terça-feira, agosto 22, 2017

TARDIO, MAS NA HORA CERTA

Aos 61 anos, juazeirense Antonio Carlos Tatau surpreende ao estrear com A Lida dos Anos, elogiado disco via selo Joia Moderna. O show de lançamento é HOJE, com o pernambucano Zé Manoel

Antonio Carlos Tatau, foto Flávia Almeida
Se é verdade que nunca é tarde para começar, a estreia do cantor e compositor Antonio Carlos Tatau parece apenas confirmar o dito popular.

Baiano de Juazeiro, Tatau estreia aos 61 anos em grande estilo: seu álbum A Lida dos Anos foi lançado nacionalmente via Joia Moderna, selo do DJ e produtor gaúcho Zé Pedro.

O faro certeiro do homem  dos chapéus engraçados se confirma nas várias resenhas já publicadas em jornais e sites especializados de todo o Brasil, que  não tem economizado elogios à obra.

“Foi uma grata surpresa (a calorosa recepção da crítica). Sinceramente não esperava. Me sinto feliz com isso e motivado para ir em frente”, afirma Tatau.

E  como esta parece ser uma época de muitas primeiras vezes para Tatau, amanhã ele emplaca mais uma, estreando nos palcos de Salvador com o show de lançamento do CD.

No palco do Teatro do Sesi Rio Vermelho ele se apresenta acompanhado pelo irmão mais novo e produtor, o experiente Luisão Pereira (Dois Em Um) no baixo e teclado e Fábio Rocha (bateria).

O trio é completado por um convidado ilustre: o pernambucano (de Petrolina) Zé Manoel, que faz o show de abertura e segue no palco acompanhando Tatau ao longo de toda a sua apresentação.

Colega do selo Joia Moderna, Zé vem ainda quente da consagração no Prêmio da Música Brasileira 2017 (em julho), com seu terceiro álbum, Delírio de um Romance a Céu Aberto, premiado na categoria Álbum Projeto Especial.

Zé Manoel, parceiro no estúdio e no palco
O encontro de Zé e Tatau no palco não é por acaso. Foi Zé que mostrou o trabalho do baiano ao dono do Joia Moderna.

“Zé Manoel estava lançando o Delírio de um Romance a Céu Aberto pelo Joia Moderna e apresentou A Lida dos Anos ao Zé Pedro. Aí rolou o convite”, conta Tatau.

Melodias enluaradas

Cantor de voz suave, Tatau parece conseguir revirar o baú da bossa nova, gênero que se acreditava estagnado, e de lá voltar com pérolas autorais noturnas, encharcadas de luar.

Suas composições se beneficiam muito também  da produção personalista e econômica de Luisão, que emoldura suas melodias com mínimas intervenções eletrônicas, sopros, guitarras.

“Esse foi um dos motivos da escolha de Luisão para produzir. Acompanho de perto e gosto do trabalho dele, seja como produtor, arranjador ou músico. No fundo eu sabia que ele levaria minha música à sonoridade desejada, uma quase ousadia comedida”, afirma.

No álbum, dez canções de Tatau compostas em diferentes épocas e com diferentes parceiros. “Buscamos canções que representassem a minha obra. Uma panorâmica da minha vida”, conta o músico.

Antonio Carlos Tatau, foto Flávia Almeida
“Tem desde Nas Águas de Outro Amor, feita no comecinho da década de 1970 com Théa Lúcia, até a mais nova, Um Bolero a Mais, com letra de Ronaldo Bastos e composta quando eu já estava gravando o disco, passando por Canção pra João, feita em 1975/76 com Euvaldo Macedo Filho e Marcos Roriz, Um e Outro, de 2015, com Mateus Borba. E mais seis canções de diferentes épocas com meu parceiro mais constante, o grande poeta Expedito Almeida”, enumera.

Para dar um brilho a mais, Luisão ainda requisitou o auxílio de alguns amigos, músicos de primeira linha: Gustavo Ruiz (Tulipa, guitarra) Régis Damasceno (Cidadão Instigado, baixo), Mauro Tahin (bateria), Sebastian Notini (percussão), Morotó Slim (ex-Retrofoguetes, guitarra), Joatan Nascimento (trompete e flugel), Josely Saldanha (trompa), Lais Tavares, Fernanda Monteiro (cellos), Jhonantan (viola), Gilherme teixeira e Priscila Magalhães (violinos).

“Foi muito bom (ter esses músicos todos nas gravações), sobretudo pela forma carinhosa como me receberam. Me sinto privilegiado”, agradece.

Com formação em administração de empresas, Tatau teve uma atuação tímida na música antes dessa estreia, tendo ganhado o V Festival São-Franciscano da Canção nos anos 1970 e uma faixa gravada pelo sambista (e tio) Ederaldo Gentil: Peleja do Bem, no LP Pequenino (1976).

Feliz com os resultados do trabalho, Tatau parece ainda estar tomando pé da situação: “Tem aparecido muitos convites que tem me deixado surpreso”, confessa.

“Essa coisa de internet realmente nos leva a lugares que jamais imaginei. Que se concretizem e surjam outros. Há muito o que ser cantado. Só começamos”, promete.

Antonio Carlos Tatau / Show de lançamento do disco A lida dos Anos / Participação e abertura: Zé Manoel (PE) / HOJE, 20h30 / Teatro do SESI (Rio Vermelho) / R$ 40, R$ 20

A lida dos anos / Antonio Carlos Tatau / Produzido e arranjado por Luisão Pereira /  Joia Moderna / R$ 25


GAME OVER RIVERSIDE: "NÃO ACREDITAMOS QUE O ROCK ESTEJA ESGOTADO"

Paredes de guitarras, peso grunge: Game Over Riverside volta com novo EP matador

Game Over Riverside, foto Fernando Fernandes
De volta à atividade no cenário local desde 2015, a Game Over Riverside é uma banda a se acompanhar com interesse – caso o interesse seja rock sujo e sem frescura, mais para anos 1990 (na sonoridade e no espírito), do que 2010.

Depois de um bom EP de seis faixas autointitulado e  lançado há um ano, a GOR volta ao front com Empty, uma espécie de segunda parte daquele trabalho.

Por enquanto, só está liberado para audição o single Me and My Band (ouve aí embaixo!). O EP completo sai em setembro.

Mas o colunista já ouviu tudo e pode garantir: são seis faixas com paredes de guitarras, riffs crocantes, levadas grunge / pós-punk / rock alternativo de lavar a alma de todos que não aguentam mais  tropicalismo de boteco de universitário millenial.

“Quando fizemos o primeiro EP, tínhamos repertório para um disco cheio. Por uma questão de formato e, principalmente, de orçamento, decidimos gravar somente seis, rodar o quanto fosse possível com ele e voltar ao estúdio o quanto antes para gravarmos as demais. Sabíamos que era importante estar no feeling do nosso debut e dos nossos shows para entramos novamente no estúdio e registrarmos o segundo EP. O final de 2016 chegou, aproveitamos essa verve e demos início a construção de Empty”, conta o baterista Léo Cima.

"(Ter voltado com a banda) Foi muito bom, melhor até do que esperávamos. O nosso retorno em 2015 foi bastante tímido, estávamos em fase de readaptação da nossa formação após a saída do nosso antigo baixista, com André Gamalho mudando de instrumento, assumindo o baixo, e Sérgio Moraes ficando com a terceira guitarra. Na época preferimos manter a cautela sobre as atividades da banda por conta das nossas rotinas pessoais e por sabermos que o cenário roqueiro daqui não era mais o mesmo de dez anos atrás. Isso fez com que nos organizássemos melhor e aos poucos voltarmos a ganhar espaço no cenário local. 2016 foi um ano mais movimentado, com bastante apresentações e lançamento do EP de estreia, que consequentemente nos levou e novas amizades e a boa receptividade do público. 2017 chegou com a gente aparecendo de maneira mais pontual em shows, pois o disco novo se tornou prioridade", relata Léo.

Ouvindo ambos os EPs da GOR, é quase impossível não traçar um paralelo com o álbum de estreia (lançado há pouco), de outra banda local de veteranos da cena, Rosa Idiota. Ambos trazem um som de rock alternativo / HC bastante similar - e isto é um elogio.

