sábado, dezembro 08, 2018

COMO TAPEAR E EXPOR RACISTAS COMO OTÁRIOS QUE SÃO

Adaptado por Spike Lee, Infiltrado na Klan derrapa na linguagem, mas mantém interesse ao detalhar humilhação à KKK


Adam Driver e John David Washington como Flip e Ron
Existe uma diferença sutil entre oportunismo e senso de oportunidade. Oportunismo geralmente é a busca de vantagem pessoal em detrimento de princípios ou normas.

Já senso de oportunidade é aquilo que o diretor norte-americano Spike Lee demonstrou ter em abundância ao adaptar para o cinema o livro Infiltrado na Klan, de Ron Stallworth.

Em um momento no qual muitos buscam justificar seu racismo (ou supremacismo branco, boa porcaria) evocando “liberdade de expressão”, o livro de Stallworth e o filme de Lee demonstram como é fácil tapear e expor essa gente como ela é: grandes otários.

No livro, o ex-policial Stallworth conta o caso verídico de como, quase por acaso, conseguiu se infiltrar na centenária Ku Klux Klan, organização racista norte-americana surgida pouco depois da derrota do sul escravista na sangrenta Guerra da Secessão (1861 - 1865).

Detalhe crucial: Stallworth é negro.

Os primeiros contatos do tira, então um negão black power em plenos anos 1970,  com a KKK foram por telefone, daí eles não terem percebido o “detalhe”.

Incrédulos diante da audácia de Stallworth, seus superiores no departamento de polícia de Colorado Springs não tiveram outra opção senão embarcar na investigação, designando seu colega Flip Zimmerman para atuar como Stallworth nos encontros  da KKK, enquanto o próprio Ron seguia falando ao telefone e conduzindo a investigação.

Topher Grace (Eric, de That 70's Show) é David Duke, líder da KKK e brother de Trump
Bem-sucedida, a empreitada desmascarou membros da KKK infiltrados no NORAD (North American Aerospace Defense Command), órgão responsável pela segurança aeroespacial dos EUA, além de ter impedido ações de afirmação do grupo na cidade.

Relatório de tira

Sobre o filme muito já se falou – inclusive aqui no Caderno 2+ – e pode-se acrescentar que ele fecha com chave de ouro um ano que começou combativo com o igualmente espetacular Pantera Negra, da Marvel.

O que acontece aqui, com Infiltrado na Klan, é que o livro é um “bicho” bem diferente. Stallworth não é escritor, é um agente da inteligência policial.

Dito isto, é preciso cravar: seu livro é quase um relatório.

Os fatos são contados tim tim por tim tim sem muito brilho literário, mas com muita exatidão. Enfim: às vezes o texto pode ficar enfadonho, “positivo, operante”?

Isso, porém, pode  não anular em nada o interesse do leitor em seguir acompanhando a evolução da ousada investigação, que humilhou bonito uma das instituições mais vergonhosas do planeta.

Daí o senso de oportunidade do cineasta Spike Lee, citado lá no primeiro parágrafo. Se o livro às vezes derrapa na linguagem de relatório, o filme que dele resultou acrescenta suspense, emoção e catarse – muita catarse – ao potencializar a humilhação imposta à KKK com um discurso cinematográfico poderoso e engajador.

Leia o livro, veja o filme, cuspa nos racistas.

Infiltrado na Klan / Ron Stallworth / Seoman / Trad.: Jacqueline D. Valpassos/ 216 p. / R$ 39,90

quarta-feira, dezembro 05, 2018

MAIS VALEM AMIGOS NA PRAÇA DO QUE DINHEIROS NO BANCO

Eduardo Scott reúne time de craques do rock em ótima estreia solo, Scott & Friends

Eduardo Scott, foto Jessica Silva
Eduardo Scott tem é história nessa Bahia besta e bela.

Veterano do rock local, na ativa desde o início dos anos 1980 com a antológica Gonorreia, eis que a figura volta à cena com seu primeiro álbum solo, intitulado Atitude.

Poxa, mas que título mais batido, “rock atitude”, que conceito mais cansado, reclama o atento leitor habitual desta coluna.

O colunista confessa que pensou o mesmo. Nada como escorregar no preconceito.

No aparelho (ou no seu streaming predileto), o álbum pega o ouvinte no contrapé com uma coleção de (doze) faixas inspiradas, compostas de riffs empolgantes, estilos variados faixa a faixa e letras divertidas, muito na linha da crônica social mordaz que era a marca do rock geração 80.

Ajudou, certamente, estar cercado de gente boa. Desde a coprodução (e guitarras) a cargo da fera Jô Estrada às participações de figuras ilustres, como Álvaro e Eric Assmar, Márcio Mello, Gustavo Müllen, Thathi, Sylvia Patricia, Fernando Nunes, Cláudio Lacerda, Dominic Smith e outros.

“Ter ícones como Márcio Mello, Álvaro Assmar e Sylvia Patricia, que são referências cada um no seu estilo, foi de uma importância vital ao projeto”, afirma Scott.

“Por isso, eu e Jô já estamos começando a pensar no volume dois, com mais amigos que tenho no rock nacional. Além dos ícones que participam deste, fiz questão de convidar  novos artistas que vem se destacando na cena baiana, que foram a Rock Night Club, Thathi e Invena. Além da ilustre participação internacional do inglês Dominic Smith”, conta.

"(Essas parcerias todas) Surgiram da forma mais tranquila que poderia ser. O fator principal foi serem meus amigos e facilitarem o máximo a realização do projeto, isentando royaltes etc. Entre a ideia, as gravações e finalização, foram dois anos pra ficar pronto. Mas valeu a pena, pois depois de uma bagagem que tenho ao longo de 35 anos na área, tinha que ficar com qualidade classe A para que eles se sentissem orgulhosos de estar presentes. Tanto que o padrão, desde a capa, criada em pop art pelo artista plástico André Dragão seguiu um padrão internacional de criação e produção", afirma.

Tony Stark no Gandhi

No início dessa década, Scott viveu uma aventura e tanto ao se juntar aos guitarristas fundadores do Camisa de Vênus (o já citado Gustavo e o recentemente falecido Karl Hümmel) em uma versão do Camisa, com Scott substituindo Marcelo Nova.

A aventura terminou quando Nova  impediu legalmente o trio de gravar músicas inéditas com o nome da banda. Mas se serviu de algo, a aventura deixou Scott afiado em seu canto punk de clara inflexão “venusiana”.

Essa inflexão se prestou  bem à letras como Homem de Ferro (na qual Tony Stark vem à Bahia e sai no Filhos de Gandhi), Algo Mais (que parece algo que Arnaldo Antunes deixou na gaveta) e a ramoneana Eu Não Sei Votar.

“Desde a minha primeira banda, Gonorreia, ter no repertório letras com crônicas sociais sempre foi minha marca. Minha passagem de cinco anos no Camisa me fez pensar ainda mais na importância da mensagem ao fã“, afirma.

No início de 2019, Scott faz um show gratuito no Bar 30 Segundos para lançar o CD. Depois disso, pega a estrada.

“O show de janeiro será um pocket Show com cerca de 40 minutos, será um agradecimento com os convidados do CD presentes. Aí em fevereiro é que saímos em turnê, com o show completo em Salvador, interior da Bahia e o outros estados do Brasil. O show completo terá só quatro musicas do Atitude, o restante do repertório terá Camisa, Raul, Billy Idol, Gonorréia, entre outros. O repertório do novo show irá contar muito dos sucessos de minha carreira para ter a participação e interatividade do público”, conclui.

Eduardo Scott: Scott & Friends - Atitude / Show de lançamento: 23 de janeiro, Bar 30 Segundos (Gratuito) / CD: R$ 30 (Vendas: Mercado Livre, Facebook e BardosBardos)



NUETAS

Doidão, Organos, galera de Rondônia e Paraíba

O B-23 Lounge Music Bar realiza a segunda edição do seu Festival Pop & Rock sábado, com seis bandas, duas delas de fora da Bahia: O Retrô Ativo (de Rondônia) e Baião d’Doido (da Paraíba), mais as locais Professor Doidão & Os Aloprados, Lote 7,  Organoclorados e R.A.I.N. 20h30,  R$ 20.

