As pessoas querem mais facilidade, mais conforto, acho. Acabei me rendendo e subindo pras plataformas. muito mais gente tá ouvindo, não dá pra negar", admite.

Uma das letras mais fortes de Sombras é a da faixa Um ódio tranquilo, de Jair Naves.

Prestem atenção: "cinzenta, mesquinha, raivosa / uma minoria esmagadora comemora / a ilusão da vitória / o suposto lado certo da história / quem é elite, quem é escória / para as lições do passado, nenhuma memória / terra plana, ração humana, a pequenez branca, o coração que só se engana / você me odeia e nem sabe o por que / você se odeia e nem sabe o por que / ninguém venceu, ninguém vai vencer".

"Jair naves é um grande letrista e foi natural pedir algo a ele. Só que pedi com melodia e ele mandou só a letra. O que foi perfeito pra mim, porque pude eu mesmo encaixar, criar a melodia e cantar do meu jeito. Não tive que aprender a melodia dele. Foi mais fácil. e o título eu que dei também. tomara que ele termine o livro dele e cumpra a promessa de uma tour comigo sobre nossos livros", conta Panço.

No disco, Panço contou com a colaboração de alguns letristas. O baiano Rodrigo Sputter Chagas (The Honkers), assina três delas: Technicolor, João e Quando.

"Uma letra na íntegra que não mexi em nada, uma que adicionei uma frase e virou parceria e uma que escrevi depois de um boa noite dele pelo zap com essa frase 'quando for dormir, não pense em nada, apenas sonhe'", relata Panço.

“Nos conhecemos há anos, porque sempre fui a Salvador tocar com o Jason, depois com meus livros etc. Ficamos mais próximos quando ele foi a um lançamento meu em São Paulo levando Sandra, das Mercenárias. Um grande presente. Ganhei cervejas do dono do bar por ter a Sandra lá. Valeu, Sputter. E partimos daí. Volta e meia ele deleta tudo, zap, Instagram... Fica mais difícil, né. Mas seguimos falando”, conclui.

Lançamento: Sombras (cassete), Esopsa (Fanzine), Superfícies (Livro / CD) / Com a banda Rosa Idiota / Sexta- feira, 20 horas / Bardos Bardos



NUETAS

Lia com Torquato

A cantora Lia Lordelo apresenta seu espetáculo Torquatália, um tributo ao grande Torquato Neto hoje, na Sala do Coro do TCA. 20 horas, R$ 30.

Eric com Matheus

Sexta-feira tem Eric Assmar no Solar Gastronomia (Rio Vermelho) com o convidado Matheus Carvalho. Blues no prato principal. 20h30, R$ 15.

Okwei no Mercadão

A diva soul nigeriana Okwei Odili faz show sábado, no  Mercadão.CC. Horário e preço no www.instagram.com/mercadao.cc.

Ódio, Aborígenes...

Todo meu Ódio, Aborígenes e Organoclorados quebram tudo no Buk Porão. Sábado, 19 horas, R$ 10.

sexta-feira, abril 05, 2019

CAVALEIRO MODERNO

Envelopado em glorioso traje metálico, Ney Matogrosso estreia no TCA o show Bloco na Rua, com canções da memória afetiva – dele e do público

Nei envelopado, foto Marcos Hermes
Figura incontornável da música popular brasileira dos últimos 50 anos, Ney Matogrosso está de volta à Bahia com seu novíssimo show, Bloco na Rua. Acompanhado de sua banda, ele se apresenta hoje e amanhã, na Sala Principal do Teatro Castro Alves.

Como o título já deixa entrever, o clássico de Sérgio Sampaio Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, de 1973, abre a apresentação de forma catártica: “O show começa muito explosivo, o que já ganha a plateia de cara”, conta Ney, durante entrevista em seu hotel para membros da imprensa na tarde de anteontem.

“Quando eu canto Bloco na Rua eles já cantam comigo. Desde a primeira vez que apresentei esse show, quando eu vi todo mundo cantando, disse ‘é, tá acontecendo, né’”, nota, sem esconder a satisfação.

