segunda-feira, agosto 20, 2018

MEGA MANGÁS

Obras clássicas para adultos do quadrinho japonês chegam ao Brasil em edições caprichadas. Temas vão do folclore à temas sociais pesados, como corrupção e máfia

Ayako: obra de gênio de Osamu Tezuka
Nem só de robôs gigantes, bichinhos fofos e samurais do tempo do Toshiro Mifune (pergunte ao seu avô) vivem os quadrinhos japoneses.

Nos últimos meses, livrarias e comic shops tem recebido uma magnífica leva de obras-primas em mangá para adultos.

Aqui destacamos três dos melhores quadrinhos lançados este ano no Brasil – em qualquer gênero: Ayako, de Osamu Tezuka; NonNonBa, de Shigeru Mizuki e Tekkonkinkreet, de Taiyo Matsumoto.

A despeito de serem três obras-primas produzidas em diferentes épocas, o destaque fica mesmo com Ayako.

Quem conhece quadrinhos sabe o porque pelo mero mencionar de seu autor: Osamu Tezuka (1928 - 1989), também conhecido como Manga no Kamisama, o deus do mangá.

Criador de Astro Boy, autor de outros mangás antológicos como Buda e Adolf, Tezuka foi um dos maiores gênios da arte da narrativa sequencial, ombro a ombro com outros mestres como Carl Barks (a mente criativa por trás de Walt Disney), Will Eisner, Stan Lee & Jack Kirby e Robert Crumb.

NonNonBa e suas assombrações
Em Ayako, Tezuka construiu um dos maiores paineis sociais do Japão pós-guerra em qualquer linguagem – literatura, TV e cinema incluídos.

Com mais de 700 páginas, a obra (em bela edição capa dura da Veneta) é absolutamente viciante, como os melhores romances clássicos.

Tudo começa quando Jiro Tenge retorna da guerra, depois de anos como prisioneiro dos americanos –  uma imperdoável desonra entre os japoneses. Seu pai, Sakuemon, um influente latifundiário em sua região, o “recepciona” dizendo-lhe que preferia que tivesse morrido em combate e que está deserdado.

Na sequência,  Jiro descobre um vergonhoso segredo no seio de sua família.

Para completar, o próprio Jiro carrega seus segredos e vergonhas de guerra.

A partir daí, a trama só se intensifica a cada página, envolvendo diversos aspectos da sociedade japonesa no pós-guerra, como a paranoia anticomunista, espionagem, choques de gerações, luta de classes, corrupção política, Yakuza (máfia), machismo.

O visual alucinante de Tekkon Kinkreet
Sem contar as inúmeras perversões caseiras da família Tenge, coisa de fazer corar as faces de   Nelson Rodrigues.

Junte-se a isso tudo a imensa maestria gráfica de Tezuka e o que se tem é uma obra-prima irretocável em todos os aspectos.

Youkais e meninos de rua

Os outros dois lançamentos (NonNonBa e Tekkonkinkreet) inauguram o selo Tsuru, da editora Devir, dedicado a lançar somente a nata dos mangás adultos, entre clássicos e contemporâneos.

E começou bem, lançando duas grandes obras bem diversas entre si. NonNonBa é uma deliciosa reminiscência lírica da infância de seu autor, Shigeru Mizuki (1922-2015), em sua cidade, Sakaiminato.

A grande estrela de  NonNonBa é a avó do autor, uma senhorinha muito fofa que sabia tudo dos youkais, espíritos-monstros do folclore japonês.

Shigee-san, alter-ego do autor na infância, vivia aterrorizado com os tais youkais, por isso não desgrudava da avó, que o ajudava a enfrentar seus medos.

Delicada, engraçada e tocante, NonNonBa é outra leitura agilíssima e um clássico inescapável dos mangás.

Em Sakaiminato, Mizuki é tão querido que lá existe uma rua com seu nome, decorada com mais de 100 estátuas de bronze dos seus personagens.

Tekkonkinkreet, por outro lado, é completamente diferente. Nele, acompanhamos as aventuras de dois meninos de rua, Kuro (preto) e Shiro (branco), que se movem pela cidade como entidades parkour, entre postes e tetos de edifícios.

Eventualmente, acabam entrando em choque com a Yakuza, que busca dominar a sua cidade, a fictícia Takaramachi.

Até aí, nada demais, não fosse o fato de seu autor, Taiyo Matsumoto, ter criado um visual absolutamente alucinante e riquíssimo em detalhes.

A trama em si não deixa por menos, com sequências de ação e violência muito fortes (lembre-se, este não é um mangá para crianças), deitadas sobre o papel de forma vanguardista por Matsumoto, um artista que destoa completamente do visual tradicional da indústria do mangá.

Ayako /  Osamu Tezuka / Veneta/ Tradução: Marcelo Yamashita Salles e Esther Sumi/ 720 p./ R$ 129

NonNonBa / Shigeru Mizuki/ Devir/ Tradução: Arnaldo Oka/ 428 páginas / R$ 89,90

Tekkonkinkreet / Taiyo Matsumoto/ Devir/ Tradução: Arnaldo Oka/ 620 páginas/ R$ 94

sexta-feira, agosto 17, 2018

DIVA COM MENSAGEM

Com show hoje no TCA, a cantora  soteropolitana Luedji Luna abre turnê por seis capitais para lançar seu álbum de estreia, o belo Um Corpo No Mundo

Luedji Luna, foto Alile Dara Onawale
Quem acompanha a música da Bahia – a arte, não o comércio – sabe que o celeiro de grandes artistas que este estado sempre foi segue produzindo em alta.

Luedji Luna, que lança seu primeiro álbum hoje na Sala Principal do Teatro castro Alves, é uma prova viva desta afirmação.

Sua estreia em disco, Um Corpo no Mundo (Natura Musical), a colocou direto no seleto grupo de artistas contemporâneos que tem angariado um rápido reconhecimento de crítica e da parcela pensante do público.

Nos fones, a voz aveludada de Luedji afaga os ouvidos com uma música sutil, elegante e carregada de silêncios e significados – de forma muito similar a outro grande artista baiano de agora, Tiganá Santana, que, não por acaso, participa do show de hoje.

Além de uma estética semelhante, Luedji e Tiganá compartilham o mesmo produtor: o sueco baiano Sebastian Notini, que também assinou o premiado Mama Kalunga (2015), de Virgínia Rodrigues, entre outros discos.

“Tiganá é um grande querido e ele é uma grande inspiração pra mim”, afirma Luedji, por telefone.

“E me apresentar no TCA é um é um grande sonho realizado. É um dos maiores palcos do Brasil,  não só em tamanho, é o palco co dos grandes nomes da MPB. Isso consolida essa minha trajetória, é como uma confirmação de que estou apta a me apresentar ali e fazer parte desse rol de grandes artistas que passaram por lá”, observa.

Suavidade dura

Mas se Luedji é suave na voz e na sonoridade, é dura na mensagem: seu disco é um manifesto, como ela mesma diz, de um não-lugar: o lugar do negro na sociedade.

Cabô, por exemplo, se refere ao extermínio de jovens negros nas periferias: “Cabô, vinte anos de idade / quase vinte e um / pai de um, quase dois / e depois das 20 horas / menino, volte pra casa”.

Já Iodo é um inventário de tragédias cotidianas e históricas: “nem a solidão / nem o capataz / estupro corretivo contra sapatão / a loucura da solidão / capataz / queimarem a herança de minhas ancestrais / arrastarem Cláudia / pelo camburão / caveirão / 111 tiros contra  5 corpos / 111 corpos mortos na prisão”.

“Achei (o disco pronto) um resultado muito coerente com a proposta. O som é completamente dissociado do tempo e do espaço. Estou falando de um não-pertencimento, de um não-lugar. Essa é a narrativa do disco: não é música brasileira, nem africana, nem baiana”, afirma Luedji.

Turnê e eleições

Ô! Já vai? Foto Alile Dara Onawale
O show de hoje é também a abertura da turnê de lançamento de Um Corpo no Mundo, conforme prevista pelo edital da Natura.

