terça-feira, dezembro 12, 2017

QUATRO MEIOS PARA MAVIAEL MELO

Maviael Melo lança CD, DVD, LP e livro com show quinta-feira na Casa do Comércio


Foto Sidney Rocha
Um dos nomes mais importantes da cena contemporânea do cordel e cantoria, Maviael Melo está realizando um projeto muito importante para sua carreira, lançando o registro ao vivo do seu show Áries da Canção em CD, LP, DVD e livro.

"O conteúdo de cada mídia é o mesmo, gravado ao vivo no teatro Módulo em maio desse ano, a diferença está no LP, que por conta do tempo de execução do vinil são apenas 9 faixas, enquanto o CD e DVD tem 17. O critério para a escolha das faixas do LP foi em colocar as músicas autorais", conta Maviael.

Para marcar a ocasião, o show é reapresentado nesta quinta-feira, no Teatro Sesc Casa do Comércio.

Pela foto ao lado, vê-se que a produção é caprichada, com uma banda substancial de grandes músicos, cenário e iluminação, tudo nos conformes.

“A alegria maior de Áries da Canção foi poder contar com uma turma de músicos e artistas que se identificam com o nosso pensamento em se fazer arte na perspectiva de que a música tem que ter leveza e verdade. O erudito e o popular necessariamente não segue nesse contexto ao pé da letra e sim as experiências que fizemos durante quase dois anos em show onde o violino dialogava com a flauta, o violoncelo com a clarineta e a sanfona a da o toque regional mais popular”, afirma o artista.

“Na gravação contamos com João Omar (filho de Elomar, violoncelo), Marcelo Fonseca (arranjos e direção musical), Gabi Guedes e Ferret (percussões), Cicinho de Assis (sanfona), Kito Matos (violão de sete cordas), Rodrigo Sestrem  (flauta) e Ivan Sacerdote (clarineta)”, lista Maviael.

Em suma, uma turma muito – muito! –  boa. Mas não acabou, não. “Ainda como convidados tivemos Xangai, Maciel Melo, Alisson Menezes e Celo Costa. Sem contar com a equipe de produção, que teve a direção de Andrezão Simões, e cenário de Fátima Falcon e Nyala (Mimo Arquitetura)”, acrescenta. O homem não é fraco, não. Olho nele.

Cartas em cordel

Foto Rosilda Cruz
Pernambucano que vive desde 2005 na Bahia (perderam, pernambucanos!), Maviael batalhou crowdfunding e patrocínio privado para viabilizar o mesmo lançamento nas quatro mídias.

“A gravação, produção e lançamento de Áries da Canção foi toda feita com apoio privado e investimento próprio. Para viabilizar, foi criada uma campanha de financiamento coletivo direto, com vendas antecipadas do álbum”, conta.

“Com isso, além de algumas empresas que adquiriram cotas maiores, alguns amigos e parceiros também compraram antecipadamente, possibilitando assim todo o processo de produção”, acrescenta.

Criado em uma família de onze irmãos, Maviael conta que cresceu cercado do que havia de mais nobre em cultura popular. O pai e os tios chegavam a se comunicar por cartas escritas em forma de cordel. Não deu outra: “Eu acompanhava meus irmãos e irmãs mais velhos em saraus. Em casa durante todo o dia, sempre tinha música tocando. Elomar, Chico Buarque, Geraldo Azevedo, Fagner, Belchior, Sérgio Sampaio, Elba Ramalho e tantos outros artistas que permearam a minha formação musical e poética”, conta.

“A poesia em casa era a comunicação natural. As cartas trocadas por meu pai E os irmãos dele eram todas em cordel”, lembra.

"Eu cheguei na Bahia em 2005 para participar de um festival de música, na época o Unifest, em dezembro. Logo após o Festival apareceu-me um convite de fazer algumas cantorias em Salvador, a partir daí fui conhecendo pessoas e percebendo que a declamação dos cordéis durante as cantorias fazia a diferença. Isso foi abrindo portas e criando oportunidades de me fixar na Bahia. A partir desse movimento, o cordel começou a ser utilizado, em 2007, em atividades voltadas para educação ambiental junto com a música. O natural que seria ir para Recife, onde já tinha alguns contatos, foi ficando mais natural aqui em Salvador e nisso já são 12 anos a se completar em 17/12/2107. Ficando a alegria que a Bahia me recebeu assim como eu a ela. Vale lembrar que todas as minha formação escolar e universidade a partir dos 15 anos foi prioritariamente feita e Juazeiro-BA. Como se diz lá em Petrolina e Juazeiro eu sou PEBA", relata o poeta.

No CD / DVD e no show, a pegada é essa: cultura popular com pegada erudita, um deleite para quem ainda acredita na arte: “Áries da Canção é um sonho, uma inquietação poética de fazer pela arte com o propósito de oferecer algo novo. Por vezes fui questionado se valia a pena investir tanto se está tudo mais fácil com o advento da internet e que lançar um Álbum com CD, DVD, LP e um livro não era investir sem necessidade, e sempre na minha percepção era do contrário, as pessoas terão o acesso também pela internet, tanto que já lançamos no dia 08/12 o CD em todas as plataformas virtuais, estamos soltando faixas do DVD pelo nosso canal do YouTube. Mas ter o material físico é o que mais me satisfaz nesse momento, ver o filho nascer”, conclui Maviel. Bravo.

Áries da Canção: lançamento do CD, DVD, LP e Livro de Maviael Melo / Convidados: Roberto Mendes, Flávia Wenceslau, Alisson Menezes, Celo Costa e João Sereno / Quinta-feira, 20h30 / Teatro SESC Casa do Comércio / R$ 40,  R$ 20

NUETAS

Toninho na Bahia

Um dos artíficies do Clube da Esquina, o guitarrista Toninho Horta está na cidade hoje, cumprindo dupla agenda. Às 15 horas, ele lança songbook (com pocket show) na loja Foxtrot (Shop. Bela Vista). À noite (21 horas), ele participa de uma edição especial do Jazz na Avenida (Armação, ao lado da Boi Preto). R$ 30, estudante de música paga R$ 20.

Matita Perê no Sesi

Dona de um dos discos mais bonitos do ano (Reino dos Encourados), a banda Matita Perê faz mais um show no Teatro do Sesi amanhã, às 20 horas, R$ 30. Recomendado!

My Friend is a Gray

Rapaziada ligada no stoner e cheia de gás, a banda My Friend is a Gray é a atração do programa on line Berlim Puro! desta quinta-feira. Assista no www.vandex.tv, 20h30.

Barulho, Náusea, Aborígenes

A Barulho S/A é a anfitriã de mais uma edição do Let’s Rock Itapuã, recebendo  as  bandas Náusea (de Santo Amaro) e Aborígenes (Alagoinhas). Sábado, no Casarão de Itapuã (em frente a Sereia) 21 horas, R$ 10.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

PODCAST ROCKS OFF FAZ RODADA FINAL DE LANÇAMENTOS 2017

A deusa Liela Moss, do Duke Spirit
O podcast Rocks Off volta ao ar fazendo aquela boa e velha (ops) rodada de novidades.

Nesta edição, botamos na roda faixas novas do Van Morrison, Duke Spirit, Oh Sees, Danielle Lupi & Parquet Courts, Greg Allman, Neil Young, Beck, Mark Lannegan et al!

No final, uma singela homenagem ao late great Fats Domino.

Gravado no mesmo dia da morte de outro late great, Johnny Hallyday, o Elvis francês.

Não deu tempo de incluí-lo no programa, mas fica aqui o registro e um vídeo supimpa do homme mais abaixo...

Com Nei Bahia, Osvaldo Braminha Silveira Jr. e este blogueiro que vos fala.



Bônus: Johnny Hallyday, Le Penitentier (versão do clássico House of The Rising Sun)

quinta-feira, dezembro 07, 2017

IRMÃO CARLOS NO BIG BANDS SÁBADO PASSADO

Engrenagem da Ilusão (composição de Irmão Carlos)



Registrado durante o festival Big Bands 2017, na Feira da Cidade (canteiro central da Avenida Centenário), no dia 02 de dezembro de 2017. Voz: Irmão Carlos Guitarra: Silvio de Carvalho Baixo: Daniel Figueiredo Bateria: Sidney "Rasta" Santos

Porra de Barzinho de Rio Vermelho! (composição Irmão Carlos)



Registrado durante o festival Big Bands 2017, na Feira da Cidade (canteiro central da Avenida Centenário), no dia 02 de dezembro de 2017. Voz: Irmão Carlos Guitarra: Silvio de Carvalho Baixo: Daniel Figueiredo Bateria: Sidney "Rasta" Santos

A POESIA MUITO VERBAL DE UM DESIGNER GRÁFICO

Hoje: Mauro Ybarros, conhecido designer visual, lança seu primeiro livro de poesia em jam de blues

Mauro Ybarros, foto Felipe Brust
Designer gráfico admirado, jazzófilo “doente”, boêmio incorrigível. Para completar o cardápio do quarentão charmoso, só faltava à Mauro Ybarros lançar um livro de poemas.

