segunda-feira, fevereiro 18, 2019

QUEM É ALITA?

Alita: Anjo de Combate traz cultuado mangá para as telas em filme divertido 

Pinóquio, o azarado boneco de pau criado por Carlo Collodi em 1881, sofreu horrores em sua busca por se tornar menino de carne e osso.

Na super-produção Alita: Anjo de Combate, acompanhamos a busca similar de uma menina ciborgue.

Só que, ao invés de querer se tornar gente, Alita já é tão tecnologicamente avançada  que é capaz até de se apaixonar. De  chorar.

E no final, sua busca é, na  verdade, para descobrir a sua própria origem.

Baseado no cultuado mangá de Yukito Kishiro, Alita: Anjo de Combate conta com a direção de Robert Rodriguez (das franquias Sin City e Spy Kids) e produção do deus do cinemão James Cameron. Ambos escreveram o roteiro em parceria com Laeta Kalogridis (da série Carbono Alterado).

No elenco, a pouco conhecida Rosa Salazar (Bird Box) confere a humanidade necessária sob a roupa de sensores que na tela se torna a encantadora menina com enormes olhos de mangá cor de mel.

No mundo futurista / distópico do filme, Alita tem sua cabeça encontrada no lixão pelo bondoso cientista Dr. Ido (Christoph Waltz).

O lixão recebe os detritos da cidade flutuante de Zalem, onde vive a elite econômica que explora os habitantes de  Iron City.

Ido leva o resto de ciborgue para casa e a reconstrói com partes avulsas, chamando-a de Alita, em homenagem a sua filha morta.

Alita, porém, uma vez desperta, não tem qualquer lembrança de sua vida antes de ser descartada.

Só que Ido também guarda seus segredos e, ao segui-lo quando sai de casa sorrateiramente uma noite, Alita descobre que é dona de absurdas habilidades de luta ao ser obrigada a enfrentar um monstruoso ciborgue de combate.

A trama ainda traz algumas surpresas ao incluir um campeonato brutal similar ao Rollerball (do clássico filme sci-fi de 1975) só que para ciborgues, um interesse amoroso humano para Alita (Keean Johnson), um  sinistro traficante de peças cibernéticas (o badalado Mahershala Ali) e sua cúmplice (a sempre maravilhosa Jennifer Connelly), além de um misterioso manipulador que assiste a tudo da cidade flutuante.

O resto, convém descobrir diante da tela.

Glorioso CGI

Adaptações de mangás para o cinema são sempre um terreno pantanoso.

Que o digam Speed Racer, Dragonbal Evolution e Death Note, só para ficar nos casos mais escandalosos.

Contudo, Alita até que não se saiu mal,  assim como o recente A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017), ao se manter fiel ao material fonte, mas traduzindo-o com habilidade para o telão.

Obviamente, a produção Classe A de James Cameron (Avatar) deve ter ajudado muito para a verossimilhança em glorioso CGI.

De cara, pode-se dizer que todo o trabalho de design (de cenários, roupas, objetos e ciborgues) e as cenas de ação são de uma qualidade difícil de criticar.

Em suma, é um trabalho de cair o queixo.

Como nem tudo é perfeito, há problemas. O principal é o roteiro, que às vezes se atropela com o entra e sai de personagens de forma aleatória e que até mudam de lado sem deixar clara a motivação.

O final é brusco e sem aviso, deixando soltas uma pá de pontas  que o filme foi jogando ao longo da projeção.

OK, ninguém é menino para não entender que este é apenas o primeiro capítulo de mais uma mega-franquia que se inicia. Mas que terminou esquisito, terminou.

Nada disto porém, inviabiliza a experiência divertida que é assistir Alita, uma personagem até então restrita ao universo dos fãs de mangá e que chega com potencial para inspirar muitas meninas guerreiras por aí.

Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel, 2019) / Dir.: Robert Rodriguez / Com Rosa Salazar, Christoph Waltz, Ed Skrein, Mahershala Ali, Jennifer Connelly, Keean Johnson, Jackie Earle Haley / Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shopping Salvador Norte, Cinesercla Shopping Cajazeiras, Mobi Cine Salvador, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

FOLIA DE DOMINGO

Nação Zumbi traz amanhã à Concha o espetáculo Troça Elétrica, que recria clima do carnaval pernambucano

La Nación: Lúcio, Toca Ogan, Du Peixe e Dengue. Ft Dovilé Babraviciuté
A alegria – e só Jah sabe o quanto estamos precisando dela – vai dominar a Concha Acústica este domingo.

É a infalível Nação Zumbi, que traz a Salvador, pela primeira vez, seu espetáculo Troça Elétrica.

Além da Nação, se apresentarão a banda conterrânea Academia da Berlinda e a Orquestra de Frevo Henrique Dias (a mais antiga e tradicional de Olinda), além de estandarte, bonecos gigantes típicos de Olinda, Caboclo de Lança  e passistas de frevo.

Desta forma, a ideia da Nação é trazer aos palcos do Brasil um pouco do carnaval pernambucano.

Além dessa festança toda, quem vai abrir o fim de tarde na Concha é a banda local RadioMundi, escolhida pelo público em votação pelo site www.conexoessonoras.com.br, que promove o evento.

Se dermos sorte, dançaremos em seu redor. Foto Beto Figueroa
“A ideia é que, ao invés de um DJ entre uma banda e outra, a Orquestra de Frevo toque como em Olinda: no meio da publico. Mas ainda  não sei se na Concha isso vai ser possível”, conta Jorge du Peixe, vocal da Nação, por telefone.

“Vamos com a Academia da Berlinda, banda com a qual já tocamos em Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e Recife. E com a Radio Mundi daí de Salvador, com quem já tocamos no Pelourinho”, lembra.

No show da Nação propriamente dito, o repertório parece ser na medida para agradar novos e antigos fãs: “Ah, é bem variado, tem músicas do Radiola NZ Vol. 1 (2017, só de releituras), do Nação Zumbi (álbum de 2014) e dos discos mais antigos”, conta.

Com seu último álbum lançado em 2017, o núcleo duro da Nação (Jorge, o guitarrista Lúcio Maia, o baixista Dengue e o percussionista  Toca Ogan) já pensam em registrar material novo para breve: “A ideia é ter um Radiola NZ Vol. 2, mas o próximo passo mesmo é gravar um disco autoral. Entre um  autoral e outro achamos coisas para fazer, como  o Troça Elétrica e gravar coisas que vimos ouvindo na carreira”, conta.

Além de Jorge, Lúcio, Dengue e Toca, a Nação conta com Marcos Matias, Gustavo da Lua (ambos na percussão e alfaia) e Tom Rocha (bateria).

RadioMundi: DJ Mangaio e Vince di Mira. Foto David Campbell
Moderno ancestral

Responsável por abrir os trabalhos em um domingão na Concha que promete, a banda local RadioMundi é formada por Vince de Mira (vocais, ex-Lampirônicos), DJ Mangaio (programações) e Ícaro Sá (percussão).

No palco, eles ganham o reforço do guitarrista Ian Cardoso e do baterista Ricardo Correia.

No som, a RM pratica aquela mistura bem atual que conjuga moderno e ancestral, eletrônico e artesanal: “A gente parte sempre de bases eletrônicas e de referências de música étnica, como  música nigeriana, angolana e afoxé baiano. Pegamos clarins, atabaques e aí trabalhamos a música”, conta Vince de Mira.

“Não que necessariamente façamos sempre assim , inclusive estamos pensando até em mudar, mas hoje é isso aí”, acrescenta o artista.

Academia da Berlinda, foto Yuri Rabid
Após o show de domingo, o trio lançará nas plataformas o single My, que será precedido por outros a cada dois meses. Inclusive, uma das músicas será gravada com  participação de músicos da Nação.

“Teremos um conteúdo exclusivo com a Nação e uma outra música com participação de Lucas Santtana, Nossa Festa. Com a Nação, vamos gavar logo depois do show, mas a música não  tem título ainda”, conclui Vince.