Exo, Declinium et al

No sábado também tem o MCC Rock Sessions, com ExoEsqueleto, Declinium, Gérbera e o DJ Elettra (Messias GB). 15 horas, R$ 10, no Mercadão CC.

Metal no Teatro IV

A rapeize do metal também tem alternativa, com a 4ª edição do Metal no Teatro. No palco do Teatro Solar Boa Vista tocam  Erasy (Feira de Santana), Jack Doido e Inner Call. Sábado, 17 horas, R$ 20.

sábado, dezembro 01, 2018

A ARTE DA SUPERAÇÃO SEGUNDO O POWER METAL

Uma das maiores bandas do metal brasileiro, aclamada mundialmente, o Angra volta à cidade para lançar o álbum ØMNI

Felipe, Bruno, Fabio, Rafael e Marcelo, foto Henrique Grandi
Uma das mais aclamadas bandas de heavy metal do país, o Angra volta à Salvador no show de lançamento do seu álbum mais recente, ØMNI.

No show, parte de uma extensa turnê que começou em março na Europa e já passou pela Ásia, Estados Unidos e Canadá, o Angra mostra canções do ØMNI e também outras preferidas dos fãs.

“Vai ser um apanhado da carreira, enfatizando o momento atual, que é o ØMNI”, conta o guitarrista Rafael Bittencourt.

“Sim, desde março, as plateias no mundo inteiro tem algumas coisas em comum e também algumas particularidades. A Europa a gente já frequenta há muitos anos, e esta foi nossa primeira grande turnê nos Estados Unidos, fizemos 31 show nos EUA e Canadá. E na Ásia também foi muito legal, no Japão foi o primeiro público internacional que tivemos, desde o começo da banda. A gravadora JVC, do Japão, se interessou pela banda em 92 e lançamos nosso CD em 93 e desde então temos uma parceria muito próxima com eles. Os fãs japoneses são muito leais, carinhosos e fervorosos, então foi muito legal apresentar este novo momento para públicos já muito conhecidos da banda e receber esta aprovação. Fãs que já assistiram shows de todas as fases da banda virem dizer que este foi um dos melhores shows do Angra que eles já viram, então este tipo de elogio vale muito a pena. E a banda tem evoluído muito sim, no próprio repertório novo, porque teve momentos da turnê que a gente fazia show praticamente todos os dias. Isso vai aprimorando a sonoridade da banda, o entrosamento também - seja pessoal, como musical. Posso dizer que este é um grande momento para o Angra”, conta o músico.

Trabalho mais elogiado da banda – dentro e fora do Brasil – desde Temple of Shadows (2004), ØMNI foi uma espécie de prova de fogo para o quinteto.

Razão: era preciso superar a perda do guitar-hero Kiko Loureiro, recrutado pelo ídolo norte-americano Dave Mustaine para integrar (há quem diga que foi para salvar) sua banda, a icônica Megadeth.

“Esse disco é muito, muito importante pra mim, porque ele mostra mais uma vez uma superação de contrariedades, que são as mudanças de formação”, afirma Rafael.

Ao que parece, a tarefa foi cumprida com louvor, para alívio do único membro fundador ainda no Angra, Rafael: “Sim, (o ØMNI) tem sido muito elogiado. E eu fico muito feliz, trabalhei muito pra isso. No meio do processo já tinha noção que tínhamos um álbum muito forte nas mãos, e eu esperava que as pessoas sentissem que houve uma retomada no entrosamento da banda”, afirma.

“Fiquei surpreso, mas fiquei mais ainda foi satisfeito. Trabalhamos pra isso, realmente nos dedicamos, porque com a saída do Kiko, senti que teríamos que fazer um esforço triplo, quádruplo, pra sustentar a perda de um integrante tão icônico pra banda”, diz.

Queen, Raulzito e Sandy

Foto Henrique Grandi
No lugar de Kiko entrou Marcelo Barbosa (ex-Almah), que se juntou à  Felipe Andreoli (baixo), Fabio Lione (voz) e Bruno Valverde (bateria).

“O Ømni é  a celebração dessa formação que se consolidou  com entrada do Marcelo. É uma formação moderna, de músicos que conhecem muito power metal (estilo do Angra) mas que também trazem outras novidades, estilos e influencias. A sonoridade da banda vem mudando muito através dos anos. Então esse momento celebra essa formação com Fabio Lione, vocalista que é muito conhecido pelo pessoal do power metal por conta da carreira que ele fez no Rhapsody”, afirma.

De fato, Ømni é um baita disco de heavy metal com a marca do Angra  desde sua fundação, em 1991: o caráter ousado.

Assim como a outra banda brasileira de metal mais aclamada mundo afora, Sepultura, o Angra valoriza ritmos e instrumentos brasileiros desde seu segundo álbum, o clássico Holy Land (1996).

“Sim, o Angra tem essa coisa de misturar elementos e tal. Acho que é uma coisa um pouco natural porque eu gosto muito de estilos diferentes, eu ouço frequentemente músicas de estilos muito diversos. Então na minha cabeça é natural essas conversões de estilos, essas mixagens. E eu tenho influências de muitas bandas e artistas, o próprio Queen sempre misturou muita coisa, o Raul Seixas, que é um ídolo que eu tenho, sempre muitos estilos, tinha uma liberdade criativa muito grande e eu sempre persegui essa liberdade. O processo é um pouco intuitivo por que eu acho que soa natural aquilo que já está incorporado dentro do músico, mas é também resultado de muita experiência no estúdio, porque você precisa passar um  tempo ali, tem um um processo empírico, tentativa e erro e isso também conta”, afirma Rafael.

Em Ømni, eles dão um passo além, convidando Sandy (sim, a filha do Xororó) para cantar em trio com Fabio e Alissa White-Gluz (da banda sueca de death metal Arch Enemy), na faixa Black Widow's Web.

O resultado é arrebatador. Conceitual, a faixa traz Sandy e Alissa fazendo a mesma personagem, a viúva negra do título, e Fabio como sua vítima, ora seduzido pela sua face suave (Sandy), ora aterrorizado pela sua fúria (na voz gutural de Alissa).

E essa é outra grande característica da banda: as narrativas épicas, que, planeja Fábio, um dia chegarão às telas: “Sim, tenho muita vontade de  adapta-las para filme, animação, game. Ou até quadrinhos. Quero muito realizar isso no futuro próximo”, diz.

Angra: ØMNI World Tour / Amanhã, 18 horas / Salvador Music Place (Patamares) / Promocional: R$ 70 +  1 quilo de alimento não perecível / Front stage: R$ 140 / 18 anos

sexta-feira, novembro 30, 2018

MARK JOHNSON (PLAYING FOR CHANGE): "NADA É MAIS FORTE DO QUE O PODER DA MÚSICA"

Um dos primeiros fenômenos musicais da internet, o Playing For Change volta hoje a Salvador, na Concha Acústica do TCA, quatro anos depois da sua estreia na cidade.

PFC Band em ação, foto Wadih Chlink / Divulgação
No palco, 11 músicos de diversos países, línguas e estilos, todos em torno de um mesmo objetivo: levar uma mensagem de paz e positividade pelo mundo por meio da música.

Atenção para a chamada com nome, instrumento e país de origem dos músicos: Grandpa Elliott (voz e gaita, EUA), Mermans Mosengo (voz, percussão, guitarra, do Congo), TIti Tsira (voz, África do Sul), Chantz Powell (vocal, trompete, EUA), Louis Mhlanga (voz, guitarra, Zimbábue), Robin Moxey (voz, guitarra,  EUA), Roberto Luti (guitarra, Itália), Mateo (sax, França), Claire Finley (baixo, EUA), Ehssan Karimi (bateria, Irã - EUA) e Keiko Komaki (teclados, Japão).

Na entrevista, Mark Johnson, produtor e fundador, fala sobre o PFC, o show, os músicos e o mundo hoje.

Como vai ser o show em Salvador? Que músicas vocês vão tocar? Tem participação de  algum músico local prevista? Vi que no vídeo de Sittin’ On The Dock of The Bay (clássica canção de Otis Redding) tem alguns artistas de Salvador.