Não falta mais: Algum Blues Aqui Dentro é o seu livro de estreia, e o lançamento, amanhã, não poderia lhe ser mais adequado: numa jam de blues.

Indisciplinado como todo boêmio digno de tal classificação, Mauro escreve livremente: sem rima, sem métrica, as palavras jorrando de canetas emprestadas de garçons amigos direto em guardanapos sobre mesas tronxas de boteco de rua.

"(Escrevo) Em qualquer lugar: tou sempre com meu(s) cadeninhos de notas, e na falta deles, os óbvios guardanapos, pedaços de cardápio ou verso de embalagem do cigarro. Escrevo no final de um filme onde minha namorada dormiu antes de acabar, fazendo o café pra alguém que não vem, esperando alguém que marcou comigo aparecer – e se atrasando... Escrevo na hora em que um filme que adoro vai começar ou quando algum blues toca e eu me lembro onde eu tava há mais de 20 anos – exatamente na hora em que esse mesmo blues tocou. Escrevo quando tou apaixonado (e tou sempre me apaixonando) e escrevo quando termina o amor (e ele tá sempre me terminando). Não tem hora nem lugar: tem eu, ali, espirrando, tossindo e exalando isso que tenho por dentro", conta Mauro.

E então está tudo ali: as dores, os amores, as perdas, o dia a dia, o tédio, a música, o horror.

“Disseram uma vez que a poesia é a forma que as palavras encontraram pra dançar. Portanto, de tanto jazz que ouvi na vida, não posso querer enquadrar palavra nenhuma em métrica alguma”, afirma.

“O sentimento vem, pede pra ser exposto, e sai. Se ele vem metrificado, já não é mais comigo, e eu deixo o fluxo acontecer sem controle. Umas palavras se arrumam. Outras se perdem. O que saiu, saiu: tou chamando poesia”, diz.

Maurão, foto Felipe Brust
Poesia analógica

Profissional reconhecido no seu meio, Mauro conseguiu publicar seu livro a partir de permutas com agências de propaganda e gráficas com as quais trabalha no dia a dia.

E aí resta a pergunta: quem ainda lê poesia hoje em dia? Ou talvez, uma pergunta menor ainda: quem ainda lê?

“Penso que talvez ninguém saiba que lê poesia hoje em dia. Mas acredito que, se tem gente que ainda vai em feiras de artesanato, compra discos em vinil e valoriza filmes feitos em animação tradicional, deve ter gente que ainda acredita que coisas analógicas, valvuladas, feitas em papel, tesoura e pedra têm seu valor”, diz.

“E, definitivamente, tem gente que gosta – até hoje – de Chico, Lupiscínio, Cazuza e Dolores Duran. Portanto, tem gente que sabe que houve uma época onde se falava de dor, amor e ardor sem ninguém pra chamar isso de rima pobre”, conclui Mauro.

Dizem que todo poeta tem um tal de "eu lírico" - seja lá o que for isso. Qual seria o "eu lírico" de Mauro Ybarros? "SAUDADE. - A-DO-RO essa palavra. A-DO-RO a ideia de que ela não tem tradução em outras línguas. Adoro lembrar que Janis Joplin falou que “blues é ter saudades de algo que você não sabe o que é”. Meu eu-lírico é essa coisa que queria ter mas que não me deram. Aquela menina cantando “esse seu jeito / sexy de ser”. Ser pai de um filho que a mãe resolveu que era só dela. Ou ser o cara que espera o beijo antes da mordida. É morar numa cidade que podia ser um monte de coisas e se contenta em ser o que deixam ela ser. Tudo isso é meu eu-lírico: não ter o que eu queria, não ser o que eu gostaria, ou ter que ser o cara que mandam beijar antes de falar – tipo como dizem no carnaval: “cala boca e beija logo”. Calar a boca? Eu?", filosofa.

Mas porque escreve o poeta? Ah, essa é a pergunta mais difícil de todas:"Essa talvez seja a mais complicada... Acho que preciso escrever porque é importante deixar sair o que nos oprime, nos aperta, nos asfixia. Sentimentos bons, sentimentos ruins, tudo que aparece e não pergunta se pode chegar – mas chega e fica, sem nem querer saber o que a gente acha disso. Então, pra deixar isso ser devidamente processado e depois, devolvido ao mundo, é que escrevo. Escrevo porque preciso, escrevo porque é devido devolver ao mundo o que entra em nós sem preguntar porque. E, talvez, porque escrever é a única maneira que eu tenho de fazer sair de mim o que existe em excesso. Terapeutas recomendam escrever. Fiz diários na adolescência, durante nos a fio, sem nem saber que tava me analisando... Tem gente que bebe, tem gente que fuma, tem gente que trepa – e eu? Acho que fumo, bebo e trepo só porque escrevo pouco", afirma.

Lançado o livro, o que vem depois? Leituras públicas, festas literárias, academia? Que espécie de marginal é você, Mauro?

"No dia do lançamento, acho que não (vou fazer leitura). Vai ter show de blues, e não sei se vou ter espaço. Se der, e as pessoas quiserem, leio sim. E se me convidarem pra saraus, eu vou. Acho que poesia é o tipo da coisa que precisa andar pendurada no pescoço da gente, como as melancias e bacalhaus do chacrinha: quem quiser ver, vai ver. Mas só vê se estiver pendurado no pescoço de alguém. Já minha fama de mau fica no mesmo lugar de sempre: guardadinha no tal pequeno frasco onde tão os piores perfumes... De perto, sou o mesmo menino bobo do salesiano, apaixonado pela menina da sétima serie A... Como diria Gil, “só quem é clarividente / pode ver”. E não, não irei à academia de letras. Se tem algo que tenho certeza que não sou é um cânone das belas letras. Falo de dores, amores perdidos, humores mal resolvidos e venenos antimonotonias: como é que eu seria recebido por gente que usa farda, adora ACM e toma chá? E, claro -  se ser marginal é quem anda à margem, é questão de escolha estar onde estou: procurar o centro é coisa de iogues, coachers e fãs de paulo coelho. Do centro pra periferia de mim, Circular via Amaralina – aceito vale e aceito passe", divaga o poeta.

Quer saber? Acho que eu vou deixar Mauro falar mais um pouco. O que ele quiser falar. Fala, Maurão!

"Meu caro, acho que o que eu preciso dizer está escrito nos poemas daquele livro. Amei incondicionalmente, quis amar eternamente, mas tive que dar de cara com a realidade – e isso, definitivamente, não é o que eu queria pra mim. Vivemos num mundo cheio de tensão, de escolhas binárias, cheio de pretos-e-brancos, sem espaço pro sutil, pro suave, pro delicado. E – definitivamente – eu não sou assim. Como dizia Luiz Melodia, “as pessoas que eu amo / eu amo bastante”. E quero acreditar que, falando de poesia, falando do imponderável, usando metáforas e eus-líricos, eu posso tentar ativar sistemas inativos nesse mundo de instagramas... Quero poder dizer que o amor está nas entrelinhas, na casca das coisas, nas flores que não desabrocharam e em tudo que não seja óbvio, solar e luminoso. Quero poder sacudir as estruturas, quebrar os paradigmas e bulir na bunda dos guardas que tomam conta do que 'é certo', sem ter que 'tira-os-pés-do-chão-galera'. E, por fim, quero que 'falar de poesia' seja algo que desmonte o que é correto, objetivo e útil. Quero ser o palhaço do Fellini, fazendo os outros rirem e sonharem, depois tirando a maquiagem em um banheiro de bar, enquanto chega o PF de frango assado ficar pronto", conclui.

Em tempo: o autor está disponível para saraus.

Lançamento do livro Algum Blues Aqui Dentro, de Mauro Ybarros / Amanhã,  19 horas (noite de Blues no Jazz na Avenida) / Av. Simon Bolívar, Boca do Rio​ (​ao lado do Boi Preto)​ / Entrada gratuita

Algum Blues Aqui Dentro / Mauro Ybarros / Independente / 96 p. / R$ 25 / Vendas: www.facebook.com/mauroybarros

quarta-feira, dezembro 06, 2017

ETERNO RETORNO

Natura Musical lança hoje, com show no TCA, caixa com obra d’Os Tincoãs, com direito a apresentação de remanescentes e convidados

Mateus Aleluia, foto do blogueiro
Um dos mais importantes e representativos legados da música baiana será devidamente reverenciado hoje, com um show e um lançamento no Teatro Castro Alves: Nós, Os Tincoãs, reunirá no palco os dois remanescentes vivos do lendário grupo, que tem sua obra resgatada em uma luxuosa caixa com três CDs e um livro, via selo Natura Musical.