Além da canção-título do espetáculo, Ney selecionou um belíssimo punhado de canções de grandes nomes da MPB: A Maçã (Raul Seixas), O Beco (Herbert Vianna & Bi Ribeiro), Mulher Barriguda (Solano Trindade e João Ricardo, do primeiro LP dos Secos & Molhados), Como 2 e 2 (Caetano Veloso), Feira Moderna (Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant),  Tua Cantiga (Chico Buarque), Iolanda (Pablo Milanés, Chico Buarque), Corista de Rock (Rita Lee,  Luis Carlini), Postal do Amor (Fagner, Fausto Nilo, Ricardo Bezerra) etc.

“Sim, o repertório  acaba sendo mesmo (pelo critério) afetivo. A Maçã do Raul, há muito tempo eu queria cantar. Mas não cabia nas coisas que fiz até então. A música do Chico, eu fui no show dele. Quando ele cantou essa música (Tua Cantiga, do CD Caravanas) eu decidi na hora, ‘vou cantar essa música’. Na primeira vez que eu ouvi”, conta Ney.

Ao seu lado, a mesma banda que o acompanhou em sua última turnê, a longeva Atento aos Sinais (que ele fez de 2013 a 2018: Sacha Amback (direção musical e teclado), Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Dunga (baixo), Mauricio Negão (guitarra), Aquiles Moraes (trompete) e Everson Moraes (trombone).

Nei fazendo pose na cadeira, foto Marcos Hermes
“(Depois do início explosivo) Tem uma parte mais calma, quando canto Tua Cantiga, A Maçã, Mais Feliz (Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza), Iolanda, que são mais românticas. E eu fico sentado numa cadeira, mas claro que eu não fico só sentado, fico fazendo pose. É uma cadeira transparente, que é pra mim parte do cenário, um objeto de cena. Então eu fico curtindo, que eu não vou ficar ali sentadinho caretamente cantando, né?”, diverte-se o artista.

“Corista de Rock já é na reta final do show, que começa lá em cima e termina lá cima”, descreve Ney.

Um detalhe que, como sempre, chama muito atenção é o figurino de Ney na apresentação: um traje de corpo inteiro que lembra a malha de metal que cavaleiros medievais usavam sob a armadura, criado pelo estilista Lino Vilaventura.

“Não passei nenhuma orientação, ele nem me mostrou croqui. É a primeira vez que eu uso um figurino que não é feito junto comigo, no meu corpo”, conta Ney.

“Porque o Ocimar (Versolato, morto em 2017) fazia no meu corpo, né? O Ocimar vinha da França, ficava hospedado na minha casa e fazia o figurino no meu corpo e ia embora. Esse não. O Lino não quis que eu me aproximasse. Ele veio com tudo pronto. Gostei de primeira, mas achei que precisava ser mais justo, tava meio solto, eu não gostei de me sentir solto dentro de uma roupa”, relata.

No show, todas as canções são relidas por Ney e banda, de modo a oferecer uma outra versão: “Nenhuma está no arranjo original, dou liberdade para os músicos criarem. Temos um arranjador que é o Sacha, e quando a gente vai para o estúdio ensaiar, todo mundo opina e a gente vai mudando também. Se for preciso, eu também opino”, afirma o músico.

Política, cinema, biografia

"Vamo lá, galera", foto Marcos Hermes
Só não diga pra ele que o show é “político”, no sentido do protesto generalizado contra o atual governo: “Quero deixar claro que quando fiz esse roteiro e quando comecei a ensaiar, nem existia Bolsonaro no panorama, tá?  Agora querem dizer que é um show político. Se é um show político, poderia ser político em qualquer momento. Bolsonaro (candidato ou presidente) não existia. Ele era um deputado, apenas. Não era nem candidato, tá? Então, não gosto que façam essa ligação”, afirma.

“Nunca pertenci a nenhum partido político, não tenho nem time de futebol nem escola de samba preferida. Sou um ser... solto, sabe?”, diz.

Isso não quer dizer que Ney não tenha lá suas críticas ao atual momento: “Tá conservadora demais (a sociedade). Agora, acho interessante porque o presidente diz que não está governando para partidos mas a gente observa  muito claramente que o ministério dele é partidário, sim. E muito, muito, muito, muito, muito... de mentalidade muito... pra trás, né? Não vamos nem começar a citar aqui os ministérios que a gente fica em choque né? Só o da Educação, só. Para não falar dos outros”, alfineta.

