terça-feira, janeiro 17, 2017

BOA NOVIDADE DE 2016, A SOROCABANA PAULA CAVALCIUK FAZ SHOW SEXTA-FEIRA EM SALVADOR

Paula Cavalciuk, foto Camila Fontenelle
O Brasil tem tradição de grandes cantoras. E a cada ano, surgem tantas cantoras novas que é difícil se destacar em meio a concorrência.

Em 2016, uma das cantoras mais interessantes que ouvi foi a sorocabana Paula Cavalciuk.

E não foi só eu que achei, não. Seu primeiro álbum, Morte & Vida, rendeu à Paula, de cara, uma indicação de artista revelação da música brasileira pelo júri da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Enquanto escrevo isto, Paula e banda de três músicos se revezam na direção de um carro rumo ao Nordeste, onde farão turnê por oito estados.

Em Salvador, eles se apresentam sexta-feira, na Tropos. Eu sei que a cidade tá agitada, o verão tá bombando e tal. Mas se eu fosse você, reservava espaço na agenda para conferir Paula e sua banda.

“A gente acredita muito na estrada como ferramenta de transformação, de formação de público. E o Nordeste sempre foi um destino pretendido, pela cultura riquíssima que só chega a conta-gotas pra nós do Sudeste”, conta Paula.

“(A turnê é) Tudo feito na raça e na coragem. Todo o longo percurso de quase oito mil quilômetros será feito de carro, revezamento de direção e bora lá, porque esperar as oportunidades baterem à nossa porta tá difícil, ainda mais nesse período político doido, de desmonte da cultura, etc. Bora cair na estrada”, convida.

A faixa de abertura do seu álbum, Morte & Vida Uterina, versa na letra sobre questões de opressão contra as mulheres. Quando mais uma notícia de estupro coletivo - algo que parece ter se tornado rotineiro - foi explorada pela mídia, Paula convidou fãs, amigos e contatos de redes sociais para enviarem mensagens em vídeo.

O resultado é clipe aí embaixo.



Paula e banda, foto André Pinto
"O machismo é parte da estrutura da nossa sociedade colonizadora e seu combate só se dá com a prática de empatia, auto-análise e exercício diário de tudo isso. Quando os homens entenderem que também perdem muito com o represamento de seus reais sentimentos, com o cumprimento de expectativas de como ser um macho, talvez caminhemos lado a lado e fique mais fácil e fluído", afirma Paula.

"Com a ascensão dos meios de comunicação, tudo veio à tona, as opressões, mas também o inconformismo. A gente não fica mais calada diante da injustiça e esse barulho ameaça os privilégios dos grupos opressores, então isso incomoda pois ninguém quer abrir mão de privilégios, nem para equalizar melhor a sociedade. Mas eu sou otimista e prefiro seguir o caminho da compreensão nesta luta. Penso que não são os piores tempos para se viver, em termos de opressão, eles são só mais transparentes porque as máscaras caem e isso facilita saber quem está do seu lado e quem ainda poderá estar, se quiser compreender", reflete.

Sem auto-engano

Cheia de personalidade, Paula é dona de uma voz que é, digamos, só dela. E olha que ela até tentou não ser artista. Mas não teve jeito, a música falou mais alto. Até por que ela sempre fez parte de sua vida.

No You Tube, um vídeo de Paula cantando em dueto com sua irmã, Lucile, não deixa dúvidas de que o talento é coisa de família.

"Lucile é minha irmã, minha metade. A criança com quem desenvolvi a fala, o canto, o humor, os medos. Duas meninas que viveram boa parte da vida no meio do mato (interior do Vale do Ribeira) e criaram uma linguagem própria, um universo para fugir do tédio e do mundo dos adultos. Nós mapeávamos os tipos de dicções, sotaques, jeito de falar e cantar das pessoas. Tudo que era diferente de nós, era fascinante. A música sempre esteve presente em nossa formação, pois a TV pegava mal e o rádio não pegava de jeito nenhum, então o jeito era ouvir os discos do meu pai (de Beatles a Duduca e Dalvan). Minha mãe tinha música em suas veias, um cantar profundo, simples, sofrido e o palco que lhe coube foi o grupo de canto da capelinha que ela mesma construiu em nosso quintal. Eu e a Lucile acompanhávamos minha mãe e nossos timbres muito parecidos e afinados, junto com a facilidade em assimilar diferentes músicas, sempre facilitaram a tarefa de ensaiar um bom coral", conta.

Paula. Foto Camila Fontenelle
“Não consigo me lembrar da minha primeira cantarolada, mas eu ainda nem frequentava a escola, quando cantava na igreja, coisa de 4, 5 anos de idade. Na adolescência eu já morava em Tapiraí e o contato com a rádio, o empréstimo de CDs, as revistas de música me trouxeram outras opções e referências. Acho que a música sempre foi tão vital pra mim que talvez por isso eu só tenha encarado a opção de viver dela aos 25. Antes, eu estava presa às lendas de mercado competitivo, tutoriais de como se dar bem numa entrevista de emprego, etc. Mas bicho do mato preso em escritório não dá muito certo e depois de muito penar com as divisórias de eucatex e a pilha de papelada sempre atrasada em cima da minha mesa, fui cantar em barzinhos com meu amigo Vinicius Lima (hoje, guitarrista da minha banda) e estamos aí”, acrescenta.

O resultado está no álbum, disponível para download e já reconhecido pela crítica - algo que a surpreendeu.

“Eu fiquei muito feliz! A gente quando tá imersa dentro de um processo (composição, gravação, lançamento) perde um pouco a noção do todo, do seu próprio tamanho. Cantar minhas músicas para outras pessoas é uma conquista bem recente, começou, de fato, em 2014 e veio de um exercício de conquistar auto-confiança. Eu comecei a responder minhas dúvidas, minhas perguntas mentais, mostrava minhas músicas para pessoas próximas, depois para estranhos e fui perdendo a vergonha, gostando da sensação, e mais ainda, da sonoridade que eu fui alcançando. Depois que vi meu vizinho cantarolando uma música minha no estacionamento do prédio, eu pensei ‘acho que agora eu posso cantar pra qualquer pessoa’”, afirma.

Sexta-feira, Paula finalmente traz seu próprio show à cidade. Antes, ela veio à Salvador com o show
Dolores in Blues, com repertório da Dolores Duran.

"A primeira vez que estive em Salvador foi em 2014 apresentando o show "Dolores in Blues", com repertório da Dolores Duran, em arranjos de jazz e blues. Na ocasião, foi uma correria danada e só deu tempo de dar entrevistas e tocar. Eu voltei embora aos prantos, pois desde que botei os pés nessa cidade senti uma vontade de conhecer, zanzar por aí, pisar no chão, conhecer a história. Só deu tempo de tomar uma cachaça no Cravinho, mas desta vez, quero curtir a cidade um tantinho mais", lembra.

"A Bahia é maravilhosa! Tem uma coisa, uma arte pulsante, então a música é coisa de doido! Não tem como não falar de música brasileira sem citar a importância de Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa, Daniela Mercury, Novos Baianos, Raul Seixas, mas há de se admitir que produção musical baiana vem se reinventando dum jeito bem bonito, com BaianaSystem, Marcia Castro, Vivendo do Ócio, Maglore. E como não falar da minha querida amiga baiana Assucena Assucena, que ao lado de Raquel Virginia, toma a frente duma das mais importantes bandas da atualidade, As Bahias e a Cozinha Mineira. Bahia é muito amor mesmo", conclui Paula.

Paula Cavalciuk: Morte & Vida / Sexta- feira, 21 horas / Tropos (Rua Ilhéus, 214) /  Pague quanto puder

Ouça, baixe: www.paulacavalciuk.com.br



NUETAS

Sens, Hot Coffees

As bandas Sens e The Hot Coffees tocam no Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, colaborativo.

Dórea, Squeeze, Bia

O Hot Dougie’s Rendezvous (Porto da Barra) está com uma baita oferta de bons sons. A coluna indica Dórea (sábado, 16 horas), Squeezebox (sábado, 18 horas) e Bia Táui (domingo, 16 horas). O primeiro faz Neil Young e Bob Dylan, o segundo é uma superbanda de clássicos do rock e a terceira canta soul. Tudo free.