Mateus Aleluia, o Tincoã que voltou à Salvador em 2007 após viver décadas em Angola, receberá no palco do TCA Badu, o Tincoã que vive nas Ilhas Canárias (Espanha) e não vem ao Brasil desde os anos 1990.

Badu e Mateus não compartilham um palco há 36 anos.

O sangue Tincoã seguirá no palco com a presença dos dois filhos angolanos de Dadinho (morto em 2000), que nunca vieram ao Brasil.

Mateus Aleluia Filho, outro descendente,  assina a direção musical do show, que ainda terá participações de Margareth Menezes, Saulo Fernandes, Ana Mametto e Ganhadeiras de Itapuã, além de  músicos como Alex Mesquita, maestro Bira Reis e Luizinho do Gêge.

O caráter de gala da noite se completa com assinatura  de Gringo Cardia na cenografia.

“Os Tincoãs tentaram retratar o que a Bahia sempre foi, é e será: a uma mistura de todos aqueles que deram sua contribuição para essa cultura, para a soberania do dendê”, afirmou Mateus Aleluia, durante entrevista coletiva.

“Nesse projeto, nós mostramos a obra dos Tincoãs, essa miscigenação do afro com o barroco sustentado na cultura do povo autóctone em suas diversas nações que aqui já existiam antes da chegada dos portugueses, e que chamamos de índios”, acrescenta.

Formada no final dos anos 1950 em Cachoeira, Os Tincoãs começaram como uma banda de baile típica da época, à base de boleros e tchá-tchá-tchás.

A partir de 1963, com a entrada de Mateus Aleluia, voltaram sua atenção para a música de raiz do Recôncavo, dos terreiros de candomblé e das igrejas barrocas.

“Em 1973 gravamos o primeiro disco (com essa estética) e em 76, gravamos o último”, conta.

O próprio Mateus explica melhor a cronologia dos Tincoãs, que envolve diversos membros.

“O primeiro disco (Meu Último Bolero, 1962, Musicolor) foi com Dadinho, Heraldo e Erivaldo, e ainda era só de boleros. A partir de 73 é Dadinho, Heraldo e Mateus. Em 75, é Dadinho, Morais e Mateus, formação que gravou o disco que tem Promessa ao Gantois (O Africanto dos Tincoãs, 1975, RCA)”, conta.

“Em 76 entra Badu, que gravou o disco que tem Cordeiro de Nanã (Os Tincoãs, 1977, RCA). Badu foi quem mais ficou conosco, até 83. O último disco dos Tincoãs é somente Dadinho e Mateus (1986, CID)”, enumera.

Há dois milhões de anos

Badu, o único outro Tincoã vivo. Foto divulgação
Ancestral e ainda atual, a música d’Os Tincoãs é uma espécie de amálgama perfeito de tradições ocidentais e africanas, a despeito dos seus poucos elementos – as vozes celestiais do trio, um violão tocado de maneira percussiva e as próprias percussões de terreiro.

Não a toa, após décadas esquecida, essa obra extraordinária é reverenciada por nomes como Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Martinho da Vila, Criolo, Emicida e outros.

“A música dos Tincoãs é a música do mundo. Tem música que nós gravamos que tem mais de 2 milhões de anos. São músicas trazidas pelos encantados, pelos orixás, pelos inquices, pelos oguns – e que extrapolam o tempo”, diz.

“Talvez seja isso que faça essa conexão com a juventude e com anciãos como eu, né? É uma música atemporal”, ri  Mateus,  a sabedoria em pessoa.

Não que Os Tincoãs tenham descoberto a pólvora, mas talvez ninguém tenha feito essa abordagem de forma tão bem resolvida quanto eles.

“Antes dos Tincoãs já tinha Joãozinho da Gomeia (1914-1971), que fazia isso. Tinha o maestro Moacir Santos. Me lembro de quatro senhoras, por acaso brancas, da década de 1930, que também faziam isso, no Rio de Janeiro. Talvez nenhum desses tenha feito como Os Tincoãs fez, o amálgama de todas as culturas basilares da formação cultural brasileira em geral e baiana por excelência”, diz Mateus.

“E cantando como nós cantávamos. Eu penso que o principal atrativo d'Os Tincoãs eram os vocais. A forma afro-barroca de cantar. A forma sincopada, originada dos ritmos do candomblé, com os harmônicos dos órgãos da igreja católica”, conclui.

Nós, Os Tincoãs / Com Margareth Menezes, Saulo, Ganhadeiras de Itapuã e Ana Mametto / Hoje, 20 horas / Teatro Castro Alves / R$ 40 e  R$ 20



ENTREVISTA MATEUS ALELUIA
Mais trechos coletados durante coletiva no dia 27 de novembro

A aceitação d'Os Tincoãs: 


Senhor Mateus. Foto do blogueiro
Penso que hoje existem menos barreiras. Na época, as baterias estavam viradas para nosso trabalho. Era como se nosso trabalho estivesse se impondo sobre um mercado, sobre uma política de mercado. E não era bem isso que gente queria. Na verdade, nosso trabalho sempre foi bem aceito pela crítica. Mas ao mesmo tempo, havia um contra-vapor. Ficava aquela coisa meio morna. Hoje a aceitação está maior. A mentalidade das pessoas está mais amainada, as pessoas estão menos belicosas com relação à aceitação de uma modalidade musical. Modalidade musical que é um ícone do candomblé. E o candomblé não chegou aqui como adido cultural ou embaixador. Chegou aqui escravizado. E sem ser considerado cultura, era considerado subcultura. Quem gostava nem queria dizer que gostava. Mas livres pensadores, despojados disso, como Koelreutter, Radamés Gnatalli, grandes personagens da música, Sérgio Cabral – o pai, jornalista, fundador d'O Pasquim, viu? (risos) – reconheceram. Hoje não existe assim, esse bloqueio. Não é que exista também... sei lá, 'venha que eu te amo'. Não é isso.

Recato e digitais:
Mas os Tincoãs não teve contato com Os Afrossambas, por exemplo. Sempre fomos muito isolados, somos mesmo recuados, somos do Recôncavo. Somos tímidos, apesar de ter essa eloquência. Não é timidez, temos é o recato de quem não fala muito. Na hora de falar, diz. Não é meu dia de falar, eu não falo. Na hora de falar, me pronuncio. Então Os Tincoãs sempre foi isso. Talvez tenha sido essa postura que preservou sua forma de ser. Senão, teria sido influenciado por outros grupos, entendeu? Cada um tem que ser como é, né? Tem que obedecer isso aqui (mostra o dedão). Como chama isso aqui? Sua digital! (risos)

Precursores e Cachoeira:
Antes dos Tincoãs já tinha Joãozinho da Gomeia, que fazia isso, tinha aquele maestro de Minas Gerais que eu esqueço o nome direto... (Moacir Santos). Me lembro de quatro senhoras, por acaso brancas, da década de 30, que também faziam isso, no Rio de Janeiro. Talvez nenhum desses tenha feito como Os Tincoãs fez, o amálgama de todas as culturas basilares da formação cultural brasileira em geral e baiana por excelência. E cantando como nós cantávamos. Eu penso que o principal atrativo d'Os Tincoãs eram os vocais. A forma afro-barroca de cantar. A forma sincopada, originada dos ritmos do candomblé, com os harmônicos dos órgãos da igreja católica. Na realidade fomos embalados assim, a noite toda, pelos toques do candomblé. Pertencesse você ao ritual do candomblé ou não. Mas você tinha o elemento macro do candomblé, os toques e cantos, entrando de forma contornada. Você dormia com aquilo, tac-tac-tac...

O auto-exílio em Angola:
Não éramos funcionários nem de uma empresa nem do governo brasileiro. Chegamos lá, cantamos. Fomos numa delegação de 70 pessoas. (..) Mas já vamos ficar. Dada a receptividade de Dirceu Vieira Dias. Dirceu era para Angola, como Dorival Caymmi era para o Brasil. Mais do que isso. Dirceu era um revolucionário, esteve preso com Agostinho Neto, que foi o primeiro presidente da Angola descolonizada. Aí tivemos tanta identidade, coisa que não sabíamos. Ele foi na casa dele buscar nosso disco, Deixa a Gira Girar. Aí ele cantou "Meu pai veio da Aruanda" (trecho de Gira). Aí ele perguntou: 'Aruanda é Luanda, né'? 'Lógico que é a corruptela'! Isso, Angola nem estava ainda independente, mas era um reforço para nós. Era bem na época da Guerra Colonial, 1973, ainda estava em guerra. Angola só se emancipou em 75. Mas quem fazia a guerra eram eles lá, a gente estava 'de boa', vendo a parte poética da guerra. A vida é paz e guerra. É sim e não. É feliz e triste. Não se pode desassociar um do outro. Isso é uma ilusão. Nós aqui não estamos em guerra? Matamos mais do que lá, na época da guerra. São 72 mil (assassinatos) por ano. 

