domingo, julho 15, 2018

JUNTOS E SEPARADOS

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle releem obras uns dos outros em belo álbum conjunto. Cada um na sua, gravaram pérolas dos repertórios alheios

Edu, Marcos e Dori na foto de Clara Nascimento
Membros do primeiro escalão da MPB e setentões, Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle são homens de outro tempo, de outro século.

Essa característica meio que marca  seu primeiro (e belo) álbum conjunto, Edu Dori & Marcos.

Amigos de longa data – há mais de 50 anos – os três cantores / compositores até já chegaram a formar um trio lá nos anos 1960, mas de rápida duração e sem registro fonográfico.

Antes tarde do que nunca, o álbum lançado agora pela Biscoito Fino é bem-vindo.

O reencontro musical foi em 2016, quando Marcos Valle fez dois shows (Rio e SP) em parceria com a cantora norte-americana Stacey Kent.

“Aí o Marcos nos convidou para participar. Acontece que a Sônia,  irmã do Edu (Lobo)  trabalha com a Kati Almeida Braga, da Biscoito Fino. A Kati se interessou em fazer o disco e cá estamos nós”, conta Dori Caymmi por telefone, do Rio.

Com suas vozes intactas, cada membro do trio gravou quatro músicas cada, com duas regras valendo.

Primeira: cada um grava composições dos outros dois.

Segunda regra: não houve encontros no estúdio entre os três. Cada um arranjou, produziu e  gravou suas músicas escolhidas do próprio jeito, sem qualquer interferência dos outros dois.

“A deia é que ninguém ia tomar conhecimento do trabalho do outro. Então o disco traz a visão de cada um a respeito das músicas do outro. E chegamos à conclusão de que seria assim mesmo. Cada um decidiu seu repertório, seu arranjador e seus músicos”, detalha o filho do meio de Dorival.

O repertório, escolhido a dedo, evita lugares-comuns e é primoroso. Edu canta pérolas como Na Ribeira Deste Rio (poema de Fernando Pessoa musicado por Dori) e Viola Enluarada (dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle).

Dori bota seu vozeirão a serviço de  Bloco do Eu Sozinho (Marcos Valle e Ruy Guerra) e Na Ilha de Lia No Barco de Rosa (de Edu Lobo e Chico Buarque).

E Marcos Valle vai de Canto Triste (de Edu e Vinícius) e Alegre Menina (de Dori, com letra de Jorge Amado).

Nos arranjos, ênfase nas cordas, sopros e percussão sutil. O resultado são doze faixas que escorrem calmas como as águas  de um regato, massageando ouvidos e coração.

“Não sou de música animada, então procurei gravar as composições mais tranquilas do Edu e do Marcos, como  Na Ilha de Lia No Barco de Rosa e Dos Navegantes (ambas de Edu)”, conta Dori.

“Em algumas delas cabia umas cordas. Por mim, faria com uma  formação enorme (de músicos), mas não tinha dinheiro pra isso, então  fiz com um quarteto  de cordas nas músicas do Edu e outro de  sopros nas do Marcos”, detalha.

Interação, não!

Apesar do resultado inegavelmente bonito, o método “cada um na sua” adotado pelo trio resultou também em uma certa frieza – algo que não passou despercebido pela crítica.

“A  imprensa em geral achou que deveríamos ter interagido. Eu acho essa palavra – interação – um lixo. Achei que a liberdade de fazer o que pensa da música do outro era mais importante”, afirma Dori.

“O disco ficou legal e nós não interagimos talvez por que eu não gosto da palavra. Eu não interajo”, acrescenta o músico, caindo na risada.

A possibilidade de incluir pelo menos uma faixa cantada pelos três juntos chegou a ser aventada, mas, infelizmente, não avançou.

“Chegamos a cogitar, mas aí era complicado. Que música vamos cantar? Se for do Edu, preocupa Marcos e Dori. E daí por diante”, conta.

“Aí para ser de outra pessoa tinha a ideia de ser uma do Tom (Jobim), que era nosso mentor, mas isso morgou logo, não vingou. Então não levamos adiante essa coisa de interagir”, crava Dori.

Se não se encontraram no estúdio, que tal então um encontro ao vivo – de preferência no palco do Teatro Castro Alves, em Salvador?

“(Uma possível série de shows) Ainda esta em discussão, o pessoal está procurando fazer. O Edu já disse que não quer fazer show em lugar com mesa pra nego beber e comer croquete. Nosso som é coisa para teatro. Sentar e apreciar em silêncio”, conclui.

Edu, Dori e Marcos / Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle / Biscoito Fino / R$ 34,50

quarta-feira, julho 04, 2018

MEMÓRIAS DO MACHISMO ESTRUTURAL

Influente ativista, a escritora colunista do The Guardian  Jessica Valenti teve lançado no Brasil seu livro Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista

Jessica Valenti. Foto Leslie Hassler / divulgação
Norte-americana – de ascendência italiana –, casada e com uma filha, a jornalista e escritora  Jessica Valenti poderia muito bem passar por uma dona de casa tradicional, não fosse ela uma das representantes mais visíveis do feminismo na mídia de língua inglesa.

Colunista da edição on line do tradicional jornal britânico The Guardian, Jessica teve seu livro de memórias recentemente lançado no Brasil, via editora Cultrix: Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista.

Ousado, o livro traz um relato em primeira pessoa sem amarras: Jessica conta sobre as (várias) vezes em que foi assediada ou abusada – um homem ejaculou em sua calça no metrô quando era adolescente –, sobre abortos, sobre os namorados que teve  e também uma fase mais farrista, em que curtiu usar drogas.

Desta forma, este é, como o título já deixa  claro, rigorosamente  um livro de memórias. Portanto não é o caso de se procurar aqui as ideias e teorias acerca do feminismo desenvolvidas por Jessica.

Suas ideias podem ser encontradas nos livros em que escreveu, como Full Frontal Feminism: A Young Woman's Guide to Why Feminism Matters (Feminismo Total: O Guia de Uma Jovem Mulher Sobre Porque o Feminismo Importa), He's a Stud, She's a Slut, and 49 Other Double Standards Every Woman Should Know (Ele é Pegador, Ela é Vadia e Outros 49 Casos de Dois Pesos e Duas Medidas que Toda Mulher Deveria Conhecer) e The Purity Myth: How America's Obsession with Virginity Is Hurting Young Women (O Mito da Pureza: Como a Obsessão da América pela Virgindade Está Ferindo as Jovens), entre outros – além dos seus artigos.

Linhagem de vítimas

Filha de um casal de comerciantes de roupas de Nova York, Jessica descobriu bem cedo que, para muitos homens, ela não passava de um “objeto sexual”.

Aos doze anos, um homem lhe exibiu o pênis em um vagão de metrô.

Ao contar o fato em casa, soube de sua mãe que, tanto ela quanto sua avó e suas tias já haviam passado por  episódios semelhantes, alguns mais ou menos graves.

Conclusão: as mulheres formam uma linhagem de vítimas de violências – grandes ou pequenas –  que se sucedem, geração após geração.

“Mas pior do que o abuso em si era a aterradora compreensão do que significava ser do sexo feminino: não era uma questão de se algo ruim aconteceria, mas de quando e de quão ruim seria”, escreve.

“A frequência com que as mulheres da minha família sofreram abuso ou foram agredidas sexualmente tornou-se uma mensagem com luzes piscantes codificada em nosso DNA: Me. Machuque”, percebe a escritora.

Nos anos seguintes, Jessica apenas viu aumentar a frequência com que era ofendida e humilhada, especialmente por ser uma mulher sexualmente ativa e envolvida no movimento feminista.

Já na faculdade, após dormir com um rapaz, um preservativo usado foi pregado à porta do seu dormitório, acima da palavra “vadia” rabiscada.

Foi o primeiro de muitos.

Já atuando no movimento feminista, um (supostamente) conceituado repórter político escreveu e publicou um artigo inteiro apenas sobre seus seios, a partir de uma foto sua ao lado de Bill Clinton.

Depois de fundar, com uma amiga, o site Feministing, foi que a coisa piorou de vez. Passou a receber constantes ameaças de morte e estupro – ameaças estas que foram estendidas à sua filha, Layla (hoje com sete anos) mal ela havia nascido.

Ainda hoje, Jessica recebe ofensas e ameaças em ritmo diário, conforme ela mesma nos conta nesta entrevista exclusiva, concedida por email, ao Caderno 2+.

ENTREVISTA COMPLETA: JESSICA VALENTI: “Não há nenhuma boa razão para não abraçar a igualdade entre homens e mulheres”

Porque a senhora acha que algumas pessoas tem tanta raiva do feminismo?

Jessica. Ft Brendan Bush (Roanoke College Wikicommons)
Acho que as pessoas que tem raiva ou não entendem o que realmente é o feminismo ou estão muito conectadas ao sistema patriarcal que mantem as mulheres por baixo. Não há nenhuma boa razão para não abraçar a igualdade entre homens e mulheres.

Como é ser uma feminista no governo Trump? Pior do que no governo Obama?

Muito pior, porque tudo se tornou muito mais urgente e muitos avanços que tivemos no governo Obama foram anulados. Fora da política, também tem a incrível mudança cultural que tem sido tão anti-mulheres – toda essa gente sexista e racista que estava calada até alguns anos atrás se tornou muito mais ousada.

Você não se preocupou em falar tão abertamente (no seu livro) sobre sexo e drogas em uma época tão (falsamente) moralista? Ou devemos falar mais sobre sexo e drogas justamente por vivermos nesta época?

Não me preocupei muito - era apenas a verdade. Também acho que existe uma preocupação a mais quando mulheres escrevem sobre esses temas. Homens tem escrito sobre sexo e drogas desde sempre, e isso jamais foi considerado controverso.

Quais são as maiores mentiras (ou fake news) sobre o feminismo que acabam servindo para voltar as Pessoas contra a causa?

Acho que um dos maiores mitos sobre o feminismo é que odiamos os homens, ou que queremos destruir a família. A verdade é que os homens se beneficiariam do feminismo em suas vidas.

O que você diria às mulheres que não se identificam com o feminismo?