FUBA sábado no MAM

Astralplane, Kazenin Máfia, Nágila Maria, Daniele Moreira, WWL Rap, Afrochoque e Novas Escutas tocam no FUBA (Festival Universitário Baiano de Arte e Cultura). Sexta, 10 horas, no MAM.

sábado, janeiro 14, 2017

O BLOCO DAS MICRO-RESENHAS 2017 ABRE ALAS E PEDE PASSAGEM

Uma vida sem limites


Lançada pela Conrad em 2000 e esgotada há anos, esta biografia do cultuado escritor Charles Bukowski (1920-1994) volta às livrarias em nova edição pela Veneta. Sounes fez um bom trabalho de pesquisa, entrevistas e buscou ser imparcial, a fim de revelar as diferentes faces do Velho Safado: o menino aterrorizado pelo pai, o jovem sem rumo, o adulto alcóolatra, o poeta underground, o ídolo dos doidões. Livro essencial para os fãs. Bukowski: Vida e loucuras de um velho safado / Howard Sounes / Veneta / 384 p./ R$ 59,90




Périplo interestelar

Uma das melhores séries de HQ atuais, a ficção científica Saga mostra a fuga do casal Marko e Alana, soldados de duas raças em guerra, e seu bebê, Hazel, pela galáxia. No caminho, estranhos aliados e caçadores de recompensa mais estranhos ainda. Poderia ser banal, mas o escritor Brian K. Vaughan (Y: O Último Homem, Lost) tem ótimo ouvido para diálogos bem-humorados e viradas de trama inesperadas. Arte majestosa de Fiona Staples. Saga - Volume 3 / Brian K. Vaughan e Fiona Staples
/ Devir / 152 p. / R$ 65




Um escritor necessário

Um dos grandes gênios de nossa literatura, Lima Barreto (1881-1922), tem reunidos aqui dezenas de textos e crônicas para diversas publicações cariocas entre os séculos 19 e 20. A maioria jamais foi republicada, o que torna este volume uma verdadeira preciosidade já de antemão. O trabalho hercúleo da organização foi do pesquisador Felipe Botelho Corrêa. Atualíssimo, Lima deixou para a posteridade  lições como esta, sobre a troça: “Nada de violências, nem barbaridades. Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo. O ridículo mata e mata sem sangue”. Sátiras e Outras Subversões / Lima Barreto / Penguin Companhia/  552 p./ R$ 44.90 /  E-book: R$ 30.90


Resgate parisiense-recifense

Clássico da discografia de Alceu, Saudade foi gravado em Paris e lançado de forma independente, com poucas cópias. Agora volta via Deck. Essencialmente acústico (violas do mestre Paulo Rafael), é uma joia da música nordestina. Alceu Valença / Saudade de Pernambuco / Deck / R$ 29,90







O Natal já passou, mas a ideia fica

Bela coletânea de canções natalinas com renda revertida ao NASPEC (Núcleo Assistencial para Pessoas com Câncer). Tem Alavontê, Luiz Caldas, Eric Assmar Trio, Retrofoguetes,  Lazzo, Saulo, Durval, Eva etc. Belo disco, boa causa. Vários artistas / Natal Feliz pra Todos / Independente / R$ 25







Potencialmente promissora

Bem rodada nos palcos do Rio de Janeiro, a  banda Drenna, liderada pela cantora homônima, faz um álbum de rock competente, mas sem grandes novidades. Vale ouvir Ela Vai Chamar Sua Atenção e Anônimo. Drenna / Desconectar / Toca Discos / Preço não informado







Piano arrojado

Um dos maiores talentos do piano contemporâneo no Brasil, Leandro Cabral explora territórios  pouco usuais no jazz ortodoxo, como toques de ijexá (Alfa) e samba  reggae sutil (O Amor Que Se Deu). Não a toa, Letieres Leite é fã declarado. Leandro Cabral Trio / Alfa / Independente / R$ 25







Releituras contemporâneas

Virtuose do violão, Badi Assad investe em repertório de  pop alternativo contemporâneo, relendo hits de Lorde (Royals), Alt-J (Hunger of The Pine), Hozier (Sedated), Skrillex (Stranger) etc. Resultado interessante, oxalá a molecada ouça. Badi Assad / Singular / Eldorado / R$ 24,90







Fatto con amore

Descendente de italianos, o paulista Carlos Careqa foi em busca das raízes às margens do Rio Po e de lá voltou com esta leva de composições, gravadas ao vivo. Teatral, irônico e vigoroso, um manifesto digno de um Dario Fo. Bravo. Carlos Careqa / Facciamo L'amore / Independente / R$ 24,90







Conta aquela história da Princesa de novo

Nem o Lado Negro da Força é suficiente na hora de Darth Vader botar as crianças Luke e Leia para dormir. Nesta nova HQ indicada para crianças, o Lorde Sombrio dos Sith passa maus bocados nas mãos do quadrinista Jeffrey Brown (Academia Jedi). Fofura e bom humor para jovens padawans. Boa Noite, Darth Vader / Jeffrey Brown / Aleph / 64 p./ R$ 32,90






Cai o pano vermelho

Prêmio Nobel de Literatura de 2015, a jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch cria em seus livros grandes paineis nos quais dá voz a todos os envolvidos em suas monumentais reportagens. Aqui, ela investiga a dissolução da mentalidade soviética. O fim do homem soviético / Svetlana Aleksiévitch / Companhia das Letras / 600 p. / R$ 64,90 / E-book: R$ 39,90







Creindeuspai

Legítimo representante do novos autores do terror nacional, Bravo amplia neste livro a mitologia do anterior, Além da Carne. Pactos demoníacos (selados em latim, claro) e intrigas entre o céu e o inferno dão a tônica dos quatro contos aqui apresentados. Sangue, rituais, sexo e muito terror. Ultra Carnem / Cesar Bravo / Darkside/ 384 p./ R$ 49,90







Um pingo no oceano alucinógeno

Maestro da anarquia, gênio indomável, iconoclasta incansável. Zappa era (é) um oceano em forma de música e ideias mirabolantes. Conhece-lo por meio desta coletânea é como pingar uma gota deste oceano alucinógeno bem no olho. Frank Zappa / Zappatite / Universal / R$ 29,90







O samba baiano está vivo e chutando

Legítimo representante do samba de raiz baiano, o Grupo Botequim bota todos os seus bambas em campo e dá de goleada neste álbum. Tem samba de roda, de breque, samba canção, partido alto, choro. Bonitão. Grupo Botequim / Festa no Botequim / Independente / Preço não divulgado






Power trio avant garde

Após três anos de atividades, o trio avant-garde local Laia Gaiatta lança seu primeiro trabalho, o EP Vaia. São três faixas: Pátria Mingau, Circo Pobre e Peixebook. Letras irônicas, guitarras dissonantes e um oboé alucinando. Laia Gaiatta / Vaia / Sê-lo! / Ouça: www.laiagaiatta.bandcamp.com

quinta-feira, janeiro 12, 2017

ELE SOBREVIVEU

Autobiografia João Gordo: Viva La Vida Tosca é relato sincero de figura importante do rock e cultura pop brasileira


João Francisco Benedan. Foto Rui Mendes
A autobiografia João Gordo: Viva La Vida Tosca (DarkSide Books)  pode passar longe do gênero auto-ajuda, mas – surpresa – é uma edificante história de superação.

Ditado pelo  vocalista da clássica banda punk Ratos  de Porão ao jornalista André Barcinski, o livro é a cara do seu personagem: sem papas na língua, nem rodeios.

“Pô, tem história pra caramba pra contar, e depois que gente tá morto,  o povo escreve o que quer. Então, resolvi fazer logo, contar da minha vida até agora. Antes que alguém fizesse o errado, eu  fiz o certo”, afirma João, por telefone.

Amigo de André Barcinski, João não teve dúvidas ao convocar o autor da biografia de Zé do Caixão (Maldito, relançada em 2016 pela mesma DarkSide) para ajuda-lo a contar sua própria história.

“Sou amigo dele há muitos anos, desde um show do Ratos no Circo Voador. Depois ele me chamou para trabalhar freelance no (jornal) Notícias Populares. Teve também a entrevista para o livro Barulho (Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano, 1993)”, lembra.

“Desde essa época, conto minhas histórias pro André, e ele dava muita risada. Para o livro, ele foi me entrevistando por quase dois anos. Aí ele decupava, fazia um capitulo, me mandava, eu olhava. Ele ainda entrevistou minha mãe e alguns amigos“, conta.

Narrado em primeira pessoa, o livro aproxima o leitor da pessoa João Gordo / João Francisco Benedan de forma mais eficaz do que qualquer disco do Ratos ou programa de TV que ele tenha feito.

A impressão é de ouvi-lo falar diretamente para quem lê, como se estivesse em uma mesa de bar.