Até o dia 31 próximo, quando fecha esse ciclo de shows no Circo Voador (Rio de Janeiro), Luedji e banda terão passado por Aracaju (amanhã), Maceió (domingo), Belo Horizonte (dia 21) e São Paulo (dia 25).

“Minha banda são os mesmos músicos  que tocaram no disco: queniano Kato Change (guitarras), o paulista criado na Bahia e filho de congoleses François Muleka (violão), o cubano Aniel Somellian (baixo elétrico e acústico), o baiano Rudson Daniel (percussão) e o sueco radicado na Bahia Sebastian Notini (percussão). Mais as convidadas sopros Mayara Almeida (sax) e Stephanie Sousa  (trumpete)”, conta Luedji.

Com uma obra tão combativa em um momento de tanto retrocesso político, econômico e social, com a sociedade brasileira rachada em bandas que se odeiam mutuamente e prestes a encarar eleições gerais, Luedji se diz, assim mesmo, esperançosa.

“Sempre. Sou uma mulher de fé. Sei que o cenário não é favorável à um projeto político democrático de fato. Mas tenho esperança de que o jogo possa virar. E ainda que pior aconteça, há males que vem para o bem”, afirma.

“Não devemos temer  políticos. Quem tem que ter medo são eles, pois nós somos a nação. Nós temos que ter as rédeas desse país, não esse grupo de privilegiados que manda em tudo. Nós somos a maioria. Acho que o brasileiro  ainda não tomou consciência de que o povo é o verdadeiro dono do poder”, conclui.

Luedji Luna: Um Corpo no Mundo / Hoje, 20 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / filas A a P:  R$ 60 e R$ 30 / filas Q a Z: R$ 40 e R$ 20 / filas Z1 a Z11: R$ 30 e R$ 15

terça-feira, agosto 14, 2018

SEGUNDO PÁREO

Amanhã, o Sertanília estará na disputa de mais um Prêmio da Música Brasileira

Sertanília, foto Leonardo Monteiro
Banda que faz um belíssimo trabalho de pesquisa e difusão das diversas sonoridades do sertão baiano, a Sertanília está de dedos cruzados esta semana.

Razão: pela segunda vez, foram indicados ao Prêmio da Música Brasileira (28ª edição), categoria Grupo Regional, pelo seu segundo álbum, Gratia (Natura Musical, 2017).

Com eles, concorrem ao mesmo prêmio dois gigantes do gênero no Brasil: Trio Nordestino e Quinteto Violado, ambos de Pernambuco.

A cerimônia de premiação é amanhã, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Transmissão ao vivo pelo You Tube e Canal Brasil.

Ou seja, não é pouca coisa. “Essa indicação, assim como a primeira, traz muita confiança no trabalho e no grupo. Atesta que estamos no caminho certo na busca da nossa sonoridade”, afirma Anderson Cunha, diretor musical do projeto, violeiro e compositor.

“A indicação foi uma grande surpresa para o grupo inteiro e talvez por isso seja ainda mais gratificante recebê-la. Todos nós temos trabalhado muito individualmente e coletivamente e Gratia, nosso segundo disco, é resultado disso”, acrescenta a cantora Aiace, que divide a linha de  frente do Sertanília com Anderson e o percussionista Diogo Flórez.

Volta aos palcos

Apesar do trabalho de qualidade artística indiscutível e do reconhecimento de crítica e do público apreciador da música de raiz, o Sertanília faz bem menos shows do que gostaríamos.

“Não é tão simples tocar ao vivo e viajar devido complexidade da formação. Não é fácil soar bem com tanta coisa acústica no palco, exige tempo pra solucionar os problemas com o som. Além de ser caro pra viajar”, diz Anderson.

“Apesar de termos fãs cativos, o público de Salvador aceita melhor uma sonoridade com elementos ligados ao litoral. Independente disso, estamos buscando nosso melhor formato e sonoridade para retomar nossas apresentações”, acrescenta.

A boa notícia é essa: neste momento, o trio – e seus músicos de apoio – preparam um novo espetáculo para breve: “Para os próximos meses, planejamos tocar mais por Salvador e por outros cantos, mesclando o repertório dos nossos dois discos, Ancestral e Gratia, e músicas novas. Estamos preparando um espetáculo novo e devemos divulgá-lo em breve, assim que finalizarmos nossas pesquisas”, adianta Aiace.

Fica a torcida da coluna pela vitória do trio, único representante baiano da nova geração na disputa (os outros baianos indicados são Gal Costa e Novos Baianos).

“Pra uma banda independente, que teve que abrir seu caminho na marra e construir sua história com as próprias mãos as indicações com certeza são um prêmio”, conclui Anderson.

www.sertanilia.com.br



NUETAS

Malgrado no Bardos

Sábado tem a banda Malgrada (rock alternativo) lançando seu primeiro trabalho no  Bardos Bardos.  16 horas, pague quanto quiser / puder.

Buster, Rosa, Anti

Grande banda do HC local, a Buster lança seu novo álbum (Still on The Road) com a rapaziada da  Rosa Idiota e Antiporcos. Sábado, 18 horas, no Casarão Estúdios (Bonocô, 381, salte na estação Brotas do metrô). R$ 10.

Andaluz no Gamboa

Mais conhecido como baterista de bandas como Lo Han e Cavern Beatles, Thiago Brandão retoma sua banda solo Andaluz em show domingo, no Teatro Gamboa Nova. Acústico, o som segue a linha Clube da Esquina. A coluna recomenda. 17 horas, R$ 20.

sexta-feira, agosto 10, 2018

SAMBA E POESIA EM FAMÍLIA

Paulinho da Viola e Beatriz Rabello, sua filha, fazem hoje no Teatro Castro Alves show com clássicos do samba e bloco de marchinhas  

Paulinho e sua filha Beatriz Rabello
Artista fundamental da MPB, Paulinho da Viola traz hoje à Sala Principal do Teatro Castro Alves o show conjunto com  sua filha, a cantora  Beatriz Rabello.

Em turnê pelo país, a apresentação tem sido bastante elogiada por público e crítica.

Paulinho, que está sem lançar disco de inéditas desde Bebadosamba (1996), dividirá o repertório do show de hoje  entre seus clássicos de carreira, músicas dos dois álbuns de Beatriz e um bloco especial dedicado aos sambas e marchinhas que marcaram os carnavais de antigamente.

“Tem músicas do disco dela e também minhas músicas. Também peguei algumas que gravei de outros artistas, canções que são conhecidas e outras não tão conhecidas assim, mas que tem a ver com o roteiro que preparamos”, conta Paulinho, por telefone.

”A dificuldade é até essa, às vezes. É tanta música que a  gente acaba indeciso”, ri.

O trecho em que relembram antigos Carnavais é, não por acaso, intitulado Bloco do Amor – mesmo título do disco mais recente de Beatriz.

“Ela canta algumas músicas em um determinado momento em que eu não estou no palco. São músicas de sucesso, um pequeno  pot-pourri de carnaval, de marchinhas e sambas”, conta Paulinho.

Do repertório clássico do sambista, quem for ao TCA hoje terá o prazer de escutar ao vivo pérolas do quilate de Timoneiro, Foi um Rio que Passou em Minha Vida, Pecado Capital, Eu Canto Samba, Coração Leviano e Cenários, além de outras composições de autoria da nata do samba carioca:  Maria Vasco, D. Ivone Lara, Jorge Aragão, Douglas Germano e André da Mata.

Beatriz, foto Livio Campos
No palco, Paulinho e Beatriz são acompanhados pelo grupo Mulato Velho, formado por Fernando Brandão (cavaquinho), Rogério Souza (violão), Sidão Santos (baixo), Flavio Santos (bateria), Daniel Karin e Felipe Tauil (percussão), Whatson Cardoso e Dudu Oliveira (sopros), além da participação especial do violonista João Rabello, outro filho de Paulinho, irmão de Beatriz.