"É uma boa coincidência! Não fazemos parte do mesmo ciclo social, mas tive a oportunidade de conhecer o Marcelo Adam (vocalista e guitarrista) e bater um papo com ele, o Rodrigo Gagliano (baterista) já conheço há um bom tempo e ambos tem trabalhos para além da Rosa Idiota. O Marcelo com a Aphorism e o Rodrigo com a Ivan Motosserra (e tantas outras bandas de sua carreira), todas com propostas diferentes e diversas entre si, o que abre um bom leque de possibilidades e conexões. Creio que a similaridade dos sons talvez venha daí, do fato de escutarmos bastantes grupos e artistas! O programa Lado B da MTV ajudou a formar o d.n.a musical da G.O.R. e nele tínhamos acesso a uma quantidade imensa de bandas como a Hüsker Dü, por exemplo, mesmo ela não sendo uma influência direta para a gente. Mas tudo chegava até nós, consumíamos aquelas músicas com uma atenção quase que religiosa, ficávamos instigados e tínhamos a curiosidade de fuçar tantos outros grupos na web (uma vez que a internet havia acabado de chegar às nossas vidas e se apresentado como uma fonte inesgotável para a pesquisa musical). Processávamos isso a nossa maneira, o que acabou nos guiando para o som que fazemos", observa Léo.

Demência via Chadler

GOR ao vivo, foto do Facebook da banda
“Dementes como toda criança da Cidade Baixa que cresceu respirando a fumaça suja da fábrica Chadler”, segundo Rodrigo Sputter Chagas (The Honkers), Leo, André Gamalho (baixo), Leko Miranda, John-John Oliveira (guitarras) e Sérgio Moraes (vocal e guitarra base), capricharam ao trabalhar no estúdio para deixar Empty ainda mais matador do que o EP de 2016.

“As composições ganharam mais unidade. Passamos mais tempo no estúdio e o período de shows que precedeu as gravações foi significativo para as músicas tomarem uma forma mais robusta”, afirma Leo.

“Eu diria que as composições ganharam mais unidade aqui nesse novo trabalho. Passamos mais tempo dentro do estúdio e o período de apresentações que precedeu as gravações foi significativo para as músicas tomarem uma forma mais robusta. Houve um acréscimo natural de novos arranjos nas canções, o que já é um reflexo da mistura desses shows com nossas novas influências. A sequência de faixas foi mais bem pensada, com isso, o EP ficou mais pesado, de certa maneira mais sombrio até, porém, sem que perdêssemos o bom humor. Trabalhamos melhor o uso das três guitarras e em algumas músicas utilizamos somente duas, incluímos backing vocals femininos em certos momentos (cortesia da cantora Suzi Almeida) e experimentamos recursos de estúdio para criar um discreto efeito de textura. Pudemos raciocinar melhor todas as composições ao lado do produtor André Araujo, que novamente as entendeu muito bem e fez um excelente trabalho, dando mais unidade ao trabalho”, conta.

Agora senta que lá vem história: como sabemos, o rock meio anda sem moral com a meninada. Culpa do rock mesmo, de roqueiros velhos reacionários como Lobão e Roger ou da meninada que tem uma visão superficial do próprio rock,comprando os estereótipos vendidos pela mídia?

"Creio que essa seja uma situação presente por toda a cena brasileira, é claro que uma ou outra se destaca de maneira positiva, mas não é algo exclusivo do cenário baiano. Essa é uma condição complicada e curiosa ao mesmo tempo. Porque mesmo havendo essa baixa de popularidade, em paralelo se tem produzido muito dentro do rock da Bahia, de maneira diversa e qualitativa. Estamos em um momento em que várias bandas / artistas têm lançado trabalhos interessantíssimos e proporcionado ótimas performances em seus shows. Há um esforço grande e louvável de produtores e coletivos em manter festivais e eventos frequentes só com grupos autorais, como os tradicionais Big Bands e o Quanto Vale o Show?, organizados pelo Rogério Bigbross, o Rockambo, que é tocado pelo Thiago Guimarães e que tem um forte perfil de intercâmbio cultural entre bandas da capital e do interior, o Incubadora Sonora, evento capitaneado pelo Irmão Carlos que visa dispor mais conhecimento para os conjuntos, o Festival Soterorock, meu, de Sérgio Moraes e de Kall Moraes, onde juntamos bandas novatas e veteranas em um mesmo som e o Feira Noise Festival, do Feira Coletivo Cultural, que possui a posição de ser um dos maiores festivais de rock do interior do estado, ao lado do Ruídos no Sertão, além do Sunday Rock, do Artur W, em Alagoinhas, e os eventos organizados pelo Coletivo Camaçari Rock, que fizeram suas primeiras investidas nesse ano. Isso para ficar só em alguns. Não há falta de divulgação do gênero por aqui, existem os canais no youtube do Sanção Maia, o Cafeína, no qual ele apresenta o Bahia do Rock, e o Vandex TV, do Evandro Botti, com apresentações ao vivo, tem os textos do Portal Soterorock, os podcasts Rota Alternativa, de Kall Moraes, Fora da Agulha, da Beatriz Cerqueira e o Alternativa Ativa do Magno Costa e da Leinne Portugal, ambos veiculados na programação da Mutante Radio, e tem também o seu espaço aqui na sua coluna Coletânea e no Rock Loko. É fato que há um empenho em prol do rock aqui na Bahia, mas quem comete o erro? É a banda que não busca propagar da melhor maneira a sua música, ou até mesmo se articular adequadamente, esperando ser descoberta ou que as coisas aconteçam do nada? É o comodismo de preferir formar uma banda de covers? É o encerramento das atividades de casas de shows voltadas para grupos de rock? É dificuldade em ter acesso às pautas desses lugares? É o público que não vai aos shows e que é pouco interessado em buscar novos sons, que espera tudo na mão e que se contenta somente com o que o seu serviço de streaming de música indica para ele ouvir só com quinze segundos do refrão? É porque não temos tido espaço na televisão e no radio? Na verdade é bem complicado apontar um erro central, diante de tantos fatores existentes. Aí ainda temos que lidar com declarações como a do Giovani Cidreira, que afirmou que o gênero se acabou (mais uma de que o rock morreu) e de que ele é conservador (essa aí foi nova), tudo isso dito com um argumento raso e com referências superficiais, típico de quem não presta atenção no que está acontecendo no cenário musical local como um todo. Mas o mais engraçado disso é que ele se cercou de bastante gente do rock para dar corpo ao seu novo trabalho, como o Paulo Diniz, que foi frontman da Weise e que gravou um dos melhores discos de rock da Bahia na última década (Aquele que superou o fim dos tempos), e com quem fez parceria em algumas de suas novas composições e com o Junix Costa, talentosíssimo e versátil músico, com passagens pela banda do Cirque du Soleil e a Subaquático, e que gravou os baixos do seu álbum. É incrível como o rock também pode ser a solução e a salvação para muita gente que não é roqueira, desde aquele novo cantor que se desgarrou da sua boyband e partiu para a carreira solo, até o novo hipster hypado do momento, não é? Definitivamente, nós da G.O.R. não acreditamos que o gênero esteja esgotado ou que seja irrelevante, muito pelo contrário, o rock ainda tem muito para oferecer!", discursa Léo.

Fundada em 2005, a GOR parou três anos depois e só retornou em 2015. Bem recepcionados pela cena roqueira local, os meninos andaram meio recolhidos nos últimos meses, para trabalhar no estúdio. Mas agora chegou a hora de meter o pé na porta das casas de show de novo.

“Pretendemos retomar uma rotina mais frequente de shows daqui para adiante. Valeu a pena ter voltado, para nós a música é diversão e gostamos de ter isso”, conclui Leo.



NUETAS

Circo e Hot Coffees

Circo Lltoral e The Hot Coffees Band fazem a Noite NHL neste mês de comemorações da session Quanto Vale o Show?.  Cole às 19 horas no  Dubliner’s e pague quanto quiser.

Antiporcos no Shopping

A banda Antiporcos faz show de lançamento do seu segundo EP, Seguimos no Front, com participações de  Gigito e DJ Avast. Amanhã, na Coreto Store (Shopping Bela Vista), 19 horas,  gratuito.