E o mais incrível, para quem só conhece o Gordo como um punk boca-suja, é que, ao final do livro, o que fica é um sentimento de ternura – sim, ternura. Por este sujeito aí ao lado de dedo médio estendido.

1982, chefe de bateria do Bloco Maracatu em Angatuba (acreditem!)
“As pessoas se comovem com o livro, cara! Teve gente que chorou no final! Porra, nem era minha intenção, mas é legal, isso. É que o livro é bem escrito, sabe”, afirma.

Amasso na coroa

Há pelo menos duas razões para tanta emoção despertada pela autobiografia de João Gordo.

A primeira é sua relação dificílima com o pai, que costumava surra-lo de tirar sangue, quando o menino João Francisco aprontava.

E João Francisco, um garoto de imaginação fértil e cheio de energia, aprontava muito. João chega a atribuir a uma dessas surras, especialmente brutal, sua gagueira.

"Foi natural (o processo de superar os traumas paternos). Tive uns problemas psicológicos por causa disso. Mas fico feliz de saber que não sou meu pai. Era outra época, outro jeito de falar e criar os filhos. Hoje é tudo muito diferente, a gente não tem que repetir os erros dos pais", observa.

A outra razão é o(s) drible(s) na morte que ele deu. Após décadas bebendo, se drogando, comendo e fumando como se não houvesse amanhã, o corpo começou a cobrar o preço.

O Ratos de Porão em Berlim, na época do muro
João encontrou na esposa, nos filhos e no veganismo o caminho para mudar.

“O (André) Forastieri (do portal R7) disse que o livro é uma história de amor. Amor do pai pelo filho, amor pelo rock, amor pela minha esposa e meus filhos. Tem contestação, mas não tem muita raiva. Não tem mágoa”, diz.

Uma coisa engraçada é que, quase ao mesmo tempo que saiu o livro do João Gordo com André Barcinski, outra figura fundamental do punk no Brasil, Clemente Nascimento (Inocentes) lançou um livro em parceria com Marcelo Rubens Paiva, Meninos em Fúria, pela Companhia das Letras.

João garante que teve a ideia primeiro.

"Quando o Clemente veio no Panelaço (programa on line do Gordo no YouTube) falei do meu livro pra ele. Aí ele falou que tava com inveja – e o dele acabou saindo primeiro, filho da puta! (risos) Mas são livros bem diferentes, o dele tem a visão do Marcelo também, tem um teor mais político", considera o Gordo.

Com o filho Pietro, de chapeuzinhos do Devo
Sobre o Ratos e as atividades como apresentador / entrevistador, o Gordo diz que "o Panelaço acabou segunda temporada agora. Em 2017 tem a terceira, mas é difícil. O pessoal cobra muita coisa técnica. Tem que ter equipe, não é fácil não. Ninguém quer bancar, até por que é uma coisa segmentada, não tem os milhões de visualização da Kéfera, mas até que conseguimos alguns números legais. E tem o programa com o Barcinski  no canal Brasil (Eletrogordo). A segunda temporada estreia em março, parece que o pessoal gostou. Quanto ao Ratos de Porão, estou tocando menos mesmo. Hoje em dia, não tem mais como eu sair do Brasil e passar dois meses na Europa em turnê. Gosto mais de ficar em casa. Tô com 52 anos, cara", afirma.

Sobre a situação atual do Brasil, o Gordo é pessimista. "2017 eu acho que vai ser pior do que 2016. Os políticos ficaram loucos de vez, ninguém entende ninguém, esse bando de ladrão tomou o país de assalto, tá liberada a putaria. A esquerda fez um monte de bosta e a direita, que só tem corrupto, botou um monte de fdp de asa de fora. Nego não tem mais vergonha de nada. Enquanto não houver uma represália mais foda vai continuar assim, os milionários rindo na nossa cara", afirma.

Mais história de vida do que radiografia do movimento de que fez parte (o punk no Brasil), Viva La Vida Tosca não é só a parte edificante, claro.

Há causos hilariantes e escandalosos envolvendo diversas figuras do rock e da TV.

Uma das revelações mais engraçadas é quando ele conta que numa bebedeira, beijou a mãe dos irmãos Max e Ígor Cavallera, do Sepultura – e que depois, passou a evita-la, por que começou a achar que ela era uma  espécie de bruxa.

“Não falo mal de ninguém. Só contei as histórias,  falar que fiquei com a mulher lá não tem nada demais. O que eu achei que podia ter problema, mudei os nomes. Antes de tudo, é um livro de superação, de como vim parar aqui”, conclui João Francisco.

João Gordo: Viva La Vida Tosca / João Gordo e André Barcinski / DarkSide Books/ 320 páginas/ R$ 59,90/ www.darksidebooks.com.br


terça-feira, janeiro 10, 2017

IMPERDÍVEL: MAURÍCIO BAIA FAZ SHOW COMEMORATIVO DE 25 ANOS DE CARREIRA NA VARANDA DO SESI

Maurício Baia, foto Georgiana Godinho
Verão escaldante na capital baiana, a cidade bomba no fim de semana (e durante também) com shows e festas para gostos variados. Ótimo, mas este velho colunista já planejou o que fará no domingo.

No dia que guardamos para louvar ao Senhor, reservarei o entardecer para alimentar a alma com as palavras de salvação e as melodias celestiais de Maurício Baia, este ungido pelo Deus da Música, que se apresenta na Varanda do Sesi.

Brincadeiras à parte, só mesmo um abençoado como Baia para compor joias da música popular brasileira roqueira como Na Fé (tô dizendo!), Habeas Corpus, Lembrei, Overdose de Lucidez e tantas outras ao longo dos últimos 25 anos.

“Verão e cidade agitada combinam com  Varanda do Sesi e com um pôr do sol musical. Acho que será uma delícia”, afirma o baiano de nascimento, carioca desde garoto.

Na ativa desde 1991, quando se lançou com a banda Baia & Os Rockboys, ele traz à cidade o show de retrospectiva da carreira, que começa pelos álbuns mais recentes, lançados pela Som Livre (A Fúria do Mar, 2016 e Com a certeza de quem não sabe nada, 2013), até a estreia independente lá em 1995, com o clássico Na Fé.

“Eu comecei em novembro do 1991, mês que comemoramos com o show completo no Circo Voador, no final do ano passado. Seguiremos com os shows de comemoração até junho deste ano. No formato acústico ou elétrico, o foco são as canções, que aparecem em ordem anti-cronológica, do mais recente ao primeiro álbum lançado, com bis em homenagem a Raul Seixas, já que tudo acaba onde começou. Penso em fazer um livro ou documentário nos 30 anos de palco, por enquanto estamos apenas começando”, avisa Baia.

Baia in English para 2017

Voz e violão, o show promete ser um encontro descontraído e divertido entre o músico e seus muitos fãs locais. Já está bom, mas claro que a gente senta falta daquele show elétrico, com banda no palco.

“Isso depende do local e do que se quer dele. Tenho tocado sempre acompanhado por outros músicos, provavelmente irei outras vezes com eles a Salvador ainda neste ano, mas para o fim de tarde, em clima intimista, a formação escolhida foi solo, deixando as letras e histórias conduzirem a apresentação”, afirma.

Para 2017, Baia planeja por em prática uma ideia antiga: “Tenho um projeto especial, em inglês, diferente de tudo que já fiz, mas ainda não posso falar muito a respeito. Pretendo finalizá-lo nos Estados Unidos e lançar lá antes de fazer o lançamento aqui. Uma aposta em uma vontade antiga que eu trazia no peito”, conta.

“(Também) Penso em um novo DVD e em um álbum de inéditas, ainda não sei o que virá primeiro”, conclui.

Baia: 25 anos de palco / Domingo, 17 horas /  Varanda do Sesi / R$ 30 (lista amiga),  R$ 40 (portaria) / Lista: baianavaranda@gmail.com



NUETAS

Soul e Rapadura


O Quanto Vale o Show? de hoje apresenta mais uma Noite Instinto Coletivo, com as bandas Mo Soul e Rapadura do Nordeste. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto quiser.

Som para despertar

Trio de músicos virtuose, o Serviço Despertador retorna no show Baixo, Café e Ciranda: Luciano Calazans convida Luizinho Assis e Marcelo Brasil. Amanhã, 20 horas, Teatro Vila Velha,  R$ 40 e R$ 20.