Bloco do Amor

Ele conta que este show começou como um projeto só de Beatriz, mas que, à medida em que foi se envolvendo, acabou se tornando um projeto a quatro mãos.

“Na verdade, este é um show que minha filha tinha preparado porque ela lançou um disco. Foi um trabalho dela, ela escolheu o repertório, eu não me envolvi. Quando estava pronto, ela veio me  mostrar. Achei muito bonito, mas passou”, relata.

“Aí um dia fiquei pensando nesse disco e fiz uma música inspirado nele. Ela nem tinha me pedido nada. Mostrei a ela, que ficou entusiasmada, achou que tinha a ver. O título da música é O Bloco do Amor, que acabou por se tornar o titulo do disco dela”, conta.

Após participar de uns dois shows de lançamento do disco da filha, Paulinho acabou se envolvendo mais no trabalho e o resultado é este show conjunto de pai e filha.

“Começamos a mudar o show, por que comecei a participar mais,  ficou uma coisa da gente. Então acabamos dividindo esse trabalho”, acrescenta Paulinho.

Criolo e cuidado

Paulinho da Viola
Mas esta não é a única parceria de Paulinho da Viola neste momento.

No dia 17 próximo ele faz um show em São Paulo com o rapper Criolo.

O show é na programação do A Noite Veste Azul, série de eventos em comemoração aos 90 anos da Portela, escola de samba de Paulinho.

“Serei eu, a Velha Guarda da Portela, Monarco e como convidado, o Criolo, que além de ser muito querido, fez um disco de sambas (Espiral de Ilusão, 2017). E Elifas Andreato dirige o espetáculo”, conta.

Apesar da boa fase de trabalhos, Paulinho se mostra preocupado com os rumos do país, conforme se aproximam as eleições.

“A ameaça de retrocesso é muito grande, isso está claro. Cabe a nós atenção e cuidado. Temos que estar alertas contra certas coisas que nos ameaçam. É só isso que eu digo”.

Já disse tudo, mestre.

Paulinho da Viola e Beatriz Rabello: Bloco do Amor / Hoje, 21 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves /  filas A a P: R$ 180 e R$ 90 / filas Q a Z6: R$ 150 e R$ 75 / filas Z7 a Z11: R$ 120 e R$ 60 / 14 anos

quinta-feira, agosto 09, 2018

AMOR, PIANO E VOZ

De hoje até domingo: Alice Caymmi traz à Caixa Cultural o show tributo  Para Minha Tia Nana

Alice Caymmi na foto de Daryan Dornelles
Representante da terceira geração de uma das mais nobres famílias da MPB, Alice Caymmi traz a Salvador o show em que homenageia justamente sua tia, Nana – irmã do seu pai, Danilo Caymmi.

Em formato piano e voz, Alice vem acompanhada apenas do tecladista de sua banda,  Itamar Assiere, para quatro sessões na Caixa Cultural a partir de hoje até domingo.

“Este é um show em homenagem a minha tia Nana que tem a ver com minhas referências encontrando  as referências dela. Nele, eu busco o que  nós duas temos em comum e também de diferente”, conta Alice, por telefone.

No repertório, as canções que notabilizaram a grande Nana, mas não só: a sobrinha inclui também algumas de suas preferidas, além de outras de seu próprio repertório, promovendo um diálogo entre seus imaginários.

Assim, quem for à Caixa esses dias poderá ouvir Alice pondo seu vozeirão a serviço de canções como Derradeira Primavera e Chora Coração  (Tom Jobim), Soneto da Separação  (Tom e Vinicius), Gloomy Sunday e I’m a Fool to Love You (Billie Holiday), Volver (Carlos Gardel), Nunca Mais (Dorival Caymmi), Out of My Mind Just in Time (Erykah Badu), Love is a Losing Game (Amy Winehouse), Mi Niña Lola (Concha Buika), Meu Recado, Como Vês e Agora (da própria Alice).

“São músicas muito complexas, baladas, na maioria. Levo comigo um instrumentista maravilhoso e impressionante que já tocou muito com minha família, que conhece muito minha tia e nosso jeito de cantar, que é o Itamar Assiere”, diz.

“Então escolhi essas canções, que são músicas que unem influências. São as influencias dela (Nana) e as minhas. Onde elas se encontram, nos compositores, nos intérpretes e nos repertórios”, acrescenta.

Imerso na temática

Naturalmente, Alice tem se esforçado para lidar com o peso do sobrenome famoso em seu trabalho solo.

Neste show específico, porém, o esforço é suavizado por razões óbvias.

“Um show como esse, já imerso na temática de minha família, me deixa mais confortável. Nele, não faço nada mais do que cresci fazendo em casa, então não tem muita dificuldade”, conclui.

Alice Caymmi: Para Minha Tia Nana / de Hoje  até domingo / 20 horas (Hoje, sexta e sábado) e 19 horas (Domingo) /  Caixa Cultural (R. Carlos Gomes, Centro) / R$ 10 e R$ 5

terça-feira, agosto 07, 2018

UMA CIDADE NA CABEÇA

Ex-Cascadura, baterista Thiago Trad se lança solo com Moscote, uma trip instrumental conduzida  ao piano  

Thiago e a modernidade líquida. Ft Nathalia Miranda
Uma cidade imaginária onde Salvador e Marrakesh, Vale do Capão e Berlim, Santo Amaro e Paris são transversais de uma mesma avenida.

Assim é Moscote, a estreia solo de Thiago Trad, ex-Cascadura.

Baterista há mais de 25 anos, Thiago surpreende ao conduzir o álbum inteirinho ao piano.

Não, ele não é o Arthur Moreira Lima, mas sua fluência ao instrumento não deixa de ser uma boa novidade para quem o conhecia apenas (sem demérito) como baterista de bandas do rock local.

“Fui baterista a vida inteira, só no Cascadura toquei por 15 anos. Mas  o piano a pareceu na minha vida muito cedo, já que  minha mãe tinha um piano e nos estimulava a tocar, até porque sempre teve um gosto muito interessante, Beatles, Clube da Esquina e tal. Já na faculdade (Escola de Música da Ufba), o piano passa a ser meu instrumento de composição e conclusão de curso”, relata.

“Então me considero um pianista, o que me deixa muito a vontade para usar o piano como instrumento criativo e percussivo”, afirma.

Essencialmente instrumental, Moscote foi gravado com uma pequena grande ajuda dos amigos (via crowdfunding) e está disponível desde o último dia 20 nas plataformas e lojas digitais  para venda, download e streaming.

Apesar de instrumental, algumas faixas contam com os vocalizes privilegiados de Nancy Viegas, uma das convidadas de Thiago no álbum, junto a outras feras: Kiko Souza (sax e flauta), Alexandre Vieira (baixo acústico), Ldson Galter (baixo elétrico e acústico), Stefano Cortese (acordeom e arranjos), Ivan Sacerdote (clarineta), André Borges (sax  cretino) e Tadeu Mascarenhas (baixo elétrico e arranjos).

Mas o que tem a ver todas aquelas cidades citadas no início do texto com o disco? Simples: pouco depois do fim da Cascadura, em 2012, Thiago botou uma mochila nas costas e ganhou o mundo.

Caminhou pelas ruas de Berlim, Marrakesh, Nova Iorque, Lisboa, Paris, Buenos Aires, Montevidéu, Juazeiro, Santo Amaro.

Por onde passava, se enturmava com músicos de rua e fazia um som com seu pandeiro. Gravou muitos temas e trechos ali mesmo,  na rua.

“Muito do que eu utilizei de ferramenta de inspiração tem  a ver com minha história de vida, meus anos todos na Bahia (Thiago é paulista de nascimento mas vive desde criança em Salvador) e cidades que me marcaram, como Santo Amaro e Juazeiro, cidade-natal de minha mãe. Mas principalmente Salvador, que é a cidade mais cultural e criativa que eu conheço”, detalha.