Mark Johnson: A banda PFC está voltando a Salvador, um de nossos lugares favoritos no mundo para fazer música. Estamos chegando com uma banda de 11 músicos de oito países diferentes, incluindo Grandpa Elliott, de Nova Orleans. Também receberemos no palco por um grande artista local de reggae, Paulo da Luz, que vai cantar Rasta Children com a banda. Este clássico de Dennis Brown (1957-1999, astro jamaicano do reggae) está em nosso novo álbum, chamado Listen to The Music.



Como  faz para juntar e organizar tantos músicos de tantos países e línguas diferentes em torno de um projeto (e um repertório) em comum? Isso não pode ser simples.

MJ: A música nos une. Este ano a PFC Band completa dez anos e assim somos como uma família que fala muitas línguas diferentes, mas que usa a música como linguagem comum. Cada artista traz diferentes canções e estilos musicais, daí nós combinamos tudo junto, pois acreditamos que a world music acontece quando o mundo faz música junto.

Todos os artistas da PFC Band são músicos de rua? Existe alguma característica em particular dos músicos de rua?

MJ: Nem todos os membros da PFC Band são músicos de rua. Começamos nas ruas para nos conectarmos com as pessoas pelo coração, mas o Playing For Change sempre foi sobre música e qualquer um que queira tocar, das ruas para os palcos e aos corações das pessoas. Grandpa Elliott e Roberto Luti vieram das ruas, mas Louis Mhlanga, do Zimbabwe e África do Sul é uma lenda da guitarra no continente africano e, juntos, eles mostram ao mundo que grandes talentos podem ser encontrados em todo canto.

O fantástico Grandpa Elliott na gaita, foto Vinicius Grosbelli / Divulgação
O Playing For Change foi um dos primeiros grandes fenômenos musicais da internet, com o vídeo de Stand By Me. Vocês esperavam tamanha aclamação mundial?

MJ: Enquanto viajávamos pelo mundo gravando Stand By Me, tínhamos consciência de que estávamos criando algo especial unindo músicos de tantas origens diferentes, mas nem imaginávamos que o vídeo seria assistido mais de 100 milhões de vezes em mais de 195 países. Isso significa que mais de 100 milhões de pessoas viram o mundo de uma forma nova, um mundo unido por um coração e uma canção, um sonho tornado realidade para todos os músicos e demais envolvidos no Playing For Change.

O Playing For Change já é um movimento de 16 anos. Porém, o mundo parece um lugar cada vez menos unido e amigável, com nacionalistas, políticos e militantes de extrema direita em ascenção no mundo todo, inclusive no Brasil. O que deu errado?

MJ: Uma grande lição que aprendi nesses 16 anos trabalhando com o Playing For Change é que não importa quantas coisas venham nos dividir na vida, nada é mais forte quanto o poder da música para nos unir. Eu percebo que o mundo está mesmo parecendo um lugar cada vez menos amigável, mas o mundo também é grande, e há luz e amor em todos os lugares que percorremos. Como diz a famosa canção, “talvez não seja tarde demais para aprender a amar e esquecer como odiar” (“Maybe it's not too late / to learn how to love / and forget how to hate”, da música Crazy Train, de Ozzy Osbourne). Todos nós podemos aprender muito com a música, e agora, mais do que nunca, devemos deixar o amor triunfar sobre o ódio em todo o mundo.

Vejo que a Fundação PFC criou escolas de música e programas de educação musical em várias partes do mundo. Alguma chance de termos uma dessas aqui em Salvador?

MJ: Temos um novo programa de educação musical do PFC no sul do Brasil, em Curitiba, e adoraríamos criar um outro em Salvador. Na primeira vez que visitei Salvador, perguntei a uma pessoa daí onde poderia encontrar um bom percussionista na cidade, e ele riu e me falou que se eu balançasse uma árvore, cairia um monte de músicos. Eles estão em todo canto. Um lugar musical como Salvador é um sonho para visitarmos, nos apresentar e, espero algum dia, trabalhar com a comunidade local para criar um programa musical da Fundação PFC no futuro. Outra importante lição que aprendi com o Playing For Change é que alguns sonhos se realizam.

Playing For Change / Hoje, 19 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 100 e R$ 50 / Camarote: R$ 200 e R$ 100 / Vendas: bilheteria TCA, SACs Barra e Bela Vista e no www.ingressorapido.com.br

terça-feira, novembro 27, 2018

SAMBA DE BOCA

Hoje: projeto Bahia dá Samba lança CD e documentário e reverencia trio de mestres. Repertório de inéditas só existia em forma oral 

Guiga da Ogum, Reginaldo de Itapuã e Valmir Lima foto APUS Filmes 
Berço do samba, a Bahia, infelizmente, costuma esquecer os mestres que pavimentaram o caminho por onde hoje desfilam os ensaboados astros da atualidade, com sua versão contemporânea do gênero.

Daí a importância do projeto Bahia Dá Samba: Memória Viva dos Baluartes do Samba da Bahia, que será lançado hoje no Teatro do Irdeb e homenageia três lendas vivas com um CD e um documentário: Valmir Lima, Guiga de Ogum e Reginaldo de Itapuã.

Com direção artística do músico Ênio Bernardes e direção musical de Dudu Reis em parceria com a produtora APUS Filmes, o projeto foi viabilizado pelo Edital Setorial de Música do Fundo de Cultura do Estado da Bahia (Secult e Sefaz).

"Dentro do samba tradicional que eu gosto de fazer, existe essa vertente de sempre reverenciar os mais velhos. Eles são o alicerce pra gente estar fazendo o samba hoje. Então, esse projeto passa pela valorização da história, da obra e da memória desses mestres. Eu tinha a ideia há quase dez anos, mas foram vindo os parceiros, que ajudaram a concretizar: primeiro Fabiana Marques, depois Dudu Reis, aí veio Tiago Ribeiro. Antes de tudo, havia encontrado Marta Luna, que começou comigo o texto do projeto. Assim, o projeto foi virando um projeto coletivo, sempre com base na postura de reverenciar a memória do samba brasileiro", conta Ênio.

No álbum, 12 faixas: quatro de cada sambista, muitas delas em parceria com outro mestre, Roque Ferreira.

No documentário, a pesquisa das obras, entrevistas, bastidores das gravações e as interações entre os artistas. Agora sabe o que é o mais bonito de tudo isto?

Nenhuma das doze composições gravadas tinha qualquer registro anterior: tudo memória oral. Ou quase: “Alguns sambas realmente não tinham registro fonográfico. Alguns estão registrados no papel, mas, a maioria era na forma oral mesmo. Estavam na memória deles. Isso é fantástico! Eles não esquecem a letra nem a melodia”, conta Ênio.

Um material tão delicado certamente precisa ser registrado com muito cuidado e precisão, para não perder o espírito original.

“A gente procurou a melhor maneira de preservar essa vertente dentro daquela melodia, dentro do que a letra está dizendo, dentro da forma da música. Porque cada samba tem uma forma, tem uma métrica, você vai fazendo os arranjos a partir dos sambas”, detalha Ênio.

“Daí apresentamos os arranjos aos mestres, para que eles pudessem dizer se gostaram, se precisaria mudar algo. Ficamos sempre abertos ao diálogo. Acredito que ‘ficou além das expectativas’, como diz mestre Reginaldo”, diz.

"Quanto à escolha dos sambas: eu já tinha contato com esses mestres, amigos, há cerca de dez anos e eu já tinha contato com esses sambas. Eles cantavam, eu sempre procurava saber de outras canções, ficava curioso em ver o imenso acervo que cada um tinha. Então, de certa forma, eu já conhecia a maioria das canções deles. O critério de escolha foi a partir de uma pesquisa já prevista no projeto: eu, Dudu Reis e parte da equipe fomos à casa de cada um deles algumas vezes para uma escuta do repertório proposto por eles. Quando vimos a versatilidade das composições de cada um, escolhemos mostra a habilidade que esses mestres tem de fazer modalidades diferentes de samba. Daí, eu escolhi a partir do valor poético e da versatilidade que cada mestre tem. Até porque, eles fazem parte da história do samba brasileiro, como Walmir Lima, o mais velho deles", relata.