Originalmente ator, Ney volta e meia faz alguma participação em filmes. Agora, ele grava vozes em uma animação para os cinemas de Joel Pizzini, diretor do documentário Olho Nu (2014), sobre o próprio Ney: “É um desenho animado que é vagamente inspirado na  minha imagem do Secos & Molhados. Eu tô fazendo todas as vozes, das crianças, dos bichos.  É baseado na obra do poeta matogrossense Manoel de Barros. O filme é em cima do universo dele, e a minha figura do Secos & Molhados é o personagem principal”, conta.

Além disso, o ano que vem deve ver o lançamento de sua biografia, escrita pelo jornalista Julio Maria, autor de Nada Será Como Antes (2015), sobre Elis Regina.

“E ele não quer que eu leia, mas agora ele está fazendo uma coisa inteligente. Depois que ele faz entrevistas com algumas pessoas, as questões que ele fica com dúvida, ele me liga”, conta Ney.

“Eu não tenho esse problema (de ter um biógrafo investigando minha vida). Quer procurar coisas, procure. Agora, não minta. Só. Não aceite uma mentira, não escreva uma mentira. Eu não tô dizendo que ele (Julio Maria) vai mentir. Agora, ele vai ouvir mentiras. Porque as pessoas  mentem. Inventam, inventam coisas. Quantas coisas eu já li ao meu respeito que não são verdade, sabe?”, conclui.

Ney Matogrosso: Bloco na Rua / Hoje e amanhã, 21 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / filas A a P: R$ 220 e R$ 110 / filas Q a Z8: R$ 150 e R$ 75 / filas Z9 a Z11: R$ 100 e R$ 50 / Classificação indicativa: 14 anos



BÔNUS: MAIS ALGUMAS FALAS DE NEY QUE NÃO ENTRARAM NA MATÉRIA

Shows no TCA: "Sim, desde os anos 1970 (eu me apresento na Sala Principal do Teatro Castro Alves), mas eu gosto muito da Concha (Acústica) também. Adoro fazer show na Concha. Tenho uma relação sim, até por que só me apresento aqui (no complexo do TCA). Já fiz em Peri Peri também, não tem um lugar chamado Peri Peri aqui? Já fiz lá, mas foi um show assim aberto, para o povo na rua, mesmo. Gostei muito. Ah, lembrei que também fiz com a Márcia Castro em um lugar que eu adorei, mas não lembro o nome, um lugar que antigamente era um cinema, talvez, que ela (Márcia) fazia shows durante o verão, um lugar muito interessante, um quadrado assim... isso, Clube Fantoches. Gostei muito também".

..."E lá no fundo azuuuuul", foto Marcos Hermes
Livro de memórias: "(O livro Vira-Lata de Raça, lançado em 2018) Não é uma autobiografia, é um livro de memórias, é diferente. Partimos de entrevistas (já publicadas) e eu dei mais três entrevistas para complementar. Mas sim, o Julio Maria está fazendo, essa sim, será uma biografia. Ele conseguiu falar com meu irmão, que eu não vejo há anos, eu não sabia nem onde ele estava, por que ele não atende o telefone, ele vive n'outra. Só anda de bicicleta, sabe? É meu irmão mais velho. Julio viajou para o Mato Grosso com minha mãe, quer dizer, é uma biografia mesmo. Deve sair ano que vem. E ele não quer que eu leia, mas agora ele está fazendo uma coisa inteligente. Depois que ele faz entrevistas com algumas pessoas, as questões que ele fica com dúvida, ele me liga. Porque eu disse 'olha, não tenho segredo nem nada escondido, mas as pessoas não podem mentir ao meu respeito. E aí sair uma mentira no livro como se fosse verdade, né?"