Não tem volta:

Mateus, Badu e Dadinho. Os Tincoãs (1977)
Pra mim, Os Tincoãs cumpriu sua missão. Isso (a caixa da Natura Musical) é uma revisita ao trabalho dele. Não é porque sou remanescente e Badu é remanescente que isso é a volta d'Os Tincoãs. Não é. Que fique bem claro. Pra mim é somente esse trabalho, para que as pessoas saibam que existiu. E cada um toca sua vida. 

Disco novo:
De repentemente, sai lá pra janeiro, ou fevereiro, ou março ou abril... (risos) Nesse país não adianta fazer muito plano. Mas tá pronto, do jeito que o rei mandou.

Expectativa para o show de hoje:
Cada show é uma emoção diferente, mas não deixa de ser uma emoção. Como as mulheres dizem, cada parto é um parto, mas ela sabe que vai parir. Emocionada ou não, vai parir (risos).

Intolerância racial e religiosa:
Na minha época, a intolerância era total. Não vinha só de um lado, vinha de todos. Até quem era do candomblé negava que era. Não era chique, não era politicamente correto. Não era, digamos assim, intelectualmente correto ser (do candomblé). Eram poucos. Pessoas como Jorge Amado, que nem era do candomblé, mas se comportava como se fosse. Deu a chancela dele. Isso tem um valor retado, muito grande. Mas não existe diferença de intolerância. Intolerância é intolerância, ela se basta, e ela tem que ter um basta. É a voz da razão. Por que ninguém vai conseguir levar nada pra frente com intolerância. A única forma que temos de conseguir levar a frente, é ser tolerante com eles, mas sempre dizendo, 'minha pegada é essa'. Nós não mudamos. O candomblé desde que chegou no Brasil, quando veio a primeira expressão humana africana que pisou aqui, o candomblé chegou junto. E existe até hoje. Pensa que naquela época  não existia intolerância? (Existia) Até oficializada e só Deus sabe como. E aqui nós estamos. Não preciso usar conta para dizer a qualquer um que me olhar. Eu sou candomblé. Todo. Eu não sou do candomblé. Eu sou candomblé. Eu sou a essência.

terça-feira, dezembro 05, 2017

ATITUDE: NEGRO ROCK

Reserve na agenda: dia 16, OQuadro lança o espetacular Nêgo Roque no Pelourinho


OQuadro, foto Rafael Ramos 
Coluna aumentada hoje por uma causa nobre: OQuadro, o espetacular grupo original de Paulo Afonso, finalmente lançou seu segundo álbum, o aguardado Nêgo Roque.

Nesta sexta-feira, o septeto aporta nas instalações linabobardianas do Sesc Pompeia (SP) para o show de lançamento nacional. No dia 15 é a vez de Aracaju.

E no dia seguinte, 16, o Largo Pedro Archanjo será o palco do encontro do grupo com seus fãs locais.

No disco, OQuadro pinta aquela sonoridade retada com rap, eletrônica, soul e rock para propor uma retomada do rock pela juventude preta.

Não que a galera tenha deixado o cabelo crescer e pendurado uma guitarra no pescoço.

A parada é mais profunda: “Falamos do rock enquanto atitude. Muito mais que distorção, (rock) é transgressão, tanto na forma de fazer a música quanto no que está sendo dito”, afirma Jef Rodriguez.

“Nesse novo álbum, o discurso está mais direto, colocando em pauta assuntos fundamentais para o momento histórico que estamos vivendo. Houve uma época em que o rock cumpriu esse papel, mas com o passar do tempo, a estética das sonoridades ganha mais atenção do que o espírito questionador que colocava os valores sociais em cheque. Isso também acontece com o rap, e com outros estilos”, acrescenta Jef, indo direto na mosca.

Lançado pelo selo Natura Musical e com patrocínio do Governo do Estado, Nego Roque foi produzido pelo próprio grupo em parceria com Rafa Dias e mixagem de andré t.

Nas tracks, participações preciosas de Indee Styla,  Raoni Knalha (ambos em Luz), BNegão (Nêgo Roque), Emicida e DJ Gug (ambos em Muita onda).

“BNegão é uma referência desde a época do Planet Hemp, a música Nêgo Roque combinou perfeitamente com ele. Emicida é um prodígio da rima, fez a letra na hora e ficou impecável. Raoni e Rafa Dias são amigos desde a época em que fizemos turnê juntos pela Europa em 2013, já temos um entrosamento natural”, diz.

“Indee Styla também é uma amiga que temos já faz um tempo e quando o refrão de Luz nasceu naquele tom, imaginamos a voz dela e ficamos felizes com o resultado. Sem contar que tem teclados de André T, uma guitarra de Chibatinha (ÀTTØØXXÁ) em O Erro Me Atrai. Parcerias que ficamos felizes em ter no álbum”, acrescenta Jef.

Pode vir!

OQuadro, foto Rafael Ramos
Sucessor do álbum homônimo de estreia lançado em 2012, Nêgo Roque pode ter demorado de sair, mas esse é o tempo do artista – e não o da indústria.

“Existem várias nuances nesse processo. Gravar um álbum não é algo simples, gera um custo e queremos sempre fazer o melhor possível. Existe uma velocidade imposta para a produção artística que tem tornado as coisas mais obsoletas, e não sei se queremos entrar nessa onda. Gostamos das coisas menos perecíveis e isso demanda um tempo”, afirma.

"Esse é o nosso álbum mais eletrônico, principalmente se comparado ao primeiro de 2012. É da natureza do hip-hop, a música feita a partir de recortes e samplers, mas quando começamos, não tínhamos acesso aos equipamentos eletrônicos comumente usados na produção de raps, daí fomos usando os instrumentos tradicionais e isso acabou determinando um estilo, uma estética, que virou nossa marca. Hoje podemos transitar pelos timbres e fazer combinações entre orgânicos e eletrônicos, abrindo ainda mais possibilidades", acrescenta.

Exuberante, a sonoridade de Nego Roque passeia por diversos ritmos e texturas da música pop contemporânea, resultado da vivência de quem respira música todos os dias.

"É uma pesquisa espontânea. Escutar músicas todos os dias nos faz perceber que as células rítmicas conversam e se conectam. Seja entre o Trap e o Punk Rock, entre o Dance Hall e o samba do recôncavo, entre o Zouk e o Samba Reggae, enfim, somos apenas ponte para essas conexões. No geral, uma ideia estimula outra e vira uma reação em cadeia. Nesse álbum tivemos letras que nasceram no estúdio, músicas que nunca foram ensaiadas antes, resultado de experimentações. O entrosamento e a confiança no outro talvez sejam a base para essa fluidez", detalha.

Como se vê, essa rapaziada não está aí para mero entretenimento, e sim para mandar seu recado: na veia, contundente, incômodo para mentes ditas (cof cof) “conservadoras”: “Não há fordismo na minha poesia, degusto o ócio e a lentidão na produção de cada linha. Indo de encontro a velocidade imposta na linha de montagem, meus versos nascem do estado de greve daqueles que vivem à margem”, avisam eles, em Pode Vir.

Meio eletrônico, meio orgânico, o novo trabalho do septeto de Paulo Afonso é o disco perfeito para fechar 2017 sambando na cara dos caretas: “ É preciso reconhecer que a indústria cultural cumpre um papel fundamental na forma como somos educados a consumir arte. O produto artístico mais veiculado é aquele que apenas entretém, principalmente para quem vive uma jornada intensa de trabalho”, afirma Jef.

“A mesma indústria que se apropria da música negra e coloca rostos brancos sorridentes para divertir o povo. Isso acontece no rock, no samba, na música baiana. Se o jovem negro abriu mão do rock, é apenas um reflexo do recorte racial que a indústria faz desde sempre”, conclui.

OQuadro é Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Rans Spectro (voz), Ricô (voz/baixo), Rodrigo DaLua (Guitarra e Synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão).

E aí, foi boa a aula?

OQuadro: show de lançamento Nêgo Roque / Dia 16, Largo Pedro Archanjo, Pelourinho / Horário e ingressos a divulgar / www.facebook.com/OQuadromusica



NUETAS

Ronei Jorge sexta

Ronei Jorge faz aquele show bacana e astral que gente adora. Sexta-feira, Tropos Gastrobar. 21 horas, pague quanto quiser.

Flerte & Porn sexta

As bandas Flerte Flamingo e Soft Porn se apresentam  no Qattro Gastronomia & Cultura (Rua Fonte do Boi, Rio Vermelho). Cabelos ao vento, gente jovem reunida. Sexta-feira, 21 horas,  gratuito.