Todos os sambas

A trinca de sambistas, banda e equipe de produção, foto APUS Filmes
A diversidade de estilos é outra atração por si só: tem samba de breque, samba de roda, partido alto, samba-enredo, samba canção e choro.

“Eles fazem parte da história do samba e curtem diversos estilos. Passaram a vida ouvindo Ataulfo, Cartola, Nelson Cavaquinho, Batatinha. Então, acabaram sendo influenciados e vem compondo sambas mais tradicionais até hoje”, conta.

“Muita gente pensa que não há essa variedade de sambas na Bahia. É tanto que esses mestres não são conhecidos. Pode-se dizer que o mais conhecido é Nelson Rufino, porque Zeca Pagodinho gravou canções dele e também porque ele está na estrada”, observa.

"A forma de transmitir esse saber é tentar ser o mais original possível dentro do que cada samba pede. Se é um samba de breque, a gente sabe mais ou menos pra onde vai caminhar. Se é um samba enredo, a mesma coisa. Então, essa é a forma de transmissão que eu acredito mais legítima, mais autêntica. É lógico que não se compara a uma roda de samba, que é outro clima. Assim como o palco é outra coisa. Mas a gente procurou ser o mais original possível, de acordo com a tradição desse samba brasileiro. O processo de registrar as canções que só existiam oralmente é uma coisa natural. É como se fosse gravar qualquer outra música. Mas a maneira de perpetuar isso é atuando. Por isso, preferimos que eles gravassem as próprias composições. É a forma mais legítima de levar à frente uma prática da cultura popular onde os autores executam sua própria obra. No Bahia dá Samba, ele puderam gravar suas composições dentro dos padrões do mercado musical", detalha Ênio.

Além dessa trinca Guiga-Reginaldo-Valmir, a Bahia tem muitos outros grandes sambistas que também andam esquecidos. "Existem outros sambistas, que vem da tradição das escolas de samba que já existiram na Bahia, que vem da época de Ederaldo Gentil, de Batatinha, do próprio Walmir Lima, que tem quase 90 anos. Tem muitos outros. Acho que, a partir desse disco, podemos entrar em contato com outros grandes mestres de samba com boas composições guardadas, como o é o caso de Memeu. Ele faz parceria na canção Bem-vindo Amor, de Guiga de Ogum. Eu o conheci através do próprio Guiga e vi que ele tem uma obra maravilhosa. Eu estou até pensando em fazer um CD com ele ano que vem. Vamos ver como vai ser isso", conclui. Viva o samba, prestigie.

Bahia Dá Samba: Memória Viva dos Baluartes do Samba da Bahia / Show de lançamento de CD e documentário / Hoje, 20 horas / Teatro Irdeb (Federação) / Entrada Gratuita

NUETAS

Primata e Jen X 5

Os guitarristas Ricardo Primata e Douglas Jen (SP) fazem a turnê Guitar Show em cinco cidades: Feira (sexta-feira), Jacobina (sábado), Serrinha (domingo), Camaçari (segunda) e Salvador (terça). Saiba mais: www.guitarrabr.com.

Artur estreia solo

Ex-Theatro de Seraphin e Treblinka, Artur Ribeiro estreia solo em pocket-show no Bardos Bardos. Sexta, 19 horas.

Saideira da Úteros

Domingo tem aquele que provavelmente será o último show da Úteros em Fúria. Celebratório dos 25 anos do álbum Wombs in Rage, é domingo no Portela Café, com abertura da Maria Bacana (que diga-se de passagem, está fazendo um show astral demais). E por que último? Mario Jorge, baterista, afirmou isso no Face. AVISEI! 16 horas, R$ 20.

sábado, novembro 24, 2018

CAETANO: “É PRECISO REINTRODUZIR ELEMENTOS DE DEMOCRACIA ONDE ELA ESTIVER ENFRAQUECIDA”

Hoje, dia de  premiação do XVI Festival de Música Educadora FM, é também um dia de reencontros na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

O clã Veloso mostra que tem samba no pé, foto Ney Coelho
Reencontro do clã santo-amarense, que sobe no palco em duas ocasiões: durante o show principal, Ofertório, de Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso e no show que o precede, de Jota Veloso (sobrinho de Caetano) e Luciano Salvador Bahia.

Reencontro de Caetano (e família) com o público soteropolitano. Reencontro do público com o festival da Educadora e os artistas que este revela.

Enfim, um momento de alegria e música como só na Bahia costuma acontecer.

Alegria também para os concorrentes que serão premiados no festival, o qual distribuirá R$ 62 mil em premiações para diversas categorias – um incentivo e tanto para novos artistas, além da visibilidade (ou audibilidade) vinda da veiculação das músicas concorrentes na rádio.

No júri, grandes nomes da Bahia como Carlos Capinam, Letieres Leite, Marcia Castro, Márcia Short e Leto Vieira decidirão a parada.

Finda a competição, sobem ao palco o duo Jota Veloso & Luciano Salvador Bahia. Ainda quentes da recente estreia do próprio programa  na Educadora FM – Feita na Bahia –, Jota e Luciano apresentarão composições próprias e releituras de clássicos de compositores baianos.

O duo, como Caetano adianta nesta entrevista, ainda periga ressurgir diante do público na última música do gran finale, a cargo de Caetano e filhos, que se revezam entre violões e diversos instrumentos.

Na estrada desde outubro de 2017, o show Ofertório retorna à Concha Acústica dez meses depois de sua primeira apresentação por aqui, em janeiro último – uma bem-vinda segunda chance  para quem perdeu e oportunidade para quem quer ver de novo.

No repertório, clássicos de diversas épocas:  Alegria Alegria,  Reconvexo, Um Canto de Afoxé Para o Bloco do Ilê, Sertão, O Leãozinho, Força Estranha, Oração Ao Tempo e o hit-surpresa Todo Homem, composto e cantado (em glorioso falsete) por Zeca Veloso.

Nesta entrevista por email, Caetano fala da evolução do quarteto familiar no palco, de festivais e do que espera do Brasil em 2019.

O repertório deste show é rigorosamente o mesmo  apresentado em janeiro último na Concha Acústica? Ou houve modificações?

Família que faz música unida... Foto Rafael Berezinski
CV: É o mesmo, mas não rigorosamente. A gente muda uma ou outra música. Tirou alguma coisa. Às vezes venho com uma que não tá no roteiro. A estrutura, no entanto, permanece. O que muda, gradativamente, é a fluidez com que tocamos e cantamos, além do à vontade no palco. Tomara que esses aspectos positivos se confirmem na volta à Concha.

O show Ofertório está na estrada desde outubro de 2017. Como o senhor avalia a evolução deste quarteto no palco de lá para cá?

CV: Estamos mais acostumados ao show. Parecemos um pouco mais com uma banda. Embora ainda sejamos mais parentes do que tudo.

Dada a boa fase no palco com Moreno, Zeca e Tom, há planos de levar esta banda ao estúdio? Tem previsão de gravar um novo álbum de inéditas com eles?

CV: O show foi inteiramente gravado, som e imagem, logo após a estreia, numa apresentação ao vivo (com umas duas ou três músicas gravadas em separado, na passagem de som). Dali é que veio o sucesso de Todo Homem e tudo pode ser visto e ouvido na internet ou em CDs e DVDs. Nunca planejamos gravar em estúdio, mas essa sugestão de gravar um grupo de inéditas é atraente. Vou conversar com os três e sentir o que sai daí.

A abertura do show está a cargo do seu sobrinho, Jota Veloso, e seu parceiro, Luciano Salvador Bahia. Há alguma interação prevista entre as duas bandas?

CV: É uma maravilha que seja Jota a abrir. E com o Luciano Salvador Bahia, cujo nome já diz tudo. Fica ampliado o sentido de dinastia popular-musical dos Velosos de Santo Amaro. (Gosto de dizer e escrever “Velosos”, no plural, como n'Os Maias de Eça de Queirós, porque Moreno sempre fala assim e com o ó aberto, “Velósos”, como deve mesmo ser o plural de “veloso”, que quer dizer peludo, e parece “velozes”.) Espero que Jota e Luciano possam e queiram se unir a nós num samba final, no bis, sei lá. A gente deve se encontrar na passagem de som e vê como rola.