Longevidade e vigor versus redes sociais: "Eu acho que tem uma coisa genética também. Eu conheci o avô da minha mãe com 105 anos. E não quero perder meu tempo, queimar os neurônios com bobagem. Acho que Internet rouba nosso tempo, suga nossa energia. O pouco que faço - eu tenho Instagram - eu acho que já suga demais. E tá acontecendo uma coisa comigo, eu tô começando a ficar muito enjoado disso. De celular mesmo. Ando com ele desligado. Ou nem ando, sabe? Tô enjoado, mesmo. Desse universo paralelo. E olha que levei dez anos para ter um celular. Só tive porque as pessoas começaram a reclamar que queriam falar comigo e não me encontravam, acabei tendo, mas tô ficando cansado disso. Mas eu também faço ginástica diariamente. Lá no sítio eu ando, ando,ando, ando, ando, subo morro, desço o morro, é que pra ir na cachoeira tem que subir quase 600 metros e vou lá três, quatro vezes por dia. Tem uma coisa de exercício mesmo. Moro no Rio, mas São Paulo é o lugar que eu mais trabalho. Lá eu fico mais no meu apartamento".

Bloco na Rua, o título: "Estou há dois anos fazendo esse roteiro já foram vários até chegar nesse. E eu não achava um nome, eu gosto que tenha nome. A música  já estava escolhida, é uma das poucas que já estavam no repertório, desde o começo eu já sabia que ia abrir com ela, que se chama Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua. E eu não achava o nome, não achava. De repente eu disse, Bloco na Rua. É uma ideia de uma ação e menor. Gosto de títulos que indiquem alguma coisa. Eu não parto do título mas gosto que esteja em alguma música que estou cantando e eu sempre quis cantar essa música, mas em outro arranjo, porque marcha rancho (ritmo da gravação original) é muito datado, tinha que ser mais pop. E eu tinha intenção de fazer um repertório com muitas músicas conhecidas. Não tinha intenção de fazer nada inédito. Tem uma só, que entrou por acaso, que entrou para porque foi para uma peça de teatro que eu gostei muito quando vi, do Dan Nakagawa  de quem já gravei outras músicas, que chama Inominável. Até pensei ser o nome do show, mas pensei vão confundir com Inclassificável, sabe?"

Iluminado Ney, foto Marcos Hermes
Nei de férias: "Eu pretendi parar mais. Mas eu não tenho muito controle, sabe, imagina dois anos fazendo roteiros e quando cheguei nesse eu já tava ansioso para ver se ia funcionar. Eu parei em abril de 2018 o show (da turnê Atento aos Sinais) e estreei o novo em janeiro agora. Teve uma pausa, mas não foi ano inteiro. Em pausa eu não faço nada. Quer dizer, faço uma participação no disco de um, e tal, mas eu não viajo de  férias. Porque eu já viajo tanto trabalhando que, quando estou de férias, quero ficar quieto. E eu tenho sítio que eu adoro ficar lá que fica dentro da mata atlântica, só tomando banho de cachoeira, no Rio".

Tem Gente Com Fome: "Já gravei Solano Trindade. Tem Gente Com Fome, Mulher Barriguda e uma outra que não lembro agora, mas gravamos três dele. Tem Gente Com Fome era pra ter sido gravada pelo Secos & Molhados, mas foi proibida na época. E todo ano eu mandava (o repertório das músicas a serem gravadas) e eles (a Censura da ditadura militar) vetavam. Mandava de novo no ano seguinte, por que era obrigado pela gravadora a fazer um disco por ano, né? Então todo ano eu mandava. As gravadoras absurdamente exigiam, algo que nenhum compositor é capaz de fazer, um repertório (digno) para gravar um disco por ano. Muito menos eu, que nem sou compositor. Mas como era obrigado, todo ano eu enviava essa música para a censura e eles vetavam. Em 1985 eu mandei, eles liberaram. Aí eu gravei. Botei nesse show porque vi uma notícia no jornal de que havia neste momento no Brasil 55 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, então achei que valia a pena".