Conexões Sonoras apresenta: Nação Zumbi, Academia da Berlinda, Orquestra de Frevo Henrique Dias e RadioMundi / Domingo,  17 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 40 e R$ 20 / Vendas: TCA e ingressorapido.com.br

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

NAVEGAR É PRECISO

Sofisticado, O Futuro Não Demora traz a Baiana System cada vez mais aprofundada em suas sonoridades e conceitos artísticos 

A misteriosa figura de máscara que é o símbolo da BS. Foto Filipe Cartaxo
Quando surgiu no cenário, há dez anos, a  BaianaSystem era pouco mais que uma das bandas / artistas que despontavam em um movimento de revalorização da guitarra baiana.

Enquanto o  movimento passou, a Baiana se agigantou, tornando-se ponta de lança de uma nova cena, abrindo caminho para artistas como ÀTTØØXXÁ, Baco Exu do Blues e outros.

Dez anos depois, a Baiana fecha esse ciclo tão frutífero com seu terceiro álbum, O Futuro Não Demora.

Tranquilamente a obra mais elaborada da banda, o álbum é um verdadeiro manifesto artístico / social com muitas camadas, tantos musicais quanto conceituais.

E ainda assim, profundamente popular, com o balanço na medida  que seus milhões de fãs amam e esperam ouvir em um álbum de Russo, Robertinho & Cia.

Sofisticado, O Futuro Não Demora chega mesmo a ganhar ares de sinfonia, graças à participação do maestro Ubiratan “Bira” Marques e sua Orquestra Afrosinfônica na própria concepção do álbum, criando arranjos, regendo e coassinando as composições que abrem e fecham o disco: Água, Bola de Cristal e Fogo.

Magnética, a BaianaSystem atraiu ainda muito mais gente boa para compor, produzir, cantar e tocar, como BNegão, Manu Chao, a dupla Antonio Carlos & Jocafi, Dudu Marote, Lívia Nery, João Teoria, Andre Becker, Vandal, Mestre Lourimbau, Curumin, Edgar, Mestre Jackson, o produtor inglês Adrian Sherwood e o grupo Samba de Lata de  Tijuaçú, da cidade de  Senhor do Bonfim.

“Foi um processo demorado, mas estamos muito à vontade com o resultado, saiu muito verdadeiro, real, traduziu nosso momento. Estamos bem felizes”, afirma Roberto Barreto, guitarrista fundador.

Dividido em Lado Água e Lado Fogo, o novo da Baiana tem produção de outra referência da área, Daniel Ganjaman, que já havia trabalhado com a banda em Duas Cidades (2016) e outras obras icônicas, como  Nó na Orelha (2011), do Criolo.

Só que, se em Duas Cidades a banda se deslocou para São Paulo para trabalhar, desta vez o movimento foi outro, cruzando a Baía de Todos os Santos para buscar inspiração na Ilha de Itaparica ao longo de todo o processo de composição e pré-produção.

Lá, os músicos se enturmaram com os membros do grupo sócio-ambiental Maré de Março, formado por jovens locais e que buscam criar lá um entendimento integrado entre história e meio ambiente.

Russo, Seko  Bass e Roberto, foto Filipe Cartaxo
“Nesse disco a gente tá falando de futuro, mas com consciência do passado, de se dar conta de nossa história, com  esse entendimento de Itaparica, de mestres como Antonio Carlos & Jocafi, Lourimbau e Mestre Jackson (percussionista com passagens pelo Olodum, Comanches do Pelô, Apaches do Tororó)”, diz Beto.

Conversas com os sábios

Na ilha, o núcleo da Baiana desacelerou do ritmo alucinante de shows pelo Brasil e pelo mundo.

“A gente tava naquela catarse toda e aí quando fomos para ilha  era aquela calma. Lá começamos com Bira uma sinfonia de guitarra baiana, baixo e Orquestra Afrosinfônica”, conta Beto.

A busca pela ancestralidade os levou ainda buscar diálogos com autoridades do assunto na  Bahia: “A  construção do disco foi dessa forma: demorada, mas não sofrida, a gente foi dando tempo e respirando para que essa participações se dessem organicamente”.

“Aí na ilha conversamos com (o  antropólogo e historiador Antonio) Risério, ele ouvia as músicas, nos falava coisas que iam abrindo outras portas, assim como (a antropóloga) Goli Guerreiro com quem também conversamos”, relata.

No dia 23, a Baiana faz seu primeiro show do ano em Salvador, no Baile Arapuca, que ainda contará com vários parceiros da banda, como BNegão (que participa na faixa Salve), Vandal (que domina geral na faixa Certopelocertoh), MiniStereo Público, Tropikillaz (dos DJs  André Laudz e Zé Gonzales) e Larissa Luz.

Mas calma, ainda não é o show de lançamento do disco novo.

“Tinha muito tempo que não fazíamos uma festa aqui. Agora, estamos começando a entender como isso (o disco novo) vai funcionar ao vivo”.

“Não vamos parar um show para começar um novo. Então ainda estamos brincando. Daqui a uns três meses que você pode chegar e ver um show novo. Ainda estamos numa transição”, explica Beto.

Certo mesmo é que, depois da festa dia 23, tem Navio Pirata no Furdunço (dia 28), depois Recife, São Paulo, Rio de Janeiro.

E entre julho e agosto, Europa: “Devemos fazer uma turnê maior esse ano, passando por Portugal, Espanha e Inglaterra, mas ainda vamos estudar tudo isso direitinho”.

Baile Arapuca / Com BaianaSystem, MiniStereo Público,  BNegão, Vandal, Larissa Luz e Tropkillaz / Dia 23 de fevereiro, 18 horas / Área Verde do Bahia Othon Palace Hotel / R$ 60 a R$ 120 / Vendas: www.safeticket.com.br

terça-feira, fevereiro 12, 2019

DA TERRA DO TINTIM PRA TERRA DO DENDÊ

Cantora belga Cloé du Trèfle faz dois shows em Salvador: hoje (gratuito) e DEPOIS DE amanhã

A cellista Céline Chappuis e Cloé du Trèfle, foto Julie Guiches
Óbvio ululante: jornalista gosta é de novidade. E a novidade da semana nesta coluna vem do outro lado do oceano.

É a cantora belga Cloé du Trèfle, que faz dois shows na cidade esta semana: hoje, no
Teatro Eva Herz (gratuito) e depois de amanhã à noite, no Lebowski Pub.

Acompanhada da violoncelista  Céline Chappuis, Cloé se apresenta cantando e tocando – ora guitarra, ora piano.

Apelidada pela imprensa do seu país de “Björk belga”, aos ouvidos do colunista o som da cantora pareceu se aproximar mais do indie eletrônico avant garde da francesa Charlotte Gainsbourg (a filha do Serge) – talvez pela sonoridade da  língua que compartilham.

De qualquer forma, vale conhecer e apreciar o som elaborado, delicado e emotivo de Cloé, um canapé bem diferente do acarajé nosso de cada dia.

“No Lebowski, vamos tocar mais as músicas mais eletrônicas. No teatro da Livraria Cultura será um pocket show. Tocaremos mais com o violoncelo e o piano, com algumas ambientações eletrônicas”, conta a cantora, por email.

“Gostamos de adaptar nosso show à audiência. Se tiver muita gente falando em francês no público, eu posso até declamar um poema. Acho importante adaptar o show para a plateia e o lugar onde você  se apresenta”, acrescenta.

Sejam curiosos

Aparentemente tranquilona, Cloé levou na boa a comparação da imprensa belga com Björk: “Acho Björk uma grande artista, que está sempre se reinventando, buscando novos territórios, trabalhando com um monte de artistas diferentes em diferentes campos. Então recebi a comparação como um cumprimento”, afirma.

“Mas como artista, eu amo misturar instrumentos clássicos (como piano e violoncelo) com eletrônica. Faço esta turnê com Céline Chappuis, que toca violoncelo, aí eu venho com meu teclado e minha guitarra, mais um kit de bateria eletrônica e diferentes máquinas de sons”, descreve.

Esta é a segunda turnê de Cloé pelo Brasil (a primeira foi em março do ano passado), mas a primeira que ela se apresenta em uma cidade do Nordeste.

“Depois daquela primeira turnê tiramos alguns dias de folga em Salvador e arredores. Foi lindo, e a música estava em todo canto nas ruas”, lembra.