Tacun Lecy deságua

A banda de reggae Tacun Lecy & Os Soldados de Ògún animam a Desaguada do Bonfim 2017. Quinta-feira, 14 horas, no Boteco Janela Pub (Rua Rio Sergy Mirim, Boa Viagem). R$ 25 (camisa e feijoada) ou R$ 20 (caneca e feijoada). No som: Bob, Lazzo, Ben etc.

sexta-feira, janeiro 06, 2017

DOMINAÇÃO: APESAR DA BOA PREMISSA, É UM FILME RUIM DE DOER

Ah, esqueci de mencionar os assistentes clichês de hackers dos anos 90... 
Era para ser um bom filme de terror. Afinal, Dominação parte de uma premissa razoavelmente original. Pena que ficou só na intenção.

Estrelado por Aaron Eckhart (Invasão à Casa Branca), Dominação é uma mistura meio maluca do clássico O Exorcista (1973) com A Origem (Inception, 2010).

Ele vive um certo Doutor Seth Ember, cientista de qualificações duvidosas que desenvolveu um método inovador para resolver casos de possessão demoníaca, entrando direto na consciência da vítima por meio do sono (como em A Origem).

Uma vez lá dentro, ele “despeja” o coisa ruim aos tapas, razão pela qual ele diz que não é religioso, nem exorcista.

No filme, acompanhamos sua luta para expulsar o demônio do corpo de um menino, Cameron (David Mazouz, o jovem Bruce Wayne do seriado Gotham, mal aproveitado).

O problema é que o filme não materializa – nem no roteiro, nem na sua linguagem cinematográfica – um clima de terror minimamente convincente.

Não há sequer uma cena de susto que realmente te faça pular da cadeira, e olha que esse deve ser o recurso mais baixo que um filme denominado "de terror" pode lançar mão.

Aaron Eckhart, um ator decente quando bem dirigido e / ou com um bom papel em mãos, fica apenas canastrão como o cientista cadeirante durão, traumatizado por um passado violento.

Alfred? Senhor Gordon? Me tirem desse filme horrível, por favor?
Seu personagem é uma mistura tosca de Ironside com o Padre Karras (O Exorcista) com o personagem de Leonardo Di Caprio em A Origem. O resultado é risível.

Resumo da ópera: não perca seu tempo com essa bomba.

Para uma boa história atual desse subgênero de terror, o recente seriado O Exorcista, que retoma a narrativa do filme, é bem mais empolgante.

Dominação / Dir.: Brad Peyton / Com Aaron Eckhart, Carice van Houten, Catalina Sandino Moreno, David Mazouz / Cinemark, Cinépolis Bela Vista e Salvador Norte, UCI Orient BArra, Paralela, Shopping da Bahia / 14 anos

ORIGINAL DO SAMBA

Lazzo Matumbi leva ao Domingo no TCA, com entradas a R$ 1, show em que revista sambas baianos, de sua juventude no Garcia

Lazzão, foto Djalma Santos
Apesar de ser versátil, capaz de mandar (muito) bem em diversos gêneros, muita gente ainda acha que Lazzo Matumbi é um cantor de reggae, pelo fato de que suas músicas mais populares eram, de fato, chacunduns de primeira qualidade.

Mas há algum tempo ele vem desfazendo essa impressão. O show Voltando às Origens é parte deste esforço.

Cartaz do primeiro Domingo no TCA de 2017, com entradas quase de graça (R$ 1 a inteira), o espetáculo é basicamente o mesmo que Lazzo fez no Café Teatro Rubi em 2016, no qual ele revisitou a obra de  mestres do samba baiano, como Ederaldo Gentil (1947-2012), Edil Pacheco, Walmir Lima e Tote Gira.

Este último, autor do hino O Canto da Cidade, é seu parceiro mais frequente de composições e aparecerá ao seu lado no palco, em uma participação especial.

Além de Tote, participações de Roberto Mendes e Aiace Félix (Sertanília) também estão no roteiro.

“Na realidade, eu já tenho um projeto chamado Batuques do Coração, que é uma vertente do meu bloco, o Coração Rastafari”, conta Lazzo.

“Como no bloco a predominância é do reggae, eu ficava meio na vontade de cantar os sambas enredo das quadras de samba da época em que comecei a cantar”, diz.

Criado no bairro do Garcia, onde frequentava o clube Legião Hebert de Castro, Lazzo não perdia os ensaios da Escola de Samba Juventude do Garcia.

Foi lá que ele conheceu Ederaldo Gentil e os sambas enredo que ele compunha todo ano para a Escola.

“Foi daí que veio a ideia de um show mais bem elaborado, para ser feito em um teatro. Ele estreou no Rubi com esse título, Voltando às Origens, por que boa parte do repertório é dele, com os sambas enredo e seus maiores sucessos, como O Ouro e a Madeira, Rose e Canto Livre de um Povo”, conta.

“Aí quando veio essa possibilidade de levar esse show para o Teatro Castro Alves, eu achei bacana demais”, diz.

Com um repertório tão bonito e que faz parte de sua memória afetiva, Lazzo não nega a profunda ligação que ele tem com sua própria história de vida.

“Os sambas de Ederaldo são  imprescindíveis neste show. Especialmente Rose, que fiz questão de gravar quando Edil Pacheco me convidou para participar de um disco em tributo a ele (Pérolas Finas)”, conta.

“Por que tem a ver com o início da minha carreira, com minha história. Eu era garotão e  ele estava chegando do Rio de Janeiro,  ovacionado pelo sucesso de O ouro e a Madeira. Rose veio na sequência e eu tinha uma amiga muito próxima, chamada Rose. Por isso fiz questão de cantá-la quando Edil me chamou”, relata.

Griô urbano

Lazzo, foto Filipe Cartaxo
Além das canções de Ederaldo, Lazzo ainda convidará ao palco a cantora Aiace Félix para fazer uma inédita de Tote Gira.

“É uma música em homenagem a Oxóssi, que é o orixá regente de 2017. Além dessa, ele também canta uma música minha, que estará no disco solo dela, chamada Nega Margarida“, revela Lazzo.

“Já Roberto Mendes traz uma canção dele sobre a origem do samba  na Bahia, o que é oportuno até pelo centenário do samba (estabelecido em novembro de 2016, cem anos da gravação da música Pelo Telefone), que ele vai  homenagear com esse relato musical. Roberto é uma enciclopédia viva, um griô (detentor da memória, difusor de tradições) urbano. Por que  a gente sabe:  o primeiro samba foi o do Recôncavo”, afirma.

Bem acompanhado e ensaiado, Lazzo comemora a oportunidade de poder se apresentar para um grande público um show tão especial com ingressos a preços simbólicos.

“Ah, quando surgiu o convite e me perguntaram que espetáculo eu faria, pensei logo nesse, que tem tudo a ver. É um espetáculo bem popular, feito para o povo mesmo, então é  super gratificante”, afirma.

“E com esses convidados maravilhosos, Roberto, Aiace e Tote Gira, meu companheiro que fez grandes composições e poucas pessoas tem consciência desse compositor, que para mim está no mesmo nível de um Ederaldo, de um Edil,  Batatinha ou Walmir Lima”, diz.

Em 2017, Lazzo pretende lançar um novo álbum sucessor do ótimo porém pouco ouvido Lazzo Matumbi (2013).

“E soul com samba de roda, com reggae. Tá nessa mistura, com jeitinho baiano”, ri.

Projeto Domingo no TCA: Lazzo Matumbi: Voltando às Origens / Part. Especiais: Roberto Mendes, Tote Gira e Aiace Félix / domingo, 11 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / R$ 1 e R$ 0,50 / Vendas somente no dia, a partir de 9 horas, com acesso imediato do público

quarta-feira, janeiro 04, 2017

TECEDOR DE SONHOS PÓS-MODERNOS

Quatro livros mantém vivo o culto em torno do escritor inglês de fantasia Neil Gaiman, um raro caso de sucesso de público e crítica

Neil Gaiman e amigo em foto de Kyle Cassidy / Wikicommons
Fabulista convicto, o escritor inglês Neil Gaiman construiu uma carreira de sucesso de público e crítica revitalizando fórmulas narrativas ancestrais e trazendo para o agora mitologias igualmente antigas.

Nas livrarias, quatro livros seus, entre relançamentos e inéditos, reforçam essa impressão.

Os inéditos são as coletâneas de contos Alerta de Risco: Contos e Perturbações (Intrínseca, tradução Augusto Calil) e Criaturas Estranhas (Fantástica Rocco, tradução  Antônio Xerxenesky e Bruno Mattos).