Não acho que todo mundo é, ou deva ser, feminista. A mim parece um pouco derrotista não se envolver com o feminismo, mas a verdade é que precisamos de pessoas apaixonadas e seguras de si no movimento.

A senhora ainda recebe ameaças e insultos? Já processou alguém?

Não processei ninguém, mas obrigada pela ideia. Recebo ameaças e assédio todos os dias, isso se tornou parte de minha vida, o que é bem triste.


O feminismo teve muitas vitórias no século passado, desde o direito ao voto. Qual você diria ser a próxima grande conquista do movimento no século 21?

Ótima pergunta! Acho que a próxima batalha é garantir que meninos não cresçam como sexistas. Já fizemos um desserviço à inúmeros jovens permitindo que fossem doutrinados pela misoginia.

Seria lícito acreditar que o feminismo beneficiaria não apenas às mulheres, mas também aos homens, ao livra-los de tantos papeis pré-determinados?

Exatamente. Existem tantas possibilidades para os homens, mas eles não acham que o movimento lhes diz respeito. Essa é uma das maiores mudanças que precisamos fazer.

Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista / Jessica Valenti / Cultrix/ Trad.: Jacqueline D. Valpassos/ 232 p./ R$ 37

terça-feira, julho 03, 2018

SOLITÁRIO, PORÉM COMUNICATIVO

Túlio Augusto faz pausa no Doutorado em Aveiro para dois shows no Gamboa Nova


Túlio Augusto, foto Estúdio Kryna
Membro de uma brilhante geração de artistas gestada na Escola de Música da Ufba, a geração OCA (Oficina de Composição Agora), Túlio Augusto bateu asas de Salvador há alguns anos para morar em Portugal, onde agora cursa Doutorado em Composição na Universidade de Aveiro.

Este mês, Túlio retorna à Bahia para visitar família e amigos, além de trazer seu novo show, Solitário, à cidade.

Serão dois domingos no Teatro Gamboa Nova: 15 e 22.

No show, o mesmo que ele apresentou em uma turnê pela Galícia (região entre Portugal e Espanha) em março e abril, Túlio se apresenta sozinho, tocando guitarra e gaita.

O som é uma releitura jazzística e muito pessoal de um gênero popular: o blues.

“O formato solo é, por si só, inusitado. Pouca gente tem coragem de encarar. Deixa aparecer muitas das nossas falhas que ficariam mais escondidas quando se toca em conjunto, além de exigir muito esforço técnico e concentração”, observa o músico, por email.

Apesar de se apresentar sozinho em um show instrumental, Túlio afirma não ser esta uma viagem tão solitária quanto o título deixa transparecer.

“Há pessoas que não se importam com as expectativas do público ou se dispõem a ouvi-lo. Acho isso um grande erro. A arte acontece pela comunicação. Não ouvir o que o público tem a dizer é como fazer um monólogo”, afirma.

“Gosto da troca, da conversa, do contato. Em formato solo, como é  o caso, levo sempre um repertório aberto, sujeito a mudanças. Posso perguntar o que o público quer ou mudar de acordo com o momento”, conta o músico.

Educação real e libertadora

Como todo mundo que vai morar no estrangeiro, depois de algum tempo, Túlio começou a enxergar o Brasil com mais clareza: nada como um pouco de distância para ver melhor.

“Estar fora do Brasil me fez sentir mais próximo do Brasil. Talvez por ter tido a oportunidade de ver as coisas de fora, de forma mais neutra. É verdade que a gente reclama muito de tudo no Brasil e às vezes se sente desanimado.  Mas todo lugar tem seus próprios problemas. O Brasil é muito especial em muitos aspectos e aos poucos o brasileiro vai percebendo isso, deixando de valorizar mais o que vem de fora do  que o que está bem à nossa frente”, observa.

“Acho que a gente precisa aprender mais com as tradições e nosso próprio contexto social, investir em educação real e libertadora, não naquela que forma operários. Sobretudo, acho que a gente tem que parar de subestimar o poder que existe em fazer nossa parte”, conclui. Tá falado!

Túlio Augusto / 15 e 22 de julho, 17 horas / Teatro Gamboa Nova / R$ 20 e R$ 10 / Ouça:  www.tulioaugusto.com



ENTREVISTA COMPLETA: TÚLIO AUGUSTO

Como é esse show que vc traz à Bahia? Só composições autorais ou também tem releituras?

Foto Emília Suto
Tenho tentado tocar mais músicas autorais que releituras. Minha abordagem é predominantemente jazzística, e no caso do jazz, a performance, por si só, tende a mostrar algo mais pessoal, mesmo quando se apresentam versões. Ao mesmo tempo, é preciso encontrar um equilíbrio entre o que é novo e familiar. Há pessoas que não se importam com as expectativas do público ou se dispõem a ouvi-lo. Eu, particularmente, acho isso um grande erro. Embora o artista tenha necessidade de criar e falar, e sua voz seja sua obra, a arte acontece pela comunicação. Não ouvir o que o público tem a dizer é como fazer um monólogo. E eu não creio que essa seja uma forma muito interessante de comunicação. Gosto da troca, da conversa, do contato. Em formato solo, como é esse o caso, levo sempre um repertório aberto, sujeito a mudanças. Posso perguntar o que o público quer ou mudar de acordo com o que o momento pede. Pode ser um tema em especial ou mesmo um estilo (blues, jazz, música brasileira). Minha música se apoia bastante em improvisação e isso me dá a liberdade de fazer com que um mesmo repertório possa durar meia hora ou a noite toda. Coloco a guitarra em destaque, mas também toco algumas músicas para gaita solo. O formato solo é, por si só, inusitado. Pouca gente tem coragem de encarar. Deixa aparecer muitas das nossas falhas que ficariam mais escondidas quando se toca em conjunto, além de exigir muito esforço técnico e concentração. É o formato que tenho me dedicado mais e é também como apresentei praticamente todos os shows da turnê pela Galicia em março e abril.

Você, meio como a banda local Laia Gaiatta, parece propor uma releitura de gêneros tradicionais (blues,nos dois casos) via métodos acadêmicos muitas vezes pouco compreensíveis para quem não é necessariamente estudante de (ou estudado em) música. A afirmação confere? Como estabelecer uma ponte com plateias leigas?

Acho a pergunta muito interessante porque expõe algumas fragilidades de um dos maiores problemas presentes no meio  acadêmico atualmente, que é o distanciamento em relação ao público amador ou não especializado em gêneros musicais mais específicos. Creio que estamos num processo natural de retorno a muitos dos gêneros musicais tradicionais. Esse caminho de volta dá-se, em parte,  por uma sensação de esgotamento que a música erudita atual - que cada vez mais chamamos de música acadêmica - nos traz, do ponto de vista da composição, no sentido de se manter longe de uma concepção em que a música possa ser simplesmente ouvida e apreciada como música. Na maioria das vezes, é muito difícil para o público leigo ouvir a música erudita que se produz hoje, embora haja muitas exceções. No geral, existe uma preocupação exagerada com processos de composição e uma certa negligência com o resultado sonoro. Na música popular, sinto que o mainstream tem tido muita dificuldade em apresentar novidades e, de uma forma sutil, acaba incorporando muito da cultura tradicional, ainda que muitas vezes de forma caricaturada e superficial. No meio acadêmico, talvez pelo cunho científico, existe uma pressão para que se crie algo novo. Na minha opinião, a obsessão que muita gente tem por criar algo que ninguém fez, leva quase sempre a um isolamento que não contribui muito de forma mútua. A melhor maneira de estabelecer pontes com qualquer tipo de plateia é ser verdadeiro. E nem sempre é fácil falar a verdade. O que a Laia Gaiatta faz é simplesmente falar sua verdade utilizando a bagagem que cada integrante tem, deixar parte do que foi desenvolvido na academia se misturar com o outras coisas que se inserem de forma mais visível em gêneros tradicionais. E o blues tem muita coisa em comum com a música nordestina: os acordes com sétima, a simplicidade harmônica, a vida simples das pessoas num contexto rural e urbano, o lamento e a história contada. E ainda ouso traçar um paralelo entre o Mississipi e o São Francisco. No meu caso, embora a gaita remeta ao blues de forma quase inevitável, também faço analogia com a sanfona. O blues é uma maneira de contar histórias. A Laia Gaiatta e eu contamos nossas próprias histórias através do blues e outros gêneros tradicionais de uma forma menos tradicional e sem preocupação com purismo. Os métodos acadêmicos só precisam ser compreendidos se eles forem a finalidade e não o caminho (ou parte do caminho). Fiquei até com vontade de fazer alguma coisa com a Laia Gaiatta.

Como anda o mestrado em Aveiro? Já concluiu? E depois, vai continuar residindo em Portugal? 

Portugal surgiu na minha vida como uma possibilidade de explorar outros lugares, fazer mestrado em Composição e dar mais atenção a mim mesmo na área da música. Embora eu tivesse me formado em Composição e Regência na UFBA e abandonado um mestrado em seguida, passei meus últimos anos no Brasil me dedicando mais a projetos culturais e trabalhando na produção de outros grupos. E foi nesse período que me envolvi com a cultura de tradição popular de forma mais direta. Em Portugal, depois do mestrado em Composição fiz outro mestrado, em Educação Musical (Análise e Técnicas de Composição) e hoje faço doutorado em Composição na Universidade de Aveiro. Minha pesquisa relaciona cultura tradicional e contemporaneidade. Tenho me concentrado principalmente na música que integra em sua prática o uso de cordofones, como os vários tipos de violas encontradas na Península Ibérica e Brasil. Há muito tempo venho percebendo o quanto a música tradicional esteve presente no trabalho que tenho desenvolvido ao longo dos anos e se manifestado em dimensões além da "pureza". Não gosto da abordagem de folclorizar gêneros e manifestações. Por mais que as coisas não se apresentem de forma tão explícita, sempre há a presença de elementos formadores de uma cultura. Chamamos isso de intertextualidade, que é um termo que se desenvolveu bastante na área literária mas que tem suas bases em teorias filosóficas. E embora tudo que fazemos tenha algo de uma outra coisa, procuro tentar trazer à consciência muitos dos processos que possam ser utilizados diretamente na música. É, de certa forma, aquela  magia que molda minha visão de mundo. Ainda não sei como vai ser o futuro e onde estarei, mas sei tem a ver com música e educação.