Assuntos não-resolvidos: "Dois assuntos que já deveriam estar resolvidos em nosso país é o negro é o índio. Nenhum dos dois está resolvido. Nenhum dos dois é olhado de frente, todo mundo finge que não existe o problema, mas existe, sim. Há até quem negue que exista o problema. Estão exterminando, assassinando os índios. E os negros, há quem diga que não existe preconceito, é ridículo dizer uma coisa dessa. Quando não deveria mesmo (existir preconceito), né? Porque se formos olhar para nossos antepassados, a maioria de nós tem um calcanharzinho na África. E é maravilhoso ter esse sangue. Eu pelo menos acho. É o que nos torna tão atraentes e diferentes para o mundo".

terça-feira, abril 02, 2019

VIRADÃO INDIE

Metamorfose Musical é o festival alternativo que você pediu a Jah. De sábado para domingo, no Bahnhoff

The Flash, Daniel, Marcelo, Gabi, Keko, Alfredo e Tadeu: all star band
Incansável produtor / agitador da cena indie / psicodélica, Kairo Melo rides again com aquele que é provavelmente seu maior evento até agora.

É o Metamorfose Musical Festival, que rola sábado no Club Bahnhoff elencando nada menos que 15 (yes: quinze, fifteen, quindici, patnáct) atrações em mais de dez horas de música entre bandas e DJs, começando 18 horas e terminando sabe lá que horas de domingo.


Esse viradão indie é, na falta de termo mais apropriado, imperdível. O line up, além de nomes da cena acima de qualquer suspeita, como The Honkers, Rosa Idiota, Suinga, Mapa e Soft Porn, traz algumas boas novidades.

Uma delas é o norte-americano Daniel Mead, da banda californiana Kung Fusion, que está em Salvador e se apresentará acompanhado de nomes – na falta de termo mais apropriado – lendários da cena.

Sente só: Keko Pires (baixo), Marcelo Brasil (bateria), Ricardo The Flash Alves (guitarra), Tadeu Mascarenhas e Alfredo Moura (piano e sintetizador), Gabi Guedes (percussão) e Gigito (banjo). Sentiu o drama? Só as autoridades.

Suinga, foto Nathalia Miranda
Outra presença digna de registro é nossa grande dama do rock e do experimental, Madame Nancy Nancyta Viegas, que andou meio sumida dos palcos, mas tá voltando.

Também na linha experimental hipnótico, Andrea May e Junix 11 também se apresentam com o projeto May HD.

Outras atrações são o DJ paulista Sants (com trabalhos para Flora Matos e Linn da Quebrada), a guitar band Zaul e mais duas atrações vencedoras do concurso promovido por Kairo no Instagram: o rapper-queer DiCerqueira e a banda indie psicodélica A Favna.

Isso tudo no palco principal. Na cobertura do Bahnhoff (antigo Idearium) ainda rolam as discotecagens esclarecidas de Lord Breu, Luciano El Cabong Matos e Pivoman.

Nancyta, nossa grande dama do rock baiano, foto Germano Estácio
Ufa! Tá bom ou quer mais?

“A grade foi pensada como um resumo da música alternativa que é e foi produzida contemporaneamente na Bahia (com foco em Salvador). Tentamos convidar figurões históricos e ao mesmo tempo outras atrações que vem se mostrando a fim e que lutam pelo seu lugar na história da música baiana”, conta Kairo.

“Não nos limitamos ao rock e pensamos também na importância pessoal de cada atração. E acreditamos ser o maior line-up desse tipo de música (a alternativa) já produzido na cidade, sem recorrer a artistas nacionais em voga, sem focar em apenas um estilo, tentando fazer um real apanhado do que vem sendo produzido atualmente. O concurso de bandas que fizemos, nos ajudou ainda mais a firmar a diversidade e a gana de querer tocar o seu som autoral e nos fez ver a força que uma banda ou projeto iniciante pode ter e ofertar ao evento”, afirma.

Interação evitada / buscada

Andreia May e Junix 11: May HD
Kairo conta que a ideia do Metamorfose surgiu quando se reencontrou com um velho amigo, Victor Alberico, baiano hoje residente em Nova York.

“Tivemos nossa primeira banda punk juntos e poucos anos depois ele se mudou para os EUA.  Depois de quase quinze anos, voltamos a nos encontrar pessoalmente e a trocar figurinhas. Ele veio de experiências maiores como a produção de festas em barco com DJs em Manhattan e tinha o mindset norte-americanizado, a confiança, as facilidades, o uso maior da tecnologia”.