Um piano no Capão

"Como assim, cara?", foto Nathalia Miranda 
Enquanto isso, a mãe de Thiago, a juazeirense, se mudava de mala e cuia para a Vila do Capão, hoje uma localidade mais cosmopolita, por sua atuante população de estrangeiros, do que Salvador.

Entre uma viagem ao exterior e outra, lá ia Thiago visitar a mãe entre as montanhas do Vale do Capão.

“E lá eu encontrei o Stefano (Cortese), que mora há uns 8 anos no Capão e é uma figura muito atuante na cena cultural de lá, toca no Grupo Instrumental do Capão”, conta.

“Foi um encontro muito rico. Nos identificamos como músicos e como pessoas com os mesmos interesses. Lá eu mergulhei nesse processo criativo com ele, foram vários dias só trabalhando os temas ao piano (de Cortese). Ele trouxe uma bagagem muito própria e assim, as músicas foram ganhando forma”, relata.

E foi ao próprio Capão, à casa de Stefano, que se convocou o experiente produtor Tadeu Mascarenhas para registrar os temas ao piano.

“Lá mesmo gravamos todos os pianos. Então o Capão é muito importante neste processo, pois foi onde consegui transformar minhas ideias em música”, percebe.

Com sete faixas / temas, Moscote é mesmo uma viagem musical bem abrangente – versátil e agradável de ouvir.

Ainda que haja um experimentalismo mais típico aqui e ali (especialmente na faixa Calma, com quebras de ritmo e dissonâncias típicas da música erudita contemporânea), o álbum flui em bom ritmo e seduz pela diversidade dos temas.

“Eu queria o disco muito orgânico, usando a lógica do instrumento percussivo, batucando nele (no piano), usamos de uma forma não melódica e até processos à moda John Cage (inserindo objetos entre as cordas). Exploramos o piano não só de forma melódica e harmônica, mas também percussiva”, detalha.

Moscote, Macondo

Enquanto trabalhava no Capão, Thiago lia, nas horas vagas, o clássico Cem Anos de Solidão, a saga da família Buendia criada pelo Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez.

“Então eu  tava lá lendo o livro, viajando em solidão de final de relacionamento. O nome Moscote vem meio que num sonho, uma alusão a Macondo (cidade fictícia onde se passa o livro)”, conta.

“A originalidade do livro, esse sentimento latino, foi algo revolucionário enquanto literatura e acabou me influenciando para criar meu universo imagético, para expandir minha realidade. Isso deu sentido a obra e me ajudou a levar adiante o projeto e fazer esse registro”, relata.

Lançado o álbum, Thiago se prepara para começar as apresentações ao vivo.

“Primeiro vem a divulgação, para que as pessoas saibam do disco e lhes desperte interesse. Mas não vejo a hora de tocar. É a melhor parte, levar para o palco e compartilhar a música viva”, conclui Thiago.

Moscote / Thiago Trad / Bahia Experimental (Bex Records) & Sê-lo! Netlabel / Disponível na principais plataformas digitais

segunda-feira, agosto 06, 2018

DUELO DE GUITAR HEROES NO PODCAST ROCK OFF!

Robin Trower
Mané Yngwie Malmsteen, menino!

Sai fora que o negócio aqui é de connoisseur!

E nossos connoisseurs de plantão, senhores Nei Bahia e Osvaldo Braminha Silveira Jr., resolveram promover um duelo de guitar heroes RAIZ hoje: Robin Trower versus Alvin Lee!

Ambos ingleses, o primeiro iniciou a carreira na banda prog Procol Harum (aquela do hit Whiter Shade of Pale) e depois saiu em carreira solo.

Já Alvin Lee se notabilizou pela metralhadora de notas que disparou durante o festival de Woodstock, em 1969.

Ah, não conhece, conhece de ouvir falar?

Ouça os especialistas, meu filho / minha filha / mex filhx! 😎



Mr. Lee, Alvin Lee

sábado, agosto 04, 2018

SAMBALANÇO EM CONCERTO

Maestro do ritmo e da alegria, Jorge Ben Jor traz hoje à Concha Acústica seu show Salve Simpatia. Em exclusiva, ele fala da apresentação e de sua trajetória

Jorge Ben Jor, foto Natália Bezerra / Wikicommons
Tesouro vivo da música brasileira, Jorge Ben Jor, que traz o show Salve Simpatia hoje à Concha Acústica do TCA, tem sido alvo de investigações há décadas. Calma pessoal, não tem nada a ver com verbas – públicas ou privadas.

Há décadas, músicos e pesquisadores se debruçam sobre sua técnica de tocar violão, buscando decifrá-la.

Com uma mão direita veloz, Jorge imprimiu um ritmo sincopado único às suas canções, percutindo as cordas, ao invés de dedilhá-las.

Esse estilo de tocar  tornou-o um ídolo entre público e crítica, leigos e músicos, bossa-novistas e jovem-guardistas.

Como todo mundo que criou algo muito próprio, Jorge tem dificuldade em explicar sua criação – seja por opção consciente, seja porque ele simplesmente toca assim mesmo e fim de papo.

“Não sei dizer exatamente… Acho que o grande segredo da música é expor sua personalidade através dela, por isso cada banda tem seu estilo, todos são únicos e especiais”, despista o mestre em uma rara – e exclusiva para o Caderno 2+ – entrevista para a imprensa baiana.

No compasso do caminhar

Na verdade, foi um outro mestre do violão quem inspirou Jorge – um dos mais ilustres baianos de todos os tempos: “Quando comecei a tocar, procurei fazer o que havia de melhor na música. O estilo – a Bossa Nova – não estava na moda. Eu ouvi o João Gilberto, que tocava de modo tão coloquial e único, e levei ele como meu ídolo”, afirma.

Quando estourou com Mas Que Nada, logo no primeiro disco (Samba Esquema Novo, 1963), Jorge já disse a que veio, se tornando o único cantor apreciado tanto pelo pessoal da bossa nova quanto pela patota (termo da época) da Jovem Guarda, então movimentos antagônicos.

Jorge, que então era só Ben, passou batido pelo fenômeno.

“Procuro fazer um ‘Som Universal’ que foi inventado pela marcha e pulsa no compasso do caminhar. É o seu andar, o seu tempo, o seu passo, é o dois por dois. O rock europeu vem dele. Nosso ritmo aqui é dois por quatro, é diferente”, explica Jorge.

“Mas também é preciso fazer uma letra que caia no gosto de todo mundo. Modéstia à parte, consegui fazer uma letra  que é universal até hoje: Mas Que Nada toca no mundo inteiro e, todo mundo canta. Alemão canta Mas Que Nada. Japonês faz perfeitamente”, percebe o músico.

Babulina 1972, ano do LP Ben. Arquivo Nacional / Wikicommons
Pertence a Deus

Mas o fato é que hoje é dia de show de Jorge Ben Jor no  solo sagrado da Concha Acústica, uma oportunidade imperdível para velhos e novos fãs sentirem a vibração de Babulina (e sua banda) em pessoa.

E o melhor: é um show de hits, escolhidos pelos próprios fãs em enquete no Facebook do homem.

“É um show alegre e cheio de energia para que as pessoas possam cantar e dançar tanto as músicas mais antigas quanto os lançamentos”, conta.

“O público costuma pedir Mas Que Nada, Filho Maravilha, País Tropical, entre outros. Fizemos uma enquete pelo Facebook para esse show e Taj Mahal está liderando com vantagem”, acrescenta.

No palco, uma banda de feras que é sempre um show a parte: Lucas Real Fernandes (bateria),  Neném da Cuíca (percussão), Marlon Sette (trombone), Jean Arnout (sax), Danilo Oliveira (teclado) e Guto (baixo).

Além de todos aqueles hits que o Brasil e o mundo amam ouvir, Jorge lança duas músicas novas: São Valentin e Mete Goal, possíveis prévias de um – espera-se – novo álbum.

Seria  o primeiro desde Reactivus Amor Est (2004). (Recuerdos de Asunción 443, de 2007, foi  reunião de material esquecido na Som Livre).