Sax suíço no ICBA

Essa é chique: o saxofonista suíço Hans Koch se apresenta no Teatro do ICBA  (Goethe Institut) com os músicos Thomas Rohrer (rabeca, sax soprano) e Antonio Panda Gianfratti (percussão). Cortesia Low Fi Processos Criativos. Sábado, 20 horas, R$ 30 e R$ 15.

terça-feira, agosto 15, 2017

NOSSO HOMEM EM BUENOS AIRES: VAN DER VOUS SE ESTABELECE NA ARGENTINA, ONDE LANÇOU SEU SEGUNDO ÁLBUM

Vitor Vous Matos, homem banda. Foto: Ieroque
Surgida em 2013 em Salvador, a Van der Vous foi pioneira na onda de bandas locais pós-piração los-hermânica, já namorando com  a psicodelia contemporânea de bandas como Tame Impala e Temples.

Após um elogiado primeiro álbum, La Fuga (2014), o band leader Vitor Vous Matos se mudou para Buenos Aires.

Na mala, levou o parcialmente gravado Espectro Solar. Lá, concluiu o trabalho e o lançou.

Com isso, a Van der Vous é agora, a exemplo do Tame Impala de Kevin Parker, um projeto solo.

“Estou de forma definitiva por aqui”, conta Vitor.

“Para produção de discos, por enquanto, sim,  não é algo definitivo (a permanência) dos integrantes da banda, (então) encaro a VdV mais como um projeto solo que conta com músicos (quando ao vivo) e participações em gravações”, acrescenta.

Na capital argentina, Vitor tem garantido sua sobrevivência como muitos outros músicos mundo afora: tocando nas ruas e estações de metrô – o famoso busking.

“Tive foco na construção e lançamento do novo disco e por agora trabalho como artista de rua no metrô de Buenos Aires, o que me permite viver de música e desenvolver improvisos e experiência para o próximo álbum”, conta.

“Sobre shows ainda não tive tempo para montar uma banda. Pretendo, antes disso, prensar o novo disco”, diz.

Psicodélico e objetivo

Ligeiro, Espectro Solar enfeixa dez faixas em menos de 24 minutos, o que facilita sua audição em tempos de pressa smartphônica – sem prejuízo para a estética psicodélica buscada pelo músico.

“O novo álbum é uma exteriorização pessoal de minha vida, colada nas canções. Não há foco estético, e sim, o desenvolvimento no atual momento”, despista Vitor.

A má notícia é que, tão cedo, não se verá shows da Van der Vous por aqui. “Por enquanto não há oportunidades (para a VdV) aí no Brasil. Por pouco iríamos tocar em São Paulo e realizar uma turnê sul-americana pela SecultBA, mas infelizmente o projeto não passou por falta de recursos”, diz.

“Aqui em Buenos Aires estou, aos poucos, conhecendo a cena e os festivais que ocorrem por aqui mas, por enquanto, meu foco principal está no desenvolvimento e trabalho como músico. Apesar disso, a resposta positiva com relação ao novo álbum me deixa tranquilo  – estou surpreso com as vendas no Bandcamp – e a divulgação diária no metrô está dando resultado. O disco completo está disponível no site oficial: www.vandervous.com. Para quem puder ajudar na prensagem do novo álbum, acesse: www.vandervous.bandcamp.com”, conclui.

www.vandervous.com



NUETAS

The Honkers show

Não vai sobrar um assento seco em todo o auditório: os fabulosos The Honkers recebem uma pá de convidados supimpas em  show comemorativo dos três anos da session Quanto Vale o Show?. Hoje, 19 horas,  Dubliner’s, pague quanto puder.

Laia e Levante!

As bandas Laia Gaiatta e Levante! se apresentam sexta-feira na Casa Preta (Rua Areal de Cima, 40, Dois de Julho). 19 horas,  R$ 15 (compartilhe post do evento e pague R$ 10 na lista amiga).

Bagunça no sábado

Flerte Flamingo, Bagum, Jadsa Castro e Djalma se apresentam na 3º edição do Bagunça. Sábado, 20 horas, no Clube Bahnhof (antigo Idearium). R$ 10 (lista), R$  20.

Neila, Irmão, Dyou

Integrante do coletivo Som das Binha, Neila Kadhí se apresenta com  MC Dyou e Irmão Carlos em nova edição da  Incubadora Sonora neste sábado, no  Portela Café. Às 22 horas, só R$ 5.

segunda-feira, agosto 14, 2017

LOKURA EM ALTA FIDELIDADE

Clássico do rock e da MPB, Loki?, de Arnaldo Baptista, volta em vinil 180 gramas via Polysom. Despercebida na época, obra ganhou status de cult graças à genialidade insana do ex-Mutantes

Arnaldo em 2017, divulgando nova mostra de quadros. Ft Henrique Queiroga
Ao contrario do que pensam muitos empresários e produtores, a música popular pode (e deve) tratar de outros temas além das dores da traição amorosa e demais banalidades correlatas.

Os males da alma, o isolamento e, digamos, os discos voadores já inspiraram grandes artistas e criarem obras referenciais, eternas.

No Brasil, um álbum movido a tristeza e loucura incipiente é há mais de 40 anos reverenciado como um dos melhores do rock nacional – e da MPB mesmo: Loki? (1974), do ex-Mutante Arnaldo Baptista, que agora volta às lojas no formato perfeito para ouvi-lo em toda a sua grandeza: em LP de vinil 180 gramas.

Gravado logo após sua saída dos Mutantes e do seu divórcio de Rita Lee, Loki? é o desabafo, o grito de dor de um homem extremamente talentoso e sensível em um momento especialmente frágil: isolado em um sítio na Serra da Cantareira (SP), entre o abuso do LSD e  a sanidade que começava a lhe abandonar, um processo de degradação que culminou em uma tentativa de suicídio em 31 de dezembro de 1981.

Felizmente, Arnaldo sobreviveu e – mesmo tendo de viver com as sequelas daquele período trágico – está hoje feliz, vendo sua obra (solo e com os Mutantes) ser cada vez mais aclamada como uma das mais fundamentais da psicodelia planetária.

Não a toa, nomes como Kurt Cobain, Sean Lennon, Devendra Banhart, Kevin Parker (Tame Impala)  e a revista inglesa Mojo, entre outros, já rasgaram declarações de amor ao eterno Mutante.

“(Estou) Adorando a vida, achando as coisas que acontecem de repente maravilhosas, que nem esse lançamento”, diz Arnaldo ao telefone.

Conhecido pelas obsessões audiófilas (guitarras, só marca Gibson e amplificadores, só valvulados), Arnaldo aprovou com louvor a qualidade sonora do vinilzão 180 gramas de Loki?: “Com a profundidade maior dos sulcos no vinil de 180 gramas, a agulha penetra mais, então dá um grave mais poderoso”, justifica.

“Tenho a impressão de que Loki? foi o (meu trabalho) mais marcante, foi feito numa época da minha vida que eu precisava mostrar isso. Estava sem gravadora, sem conjunto, sem nada, Então foi uma coisa importante na minha vida e na minha carreira”, afirma.

Power trio sem guitarra

Arnaldo no sítio da Cantareira, 197? Foto Grace Lagoa
Ainda que seja considerado “de rock”, Loki? é – como os melhores discos de rock, na verdade – uma obra que transcende os limites do gênero, tornando-o quase indefinível.

A começar pelo fato de ser um disco que, apesar de ser considerado de rock, prescinde do seu instrumento mais simbólico: a guitarra. Quase todas as músicas apresentam apenas piano, baixo e bateria.

“Eu meio que me desapercebi disso, por que o disco (na época do lançamento) foi muito mal divulgado. O André Midani (então diretor da gravadora Philips) não gostava de mim, eu acho, aí não divulgou o disco. Então o pessoal não ficou sabendo”, diz Arnaldo.

Se o próprio Arnaldo nem tchuns para esse “mero detalhe”, o mesmo não se pode dizer dos seus parceiros Dinho Leme (bateria) e Liminha (baixo), colegas Mutantes que gravaram Loki? com ele.

“Quando comecei a gravar com o Dinho e o Liminha  não precisou de muito ensaio. Foi tudo no improviso, e o Liminha não queria assim, queria que fosse igual ao Yes: ‘Ah, não quero nada disso, tá parecendo Sérgio Mendes’! Aí eu disse ‘vai ficar assim mesmo’, e foi assim a gravação”, resume.