“Esta parte do Brasil é muito diferente de outras cidades que vimos pelo país. Também temos amigos na cidade que sempre nos diziam que tínhamos que ir a Salvador. E tem as praias e o forró que são incríveis, sem falar na moqueca”, derrama-se.

Mas Cloé, o que você gostaria mesmo de dizer ao público de Salvador?

"Sejam curiosos e venham!“. OK!

Cloé du Trèfle: Vertige Horizontal / Hoje, 19 horas / Teatro Eva Herz (Livraria Cultura) / Gratuito / Quinta-feira, 22 horas / Lebowski Pub / R$ 20 / www.cloedutrefle.com



PS: Na coluna que saiu hoje impressa no Caderno 2+ do jornal A Tarde o colunista / blogueiro errou ao colocar no título (aqui no subtítulo) que os shows de Cloé são hoje e amanhã. São hoje e depois de amanhã. O jornalista pede desculpas pelo erro e se compromete em publicar uma errata na edição de amanhã, quarta-feira.

NUETAS 

Conexão BA-Portuga

O músico Sèrgio Akueran, o grupo português Caravela e o poeta e compositor Juraci Tavares unem forças em show nesta quinta-feira, no Rango Vegan (Santo Antônio Além do Carmo). 19 horas, R$ 10.

Doidão & Aloprados

No mesmo dia, no Rio Vermelho, a impagável banda Professor Doidão & Os Aloprados faz aquela sonzeira rock hippie alto astral no Bardos Bardos Casa da Trinca. 19 horas, pague quanto puder.

Sessões invisíveis

O evento Invisible Sessions NHL bota no palco do Mercadão.CC Gabriela Deptulski (da banda capixaba My Magical Glowing Lens em show solo), Aurata (lançando o disco Satori) e Colibri (estreia). Sábado, 16 horas, R$ 15.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

AO SABOR DA MEMÓRIA (E DA CERVEJA)

Segundo livro do baiano Tarcísio Buenas, No Canto da Quadra é bela reunião de crônicas sobre o dia a dia e reminiscências

Tarcísio Buenas em seu canto, a Buenas Bookstore. Crédito Adriana Arakaki
Nos anos 1990, jovens  ficaram fascinados  pelo personagem Rob Gordon, do livro Alta Fidelidade (1995), de Nick Hornby.

O ideal do homem que “nunca amadurece” e nunca se resolve na vida, dedicando-se exclusivamente ao que lhe dá prazer (leia-se música, livros e mulheres, não necessariamente nesta ordem) deve ter batido fundo em Tarcísio Santana, que lançou no final do ano passado seu segundo livro: No Canto da Quadra.

Não que o escritor, baiano de Cruz das Almas e que assina como Tarcísio Buenas, escreva como Hornby. Longe disso. Sua praia é outra – e é a mesma, ao mesmo tempo.

É que, enquanto Hornby escreve romances, Buenas escreve crônicas. E enquanto Hornby escreve sobre o dia a dia entre discos e livros em uma loja cheia de personagens pitorescos, Buenas vive este dia a dia na vida real – e só depois escreve sobre isso.

Em 2011, Buenas deixou a Bahia para viver em São Paulo. Lá, ficou amigo do dramaturgo, diretor e ator Mario Bortolotto. Conversa vai, cerveja vem, Buenas abriu uma livraria no teatro de Bortolotto, o Cemitério de Automóveis, no centrão de São Paulo.

E é lá, no dia a dia da Buenas Bookstore (“a única livraria que funciona na madrugada paulistana”, garante o slogan da casa), que a maioria dos episódios – e elocubrações – de Buenas se dá.

Mas não só. Assim como seu livro anterior, 18 de Maio, Quanto Tens Por Dizer..., No Canto da Quadra reúne pequenas crônicas, reminiscências e observações rápidas do livreiro / escritor / flâneur.

Dormi na praça

Dono de texto sintético e objetivo, Buenas parece usar suas crônicas para pelo menos duas funções. A primeira é exteriorizar seus sentimentos, sujeito caladão que é. E a segunda é falar daquilo que gosta: música, mulheres, álcool, livros.

Não que exerça mal a segunda função – suas visões acerca de obras-primas de Leonard Cohen, João Gilberto, Jesus & Mary Chain, Belchior, The Cure e Chet Baker são muito pessoais e bem escritas.

Mas de fato, ele é melhor sucedido quando se debruça sobre o próprio dia a dia – ou mesmo sobre suas memórias de juventude.

Absolutamente compromissado apenas consigo mesmo, Buenas se dá ao luxo até de começar escrevendo sobre um assunto e enveredar por outro, ao sabor da memória associativa – e da cerveja na mão.

Mas é nas narrativas curtas de memória que Buenas brilha e toca o leitor. Em Ao Relento, por exemplo, ele conta da vez que, morando de favor na casa do irmão, chegou muito tarde e não conseguiu acordar ninguém para abrir a porta.

Teve de esperar amanhecer na rua, sentado em um banco de praça pequeno demais para deitar: ”Vi um catador de latas que tentou se aproximar me pedindo dinheiro. Eu disse que não tinha de um jeito que ele ficou assustado. Disse num misto de tristeza e fúria”.

Buenas, como muitos de sua geração, nunca quis ficar rico ou ostentar no “Insta”. Sua voz é também daqueles que apenas lutam para sobreviver de forma digna, sem  ter de vender a alma por isto.

Das viagens na adolescência à observação das pessoas que entram na sua loja, passando por conversas entreouvidas na rua, lições maternas (sua mãe, aliás, é um personagem e tanto) e as dores do crescimento, Buenas vaga sem sair do lugar: do seu cantinho atrás do caixa, sempre com um copo na mão e um disco na vitrola.

No canto da quadra / Tarcísio Buenas / Reformatório/ 137 p./ R$ 35/ www.facebook.com/editorareformatorio

terça-feira, fevereiro 05, 2019

ANTROPOFAGIZANDO O TRAP

Ex-Velotroz, Rei Lacoste funde trap e Tropicália e faz show sábado no Mercadão.CC

Caio Araújo / Rei Lacoste
Há dez anos atrás, Caio Araújo era baixista da banda Velotroz, junto com outros nomes que se  tornaram importantes na cena atual: Giovani Cidreira (hoje artista solo) e Silvio de Carvalho (Tabuleiro Musiquim).

Fã de hip hop e estudante de cinema, em 2018 Caio assumiu a identidade de Rei Lacoste, sob a qual lança seu primeiro trabalho: Trapcália.

Lançado pelo selo  Balostrada Records, o EP com seis faixas tem lançamento sábado, no Baile Antropofágico, que ainda terá shows do próprio Giovani, Davzeira e Pivoman.

Como o nome deixa notar, Trapcália é uma fusão de trap (o subgênero mais recente e descolado do hip hop) com Tropicália.

No caso aqui, com o próprio disco Tropicália ou Panis et Circensis (1968), a pedra fundamental do movimento sessentista: todos os samples de Trapcália são do Panis.

“50 anos depois do lançamentos do Tropicália ou Panis et Circencis, um dos movimentos artísticos mais antropofágicos do Brasil, para mim foi  entendido que o rock – matéria prima fundamental de processamento do tropicalismo – deu lugar ao protagonismo do hip hop,  tendo o rap e o trap como gêneros que mais influenciam a juventude ocidental neste momento. Em 2015, Jethro Mullen escreve no jornal CNN: 'esqueça os Beatles e os Rolling Stones, o desenvolvimento mais importante da música pop no último meio século é o hip-hop'. E no mesmo ano, a Rolling Stone Brasil publica: 'Estudo britânico diz que hip-hop teve mais influência do que Beatles e Stones nos EUA'. Parti deste ponto para criar o disco Trapcália e lançá-lo em 2018”, afirma Lacoste.