“Juntei ao bolo minhas experiências locais. Nós queríamos homenagear a Bahia, pensamos em tudo que Salvador, sua música e arte nos transformou, nos metamorfoseou. Criamos o modelo a partir dessas conversas e juntamos meus contatos com bandas e pessoas afim de fazer acontecer”, relata.

Os inimitáveis The Honkers, foto Jane Figueiredo
E para fazer acontecer não teve grana de governo nem patrocínio. Os caras meteram a mão no próprio bolso.

“Não é como se (edital de governo) não fosse a minha, eu até me inscrevo nos editais que aparecem, mas já fui apenas habilitado, não selecionado num desses de circulação. Patrocínio, apesar de ser bem escasso, ainda é uma opção que não foi descartada. Mas nós conseguimos bancar esse evento principalmente pela razão de uma estratégia desenvolvida para recompensar e firmar uma parceria com cada projeto que se apresenta no evento. Investimos sim, no aluguel da casa e  nos custos fixos de produção. Mas assim pudemos abrir um pouco a bilheteria para as bandas, que ganham inteiramente uma quantidade de ingressos virtuais que ela pode vender antecipadamente e obter sua própria ajuda de custo”, conta.


Com vocês, o Cravo Estúpido! Digo, Rosa Idiota! Foto Fernando Gomes
Outra estratégia foi visitar os hostels da cidade, abordando os turistas mais arrojados e a fim de conhecer uma outra Salvador.

"Turistas que se aventuram a ficar em hostels, que é basicamente um nome bonito pra albergue, você percebe que esse novo tipo de turista está muito mais interessado em socializar, em conhecer pessoas (até porque geralmente dormem em quarto de muitas pessoas) e PRINCIPALMENTE viajam sozinhos, sem família, no máximo com um grupo de amigos, descobrimos aí um novo tipo de estereótipo pra turistas e é nessa galera que focamos a divulgação e a abordagem. Acreditamos que esse tipo de atitude pode mudar significativamente a produção cultural alternativa na cidade, por mostrar um campo que deve ter o máximo de atenção e que só vem a agregar pra cidade, pro turismo e pra o evento em si", afirma Kairo.

O DJ  e jornalista Luciano el Cabong Matos, foto Aila Cabral
Com o festival e essas estratégias, Kairo acredita estar impactando o cenário alternativo e a forma de produzir na cidade.

"Acredito que já estamos impactando, pois sempre acredito que o exemplo é muito mais poderoso do que a palavra e que o fato de eu conseguir, simplesmente com a ajuda de um amigo, fazer um festival que junta 15 atrações numa mesma noite, numa mesma casa de show, contando com a parceria e a troca mútua entre todos os projetos, onde prezamos por participação popular, seja nos concursos que estamos fazendo, seja no preço do ingresso e na acessibilidade geral, e também nesse olhar diferenciado ao turista jovem e que viaja atrás de aventuras, de novos ambientes e novas pessoas que podem agregar muito a musica contemporânea e fazer o turista poder experimentar uma Bahia moderna, uma Bahia de agora, dando outro significado à festa na Bahia. Além disso tudo, o fato de unir tanto artista diferente, tocando um atrás do outro, na nossa cabeça já serve como um caldeirão de novos projetos e novas ideias que podem vir a surgir. Também queremos fazer as pessoas se sentirem a vontade em ficar numa casa de show por uma noite inteira, quando há música boa, entrada justa, bebidas ótimas e atendimento legal", defende.

DJ Lord Breu, foto Pâmela Sanoli
“Acho que estamos fazendo algo que essa cidade merece, que os artistas merecem e queremos fazer o público acreditar que eles também merecem e podem fazer parte dessa Metamorfose da fruição musical e artística que pode haver entre uma produção e seu público, entre artistas e outros artistas, entre público local e turistas, entre o rock alternativo e o axé alternativo, essa interação que é sempre evitada, mas que afinal é ela que buscamos. Estamos aqui por uma mudança de paradigma e acreditamos já ter chamado bastante atenção sobre isso e pensamos que o evento vai firmar essa nossa ideia e vontade, deixando uma energia nova e poderosa flutuando na capital baiana. Let music take control”, conclui Kairo.