Foto Emília Suto
O disco Solitário já saiu? Se não, quando sai? O que ele representa em termos de comparação com Blue Spell?

O significado da palavra "solitário" é diferente de "sozinho".  Não me sinto sozinho, mas sempre fui naturalmente solitário. Solitário representa uma reflexão sobre ser responsável por seu próprio destino, sobre desempenhar funções que são suas e outras que precisam ser. É também sobre adaptação. Em Solitário, como no formato de show solo que tenho me apresentado, preciso me adaptar para desempenhar em um só instrumento a função de vários. A verdade é que nada substitui a coesão de um grupo. E substituir não é minha intenção e muito menos busco uma ideia vaidosa de auto-suficiência. É, antes de tudo, um exercício de desapego em relação à falta de outros instrumentos para saber lidar com essa falta. Enquanto em Blue Spell eu gravei vários instrumentos, em Solitário, a ideia é justamente assumir que só há um instrumento e que não há nada de errado nisso. A guitarra muitas vezes traduz linhas melódicas que seriam comuns ao contrabaixo, torna-se percussão e dialoga consigo mesma. É importante dizer também que nesse trabalho eu pretendo diminuir a distância entre a gravação e a performance, algo que fica bastante evidente num formato solo. Queria já ter lançado, mas achei que ainda precisa trabalhar mais am algumas das músicas inéditas ou ainda pouco tocadas em shows, além de ter a oportunidade de gravar algumas coisas após o contato com plateias distintas, já que algumas das músicas terão sido apresentadas em pelo menos três países. Solitário sai muito em breve e deve dar origem a trabalhos semelhantes.

Me fala o que você realmente gostaria de dizer mas eu não perguntei?

Estar fora do Brasil me fez sentir mais próximo do Brasil. Talvez por ter tido a oportunidade de ver as coisas de fora, de forma mais neutra. É verdade que a gente reclama muito de tudo no Brasil e às vezes se sente desanimado.  Mas todo lugar tem seus próprios problemas. O Brasil é muito especial em muitos aspectos e aos poucos o brasileiro vai percebendo isso, deixando de valorizar mais o que vem de fora do Brasil que o que está bem à nossa frente. Os problemas que os artistas enfrentam no Brasil não são muito diferentes dos encontrados em outros lugares. A dificuldade de se viver de arte é real em todos os lugares. Quando os artistas se unem e se valorizam, as pessoas ao redor compreendem isso e valorizam também. Tenho visto que a prática do "pague quanto puder" se tornou comum em muitos lugares e isso me entristece porque são os artistas quem mais contribuem pra isso. É preciso encontrar estratégias mais eficientes para fazer com que o artista possa ser, de fato, profissional. Essa atitude tem que partir do artista, que precisa ser mais organizado, aprender a dizer "não" quando se deparar com uma proposta indecorosa. Outro grande desafio está em perceber que a música não deve depender de competições para se sustentar. Sinto que no meio artístico há uma necessidade muito grande de falar, mas pouca gente se dispõe a ouvir ou se preocupa se está sendo realmente ouvido. Nossa arte é um reflexo de nós mesmos e a nossa maneira de fazer arte é um reflexo da maneira de interpretar o mundo. Quando se foca demais no emissor, a mensagem, que nesse caso é a arte, se perde. E assim perdemos todos. Revisitar tradições, além de dar a elas um merecido lugar de valorização, é também uma atitude de buscar autoconhecimento, de se relacionar com as pessoas ao nosso redor. Acho que a gente precisa aprender mais com as tradições e nosso próprio contexto social, investir em educação real e libertadora, não naquela que forma operários. Sobretudo, acho que a gente tem que parar de subestimar o poder que existe em fazer nossa parte.

NUETAS

Babuca faz recital

Violonista, cantor, compositor, Babuca Grimaldi apresenta o   Recital Pindorama Utrópicos. Amanhã, 20 horas, no Teatro SESI, R$ 20 e R$ 10.

A volta dos doidões

Adoráveis e malucas, as veteranas bandas Los Canos e Vinil 69 retornam para um show no   Club Bahnhof sábado, 22 horas, R$ 20 e R$ 15.

Metal Saturday

Aqueronte, The Crypt, Rattle e Death Tales detonam sábado no antigo Tchê Night Club (Amaralina). 20h,  R$ 15.

My Friend is a Lo Han

Domingo tem My Friend Is A Gray e Lo Han no Groove Bar. 17 horas, R$ 15 e R$ 25.

quarta-feira, junho 27, 2018

O INVENTOR DO SERTÃO

Livro com autobiografia resgatada por Gonçalo Júnior e disco-tributo trazem de volta a lembrança e a obra de Catulo da Paixão Cearense, nome incontornável da cultura brasileira

Imagens cortesia da Editora Noir
Certos artistas são tão basilares para a cultura de um país que acabam por ser esquecidos, tão entranhada é a sua produção na própria alma do povo.

O compositor, escritor e poeta Catulo da Paixão Cearense, que ganhou recentemente dois lançamentos que buscam resgata-lo, é com certeza um desses casos.

Tratam-se de um livro e um disco. O livro é Música e Boemia: A Autobiografia Perdida de Catulo da Paixão Cearense (Editora Noir), enquanto o disco é A Paixão Segundo Catulo (Selo Sesc).

O livro é um resgate histórico inestimável do autor de Luar do Sertão, cortesia do incansável jornalista e pesquisador baiano Gonçalo Júnior.

Nele, podemos ler 31 textos escritos pelo próprio Catulo, a título de memórias, para a revista literária Vamos Ler!, publicados entre fevereiro e outubro de 1943.

“Foi por acaso (que me deparei com os textos do Catulo). Adquiri uma coleção com mais de 600 volumes da Vamos Ler!, revista importantíssima nas décadas de 1930 e 40, a mesma que lançou Clarice Lispector como jornalista e ficcionista em 1942”, conta Gonçalo.

“Fui olhar a coleção para ver o que havia de interessante ali. E me deparei com a autobiografia de Catulo, publicada em capítulos. Fui atrás do resto e constatei que saíram 31 capítulos, entre fevereiro e outubro de 1943. Ele parou porque sua saúde piorou. Tinha, então, 80 anos de idade”, relata.

Há pelo menos duas grandes razões para apontar Música & Boemia como um dos grandes lançamentos literários do ano no Brasil.

A primeira razão é óbvia: trata-se do relato autobiográfico de um artista importantíssimo para a própria formação da cultura brasileira.

“Catulo é o pai da nossa cultura popular. Foi ele quem ressuscitou o cordel nesse período. Foi dele a primeira música caipira gravada em disco, Caboca de Caxangá (1913)”, lembra Gonçalo.

Para Gonçalo, Catulo é tão importante para a cultura brasileira, que, sem ele, é bem possível que esta tivesse se mantido puramente urbana, sem a brejeirice sertaneja que desaguou em representações como Luiz Gonzaga e Guimarães Rosa.

“Costumo dizer que (a poética do Catulo) foi seminal, no sentido que trouxe para os versos o modo de falar do povo. Arrisco a dizer que sem Catulo, não teria existido o escritor Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: Veredas. Sem ele, talvez o forró não tivesse existido, nem Patativa do Assaré ou Luiz Gonzaga”, afirma.

“Esse é apenas um aspecto. O outro é a riqueza melódica de seus versos e de sua música. E, por último, há o valor poético, de primeira grandeza. A sua capacidade engenhosa de construir versos com impressionante riqueza vocabular aparece em Caboca de Caxangá, considerada a primeira música caipira gravada em disco”, reitera Gonçalo.

Encharcado de Parati

A segunda razão para ler estas memórias é aspecto documental da sua época, lugar e figuras históricas.

Nascido em São Luís do Maranhão em 1863 e morto em 1946, Catulo se mudou com a família para o Rio de Janeiro –  então Capital do Império – em 1880.

Em suas memórias, pode-se pescar muito do que era viver naquela metrópole entre as últimas duas décadas do século 19 e as duas primeiras do século seguinte.

“A riqueza de informações que esses relatos trazem é impressionante. É como acender um refletor na escuridão de um estádio”, afirma.

“Uma época pouco documentada na área de música, por exemplo. A maioria dos livros se limita a relatar a história do Carnaval. E as memórias musicais de Catulo jogam luzes de modo revelador sobre a época”, conta Gonçalo.

Para finalizar, uma terceira razão para ler estas memórias: Catulo era um pândego.

Suas lembranças são encharcadas de Parati (cachaça), suas noites eram de festa em festa, nas quais ele era – invariavelmente – a estrela principal, sempre acompanhado de seu violão.

Entre apresentações nos grandes salões da República Velha, ou varando madrugadas pelas vielas do Rio antigo, Catulo sempre tinha um causo hilariante, uma cantiga delicada ou uma doce poesia na manga.

“Eu organizei e editei o livro para que sua história e legado sejam redescobertos. Catulo é o coringa da cultura brasileira”, afirma.

Workaholic notório, Gonçalo tem sempre diversos projetos em andamento ao mesmo tempo. "Em julho, sai a biografia do pornógrafo Carlos Zéfiro. E espero, até o fim do ano, publicar, finalmente, a saga do Bandido da Luz Vermelha, pronta desde 2013. No momento, escrevo a de Jacob do Bandolim", conclui Gonçalo.

A Paixão Segundo...

Apesar da vasta produção musical, Catulo em vida não deixou nem um ai sequer gravado, muito menos um acorde de violão.

Sua produção sobreviveu graças às partituras que eram largamente vendidas ao público antes da popularização da indústria fonográfica e  discos 78 rotações.

Desta forma, as canções de Catulo vem sendo gravadas há mais de um século por inúmeros artistas. A Paixão Segundo Catulo, CD recém-lançado pelo Selo Sesc, é a mais recente produção dedicada à obra do maranhense.