O show deste sábado é na final do XVI Festival de Música Educadora FM. Como um artista que ganhou bastante notoriedade por meio de festivais competitivos de música (no final dos anos 1960), como o senhor vê a iniciativa da Educadora em manter um festival como este já há 16 anos?

CV: Festivais competitivos podem ser um estímulo. Pessoalmente não sou muito dado a competições. O que me anima é o pretexto de ter várias pessoas que fazem música postas num mesmo ambiente. Isso sempre enriquece. É bom que a  Educadora faça isso. Para os que se animam com o aspecto competitivo, também é estimulante. Me lembro das plateias da Record em 1967/68.

Caetano, o que o senhor espera do Brasil em 2019?

Moreno manda ver no contrabaixo acústico com arco, foto Hércules Rakauskas
CV: Que ele mostre capacidade de metabolizar os elementos que grande parte de sua população trouxe à tona. Pode-se estar escrevendo certo até por linhas muito tortas. No fundo, tenho confiança no espírito do povo brasileiro. Voto em Ciro Gomes no primeiro turno e em Haddad no segundo. Perdemos a eleição. Mas acho que temos de respeitar democraticamente o resultado das urnas e conseguir extrair o que puder vir de melhor disso. Tanto diretamente – pode haver melhorias claras – quanto dialeticamente.

Estamos em um momento meio estranho, no qual parece que artistas, professores e jornalistas se tornaram inimigos para uma parcela da população, em consonância com a chegada ao poder de líderes de extrema direita – e em várias partes do mundo, não apenas no Brasil. Muita gente está preocupada com os retrocessos que essa onda pode trazer. Como o senhor está vendo tudo isto?

CV: Há em muitos países gestos públicos de regressão. É normal. De todo modo, quase 100% inevitável. Para cuidar do nosso caso específico, devemos, nós brasileiros, ser o mais amadurecidos que pudermos ser. Temos dado mostras de maturidade desde a redemocratização. Em muitos aspectos, crescemos. Mas nossas fragilidades se mostram. É preciso saber reintroduzir elementos básicos de democracia onde ela estiver mais enfraquecida. Nunca esquecer que estamos numa situação democraticamente escolhida pela maioria dos eleitores. Respeitar as autoridades constituídas para poder exigir delas respeito. É assim que funciona.

16º Festival Música Educadora FM / Show principal: Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso: Ofertório / Hoje, 18 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 80 e R$ 40 / Camarote: R$ 160 e R$ 80 / Vendas: Bilheterias do TCA, SACs Shoppings Barra e Bela Vista e  site ingressorapido.com.br / 16 anos

sexta-feira, novembro 23, 2018

EM BUSCA DA VOZ MAIS AUTÊNTICA

Livre, leve e solto, Frejat dá uma geral na carreira em show de formato banquinho & violão hoje, na Sala Principal do Teatro Castro Alves. Tem Barão (claro), solo e até Chico Buarque e Raul Seixas no set list

Roberto Frejat  e seu instrumento de trabalho, foto Christian Gaul
Baita performer à frente de uma banda de rock, o ex-Barão Vermelho Frejat explora outra faceta artística no show Voz & Violão, hoje, na Sala Principal do Teatro Castro Alves.

Saem a guitarra e os amplificadores Marshall e entram um banquinho, um violão e um repertório que mistura sucessos (solo e do Barão) com composições queridas porém menos lembradas, além de uma ou duas releituras.

“Esse show tem um lado autoral que me agrada muito. Toco meus sucessos, músicas menos conhecidas e algumas raridades, além de uma música do Chico Buarque e Francis Hime e outra do Raul Seixas. Acaba sendo um bom desenho da minha carreira como um todo”, conta o músico.

Conhecido pela pegada segura com a guitarra – ora base, ora solo – em sua antiga banda, Frejat conta que teve de se preparar para encarar este show todo só no violão.

“Adoro tocar violão, mas tive que repensar a minha técnica , pois praticamente não uso palheta neste show, apenas em  duas músicas”, conta.

“Esse show é bem diferente. Não tem banda, não tem solos: são as canções, minha voz, o violão e o público apenas. É uma intensidade muito grande e distinta de um show com banda, que é como o público se acostumou a me assistir. Tive de me preparar sim, como faço para outros shows, mas com um foco diferente, mais delicado e também de muita concentração”, detalha  Frejat.

Mergulho na trajetória

Quase um duck walk, foto Christian Gaul
No repertório, um passeio pela carreira: Eu Não Quero Brigar Mais Não, Que Mais Me Encanta, Seu Amorzinho, 50 Receitas, Nós, Segredos, Embriague-se, Amor Pra Recomeçar, Homem Não Chora, Todo Amor  e Bilhetinho Azul.

“Senti necessidade de expor um pouco mais um lado autoral que estava pouco atendido nos shows com banda, onde só tocava meus sucessos. Este show vai um pouco mais fundo na minha trajetória de compositor e isso é importante pra mim. Não pensei em (transforma-lo em) disco, logo que comecei a fazê-lo, me propuseram fazer um DVD, mas achei que era cedo ainda e nesse momento o que tenho é o espetáculo pronto, e eu gosto muito dele”, afirma.

Tem mais de 30 anos que Salvador testemunha shows embasbacantes do Barão, desde o tempo do Cazuza, uma relação calorosa que não passou despercebida por Frejat: "É verdade, sempre tivemos uma plateia calorosa na Bahia, e isso se transferiu também para o meu trabalho, pois todas as vezes que toquei aí foi muito bom e com casa cheia. Adoro o povo baiano, a culinária, e Salvador é uma cidade que sempre me fez me sentir muito à vontade, talvez por ter estado aí algumas vezes quando era garoto, não sei", afirma.

Mais de um ano após oficializar sua saída da banda em que se tornou famoso, Frejat conta que está muito feliz com sua decisão: “Estou vivendo um momento feliz na minha carreira, fazendo shows com minha banda, esse de voz e violão, gravando coisas que me agradam. A decisão não foi difícil, pois tinha minhas convicções sobre como conduzir a banda, mas estavam em discordância com o que os outros queriam, então não faria sentido ficar empacando a vida deles ou por outro lado, fazer o que eu não queria”.

“Quanto a me considerar fora do Barão, é estranho porque faz parte da minha história, é parte importante do que sou e fiz, mas não sofro com isso. Estou sinceramente muito feliz com meu momento artístico e suas possibilidades”, afirma.

Possibilidades bem interessantes, diga-se. Além de um novo álbum de inéditas para 2019, Frejat planeja uma grande homenagem ao mais subestimado dos subgêneros do rock brasileiro: “Tenho algumas coisas em andamento. Comecei a gravar músicas novas esta semana que acredito que lançarei apenas no ano que vem. Além disso, estou em busca de financiamento para um projeto que mistura documentário e show, que venho desenhando há um tempo, mas ainda não tem data para acontecer. É sobre o blues brasileiro. Tenho ele já todo desenhado, repertório, banda etc. Só falta dinheiro pra realizar”, conclui.

Em um escopo mais amplo, Frejat conta o que espera do Brasil em 2019: "Em primeiro lugar, que o país retome sua vida, pois estamos no limbo desde 2014. Acho que essa eleição realmente despertou a população para o seu destino e cabe a todos nós estarmos atentos e atuantes para achar o melhor caminho para o país, seja com quem for como presidente. Eu já fui um otimista, hoje não sou mais, no máximo, um realista".

Boa noite e boa sorte.

Frejat: Voz & Violão / Hoje, 21 horas / Teatro Castro Alves / Cadeiras A a W: R$ 180 e R$ 90 / X a Z6: R$ 150 e R$ 75 / Z7 a Z11: R$ 120 e R$ 60 / 14 anos

terça-feira, novembro 20, 2018

MANOBRAS RADICAIS

Ótima banda de skate punk, a Buster lança seu melhor disco e planeja uns aerials

Buster e o estilão skate wear, foto Lenon Reis
Estilo que seduz demais a molecada urbana ligada em skate, o hardcore melódico tem sua maior expressão local n quarteto Buster, já com 15 anos de muito punk rock no juízo.