Mas nem isso ele revela: “Quando me perguntam isso,  costumo responder que o futuro só pertence a Deus. Nem eu sei dizer se haverá esse novo álbum de inéditas, mas só esse ano já foram lançadas duas músicas: São Valentin e Mete Goal”, conclui.

Sábio Jorge.

Jorge Ben Jor: Salve Simpatia / Amanhã,  18 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$  60 e R$  120 / Camarote: R$ 120 e R$ 240 / 14 anos


domingo, julho 15, 2018

JUNTOS E SEPARADOS

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle releem obras uns dos outros em belo álbum conjunto. Cada um na sua, gravaram pérolas dos repertórios alheios

Edu, Marcos e Dori na foto de Clara Nascimento
Membros do primeiro escalão da MPB e setentões, Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle são homens de outro tempo, de outro século.

Essa característica meio que marca  seu primeiro (e belo) álbum conjunto, Edu Dori & Marcos.

Amigos de longa data – há mais de 50 anos – os três cantores / compositores até já chegaram a formar um trio lá nos anos 1960, mas de rápida duração e sem registro fonográfico.

Antes tarde do que nunca, o álbum lançado agora pela Biscoito Fino é bem-vindo.

O reencontro musical foi em 2016, quando Marcos Valle fez dois shows (Rio e SP) em parceria com a cantora norte-americana Stacey Kent.

“Aí o Marcos nos convidou para participar. Acontece que a Sônia,  irmã do Edu (Lobo)  trabalha com a Kati Almeida Braga, da Biscoito Fino. A Kati se interessou em fazer o disco e cá estamos nós”, conta Dori Caymmi por telefone, do Rio.

Com suas vozes intactas, cada membro do trio gravou quatro músicas cada, com duas regras valendo.

Primeira: cada um grava composições dos outros dois.

Segunda regra: não houve encontros no estúdio entre os três. Cada um arranjou, produziu e  gravou suas músicas escolhidas do próprio jeito, sem qualquer interferência dos outros dois.

“A deia é que ninguém ia tomar conhecimento do trabalho do outro. Então o disco traz a visão de cada um a respeito das músicas do outro. E chegamos à conclusão de que seria assim mesmo. Cada um decidiu seu repertório, seu arranjador e seus músicos”, detalha o filho do meio de Dorival.

O repertório, escolhido a dedo, evita lugares-comuns e é primoroso. Edu canta pérolas como Na Ribeira Deste Rio (poema de Fernando Pessoa musicado por Dori) e Viola Enluarada (dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle).

Dori bota seu vozeirão a serviço de  Bloco do Eu Sozinho (Marcos Valle e Ruy Guerra) e Na Ilha de Lia No Barco de Rosa (de Edu Lobo e Chico Buarque).

E Marcos Valle vai de Canto Triste (de Edu e Vinícius) e Alegre Menina (de Dori, com letra de Jorge Amado).

Nos arranjos, ênfase nas cordas, sopros e percussão sutil. O resultado são doze faixas que escorrem calmas como as águas  de um regato, massageando ouvidos e coração.

“Não sou de música animada, então procurei gravar as composições mais tranquilas do Edu e do Marcos, como  Na Ilha de Lia No Barco de Rosa e Dos Navegantes (ambas de Edu)”, conta Dori.

“Em algumas delas cabia umas cordas. Por mim, faria com uma  formação enorme (de músicos), mas não tinha dinheiro pra isso, então  fiz com um quarteto  de cordas nas músicas do Edu e outro de  sopros nas do Marcos”, detalha.

Interação, não!

Apesar do resultado inegavelmente bonito, o método “cada um na sua” adotado pelo trio resultou também em uma certa frieza – algo que não passou despercebido pela crítica.

“A  imprensa em geral achou que deveríamos ter interagido. Eu acho essa palavra – interação – um lixo. Achei que a liberdade de fazer o que pensa da música do outro era mais importante”, afirma Dori.

“O disco ficou legal e nós não interagimos talvez por que eu não gosto da palavra. Eu não interajo”, acrescenta o músico, caindo na risada.

A possibilidade de incluir pelo menos uma faixa cantada pelos três juntos chegou a ser aventada, mas, infelizmente, não avançou.

“Chegamos a cogitar, mas aí era complicado. Que música vamos cantar? Se for do Edu, preocupa Marcos e Dori. E daí por diante”, conta.

“Aí para ser de outra pessoa tinha a ideia de ser uma do Tom (Jobim), que era nosso mentor, mas isso morgou logo, não vingou. Então não levamos adiante essa coisa de interagir”, crava Dori.

Se não se encontraram no estúdio, que tal então um encontro ao vivo – de preferência no palco do Teatro Castro Alves, em Salvador?

“(Uma possível série de shows) Ainda esta em discussão, o pessoal está procurando fazer. O Edu já disse que não quer fazer show em lugar com mesa pra nego beber e comer croquete. Nosso som é coisa para teatro. Sentar e apreciar em silêncio”, conclui.

Edu, Dori e Marcos / Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle / Biscoito Fino / R$ 34,50

quarta-feira, julho 04, 2018

MEMÓRIAS DO MACHISMO ESTRUTURAL

Influente ativista, a escritora colunista do The Guardian  Jessica Valenti teve lançado no Brasil seu livro Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista

Jessica Valenti. Foto Leslie Hassler / divulgação
Norte-americana – de ascendência italiana –, casada e com uma filha, a jornalista e escritora  Jessica Valenti poderia muito bem passar por uma dona de casa tradicional, não fosse ela uma das representantes mais visíveis do feminismo na mídia de língua inglesa.

Colunista da edição on line do tradicional jornal britânico The Guardian, Jessica teve seu livro de memórias recentemente lançado no Brasil, via editora Cultrix: Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista.

Ousado, o livro traz um relato em primeira pessoa sem amarras: Jessica conta sobre as (várias) vezes em que foi assediada ou abusada – um homem ejaculou em sua calça no metrô quando era adolescente –, sobre abortos, sobre os namorados que teve  e também uma fase mais farrista, em que curtiu usar drogas.

Desta forma, este é, como o título já deixa  claro, rigorosamente  um livro de memórias. Portanto não é o caso de se procurar aqui as ideias e teorias acerca do feminismo desenvolvidas por Jessica.

Suas ideias podem ser encontradas nos livros em que escreveu, como Full Frontal Feminism: A Young Woman's Guide to Why Feminism Matters (Feminismo Total: O Guia de Uma Jovem Mulher Sobre Porque o Feminismo Importa), He's a Stud, She's a Slut, and 49 Other Double Standards Every Woman Should Know (Ele é Pegador, Ela é Vadia e Outros 49 Casos de Dois Pesos e Duas Medidas que Toda Mulher Deveria Conhecer) e The Purity Myth: How America's Obsession with Virginity Is Hurting Young Women (O Mito da Pureza: Como a Obsessão da América pela Virgindade Está Ferindo as Jovens), entre outros – além dos seus artigos.

Linhagem de vítimas

Filha de um casal de comerciantes de roupas de Nova York, Jessica descobriu bem cedo que, para muitos homens, ela não passava de um “objeto sexual”.

Aos doze anos, um homem lhe exibiu o pênis em um vagão de metrô.

Ao contar o fato em casa, soube de sua mãe que, tanto ela quanto sua avó e suas tias já haviam passado por  episódios semelhantes, alguns mais ou menos graves.

Conclusão: as mulheres formam uma linhagem de vítimas de violências – grandes ou pequenas –  que se sucedem, geração após geração.

“Mas pior do que o abuso em si era a aterradora compreensão do que significava ser do sexo feminino: não era uma questão de se algo ruim aconteceria, mas de quando e de quão ruim seria”, escreve.

“A frequência com que as mulheres da minha família sofreram abuso ou foram agredidas sexualmente tornou-se uma mensagem com luzes piscantes codificada em nosso DNA: Me. Machuque”, percebe a escritora.