Produzido pelo flautista e saxofonista Mário Sève, reúne diversos artistas interpretando canções de Catulo em versões ortodoxas, sem muita “mudernage” e ressaltando as melodias e a poesia de homenageado e seus parceiros.

Liderados por Sève, artistas do porte de Joyce Moreno (Ontem Ao Luar), Leila Pinheiro (Flor Amorosa), Cláudio Nucci (Cabocla de Caxangá), Mariana Baltar (Luar do Sertão) Alfredo Del-Penho (Amenidade) e Carol Saboya (Você Não Me Dá).

Um tributo sincero, que afaga ouvidos e corações.

Música e Boemia: A autobiografia perdida de Catulo da Paixão Cearense / Catulo da Paixão Cearense / Noir/ 252 p./ R$ 49,90

A Paixão Segundo Catulo / Vários Artistas / Produzido por Mário Sève / Selo Sesc / R$ 20




terça-feira, junho 26, 2018

FORMALIDADES À PARTE...

Os Informais estreiam bonito em CD produzido por André T. Show dia 4 no Eva Herz

Informalizando na foto de Bruno Costa
Banda que impressiona pelo entusiasmo de suas apresentações ao vivo, Os Informais estreiam em álbum cheio fazendo bonito, com um daqueles discos de rock que voltam a nos fazer acreditar no gênero, tão combalido hoje em dia.

O show de lançamento é no dia 4 (quarta-feira), no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura e você pode garantir sua entrada enviando um email com seu nome para banda.

Na audição, não é difícil perceber as referências utilizadas pela banda e seu produtor, o craque André T.

Aqui e ali ouvem-se ecos de Beatles (Hey Mãe), Red Hot Chili Peppers (Jeitinho Brasileiro), Barão Vermelho (Big Bang), Cascadura (Meu Novo Berço) e por aí vai, mas com unidade, mantendo a identidade prafrentex da banda.

Naturalmente, o resultado final deixou a rapaziada felizona. “Nos surpreendeu. Não podemos negar que o processo não foi tão simples assim, a começar por todas as variáveis envolvidas até começarmos de fato a gravação. A formação mudou, tivemos perdas pessoais, mudanças de roteiro, enfim, foi árduo”, revela Daniel Calumbi, vocalista.

“Mas, inevitavelmente, nos envolvemos emocionalmente e nos conectamos de corpo e alma no processo criativo. Escutar esse álbum é contar a nossa história de vida”, diz.

Louco obcecado

Certamente, ajudou muito ter um produtor do calibre de André T. orientando a banda, formada por rapazes ainda jovens, no estúdio.

“André T foi uma peça fundamental nessa busca. Além de ser um profissional eficiente, é um louco obcecado por música, do nosso jeitinho. É um cara que te traz referências musicais a todo momento e  um cardápio variado, de dar água na boca. Nos acompanhou desde o início, fizemos algumas audições e fomos construindo juntos um caminho lindo”, relata Daniel.

“Passamos por dificuldades, como todo processo de produção, onde pessoas se envolvem verdadeiramente para alcançarem um resultado recompensador,  conseguimos transformar problemas em soluções e temos a consciência que produzimos um disco visceral”,  afirma o vocalista.

Com o disco na rua (leia-se plataformas digitais), o quarteto encara agora a parte mais difícil: divulga-lo.

“Estamos com shows agendados em algumas cidades da Bahia, festivais e projetos. Nossa missão é levar nosso som para o Brasil, quebrar fronteiras mesmo. Temos certeza que esse álbum vai gritar alto para todo mundo ouvir. Naturalmente já estão surgindo convites bem legais e estamos nos movimentando de forma inteligente. Fizemos recentemente um show épico com o Raimundos em Salvador e podem esperar que muita coisa boa vai acontecer este ano”, conclui Daniel.

Os Informais / Show de lançamento: dia 4 de julho (quarta-feira), 19h30 /  teatro Eva Herz (Livraria Cultura, Shopping Salvador) /  gratuita (envie seu nome: osinformais@gmail.com)



NUETAS

Copa com Acústicos

Quarta-feira tem jogo do Brasil e no Groove Bar a animação fica por conta da session Acústicos Groove, com o DuoPop (Peu Gazar e Davi Melo), 14 horas. Na quinta-feira, o Acústicos Groove retorna com Luizinho Melo, 20 horas. Free.

Sarapa, Duda, Doc’s

Sexta tem happy hour (com sarapatel!) no Bar dos Bardos. Som ao vivo por Duda Spínola. No sábado é a vez da banda The Doc’s lança seu EP. 14 horas, pague quanto quiser.

Esquentar motores

Já vistos nesta coluna – individual e coletivamente –  Soft Porn, Aurata, Mapa e DJ Ivan Motoserra fazem show no Mercadão.cc  como preparação para a turnê que farão por oito cidades do Sudeste em julho. 23 horas, R$ 10.

quinta-feira, junho 21, 2018

FASCÍNIO PELO POVÃO

Autor de Tungstênio, HQ cuja adaptação para as telas estreia hoje nos cinemas, Marcello Quintanilha tem trabalhos novos e antigos resgatados na coletânea Todos os Santos 

Tira para o jornal O Estado de S. Paulo
Estreia hoje no circuito nacional de cinemas o filme Tungstênio, de Heitor Dhalia. Trata-se de uma adaptação da história em quadrinhos de mesmo nome do quadrinista niteroiense Marcello Quintanilha.

Ao mesmo tempo, chegou às livrarias e comic shops o álbum Todos os Santos, uma coletânea de trabalhos anteriores do artista.

O timing para este lançamento – méritos para a editora Veneta e Quintanilha – não poderia ser mais perfeito.

Residente em Barcelona, de onde colabora para jornais e revistas das duas margens do Atlântico, Quintanilha é hoje, muito provavelmente, o mais importante quadrinista brasileiro de sua geração.

Profundamente autoral (ao contrário de muitos colegas, que se limitam a desenhar super-heróis para as editoras estrangeiras), o artista tem angariado o absoluto respeito de crítica e público – além de prêmios no Brasil e fora dele – graças a pegada naturalista com que faz a crônica, ora irreverente, ora poética, das pessoas simples do povo, aliada a uma estética realista de beleza  inegável.

HQ de 1991: premiada, porém inédita
Álbuns como  Sábado dos Meus Amores (Conrad, 2009), Almas Públicas (Conrad, 2011), Talco de Vidro (Veneta, 2015) e Hinário Nacional (Veneta,  2016), além do próprio Tungstênio (Veneta, 2014) são obras comparáveis aos melhores momentos da literatura nacional contemporânea.

Neles, o quadrinista  apresenta um verdadeiro desfile de tipos brasileiros bem populares de forma muito legítima e sem folclore, mas com muita atenção ao linguajar e maneirismos típicos.

À todos, Quintanilha oferece a mesma tinta, generosidade e um olhar sempre atento às contradições.

Desta forma, Todos os Santos cumpre um serviço aos leitores ao resgatar parte de sua obra pregressa que, ou estava inédita, ou havia sido publicada em revistas e jornais, muitos deles no estrangeiro.

Aqui, há HQs curtas, ilustrações editoriais, tiras de jornal (produzidas em 2010 para o Estado de S. Paulo) e até suas HQs iniciais, de quando começou no ramo aos 16 anos (em 1988), desenhando histórias de gênero (kung fu e terror) para as revistinhas da saudosa Editora Bloch.

HQ de 1988, para a revista Mestre Kim, da Editora Bloch
Além do trabalho gráfico, enriquecem a bela edição em capa dura da Veneta um prefácio de Aldir Blanc, uma entrevista de Quintanilha para a influente revista inglesa ArtReview conduzida pelo igualmente influente jornalista Paul Gravett e mais um texto de Márcio Paixão Júnior, mestre em Comunicação pela UnB.

Inspirado por Salvador

Na entrevista com Gravett, a chave para entender o fascínio de Quintanilha com os tipos populares.

“Venho de uma família de classe baixa e me criei em um bairro operário decadente.  Sou filho de um ex-jogador de futebol e uma professora primária. Meu entorno expressava a rotina de outras tantas  famílias oriundas de núcleos de pescadores ou pequenos comerciantes, militares de baixa patente ou funcionários públicos de baixo escalão”.

Pronto. Em poucas palavras, o próprio autor descreve a fauna humana que povoa suas HQs. Um exemplo bem claro está na própria Tungstênio.

Em outra entrevista – desta vez, a este mesmo Caderno 2+, em julho de 2014, Quintanilha contou que teve a inspiração para a HQ quando esteve em Salvador dez anos antes, para produzir o álbum Cidades Ilustradas: Salvador (Casa 21, 2005).

“A ideia para o argumento surgiu à partir de uma sucinta notícia transmitida pela Rádio Sociedade (então AM), que costumo acompanhar por internet”, contou.

“Girava em torno de uma dupla que havia sido detida nas imediações do Forte Monte Serrat por pescar com explosivos. Antes que pudesse perceber, estava criando um enredo em torno do fato. Sim, contei com o apoio do material levantado quando de minha estadia aí em 2004”, disse.

Em Todos os Santos, a capital baiana segue presente na obra do niteroiense, em uma das tiras para o Estado de S. Paulo. Um deleite.

Todos os Santos / Marcello Quintanilha / Veneta/ 112 páginas/ R$ 84,90

quarta-feira, junho 20, 2018

O PUNK MORREU PRA QUEM TÁ MORTO

Antifascismo, futebol raiz e punk rock: são os Antiporcos na área

Dudu, Paulo, Lucas e Tripa 77. Foto Murilo Assis
Formada por veteranos de outras bandas da cena punk / hardcore local, a Antiporcos se caracteriza pelo estilão clássico e pelo caráter combativo e antifascista.

Não a toa, seu novo trabalho se intitula Contra o Genocídio do Povo Negro.

Com cinco faixas, o novo EP tem basicamente dois assuntos: a exclusão e o racismo estrutural que marcam o desenvolvimento da sociedade brasileira e o futebol.

Pelos títulos das faixas dá pra ter uma ideia da pegada: Contra o Genocídio do Povo Negro, Batem Primeiro Perguntam Depois, Caminhando Pelas Ruas, Hooligans e Ódio Eterno ao Futebol Moderno.