Já os relançamentos são as edições “Preferidas do Autor” para os romances  Deuses Americanos (Intrínseca, tradução de Leonardo Alves) e Lugar Nenhum (Intrínseca, tradução  Fábio M. Barreto).

O destaque da leva é Deuses Americanos. Não apenas por ser sua obra mais premiada e bem elaborada desde que se tornou um ídolo com a cultuada HQ Sandman (1988-1995), mas por trazer em si, da forma mais bem acabada, as características acima citadas.

Assim como fez algumas vezes em Sandman, Deuses Americanos traz um enfoque intrigante para personagens (deuses) mitológicos, ao situa-los em um cenário atual, às voltas com os novos deuses gerados na contemporaneidade: os deuses da era da informação, do entretenimento, do motor à combustão, do consumismo, do mercado de ações.

Mas o que torna o livro uma leitura absolutamente encantadora nem passa tanto por isso, e sim, pela habilidade com que Gaiman conjuga essa premissa com sua escrita leve, gostosa de ler, a serviço da trama cheia de mistérios.

Nesta trama, acompanhamos Shadow, um homem que acaba de sair da cadeia e é abordado por outro homem, o misterioso Wednesday, que pretende emprega-lo como seu assistente pessoal.

O trabalho consiste em acompanhar Wednesday em uma jornada pelos Estados Unidos.

No caminho, descobrimos que deuses e outras entidades do Velho Mundo (Europa, África e Ásia) vagam a esmo pelas highways norte-americanas, trazidos pelas crenças dos colonos, imigrantes, escravos e viajantes.

Uma das graças do livro é tentar descobrir qual deus / entidade é aquela que Shadow e Wednesday estão às voltas naquele dado momento, já que nada é assim, tão óbvio.

Entre alguns capítulos, Gaiman ainda se dá ao luxo de narrar o exato momento em que as divindades chegaram à América – seja com os vikings há 10 mil anos, ou com os escravos, no seculo 18.

Elogiadíssimo pela crítica na época do lançamento, Deuses Americanos se tornou o livro mais aclamado de Gaiman, ganhando praticamente todos os prêmios importantes da literatura fantástica: Hugo, Nebula e Bram Stoker.

Em 2017, Deuses Americanos chega às telas como série de TV produzida para o canal Starz, com  Ricky Whittle (The 100) como Shadow e o fantástico Ian McShane (Deadwood) como Wednesday.



Excluídos invisíveis

O outro romance publicado nesta leva é Lugar Nenhum, de 1997, o primeiro de Gaiman.

Ele tem a curiosa trajetória de ter surgido primeiro como série de TV produzida para a BBC, na Inglaterra.

Insatisfeito com o tratamento de suas ideias na tela da TV, o autor adaptou e aprofundou o roteiro em forma de romance.

Em Lugar Nenhum, Gaiman usa seres fantasiosos como metáfora para os desvalidos, os miseráveis, os invisíveis, colocando-os para viver na Londres de Baixo, uma cidade subterrânea paralela à Londres.

Já os dois volumes de contos são bem diferentes.

Em Criaturas Estranhas, Gaiman e a escritora Maria Dahvana Headley selecionaram contos de diversos autores e épocas, sempre abordando criaturas imaginárias – sejam mitológicas ou criações originais.

O destaque é o conto O Lobisomem Cabal, de Anthony Boucher (1911 - 1968), considerado um clássico do gênero e inédito no Brasil.

Por fim, mas não menos importante, Alerta de Risco traz reunidos 24 “contos e perturbações” da lavra gaimaniana, entre produções para revistas, outras antologias e exclusivos para o volume.

Entre os muitos destaques, O Magro Duque Branco, uma terna homenagem a David Bowie (antes de sua morte), Hora Nenhuma (um conto do Dr. Who) e Cão Negro (estrelado por Shadow, de Deuses Americanos).

Bons sonhos.


Deuses americanos / Neil Gaiman / Intrínseca/ 576 páginas/ R$ 59,90 / E-book: R$ 39,90

Lugar Nenhum / Neil Gaiman / Intrínseca/ 336 páginas / R$ 39,90 /E-book: R$ 24,90

Criaturas Estranhas / Neil Gaiman e vários autores / Rocco / 400 p. / R$ 44,50 / E-book: R$ 29,00

Alerta de Risco: Contos e perturbações / Neil Gaiman / Intrínseca / 304 p. / R$ 44,90 / E-book: R$ 29,90

terça-feira, janeiro 03, 2017

O VISIONÁRIO AYAM UBRAIS LANÇA SEGUNDO ÁLBUM DE TRILOGIA QUE CONTA HISTÓRIA ÀS AVESSAS

Ayam Ubrais em foto de Lis dos Anjos
Artista plástico de técnica própria (filisminogravura), músico e poeta, Ayam Ubrais reafirma sua veia visionária em seu segundo álbum, Na Peleja da Navegança.

Sucessor do surpreendente ¡Partir O Mar Em Banda! (2013), Na Peleja é na verdade continuação deste primeiro álbum em uma trilogia planejada por Ayam. Como se pode notar, o artista parte do mar como metáfora para contar sua história.

“O mar é a metáfora que abarca tudo. É a vida em sua plenitude. É a morada das canções da trilogia prevista. Onde o ¡Partir O Mar Em Banda! termina é onde começa o Na Peleja da Navegança, que é o segundo disco dessa trilogia. Ela se alicerça em uma concepção da História às avessas. São 3 discos, três continentes: América, África e Europa, numa contranarrativa. Ao invés das caravelas chegarem aqui no Brasil com os europeus, acontece o inverso.

“Forma-se uma confederação de nações indígenas cujos pajés têm uma visão coletiva da invasão europeia e de todas as desgraças que isso traria (¡Partir O Mar Em Banda!) e lançam-se ao mar em direção ao continente africano, onde os orixás haviam também previsto a invasão, no intuito de forjarem uma confederação com as nações africanas (Na Peleja) e partirem pra Europa, a fim de evitarem que o seu modelo de sociedade se espalhasse mundo afora”, explica o músico.

O fim dessa história se dará no último álbum da trilogia, quando os ameríndios e os africanos se encontrarão com os europeus.

“O terceiro disco é a chegada dessa imensa confederação (Nhemongaba de Abaetetubas*) na Europa e o encontro com os chamados ‘rachadores de lenha e tiradores de águas’, ou seja, os marginalizados e despossuídos de lá, que de imediato se unem à confederação, no intento de cambiar as bases dessas sociedades fundadas na desigualdade e exploração”, adianta Ayam.

Ao mesmo tempo em que conta sua própria história, Na Peleja também fala muito do Brasil e do mundo agora, quando vemos uma onda de ignorância e ódio conservador se avolumando no horizonte.

"O Na Peleja da Navegança, assim como a trilogia, podem sim, ser entendidos como um manifesto estético, filosófico e político. E também existencial. Assim venho os concebendo. O amor e a luta são  os temas essenciais de todas as canções e que refletem os universos da classe trabalhadora, não apenas brasileira, mas mundial", afirma Ayam.

De mãos dadas, sempre

Ayam, foto Lis dos Anjos
Ode à classe trabalhadora, Na Peleja clama pela união dos desfavorecidos em tempos sombrios.

“O amor e a luta são inseparáveis nas canções porque se encaminham para a liberdade. E não se alcança liberdade alguma sem amor e luta. Essas são as armas  para as consciências dos que não acatam nem aceitam uma organização social que permite que a natureza e as pessoas tenham preço posto por imbecis que saboreiam a própria indigestão por almoçarem e jantarem dinheiro depois de matarem milhares numa operação financeira”, afirma.

“Não é a toa que o lema do Na Peleja da Navegança seja o refrão da canção A Topada & As Mãos: ‘Não esqueçam de dar as mãos’”, resume Ayam.

"Há pensadores que me influenciaram brabamente. Eram trabalhadores da terra, cantadores populares como Ojerferson, os pobres, marginalizados e mendigos de sempre, os doidos e as putas e suas histórias incríveis, operários em luta e militantes revolucionários, rezadeiras, lavadeiras e adoradores de Jesus, caroneiros que encontrei nas rodovias, as mulheres que amei, amigos de peleja e os filhos dos amigos de peleja. É o pensamento que abrange os pensamentos destes todos que me faz forjar canções e ter esperança no amor, na luta e na liberdade sempre de mãos dadas. Logo, os pensadores que escreveram teorias sobre essa gente e que eu li, me são referências também", conta.

Muito bem acompanhado, Ayam contou com grandes parceiros na criação e na gravação do álbum a começar pelo Bando do Mar e seu guitarrista / produtor do álbu, Ismera Rock, um verdadeiro guitar hero do Sul da Bahia.