Cultuada pela rapaziada fã do gênero, a Buster sempre surpreendeu pela fluência com que domina essa linguagem, com suas levadas aceleradas, instrumental com tudo “coladinho” e letras cheias de positividade.

Agora, mais uma razão para aumentar a leva de seguidores: o álbum Still on The Road, seu material mais inspirado, bem executado e produzido até hoje.

"Nós ficamos muito felizes com o resultado, foi algo que demandou tempo, cerca de um ano de pré-produção totalmente independente, mas pensamos em cada passo dos processos. Essa produção foi algo que realmente surpreendeu pela qualidade", afirma Thiago Nogueira, vocal e guitarra.

Não é pra menos: produzido por produzido pela própria banda com Marcos Franco (Revolusom Studio), as faixas foram enviadas para um veterano do gênero mixar e masterizar: Fernando Bassetto, guitarrista do Garage Fuzz, referência do HC desde 1991.

“Finalmente após 15 anos de estrada, alguns EPs e participações em várias coletâneas, conseguimos lançar um disco com um nível absurdamente bom para uma banda de punk rock de Salvador, tanto em qualidade técnica quanto na produção”, afirma Thiago.

“E o Nando Bassetto, além de guitarrista do Garage Fuzz, é o responsável pela gravação e mix dos álbuns deles já faz um tempo, e  a gente queria uma sonoridade similar. O contato foi fácil e ele curtiu nosso som, o que tornou o processo mais fácil, foi muito bom trabalhar com ele”, acrescenta.

Além do Bassetto, a Buster ainda contou com a participação de outra referência para eles, Bruno Picat, da banda francesa The Bushmen, na  faixa  The Restless and The Useless.

“O Bruno é vocal de uma banda noventista de Limoges (França). Sou fã, escuto o som deles a uns 20 anos. Quando estávamos terminando a produção do disco ainda tínhamos algumas faixas sem letra e pensamos em convidar alguém pra cantar. Foi aí que nos veio a cabeça o Bruno. Como já sou amigo dele pela net, mandei o convite e ele não só aceitou como escreveu a letra. Isso foi imensamente gratificante, e serviu pra aproximar mais a amizade. Ainda contamos com a participação do Mateus Brandão, guitarrista do Chuva Negra, banda da capital de SP. Ele fez umas pontas / solo de guitarra na faixa No Time to Lose. Mateus, que é amigo nosso já faz algum tempo, demonstrou anteriormente interesse em participar de alguma coisa nossa, e não podia ter momento melhor”, comemora Thiago. 

Tomando impulso

As letras, além das mensagens de positividade, trazem boas reflexões políticas. Esse é um daqueles momentos em que é necessário falar, correto?

"A gente nunca pensou que algo que estávamos compondo fosse retratar tão bem coisas atuais. Nesse disco a gente colocou exatamente a forma como a gente enxerga a vida. Queríamos compor algo com teor politico de uma maneira como a gente não havia abordado nas produções anteriores e manter a linha da positividade também nas letras, algo que se faz necessário para enfrentar dias difíceis", reflete Thiago.

Sol, skate e punk rock, foto Lenon Reis
Com dois shows já feitos à título de lançamento em Salvador e Aracaju, o quarteto agora busca alçar voos mais altos: “Estamos pra confirmar Brasília e região, São Paulo e Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2019. Fazer shows independentes no Brasil não é  fácil, tanto pelo custo quanto pela distância”, percebe.

“E estamos fazendo contatos para uma turnê pela Europa. Por ser algo maior, exige um pouco mais de dedicação e planejamento”, conta.

Enquanto não decolam, vão afiando as habilidades com mais dois shows no Buk Porão Bar (Pelourinho), nos dias 2 próximo e 19 de janeiro.



NUETAS

Drenna, Lupa e Madame Rivera

De passagem pela Bahia para o Feira Noise,  Drenna (RJ) e Lupa (DF) se juntam ao Madame Rivera no Groove. Quinta-feira, R$ 15 (Sympla).

Wander Wildner quinta

O sempre adorável Wander Wildner faz session voz & guitarra quinta-feira, no Merccadão CC. 20 horas, R$ 20.

Ronei e Tuyo sexta

Ronei Jorge e a banda paranaense Tuyo fazem o evento Toca! no Pátio do ICBA. Sexta-feira, 20 horas, R$ 50.

Lammia e Space Rover domingo

Super show domingão com duas estreias: a banda carioca  Lâmmia e a local Space Rovers, do indefectível Jorginho King Cobra. 17 horas, no Club Bahnhof SSA, R$ 20.

segunda-feira, novembro 19, 2018

DO SERTÃO PARA AS SALAS DE CONCERTO EUROPEIAS

Os músicos João Omar e João Liberato levam recital Sertão na Lapa do Mundo, de Elomar, à Austria, Bahia e Sergipe

João Liberato, Doutor em Música pela Ufba
A música ancestral que vem do sertão baiano ganha nesta semana as nobres salas de concerto austríacas.

É o recital Sertão na Lapa do Mundo, com os músicos João Omar (violão) e João Liberato (flauta).

Ontem, o duo se apresentou no Weltmuseum Wien, em Viena, durante a sexta edição do Brasilianisches Kulturfestival Wien (Festival Cultural do Brasil), realizado pela Sociedade Austro Brasileira de Educação e Cultura (Papagaio), organização sem fins lucrativos sediada em Viena.

As outras cidades visitadas pelo duo são Graz e Salzburgo (no dia 22, quinta-feira).

De volta ao Brasil, há apresentações previstas em Aracaju e  em Vitória da Conquista, já no dia 2 de dezembro próximo.

O giro dos dois Joões se viabilizou quando o duo foi selecionado pelo Edital de Mobilidade Artística 2018 (SecultBA, do governo estadual).

Infelizmente, ainda não há previsão para um recital na  capital baiana.

“Em Salvador ainda não. A ideia desse edital é levar produtos culturais da Bahia para outras plagas, do sertão de Conquista pra lugares distantes”, conta João Liberato, em brevíssima conversa via aplicativo de troca de mensagens.

Regional universal

João Omar, Maestro (Ufba), compositor e filho de você sabe quem
Sertão na Lapa do Mundo se compõe de peças escritas por Elomar e seu filho, João Omar, justamente para a formação que apresenta a obra na Europa: flauta e violão.

Naturalmente, as peças trazem em sua linguagem as cores e levadas típicas do sertão baiano, o grande tema da vida de Elomar – e também de seu igualmente talentoso filho.

Imerso no sertão de onde não costuma sair muito, Elomar – e João Omar – se valem da convivência com a cultura popular, com o falar do povo, os aboios e cantorias e até mesmo da própria natureza da caatinga e traduzem tudo isso em música.

O resultado é um mergulho sensorial que é ao mesmo tempo regional e universal, música que soa familiar para ouvidos de qualquer canto, seja Vitória da Conquista ou Viena, Salzburgo ou Aracaju.

No site Soundcloud de João Omar é possível ouvir on line seis peças de Sertão na Lapa do Mundo: Joana Vai Chiquerá Minhas Cabra, São João Xaxado (ambas para violão solo), Ciclo Retirante, Nordestilhas, Kalimbaião e Cavalaria (as três para violão e flauta).

Essas três últimas já haviam sido gravadas no álbum Corda Bamba (2007), de João Omar, com as flautas gravadas pelo próprio Liberato. Vale ouvir e se deleitar.

Ouça cinco peças do recital Sertão na Lapa do Mundo: www.soundcloud.com/jo-o-omar-cm

sexta-feira, novembro 16, 2018

VIDAS CANADENSES

País do xarope de bordo e hóquei no gelo, o Canadá também exporta ótimos quadrinhos, como Nada a Perder e A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar
Página de abertura de Nada a Perder

País distante, o Canadá é mais conhecido no Brasil pelos seus astros pop como Alanis Morissette, Justin Bieber ou o deus do rock Neil Young, além da alta qualidade de vida.