“(Esse tema veio do) Cotidiano né? Não precisa ter um acontecimento específico ou ver noticiários. Basta andar e observar um pouco a sua volta que verá o quanto a cidade mais negra do país é preconceituosa. A banda é formada por quatro caras negros, que cotidianamente passam por situações discriminatórias, até um tanto agressivas por parte do estado”, afirma o vocalista Eduardo Felipe Teixeira Lima, o Dudu.

“Por fim, o tema do Genocídio do Povo Negro é algo que tem obrigação de ser difundindo por todos, inclusive no punk. Claro, a questão da Chacina do Cabula nunca foi esquecida por nenhum de nós e fizemos questão de registrar na letra”, acrescenta o cantor, que também é advogado.

"É um tema que precisava ser falado, sendo nós uma banda punk do estado mais negro e dos mais violentos do Brasil", afirma Paulo Sérgio (guitarra).

"Não faço parte de nenhum movimento Negro. Contudo, estou ligado a grupos de Ação Antifascista que atua na capital, que acaba abarcando questões raciais também", completa Dudu.

Conectada ao grupo local Ação Antifascista Salvador, a banda utiliza o punk como veículo de difusão de ideias  contra o racismo, o machismo, a homofobia e exploração do homem pelo homem.

“Partimos da necessidade de utilizar o punk rock como instrumento de reação a opressão praticada por aqueles que se encontram hierarquicamente superior na sociedade, seja de forma econômica, jurídica ou social”, afirma Lucas Pellegrini (baixo).

“Até porque não vemos muitas bandas falando sobre isso”, acrescenta.

Mané Copa!

Apaixonados por futebol, os Antiporcos também sempre abordam o tema em suas letras.

“Atualmente, quase tudo (está errado no futebol). Acabaram com a festa nos estádios, expulsaram as camadas menos abastadas com  ingressos absurdos, a forma de jogo está cada vez menos empolgante”, afirma.

“Muito cacique, corrupção e gentrificação”, resume Paulo Sérgio.

"Vou dar a mesma resposta que dei ao mano da empresa em que revelamos as telas de serigrafia pra pintar nossas camisas, o futebol está sendo monopolizado pelos grandes capitalistas, de início, o legado da copa foi um futebol caro e usurpado do povo. As arenas cobram caro pro povo que não pode pagar pelo ingresso, piorou pra consumir aquela cerveja quente e cara e o hotdog seco... estamos perdendo o direito de torcer", completa Pellegrini.

A prova de que realmente entendem de futebol é cabal: não estão nem aí pra Copa.

“Eu não curto seleção brasileira. Minha seleção é o Esporte Clube Vitória”, diz Dudu.

“Só torço pela seleção do Esporte Clube Bahia”, ecoa Pellegrini.

“Não torço, mas ficarei feliz se o Brasil chegar longe na competição. A camisa do Brasil foi apropriada pelos coxinhas, mas cada um é livre pra usar a camisa que quiser”, contemporiza Paulo.

No momento, a banda tem feito poucos shows, já que um deles está com a filha ainda bem pequena e outro, com um bebê a caminho nos próximos dias.

"Atualmente não (tem rolado shows). Temos feitos mais shows locais, questão familiar mesmo. Paulo tem uma filhinha, eu estou com o meu filho previsto pra nascer agora final de Junho, acaba que temos de conciliar as coisas. Quando surge algo realmente legal pra tocar fora, nos organizamos e fazemos. Como foram nossas últimas idas, em 2017, para os interiores de Pojuca e Catu, onde temos uma galera que curte nosso som e sempre nos apoia", relata Dudu.

"A banda tem tocado pouco fora de Salvador, mas pretendemos fazer um show de lançamento em breve, e possíveis shows no interior e em Aracaju", acrescenta Paulo.

"Novamente estamos passando pelo processo de chegada de mais um integrante pra nossa banca, O guri de Dudu tá prestes a nascer então, agora que lançamos na web e os discos estão na pista pra vender, camisas no forno pra sair, stickers, gravuras, o foco é movimentar esse material pra tentar fazer um caixa pro próximo EP que está pronto e o nascimento de Gabriel. Quando der a gente lança ao vivo, isso fica sempre bem definido entre a gente internamente", conclui Pellegrini.

Facebook: @antiporcos1312



NUETAS

Gigito com chope

Sexta-feira é dia de comemorar a vitória (ou a derrota, ao gosto do freguês) da seleção no Bardos Bardos com o fantástico Gigito e seu bluegrass desapegado. Acompanhe com um chope artesanal da casa. 18 horas, pague quanto quiser. O Bardos Bardos fica à Travessa Basílio de Magalhães, 90, Rio vermelho.

O niver de Raul

No dia 28 próximo (uma quinta-feira), aniversário de Raul Seixas, pelo menos dois eventos prestarão tributo ao maior roqueiro brasileiro de todos os tempos. No Rio Vermelho as bandas Fridha e Hottafyah se apresentam no Palco Raulzito a partir das 16h20. Já na Praça Pedro Archanjo (Pelourinho), a banda Arapuka e convidados fazem uma Raulzada, comemorando os 10.073 anos do Maluco Beleza. No dia 28, a partir das 19 horas, entrada gratuita. E viva Raul, poxa!

sexta-feira, junho 15, 2018

SÓ O AMOR CONSTRÓI - MESMO ENTRE OS MARGINAIS

Cinema: Stay Sick, novo filme de Alexandre Guena e Coletivo Os Sádicos, tem lançamento hoje, na Sala Walter da Silveira

O cinema marginal baiano está vivo e bem nos filmes do diretor Alexandre Guena. Hoje, ele lança sua nova obra, Stay Sick (literalmente, “Permaneça Dodói”), com um evento na Sala Walter da Silveira.

Junto ao filme, assinado por Guena à frente do coletivo Os Sádicos, serão exibidas duas outras obras suas: Walterville (cine-instalação premiada no Festival Nacional 5 minutos) e 1964 (de 2010).

Além dos filmes, haverá discotecagem do DJ BigBross e bate-papo com membros da produção, Tatiana Trad (artista Multidisciplinar e Mestra em Cultura e Sociedade - UFBA) e Rodrigo Araújo (professor de Filosofia do IFBA).

Stay Sick reafirma a veia autoral de Guena ao povoar a tela de personagens absolutamente amorais e à margem de qualquer tentativa de integração à sociedade.

Com 12 minutos em P&B, Stay Sick narra a trajetória da família Foxy (pai, mãe e bebê) pelas ruas de Salvador, entre pequenos assaltos, delírios à beira-mar e fartas doses de conhaque com leite e Sucrilhos.

A linguagem não engana: Guena é devoto confesso  da Nouvelle Vague, neo realismo italiano, John Cassavettes e (claro) Cinema Novo.

“É por ai mesmo. Adoro todas essas escolas de vanguarda. Acrescentaria o Cinema Marginal e o Dogma 95. Mas acredito que estamos apontando para algo novo e particular”, afirma.

“A originalidade sempre foi um ponto forte em todos os filmes do coletivo Os Sádicos. Porém, neste filme, as influencias estão mais claras, assim como existe um maior dialogo com o publico”, acredita.

Romance de rua

Se não há moral entre os personagens interpretados por Caio Graco e Raabe Aimi, o mesmo não se pode dizer do amor. À sua maneira, Stay Sick é um filme muito  romântico.

“É tudo fictício. Amo a ficção. A farsa. Bolei Stay Sick após conhecer a namorada do meu amigo Caio Graco. Eles eram tão lindos e malucos que fiquei alucinado pra filmar aquela paixão entre os dois. Isso está gritando e ardendo na tela”, afirma Guena.

“É um filme extremamente romântico ao seu modo. Imaginei eles constituindo família – e nesse menage a trois de ideias acabou se tornando um filme formidável”, acredita.

Apesar da premissa ousada, é lícito dizer que não há nenhuma cena assim, chocante no filme, no que tange ao sexo e violência.

A transgressão está no próprio conceito de um casal jovem com um bebê de colo cometendo assaltos sem qualquer consequência ou culpa.

Mas afinal de contas, quem são Os Sádicos? Guena responde em inglês: "'Sadistics' project eludes definition - Sadistics' films are a thrust of candid violence and über reality that pierce through your skull like a bullet - they've a life of their own. Shocking, daring, underground-rears-up-its-ugly-head movies: that's Sadistics".

Sempre ativo, Guena conta que está com a gaveta abarrotada de roteiros.

“Quem faz cinema não pode ficar parado. Tenho diversos roteiros na gaveta, escrevo muito mais do que filmo, e estou criando um filme onde um homem faz tatuagem no seu próprio corpo sozinho em sua casa”, conta.

“Também tem um projeto com Mariella Santiago que deve sair do papel em 2019. Agora estou preparando oficinas. Uma delas com meu amigo argentino Martin Fox Douglas e Marcos Pierry - que deve se chamar Fique Rico Fazendo Cinema Underground”, conclui.

Stay Sick Party / Exibição dos filmes Stay Sick, Walterville e 1964 / Com DJ Big Bross e bate-papo com Tati Trad  e Rodrigo Araújo  / Hoje, 19 horas  / Sala Walter da Silveira / R$ 10 e R$ 5

quarta-feira, junho 13, 2018

MAPA, AURATA E SOFT PORN PEGAM ESTRADA PARA OITO CIDADES DO SUDESTE. ANTES, SHOWS NO MERCADÃO CC

Rapaziada da Soft Porn, Aurata e Mapa junta, foto Lincoln Fonseca
Entupir um carro de instrumentos e bagagens  e pegar a estrada para sair tocando pelo Brasil. Toda banda de rock que se preze tem que, pelo menos uma vez, passar por esse ritual de iniciação.

Que o digam os Honkers, Cascadura e outras cujos nomes se perderam na purple haze do tempo.

Desta vez, são três nomes da novíssima cena local que encaram o desafio: MAPA, SOFT PORN e Aurata.