"Uma coisa que é importante na minha carreira, no sentido de experimentar sem guitarra, com o piano fazendo que nem no Oscar Peterson (Trio), no Zimbo Trio, uma parte total sem guitarra e no fim uma música só de guitarra (É Fácil)", acrescenta.

O resultado é uma coleção de dez faixas em 34 minutos que valem por um mergulho no mar de angústia que afogava o músico na época.

O que separa gênios como Arnaldo dos meros mortais é que, mesmo agonizante, o mergulho é pleno de arte: pianos que vão do clássico ao honky-tonky à bossa nova na mesma faixa (Será Que Eu Vou Virar Bolor?), teclados Moog emoldurando a mais sublime das dores (Desculpe), samba psicodélico com arranjo de Rogério Duprat (Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?), delírios molhados adolescentes (Vou Me Afundar na Lingerie) e por aí vai. Um monumento.

Outro fator interessante do álbum é sua capa, onde o músico aparece apoiado pelos braços sobre um cenário espacial. "Eu tinha uma casa  na Cantareira e a gente queria fazer uma coisa quase como se fosse num templo, né? Na foto, eu tô de costas para o céu na sacada da casa. Na contracapa eu tô deitado no chão com um anjo atrás de mim, uma estátua. Então ficou bonito", diz o músico.

Em 2013, Arnaldo disse a este jornalista que estava gravando um novo álbum para o qual já tinha até título: Esphera. Infelizmente, este ainda não viu a luz do dia, quatro anos depois.

"Ainda não tenho (previsão de lançamento). Quando me perguntam isso, eu sempre falo: 'a Lucinha é que sabe'. E ela fala: 'Deus é que manda'. É que ainda não tem nada certo, mas vai ser importante para o que vem acontecendo na música em relação a ele", afirma.

E finalmente: Arnaldo continua não gostando do Alice Cooper (como ele canta em Será Que Vou Virar Bolor?)? "Eu não gostava era de um caso que a Rita (Lee) tinha, que era com um roadie do Alice Cooper (quando este se apresentou no Brasil em 1974). Então falei isso para ser contra ele, até por que não gostava dele mesmo, por que matava animais no palco", justifica.

(Segundo o próprio Alice Cooper em entrevistas, pessoas na plateia jogaram uma galinha no palco durante um show. Ele jogou a galinha de volta, que acabou prontamente destroçada pela turba ensandecida).

Com o relançamento, Arnaldo, que hoje mora em um sítio em Juiz de Fora (MG), tem corrido algumas capitais fazendo shows.

“Fiz  três datas agora em Brasília. Tá pintando uma leva de shows que vai satisfazer meu público. Aí em Salvador ainda não sei, mas se pintar alguém que queira comprar, eu vou e faço”, afirma. Em outubro, ele se apresenta em Recife – dica pros Loki locais.

Loki? / Arnaldo Baptista / Polysom - Universal Music / Preço sugerido: R$ 89,90

terça-feira, agosto 08, 2017

ABRIGADO NO SITE DE MÚSICA DA REVISTA VICE, WEB-SÉRIE CENA MORTA É RETRATO DO HC LOCAL AGORA

Rosa Idiota (foto: Fernando Gomes): episódio on line nesta quinta-feira
Editoria de música da conceituada revista gringa / site de notícias Vice, o Noisey, em sua edição brasileira, abriu as portas para as bandas do hardcore baiano ao abrigar a série documental Cena Morta.

Com onze episódios de dez minutos cada, o primeiro já foi ao ar, com a banda Aphorism.

Quinta-feira entra on line o segundo, com a Rosa Idiota (que lançou  um ótimo álbum de estreia, ouçam no BandCamp).

A iniciativa – 100 % do it yourself, sem grana de governo, sem patrocinador etc – é de alguns abnegados militantes do HC  local: Fabiano Passos, Rodrigo Gagliano (Ivan Motosserra), Mari Martins e Eduardo Dudu Lima (TomanacaraHC).

“A série, inicialmente, foi um projeto encabeçado por Fabiano Passos (Estopim Records) aliado com o pessoal do Tomanacara (Eu, Rodrigo e Mariana) para fazer um documentário sobre a cena local. Já assistimos diversos documentários como  Botinada (2006) e American Hardcore (2006), falando das cenas de determinados locais. Mas Salvador não tinha o seu, e já passava da hora de ter. Problema é que descobri que fazer um documentário não é tão simples, cortar falas é horrível e se fossemos lançar naipe documentário teríamos de fazer uma pesquisa histórica maior, assim como reduzir o tamanho das falas para não ficar maçante”, afirma Dudu.

“Com a websérie isso não rola, é uma parada mais tranquila de se ver. E pelo que temos visto da recepção, geral já está esperando o segundo episódio”, acrescenta.

No vídeo da Aphorism vemos a banda entrevistada por Fabiano e ao vivo no estúdio – duas pauladas que não é brincadeira, não.

“Desde a minha adolescência eu estou envolvido ativamente com o hardcore, sendo através da Estopim, bandas ou coletivos que já fiz parte. Nos últimos anos passei a me dedicar muito ao audiovisual, mas foram poucas as vezes que uni as duas coisas. Percebi que existia muito pouco material de vídeos das bandas da cena hardcore aqui da Bahia na internet e que podíamos mudar isso, já que no nosso meio havia outras pessoas que trabalhavam com audiovisual. Fiz a proposta pra galera do Tomanacara, que aceitaram prontamente. Sempre pensei no projeto como um scene report, apresentando o que estava sendo feito e, de certa forma, esquecendo o caminho que foi trilhado até aqui. Foi a forma que achei para não ficar nostálgico. A nostalgia algumas vezes congela as atitudes das pessoas, que passam só a reverenciar o passado ao invés de usa-lo como uma referência. A idéia era mostrar as bandas que estão ativas, tocando, produzindo, algumas delas possuem membros ativos na cena a muito tempo, mas outras apresentam uma nova galera que está ai, fazendo as coisas acontecerem. O projeto foi criado para ser um longa metragem, mas no processo de edição percebemos que teríamos que retirar muitas falas boas, por causa do limite de tempo do formato, por isso resolvemos lançar como web-série”, acredita Fabiano.

Sim, ainda estamos nessa

E esse é o ponto central de Cena Morta: partir de um título auto-irônico para mostrar uma cena vivíssima, ativa, diversa e que não pede nem espera nada de ninguém.

“Sempre se ouve que ‘a cena morreu’, bom era no início da década de 00, ou ainda a velha pergunta: ‘Você ainda está nessa?’. Na real, a cena não está morta, você que não faz mais parte dela”, afirma Dudu.

“Tranquilo, pra algumas pessoas é só uma fase, para se recordar futuramente. Pra outros ela continua aí, criando laços, lançando bandas fodas, materiais fodas e ensinando pra muita gente que o ‘Faça Você Mesmo’ funciona. E uma prova disso é esta websérie. Então, nada mais justo que homenagear essas pessoas, que dizem que a cena está morta, com uma série muito bem produzida, com recursos próprios, coletividade e disposição”, acrescenta.

"(O título Cena Morta) É uma ironia sim, e essa ironia é reforçada pelo fato da série retratar tudo o que está sendo feito agora, sem nostalgia. Se a cena tá morta, então somos zumbis e eu não acredito em zumbis", arremata Fabiano.

O critério de seleção das bandas foi muito simples: estarem ativas. "Basicamente bandas que estavam bastante ativas no momento das gravações. Daí, tentamos pegar representantes de vários lados da cidade, região metropolitana e interior. Na real, bandas que acabam transitando nessa região Capital-Região Metropolitana-Interior", conta Dudu.

"Tivemos trabalho para escolher as 11 bandas que fazem parte do projeto, porque existiam várias outras que mereciam estar ali, mas tínhamos que fazer um recorte dessa cena, e talvez futuramente abranger outras bandas, de outras cidades do estado, um pouco mais distantes de Salvador. O critério foram bandas que estavam tocando, pegamos cartazes de eventos produzidos nos últimos meses e fomos pegando as bandas que estavam na correria", afirma Fabiano.