Mas o país da Polícia Montada e do xarope de bordo também produz histórias em quadrinhos de primeira qualidade.

Que o digam Jeff Lemire e Seth, dois cultuados cartunistas.

Dois lançamentos recentes os colocam lado a lado nas prateleiras: Nada a Perder (de Lemire) e A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar (de Seth).

Em comum – além de serem canadenses –, a profunda humanidade de suas obras: não há super-heróis fantasiados aqui. Ambas as HQs tem como protagonistas pessoas comuns, vivendo dramas pessoais.

Lemire é bem conhecido de leitores habituais de HQ, com várias obras já publicadas no Brasil – tanto pela major DC e seu selo Vertigo, quanto independentes.

Já Seth (nome artístico de Gary Gallant) estreia por aqui com A Vida é Boa.

O mito do passado melhor

A Vida é Boa Se Você Não Fraquejar
E que estreia.

Essencialmente autobiográfica, A Vida é Boa, Se Você Não Fraquejar mostra a busca do próprio Seth para descobrir o paradeiro – ou destino – de um obscuro cartunista que publicou meia dúzia de cartuns na conceituada revista The New Yorker na década de 1950, e que assinava apenas como Kalo, misteriosamente desaparecido desde então.

Rato de sebos, Seth o descobriu comprando lotes de revistas empoeiradas do tempo do guaraná com rolha.

Obcecado pelo estilo e pelo traço retrô / vintage de Kalo, Seth deixa que sua investigação acabe afetando sua vida, interferindo em seus relacionamentos.

Na verdade, sua busca reflete sua  insatisfação com um mundo cada vez mais “moderno” e em constante transformação.

Seth vive absolutamente convencido de que nada melhora, só piora.

Nas longas caminhadas filosóficas pelas ruas de Toronto que faz com seu amigo, o também cartunista Chester Brown (de A Playboy e Pagando Por Sexo), Seth para diante de um prédio velho e desvenda a própria obsessão: “Engraçado. Algo na decadência do velho me dá uma tristeza que evoca o que já se foi. Se os prédios fossem bem preservados, não seria o mesmo”, diz.

“Uma casa de fazenda mal-conservada é diferente de um lobby de hotel em art déco intacto. De algum modo, esse lobby não convence da realidade ou beleza de antigamente. Odiaria pensar que minha crença na superioridade do passado é só uma escolha estética equivocada e racionalizada em excesso”, reflete.

Diferente do que se pode imaginar, a busca e os devaneios filosóficos do cartunista não chateiam o leitor – pelo contrário, é uma leitura leve, que flui sem pressa e se beneficia demais da arte deslumbrante em duas cores que retratam com muitos detalhes as ruas de Toronto e seus arredores.

Prédios, casas, estações de trem, lojas, passantes. Tudo está vivo e detalhado de forma serena e  evocativa. Sim, a  vida é boa no Canadá.

E o presente cruel

A não ser que você se chame Derek Ouelette, protagonista de Nada a Perder, obra que reúne muitas das melhores características de Jeff Lemire: personagens perdidos, um mundo hostil em volta e poucas chances de redenção.

No passado, Derek foi uma promessa do hóquei no gelo, o esporte nacional canadense – tema que Lemire já havia explorado na espetacular O Condado de Essex.

Só que tudo foi por água abaixo após um episódio especialmente violento em que Derek quase quebrou o pescoço de um oponente.

Desempregado e se rendendo ao alcoolismo, Derek retorna à sua cidadezinha natal, um fim de mundo gelado e isolado, impressão reforçada pela arte em tons de cinza e azul.

Bêbado, sobrevivendo de bicos, mal-humorado e com tendências violentas, parece que nada poderia piorar para Derek.

Mas como desgraça pouca é bobagem, eis que sua irmã, a quem Derek não via há muitos anos, bate em sua porta.

Com o rosto machucado e viciada em drogas, Beth está fugindo de um namorado abusivo. Contar mais estraga, mas não é difícil prever o porvir.

De narrativa seca, em estilo quase noir, Nada a Perder é mais uma bela HQ de Lemire – um narrador versátil sem dúvida, que transita com absoluta competência tanto nos universos super-heroicos da Marvel e DC, quanto em suas obras autorais.

Nada a perder / Jeff Lemire/ Nemo/ Tradução: Jim Anotsu/  272 páginas/ R$ 64,90

A Vida É Boa, Se Você Não Fraquejar / Seth/ Mino/ Tradução: Dandara Palankof/ 192 p./ R$ 64,90

terça-feira, novembro 13, 2018

DEIXA AQUELE MERDA FALANDO SOZINHO

Domingo de Cabeça Pra Baixo voltou para o verão. Domingo tem Ronei Jorge, Tabuleiro Musiquim e o anfitrião Irmão Carlos

Irmão Carlos, funk soul brother, na foto de Adriano Vaz
E aí, já tem programa para o domingo que vem? Uma boa é conferir a edição de novembro do evento Domingo de Cabeça pra Baixo (também conhecido como Faustão Falando Sozinho), que este ano completou 20 anos, sempre com a figuraça Irmão Carlos e sua mãe ainda mais figuraça, Dona Neuza, no comando da fuzarca.

Além do show do próprio Carlinhos tem ainda mais duas atrações: Ronei Jorge e a banda Tabuleiro Musiquim, ambos com álbuns novos na praça.

Pausado há algum tempo, o Domingo de Cabeça... voltou no mês passado, em novo formato.

“Desde 2016 eu sigo em carreira solo como Irmão Carlos. Sempre fiz o Domingo de Cabeça pra Baixo - Faustão Falando Sozinho com a Irmão Carlos & O Catado, minha banda do coração, que se aposentou mas, quem sabe, um dia tem um show comemorativo ou algo parecido. Voltando. Pensei em parar o projeto, por conta do cansaço mesmo. Agora em 2018 a gente faz 20 anos de resistência e existência, 'carregando o piano nas costas' e, literalmente, pagando pra trabalhar. Poucas vezes tivemos apoio de editais, mas que foram fundamentais, diga-se de passagem, para uma evolução perceptível no projeto. Eu já vinha pensando em fazer fechado e cobrando ingresso. Daí acabou que fomos contemplados pelo edital Arte Todo Dia - Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura) para outubro e novembro. O que deu um impulso pra recomeçar”, relata o funk soul brother.

A partir de dezembro, o evento não terá mais apoio – pelo menos até segunda ordem –, mas mesmo assim seguirá ocorrendo nos meses do verão.

“Sim! Vamos continuar no verão, na raça mesmo. Tenho uma turma que tá do meu lado sempre, na alegria e na tristeza: Paulinha Neves (produtora executiva) e Klaus Shuenemann (cenógrafo e iluminador), mais uma turma grande que acredita na proposta. A gente tá apostando na qualidade da música e do evento em si. Acho que se você vende água e não tem quem compre, ou você muda de estratégia ou muda de lugar. Como eu ainda não mudei de lugar…”, afirma Carlos.

Então prestem atenção: o evento agora é fechado, cobra um módico ingresso (R$ 10) e tem limite de público: “O primeiro foi realmente surpreendente. Esperávamos um certo número de pessoas e recebemos quase o dobro. Bombou! O ar condicionado deu conta, graças a Jah! Então sugiro que cheguem cedo por que temos um limite”, aconselha.

Quem já foi já sabe como é. Quem não foi, o anfitrião dá uma ideia: “Irmão Carlos groovando tudo, sempre com algum convidado bacana. Dona Neuza persona folclórica, sempre em alta tensão! Um som confortável até pras crianças, o tratamento acústico que fizemos tá lindo”, afirma.

"O som chega com bons timbres e não machuca os ouvidos. Coisa que não vejo na maioria das casas de show de Salvador. São raros os espaços que se preocupam com acústica, o som acaba ficando alto e embolado. Sou chato, né? Não gosto de ver uma boa banda numa performance bacana e o som não tá bem definido. Sei que vai aparecer alguém pra dizer que, 'se for é rock’n’roll é alto mesmo', e eu concordo! É alto mas não tem que ser embolado, entende?", observa.