Trata-se da  NHL Tour 2018 Invisible Drums, que   vai passar por oito cidades do Sudeste entre 5 e 15 de julho: Vitoria (ES), Gov. Valadares, Montes Claros e Belo Horizonte (MG), São José dos Campos, Taubaté e  São Paulo (SP), fechando a viagem no Rio de Janeiro.

A iniciativa é dos próprios músicos (claro), em parceria com o bravo produtor local Kairo Melo, da NHL Produções Artísticas.

“Depois de passar mais de dois anos recebendo bandas de fora do estado em Salvador e programando algumas mini-turnês para estas mesmas bandas pelo interior da Bahia, resolvemos fazer valer o tal do intercâmbio cultural e fomos bater à porta das bandas que ajudamos a tocar por aqui”, conta Kairo.

“O pontapé inicial foi na última vinda do Bike (SP) a Salvador. Eles são uma das bandas mais bem articuladas da cena nacional e nos ajudaram bastante com vários desses shows. Quem também agilizou quase todo o estado de Minas Gerais foi o mestre Vitor Brauer e sua Geração Perdida”, detalha.

Para  esquentar os tamborins, as três bandas se apresentam dois sábados de junho (neste próximo e no dia 30), no Mercadão CC, nova  casa de Messias GB (brincando de deus).

“Serão como ensaios abertos e um pedido de benção ao nosso público para esse novo formato de show. Porque durante toda a turnê faremos um tipo diferente de apresentação, onde os três projetos solo estarão no palco, tocando juntos músicas dos três projetos”, conta o produtor.

“Os shows do Mercadão serão as primeiras experiências nesse novo formato,  serve pra firmar a ideia e apresentá-la ao nosso público antes do Brasil. Pra isso também convidaremos amigos geniais para nos acompanhar. O do dia 16  vai ter a participação da lenda Ivan Motosserra comandando as pickups”, acrescenta.

Aprendizado

Um detalhe que facilitou bastante é que as três bandas da tour são projetos solo que se utilizam de bateria eletrônica – daí o título Invisible Drums (literalmente, bateria invisível).

Além da experiência incrível de rodar pelo país levando sua arte a outros públicos, músicos e produtor aproveitarão para ampliar seus horizontes e fazer contatos importantes.

“Acho até que essa parte dos contatos tende a ser mais importante na visão geral. Vamos conhecer como funcionam outras cenas, aprender como é realmente um show na Rua Augusta (SP). E ainda por cima acompanhados de produtores e bandas que admiramos. Acho que a palavra chave  é aprendizado”, conclui.

NHL TOUR 2018 INVISIBLE DRUMS / Com  MAPA, SOFT PORN e Aurata / Sábado e dia 30 (sábado), 23 horas / Mercadão CC (Rio Vermelho) / R$ 10 

ENTREVISTA: CAIRO MELO (NHL PRODUÇÕES ARTÍSTICAS)

Como surgiu essa oportunidade?

Cairo Melo:  A oportunidade não surgiu, nós fomos atrás dela. hehehe. Depois de passar mais de dois anos recebendo bandas de fora do estado em Salvador e programando algumas minis-turnês para estas mesmas bandas pelo interior da Bahia, além de termos realizado nossa primeira tour pra o Centro-oeste em 2017, resolvemos fazer valer o tal do intercâmbio cultural e fomos bater a porta das bandas que ajudamos a tocar por aqui. O pontapé inicial foi na última vinda do Bike(SP) a Salvador. Eles são uma das bandas mais bem articuladas da cena nacional e nos ajudaram bastante com vários desses shows. Quem também agilizou quase todo o estado de Minas Gerais foi o mestre Vitor Brauer e sua Geração Perdida. Eu irei apenas nos finais de semana, de avião, enquanto a galera pega a estrada e passará mais de duas semanas circulando por esse Brasilzão.

A turnê é toda de carro? Vocês vão em um carro de passeio mesmo ou pelo menos conseguiram uma van?

CM: Sim, a turnê será toda de carro.Carro de passeio mesmo. Isso só é possível por serem três projetos solos. Mais uma das vantagens do Invisible Drums. hehehe

Imagino que dá um trabalhão coordenar as datas e locais todos, com o tempo hábil para chegar em cada local. Como foi essa parte do trabalho?

CM: E bota trabalhão nisso. Para você ter ideia só conseguimos fechar todos os locais e bandas de apoio agora, a um mês do início da turnê. É um trabalho pesado, mas gratificante, é aquela coisa de chegar e falar, na cara de pau mesmo, chama uma banda, se não der certo com esta, pede indicação de uma banda amiga, fala com um produtor local e se dispõe a qualquer acordo, aquela coisa. A questão do tempo hábil, planejamos a turnê levando em consideração o caminho e sempre pensando em quanto tempo leva de uma cidade pra outra. Isso não chegou a ser um problema. No geral, encontramos ótimos parceiros entre produtores que sempre quisemos trabalhar e bandas que sempre quisemos tocar.

Além de fazer shows, imagino que essas viagens são uma garnde oportunidade de fazer e estreitar contatos. Como a NHL e as bandas pretendem aproveitar essa oportunidade?

CM: Com certeza, acho até que essa parte dos contatos tende a ser mais importante numa visão geral da Tour do que as apresentações em si. Afinal vamos conhecer como funciona outras cenas maiores do Brasil, poderemos aprender como é realmente um show na Augusta em São Paulo, por exemplo e ainda por cima acompanhados de produtores e bandas que sempre admiramos. Acho que a palavra chave dessa Turnê será aprendizado. Para fazer funcionar mesmo essa estreitação de laços, preferimos sempre fechar os shows com produtores que já trocávamos idea virtualmente, ou com bandas que já vieram tocar aqui. Para assim, fechar o ciclo de intercâmbio e ter certeza que seremos bem recebidos. Claro que tem também a ousadia de chegar e falar com uma casa de shows como a Audio Rebel no Rio de Janeiro e conseguir fechar o show lá. Não fazemos ideia como alguns shows podem ser, mas teremos certeza que aprenderemos muito com todos.

Os shows no Mercadão são uma forma de esquentar as turbinas? O que podemos esperar desses shows?

CM: São exatamente isso. Serão como ensaios abertos e um pedido de benção do nosso público soteropolitano para esse novo formato de show. Porque durante toda a turnê faremos um tipo diferente de apresentação, onde os três projetos solos estarão no palco, tocando juntos músicas dos três projetos (inspirado principalmente nas últimas turnês de Vitor Brauer, que se juntou com Jonathan Tadeu e Fernando Motta, outros projetos solos de BH, e circularam o Brasil tocando juntos músicas dos três). Os shows do Mercadão serão as primeiras experiências com esse novo formato, portanto serve pra firmar mesmo a ideia e apresentá-la ao nosso público antes do Brasil. Pra isso também convidaremos amigos geniais para nos acompanhar nesses shows, como o do dia 16, que vai ter a participação da lenda Ivan Motosserra comandando as pickups.

Me diga o que vc realmente queria dizer mas eu não perguntei...

CM: O que quero dizer é que espero que essa tour incentive as bandas e projetos de Salvador e da Bahia a porem o pé na estrada e arriscar mesmo. Porque é assim que tem sido feito pela maioria das bandas que vem chamando atenção na cena alternativa nacional e eu acredito ainda ser um método pouco explorado pelas bandas e projetos baianos. Acredito que o intercâmbio cultural é a única forma de manter viva a chama da música alternativa nacional e deve ser explorada em todos os sentidos. Queria deixar também o chamado para os shows do Mercadão porque estes shows nos ajudarão a visualizar a recepção do público além de nos ajudar a tirar uma graninha que pode ajudar a encher pelo menos o primeiro tanque. hehehe

NUETAS

Barba cabelo bigode

Bem ativa nos últimos meses, a banda Flerte Flamingo se apresenta nesta quinta-feira em local inusitado, a Jack Navalha Barbearia e Bar (Av. Marques de Leão, 639, Barra). 19 horas, R$ 10

Honkers desplugado

Os fabulosos The Honkers estreiam set acústico (ou pseudoacústico) sexta-feira, na Tropos. 21 horas, pague quanto puder.

Paraíba orquestral

O Quinteto da Paraíba se apresenta de sexta-feira a domingo na CAIXA Cultural, dentro da série de concertos Brasil Orquestral, com curadoria do  diretor teatral Gil Vicente Tavares e do maestro Carlos Prazeres (Osba). No repertório, um cruzamento entre as músicas nordestina e de concerto. Além dos músicos, a bailarina e coreógrafa Bárbara Barbará também se apresenta. Sexta e sábado às 20 horas, domingo às 19 horas. R$ 10 e R $5.

terça-feira, junho 12, 2018

UM NOVO (E BELO) CAPÍTULO

Dono de impressionante consistência na carreira de mais de 25 anos, Ronei Jorge lança amanhã, com show no Teatro Sesc Pelourinho, seu primeiro álbum solo: Entrevista

Os dois lados (dos muitos) de Ronei Jorge, em foto de João Milet Meirelles
Amanhã, o cantor e compositor soteropolitano Ronei Jorge inicia um novo capítulo de sua carreira de mais de 25 anos: Entrevista, seu primeiro disco solo, será lançado com um show no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Desde 1992, quando surgiu  à frente da banda punk tropicalista Mütter Marie, Ronei vem construindo uma carreira das mais singulares do cenário local – e também uma das mais consistentes.

Singular também é o lugar de Entrevista em sua carreira. Fora o fato óbvio de ser o primeiro disco solo de um artista sempre ligado à bandas (Mütter, Saci Tric, Ladrões de Bicicleta), a obra traz o inquieto músico explorando outras estéticas e sonoridades.

“Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda queria também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios”, diz Ronei.

O que salta aos ouvidos é que, aqui, Ronei canta pela primeira vez acompanhado ao longo de todo o disco pelas vozes afinadas da dupla Carla Suzart (baixo) e Aline Falcão (teclado, piano e sanfona).

Juntas, as vozes de Aline e Carla auxiliam Ronei a implementar uma estética específica que ele buscou para Entrevista, algo entre Tom Jobim e Itamar Assumpção, que se utilizavam muito das vozes femininas para pontuar as harmonias e cantar em contraponto.