“Não é tão simples de entender os elementos tropicalistas que estão no disco, é preciso prestar atenção. A maioria dos samples foram retirados do Tropicália e a introdução, a música instrumental de encerramento ou mesmo BB - com participação de Giovani Cidreira e sample de Gal Costa (cantando Baby)  deixam isso muito claro. Mas há experimentos sofisticados como Pagotrap, que, como o nome diz, é uma mistura de pagode e trap, onde todas as frases da música são de compositores baianos  (ou que tiveram relação com a Bahia) como uma espécie de colagem como as citações de Caetano Veloso em Alegria alegria, Superbacana ou experimentos idênticos de Tom Zé. Acredito que o disco tem o espírito oswaldiano em que 'só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente', acrescenta.

Fã de hip hop antes mesmo de integrar a Velotroz, Lacoste conta como foi a transição de baixista da ex-banda para a rapper: "Antes da Velotroz o rap era um interesse central na minha vida. Apesar de muito novo, lembro em 2005 de grupos que acompanhava como: Rbf, Calazar, 171 Nervoso, Simples Rap'ortagem, dentre outros. A Velotroz me levou para outro caminho e minha relação com o rap ficou mais tímida. Uma das coisas mais importantes que aconteceram para mim em 2018 foi me aproximar do selo de trap Balostrada Records, principalmente do produtor Maurício Eduardo - só estou fazendo algo hoje por conta deles, que acreditaram no potencial do trabalho. Maurício é um jovem gênio da produção musical mais recente e sabe tudo sobre o universo do trap, os subgêneros, as histórias. Topou produzir o disco que foi masterizado pelo não menos incrível Luan Owè. Já estava compondo e percebi uma certa facilidade para metrificação, mas os meninos da Balostrada foram meus primeiros professores. Com o fim da Velotroz me dediquei mais ao cinema e às artes visuais mas não deixei de compor e experimentar com a palavra nas mais variadas formas. Encontrei no rap um terreno frutífero à experimentação e é o que sigo fazendo: experimentando", relata.



Subvertendo marcas

O homem do abrigo rosa e sua posse
Essencialmente um projeto de pop experimental, Lacoste seguiu à risca o modelo do estilo, inclusive se apropriando de uma grife famosa.

“Acredito que o projeto passa por questões trazidas pela arte contemporânea, como uma pesquisa em arte, estou experimentando,  testando e propondo coisas – principalmente no universo pop e de cultura de massa. Percebi que era uma forte tendência alguns artistas darem outro sentido a nomes de marcas como Gucci Mane, Kodak Black, Princess Nokia, Offset”, cita.

“O que havia mais próximo de uma Gucci Gang (do rapper Lil Pump) era Só Lacoste de Igor Kannário - que foi febre nas periferias, inclusive na Boca do Rio, onde moro. O jacaré da marca sempre me remeteu à Clara Crocodilo (1980) de Arrigo Barnabé. Ou seja: Rei Lacoste é sobretudo um projeto antropofágico e acredito que faz todo sentido ser feito nesse momento”, acredita.

Então sábado já sabe: a rapaziada invocada desse movimento de trap local comanda um baile no Mercadão.CC: "É um grande privilégio para mim poder trabalhar e estrear ao lado das pessoas que mais admiro neste momento em Salvador. Primeiro que quem pilota a festa, regendo e discotecando, é Pivoman (Italo Oliveira) grande pesquisador da música africana produzida hoje com beats - Italo ouve um som de lá e consegue identificar em que país foi produzido e em que época: é assustador. Giovani Cidreira é minha eterna paixão, meu bromance. Trabalhamos juntos desde 2006 - com a velotroz - e depois continuamos seguindo em parcerias em composições. Gio irá lançar uma mixtape (Lil Gio - 2018) também  muito influenciada pelo trap e música pop experimental como Frank Ocean e Blood Orange. Acho Giovani o artista mais talentoso da nova mpb e uma figura central de atualização da canção - se ele acha que a canção deve neste momento ir por este caminho eu acredito que ele está certo. O outro lançamento da noite é de Davzera (Beirando Teto). Ele lançará o ep Vale do Silício. Quando Aninha Franco conheceu a jovem intelectual Bruna Frascolla escreveu que Bruna seria uma "espécie de milagre". Assim que me senti quando conheci Davi. Acho Davi a maior coisa que o rap feito na Bahia já produziu - impressionante.  Davi foi a última grande coisa que me aconteceu e influenciou meu trabalho. Sou grato ao cosmo por estar próximo, conviver, cozinhar e trabalhar junto. No combo tem eu, que me considero mais dedicado que talentoso (risos), lançando Trapcália Volume 1. O show será esse encontro de cabeças caras, amigos celebrando a vida, a arte e apresentando ao público essas obras que comentam a vida desses últimos tempos", detalha Lacoste.

"O trabalho foi lançado em dezembro de 2018, corri para que desse tempo - pra mim só fazia sentido tê-lo lançado naquele ano. A estreia em palco é agora em fevereiro de 2019, ainda não sei como é, pode ser um grande desastre, traumatizante - mas estou me preparando de forma dedicada. Uma vez pixei em um muro imenso na Boca do Rio a frase de Vinícius de Moraes: "A arte não ama os covardes", e sempre penso nela quando estou em dúvida, mas acho que não tenho mais medo do ridículo. A última música que Davzera lançou diz: "eu faço meu corre sem pressa, ganhar já não me interessa, cada um faz sua preza e deixa q eu voou" - tenho aprendido muito com ele e acho que é por aí que eu vou, sem pressa e com verdade, mas "eu sempre quis muito mesmo parecendo ser modesto". Tem sido um verão meio amargo para mim mas quero ser contagiado pela alegria da Bahia, queria tocar no carnaval, essas coisas. Quero, depois de maduro, tocar em Recife, Aracaju e em São Paulo - algo intuitivamente me diz para fazer coisas nesses lugares e também em Atlanta nos EUA. O plano é ficar rico, luxar e dar contribuições à linguagem (risos). Mas meu grande projeto de vida é apenas ser feliz", conclui Lacoste.

Baile Antropofágico / Com Giovani Cidreira, Davzera, ReiLacoste e Pivoman /  Sábado, 21 horas / Mercadão.cc / R$ 10 e R$ 15 / www.facebook.com/reilacosteoficial



NUETAS

IFÁ com Anelis

A session Toca! bota IFÁ convida Anelis Assumpção no palquinho do  Pátio do Goethe-Institut (Vitória). Sexta, 20 horas, R$ 40 e R$ 20 (1º lote) ou R$ 50 e R$25 (2º).

Lo Han, Rivera, Malgrada

O evento Rock Tattoo celebra a milenar arte de desenhar na pele com as bandas  Malgrada, Lo Han e Madame Rivera. Sábado, 21 horas, no  Portela Café. Antecipado no Sympla: R$ 10. Na porta: R$ 20. A feira de tatuagem abre às 16 horas, com entrada gratuita.


Suinga, Carlinhos! E Rohmanelli!

Verão na city sem Domingo de Cabeça pra Baixo não dá, né. Então esse domingo tem Suinga,  Rohmanelli e o anfitrião Irmão Carlos. 16 horas, no mítico Espaço Cultural Dona Neuza (Marback) R$ 15 e R$ 10.

PASSAPORTE PARA A CIDADANIA

Programa NEOJIBA abre inscrições para ocupar 300 vagas. Com 12 anos, a iniciativa forma orquestras mas não só: cidadãos conscientes e transformadores

Orquestra Juvenil da Bahia no Phillarmonie de Paris. Fotos Lenon Reis
Perto de completar 12 anos (agora em 2019), o programa NEOJIBA (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) segue como um oásis de desenvolvimento social na Bahia.

Tanto segue que está abrindo hoje inscrições para crianças e jovens que queiram ingressar nas unidades de prática musical do programa.

São 300 vagas disponíveis, as inscrições são gratuitas e podem ser feitas diretamente nos núcleos sediados em Salvador e no interior: Pirajá, Bairro da Paz, Nordeste de Amaralina, Federação e Nazaré. No interior do estado, as vagas são para Vitória da Conquista, Jequié e Simões Filho.

Os responsáveis precisam levar os seguintes documentos no ato da inscrição: cópia da identidade e CPF do(a) ingressante; cópia da identidade e CPF do(a) responsável, comprovante de residência, comprovante de matrícula ou boletim escolar do ingressante, número do NIS/CadÚnico, cartão do SUS e duas fotos 3x4.

Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (71) 3117-4844, de segunda a sexta, no horário comercial.

Informação importante a quem pensa  se inscrever – seja a si mesmo ou o(a) filho(a), ou parente: não é necessário demonstrar aptidão musical.

“Toda criança a partir de seis anos pode participar do Programa NEOJIBA, desde que esteja matriculada na escola regular e que haja vaga disponível”, conta José Henrique de Campos, Gerente Pedagógico.

Aula de oboé com a professora Erica Smetak
“Todo ano os Núcleos de Prática Musical de Salvador e também do interior abrem vagas para novos integrantes, de acordo com a disponibilidade de vagas para os instrumentos musicais praticados nestes espaços. Não é necessário ter aptidão”, acrescenta.

Inscrita a criança (entre seis e oito anos), ela passa por um processo de iniciação musical: “Isto as ajuda a conhecer e escolher qual instrumento querem praticar. A maioria do Núcleos tem um recorte específico de atividades oferecidas, como por exemplo o Núcleo de Cordas Dedilhadas com grupos de violões, cavaquinhos, bandolins, etc. Ou o Núcleo do Bairro da Paz, com banda sinfônica e canto coral”, detalha José Henrique.

Já crianças em idade mais avançada ou adolescentes podem ingressar diretamente no instrumento de sua escolha.

“Mesmo assim, a equipe pedagógica direciona e orienta sobre novas possibilidades, dando ao integrante a oportunidade de experimentar outros instrumentos durante as semanas iniciais de prática”, conta José Henrique.

“Após a definição do instrumento, durante seu trajeto, o integrante pode mudar de instrumento 2 vezes, desde que haja vaga disponível”, diz.

Esforço e dedicação

Jovem musicista com o maestro fundador Ricardo Castro
Ao longo de pouco mais de uma década, o NEOJIBA já mudou a vida de mais de 10 mil crianças e jovens.

A “elite” dos jovens músicos formados pelo programa integra a Orquestra Juvenil da Bahia, que já realizou inúmeros concertos na Bahia, no Brasil e no mundo ao lado de solistas de renome.

Mas há outros grupos dentro do programa, como a  Orquestra Castro Alves (OCA), o Coro Juvenil do NEOJIBA, o Coro Sinfônico e grupos de câmara (formações menores).

“Ao longo destes 11 anos, o Programa NEOJIBA realizou mais de 1,3 mil apresentações públicas, para um público de mais de 700 mil espectadores. Mais de 10 mil crianças e jovens tiveram oportunidade de praticar um instrumento de forma regular”, conta.

Mas mesmo que nem todos os inscritos sigam carreira, foi no NEOJIBA que puderam transformar sua realidade, muitas  vezes  difícil, em algo positivo: “São jovens que hoje estudam, trabalham e praticam seus instrumentos musicais em diversos cenários da cidade, e que entenderam que o ‘sucesso’ e o ‘fracasso’ das suas vidas depende do seu esforço e dedicação em atingir seus objetivos”, conclui José.

Informações: www.neojiba.org

quinta-feira, janeiro 31, 2019

PELE DE CAMALEOA

Em constante reinvenção, Gal Costa traz o show do novo álbum A Pele do Futuro à Sala Principal do Teatro Castro Alves, com ingressos esgotados

Gal ao vivo, foto Teca Lambroglia
Quadragésimo álbum de Gal Costa, A Pele do Futuro (Biscoito Fino) tem seu show de lançamento amanhã, no Teatro Castro Alves – já com ingressos esgotados.

Em grande fase desde Recanto (2011), Gal optou em A Pele... por sonoridades de disco music, soul e samba, privilegiando compositores de várias gerações.

Aí ela vai desde a poesia erudita de Jorge Mautner (Minha Mãe) até a sofrência pop de Marília Mendonça (Cuidando de Longe), passando por Gilberto Gil (a inédita Viagem Passageira), Djavan (Dentro da Lei), Hyldon (Vida Que Segue), Erasmo Carlos e Emicida (Abre-Alas do Verão), Silva (Palavras no Corpo), Dani Black (Sublime) e outros.

No show, as canções novas ganham a companhia de clássicos da carreira que há muito ela não apresentava ao vivo: Sua Estupidez (Roberto e Erasmo Carlos), Oração de Mãe Menininha (Dorival Caymmi) e Festa do Interior (Moraes Moreira e Abel Silva).

“Além do repertório do disco, eu escolhi alguns sucessos da minha carreira e trazendo elas para a sonoridade do álbum, com novos arranjos para que houvesse uma unidade musical”, conta Gal, em entrevista por email.

A tarefa de dar essa unidade, diga-se, está nas mãos mais do que capazes de Pupillo, o baterista da Nação Zumbi que já há alguns anos é um dos mais requisitados diretores musicais do Brasil.

Com Gal à frente e Pupillo atrás da bateria, a banda desta turnê ainda conta com Pedro Sá (guitarra), Chicão (teclado), Lucas Martins (baixo) e Hugo Hori (sax e flauta).

Com dois singles já lançados em vídeo – Sublime e Palavras no Corpo – o que mais surpreendeu no novo trabalho de Gal foi a pegada disco music da primeira, com direito a vídeo do grupo FITDance ensinando a coreografia no You Tube.

“Eu sempre sonhei em gravar um disco com essa sonoridade, com essa pegada disco music, com uma estética anos 70. E o Marcus Preto, diretor artístico e produtor do álbum, foi montando pra mim o repertório do jeito que eu queria”, conta.

Surpreender, aliás, não poderia ser mais natural para Gal, uma cantora com um longo histórico de inquietude e reinvenção.

“Eu gosto de ousar, de mudar, criar novos caminhos e dar saltos dentro da minha carreira. Foi assim com Recanto, com Estratosférica (2015) e tinha que ser assim com esse novo álbum”, afirma.

“Sou uma artista que não tem medo de buscar uma linguagem nova, de me arriscar, me jogar em um trabalho que pode ou não dar certo. Sair da zona de conforto, pra mim, é algo normal”, acrescenta.

Em constante reinvenção desde Recanto (que não por acaso foi produzido por Caetano – e Moreno – Veloso), Gal sabe que, na verdade, essa inquietude não é bem uma fase: é coisa dela, mesmo.

“Concordo. Como eu disse, eu gosto de ousar, de criar coisas novas para a minha carreira. Não é um período (iniciado em Recanto), acho. É uma característica minha, que tenho tentado aplicar nos trabalhos que eu lanço”, diz.

Coração de Mãe Menininha

Gal no estúdio, foto Bob Wolfenson
Com DVD ao vivo já garantido para ser lançado ainda este ano (segundo o colunista do G1 Mauro Ferreira), o show A Pele do Futuro tem um de seus momentos mais emocionantes durante a icônica Oração de Mãe Menininha, apresentada em um fôlego só com a já citada Minha Mãe.

“Essa música uniu a minha voz e a de Maria Bethânia nos anos 70, cantando pra Mãe Menininha do Gantois. Nesse disco novo, cantamos juntas para nossas próprias mães (a minha e Dona Canô), uma música feita por Jorge Mautner e Cesar Lacerda”, conta Gal.

“A ideia de cantar as duas músicas juntas no show é fazer lembrar da beleza da voz de Bethânia, minha irmã da vida toda, além de homenagear nossas mães e Mãe Menininha, que nos guiou e nos inspirou enquanto esteve aqui e até hoje”, acrescenta.

A emoção, claro, tem sido a tônica na reação da galera da audiência. “Tem sido muito bonito ver a emoção da plateia. Estou muito feliz com a repercussão do disco”, diz.

Feliz por um lado, perplexa por outro: “A visão que eu tenho do país hoje, e do mundo também, é que parece que o apocalipse quer chegar. O mundo anda muito violento, tá esquisito”, percebe.

“No Brasil, com as eleições, houve uma radicalidade muito negativa, muito perigosa. E espero que as coisas caminhem para um entendimento melhor”, conclui.