Mas porque, já que que estavam com a mão na massa, não documentar a cena rock local como um todo? "Dá trabalho... Mas na boa, o rock como um todo tem muito espaço. Existem casas de shows rockers, as coisas são mais 'acessíveis'. Provavelmente alguém vai fazer algum material sobre a cena rocker local, em algum dia vai. Sobre o hardcore, se não fossemos nós, ninguém faria", afirma Dudu.

"A cena rocker é recheada de pessoas talentosas nas artes em geral e no audiovisual também, outra pessoa pode produzir isso. Existem outros programas de música alternativa na Bahia que já fazem essa documentação, a exemplo do Lá Em Casa Sessions de Glauco Neves. O hardcore é um estilo bem específico, que não possui muita inserção nesse tipo de programa, por isso resolvemos que a gente mesmo tinha que criar algo nosso, com nossa cara e influências. Lembrando também que Joaquim Fauro está fazendo um ótimo trabalho filmando shows de música mais extrema que acontecem na cidade e está realizando um documentário sobre a cena punk local. Esperamos que o Cena Morta seja um motivador para outros projetos do tipo surjam", pontua Fabiano.

E o lance com o Noisey, como rolou?

"O jornalista que publicou a matéria é soteropolitano, Fernando Gomes, e sempre esteve envolvido no hardcore, já teve uma banda bem legal, a Veredicto, já registrou muito show através de suas lentes. Rolou e porra, foi uma divulgação ótima! Foi um excelente ponta pé inicial, nem imaginava que teríamos uma estreia boa assim", comemora Dudu.

“Fernando Gomes, um velho amigo e parceiro da cena, escreve para o site do Noisey/Vice e se ofereceu para conseguir o lançamento por lá, aceitamos logo de cara por nos identificarmos com o material produzido pelo portal. Além disso Fernando, que é um fotografo com bastante experiência em fotos de música e skate, fez o Still da web-série”, conclui Fabiano.

www.facebook.com/cenamorta



NUETAS

Cadinho de Novelta

Cadinho Almeida e a banda feirense Novelta estão no Quanto vale o show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto puder.

Jubileus, Barulho...

Jubileus, Barulho S/A e Basa tocam na Quarta do Pop Rock a partir das 21 horas. Dubliner's, R$ 10 e R$ 5.

Lourimbau quinta

Mestre Lourimbau, bluesman de berimbau em punho, faz o show Um Banquinho, Um Berimbau quinta-feira. Varanda SESI. 21 horas, R$ 20.

Júlio Caldas blues

Falando em blues, Julio Caldas convida Breno Pádua, Celso Dutra & Banda Malzer Blues. Sexta-feira, 22 horas, Casarão de Itapuã, R$ 10.

quinta-feira, agosto 03, 2017

UM FILME DE CINEMA

Bruna Linzmeyer é Luna Madeira, interesse romântico do protagonista
Baseado no livro Um Pai de Cinema (Ed. Record), do chileno Antonio Skármeta, O Filme da Minha Vida, que estreia hoje em todo o Brasil, é o terceiro e melhor filme dirigido por Selton Mello.

Não que seja uma obra-prima da sétima arte ou que traga grandes inovações. Nada disso.

Assim como outra película baseado em obra skarmetiana, O Carteiro e o Poeta (1994), O Filme da Minha Vida seduz pela via do coração, ao combinar um texto lírico com uma fotografia deslumbrante e atuações sensíveis – e felizmente, sem exageros.

A trama, de simplicidade espartana, combina dois temas clássicos: o rito de passagem para a vida adulta e a busca do filho pelo pai.

Ambientada em uma cidade não definida na serra gaúcha no início dos anos 1960, tudo começa com o retorno do jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) ao lar, após concluir os estudos na cidade grande.

Ao saltar do trem, descobre que seu pai (o ator francês Vincent Cassel) vai embora naquele mesmo instante, de volta para seu país, a França.

Daí em diante, acompanhamos Tony restabelecendo seus contatos com a mãe (Ondina Clais), Paco (Selton Mello), o melhor amigo do seu pai e com as beldades locais, as irmãs Madeira: Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Beatriz Arantes), entre outras figuras.

Singeleza e metalinguagem

A medida que Tony vai se desenvolvendo na tela, vamos descobrindo mais sobre sua vida, seus relacionamentos e, claro, seu pai. Contar mais estragaria o espetáculo de quem vai assistir.

O que é importante dizer é que, de forma muito singela, sem apelar para qualquer tipo de cinismo, vulgaridade, violência ou efeito especial ostensivo, Selton Mello consegue plasmar na tela (recebam, rebanho de sacanas, um 'plasmar na tela' direto na caixa dos catarros!) um senso de maravilhamento pouco visto no cinema hoje em dia.

De quebra, ainda faz um belo exercício de metalinguagem ao levar o protagonista ao cinema – literalmente, na pele do seu próprio personagem – para assistir um filme clássico e utiliza-lo para espelhar seu próprio filme.

O Filme da Minha Vida / Dir.: Selton Mello / Com Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Beatriz Arantes, Ondina Clais, Rolando Boldrim / 14 anos

ENTREVISTA: SELTON MELLO

Entrevista feita em dupla com o jornalista e crítico de cinema João Paulo Barreto, que aliás, teve a paciência de transcrever tudo e a gentileza de me enviar o texto todo. Agradecido.

Selton e e o escritor Antonio Skármeta, que faz uma ponta no filme
Apesar de ser um filme de rito de passagem, ele também aborda muito a relação pai e filho. O tema lhe é caro?

Selton Mello: Eu tenho uma relação com meus pais muito boa. Eu e meu irmão. Eu cresci em um núcleo afetivo bem fechado e muito carinhoso. Então, esse é um assunto que eu gosto. E se você quer saber, é claro que é uma história de pai e filho, mas é também um filme muito sobre a mãe. E essa mãe... Eu gosto dessa coisa, já misturando os assuntos de elenco, pô, eu tinha o Johnny Massaro que é um expoente, um talento absurdo da geração dele, um menino realmente diferenciado, eu tinha o Vincent Cassel, um astro internacional, por que diabos eu ia botar uma atriz conhecida fazendo a mãe, entendeu? Aí eu puxei a Ondina Clais, que é uma atriz desconhecida do grande público, mas ela tem uma formação muito sólida no teatro. Ela trabalhou anos com o Antunes Filho, e também com o Bob Wilson, depois. Teatro, assim, na veia! E ela fez uma participaçãozinha no Sessão de Terapia. E eu gostei demais dela. E é uma idade que não tem muito assim, digamos... (pausa). É difícil você lançar alguém com quarenta e poucos anos. Aí eu pensei: ‘Poxa, eu quero botar a Ondina nessa. Fechar minha família com um rosto desconhecido’. Então, acho que é sobre esse trio

Já que você falou nela, sendo atriz de teatro, você teve que fazer algum ajuste de registro na voz? Porque no teatro, você emposta a voz. O cinema é algo mais intimo. Você teve que fazer esses  ajustes?

Ondina Clais, uma mãe de cinema maturada no teatro
SM: Meu trabalho é muito meticuloso como diretor. E, então esse trabalho não foi só com ela. Foi com o (Rolando) Boldrin, com o próprio Johnny. Eu trabalho de forma muito minuciosa. Às vezes é algo assim: ‘meio sorriso a menos’. ‘Sorrindo’! ‘Sem dente’! É nesse nível. ‘Não, não é sorriso aberto’ (faz uma cara alegre). ‘É um’ (faz uma cara amistosa). ‘É só uma onda boa. Deixa eu ver no teu olho’. É assim, milimétrico. Então, ela rapidamente se adaptou ali. Acho que porque ela tinha uma disciplina muito grande lá com o Antunes, no método dele. O meu era outro, mas é, tinha disciplina.

O filme remete muito a um sentimento nostálgico. Tem um vídeo seu se despedindo do Boldrin, no último dia de gravação dele. É perceptível sua voz embargada. Você falou da relação  com teu pai, que vocês assistiam ao programa do Boldrin juntos. Essa atmosfera nostálgica do filme foi sempre sua intenção?