“Tanto Carla quanto Aline  cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho”, nota o artista.

Completam a banda o guitarrista Ian Cardoso (que já toca com  Aline na ótima Pirombeira) e o baterista Maurício Pedrão, parceiro de Ronei desde os Ladrões de Bicicleta.

Juntos, o quarteto Carla - Aline - Ian - Maurício formam a banda Dziga Tupi, nomeada pelo próprio Ronei, que, confessa, não sabe trabalhar sem uma banda pra chamar de sua.

”Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido”, conta.

“Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote”, diz.

Fora da caixinha

Indefinível – como de resto, tem sido seus discos ao longo da carreira – Entrevista é bem a obra de um artista que não aceita se confinar em caixinhas ou prateleiras de gêneros ou estilos musicais.

Aqui e ali é possível pescar suas referências – Caetano, vanguarda paulista, Tom Jobim – mas em nenhum momento se identifica a vontade de soar igual a eles.

“Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda”, aquiesce.

“Eu tinha pensado em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto”, detalha.

Com a produção rebuscada de Pedro Sá – responsável pelo  antológico Frascos Comprimidos Compressas (2009), com os Ladrões de Bicicleta – Entrevista ainda se vale de algumas participações especiais: Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi).

A bela capa é de outro ex-Ladrões, o guitarrista  Edson Rosa e é literalmente uma pintura. Uma embalagem à altura para tamanha beleza.

Ronei Jorge & Dziga Tupi: Entrevista / Amanhã, 20 horas / Teatro Sesc Senac Pelourinho / R$ 20, R$ 10

Entrevista / Ronei Jorge / Independente (com apoio do Fundo de Cultura, SecultBA e Sefaz) / Nas plataformas digitais / CD: R$ 20



ENTREVISTA COMPLETA: RONEI JORGE

Álbum finalizado e lançado, o que te passa na cabeça sobre a obra agora?

Pô gente, deixa o homem dormir! Foto JMM
Ronei Jorge: Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios. A capa de Edson Rosa é um presente, uma arte maravilhosa e que tem tudo a ver com o disco. As participações enriqueceram bastante o trabalho. Tem um álbum ali. Um caminho estético bem definido. A equipe, tanto no estúdio quanto na pós, foi fundamental. O entendimento de Tadeu Mascarenhas na técnica, Igor Ferreira na mix e Daniel Carvalho na master fez tudo começar e terminar bem. Acho que o maior desejo é que as pessoas escutem e que ele possa reverberar de alguma forma. Que as pessoas tenham a chance de escutá-lo com calma, o que hoje é mais difícil. Ele é bem representativo para mim artisticamente e bem fiel ao som que eu e a banda estávamos fazendo durante os ensaios.

O que te levou a chamar Pedro Sá para produzir este disco - fora o fato de já conhece-lo e aos seus métodos de trabalho? Que características você buscava no produtor?

RJ: Eu gostei muito de ter trabalhado com ele no ‘Frascos Comprimidos Compressas’ da Ladrões. Ali, ele já tinha me apresentado coisas que admiro muito numa direção de trabalho. Ele tem uma tranquilidade no estúdio que tem a ver com sua atenção, a ansiedade passa longe; então, você não vê ali um cara que quer te entupir de informação, você vê um produtor que quer que você renda da melhor forma possível e que te dá indicações sensíveis, sutis e importantes de como fazer isso. O ouvido dele está sempre atento – ele tem um ouvido muito musical –, mas ele só vai fazer observações precisas e inteligentes, no momento certo. Pedro é um produtor de pé de ouvido, chega junto de cada músico, ouve, pergunta, tenta buscar com cada um o melhor caminho para a música, sempre a serviço dela, do resultado final. Todo mundo fica bem tranquilo e seguro. Eu acho isso muito precioso, porque você tem no estúdio alguém em que você confia e admira. Você tem um produtor que entende o que você quer como resultado e consegue fazer uma leitura muito inteira do seu trabalho e potencializa ele tanto no estúdio quanto no acompanhamento na pós-produção. Além disso, é um amigo, um cara que abraçou esse projeto de uma maneira muito bonita e séria. Mesmo com dificuldades que surgiram, ele enfrentou tudo de maneira muito corajosa.

Você tem uma forma muito peculiar de escrever sobre - e descrever - relacionamentos. Que pistas você poderia nos dar para entender de onde vem essa lírica tão particular?

RJ: A gente que tá dentro do processo não percebe muito isso. Inclusive, algumas leituras são muito interessantes sobre o que escrevo. Um amigo, dia desses, me definiu como um falso romântico. Como se meu texto falasse de quem vê a ilusão, sabe que ela existe, mas não deixa de se envolver com ela. Palavras dele. Eu acho que tem realmente muito disso. Agora, a matriz disso é mais difícil ainda de se identificar. Acho que tem um pouco da experiência pessoal e de audição e leitura de artistas que admiro. No final das contas, essas relações humanas acabam abarcando um pouco de tudo. As nossas virtudes e vícios, culpa e prazer estão nessas relações. É mais universal, amplo, mas acaba falando de um monte de coisa. Desde nossos sentimentos mais íntimos, até nossa relação com as coisas do mundo político, profissional etc.

Como se deu seu encontro com esses músicos extraordinários que são Carla Suzart, Aline Falcão e Ian Cardoso? Como avalia a contribuição deles para o resultado final do álbum?

Dziga Vertov: Aline, Ronei, Carla, Ian e Maurício, foto João Milet Meirelles
RJ: Eu sou realmente um cara de sorte. Veja, não tiro minhas qualidades como um observador, uma pessoa que gosta de agregar, mas poderia dar tudo errado. Eu acabei juntando pessoas de lugares bem diferentes, mas que tinham em comum o fato de terem uma personalidade musical muito marcante. Ian eu vi quando fui jurado do Caymmi, fiquei fascinado com o fraseado, a técnica e a liberdade. Ian é muito livre e despido de preconceitos. Aline veio depois da saída de Lívia Nery. Eu tinha visto Aline com o Pirombeira e qualquer pessoa fica maravilhado com ela. Aline tem um vocabulário musical incrível e muita sensibilidade. Tem momentos que você percebe que ela está totalmente entregue à música, ali é o mundo dela, ela toca como se estivesse conversando, com uma naturalidade impressionante. Sabe tudo e mais um pouco. Toca demais. Carla eu conheci através de João Meirelles. João convidou ela para tocar com a gente no Tropical Selvagem e eu já cresci o olho naquela musicista de percepção sensível. Carla toca baixo de maneira muito particular, melodioso e com pausas e notas muito inteligentes. Além disso, tem um senso de conjunto muito apurado. Tanto Carla quanto Aline também cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho. Pedrão também tem essa característica particular, uma assinatura, uma preocupação com o timbre do instrumento, com a ambiência. Ou seja, todos eles contribuíram de forma decisiva nos arranjos, seja por característica própria, ou por nossas conversas e nossos ensaios constantes. Eu levei para eles minha ideia inicial e fomos lapidando juntos. Eles trabalharam nas músicas intensamente.

O álbum ficou bem indefinível, um traço próprio de artistas que não se satisfazem em caixinhas. Ao mesmo tempo, isso pode ser um problema na hora de "se vender" como artista, vender shows etc? Como você lida com essa corda bamba, esse fio de navalha?

RJ: Eu tinha pensado bastante em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto. Com a banda, fomos fazendo tudo isso. Eu nunca pensei em como lidar com essa indefinição porque a composição aparece para mim como uma necessidade, consequentemente, todo o entendimento estético que vai abarcar essas canções também: os arranjos, timbres, produção, a arte e finalmente o disco, a obra. Depois de feito isso tudo, você percebe o tamanho do pepino. Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda.

O nome Dziga Tupi é uma referência tropicalista? "Tupi or no tupi", aqueles lances todos? O Dziga é do (cineasta russo Dziga) Vertov?

Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido. Tem esses lances de raízes; tecnologia; brasilidade; mundo; passado; futuro, essas aparentes contradições e isso tudo é meio tropicalista. Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem uma banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote. Em relação ao nome, realmente eu parti do Dziga – sim, é o Vertov mesmo – por causa da relação com cinema que já tinha na Ladrões de Bicicleta. Fiz essa graça. Esse nome, que já é um apelido do diretor russo, tem uma sonoridade ótima. Assim como Tupi, que eu acho muito bonito. E é interessante pensar que teve uma TV Tupi. Mas, antes de tudo, é um apelido carinhoso, um nome afetuoso para esses músicos tão presentes nesse trabalho.

Saci Tric na revista Bizz 184 (nov 2000). Blog Disco Furado
Te conheci cantando na Mütter Marie, uma banda que em alguns momentos soava como Dead Kennedys, e ao longo das décadas você veio se refinando em suas bandas subsequentes. Você ainda se reconhece naquele início quase punk rock? O que o Ronei de 2018 diria àquele Ronei de 1992?

RJ: Diria: respire um pouco. Brincadeira. Acho que todas essas bandas foram importantes para minha formação. Ter encontrado com esses músicos – todos meus amigos até hoje – fez muito parte de minha formação. Desde a Mutter Marie, eu e meus amigos prezamos pela liberdade. Acho que a gente acabava não se enquadrando em nenhum gênero. E é interessante sua comparação porque o Dead Kennedys era uma banda que estava no punk, mas era meio fora da caixa. Na Mutter Marie, a gente de maneira torta já estava flertando com música brasileira. De uma maneira deliciosamente irresponsável, é verdade. Então, eu me reconheço nessa liberdade, nesse senso de coletividade, no desejo de estar constantemente burilando meu trabalho. Apesar de minha aparente tranquilidade, minha cabeça não tem muito sossego.

Tem planos de circular com este show pelo interior e outros estados? O que podemos esperar de Ronei e Dziga Tupi nos próximos meses?