Agora se você ou sua banda tem vontade de se apresentar no cafofo de Carlinhos e Dona Neuza, se ligue na curadoria - ou melhor, na falta dela: "Eu não escolho mais. Me libertei dessa árdua tarefa! (risos) Mas os critérios são os mesmos de todos os eventos e festivais que tem uma curadoria: além da qualidade do material (não é só o talento que faz a obra, né?), o artista / banda tem que estar trabalhando, lançando coisas, ativo nas redes, em contato direto com o publico, indo a shows e sendo visto (quem é visto é lembrado), etc. Tem banda que manda material querendo tocar, mas nunca foi ao evento. Tem banda que nem os próprios membros divulgam o próprio show. Esses geralmente ficam de fora", avisa.

Banda elétrica e acústica 

Sim, como eu tava dizendo, foto Christian Baes
No palco, Irmão Carlos canta acompanhado por Silvio de Carvalho (guitarra), Allan Villas Boas (bateria), Felipe Pires (teclados) e Ângelo Rosário (baixo).

“O show que faço agora é uma mistura do meu disco solo Irmão Carlos (2017) com os discos da Irmão Carlos & O Catado (ex-banda). Tá bem dançante e divertido. Tô com uma turma sensacional, o baixista e o tecladista são novos na banda e vem dando uma cara mais funk jazz”, conta.

Ultra-ativo, Carlinhos também desenvolvendo um show acústico (com outra banda) e vídeos de releituras funky de clássicos do rock.

"O acústico é um trabalho paralelo, feito com muito carinho, que tá ficando pronto e tá bonito. A banda que tá gravando comigo não é a mesma do show. Vai ser lançado. primeiro somente pra turma que comprou o crowdfunding, depois vai pro mundo virtual, mas show mesmo só se tiver uma demanda. Tipo carrinho de brinquedo que você joga na ladeira, se descer ele vai, se não descer a gente bota em baixo do braço e foca na bola, porque o baba tá rolando", conta.

"Agora eu tô publicando, semanalmente, um vídeo gravado sempre ao vivo, não transmitido ao vivo. Postado no Instagram, Youtube e Facebook, podendo ir pra outras plataformas de vídeo também. Tudo gravado com todos tocando juntos, sem cortes no áudio e sem edição. A parte de vídeo será da forma que tivermos no dia. Pode ser uma super câmera com algum parceiro filmando ou um celular. O importante é gerar esse conteúdo. Musicas autorais ou funk covers são o cardápio. A série iniciou com uma versão funk de Bichos Escrotos dos Titãs, uma banda que influencia diretamente o meu trabalho. Esse vídeo vem atraindo público de outros Estados pra as plataformas e foi filmado com um celular. Acho que hoje em dia é uma forma de tá sempre em contato com meu público e conquistar novos seguidores. Temos que usar as ferramentas disponíveis ao invés de esperar pra fazer algo grandioso e relaxar depois, sabe? Acho que tudo é válido, desde que tenha uma preocupação básica com a qualidade. Bandas como Vulfpeck, Pomplamoose, Scary Pockets fazem isso muito bem lá fora. Let’s groove!", conclui.

Se jogue.

Domingo de Cabeça pra Baixo / Com Irmão Carlos, Ronei Jorge e Tabuleiro Musiquim / Domingo, 16 horas / Espaço Cultural Dona Neuza (Marback, setor 2) / R$ 10 e R$ 5



NUETAS

Celo & Maviael

Celo Costa e Maviael Melo fazem o show Cantoria, Forró e Poesia hoje e novamente no dia 29, às 19h30, Teatro SESC Pelourinho, R$ 10 e R$ 5.

Igor Gnomo na Sala

Banda de jazz rock com baião, ijexá, maracatu, Igor Gnomo Group se apresenta hoje na Sala do Coro do TCA, às 20 horas. R$ 10  e $20.

Sally & Patricia hoje

O duo internacional Sally Pinkas (Israel, piano) e Patricia Shands (EUA, clarineta) faz recital hoje na Reitoria da Ufba, às 20 horas, gratuito.

Marconi na Bardos

Marconi Lins faz seu som folk quarta-feira no Bardos Bardos, 19 horas, gratuito.

Sputter se dá mal

...No novo clipe dos fabulosos The Honkers, que acaba de ser lançado. Se ligue na atuação do rapaz.

sexta-feira, novembro 09, 2018

VALLE SE REINVENTAR

Autor de clássicos eternos da MPB, Marcos Valle faz show com apanhado da carreira ao piano hoje e amanhã no Rubi

Marcos Valle, foto Quinho Mibach
Um dos nomes mais destacados da insuperável geração sessentista da música brasileira, Marcos Valle se apresenta hoje e amanhã no Café-Teatro Rubi.

No palco, apenas o essencial: ele, seu instrumento e uma vocalista para duetar.

“No show, sou eu e meu piano, cantando e tocando algumas de minhas músicas mais conhecidas, de diversas épocas de minha carreira de 55 anos. Tem também a participação de minha mulher, Patricia Alví, que canta algumas músicas comigo”, conta Marcos, em entrevista por email.

Com mais de 300 composições gravadas por centenas de artistas no Brasil e no exterior, Valle é um daqueles artistas que de tempos em tempos se reinventa, conquistando sempre novas gerações de admiradores.

Foi pioneiro da bossa nova, partiu para os Estados Unidos, fez trilhas de novelas históricas, ajudou a criar o funk carioca (com hits estrondosos como Estrelar e Bicicleta, ainda nos anos 80) e a partir dos anos 1990, tornou-se queridinho de DJs estrangeiros e artistas contemporâneos, que passaram a samplear suas músicas.

“De início, sim, me surpreendeu (esse culto à minha obra no estrangeiro), mas depois, me trouxe muita felicidade”, conta Marcos.

“Conquistei uma nova geração na Europa, Japão, e também nos EUA, onde rappers famosos como Jay Z, Kanye West e Pusha T, entre outros, começaram a samplear (oficialmente), não só minhas composições, mas também minhas gravações dessas músicas. Hoje, nas minhas turnês pelo mundo, o público jovem é muito grande”, nota.

Tem que suar

Autor (muitas vezes em parceria com o irmão, Paulo Sérgio Valle) de clássicos  como Samba de Verão, Mustang Cor de Sangue, Viola Enluarada, O Cafona e Preciso Aprender a Ser Só, Marcos teve seu sucesso mais impressionante em 1983 com Estrelar, espécie de hino do culto ao corpo com suas famosas palavras de ordem: “Tem que correr, tem que suar, tem que malhar / Musculação, respiração, ar no pulmão”.

Só que, além do caráter “saúde” da canção, seu arranjo trazia uma modernidade até então inédita entre artistas da MPB, algo que Valle trouxe de lembrança dos EUA na época.

“Houve uma época, de 1975 até 1980, que me afastei voluntariamente do Brasil, por causa da censura que reinava nas artes, em decorrência da ditadura. Acabei fazendo, entre outras coisas, uma parceria com Leon Ware, que havia sido  parceiro de Marvin Gaye. Fizemos várias músicas com uma mistura de samba, bossa, R&B, soul. A última que fizemos, antes de  voltar para o Brasil foi essa, que seria futuramente Estrelar”, conta.

“Quando gravei meu segundo LP para a Som Livre, a incluí. Na hora do meu irmão fazer a letra, fomos para o estúdio ouvir a base já gravada. A música  era um baião / funk que trazia uma energia muito grande. Da ideia de energia, passamos para movimento, daí para exercício, daí para ginástica”, diz.

Coqueluche instantânea, Estrelar foi o tema daquele verão.

“Conquistou uma nova geração de fãs para minha música.  No exterior, é sucesso atual, presente em comerciais, séries de TV, filmes e pistas de dança”, afirma.

"Sinto-me reconhecido a grato por tudo que fiz ,e continuo fazendo com minha música, no Brasil, e no exterior. Sempre adorei ir a Salvador. Me faz bem, me traz alegria. Estive no ano passado no Café Teatro Rubi, foi bom demais, por isso estou voltando. Vamos curtir bastante", conclui.

Marcos Valle / Hoje e amanhã, 20h30 / Café-Teatro Rubi / R$ 100 / Vendas: Bilheteria Rubi, www.compreingressos.com