Lívia, BNegão, Vandal, Áurea, Ministereo

O evento Coro de Rua traz a cantora  Livia Nery convidando os rappers BNegão, Vandal e Áurea Semiséria, com o Ministereo Publico mandando ver nos beats invocados. A parada é na rua – Rua do Couro, Ladeira da Barroquinha. Domingo, dia 10, a partir das 15 horas. Gratuito. Beba água e não esquece o filtro solar.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

HOJE E AMANHÃ TEM JARDS MACALÉ NO RUBI, ESQUEMA VOZ E VIOLÃO. MAS SEM ESSA DE SHOW INTIMISTA, OK?

Coautor de Vapor Barato, o grande Jards se vê livre do rótulo de maldito - e se prepara para gravar novo álbum de inéditas

Jards. Foto Caroline Bittencourt
Tropicalista histórico, autor de clássicos da MPB, músico extraordinário, Jards Macalé dispensa apresentações.

Hoje e amanhã, o coautor de Vapor Barato (com Waly Salomão) se apresenta no Café-Teatro Rubi em esquema voz & violão.

Mas sem essa de “show intimista”, OK? O homem não tem mais paciência para clichês caindo de velhos.

“O repertório tem algumas músicas minhas com parceiros como Capinam (Gotham City, Movimento dos Barcos), Wally, Torquato Neto (Let's Play That) Vinícius (O Mais Que Perfeito), Duda Machado (Hotel das Estrelas) e algumas coisas de outros autores”, conta Jards, por telefone,  do Rio.

Carioca “da gema”, faz questão de enfatizar, Jards tem, ao longo de sua carreira, ligações diversas com a Bahia.

“A começar pelos parceiros: Wally, Duda Machado, Glauber Rocha, Rogério Duarte. Tenho músicas com todos esses baianos. E não só isso: quando (Maria) Bethania veio fazer a peça Opinião (de Augusto Boal) no Rio (em 1965), ela ficou hospedada lá em casa. Tive direção musical de Gal Costa em discos meus e fiz discos com ela, como Le-Gal (1970) e Cultura e Civilização (1969), seu disco mais radical e menos conhecido”, lembra.

“Tenho essa ligação natural com a Bahia. Mas sou carioca da gema”, afirma.

Olha ele aí de novo. Foto Felipe Diniz
Disco novo em 2018

Coincidentemente, nesta semana mesmo, Jards recebeu uma ótima notícia, ao ser contemplado no edital 2018 da Natura Musical para gravar um novo álbum de músicas inéditas - o primeiro desde Macao, de 2008.

“Tô vendo aí, vou começar a preparar o repertório. Tô selecionando algumas coisas já compostas e  criando outras coisas novas”, conta.

Apesar da carreira brilhante e cheia de sucessos, Jards teve colado em si, durante muito tempo, o incômodo rótulo de “maldito”.

“Mas isso já foi, já passou, tá resolvido pra mim. Mas aconteceu por que, até a metade da década de 80, toda referência (sobre Jards  Macalé) era em relação às décadas de 60, 70. A coisa do maldito, do marginal, fazia sentido naquela época. Era até elogio”, diz.

“As outras gerações, mais novas, nem sabiam que eu era ‘maldito’. Virou uma pecha, que eu próprio comecei a rejeitar. Pô, eu já tinha trabalhos em cinema, teatro, artes plásticas – tudo sempre vinculado à música, claro. Aí na Bahia fiz o papel do Pedro Archanjo, no filme Tenda dos Milagres (1977), de Nelson Pereira dos Santos (baseado no livro de Jorge Amado)”, enumera.

Jards Macalé / Hoje e amanhã,  20h30 /  Café-Teatro Rubi – Sheraton da Bahia Hotel / R$ 80

terça-feira, novembro 28, 2017

EXPERIMENTAÇÕES SÔNICAS

Nesta semana e na próxima, Salvador e Cachoeira sediam a primeira edição do CMC Festival 2017 - Ciclo de Música Contemporânea, com artistas de quatro países

Harris Eisenstadt. Foto William Semeraro
Música experimental, rótulo que espanta muita gente mas atrai outras tantas, é o mote do CMC Festival 2017 - Ciclo de Música Contemporânea, que acontece em Salvador e Cachoeira nesta semana e na próxima, com workshops e concertos  de artistas do Canadá, Alemanha, Suíça e Brasil.

O que talvez pessoas de má vontade com  “música experimental” não entendam é que, primeiro, o experimental de hoje pode ser o mainstream de amanhã.

Segundo: “Partimos do pressuposto de que o chamado ‘Experimental’ não se refere a um gênero musical específico, e sim a uma série de agenciamentos autônomos que envolvem a livre improvisação, arte sonora, noise, free jazz, etc”, afirma o músico e produtor Edbrass Brasil, organizador do CMC.

“A ideia do CMC é dar continuidade ao trabalho que desenvolvemos desde 2015, agora de forma mais ampliada, de inserção da Bahia no roteiro dos shows nacionais e internacionais de música experimental. Prezamos pela relevância de cada atração no contexto nacional/mundial e ao mesmo tempo buscamos trazer shows e artistas dispostos a trocar experiências com os artistas locais. A relação que estabelecemos com a cidade é essa de cumplicidade e confiança mútua. Nossos eventos são voltados para um público amplo e diverso, que gosta de música contemporânea e está aberto para outras expressões artísticas, como cinema, dança e teatro. Estamos bem animados com a receptividade do público, que compareceu em massa em todos os nossos eventos até agora”, acrescenta.

Ute Wassermann
Nesta primeira edição, o festival traz uma dezena de atrações em dois dias de concertos no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB, no Pelourinho).

Edbrass destaca dois nomes estrangeiros como atrações principais: “Os dois principais nomes do line up são figuras bem conceituadas no cenário mundial, como o baterista canadense Harris Eisenstadt e a cantora e artista sonora alemã Ute Wassermann”, conta.

“O Harris, além de ser compositor e baterista requisitado, acompanha John Zorn dentre outros, propõe um recorte no âmbito do chamado new jazz, unindo a tradição norte americana as suas pesquisas sobre a tradição cubana do Bata, por exemplo”, detalha.

Já Ute Wassermann é outra história completamente diferente: seu instrumento é a voz.

“Ela é conhecida por sua linguagem sonora extraordinária, de muitos sons e extremos. Cria técnicas para ‘mascarar’ a voz, usando assobios de pássaros, sons do palato ou objetos ressonantes, e também projeta instalações de som”, conta Edbrass.

"Na parte nacional, buscamos selecionar artistas que estão produzindo e circulando, seja no campo das artes sonoras ou cênicas, como também no plano crítico, teórico. A Isabel Nogueira e o Luciano Zanatta, ambos de Porto Alegre, fazem parte do Coletivo Medula, um grupo multimídia bem ativo. Eles estarão acompanhados de um dos pioneiros da 'guitarra preparada' no Brasil, Paulo Hartmann", continua Ed.

Mas as atrações locais também não deixam por menos e apresentam trabalhos interessantíssimos, como os duos locais Terra Vermelha e B.A.V.I.

Duo B.A.V.I. Foto Matheus Leite
“O primeiro é  formado pelo produtor José Balbino e o trompetista Mateus Aleluia Filho. E o Duo B.A.V.I. (Berimbau Aparelhado Violão Inventável) é  outro trabalho bastante original e inovador”, afirma.

Mas o xodó mais recente do organizador vem de Cachoeira: “É o Coletivo Novos Cachoeiranos, orquestra de jovens egressos das filarmônicas de Cachoeira, regidas pelo maestro Sólon Mendes. Eles buscam atualizar a linguagem do jazz com influências diversas como o atonalismo e o universo percussivo baiano. Simplesmente apaixonante este trabalho”, rasga Edbrass.

Investimento próprio

Com o CMC, Edbrass e seus parceiros afirmam estar inserindo a Bahia em um circuito de festivais do gênero que já vem rolando pelo Brasil.

"O CMC é uma oportunidade para o público baiano conferir de perto o trabalho de artistas que inovam em suas áreas de atuação. Além disso, é necessário lembrar que fazemos parte de um contexto nacional de Festivais de música experimental que acontecem entre novembro e dezembro em todo o Brasil: Novas Frequências (RJ), FIME (SP), IMPROFEST (SP), Rumor (PE), Kino beat (RS), Festival Música Estranha (SP), e agora o CMC!", enumera.

DJ Riffs. Foto Nara Gentil
Com foco na chamada produção afrodiaspórica, o CMC também mira numa certa desmistificação da música negra menos comercial ou de origem tradicional como sendo de interesse meramente etnomusicológico, e sim, coloca-la em seu nicho de merecimento, a saber, da música experimental.