SM: Foi. E isso, na verdade, de onde vem esse tom, é do próprio livro. O livro, quando eu li, eu falei: ‘puxa, tá ai o que eu gosto’. É um tom nostálgico, lírico, onde tem espaço para imaginação. É também divertido, com passagens divertidas. Uma história simples, clássica: início, meio e fim. Para todos os públicos, mas com viradas interessantes, com espaço para uma engenharia estética e emocional grande. Eu me cerquei de profissionais incríveis. Walter Carvalho (diretor de fotografia)! Foi um retorno depois do (filme) Lavoura Arcaica. Também emocional, também de pai e filho. Também é uma espécie de ‘pai de cinema’, o Waltinho. Então,  assim, retomar com ele, depois de tanto tempo. E o som, e a luz do sul. Tudo era material. O trem, a moto, a bicicleta, a casa da luz vermelha...

E no final, inclusive, você o dedica aos seus pais.

SM: Na verdade, tudo eu dedico aos meus pais. Eles foram fundamentais na minha vida. Eles fizeram movimentos muito grandes por minha causa. E eu te digo o principal deles. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu já era ator. E estava na minha segunda novela da Bandeirantes. E a Globo me chamou. Era a chance de ir pra Globo. Para a gente era assim, que nem hoje se alguém me chamar para trabalhar com o De Niro. Aí eles disseram: ‘você quer?’ E eu falei: ‘Claro!’ Aí, meus pais, a gente morava em São Paulo,  se mudaram pro Rio, com toda família. Pô, deixando amigos para trás, costumes para trás, tudo para trás, por causa de um menino de 11 anos. É muito bonito o que eles fizeram por mim. Eu fico imaginando eu pai, se eu faria isso pelo meu filho. Cada vez mais eu acho muito impressionante o que eles fizeram. Foi uma aposta que deu certo. Então, tudo eu retribuo a eles. E nesse filme eu quis deixar claro.

Selton, esta é sua terceira parceria com o Marcelo Vindicato no roteiro. Como essa dupla cresceu? Escrever em parceria é melhor para você?

Selton como Paco e Johnny Massaro como Tony Terranova
SM: Foi muito legal porque a gente foi aprendendo juntos como é que faz isso. O Marcelo era um amigo de teatro. Começamos, quer dizer, eu já estava na estrada, mas a gente se conheceu no tablado. Atores, juntos. Na mesma turma de teatro. Fã de cinema. A gente era os nerds do cinema ali. Sabia tudo de cinema e adorava os atores e tudo, os diretores. E aí o tempo passou e ele sempre foi um cara muito brilhante, muito inteligente. Aí eu o incentivei a escrever. E ele começou a escrever curtas, um programa que eu tinha, o Tarja Preta, a gente experimentava uma coisas, aí veio meu primeiro longa, Feliz Natal, depois O Palhaço. E ele foi ficando bom nisso. Foi ficando estudioso disso. Então, é muito legal que nesse terceiro, primeiro porque foi nova a coisa de a gente adaptar algo. Porque os dois primeiros foram originais. Isso foi interessante. E é legal identificar que ele virou um roteirista, um técnico, um cara estudioso. Um cara que, assim: “aqui é um ponto de virada. Aqui é a hora de fechar um ato. Aqui tem abrir o segundo e descortinar o terceiro.” Sabe, um cara que olha na estrutura do roteiro? E isso para mim é muito bom. Porque eu sou o lírico da dupla. Eu sou o que escreve uma cena, até porque eu vou dirigir, então, às vezes, sei lá, uma das cenas que eu amo nesse filme é quando o Tony literalmente voa. Viajando naquelas duas irmãs e ele está enxergando um troço que não está acontecendo. A rubrica daquela cena é: “Tony em transe olhando as irmãs.” Mas eu sabia como eu ia filmar aquilo. Então, esse espaço para a imaginação e para a sensibilidade, na filmagem, é muito legal na parceria com o Marcelo porque ele me ajuda a dar uma cama bem estruturada para poder ter a arroubos de lirismo ao longo das coisas.

Outra coisa  interessante é a relação do filme com o próprio cinema, com cenas do (filme) Rio Vermelho (1948). As falas do John Wayne era para refletir o estado de espírito do personagem?

SM: No livro, o filme é outro. É outro Rio. É o Rio Bravo (Onde Começa o Inferno, 1959), com Dean Martin. Tentamos os direitos para esse, falaram que não tinha chance. Aí eu fui pesquisar outros filmes e achei Rio Vermelho. Porra, que filmaço. Melhor que o outro. Mais cinema. Aí fui atrás e rolou de liberarem os direitos. E, curiosamente, que eu acho que nada na vida é à toa, era pai e filho, mas ali o (ator) Montgomery Clift era um filho bastardo. Um menino que ele cria e depois trai o pai e tal. Então eu fiquei vendo o filme como louco para tentar achar ecos deles e usar no meu, ficava tentando achar rimas visuais. Por exemplo, o Montgomery Clift sobe em um cavalo, o Cassel sobe no trem. Algo espelhando. Fiquei esmiuçando aquele filme.

Eu ia te perguntar sobre essa cena, especificamente. Você falou agora a pouco do modo de direção exemplificando os sorrisos e ela é um enquadramento perfeito do que você quis dizer. Do Johnny tendo aquele sorriso. E ela se confunde com o lúdico, porque toca Carmen, e o som é diegético, ela está dentro daquela cena do filme.

SM: É verdade.

Então, você brinca com isso. Quando ele flutua, é o carimbo de que o filme é lúdico.

SM: Exatamente.

Então, você pode se deixar levar por isso. Houve essa intenção?

SM: Totalmente. Essa cena eu tinha um expectativa grande de filmar. Inclusive, ela demorou. Porque pela ordem de nosso cronograma, ela era, sei lá, quinta semana. Mas eu falava muito com o Waltinho que essa cena era um guia para o filme todo. Porque é como se fosse um filme que não tocasse o solo. Como se fosse um filme em suspensão. Como se fosse um grande sonho. O filme é filmado como um grande sonho. Poderia ser um grande sonho desse protagonista. Aliás, de repente pode ser que nada disso realmente aconteceu. A figura do Boldrin é uma figura mítica. Se bobear, vai que não tem um maquinista. Se bobear aquilo ele ta imaginando. Mas, assim, (pensativo). Nisso, quando tinha ali o neorealismo, e o Fellini falava assim: “Deus me livre da realidade, eu quero mais é sonho”, aí eu estou de braços dados com ele. Porque, assim, de realidade, a gente já está cheio. Inclusive, tempos duríssimos. Abre o jornal, e tudo que a gente vê são desgraças. Desigualdade, roubalheiras. Eu pensei: “não, sonhe! Pelo amor de Deus.” Uma das capacidades do cinema é fazer sonhar. Assim, você entrar no cinema e aquilo é um templo dos sonhadores. Você entrar ali é como sonhar acordado. Você está diante de uma tela e você esquece por um período o que está acontecendo ali fora, ou pelo menos espera-se que aquela obra tenha a capacidade de fazer você esquecer do que está do lado de fora. E entra em um mundo. Então, filmar é criar um mundo. É criar uma atmosfera. Então, os personagens possuem uma linguagem própria. Assim, a Luna fala coisas que uma menina da idade dela não falaria. Não importa. Eu não estou filmando a realidade. Eu estou filmando uma representação emocional de uma realidade que eu criei. De uma cidade fictícia ao sul do Brasil, mais ou menos nos anos 1960. Eu acho que essa foi a beleza de fazer esse trabalho. E é bonito. Porque quando você faz algo com essa força emocional, pula da tela e vai par ao público. O público recebe pela via afetiva, assim. É muito bonito, cara.

Eu queria te perguntar algo nessa linha. Tirando Feliz Natal, que é algo um pouco mais acido, O Palhaço, e esse filme agora, você parece rejeitar um certo cinismo que está meio que estabelecido hoje em dia. Você não gosta dessa linguagem? Não te interessa essa linguagem mais cínica, mais (estalando o dedo) fugaz?