Gal Costa: A Pele do Futuro / Amanhã, 21h / Sala Principal do Teatro Castro Alves (Praça Dois de Julho, s/n - Campo Grande) / Ingressos esgotados / Classificação indicativa: 16 anos

terça-feira, janeiro 29, 2019

CAIA NO DIGITÁLIA

Com shows no Pelô, Mercadão CC e Concha Acústica, Digitália é a pedida da semana

Com Ultrassom nas listas de melhores do ano, o rapper Edgar. Ft Pedro Ladeira
Tranquilamente um dos principais  eventos deste verão – quiçá deste ano – em Salvador, o Digitália só poderia mesmo ter saído da mente febril e repleta de ideias de Messias Guimarães Bandeira.

Diretor do IHAC (Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos) da Ufba, pioneiro do indie rock E da cultura digital, Messias une no Digitália seu interesse pelos ambientes virtuais com produção acadêmica com música.

Enfim: é um cruzamento de simpósio com festival de música. Ou uma conferência festiva. Talvez seja melhor deixar o próprio Messias explicar.

Fala, professor: “O Digitália é um ecossistema de circulação de ideias sobre cultura digital, assentada em três eixos: a) uma rede de estudos interdisciplinares da Internet e da Cultura Digital; b) um festival / congresso / observatório de música e cultura digital; c) um ambiente de articulação para pesquisadores, artistas e sociedade civil. Instalado no IHAC/UFBA, o grupo se espraia em diversas iniciativas, a exemplo do festival e debates ao longo do ano”, detalha.

"Creio que isto seja uma das principais virtudes do evento: um mix de festival e produção acadêmica, mas sempre com uma conexão plena com a sociedade, por entender que produzimos conhecimento de diversas formas, orientados pelas demandas culturais e políticas da sociedade. Neste sentido, é bem provável que você encontre, numa mesma sessão de apresentações, pesquisadores, artistas, estudantes e produtores, amparados por temas transversais que conformam interesses comuns, sem os muros entre academia e sociedade", acrescenta.

Como aqui na coluna o espaço é curto e o assunto é música, recomendamos atenção à programação de shows do Digitália, que está supimpa.

De quarta a domingo

A banda sensação Afrocidade, foto Rafael Kent
Abre amanhã, com Bayo (projeto novo do ex-Scambo Graco), no Pátio do Goethe Institut. Na quinta-feira todos os caminhos levam ao Largo Pedro Archanjo, com shows de Nancyta (oi, sumida!), Livia Nery, Radiomundi, Ronei Jorge e DJs.

Sexta, no mesmo bat-local, mais uma maratona de responsa com Versu2, Luê, Rebeca Matta, Giovani Cidreira, Duo B.A.V.I e DJ Riffs.

Sábado é Iemanjá no Mercadão CC (casa do próprio Messias), com Dj AnderBio & UBart Suadera, Grupo Underismo, Roça Sound, Visioonárias, Lurdez Da Luz, Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes, Tom Trujillo e Mendiguz Du Bruklin.

Domingão fecha com chave de ouro na Concha Acústica, com Sonora Amaralina, Afrocidade e o rapper Edgar.

Messias explica como as atrações são selecionadas: "Fazemos uma chamada pública para o envio de propostas, considerando a singularidade de cada artista, seu contexto de atuação e seu papel irradiador. Isto vale para artistas emergentes e aqueles já consagrados, independentemente de gênero musical ou estatura da carreira. Por isso há gente muito nova e uma turma cujo percurso se mostra consolidado. Uma curadoria faz a seleção das propostas, e também temos alguns artistas e conferencistas convidados. Neste sentido, somos muito gratos pela generosidade dos artistas e todos que participam do Digitalia, especialmente pela compreensão da lógica do festival e de suas condições de realização".

“O Digitalia se junta a outras importantes iniciativas na cidade que projetam a nova cena baiana, conjugada a um olhar mais prospectivo do papel da cultura, da música e da tecnologia como agentes transformadores”, afirma.

“Pode soar pretensioso, mas  ficaria feliz se alguma coisa mobilizasse as pessoas para acelerar nossa rota de colisão com este país em transe. Daí a capilaridade dos artistas e pesquisadores que participam do festival e a diversidade da programação”, acrescenta.

Dono de belo trabalho próprio (solo e na brincando de deus), o próprio Messias é a única falta na programação: “Não sou lá grande coisa. Nunca vão me chamar. A  curadoria do evento armou um complô contra mim. Não tenho chance de passar na seleção”, ri.

Programação: www.digitalia.com.br

NUETAS

2 de feverei-rock

Seu 2 de fevereiro é mais rocker na Lavagem da Casa da Trinca (Bardos Bardos). O negócio começa na sexta-feira, 18 horas, com Gigito, Jato Invisível e Stereopolitanos. E segue a partir das 14 horas de sábado com V-Road, Antiporcos, Pastel de Miolos, The Doc’s, Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes e Professor Doidão & Os Aloprados. Os shows são free. A feijoada doidona sai a R$ 18.

Toco Y Me Voy indo

Enquanto o bicho pega no Rio Vermelho, a banda local Toco Y Me Voy segue seu giro baiano, desta vez passando por Itacaré (sexta-feira, 20 horas, na Praça São Miguel), Serra Grande (sábado, 20 horas, na Praça de Serra Grande) e Ilhéus (domingo, 17 horas, na Sapetinga. O grupo completa 10 cidades percorridas de van, com apoio do Edital Setorial de Música da Funceb.

ATÉ A ÚLTIMA PÁGINA

Planet Hemp: Mantenha o Respeito detalha a trajetória e a época da icônica banda de Marcelo D2. Autor está na cidade e faz hoje e amanhã dois lançamentos 

Planet Hemp 1994, foto Daniela Dacorso
Há quem se chateie com a afirmação, mas é inevitável: os anos 1990 foram a última década de relevância do rock brasileiro. Agora, uma das principais bandas da época, o Planet Hemp, ganha alentada biografia, assinada pelo jornalista carioca Pedro de Luna.

Hoje e amanhã, Pedro está em Salvador para lançar seu livro Planet Hemp: Mantenha o Respeito.

Hoje é no Bardos Bardos.

Amanhã, ele faz a palestra Planet Hemp e a causa da liberdade de expressão dentro do festival Digitália, no Icba - Goethe Institut (Vitória).

"O Planet Hemp está presente desde o meu primeiro livro, Niterói Rock Underground (1990-2010), lançado em 2011, e apareceu novamente nos livros Brodagens (2016) e coLUNAs (2017). Até que, enfim, tomei coragem para encarar o desafio de escrever sobre uma banda tão polêmica, corajosa e contraditória", conta Pedro.

Além de ser – muito provavelmente – a primeira biografia de fôlego de uma das principais bandas da geração ‘90, há pelo menos duas outras razões para ler Mantenha o Respeito, fruto de dois  anos de trabalho do jornalista.

A primeira é que é uma leitura muito envolvente. Íntimo dos seus personagens, de suas obras e caminhos, Pedro pega o leitor pela mão e  o transporta direto para a década do grunge, hip hop pré-ostentação e surgimento do  mangue beat.

A outra é o detalhismo: com quase 500 páginas e mais de 60 fotos, além muito material gráfico da época, Mantenha o Respeito começa em meados dos anos 1980 e termina com o lançamento do filme Legalize Já: Amizade Nunca Morre (2018), sobre o relacionamento entre Marcelo D2 e Skunk (morto em 1994), os fundadores da banda (ao lado do guitarrista Rafael Crespo).

1997: rapeize do Planet no camarim em Fortaleza, foto acervo Apollo Nove
“Desde o início, meu interesse era contar a história completa, com o máximo de informações inéditas e nos mínimos detalhes, incluindo as revelações de bastidores, mas sempre mantendo a isenção e o respeito. Cada músico foi entrevistado individualmente, com a garantia de que o seu depoimento seria preservado na íntegra. O único que não consegui conciliar agenda foi o BNegão”, conta Pedro.