Metamorfose Musical Festival / Com Kung Fusion (USA), Nancyta, Sants (SP), The Honkers, Suinga, Lord Breu, DJ el Cabong, May HD + Junix, MAPA, Rosa Idiota, SOFT PORN, Pivoman, Zaul, DiCerqueira e A Favna / Sábado, a  partir das 18 horas / Club Bahnhoff (Rio Vermelho) /  R$ 15

NUETAS

Thiago Trad quinta

Thiago Trad (ex-Cascadura) faz último show da temporada de lançamento do seu belo álbum solo Moscote. Quinta-feira, 22 horas, no Bombar (Rua Canavieiras 24, Rio Vermelho), entrada livre.

Pastel no Bardos

Agora segura que o sábado tá concorrido. Além do festival ao lado, vai ter mais uma ruma de show legal. Começando com o duo punk Pastel de Miolos no show de lançamento do seu EP finlandês (veja abaixo) neste sábado, com Ramoníacos. 17 horas, no Bardos Bardos, pague quanto quiser.

Retrofoguetes free

Os fabulosos Retrofoguetes fazem matinê sábado, no  Mercadão.CC. Dá pra levar até as crianças: 17 horas, gratuito. O local também aceita pets.

Marconi, Ander Leds

O bardo folk punk Marconi Lins e a rapaziada jovem da banda Ander Leds (ei, esses meninos tem um violino?) se apresentam no  Barão Night Pub (Rua João Gomes 63, Largo da Dinha, RV). Sábado, 22 horas, entrada gratuita.

Nova Era, Vandal...

Em outro canto da cidade, o hip hop dá as cartas com o grupo Rap Nova Era e o cultuado rapper Vandal.  Abertura a cargo da DJ Belle (Contenção 33) e de Cronista do Morro. Na ambientação, projeções de Core e Super Afro. Sábado, 20 horas, no Sesc Pelourinho. R$ 20 e R$ 10 ou R$ 16 (comerciário).

segunda-feira, abril 01, 2019

HOJE: DECIFRA-ME OU TE DEVORO

Debate: Com mediação de Malu Fontes, Mídia NINJA e o jornalista alemão Alexander Busch discutem o fenômeno das fake news e sua implicações na vida e na política do mundo

Estamos perdidos. Uma névoa espessa paira ao nosso redor, impedindo que enxerguemos  para onde remamos.

Como saber se o vulto que assoma ali adiante é um farol ou um canhão apontado em nossa direção? Não há respostas fáceis. É preciso dialogar.

E hoje, não por acaso, no Dia da Mentira, referências do jornalismo e da academia se reúnem no  ICBA - Goethe Institut dentro do ciclo de conversas Memórias Contemporâneas para examinar o fenômeno  fake news.

Na mesa estarão representantes do coletivo  Mídia NINJA e o jornalista alemão Alexander Busch, mediados pela jornalista e pós-doutora em comunicação Malu Fontes.

“O ciclo de debates Memórias Contemporâneas é uma colaboração entre o Goethe - Institut e a Fundação Pedro Calmon, que realizamos juntos já há um ano”, , introduz Manfred Stoffl, diretor do Goethe-Institut Salvador-Bahia.

“O objetivo é discutir temas relevantes para a sociedade, tendo, sempre que possível, uma perspectiva externa trazida, por exemplo, por residentes do nosso Programa de Residência Artística Vila Sul. Nesse sentido, o jornalista Alexander Busch irá infundir um ponto de vista europeu-alemão sobre o tema”, acrescenta.

Definindo a patologia

Alexander Busch, foto Paulo Fridman 
Na boca do povo, as fake news são fartamente apontadas por todos quando se deparam com alguma notícia que não lhes agrada ou vai contra alguma crença estabelecida.

Mas calma lá, nessas horas é bom botar a bola no chão e começar pelo começo. “Antes de tudo, é preciso deixar muito claro o que são fake news na concepção jornalística do termo, que é diferente da concepção genérica”, diz Malu.

“O que nós jornalistas devemos chamar de fake news são informações fraudadas, adulteradas ou produzidas estrategicamente, imitando notícia verdadeira, com estrutura narrativa, título, técnica de redação, fotografia e legenda, para falsificar um fato”, diz.