"O Bando do Mar (Mateus Albuquerque, da Kerberus, Ismera Rock, do Calibre Dobrado e Edmilson Sussa, da Soda Pop) somos os que deram vida às canções do Na Peleja da Navegança. Decidimos juntos que, diferentemente do ¡Partir O Mar Em Banda!, que foi gravado com umas 20 pessoas, esse disco seria um reflexo do Bando, mais até que de mim mesmo. Daí, Mateus com o rock e sonoridades indígenas, Sussa com o soul e jazz, Ismera invocado com a guitarra de Heraldo do Monte e eu ouvindo muito IFÁ, demos a liga pro Na Peleja labutando com a antropofagia. Tivemos em seguida as participações de músicos incrivelmente gentis que captaram e exerceram a ideia fundamental que era ter no álbum a atmosfera das cantorias das manifestações populares, da musicalidade mundial do proletariado atlântico. Coro: Laísa Eça (Manzuá), Geisa Pena (Mulheres em Domínio Público), Solange Reis, Edson Bastos, Raoni Ribeiro, Ismera Rock e Fernando Guimarães. Percussão: Dieqs Meoberimbau (OQuadro), Teclas: Dérik Correia (Serviço Público) e Adilson Vieira, Sopro: Zezo Maltez, Betão Bone, Gabriel do Ouro. (A Trinca do Sopro das Terras do Sem Fim) e Triângulo: ZédiBeró", enumera Ayam.

Lançado o álbum (virtualmente), a questão agora é: como faze-lo circular? Ayam ainda busca soluções para isto.

"Essa é uma pergunta difícil de responder por aqui, devido a problemática que ela traz em si. Questões de logística, por exemplo. São muitas bandas pra poucos festivais. Há certa solidariedade entre bandas, mas não o suficiente pra que possibilite uma circulação mais abrangente de todas pelas cidades onde tem alguma cena. Há reconhecidamente a peleja de ativistas culturais pra estruturar profissionalmente a cena. Há burocratas culturais, vaidades, picuinhas e panelagens também. Há editais, mas que não dão conta dessa imensidão de bandas por que estão subordinados a uma desumana política de cortes de gastos sociais, nesse caso, da cultura, em detrimento do enriquecimento de crápulas do sistema financeiro através da dívida pública. Ou seja, é muita questão a ser pensada, debatida, decidida. Circular pela Bahia, Brasil, mundo? Queremos todos. Como faremos? Cada qual isoladamente? É uma alternativa. Agora, é uma alternativa também irmos além da estupidez de bairrismos bestas e lambeções de botas e nos darmos às mãos todos em solidariedade a uma causa que mais nos desafia a estarmos unificados que separados? O SEIVA, em Valença, é um exemplo impressionante. O Rockambo e o BigBands em SSA também. Pra citar os que conheço e que devido ao respeito e consideração envolvidos, fizeram com que os perrengues parecessem porra nenhuma. Um graveto é quebrado facilmente. Um feixe de gravetos, não. Disse Jesus. Deter uma rosa até podem. Deter a primavera, não. Disse Che. Escolhamos", reflete o artista.

Para 2017, além de divulgar o disco, Ayam tem alguns outros planos.

"Ao alcance: Seguir com os lançamentos do livro de poesia que escrevi, O Caos Agradecido (Ed. Mondrongo). Gravar um epê, intitulado Remaê e já em andamento, concebido por meu parceiro Ismera Rock e por mim. Continuar pintando as telas por que é através delas que financio as gravações do terceiro disco, finalizando a trilogia. E queremos muito fazer shows", lista.

"Esse (2016) foi um ano extremamente difícil, de muitas perdas importantes. Meu pai, por exemplo, partiu e queria que ele pudesse ter ouvido o disco por causa dos sopros. Ele amava saxofone. Mas não foi possível. Precisamos romper com o estúdio lá de Ipiaú por conta de canalhices com a gente. Aqui entra a gratidão. Eu estava já extenuado. Gostaria que, de algum modo, Ismera Rock fosse citado como produtor do disco porque sem ele, o Na Peleja não teria sido lançado esse ano. Foi o remo fundamental dessa navegança. Junto a ele, o Estúdio 878 (Fernando Guimarães e Adilson Vieira) que nos acolheu quando parecíamos estar à deriva. Ismera Rock e o 878. Ainda gravamos nos estúdios Canoa Sonora (Ilhéus), Prisco Sax (Ipiaú) e no Caverna do Som (Irmão Carlos - SSA)", conclui Ayam.

* Assembleia cheia de gente boa

www.facebook.com/ayamubrais



NUETAS

Duda e Rubatosis

Duda Spínola e Rubatosis são as atrações do primeiro  Quanto Vale o Show? de 2017. Hoje, 19 horas, Dubliner’s Irish Pub, pague quanto quiser.

Carlini & Água Suja

Pelo visto, a parceria entre a lenda da guitarra Luiz Carlini  e a banda local Água Suja foi boa. Depois de um show mês passado, o mestre paulista retorna à cidade para mais uma dose neste sábado, com os convidados Fábio Bandini & Mauro YBarros. 23 horas, Dubliner’s, R$ 20.


Verão NiHiLista já

Diablo Angel (PE), Casco (SE), Os Jonsóns, Cartel Strip Club e Macumba Love agitam o NHL de Verão 2017. Destaque para a Diablo, rock sujo com uma menina no vocal. Sábado, 20 horas, no Buk Porão , R$ 10.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

EXPRESSO PARA O INFERNO

Ambientado em um trem, o filme coreano Invasão Zumbi ensaia uma revitalização no subgênero dos mortos-vivos. O resultado é sucesso de público e crítica

A onda zumbi é como os próprios mortos-vivos: agoniza, mas não morre. Sucesso de público e crítica mundo afora, o filme coreano Invasão Zumbi (Busanhaeng ou Train to Busan), chegou nos estertores da mania walking dead para reanimar a moda, que andava meio... morta.

A surpresa é a procedência da produção. A Coreia do Sul  não tem tradição de filmes de zumbi – mas tem de terror (Medo, 2003, Eu Vi o Diabo, 2010)   e ação blockbuster (O Hospedeiro, 2006, Old Boy, 2003).

Invasão Zumbi combina essas duas tradições em uma produção caprichada e muito bem dirigida pelo animador Yeon Sang-ho, em sua estreia em filmes com atores.

Ênfase na ação

No filme, acompanhamos a viagem que Seok Woo (Gong Yoo) um jovem e ambicioso gestor de investimentos, é obrigado a fazer de última hora com sua filha, Soo Ahn (Kim Soo-Ahn), até a cidade de Busan, para deixa-la na casa da mãe, de quem é separado.

No caminho para a estação, os primeiros sinais de que alguma coisa estranha está acontecendo surgem, com um barulho de explosão e uma caravana de carros da polícia passando por eles.

Já no trem, outros personagens de destaque surgem, como o fortão Sang Hwa (Ma Dong-Seok) e sua esposa, Sung Gyeong (Jung Yoo-mi), que está grávida, além de uma equipe de beisebol, duas senhorinhas e um clássico recorrente em filmes de zumbi, que é o coroa covarde que põe tudo a perder.

O caos se instala rapidamente no trem e esses personagens logo se aliam na luta pela sobrevivência.

Claro, nem todos chegarão vivos ao fim do filme. Mas como se diz, aqui o que importa é o percurso, e não o destino.

Habilíssimo na coreografia da ação, Yeon Sang-ho quase não dá tempo para o espectador respirar – a todo momento, uma nova situação / ataque zumbi coloca os protagonistas para correr ou lutar.

Os zumbis são do tipo “modernos”, ou seja, velocistas, o que só torna tudo mais frenético.

Nem há aquela profusão de sangue e vísceras na tela, comum em filmes do gênero. A ênfase é na luta.

A boa notícia é que, além de ser um filme de ação de tirar o fôlego, Invasão ainda ensaia alguns comentários sobre a sociedade coreana e dá espaço para a concluir o arco dramático de alguns personagens em busca de redenção.

Invasão Zumbi  / De Yeon Sang-ho / Com  Gong Yoo, Ma Dong-seok, Jung Yu-mi / Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shoppping Salvador Norte, Orient Shopping Center Lapa, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela /  14 anos

terça-feira, dezembro 27, 2016

THE HONKERS COMEMORAM 18 ANOS COM SHOW SEXTA, NO NHL ESPECIAL

Rogério, Brust, T612, Tripa 77 e Sputter, em foto de Jane Figueiredo
The Honkers, a melhor banda de rock de garagem do Brasil, já pode ser considerada patrimônio cultural da Bahia.