"Não consideramos a música experimental como um gênero musical, mas um campo de ação em que vários gêneros podem ser encaixados. No Brasil temos grandes representantes negros ligados a música avançada. Os dois nomes mais conhecidos são os de Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção. Estes dois representam e muito uma pesquisa que levou a música brasileira para outros patamar de radicalismo e inovação. O que acontece é que as obras dos artistas afro-brasileiros são comumente pensados pelo viés da etnomusiclogia, ligados sobretudo a ideia de 'tradição' e 'raiz', nunca como de invenção e vanguarda.... Se quisermos ir mais longe, podemos citar os grande sambistas da década de 40, que criaram um novo gênero musical e urbano, tendo muitas vezes que inventar seu próprio instrumento, como no caso do Bide, por exemplo, que criou um surdo com timbre e peso adequado a nova música que surgia na época. Não é demais lembrar também que engenheiros de som numa pequena ilha do Caribe, no caso a Jamaica, ainda nos anos 60, foi capaz de definir o futuro da música eletrônica no mundo, por meio das técnicas e recursos estéticos utilizadas na música 'dub'. Hoje em dia no Brasil, podemos citar os trabalhos de Juçara Marçal e Cadu Tenório, que no álbum Anganga, lançado em 2016, partiu de cantos de trabalho escravos, aliado a uma estética 'noise', ruidosa e deu muito o que pensar. Não podemos deixar de falar também da obra do Negro Leo, compositor maranhense, que investe no post-rock, mas mantendo traços e características do cancioneiro brasileiro. Tem coisas muitos boas sendo feitas no rap e no funk carioca, na Bahia temos o Atoxxxa, toda essa faixa de produção ligada ao que chamam de 'Guetto Tech' pode ser vista como uma experimentação estética", detalha Edbrass.

Duo Terra Vermelha
"Vivemos num momento em que a cena da música experimental no Brasil chama a atenção pela movimentação dos selos, artistas, festivais, além da já regular passagens de músicos tanto da Europa, quanto da américa latina e Japão, tornando a cena bem rica, diversa e descentralizada. Sobretudo, a Bahia tem uma história com a música de invenção, com a música de vanguarda, que nem a predileção pelo pulso, pelo ritmo pode ou precisa apagar, não é mesmo? Nós representamos a Bahia pelo Brasil e mundo afora por meio do selo fonográfico que produzo em parceria com Heitor Dantas, o Sê-lo! Netlabel. Depois de dois anos trazendo para Salvador artistas como Peter Brotzmann, Lee Ranaldo, Hans Koch, Peter Jacquemyn, Thomas Rohrer, sentimos a necessidade de reunir num mesmo evento um panorama representativo do cenário mundial e local. A missão do Festival é reforçar o conceito de intercâmbio artístico, investindo nas trocas (por meio de workshops), possibilitando ao público baiano acesso a uma programação de qualidade e inédita. O Festival tomou forma a partir das parcerias construídas durante estes anos com produtores de outros estados brasileiros, além das Instituições e plataformas estrangeiras como o Harmonipan (Mexico _ Chicago), Flotar (Programa de Mobilidade Artística (Mex), Goethe Institut e o Maritime College State University of New York (USA)", prossegue.

Mas o mais impressionante em todo este movimento é que, excetuando-se o apoio logístico “fundamental” (ressalta Edbrass) de instituições como o Muncab, Centro de Formação em Artes da Funceb (CFA), Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) da UFRB  e  Museu Afro Brasileiro (AMAFRO), o CMC não conta com patrocinadores ou verba de edital.

“Não encontramos ainda o nosso patrocinador, o que torna o Festival um grande investimento nosso, dependendo quase que exclusivamente da bilheteria e das colaborações com os artistas e técnicos envolvidos. Espero, sinceramente, que esta edição independente abra caminho para a  chegada do suporte financeiro que necessitamos. O mais importante é conhecermos a nossa vocação como um festival de pequeno porte voltado para uma outra escuta, para um outro jeito de se relacionar com a música e a geografia da cidade. Trazendo de volta a ideia de uma 'Bahia de Invenção', criando para isso um ambiente acolhedor, de relaxamento, num clima de museu muito vivo, sabe?”, conclui.

CMC Festival 2017 - Ciclo de Música Contemporânea / Workshops: Salvador (Centro de Formação em Artes da FUNCEB) de amanhã até quinta-feira e em Cachoeira  nos dias 4 e 5 / Concertos: Sexta-feira e sábado, 17 horas / Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB, no Pelourinho) / R$ 40 e R$ 20 (Vendas: Sympla) / Programação, informações: www.cmc-festival-2017.webnode.com

ENQUANTO NÃO SAI TRABALHO NOVO, CONFIRA OS TIOS QUINTA-FEIRA NA VANDEX TV

Os Tios, foto de Joaquim Fauro. Faltou Huguinho, Zezinho e Luisinho
Vamos combinar: para dar a cara pra bater no palco, o contribuinte já tem que ter certo desprendimento, certo destemor.

Agora, subir no palco à frente do nome Os Tios é de fato a epítome do desapego.

Pois então, eis aqui, finalmente, a banda baiana Os Tios. “O nome Os Tios vem de comoção e longevidade”, afirma o fundador, baixista e cantor Anderson L.

“Comoção, porque se tocássemos mal, poderiam dizer: 'Ah, mas o que você esperava? Eles são tios, pô!” Se fôssemos bem, exclamariam: 'Uau, Os Tios botam pra lá!’ E longevidade, pois você não deixa de ser Tio”, explica.

Sem resposta diante de tão sagaz argumento (sem ironia), aviso que a banda, que pratica com certa competência um rock de caráter  ortodoxo, se apresenta nesta quinta-feira.

Mas você pode assisti-los sem sair de casa, já que se trata de mais uma transmissão ao vivo do programa Berlim Puro!, da VandexTV.

“O Evandro (Vandex) faz parte de um grupo de pessoas que acreditam no rock baiano e contribuem para a evolução e profissionalização do segmento”, afirma Anderson.

“Esse formato permite contato direto e imediato com os fãs de nosso trabalho,  do rock, do programa e curiosos, abrindo um leque muito bacana e oportuno. Para nós é um privilégio“, acrescenta.

Cadê o ‘Toca Raul’?

Banda formada por Anderson, Luis Campos (guitarra) e Akillas Gomes (bateria), Os Tios contam com um álbum cheio lançado em 2013, Pra Onde as Coisas Vão.

Agora, preparam para o início do ano que vem o lançamento de um novo EP, Malogrado.

“Sim, estamos finalizando nosso segundo trabalho, que terá cinco ou seis faixas mais uma de bônus, a ser lançado no primeiro trimestre de 2018”, conta.

Em Malogrado, Os Tios (ah, esse nome) esperam apresentar alguma evolução em relação ao álbum de 2013.

“Sim, ou evoluiríamos ou deixaríamos de existir como banda. Nosso som é uma constante transformação. Tivemos três guitarristas (André Poveda, Jenner Randam e agora Luis Campos) com três estilos diferentes, mas o viés do autoral e inovador se mantém”, garante Anderson.

Donos de louvável espírito de resiliência, Os Tios lamentam o pouco prestígio das bandas locais.

“Barreiras e dificuldades sempre vão existir. O que percebemos é a redução de público nos shows. Está faltando calor humano, olho no olho, ‘Toca Raul’”, conclui.

Show D’Os Tios no programa Berlim Puro! / Quinta-feira, 20h30, no www.vandex.tv / www.ostios.com.br

NUETAS

IPA Hop na quinta

O blues rock da IPA Hop (Rex, Uzeda & Candido) anima a night de quinta-feira na  Rhoncus. 21 horas, R$ 10.

BigBands aqui e ali

O Festival Bigbands 2017 encerra este fim de semana com duas noites de shows. Sexta tem  Dudé Casado (CE), Sanitario Sexy (Juazeiro) e Declinium (Camaçari), na Commons, R$ 10 (até meia-noite). Sábado é a vez de Duda Spínola, Irmão Carlos, Ayam Ubráis Barco e Ismera (Ilheus) na Feira da Cidade (Canteiro Central da Avenida Centenário). 17 horas, gratuito.

Jards com Farinha, sem Desprezo

Mestre da canção e do violão, Jards Macalé faz duas noites no Café-Teatro Rubi, sexta e sábado. Farinha do Desprezo no juízo às 20h30, R$ 80.

segunda-feira, novembro 27, 2017

PSICOPATAS DO CINEMA NO DIVÃ

Psicólogo baiano analisa o mecanismo que torna os filmes de terror tão atraentes em livro com lançamento HOJE

Leatherface e o balé da serra elétrica ao pô do sol
O brucutu com máscara de pele humana dança um balé macabro ao pôr-do-sol, empunhando uma serra elétrica manchada de sangue.

O êxtase profano que encerra O Massacre da Serra Elétrica (1974) deixou multidões fascinadas e horrorizadas ao mesmo tempo.

É este misto de masoquismo e adrenalina provocado nos espectadores que o psicólogo Zé Felipe Rodriguez de Sá analisa no livro O Terror no Divã (Editora Madras).

Subintitulado A Psicologia do Cinema de Terror em Quatro Séries Clássicas, o livro terá  lançamento com sessão de autógrafos nesta segunda-feira, na Livraria Cultura.