RJ: Hoje, acho que não temos muito como prever o que acontece depois do disco pronto. Tem muitas variáveis possíveis. Essa coisa das plataformas digitais, da música passeando na internet, é um mundo muito vasto e muito imprevisível. O desejo de viajar com essa banda é imenso. Testar esse show, perceber novas possibilidades de interpretar essas e outras músicas, é o que queremos. Vamos ver como o disco e o show chegam nas pessoas.

sexta-feira, junho 08, 2018

A PENA DA GALHOFA DE UM BAIANO QUE "NÃO PRATICA"

Com cortejo saindo do Caboclo, Franciel Cruz lança hoje Ingresia no Icba

Em busca da moça do shortinho Gerassamba, Foto Sora Maia
Ao se deparar com a foto ao lado, o incauto leitor se detém por um instante, perguntando-se o que deve se passar na cabeça do retratado: a cotação do dólar? Eleições? O preço do combustível? Tsc. Na  cabeça do jornalista Franciel Cruz, que lança hoje seu primeiro livro, se passam  outras coisas.

Poucas delas são sérias – e nenhuma tão vulgar quanto os assuntos citados. Em Ingresia: Chibanças e Seiscentos Demônhos (P55), Franciel versa, com a verve que seus amigos e seguidores do Facebook conhecem, sobre um assunto de muito maior monta: aquilo que ele chama de “A Enigmática Chinfra Baiana”, título de uma das dezenas de crônicas do livro.

Fruto de uma bem sucedida campanha de crowdfunding – termo que detesta – Ingresia reúne os melhores textos publicados por Franciel em blogs e redes sociais na última década e meia. Tudo por insistência dos amigos.

“Amigo, você sabe, não é raça de gente. Então, este livro, na verdade, é uma forma de me livrar  deles. Ou, melhor da sua ladainha”, conta.

“Você tá num bar, querendo conversar sobre coisas importantes, tipo a cotação do bitcoin, e o cara fica em seu ouvido ‘Françuel, você tem que lançar livro, tem que lançar’... Quem porra aguenta isso? Não tem amizade que resista. Assim, o livro também é uma forma de preservar os amigos”, acrescenta.

Natural de Irecê, Franciel vem se tornando, ao longo das décadas, uma das maiores autoridades desta qualidade (ou defeito) indecifrável conhecido como “baianidade” – embora negue.

“Jamais serei autoridade em qualquer disgrama. Meu lugar de fala na baianidade é um samba-reggae de uma nota só: sou baiano, mas não pratico”, despista.

“Na verdade, este conceito do que entendemos de baianidade é esta ficção criada, especialmente pela dupla Caymmi & Jorge, com o auxílio pernicioso do Cabeça Branca. O fato é que esta baianidade se resume ao roteiro do dendê, mas a Bahia é muito maior do que isso”, afirma.

Tradicional de primeira

Com orelhas de Xico Sá, prefácio de Cláudio Leal e posfácio póstumo (escrito em 2014) por André Setaro, Ingresia desde já se configura em um dos lançamentos literários mais aguardados / badalados desta – como ele costuma dizer – “besta e bela província”.

Tão badalado que inaugura um novo – e desde já, tradicional – tipo de evento: o cortejo literário.

Em volta do carrinho de café multimídia da agitadora cultural Ana Dumas, Franciel, Núbia Rodrigues (que também lança seu livro infantil Sítio Caipora) e amigos sairão do caboclo do Campo Grande em direção ao ICBA, onde se dará a sessão de autógrafos.

“O livro bebe na fonte, com o perdão da má palavra, da iconoclastia. Então, quando Ana Dumas ofereceu o seu glorioso Carrinho Multimídia para animar a chibança, eu pensei logo em meter zuada”, diz.

“Conversei com Núbia e acertamos de marcar o primeiro e já tradicional cortejo literário. Sim, na Bahia é assim: a zorra nem começou direito e já é tradicional. Então, não sei o que será o cortejo literário. É o que acontecer. Vamos estar no pé do caboclo no Campo Grande chorando, caminhando, cantando e vendendo livro até chegar ao Pátio do ICBA, onde acontecerá o lançamento propriamente dito”, conclui.

Lançamento dos livros Ingresia, de Franciel Cruz, e Sítio Caipora, de Núbia Rodrigues / Hoje,  15h59 / Haus Kaffee (pátio do ICBA) / Gratuito

Ingresia: Chibanças e Seiscentos Demônhos / Franciel Cruz / P55/ Orelha: Xico Sá/ Prefácio Cláudio Leal/ 260 p./ R$ 30

ENTREVISTA COMPLETA: FRANCIEL CRUZ

Incentivado pelos amigos podemos entrar em diversas roubadas. Essa é uma delas?

Franciel Cruz: Totalmente. Amigo, como você bem sabe, não é raça de gente. Então, este livro, na verdade, é uma forma de me livrar  dos amigos. Ou, melhor dizendo: da ladainha deles. Porra. Você tá num bar, querendo conversar sobre coisas importantes, tipo, sei lá, cotação do bitcoin, e o cara fica em seu ouvido "Françuel, você tem que lançar livro, tem que lançar"... Quem porra aguenta isso? Não tem amizade que resista. Assim, o livro também é uma forma de preservar os amigos.

Seu estilo de cronista tem muita verve e neologismos. Que autores o influenciaram? Alguém é capaz de te influenciar?

FC: Sim. Sou totalmente influenciável. Exatamente por isso, me lenho todo. A pessoa amiga diz: vamos comer água e usar substâncias não recomendadas pela Carta Magna. E eu, todo trabalhado no influencialismo, aquiesço.  Mas na seara, digamos assim, literária óbvio que sempre rola umas influências, pois tudo acaba lhe (con) formando.  Dos tradicionais & consagrados, creio que Rubem Braga. Aliás, não compactuo com a avaliação de que ele é lírico, no sentido romântico. Na verdade, acho que o lirismo dele está mais próximo da violência, da aspereza. Óbvio que os críticos não concordarão comigo, graças a Jehová. A propósito, outra influência é Jehová de Carvalho. A Bahia precisa ler Jehová. É um cronista superior.  

Dizem que a baianidade foi uma invenção do trio ACM, Jorge Amado e Dorival Caymmi. Como uma autoridade no assunto, o que há de folclórico e o que há de verdadeiro nessa tal baianidade?

FC: Não faça isso comigo. Jamais serei autoridade em qualquer disgrama. Meu lugar de fala na baianidade é um samba-reggae de uma nota só: sou baiano, mas não pratico. Mas, derivo.  Na verdade, creio, este conceito do que entendemos de baianidade é, realmente, esta ficção criada, especialmente pela dupla Caymmi & Jorge, com o auxílio pernicioso do Cabeça Branca. O fato é que esta baianidade se resume ao roteiro do dendê, mas a Bahia é muito maior do que isso. Tem a Bahia do sertão, inventada por Elomar e cantada ancestralmente pelos repentistas. O que acho chato é que este baiano de Salvador passou a acreditar tanto nesta invenção que acabou se deixando levar pela enxurrada, perdendo um tanto assim da espontaneidade. Mas é do jogo também

Em diversos textos você fala das pequenas tiranias dos chamados "donos da cidade", sejam ricos ou pobres. Por que o baiano - ou pelo menos, o soteropolitano - tem essa tendência ditatorial de padaria?

FC: Rapaz, creio que acontece muito é que o baiano se acha muito importante, seja para o bem ou para o mal. Tem este negócio da chinfra, de tirar os outros pra otário. E isso acaba resvalando nesta coisa de achar que pode fazer o que bem entender sem se preocupar com o outro. Óbvio que, não necessariamente, isso é só ruim. Esta coisa de se achar dono da cidade tem seu lado positivo porque há uma identificação com a disgrama toda, o que torna muita coisa engraçada.

O que é um cortejo literário? 

FC: É outra ficção. O que aconteceu foi o seguinte. Eu não queria ficar preso ao empolamento literário. O livro bebe na fonte, com o perdão da má palavra, da iconoclastia. Então, quando Ana Dumas ofereceu o seu glorioso Carrinho Multimídia para animar a chibança, eu pensei logo em meter zuada. Minha amiga Núbia Bento vai lançar Sítio Caipora, no mesmo dia e local. (Aliás, comprem a obra dela. Ao contrário do Ingresia, é muito boa). Continuando. Pois bem. Quando Ana ofereceu o equipamento, eu conversei com Núbia e acertamos de marcar o primeiro e já tradicional cortejo literário. Sim, na Bahia é assim: a zorra nem começou direito e já é tradicional. Então, sinceramente, não sei o que será o cortejo literário. É o que acontecer na hora. Vamos estar no pé do caboclo no Campo Grande chorando, caminhando, cantando e vendendo livro até a chegada ao Pátio do ICBA, que é onde acontecerá o lançamento propriamente dito. 

Deu muito trabalho selecionar e editar as crônicas? Foi você mesmo que fez tudo isso, correto? Que tipo de cuidado - ou descuidado - te orientou nessa labuta?

FC: Eu fiz aquele tradicional trabalho de separar o joio do trigo. E claro, escolhi o joio. Muito joio e alguns trigos. A criatura vai lendo um bocado de coisa ruim e aí se depara com algo mais ou menos e pensa: este menino tem futuro. Mas para não deixar sua pergunta sem resposta (já vai ser a última questão, né?), seguinte. Eu praticamente havia perdido todas as coisas que rabisquei porque um abençoado, que não vou nem dizer o nome pra não dar azar, deletou a porra toda. Então, o trabalho inicial foi tentar relembrar o que já tinha escrito e onde poderia achar. Nesta labuta infeliz, reuni mais de 150 crônicas. E passei para Flávio Costa, autor do bom livro Caçada Russa (comprem, é bom, ao contrário do Ingresia), que fez uma seleção inicial. Depois fui relembrando de outras crônicas e contei com a leitura mais do que atenta de Davi Boaventura e, last but not least, Tom Correia. Óbvio que eles não têm culpa pelo resultado disgramado. Ao contrário, tentaram ajudar, mas sou teimoso. Então, o que me orientou foi a teimosia.   

Quando sai o próximo livro? Romance, contos ou autoajuda?

FC: Vou escrever o livro sobre o conceito que desenvolvi na feitura deste, chamado marquetingue-bulén. Nesta portentosa obra, vou ensinar as pessoas a venderem seus livros iguais aos mascates e cobrar iguais aos ciganos. Vai ser um fenômeno.