Ícone da cena, a banda liderada pela figuraça / vocalista / poeta / filósofo de bike Rodrigo Sputter Chagas comemora 18 anos com um super show nesta sexta-feira, com Ivan Motosserra, Fracassados do Underground e DJ Ivan Motosserra.

O show marca o fim de um ano meio sabático para os Honkers, sendo apenas o segundo que eles fizeram em 2016 – o primeiro foi em junho.

Para 2017, Sputter, Felipe Brust (guitarra, voz), T612 (baixo), Rogério Gagliano (guitarra) e Tripa 77 (batera) vão tentar lançar um álbum novo, prometido há tempos.

Mas agora, a ideia é lavar a alma deste ano caótico.

“Vamos expurgar vibrações negativas e fazer com que não criemos musgo e vamos rolar por aí, ladeira acima. Tocar, tocar e tocar. Ver as pessoas dançar e tirar a caretice que está impregnada em alguns setores do rock”, promete Sputter.

Caos, destruição e diversão

Carecas barrigudos desdentados by Jane Figueiredo
Uma das últimas bandas da geração 1990 ainda em atividade, os Honkers chegam aos 18 com fôlego para mais 18, garante o vocalista.

“Fôlego tem, não sei saúde. Chegamos aos 18 barrigudos, sem grana, carecas, sem dente. Mas com um tesão da porra em cima do palco. Coloque-nos em cima do tablado e saberemos como destruí-lo”, diz.

Do alto de quase duas décadas de atividades, é hora de fazer um balanço da trajetória da banda.

“Difícil dizer quantos shows, cidades e estados nós tocamos, pois no Brasil só não tocamos na Região Norte, mas com certeza foram centenas, não duvido ter chegado aos quatro dígitos. Tocamos no Brasil e na Argentina, agora convites pra tocar por esse mundo não faltou, falta é $$ pra ir. O balanço é positivo, pelas amizades que fizemos com as pessoas e bandas, nos divertimos muito, tanto é que nunca enjoamos de subir no palco, toda vez que subimos parece que é a primeira vez e a última, pois tocamos numa intensidade como se não houvesse amanhã. Gostaríamos de ter ido mais longe do que fomos, mas as dificuldades são tamanhas, muitas vezes além do que sonhamos / desejaríamos. Mas posso dizer sem tiração de onda, que por onde passamos, deixamos nossa marca e as pessoas pensando 'que diabos foi isso que aconteceu no palco???'”, afirma.

Formada em 1998, os Honkers são hoje uma das últimas bandas formadas naquela década ainda em atividade.

"Creio que da metade dos anos 90 pro final, que ainda tá na ativa junto conosco, e nunca parou, é a Modus Operandi (se não me engano, os caras tem 20 anos). A Declinium creio que tem a nossa idade, mas nem mesmo os caras sabem dizer ao certo o tempo de banda deles, então fica difícil calcular. De 1998 pra cá, tanta coisa mudou, melhorou, piorou... O que me intriga tanto é como que a tecnologia ajudou tanto as bandas, as pessoas, a terem acesso, se conectarem, pesquisarem, sem precisar sair de casa, do celular, sem ter que escrever carta, pagar interurbano caro, juntar um trocado pra comprar um disco, gravar uma fitinha K7, imaginar como era tal banda e tal disco. Mas, ao mesmo tempo, não saem de casa para ir num show, não se encontram ao vivo pra ver as ruas, trocar uma ideia, enxergar o mundo lá fora. Antes, ir numa loja de discos era uma coisa inimaginável para as pessoas jovens de hoje, mas, toda vez que você ia, conhecia alguém, idéias novas, um universo se abria. Hoje, temos o universo em um clique, mas a mente fechada no mesmo instante. Alguns vão dizer que é perigoso sair na rua, mas antes era madrugar, dormir no ponto, pegar um milagroso pernoitão perdido na noite. Hoje em dia, com tantos carros engarrafando as ruas, aplicativos para chamar veículos para te levar em sua residência e as pessoas preferem ficar entulhadas, enclausuradas, fazendo sabe-se lá que diabos em casa. Enquanto o mundo gira ao seu redor. As pessoas antigamente, por mais difíceis que fossem as informações para se acessar, eram mais antenadas do que hoje em dia, se não eram, desculpe-me, prefiro um anos 90 'ilhado' do que um século 21 'enclausurado' no seu celular. Contato humano muitas vezes zero, creio que por isso o povo do rock atual tá nessa onda reacionária, não conhece as ruas sinuosas, o povo de sua cidade. Sem contato humano e vive arrotando pseudo-filosofia de facebook. Seja offline, seja herói", discursa Sputter.

"Em termos de importância histórica, a tour que fizemos de carro em 2005, saindo do bairro de Roma (Cidade Baixa) e indo parar em Pilar (na argentina), rodando o Brasil 'todo' (com exceção da região Norte) foi algo inédito até então. Cinco caras numa Santana Quantum, com cinco malas, três guitarras, dois baixos, ampli, ferragens de batera e outras bugingangas, creio que nenhuma banda nacional tinha feito, depois, um monte fez, mas nessa pegada de viajando 38 dias e tocando, nunca tinha ouvido falar antes. Só não fomos até Uruguai e Paraguai porque os shows terminaram sendo cancelados, mas de Roma até Pilar, o universo era pequeno e o infinito nos esperava. Sobre o (nosso momento) menos glorioso, penso em que ontem foi uma porcaria e amanhã vai ser excelente, o que foi ruim passou, tocar dia 30 (e tocar mais ainda em 2017) vai ser mágico. A formação atual tá com uma pegada monstra, mais punk impossível, nunca tocamos tão alto e rápido, nem parece que alguns membros da banda já passaram dos 40 e eu tou quase lá. PJ, o membro honorário da banda e nosso oráculo, já tá com 50, por isso pra ele sair da Cidade Baixa fica difícil, só aparece nos momentos especiais", conta.

O colunista é testemunha. Depois dos Dead Billies, os Honkers sempre fizeram os shows mais arrasadores e imprevisíveis. Não raro, Sputter termina o show pelado, entre escombros.

“'Sempre diferente, sempre o mesmo', é o lema da Fred Perry, conosco não é diferente. Nem mesmo O Sombra sabe o mal que habita na apresentação dos Honkers. Então é ver pra crer, caos e destruição, diversão garantida. Leve sua armadura e se jogue no meio da esbórnia. Mas ninguém vai se machucar. Não seriamente, pois há respeito e amizade em nossos shows. E vamos tocar uma baladinha, pra poder refrescar os corações”, conclui.

NHL ESPECIAL / The Honkers, Ivan Motosserra, Fracassados do underground e DJ Ivan Motosserra Pamponet / Sexta- feira (30), 22 horas / Dubliner’s Irish Pub / R$ 10 (poste seu nome na página do evento), R$ 15



NUETAS

Big Niver é hoje

O aniversário de Rogério Big Bross é só dia 30, mas o homem aproveita seu evento Quanto Vale o Show? e comemora hoje mesmo. No palco do Dubliner’s, Martin (guitarrista de Pitty) com Cadinho Almeida (baixo) e Leo Bittencourt (bateria), mais Du Txai & Os Indizíveis e DJ Bruno Aziz. 20 horas, no Dubliner’s, pague quanto quiser.

Minha 400ª coluna

Por coincidência, a última coluna Coletânea de 2016 é também a quadricentésima assinada por mim desde que assumi este espaço em 2008, ainda no saudoso Caderno Dez!. Sim, tenho as 400 registradas e arquivadas. Iniciada na década passada por Luciano el Cabong Matos, por aqui já passaram também Ricardo Cury, Mário Jorge Heine, Lucas Cunha e Gabriel Serravale. Da MPB ao death metal, a Coletânea é o lar da música independente. Espero poder continuar dizendo isso daqui a um ano. Feliz 2017!

quarta-feira, dezembro 21, 2016

SURGEM OS REIS DA RUA

Documento em quadrinhos do surgimento de uma cultura, o álbum  Hip Hop Genealogia traça as origens do movimento que mudou a cara da arte pop

Bronx, meados dos anos 1970. Kool DJ Herc usa duas pick-ups pela 1ª vez
O momento de nascimento de uma cultura é sempre controverso, cheio de versões conflitantes e contradições.

Em Hip Hop Genealogia 1970’s - 1981, o quadrinista norte-americano Ed Piskor oferece sua versão do estabelecimento dessa cultura nas ruas de Nova York.