SM: Eu acho que podem ser fases da vida, também. Assim, aí a vantagem de ser ator. Então, como ator, eu faço de tudo, inclusive muitas coisas cínicas. Mas como realizador, que aí é uma representação do meu espírito, do que eu penso da vida. Que garrafa é essa que eu estou jogando ao mar? Eu quero que o público sonhe. Que o público saia bem do cinema. Que pense nos seus pais. Eu já comecei ter depoimentos do tipo: “noss, esse filme é muito lindo. Lembrei de meu pai que morreu. E assistir esse filme foi uma loucura porque eu lembrei de coisas que eu gostaria de ter falado.” Isso mexe em lugares, assim, muito... E em uma estrutura clássica. Não é um filme cabeça. É um filme para todo mundo. É um filme com um potencial de comunicação. Que é outra coisa que me interessa. Essa via do meio. Ele não é um filme cabeça e não é claramente um blockbuster. É um filme que tenta ser um filme comercial refinado. Um filme com um apelo popular, sendo um biscoito fino. Sendo bem cuidado. É você oferecer ao público o melhor. Fotografia, trilha edição de arte, acabamento, é um presente bem embalado.

As arrebatadoras irmãs Madeira: Petra (Bia Arantes) e Luna (Bruna L.)
Uma outra coisa que me chamou atenção é a forma como as irmãs Madeira são fotografadas. A Bia Arantes surge parecendo uma diva dos anos 1940. Foi intencional, então?

SM: Foi. Eu filmei a Bia como se filma a Liz Taylor, a Rita Hayworth, Ava Gardner. O semblante dela é bem clássico. Ela tem mesmo a aura de estrela antiga. A Bruna já é mais a Shirley MacLaine. Os olhos dela chamam atenção na tela.

Sim. Ela tem um conjunto bem arrebatador.

SM: Exatamente. E aí... Eu acho (pensativo) que é filmar com... O protagonista, é ele quem conduz a história. Então, o diretor ele anda com os braços dados com o protagonista. Então, é como se eu filmasse esses personagens pelo ponto de vista dele. Sabe, aquilo é como ele vê as irmãs. Assim, a mãe e a falta que a mãe sente, é como provavelmente o Tony imagina que a mãe está se sentindo com a ausência do pai. Então, eu acho que isso.

O filme possui algo que é bem atraente que são os anos 1960. A gente não tem uma linha do tempo definida para essa década, mas algumas pistas são dadas, como a luta do Jofre, o rádio. E Do livro, vocês captaram muita coisa disso ou se foi mais algo seu?

SM: Veio muito do livro e tem muito de mim, também. Foi ótimo, pois o Skarmeta me deu total carta branca. Vocês não leram o livro, certo?

Não, não li.

Johnny Massaro é Tony Terranova, um jovem em busca do pai
SM: Então, eu te digo várias coisas que são do filme e não do livro. Por exemplo, no livro ele resolve o final todo junto com o Augusto Madeira. Eu falei: “não, não. Eu resolvo esse menino antes e o final é da família. Só.” Bicicleta e moto: é uma metáfora que eu criei. O maquinista. Tem uma cena que eu parei e pensei: “deixa eu pegar esse maquinista e colocar ele como uma figura mítica que costura o filme, que tudo viu, que sabe tudo”.

É o velho sábio.

SM: Ele viu tudo. Porque a gente não pode dar spoiler. Mas, fora dos gravadores, a gente pode dizer. Ele viu a Petra indo grávida, ele viu que foi a Paco que levou, ele viu eu e o Cassel voltando e pensando no que a gente ia fazer agora. “Vai ficar lá que eu me escondo aqui.” Ele sabia de tudo o tempo todo. Ele sabia de tudo, mas também sabia que tudo tem hora de acontecer. Então, ele estava só filmando, literalmente, o Tony. E tem um plano no filme que é um plano do Walter Carvalho. Ele falou: “Esse aí eu vou ter que fazer”. Eu falei: “Waltinho, ok. Você merece. A nossa parceria foi tão boa que eu te dou esse plano de presente.” Ele falava que, na Paraíba, na meninice dele, ele lembra muito claramente que as latas de filmes eram levadas pelos maquinistas. E iam de trem. Ele lembra disso, com o Vladimir Carvalho. E ele queria fazer esse plano. Eu falei: “Waltinho, vamos fazer esse plano”. Porque, afinal de contas, ta lá. A gente revela isso, tem ali as latas. Ou seja, o cara levava o filme para o cinema. Ele sabia tudo, mesmo. E sabe que a vida tem seu ritmo. Ele não pode se intrometer. Então, é linda a participação do Boldrin.

Em 2012 eu conversei com o Walter quando ele esteve aqui divulgando o documentário sobre Raul Seixas. E nós falamos  sobre a qualidade do profissional atento, que está na hora certa e no momento certo. Eu lembrei disso hoje, fazendo a pauta, pois eu acho que ele se encontrou fazendo esse filme.

SM: Que legal.

Quando você me fala acerca disso, desse plano dele das latas de cinema, é algo meio que confirma isso.

Pois é. Ele lembrou da infância dele na Paraíba. Que os filmes eram levados pelo trem. Muito bonito, cara. Muito bonito. Então, assim, a essência do livro está toda no filme e eu precisava ir além das páginas. Porque eu precisava de um conflito. Meu personagem é totalmente diferente no livro. No livro, ele é um amigão. Ponto. Aí eu pensei: “peraê, deixa eu pegar esse amigão que é engraçado e dar um outro contorno pra ele para que ele tenha uma virada e seja o cara que talvez seja o pivô de tudo.” E ficou um personagem interessantíssimo. Porque boa parte do filme você fala assim: “ah, o Selton pegou esse aí pra se divertir.” Aí no final você fala: “Caramba! Olha o que esse Paco é.” Então ficou um personagem bem rico e diferente do livro, também.

Um acerto que eu achei sensacional é como eles são parecidos. O Johnny Massaro e o Vincent Cassel.

SM: Um dos melhores castings do cinema brasileiro nos últimos tempos.

O nariz do Massaro. Ele tem aquele perfil francês.

SM: Exato. E o encontro dos dois, assim, o Cassel ficou encantado com o Johnny. Imediatamente ele viu que era um menino diferente, especial, e o Johnny não se intimidou com o Cassel. Poderia, né? “Puxa , é o Vincent Cassel!” Mas, não ele ficou ali seguro. Eles ficaram super amigos e foi muito bonito o encontro dos dois. Casting ideal. Grande acerto.

O astro francês Vincent Cassel, o pai: mais brasileiro do que eu ou você
E ele vem crescendo no Brasil. Trabalhou com o Heitor Dhalia no À Deriva, agora contigo...

SM: Ele trabalhou com o Cacá Diegues, também. Vai ser lançado em breve.

Olha só. Fala português já fluente.

SM: Ele já é um carioca. Joga capoeira.

É, ele aparece jogando capoeira na terceira parte de 11 Homens e um Segredo.

SM: O Cassel? Não lembrava disso. Ah, ele ta um brasileiro. Ele é um pai mítico no filme. Um pai que permeia o filme. Exatamente de um ponto de vista... assim, é o sentimento do filho . O pai é quase um sentimento. Então, você tem o Cassel, ele é um ator, assim, é um bicho cinematográfico. Aquele cara que você põe a câmera assim e acontece muita coisa. Forte a figura dele.

Cresce.

SM: Algo assim, Marlon Brando. Vai, exagerando, mas Marlon Brando. Essas grandes figuras do cinema. O Cassel tem esse peso. Quando eu botei a câmera nele a primeira vez, eu olhei assim...

E ele é bem galã francês. O feio bonito.

SM: O feio bonito, mas, assim, com uma presença em cena muito forte. Então, quando eu volto, de vez em quando tenho aquelas lembranças, e é o Cassel ali sendo pai, tem uma força muito grande.

Ele fez um filme magnífico a pouco tempo, chamado Meu Rei.

SM: Pois é. Dizem que é bonito, né? Eu não vi. Mas ele gosta bastante desse filme.

Eu gostei bastante desse filme.

SM: Ele tem orgulho desse filme.

Trazendo o papo para o atual, assim, o que você acha, se você quiser dar sua opinião, claro, o que você achou do Sergio Sá Leitão para ministro da cultura?

SM: Cara, eu conheço o Sérgio já há algum tempo e eu acho ele um cara bem preparado. Acho que o audiovisual pode estar bem amparado. Eu acho que ele pode ser uma boa escolha. Pode ir bem.

Você falou agora a pouco acerca das fases de seu trabalho, que pode trazer um caminho mais cínico ou áspero, ou algo mais doce e lúdico. Como foi a experiência de viver o Chris, em Soundtrack? Foi a segunda parceira com a dupla de diretores 300ml.