Assim como falsários “fabricam” dinheiro e joias para aplicar golpes e obter vantagens enganando incautos, o princípio das fake news é basicamente o mesmo, defende Malu: “Na concepção jornalística, fake news é algo da mesma natureza, algo para enganar as pessoas”, afirma.

O problema é que o prejuízo que os golpistas tradicionais causavam era, no máximo, roubar uma pessoa física ou uma loja.

Com a falsificação de notícias, hoje, é possível até mesmo derrubar e / ou eleger ocupantes de cargos públicos. Isso se dá graças à tecnologia da informação da era digital, lembra Alexander Busch.

“Não há dúvida de que o impacto e a influência das notícias falsas foram fortemente aumentados pelas possibilidades de distribuição das mídias sociais – seu poder dificilmente seria tão grande sem Facebook e WhatsApp”, afirma.

A disseminação de notícias pelos meios digitais afetou fortemente a imprensa tradicional – principalmente as empresas de mídia que não souberam se adaptar.

Mas é prematuro cravar o fim das mídias tradicionais: “Pelo contrário, vemos internacionalmente que jornais tradicionais como o New York Times e o The Economist ganharam muitos leitores. Os meus jornais na Alemanha e na Suíça também notam que os leitores estão mais interessados em reportagens sérias e tradicionais”, afirma Busch.

“A circulação está aumentando. Ao mesmo tempo, porém, é evidente que os meios de comunicação alternativos vão competir cada vez mais com os meios tradicionais pela atenção”, acrescenta.

Crenças versus verdades

Malu Fontes, foto divulgação
Se ainda há esperança para mídias mais tradicionais e confiáveis, talvez seja mais difícil dizer o mesmo das democracias ao redor do planeta.

Em concomitância ao fenômeno das fake news, líderes autocratas de extrema direita tem  chegado ao poder em diversos países – através do voto, é bom frisar.

Na receita para vencer eleições, toneladas de fake news  via “zap do tio reaça” e / ou  da vovó desavisada.

No entanto, nem Malu nem Alexander se arriscam a apontar o fenômeno como algo mais favorável a políticos de direita do que de esquerda.

“Acho que é verdade que notícias falsas foram usadas como ferramenta pelos novos autocratas de direita e nos movimentos apoiadores deles. Mas mesmo na última campanha presidencial no Brasil houve notícias falsas que foram usadas pela esquerda”, afirma Alexander.

“Penso que veremos notícias falsas de todos os lados em futuras campanhas eleitorais e noutros movimentos políticos. São simplesmente demasiado eficientes para não serem utilizadas, é essa a minha preocupação”, acrescenta.

Já Malu martela com mais força esse prego: “É má fé ou reducionismo histórico e social explicarmos o atual estado de coisas por essa ótica. A esquerda também produz e dissemina fake news. Se o faz numa escala menor, isso se explica por outras questões, não pela hegemonia da direita na detenção do poder e da capacidade de fazer isso”, afirma.

Manfred Stoffl, diretor do Goethe, foto divulgação
Em um plano mais teórico, talvez realmente não importe tanto saber quem se beneficia com tanta fake news. Talvez o fato mais assustador sobre isso hoje não seja quem as produz e distribui. E sim, a verdade que não salva  nem liberta: há uma vasta demanda por elas.

“As pessoas querem mesmo, até que ponto, serem informadas sobre o que é verdade ou mentira ou estão mais interessadas em manter suas crenças pessoais, subjetivas, mais confortáveis e consoladoras?”, questiona Malu, indo no cerne da questão.

Talvez essa batalha já esteja perdida. Para que haja esperança no futuro, vale atentar para as palavras de Manfred: “Talvez todos nós tenhamos que aprender a parar mais vezes antes de espalhar supostas notícias e escândalos e esperar para ver se a história se revela verdadeira”, aconselha.

“Em princípio, este repensar já começa na escola, onde se deve aprender a lidar com as redes sociais e sensibilizar as crianças e os jovens para a falsificação de notícias desde cedo”, conclui o diretor.

Memórias Contemporâneas: “Fake News” / Com Mídia NINJA e Alexander Busch / Mediação: Malu Fontes / Hoje, 19 horas / Pátio do Goethe-Institut (Corredor da Vitória) / Entrada franca / Livre