"Aliás, o primeiro a deixar o Planet Hemp foi o BNegão, em 1996. Desde então ele já entrou e saiu, passou anos brigado com o Marcelo D2, e olha aí, cantando novamente com eles. O guitarrista Rafael foi demitido em 1997, um pouco antes do grupo ser preso em Brasília, e convidado a retornar para o terceiro disco. Entre idas e vindas, chegou a processar a produtora que agencia a banda. O primeiro baterista, Bacalhau, foi demitido em 1998, e deu a volta por cima gravando discos e viajando pelo mundo tocando com a banda Autoramas. Em alguns casos, existia sim uma ponta de mágoa ou rancor, mas nada que o tempo não cure. Agradeço ao editor, Marcelo Viegas, que também foi muito cuidadoso na revisão, para evitarmos os famosos mimimis, que não agregaria em nada ao livro. O resultado está aí. Apesar de ter saído no finzinho de 2018, a biografia já aparece em listas de melhores livros do ano", comemora.

Talvez hoje o impacto do surgimento do Planet Hemp no cenário não seja devidamente dimensionado, mas em 1993, quando o grupo surgiu gritando a plenos pulmões “legalize já”, o escândalo foi inevitável.  E não fazia nem dez anos que a ditadura havia acabado.

O fanzine Undergraff (CE) quadrinizava letras do PH
Com o imenso sucesso do primeiro álbum, Usuário (1995) e depois do segundo (Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para, 1997), o inevitável aconteceu: a banda toda foi presa em Brasília, naquele mesmo ano de 97.

"Um dos grandes desafios do jornalista, e nesse caso do biógrafo, é manter o distanciamento crítico. Eu já havia biografado um quadrinista (Marcatti), um pintor (Filipe Salvador) e um professor e parlamentar (Chico Alencar). Principalmente neste último caso, é difícil não cair na tentação da admiração e evitar perguntas mais perniciosas ou fazer um livro chapa branca. No caso do livro sobre o Planet Hemp, tive a preocupação de escrever para todo o tipo de leitor, mesmo o que conhece pouco da banda", afirma.

“Eu queria, antes de tudo, contar uma boa história. A história de jovens artistas que foram perseguidos e presos por cantar a legalização da maconha e defender a liberdade de expressão. O Planet Hemp amargou cancelamentos de shows e pegou vários dias de prisão. Isso sem falar no público, que também apanhava, era extorquido e de vez em quando acabava no xadrez também”, lembra Pedro.

"Claro que o fato de eu ter acompanhado tudo de pertinho facilitou bastante, mas eu sempre lembrava que a pessoa poderia morar num rincão do Brasil e precisava ser didático, explicar em detalhes. Por isso decidi colocar um mapa do Rio, com os lugares mais frequentados pela banda nos anos 1990, para situar o leitor geograficamente, entender os seus deslocamentos pela cidade. Tenho essa preocupação de ser 'professoral', inclusive escrevendo muitas notas de rodapé e inserindo referências. Teve gente que me escreveu dizendo que conheceu vários artistas a partir disso. Por que a pessoa foi na internet e buscou o som do artista pra ouvir", conta.

Contexto é tudo

10 de janeiro de 1996: o PH estreia em Salvador, Foto Sora Maia
Completíssima, a biografia de Pedro para o Planet detalha não apenas a trajetória da banda – como toda biografia de respeito, ele contextualiza todo o ambiente em que a banda estava inserida, detalhando a intensa movimentação de bandas, festivais, produtores, fanzines, rádios, emissoras de TV e casas de show da época.

Dois exemplos são as trajetória do Garage Art Cult, histórico inferninho carioca, e da banda pernambucana Jorge Cabeleira & O Dia em Que Seremos Todos Inúteis, companheira de palco do Planet várias vezes, inclusive no primeiro show do PH em Salvador, em 10 de janeiro de 1996, com a local The Dead Billies.

“O maior desafio foi a pesquisa. Tive que partir quase do zero, apenas com meu acervo pessoal para reconstruir a cronologia da banda e situar os depoimentos no tempo. Foram dezenas de entrevistas com integrantes, ex-integrantes, produtores, jornalistas, músicos, fãs, parentes e amigos. Tudo devidamente registrado em texto, áudio e, em alguns casos, vídeo”, conta.

"Biografar uma banda do início dos anos 1990 é como garimpar uma pedrinha de ouro. Os poucos registros disponíveis estão em vídeos na internet e na imprensa da época, o que é fundamental para montar uma cronologia precisa. Nos panfletos de shows, por exemplo, raramente tem o ano do evento, apenas o dia e o mês. Eu tive que ir de casa em casa recolhendo fotos, flyers, cartazes e reportagens, além de contar com a ajuda de fãs e amigos, que colaboraram pela internet. No livro estão pouco mais de 60 imagens, mas eu tenho centenas delas. Esse material precioso compõe, provavelmente, o maior arquivo sobre o Planet Hemp no Brasil. Foi um trabalho duro e solitário, mas muito recompensador", acrescenta.

Uma coisa interessante é que o próprio Pedro ainda não havia se ocado que o livro dele é (como já disse acima) muito provavelmente a primeira biografia aprofundada de uma banda de rock da geração 90, que ainda está por ter seu valor e sua importância para a música brasileira (e mundial) devidamente avaliada.

Pedro de Luna, foto Elza Cohen
"Olhando a minha estante, achei dois (livros) sobre o manguebeat, mas não são exatamente uma biografia de artista. Também existe um livro sobre o show dos Raimundos em Santos (1997) quando oito jovens morreram na saída da apresentação. Há uma biografia do Marcelo D2 (lançada há mais de 10 anos e fora de catálogo) e uma sobre o Marcelo Yuka, mas nenhuma sobre O Rappa. Então acho que você está certo, pode ser mesmo a primeira de algum artista dos anos 1990, o que é uma grande honra. Obrigado pela observação! A geração do rock nacional dos anos 1990 foi muito importante por várias coisas, mas sobretudo pela fusão de ritmos. Os Raimundos misturavam forró com hardcore, o Planet Hemp mesclou o rap e o rock, Chico Science & Nação Zumbi incorporou a ciranda, o maracatu e outras manifestações regionais. Só para citar alguns casos. O Planet teve, ainda, o mérito de ser a primeira banda de rock (DE ROCK!!! Hip hop não vale) a ter o DJ como integrante oficial e a colocar dois vocalistas cantando sem tocar instrumentos. Em alguns casos, até três: D2, Black Alien e BNegão. Também é importante lembrar que essa geração 90 bradou a todos os pulmões contra o sistema que está aí até hoje: desigual, violento e corrupto. As bandas de rock e hardcore não poupavam os políticos, a mídia e nem a polícia. Na virada do século, com a onda emo, o discurso se amenizou e, ao invés de contestar, as bandas em ascensão falavam de temas leves como o amor e a amizade", observa.

O Planet foi provavelmente uma das bandas / artistas mais perseguidos pelas forças da lei na história da música brasileira. Isso, em plenos anos 90, pós-redemocratização. Mas, quem estava atento na  época deve lembrar que era uma questão que mobilizava mais as instâncias "oficiais": polícia, MP etc. Hoje a repressão parece vir da própria sociedade, um retrocesso (como tantos), que não passa despercebido nem pelo autor, nem pelos músicos.

Fanzine Undergraff, de Fortaleza
"O crescimento do conservadorismo é mundial, vide a ascensão da extrema direita e a xenofobia em vários países do mundo. Talvez, com as redes sociais, os reacionários apenas saíram do armário. É muito triste ver o discurso de ódio de parte da sociedade contra os negros, as mulheres, o público LGBTIQ, os pobres e os ditos maconheiros. Há dois mil anos Jesus já dizia para 'amar ao próximo como a si mesmo', independente das diferenças. Enquanto em países como EUA, Canadá e Portugal, bem como nossos vizinhos da América do Sul estão fortalecendo a economia regulamentando o uso medicinal e recreativo, o Brasil está prestes a sofrer um retrocesso. Acho que o livro vem em boa hora pois é importante respeitar as diferenças e o livre arbítrio de cada um. O Planet inspirou várias bandas canábicas pelo Brasil, como a carioca Korja, e continuará inspirando tantas outras que também acreditam que – como diz a letra da música Legalize Já - 'uma erva natural não pode te prejudicar'. Lançada em 1995 no disco Usuário, ela dizia que 'o álcool mata bancado pelo código penal, onde quem fuma maconha é que é o marginal'. Basta ver as estatísticas de trânsito. Muitos (mas não todos) dos que matam ao volante são os mesmos que frequentam templos religiosos, que batem na esposa e nos filhos, que vestem a camisa da seleção brasileira, que enchem a cara e depois saem de carro. Infelizmente a hipocrisia continua", afirma.