Nos anos seguintes, Jessica apenas viu aumentar a frequência com que era ofendida e humilhada, especialmente por ser uma mulher sexualmente ativa e envolvida no movimento feminista.

Já na faculdade, após dormir com um rapaz, um preservativo usado foi pregado à porta do seu dormitório, acima da palavra “vadia” rabiscada.

Foi o primeiro de muitos.

Já atuando no movimento feminista, um (supostamente) conceituado repórter político escreveu e publicou um artigo inteiro apenas sobre seus seios, a partir de uma foto sua ao lado de Bill Clinton.

Depois de fundar, com uma amiga, o site Feministing, foi que a coisa piorou de vez. Passou a receber constantes ameaças de morte e estupro – ameaças estas que foram estendidas à sua filha, Layla (hoje com sete anos) mal ela havia nascido.

Ainda hoje, Jessica recebe ofensas e ameaças em ritmo diário, conforme ela mesma nos conta nesta entrevista exclusiva, concedida por email, ao Caderno 2+.

ENTREVISTA COMPLETA: JESSICA VALENTI: “Não há nenhuma boa razão para não abraçar a igualdade entre homens e mulheres”

Porque a senhora acha que algumas pessoas tem tanta raiva do feminismo?

Jessica. Ft Brendan Bush (Roanoke College Wikicommons)
Acho que as pessoas que tem raiva ou não entendem o que realmente é o feminismo ou estão muito conectadas ao sistema patriarcal que mantem as mulheres por baixo. Não há nenhuma boa razão para não abraçar a igualdade entre homens e mulheres.

Como é ser uma feminista no governo Trump? Pior do que no governo Obama?

Muito pior, porque tudo se tornou muito mais urgente e muitos avanços que tivemos no governo Obama foram anulados. Fora da política, também tem a incrível mudança cultural que tem sido tão anti-mulheres – toda essa gente sexista e racista que estava calada até alguns anos atrás se tornou muito mais ousada.

Você não se preocupou em falar tão abertamente (no seu livro) sobre sexo e drogas em uma época tão (falsamente) moralista? Ou devemos falar mais sobre sexo e drogas justamente por vivermos nesta época?

Não me preocupei muito - era apenas a verdade. Também acho que existe uma preocupação a mais quando mulheres escrevem sobre esses temas. Homens tem escrito sobre sexo e drogas desde sempre, e isso jamais foi considerado controverso.

Quais são as maiores mentiras (ou fake news) sobre o feminismo que acabam servindo para voltar as Pessoas contra a causa?

Acho que um dos maiores mitos sobre o feminismo é que odiamos os homens, ou que queremos destruir a família. A verdade é que os homens se beneficiariam do feminismo em suas vidas.

O que você diria às mulheres que não se identificam com o feminismo?

Não acho que todo mundo é, ou deva ser, feminista. A mim parece um pouco derrotista não se envolver com o feminismo, mas a verdade é que precisamos de pessoas apaixonadas e seguras de si no movimento.

A senhora ainda recebe ameaças e insultos? Já processou alguém?

Não processei ninguém, mas obrigada pela ideia. Recebo ameaças e assédio todos os dias, isso se tornou parte de minha vida, o que é bem triste.


O feminismo teve muitas vitórias no século passado, desde o direito ao voto. Qual você diria ser a próxima grande conquista do movimento no século 21?

Ótima pergunta! Acho que a próxima batalha é garantir que meninos não cresçam como sexistas. Já fizemos um desserviço à inúmeros jovens permitindo que fossem doutrinados pela misoginia.

Seria lícito acreditar que o feminismo beneficiaria não apenas às mulheres, mas também aos homens, ao livra-los de tantos papeis pré-determinados?

Exatamente. Existem tantas possibilidades para os homens, mas eles não acham que o movimento lhes diz respeito. Essa é uma das maiores mudanças que precisamos fazer.

Objeto Sexual: Memórias de uma Feminista / Jessica Valenti / Cultrix/ Trad.: Jacqueline D. Valpassos/ 232 p./ R$ 37

terça-feira, julho 03, 2018

SOLITÁRIO, PORÉM COMUNICATIVO

Túlio Augusto faz pausa no Doutorado em Aveiro para dois shows no Gamboa Nova


Túlio Augusto, foto Estúdio Kryna
Membro de uma brilhante geração de artistas gestada na Escola de Música da Ufba, a geração OCA (Oficina de Composição Agora), Túlio Augusto bateu asas de Salvador há alguns anos para morar em Portugal, onde agora cursa Doutorado em Composição na Universidade de Aveiro.

Este mês, Túlio retorna à Bahia para visitar família e amigos, além de trazer seu novo show, Solitário, à cidade.

Serão dois domingos no Teatro Gamboa Nova: 15 e 22.

No show, o mesmo que ele apresentou em uma turnê pela Galícia (região entre Portugal e Espanha) em março e abril, Túlio se apresenta sozinho, tocando guitarra e gaita.

O som é uma releitura jazzística e muito pessoal de um gênero popular: o blues.

“O formato solo é, por si só, inusitado. Pouca gente tem coragem de encarar. Deixa aparecer muitas das nossas falhas que ficariam mais escondidas quando se toca em conjunto, além de exigir muito esforço técnico e concentração”, observa o músico, por email.

Apesar de se apresentar sozinho em um show instrumental, Túlio afirma não ser esta uma viagem tão solitária quanto o título deixa transparecer.

“Há pessoas que não se importam com as expectativas do público ou se dispõem a ouvi-lo. Acho isso um grande erro. A arte acontece pela comunicação. Não ouvir o que o público tem a dizer é como fazer um monólogo”, afirma.

“Gosto da troca, da conversa, do contato. Em formato solo, como é  o caso, levo sempre um repertório aberto, sujeito a mudanças. Posso perguntar o que o público quer ou mudar de acordo com o momento”, conta o músico.

Educação real e libertadora

Como todo mundo que vai morar no estrangeiro, depois de algum tempo, Túlio começou a enxergar o Brasil com mais clareza: nada como um pouco de distância para ver melhor.

“Estar fora do Brasil me fez sentir mais próximo do Brasil. Talvez por ter tido a oportunidade de ver as coisas de fora, de forma mais neutra. É verdade que a gente reclama muito de tudo no Brasil e às vezes se sente desanimado.  Mas todo lugar tem seus próprios problemas. O Brasil é muito especial em muitos aspectos e aos poucos o brasileiro vai percebendo isso, deixando de valorizar mais o que vem de fora do  que o que está bem à nossa frente”, observa.

“Acho que a gente precisa aprender mais com as tradições e nosso próprio contexto social, investir em educação real e libertadora, não naquela que forma operários. Sobretudo, acho que a gente tem que parar de subestimar o poder que existe em fazer nossa parte”, conclui. Tá falado!

Túlio Augusto / 15 e 22 de julho, 17 horas / Teatro Gamboa Nova / R$ 20 e R$ 10 / Ouça:  www.tulioaugusto.com



ENTREVISTA COMPLETA: TÚLIO AUGUSTO

Como é esse show que vc traz à Bahia? Só composições autorais ou também tem releituras?

Foto Emília Suto
Tenho tentado tocar mais músicas autorais que releituras. Minha abordagem é predominantemente jazzística, e no caso do jazz, a performance, por si só, tende a mostrar algo mais pessoal, mesmo quando se apresentam versões. Ao mesmo tempo, é preciso encontrar um equilíbrio entre o que é novo e familiar. Há pessoas que não se importam com as expectativas do público ou se dispõem a ouvi-lo. Eu, particularmente, acho isso um grande erro. Embora o artista tenha necessidade de criar e falar, e sua voz seja sua obra, a arte acontece pela comunicação. Não ouvir o que o público tem a dizer é como fazer um monólogo. E eu não creio que essa seja uma forma muito interessante de comunicação. Gosto da troca, da conversa, do contato. Em formato solo, como é esse o caso, levo sempre um repertório aberto, sujeito a mudanças. Posso perguntar o que o público quer ou mudar de acordo com o que o momento pede. Pode ser um tema em especial ou mesmo um estilo (blues, jazz, música brasileira). Minha música se apoia bastante em improvisação e isso me dá a liberdade de fazer com que um mesmo repertório possa durar meia hora ou a noite toda. Coloco a guitarra em destaque, mas também toco algumas músicas para gaita solo. O formato solo é, por si só, inusitado. Pouca gente tem coragem de encarar. Deixa aparecer muitas das nossas falhas que ficariam mais escondidas quando se toca em conjunto, além de exigir muito esforço técnico e concentração. É o formato que tenho me dedicado mais e é também como apresentei praticamente todos os shows da turnê pela Galicia em março e abril.