Antes de tudo, vale ser didático. Hip hop é uma cultura urbana que engloba música e poesia (rap), artes visuais (grafite), dança (break), moda e ativismo político através da conscientização dos povos de origem africana quanto à sua condição de explorados.

Em Hip Hop Genealogia, Piskor parte de uma modesta, porém bem fundamentada bibliografia de seis livros sobre o tema, para montar um grande e detalhado painel, no qual segue as trajetórias paralelas (às vezes entrecruzada) dos principais personagens dos primórdios do hip hop.

O plus é a estética com que Piskor embala sua reportagem. Sua arte é um misto de influências dos quadrinhos dos anos 1960 e 70, tanto mainstream (Marvel, via Jack Kirby) quanto underground (o onipresente Robert Crumb).

Para aproximar ainda mais sua arte de suas influências, as páginas são artificialmente amareladas e a impressão, reticulada (pontilhada).

Tudo para dar a impressão de que se está folheando uma revista em quadrinhos dos anos 1970.

O resultado é uma HQ dinâmica e colorida, que enche os olhos ao tempo que ilustra o leitor quanto às figuraças que iniciaram o hip hop, suas andanças  e peripécias.

Não a toa, a série da Netflix The Get Down, sobre o mesmo assunto, tem a HQ de Ed Piskor como uma de suas fontes.

A edição da Veneta em parceria com o coletivo Sumário de Rua é de luxo, com capa dura, papel de alta gramatura, prefácio de Emicida, bibliografia, discografia básica, índice remissivo, pin-ups de astros do rap por artistas convidados  e outros extras.

Vale destacar também o trabalho de  tradução de Mateus Potumati, que adaptou o palavreado das ruas do Bronx dos anos 1970 para a gíria corrente do hip hop brasileiro, aproximando a obra do seu publico leitor contemporâneo.

No final do livro, o leitor ainda encontra os textos originais em inglês dos raps apresentados na HQ, possibilitando a comparação de um e outro.

Impacto social

Quem só curte o rap contemporâneo talvez se decepcione um pouco com  Hip Hop Genealogia. O que  é um alívio.

Kanye West e sua megalomania egocêntrica ainda eram um sonho muito distante quando Kool Kerc, DJ das festas mais loucas do Bronx em meados dos anos 1970, começou a chamar a atenção com sua técnica de loops infinitos, influenciando outros manos em sua quebrada, como Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa.

Ciente do poder incendiário das batidas na pista de dança, esses e outros DJs se aplicaram cada vez em técnicas de sampling, scratching e demais truques para levantar o povo.

Além disso, Bambaataa, especialmente, foi um dos primeiros a notar o impacto social afirmativo do nascente movimento em um ambiente dominado pelo gangsterismo.

O próprio Bambaataa, então líder de uma das gangues mais temidas do bairro, os Black Spades, se vale de sua liderança natural e de seus beats para dissolver a gangue, convertendo-a no primeiro coletivo do hip hop, Zulu Nation.


Outro ponto de interesse no livro é o aprofundamento que Piskor dá à questão do grafite e sua transmigração dos muros da cidade para as galerias de arte.

A figura central aí, desconhecida para os brasileiros que não militam nesta área, é  o grafiteiro Fred Fab Five Brathwaite – que assinava como Bull 99 nas paredes do bairro de Bedford-Stuyvesant.

Neto do pioneiro ativista  jamaicano Marcus Garvey (1887 - 1940), Fred matava aulas para frequentar galerias em Manhattan – e foi o primeiro a notar que a pop art de Roy Lichtenstein (1923 - 1997) não era muito diferente dos murais de grafites underground que pipocavam pela cidade.

Expressão legítima de um povo, o hip hop transcendeu suas origens, foi cooptado pelo sistema e se comercializou – assim como o samba, o rock, o punk e outras expressões revolucionárias.

Porém, assim como o samba, o rock e o punk, seus ideais intactos sobrevivem no underground – aquele mesmo de onde surgiu.

Hip Hop Genealogia / Ed Piskor / Veneta - Sumário de Rua / 128 páginas / R$ 99,90 / www.lojaveneta.com.br



terça-feira, dezembro 20, 2016

TRIO PSICODÉLICO BAGUM É BOA APOSTA PARA 2017

Rapaziada da Bagum, em foto de Liz Dórea
Apesar de ser uma banda novinha no cenário local, o trio instrumental Bagum já andou mostrando a que veio.

Formada em janeiro último e com apenas um EP de duas faixas lançado, Dá Um Tapa e Corre, os meninos estão prestes a lançar mais um, enquanto se preparam para se apresentar em seu primeiro grande festival, o No Ar Coquetel Molotov, dia 14 de janeiro,  ao lado de nomes como Ava Rocha, O Quadro e Boogarins, no Museu Du Ritmo.

“Aconteceu uma indicação baseada em opinião popular. A partir daí, a produção do festival nos ouviu na coletânea da NHL Music e nas nossas plataformas online e entraram em contato com a gente”, conta o baterista Gabriel Burgos.

“Estamos felizes com o convite e ansiosos pra ver a reação do público. Com certeza, será o maior show da banda e foi muito bom ter esse reconhecimento com tão pouco tempo de trabalho. Será uma honra tocar no mesmo palco que bandas e artistas de destaque nos cenários nacional e internacional”, acrescenta.

Sem limite

Afiliado ao grupo em torno da produtora independente NHL (leia-se Kairo Melo), o Bagum pratica um som psicodélico etéreo, com alguns toques sutis de jazz e música baiana.

É um som muito agradável aos ouvidos, sem deixar de buscar a  instigação, a criatividade.


O trio em ação no Dubliner's em julho passado. Foto Cairo Melo
"A pesquisa em relação aos timbres é recorrente de maneira mais natural, menos intensa, nossa dedicação maior dentro do estúdio acaba sendo em relação à busca pelas referências e pela maneira como podemos mistura-las. Não há um acordo de por onde vamos seguir, quais ritmos vamos estudar em conjunto, cada um de nós tem gostos diferentes e é justamente do bom diálogo entre eles que surgem nossas identidades. Até então todas as nossas composições surgiram dentro do estúdio, onde as primeiras frases, riffs, melodias e ritmos acabam saindo, a partir daí, levamos pra casa, por gravação de celular, o que saiu do ensaio e no seguinte continuamos até terminar a música", detalha.

“Quando começamos, nossa pequena pretensão era menos abrangente em relação às referências. A vontade era mesmo de tocar o hip hop instrumental”, conta Gabriel.

“Com o passar do tempo, foi aparecendo a vontade de tocar outras coisas, e acabou virando um divertimento, inclusive característica da banda, essa adaptação das referências pro suporte (baixo, guitarra, bateria) que a gente tem. Mas a gente não se limita a esses instrumentos e estamos sempre procurando somar outros elementos, com participações tanto vocal quanto instrumental”, afirma.

Além de Gabriel, a Bagum é Pedro Tourinho (ex-Une.Versos) no baixo e Pedro Leonelli (ex-HAO) na  guitarra.

A banda é novinha sim, em abril deste ano  lançamos nosso primeiro EP, Da Um Tapa e Corre e a partir de agosto fizemos 6 shows, contamos com a ajuda da NHL Produções para fazer nossos primeiros. Depois, outros amigos nos convidaram pra tocar em seus eventos abertos e independentes em diversos pontos da cidade. Em setembro produzimos nosso próprio evento na Casa Antuak, chamado Bagunça e tivemos uma resposta muito boa do publico, que lotou a casa. Por enquanto não fizemos shows fora de Salvador mas já esta em nossos planos”, conclui.



NUETAS

Cobra com Glauco

O Quanto Vale o Show? de hoje é uma galhofa só, com Cobra City e Glauco Neves & Sua Orquestra Elegante. Muito riso e muita alegria no Dubliner’s Irish Pub. 19 horas, pague quanto quiser.

Martin, Du Txai etc

A já tradicional festa de aniversário de Rogério Big Bross traz Martin (Pitty) com Cadinho Almeida e Leo Bittencourt, Du Txai & Os Indizíveis e DJ Bruno Aziz. Terça-feira (27), 20 horas, no Dubliner’s, pague quanto quiser. 

Honkers, Ivan & Cia

E  dia 30 tem The Honkers, Ivan Motosserra e Fracassados do Underground. Dia 30 (sexta-feira), 22 horas, R$ 10 (nome na lista) ou R$ 15 (na hora), Dubliner’s Irish Pub.