Infelizmente, nem sempre é possível agradar a todos. No finalzinho de 2018, logo depois de o livro ter saído, a Na Moral, produtora do Planet e de Marcelo D2, soltou uma nota desautorizando o livro. Pedro e a editora Belas Letras responderam com outra.

“A exposição pública e pessoal foi desnecessária. Tanto que emitimos uma nota oficial e todos os posts foram removidos das páginas da banda. O próprio Marcelo D2 me ligou no dia em que saiu uma matéria n´O Globo me dizendo que estava triste com aquela polêmica causada pelo empresário, e somente por ele, que ficou com o ego ferido. Claro que a produtora foi importante, mas o Planet Hemp é muito maior que ela. O Planet se tornou mais que uma banda, virou uma causa. Uma causa pela legalização da maconha e a liberdade de expressão. E, mais recentemente, Marcelo D2 virou um ícone de resistência contra o presidente eleito”, rebate Pedro.

Finda a maratona de lançamento de Mantenha o Respeito, o jornalista já pensa em seu próximo livro: "Quase junto ao livro do Planet Hemp lancei Histórias do Porão, sobre os 20 anos do festival Porão do Rock, de Brasília, então estou com dois lançamentos para trabalhar bastante este ano. Claro que não me falta vontade, mas preciso avaliar por que escrever um livro exige tempo, disciplina e sacrifica a vida familiar, sem necessariamente dar um bom retorno financeiro", afirma.

"O pessoal que já leu Planet Hemp: mantenha o respeito está pedindo para eu escrever outras biografias. Entre os mais votados estão Raimundos, Charlie Brown Jr e Chico Science & Nação Zumbi. São ótimos nomes, mas para encarar preciso de uma boa proposta e da anuência dos envolvidos. Mesmo sem a autorização formal, é mais bacana escrever quando o biografado está remando junto no mesmo barco, conclui o autor.

Lançamentos: Hoje, 19 horas, no Bardos Bardos (Rio Vermelho) / Amanhã, 17 horas, no Digitália (Instituto Goethe) / Entrada gratuita

Planet Hemp: Mantenha o Respeito / Pedro De Luna / Belas Letras/ 497 p./ R$ 69,90/ www.livrodoplanet.com.br

segunda-feira, janeiro 28, 2019

O ADVERSÁRIO INTERNO

Apesar de falho, Creed II mantém viva a chama da franquia Rocky no cinema, ao confrontar o dilema da vingança versus redenção em filme que fala alto aos fãs da mitologia da série

"Este seu olhar, quando encontra o meu, fala de coisas quem nem posso acreditar"
Tinha tudo para ser uma simples história de vingança.

Creed II, porém, acertou ao evitar o caminho mais fácil, optando por transformar o embate entre os filhos de Apollo Doutrinador Creed e Ivan Drago em uma jornada de autoconhecimento e superação do ódio.

Continuação de Creed (2015), que vem a ser uma continuação da franquia Rocky, de Sylvester Stallone, Creed II se conecta mais diretamente à Rocky IV (1985).

Neste filme, Apollo (Carl Weathers) é morto em pleno ringue por Ivan Drago (Dolph Lundgren), o super lutador soviético, então símbolo do regime “inimigo”, na época da Guerra Fria.

Stallone, com seu olhar de peixe morto e uma peruca invocada
Apollo é então vingado pelo seu melhor amigo: Rocky Balboa, que viaja a Moscou e, depois de muito apanhar, claro, derruba Drago.

30 e poucos anos depois, Ivan  Drago ressurge na Filadélfia (onde vive Rocky), acompanhado pelo filho, Viktor (o lutador romeno Florian Munteanu), para desafiar o herdeiro de Rocky e Apollo: Adonis Creed (a estrela em ascenção Michael B. Jordan).

O jovem lutador, claro, aceita o desafio. Como poderia recusar? É o filho do homem que matou seu pai ao vivo, diante das câmeras, dando a cara para bater (literalmente).

Conflito estabelecido, Creed busca Rocky, já aposentado, para treiná-lo. Rocky recusa e aconselha o jovem lutador a evitar a luta, já que há tanto sentimento envolvido.

Em meio a tudo isso, Bianca (Tessa Thompson), esposa de Adonis, aceita seu pedido de casamento e revela estar grávida. E quem quiser saber mais, que vá ao cinema.

Viktor e Ivan Drago: personagens de potencial, mas mal aproveitados 
Olhar de peixe morto

Dirigido por Steven Caple Jr., Creed II está longe de ser um filme perfeito.

Para começar, a história da ruína de Ivan Drago e filho após a derrota para Rocky poderia ser bem melhor detalhada – daria um outro filme, praticamente.

Ivan, aliás, é tranquilamente o personagem mais subestimado e mal aproveitado pelo filme.

Quando o filme começa, Ivan e Viktor estão na Ucrânia dos dias de hoje. À medida que Viktor vai ganhando lutas, a elite russa volta a cortejar o velho lutador e seu filho.

Este, porém, demonstra imensa mágoa pela forma como seu pai foi escorraçado por esta mesma elite  nos anos 1980.

Tessa Thompson, a Valquíria de Thor Ragnarok, é a esposa grávida e surda
Mas tudo fica por isso mesmo. O roteiro também não aprofunda o que aconteceu ou por que Ludmilla Drago (Brigitte Nielsen) abandonou pai e filho, entrando muda e saindo calada em duas cenas.

O drama da gravidez de Bianca, que é deficiente auditiva e teme que sua filha também seja, é apenas arranhado pela superfície.

A própria luta definitiva entre Adonis e Viktor, enfim, apesar de belamente filmada, é também resolvida de forma brusca e convencional.

Tudo isto leva a conclusão de que, na verdade, o maior adversário de Adonis em Creed II não é Viktor: é ele mesmo.

Ao encarar de frente o trauma da morte trágica do pai, Adonis  – beneficiado pela boa atuação de Jordan, que não tem aquele eterno olhar de peixe morto de Stallone – cresce na tela, tornando-se um personagem de grande empatia junto ao público.

Creed dando marretada no deserto durante a inevitável "training montage"
Como não poderia deixar de ser, a redenção de Adonis é precedida por uma fantástica sequência de treinamento sob trilha sonora tonitruante – filme da franquia Rocky sem a motivadora training montage não é filme de Rocky, certo?

De alguma forma, porém, mesmo com todos os defeitos, Creed II acaba conquistando os espectadores, especialmente os que já são fãs da franquia, dada sua profunda conexão com a mitologia original: Apollo Creed, Viktor Drago, Rocky (e seu olhar bovino).

Mais do que mais uma vitória (banal) no ringue, o que vale é a jornada até ela.

Creed II / (Idem, 2019) / Dir.: Steven Caple Jr. / Com Michael B. Jordan, Tessa Thompson, Sylvester Stallone,   , Dolph Lundgren,   Phylicia Rashad,   Florian Munteanu / Cinemark, Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, Mobi Cine Salvador, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela

quinta-feira, janeiro 24, 2019

DEIXA SANGRAR: O PODCAST ROCKS OFF ANALISA LET IT BLEED

Nei Bahia e Osvaldo Braminha Silveira Jr. destrincham Let It Bleed (1969), o imorredouro clássico dos Rolling Stones que trouxe arrasa-quarteirões como Gimme Shelter, Love in Vain (de Robert Johnson), You Can't Always Get What You Want, Midnight Rambler e a faixa-título.

Considerado o álbum que inaugura a fase criativa mais áurea da banda - afinal, foi sucedido pelas obras-primas Sticky Fingers e Exile on Main Street - Let It Bleed está no centro desta conversa entre os dois rock snobs mais queridos deste blog.

Ao lado, um raro poster que circulou com algumas edições americanas do álbum na época de seu lançamento.

Saiba mais aqui.