Em suas páginas, Zé Felipe analisa, à luz da psicanálise, folclore e criminologia, os filmes de quatro franquias clássicas do terror: a já citada Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Halloween.

O livro, garante o autor, é perfeitamente acessível também aos leigos: “A psicologia, para mim, tem a obrigação de se comunicar com a sociedade. No meu caso, eu não escrevi só para psicólogos, psicanalistas e estudantes. Escrevi também para quem gosta desse tipo de filme e para quem gosta de cinema em geral”, afirma.

Guitarrista da pioneira banda baiana de doom metal The Cross, Zé vê paralelo entre o amor pelos filmes de terror e pelo metal.

Zé Felipe, baiano nascido no Uruguai, psicólogo e guitarrista. Ft Pedro Santana
"Afinal, os pais do heavy metal - o Black Sabbath - tiraram o seu nome de um filme de terror. Não vejo muita influência do terror no doom metal, mas tem outros subgêneros que são totalmente inspirados por esse tipo de filme... O death metal, por exemplo. Bandas como Deicide, Cannibal Corpse, Necrophagia, Mortician, Impetigo, e por aí vai", enumera.

Fábulas morais

Fã de filmes de terror desde a adolescência – “Um rito de passagem para a minha geração”, nota – Zé Felipe conta que nunca entendeu direito porque gostava tanto de toda aquela matança.

“Foi essa curiosidade que me levou a escrever o livro. Esses filmes falam de uma cultura (norte-americana), de um tempo (a transição entre a revolução sexual e o conservadorismo da era Reagan) e de medos universais, como morte, abandono, escuro, animismo etc”.

"Acho que a coisa vai além desse sado-masoquismo virtual. Esses filmes fazem a gente encarar traumas pessoais e enfrentar medos universais", acrescenta.

Vem daí um paralelo muito interessante que ele traça no livro: os filmes de terror são a versão contemporânea de contos do folclore europeu, os chamados cautionary tales, histórias destinadas a educar os jovens através do medo.

“Sean Cunningham,  diretor de Sexta-Feira 13, disse que o subgênero slasher (protagonizado por psicopatas assassinos) é uma atualização Hollywoodiana / adolescente para os contos dos Irmãos Grimm. Ou seja: eles dramatizam conflitos internos, inconscientes. Desenham o que não tinha cor nem forma”, afirma Zé Felipe.

“No caso específico de Halloween e Sexta-feira 13, eles falam dos perigos das drogas e sexo na adolescência, uma idade que a gente realmente não tem muito noção das coisas. E esse é o paralelo entre os slashers e os contos de fada: ambos são ‘fábulas morais’”, conclui.

Lançamento: O Terror no Divã / Hoje, 19 horas / Livraria Cultura (Salvador Shopping)

sexta-feira, novembro 24, 2017

OCUPAÇÃO SONORA NO CENTRO

No Coro de Rua, Lívia Nery comanda dois domingos de muito som na Barroquinha, com grandes convidados locais e nacionais

Lívia Nery, foto Davi Caires
Enquanto muitos ainda esperam que a  revitalização do Centro Histórico se dê por obra e graça das instâncias governamentais e / ou de empresários, há quem entenda que, para começar, é preciso que o público abrace e ocupe o Centro, “forçando” a ação de governos e empresas.

A cantora Lívia Nery parece disposta a  fazer sua parte com a realização do evento Coro de Rua, neste domingo e no dia 10 próximo.

Viabilizado através do Edital Arte Todo Dia Ano III, da Fundação Gregório de Mattos, o evento trará, nos dois dias, Lívia comandando um pequeno grupo de artistas (locais e nacionais) em um palco armado na escadaria da Rua do Couro, ao lado do Teatro Gregório de Mattos, na Barroquinha.

O evento, inédito no espaço em que será realizado, surgiu após um show de Lívia ali mesmo, no TGM.

Ministereo Público Foto Rafael de Bellis
“Foi justamente após um show na Barroquinha  que minha produtora Tatiana Lírio (Noarr Produções) e eu pensamos em como essa escadaria funcionaria bem para um evento com sound system”, conta Lívia.

“Um lugar lindo, de uma história tão antiga quanto a história da nossa cidade. Então idealizamos este projeto para ocupar a rua, o centro antigo, de uma forma que lhe seja natural, ou seja, com um projeto ancorado na cultura de rua, com a música como elo”, diz.

A única outra constante, alem da anfitriã, é o sound system Ministereo Público, que fará a conexão com a cultura jamaicana que dá o mote da ocupação.

"Bem, a cultura sound system nasce na Jamaica, levando os sistemas de som para a rua, num contexto em que o povo não podia frequentar os clubes com música ao vivo. Desse cenário surge uma vertente musical em que o som exclusivo e original , e o improviso da rua passam a ser os protagonistas.  Aqui na Bahia a coisa se desenvolveu de um jeito que o som também ocupa a rua, com os trios elétricos, os sons dos carros nos fins de semana, os carrinhos de café, e a música percussiva, também usando a rua como lugar de "ensaio". Ambos lugares tem forte conexão com a rua e com a música, ambos são pólos de diáspora africana. São ramificações de uma matriz semelhante. Esse projeto é um agradecimento a todo esse legado tão importante pra todos e todas", detalha a cantora.

Ocupar e não desaparecer

Áurea Semiséria, Foto Tamires Allmeida
Neste domingo, primeiro dia do Coro, Livia recebe no palco a cantora baiana Danzi Love Jah, a pernambucana Karina Buhr e a paulista  Mis Ivy. Quinze dias depois é a vez dos rappers locais Aurea Semiséria, Vandal e do carioca BNegão.

“Os artistas convidados são pessoas que já dialogam com nossa cena musical, sobretudo com o sistema de som do Ministéreo Público, que estará ‘amplificando’ o projeto. Chamamos de amplificação pois o coletivo levará seu paredão de som e sua pesquisa em música jamaicana”, conta Lívia.

“Karina Buhr e BNegão já se apresentaram neste contexto antes e dá muito certo. Cada artista vai assumir os microfones cantando em instrumentais de música jamaicana, ou suas próprias canções, com suporte dos DJs do Ministéreo. Eu vou interagir com todos também. Os artistas locais podem ser novos aos ouvidos do grande público, assim como eu também (risos), mas são conhecidos na cena que frequentam, como Áurea, uma mina do rap muito atuante na cena, e Danzi, cantora de reggae roots da cidade. Ah,teremos uma atração surpresa, revelada aqui pra você, que é Miss Ivy, uma cantora de dancehall de São Paulo que estará aqui e vai participar conosco. Ela é fervura!”, diz.

Realizado na rua, o evento, garante a artista, terá toda uma estrutura profissional para quem for curtir a tarde de domingo no Centro.

“É um evento de rua que está sendo realizado com o apoio da Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos, com toda a estrutura  montada. Vai haver uma feira de vinil, (barracas de) comida e bebida à venda, banheiros”, afirma.

BNegão, foto Leco de Souza
“Estamos nos inspirando no formato quermesse. Queremos criar um ambiente de máximo alto astral e paz para este fim de tarde ser realmente especial, com muita música, dança e cultura de rua”, conta.

Apesar de já estar atuando no circuito independente há alguns anos, Lívia ainda não lançou um álbum completo, apenas singles. "Tenho percebido que lançar um álbum é o resultado de uma gestação, gestar uma obra, e é sempre melhor quando ela pode acontece num mergulho criativo. Eu tenho vontade de experimentar esta imersão, mas, até o momento, trabalhando de forma totalmente independente e caminhando com várias frentes simultâneas (uma delas é o Coro de Rua), tenho encarado cada música como uma obra em si. Por isso lancei um 'single duplo' (risos) no início do ano, e tenho mais alguns engatados para lançar até o carnaval. Ainda acredito no álbum como formato de experiência musical e quero passar por esta realização criativa. Mas o single é mais adequando a minha realidade de produção e de escuta do público nestes tempos. E estou de bem com isso também. É provável que além dos singles eu lance um EP com duração menor que um álbum no ano que vem", observa.

Alvo de muitas críticas, a política de editais, ainda é, por enquanto, a única alternativa para os artistas independentes, que não contam com patrocínios privados. Lívia acredita que, se não é perfeita, a política pode ser melhorada, mas não extinta. "A estruturação de políticas públicas de cultura, pra nós, é algo recente em todas esferas. Os orçamentos para cultura ainda são cifras minguadas. E diante disso há o aprimoramento das formas de acesso a estes recursos. Há muito a melhorar, a ser desburocratizado, a ser fiscalizado. Mas o que não pode é parar, interromper, extinguir estes mecanismos. Temos nossas opiniões e avaliações acerca das políticas públicas para ocupação do espaço urbano e para a cultura, inclusive na nossa cidade, mas acreditamos que a resposta a isso é ocupar. É o que estamos fazendo. Mesmo com os recursos tradicionalmente escassos", afirma.