Você, meio como a banda local Laia Gaiatta, parece propor uma releitura de gêneros tradicionais (blues,nos dois casos) via métodos acadêmicos muitas vezes pouco compreensíveis para quem não é necessariamente estudante de (ou estudado em) música. A afirmação confere? Como estabelecer uma ponte com plateias leigas?

Acho a pergunta muito interessante porque expõe algumas fragilidades de um dos maiores problemas presentes no meio  acadêmico atualmente, que é o distanciamento em relação ao público amador ou não especializado em gêneros musicais mais específicos. Creio que estamos num processo natural de retorno a muitos dos gêneros musicais tradicionais. Esse caminho de volta dá-se, em parte,  por uma sensação de esgotamento que a música erudita atual - que cada vez mais chamamos de música acadêmica - nos traz, do ponto de vista da composição, no sentido de se manter longe de uma concepção em que a música possa ser simplesmente ouvida e apreciada como música. Na maioria das vezes, é muito difícil para o público leigo ouvir a música erudita que se produz hoje, embora haja muitas exceções. No geral, existe uma preocupação exagerada com processos de composição e uma certa negligência com o resultado sonoro. Na música popular, sinto que o mainstream tem tido muita dificuldade em apresentar novidades e, de uma forma sutil, acaba incorporando muito da cultura tradicional, ainda que muitas vezes de forma caricaturada e superficial. No meio acadêmico, talvez pelo cunho científico, existe uma pressão para que se crie algo novo. Na minha opinião, a obsessão que muita gente tem por criar algo que ninguém fez, leva quase sempre a um isolamento que não contribui muito de forma mútua. A melhor maneira de estabelecer pontes com qualquer tipo de plateia é ser verdadeiro. E nem sempre é fácil falar a verdade. O que a Laia Gaiatta faz é simplesmente falar sua verdade utilizando a bagagem que cada integrante tem, deixar parte do que foi desenvolvido na academia se misturar com o outras coisas que se inserem de forma mais visível em gêneros tradicionais. E o blues tem muita coisa em comum com a música nordestina: os acordes com sétima, a simplicidade harmônica, a vida simples das pessoas num contexto rural e urbano, o lamento e a história contada. E ainda ouso traçar um paralelo entre o Mississipi e o São Francisco. No meu caso, embora a gaita remeta ao blues de forma quase inevitável, também faço analogia com a sanfona. O blues é uma maneira de contar histórias. A Laia Gaiatta e eu contamos nossas próprias histórias através do blues e outros gêneros tradicionais de uma forma menos tradicional e sem preocupação com purismo. Os métodos acadêmicos só precisam ser compreendidos se eles forem a finalidade e não o caminho (ou parte do caminho). Fiquei até com vontade de fazer alguma coisa com a Laia Gaiatta.

Como anda o mestrado em Aveiro? Já concluiu? E depois, vai continuar residindo em Portugal? 

Portugal surgiu na minha vida como uma possibilidade de explorar outros lugares, fazer mestrado em Composição e dar mais atenção a mim mesmo na área da música. Embora eu tivesse me formado em Composição e Regência na UFBA e abandonado um mestrado em seguida, passei meus últimos anos no Brasil me dedicando mais a projetos culturais e trabalhando na produção de outros grupos. E foi nesse período que me envolvi com a cultura de tradição popular de forma mais direta. Em Portugal, depois do mestrado em Composição fiz outro mestrado, em Educação Musical (Análise e Técnicas de Composição) e hoje faço doutorado em Composição na Universidade de Aveiro. Minha pesquisa relaciona cultura tradicional e contemporaneidade. Tenho me concentrado principalmente na música que integra em sua prática o uso de cordofones, como os vários tipos de violas encontradas na Península Ibérica e Brasil. Há muito tempo venho percebendo o quanto a música tradicional esteve presente no trabalho que tenho desenvolvido ao longo dos anos e se manifestado em dimensões além da "pureza". Não gosto da abordagem de folclorizar gêneros e manifestações. Por mais que as coisas não se apresentem de forma tão explícita, sempre há a presença de elementos formadores de uma cultura. Chamamos isso de intertextualidade, que é um termo que se desenvolveu bastante na área literária mas que tem suas bases em teorias filosóficas. E embora tudo que fazemos tenha algo de uma outra coisa, procuro tentar trazer à consciência muitos dos processos que possam ser utilizados diretamente na música. É, de certa forma, aquela  magia que molda minha visão de mundo. Ainda não sei como vai ser o futuro e onde estarei, mas sei tem a ver com música e educação.

Foto Emília Suto
O disco Solitário já saiu? Se não, quando sai? O que ele representa em termos de comparação com Blue Spell?

O significado da palavra "solitário" é diferente de "sozinho".  Não me sinto sozinho, mas sempre fui naturalmente solitário. Solitário representa uma reflexão sobre ser responsável por seu próprio destino, sobre desempenhar funções que são suas e outras que precisam ser. É também sobre adaptação. Em Solitário, como no formato de show solo que tenho me apresentado, preciso me adaptar para desempenhar em um só instrumento a função de vários. A verdade é que nada substitui a coesão de um grupo. E substituir não é minha intenção e muito menos busco uma ideia vaidosa de auto-suficiência. É, antes de tudo, um exercício de desapego em relação à falta de outros instrumentos para saber lidar com essa falta. Enquanto em Blue Spell eu gravei vários instrumentos, em Solitário, a ideia é justamente assumir que só há um instrumento e que não há nada de errado nisso. A guitarra muitas vezes traduz linhas melódicas que seriam comuns ao contrabaixo, torna-se percussão e dialoga consigo mesma. É importante dizer também que nesse trabalho eu pretendo diminuir a distância entre a gravação e a performance, algo que fica bastante evidente num formato solo. Queria já ter lançado, mas achei que ainda precisa trabalhar mais am algumas das músicas inéditas ou ainda pouco tocadas em shows, além de ter a oportunidade de gravar algumas coisas após o contato com plateias distintas, já que algumas das músicas terão sido apresentadas em pelo menos três países. Solitário sai muito em breve e deve dar origem a trabalhos semelhantes.

Me fala o que você realmente gostaria de dizer mas eu não perguntei?

Estar fora do Brasil me fez sentir mais próximo do Brasil. Talvez por ter tido a oportunidade de ver as coisas de fora, de forma mais neutra. É verdade que a gente reclama muito de tudo no Brasil e às vezes se sente desanimado.  Mas todo lugar tem seus próprios problemas. O Brasil é muito especial em muitos aspectos e aos poucos o brasileiro vai percebendo isso, deixando de valorizar mais o que vem de fora do Brasil que o que está bem à nossa frente. Os problemas que os artistas enfrentam no Brasil não são muito diferentes dos encontrados em outros lugares. A dificuldade de se viver de arte é real em todos os lugares. Quando os artistas se unem e se valorizam, as pessoas ao redor compreendem isso e valorizam também. Tenho visto que a prática do "pague quanto puder" se tornou comum em muitos lugares e isso me entristece porque são os artistas quem mais contribuem pra isso. É preciso encontrar estratégias mais eficientes para fazer com que o artista possa ser, de fato, profissional. Essa atitude tem que partir do artista, que precisa ser mais organizado, aprender a dizer "não" quando se deparar com uma proposta indecorosa. Outro grande desafio está em perceber que a música não deve depender de competições para se sustentar. Sinto que no meio artístico há uma necessidade muito grande de falar, mas pouca gente se dispõe a ouvir ou se preocupa se está sendo realmente ouvido. Nossa arte é um reflexo de nós mesmos e a nossa maneira de fazer arte é um reflexo da maneira de interpretar o mundo. Quando se foca demais no emissor, a mensagem, que nesse caso é a arte, se perde. E assim perdemos todos. Revisitar tradições, além de dar a elas um merecido lugar de valorização, é também uma atitude de buscar autoconhecimento, de se relacionar com as pessoas ao nosso redor. Acho que a gente precisa aprender mais com as tradições e nosso próprio contexto social, investir em educação real e libertadora, não naquela que forma operários. Sobretudo, acho que a gente tem que parar de subestimar o poder que existe em fazer nossa parte.