Karina Buhr, foto João de Holanda
Artista independente que tem circulado bastante (em setembro último, se apresentou em Chicago, EUA), Lívia ressalta a importância de apoiar eventos desse tipo: “Queria reforçar mais uma vez a importância de ocupar. De unir forças criativas para não desaparecer na cidade. Temos um público consumidor de música que não prestigia, não paga pra ver a prata da casa. Ao mesmo tempo, temos uma leva de bons artistas despontando no cenário nacional, nas redes, que não tem retorno real . Salvador ainda caminha a passos lentos pra uma estruturação que permita a cadeia produtiva da musica - em toda sua diversidade de estilos -  sobreviver dignamente”, conclui.

Coro de Rua – ocupação sonora do centro da cidade / Domingo, 15 horas / Com Livia Nery (BA), Danzi Love Jah (BA), Karina Buhr (PE), Mis Ivy (SP) / Dia 10 de dezembro, 15 horas / Com Livia Nery (BA), Aurea Semiséria (BA), Vandal (BA), BNegão (RJ) / Sound System: Ministereo Público / Rua do Couro (Escadaria da Barroquinha, Centro) / Gratuito

terça-feira, novembro 21, 2017

EX-SCAMBO, GRACO VIEIRA ESTREIA NOVO PROJETO BA_CO. SEXTA-FEIRA, NO FESTIVAL NO CAMINHO

Ba_Co: Nina Campos e Graco Vieira. Foto Douglas Mendes
Veterano guitarrista de bandas queridas do público como Inkoma, Scambo e Bailinho de Quinta, Graco Vieira está de projeto novo na praça.

Batizado Ba_Co (é underline mesmo, revisor!), trata-se de um duo com a baixista Nina Campos (da banda Macumba Love), que parte das células rítmicas do samba-reggae para criar um som híbrido com toques de rock e eletrônica.

Quem quiser conferir o novo som do Graco – e da Nina – tem uma excelente oportunidade nesta sexta-feira, na primeira edição do festival No Caminho, que ainda traz mais duas bandas de fora: a carioca Ventre e a gaúcha Dingo Bells.

Estreando banda e festival novos, Graco admite um friozinho na barriga: “Sim, a estreia de um projeto é sempre.... caótica (risos). Mas sei que as coisas vão se ajeitando com o tempo e que precisamos dar esse start, sair do digital e partir pros palcos”, afirma.

“Fiquei muito feliz com o convite de Marcelo Argôlo e Gabriele Jessi (produtores) pra gente estrear no festival No Caminho e torço muito para o sucesso dessa empreitada. Vejo verdade e vontade neles. Um festival de musica autoral é sempre importante pra circulação de bandas e projetos na cidade”, acrescenta Graco.



Composição de referências

Com cinco faixas disponibilizadas no Soundcloud, o Ba_Co apresenta uma proposta consistente, casando bem a guitarra (ora psicodélica, ora pesada) de Graco com  levadas que poderiam ter saído de um disco do Olodum.

Ba_Co. Foto Douglas Mendes
"O fim da Scambo foi inesperado, deixou um vazio. Mas esse vazio trouxe angústia e deu espaço suficiente para assumir um projeto completamente autoral. A gênese do Ba_Co: Minha infância e adolescência em Itapuã, nessa época eu gostava de dançar e foi ali que fui fisgado pelo Olodum, Timbalada, Edson Gomes, Gera Samba... Em 1999 passei a fazer parte do Inkoma, e entrei no mundo do rock baiano. Em 2006 me aproximei do grande mestre Ramiro Musotto e a Scambo gravou o seu melhor disco, com a produção dele, o disco que Nikima canta. Ver Ramiro produzir e tocar foi uma escola. Os anos que frequentei a UFBA, onde as musicas do Ba_Co começaram a surgir, principalmente nas discussões com Paulo Miguez e Renatinho da Silveira sobre o carnaval baiano e as matrizes africanas... O samba-reggae é um fetiche antigo, sempre gostei e sempre achei que poderia mesclar isso com as experiências que acumulei, seja no hardcore, no reggae, rock ou nas marchinhas e frevos do Bailinho”, conta.

Depois de compor e gravar algumas demos com a ajuda do sampler, Graco convidou Japa System (Baiana System) para ajuda-lo na parte eletrônica e Mario Pam (Ilê Aiyê) para acrescentar o peso dos tambores.

“Acho importante pontuar que o Ba_Co não é um projeto de samba reggae, é um composição de referencias de uma Salvador urbana e caótica, que me interessa e da qual faço parte. O início do processo de construção foi todo a partir do computador, como produtor, DJ, editando samples de percussão da Bahia e compondo riffs de guitarra. Com a primeira versão pronta senti que precisava do elemento orgânico da percussão e convidei Japa System para regravar alguns instrumentos. Durante minha pesquisa conheci o Mestre Mario Pam (Ilê Aiyê) que tem um conhecimento enorme da historia e ancestralidade dos ritmos afro baianos e que tem contribuído muito para expansão conceitual do projeto. No Ba_Co os tambores são tão importantes quantos os riffs de guitarra, as linhas de baixo, as letras e os beats eletrônicos”, pontua.

“Ao vivo, sempre quis a pressão do tambor. No show, vamos ter as bases eletrônicas e samplers, que fazem parte da essência do Ba_Co, mas também a percussão 'valendo'. Será um desafio, mas contaremos com dois grandes percussionistas, o mestre Mario Pam (Ilê Aiyê) e Nanny Sanntos (Cortejo Afro). No baixo e voz, minha parceira no projeto, Nina Campos. E eu na guitarra e cantando. Tocar com Nina é, sem dúvida, minha grande motivação pra colocar um projeto novo na rua”, afirma.

No estúdio, Graco e parceiro tiveram de lançar mão de uma certa alquimia para que a 'pressão' dos tambores não engolissem todos os outros instrumentos.

"Desde que comecei a produzir pro projeto, as musicas pintavam a partir de um riff de guitarra e as coisas iam se construindo ao redor. Então não tive tanta dificuldade em fazer soar bem... Todo o arranjo termina reforçando o riff. Optei por musicas harmônica e melodicamente muito simples, algo que sempre me agradou. Na minha pesquisa, percebi que as bandas que costumam gravar esses gêneros de musica soam gigantes ao vivo e quase sempre um pouco 'magras' nos discos. Minha solução foi colocar bases eletrônicas com bumbos e caixas, trazendo um caráter mais pop e uma linguagem mais moderna pras canções", detalha.

Lançada a banda, Graco e Nina seguem com um olho no mercado local e outro lá fora, de modo a aumentar as possibilidades de atuação.

"Os anos trabalhando com musica me deram a possibilidade de fazer um bom network, vou aproveitar isso pra colocar a banda pra rodar, é importante pra azeitar as coisas, ir dando corpo ao trabalho, pra gente ir testando e experimentando. A primeira musica que compus pro projeto, Paraguaçu, faz parte de uma coletânea chamada Bahia Music Export. O lançamento dessa coletânea fora do país imediatamente abriu uma porta e a mesma musica saiu em um compilação inglesa, The Rough Guide to Psychedelic Samba. Isso foi importante pra eu perceber o interesse e curiosidade dos estrangeiros pelo projeto. A segunda musica que compus,  Peixe (em parceria com Fabio Cascadura – que criou quase todas as letras comigo), foi uma das finalistas do XIII Festival da Educadora. Hoje, a faixa intitulada Oriente está concorrendo na edição 2017 do mesmo festival. Essas pequenas conquistas foram me fazendo perceber que existe algo de sólido ali. Minha ideia inicial  era lançar um EP, mas decidi lançar faixas separadamente, ir trabalhando com singles e depois juntar isso num disco, provavelmente no primeiro semestre do ano que vem", conclui Graco.

Festival No Caminho / Com Ventre (RJ), Dingo Bells (RS) e Ba_Co / Sexta-feira, 19 horas / Cine Teatro Solar Boa Vista /  R$ 25 (no Sympla)



NUETAS

Soraya e o Maldito

No show Doce Maldição, a cantora Soraya Aboim faz tributo ao maldito Sérgio Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua Sampaio. Sexta-feira, no Espaço Cultural Casa da Mãe. 22 horas, R$ 15.

Francisco, Jadsa...

A banda Francisco el Hombre (SP) se junta à cantora Jadsa Castro e ao DJ Camilo Fróes na festa Noites de Radioca. Sexta-feira, 23 horas, no Portela Café. R$ 30 (Sympla).

Música Solar Fest

O restaurante Solar (R. Fonte do Boi) realiza ao longo do mês seu Solar Music Festival. Esta semana tem Bago de Jazz (nesta quinta-feira e na próxima, dia 30), Candice Fiais & Soulshine Blues Band (sexta) e Grupo Barlavento (sábado). Sempre às 20h30, R$ 15.