NUETAS

Babuca faz recital

Violonista, cantor, compositor, Babuca Grimaldi apresenta o   Recital Pindorama Utrópicos. Amanhã, 20 horas, no Teatro SESI, R$ 20 e R$ 10.

A volta dos doidões

Adoráveis e malucas, as veteranas bandas Los Canos e Vinil 69 retornam para um show no   Club Bahnhof sábado, 22 horas, R$ 20 e R$ 15.

Metal Saturday

Aqueronte, The Crypt, Rattle e Death Tales detonam sábado no antigo Tchê Night Club (Amaralina). 20h,  R$ 15.

My Friend is a Lo Han

Domingo tem My Friend Is A Gray e Lo Han no Groove Bar. 17 horas, R$ 15 e R$ 25.

quarta-feira, junho 27, 2018

O INVENTOR DO SERTÃO

Livro com autobiografia resgatada por Gonçalo Júnior e disco-tributo trazem de volta a lembrança e a obra de Catulo da Paixão Cearense, nome incontornável da cultura brasileira

Imagens cortesia da Editora Noir
Certos artistas são tão basilares para a cultura de um país que acabam por ser esquecidos, tão entranhada é a sua produção na própria alma do povo.

O compositor, escritor e poeta Catulo da Paixão Cearense, que ganhou recentemente dois lançamentos que buscam resgata-lo, é com certeza um desses casos.

Tratam-se de um livro e um disco. O livro é Música e Boemia: A Autobiografia Perdida de Catulo da Paixão Cearense (Editora Noir), enquanto o disco é A Paixão Segundo Catulo (Selo Sesc).

O livro é um resgate histórico inestimável do autor de Luar do Sertão, cortesia do incansável jornalista e pesquisador baiano Gonçalo Júnior.

Nele, podemos ler 31 textos escritos pelo próprio Catulo, a título de memórias, para a revista literária Vamos Ler!, publicados entre fevereiro e outubro de 1943.

“Foi por acaso (que me deparei com os textos do Catulo). Adquiri uma coleção com mais de 600 volumes da Vamos Ler!, revista importantíssima nas décadas de 1930 e 40, a mesma que lançou Clarice Lispector como jornalista e ficcionista em 1942”, conta Gonçalo.

“Fui olhar a coleção para ver o que havia de interessante ali. E me deparei com a autobiografia de Catulo, publicada em capítulos. Fui atrás do resto e constatei que saíram 31 capítulos, entre fevereiro e outubro de 1943. Ele parou porque sua saúde piorou. Tinha, então, 80 anos de idade”, relata.

Há pelo menos duas grandes razões para apontar Música & Boemia como um dos grandes lançamentos literários do ano no Brasil.

A primeira razão é óbvia: trata-se do relato autobiográfico de um artista importantíssimo para a própria formação da cultura brasileira.

“Catulo é o pai da nossa cultura popular. Foi ele quem ressuscitou o cordel nesse período. Foi dele a primeira música caipira gravada em disco, Caboca de Caxangá (1913)”, lembra Gonçalo.

Para Gonçalo, Catulo é tão importante para a cultura brasileira, que, sem ele, é bem possível que esta tivesse se mantido puramente urbana, sem a brejeirice sertaneja que desaguou em representações como Luiz Gonzaga e Guimarães Rosa.

“Costumo dizer que (a poética do Catulo) foi seminal, no sentido que trouxe para os versos o modo de falar do povo. Arrisco a dizer que sem Catulo, não teria existido o escritor Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: Veredas. Sem ele, talvez o forró não tivesse existido, nem Patativa do Assaré ou Luiz Gonzaga”, afirma.

“Esse é apenas um aspecto. O outro é a riqueza melódica de seus versos e de sua música. E, por último, há o valor poético, de primeira grandeza. A sua capacidade engenhosa de construir versos com impressionante riqueza vocabular aparece em Caboca de Caxangá, considerada a primeira música caipira gravada em disco”, reitera Gonçalo.

Encharcado de Parati

A segunda razão para ler estas memórias é aspecto documental da sua época, lugar e figuras históricas.

Nascido em São Luís do Maranhão em 1863 e morto em 1946, Catulo se mudou com a família para o Rio de Janeiro –  então Capital do Império – em 1880.

Em suas memórias, pode-se pescar muito do que era viver naquela metrópole entre as últimas duas décadas do século 19 e as duas primeiras do século seguinte.

“A riqueza de informações que esses relatos trazem é impressionante. É como acender um refletor na escuridão de um estádio”, afirma.

“Uma época pouco documentada na área de música, por exemplo. A maioria dos livros se limita a relatar a história do Carnaval. E as memórias musicais de Catulo jogam luzes de modo revelador sobre a época”, conta Gonçalo.

Para finalizar, uma terceira razão para ler estas memórias: Catulo era um pândego.

Suas lembranças são encharcadas de Parati (cachaça), suas noites eram de festa em festa, nas quais ele era – invariavelmente – a estrela principal, sempre acompanhado de seu violão.

Entre apresentações nos grandes salões da República Velha, ou varando madrugadas pelas vielas do Rio antigo, Catulo sempre tinha um causo hilariante, uma cantiga delicada ou uma doce poesia na manga.

“Eu organizei e editei o livro para que sua história e legado sejam redescobertos. Catulo é o coringa da cultura brasileira”, afirma.

Workaholic notório, Gonçalo tem sempre diversos projetos em andamento ao mesmo tempo. "Em julho, sai a biografia do pornógrafo Carlos Zéfiro. E espero, até o fim do ano, publicar, finalmente, a saga do Bandido da Luz Vermelha, pronta desde 2013. No momento, escrevo a de Jacob do Bandolim", conclui Gonçalo.

A Paixão Segundo...

Apesar da vasta produção musical, Catulo em vida não deixou nem um ai sequer gravado, muito menos um acorde de violão.

Sua produção sobreviveu graças às partituras que eram largamente vendidas ao público antes da popularização da indústria fonográfica e  discos 78 rotações.

Desta forma, as canções de Catulo vem sendo gravadas há mais de um século por inúmeros artistas. A Paixão Segundo Catulo, CD recém-lançado pelo Selo Sesc, é a mais recente produção dedicada à obra do maranhense.

Produzido pelo flautista e saxofonista Mário Sève, reúne diversos artistas interpretando canções de Catulo em versões ortodoxas, sem muita “mudernage” e ressaltando as melodias e a poesia de homenageado e seus parceiros.

Liderados por Sève, artistas do porte de Joyce Moreno (Ontem Ao Luar), Leila Pinheiro (Flor Amorosa), Cláudio Nucci (Cabocla de Caxangá), Mariana Baltar (Luar do Sertão) Alfredo Del-Penho (Amenidade) e Carol Saboya (Você Não Me Dá).

Um tributo sincero, que afaga ouvidos e corações.

Música e Boemia: A autobiografia perdida de Catulo da Paixão Cearense / Catulo da Paixão Cearense / Noir/ 252 p./ R$ 49,90

A Paixão Segundo Catulo / Vários Artistas / Produzido por Mário Sève / Selo Sesc / R$ 20