SM: Isso. Cara, eu achei um roteiro bem inventivo. Toda a ideia dos cara, foi algo bem peculiar, assim. E um personagem denso, mas bonito, porque é um artista. Então, com suas questões que eu me identifico. Eu sei os dilemas daquele personagem. Então, foi ótimo. Assim, eu fiquei muito tempo dirigindo o Sessão de Terapia. Foram três anos. Então, eu sai de la´seco para atuar. Fazia tempo que eu não atuava tanto. Você vê que eu voltei agora com fé. O Ligações Perigosas, o Soundtrack, O Filme da Minha Vida, onde eu tenho um papel pequeno, mas importante, um coadjuvante de peso. E vem aí o Treze Dias Longe do Sol, que é uma minissérieque eu fiz para a Globo e que estreia em janeiro. Estou filmando agora com o José Padilha para o Netflix. Estou bem ator.

É a série sobre a Lava Jato?

SM: Sim. Chama-se O Mecanismo. É uma série sobre a corrupção no Brasil.

Tem planos de voltar com o Sessão de Terapia?

Tony e a poética casa da luz vermelha do filme
SM: Olha, cara, planos tem. Vontade, tem. Mas tem que achar um momento para isso. Porque exige um mergulho grande ali. Na escrita,. Foi um trabalho denso. Fiquei três anos fazendo.
Dentro de uma sala. Então, era bonito, mas era forte demais. Então, precisava dar uma pausa dali.

Já sabe qual será o seu próximo projeto como diretor?

SM: Em cinema, não. Mas estou adaptando para a Globo, em minissérie em dez capítulos, um sonho de vinte anos, que é O Alienista, do Machado de Assis. Amo esse conto. Já pensei em fazer em cinema várias vezes e é caro. Aí resolvi fazer ali em minissérie porque eles têm aquela estrutura, cidade cenográfica. Só não sei quando pois ainda, mas será a minha estreia na Globo  como diretor e ator. Eu vou fazer o Simão Bacamarte, esse médico que estuda o limite entre a razão e a loucura, machadianamente. E, pô, Machado de Assis para a massa, né? Botar Machado para o grande o público é sempre um prazer. Mas não sei quando eu devo fazer isso. A gente entra em uma fila ali de muitos projetos. Mas estamos trabalhando nisso.

terça-feira, agosto 01, 2017

BERIMBAU E VIOLÃO CHEIOS DE BOSSA: DUO B.A.V.I. AGRADA TORCEDORES DE TODOS OS TIMES

Berimbau Aparelhado (Anderson) e Violão Inventável (João) Foto Joana Rizério 
Violão e berimbau cheios de efeitos: Duo B.A.V.I. agrada torcedores de todos os times

Lembram daquele episódio de  um professor do curso de Medicina da Ufba, que disse que o berimbau, “Um dos símbolos da Bahia, não é o tipo de instrumento para pessoas inteligentes”, afinal, “ele tem uma corda só”? Lembram?

Novidade fresquinha da música baiana, o Duo B.A.V.I. subverte as palavras do equivocado professor, utilizando-se do seu próprio áudio  em seu show.

Depois que ouvimos a gravação da asneira toda, o percussionista Anderson Petti mostra toda sua “pouca inteligência”, dando um show com seu Berimbau Aparelhado – o B.A. do duo. O V.I. (Violão Inventável) fica por conta do violonista João Almy, outra fera.

Amigos do curso de música da Ufba (olha ela aí de novo), João e Anderson se juntaram no Duo B.A.V.I. em busca de uma linguagem musical própria.

"Já éramos amigos desde a graduação na EMUS (Escola de Música), Petti cursava percussão e eu violão. Até coincidiu de tocarmos na mesma banda, o Sertanília, só que em épocas diferentes, quando entrei ele já tinha saído das percussões. Mas o impulso de nos juntarmos mesmo veio de conversas informais sobre experimentação, mistura de instrumentos acústicos com sonoridades eletrônicas, enfim, um trabalho que Petti desenvolveu quando estudou na Alemanha e que eu já queria fazer com o violão.  Daí marcamos uns encontros pra fazer som com esses elementos, como um laboratório, trocando ideias, tocando , gravando algumas coisas, sem compromisso. Penso que imprimimos no nosso som muitas influências do que aprendemos na Escola de Música, como o entendimento de não se acomodar com o que já é de determinada linguagem ou idiomático no instrumento. Já no final do meu curso, eu estudava um repertório mais moderno, pesquisava sobre técnicas expandidas (aspectos não explorados pela técnica tradicional do instrumento) no violão de concerto e acabei conhecendo outras referências de técnica expandida no violão popular também. O negócio é que, para o que é feito no Duo B.A.V.I., consideramos influências muito além do que aprendemos na academia, da nossa própria história por exemplo, tanto como músicos, quanto como viventes numa cidade pulsante, potente culturalmente e num Estado igualmente diverso e imenso", relata João.

Resultado? Em poucos shows, uma notável aceitação de público e crítica, com direito a indicações no Prêmio Caymmi e música (Na Cordadeira) tocando na Educadora FM.

“A todo momento somos surpreendidos por uma novidade boa, seja lá um convite pra tocar em um evento legal, a matérias na imprensa. Já foram 14 shows até 21 de Julho deste ano e já temos data até outubro. Estamos digerindo tudo com muito carinho e sempre agradecidos ao apoio permanente das nossas amizades, que sempre dissipam o nosso conteúdo nas redes sociais”, conta Anderson.

“Não é fácil nem simples trabalhar com música independente. Conseguir essa visibilidade foi (e é) trabalho de formiguinha, a cada show, nas redes, no trato com quem trabalha com a gente. Somos apenas dois no palco, mas ao longo dessa trajetória recente formamos um equipe muito competente, que torce pela gente, se empenha e com profissionalismo, sem 'brodagem'. Além disso existe algo que é muito valioso para o músico, produzir algo nosso, com a nossa cara, nosso discurso, nossas viagens, nossas ideias e dialogando com nossa realidade também. Então que boa essa recepção, só é mais impulso para levar o Duo B.A.V.I. adiante”, acrescenta João.

Envolvimento sensorial

Mas qual o segredo da dupla? Como toda música de boa cepa, é quase indefinível, caminhando com muita habilidade na corda bamba entre o experimental e o popular.

“Valorizamos a criatividade, o gosto por tocar e por envolver sensorialmente quem aprecia, a performance, a poesia e a canção. Até costumamos dizer que nossa música é semi-instrumental”, afirma João.

E afinal, o que é um Berimbau Aparelhado? E um Violão Inventável?

"Para a modificação, já começa com o uso de um violão de sete cordas sem a linguagem do choro, sem necessariamente explorar as baixarias e o acompanhamento. E para explorar seu som por completo, uso recursos de percussão sobre regiões do corpo do violão, chiado ao esfregar uma mão sobre as cordas graves, som de caixa com uma corda sobre a outra, tapping em notas e acordes e outras possibilidades sonoras que for descobrindo. O violão tem um captador e no preamp do captador também mexo nas frequências, quando quero fazer outros sons, percutir no violão, etc. Criamos loops e convenções ao vivo, texturas melódicas que vão se sobrepondo, algumas vezes com samplers que pré-produzimos, outras músicas com bases também feitas ao vivo. Além disso usamos efeitos variados, como delay, reverb, oitavadores, enfim, o máximo do que nossos pedais nos possibilitarem", detalha João.

"O berimbau que uso é específico para músico e muito distante do berimbau da capoeira. Tem outra espécie de cabaça, capotraste para sustentar a afinação e tarracha. Um desmembramento de um instrumento de corda como o próprio violão, só que, com uma corda só. O arco de violino, garrafa de vidro ou até o dedo se tornam opções para tirar som do berimbau. A partir daí, é possível modular as frequências tornando o som dele irreconhecível, se assim desejarmos", conta Anderson.

"Sendo que tudo isso é usado com um senso estético, pensado na hora do arranjo, nada sem propósito", acrescenta João.

Nas composições, esses recursos todos são usados em favor de diversos modos de construir uma música.

"Não temos um jeito só de construir nossas músicas, inclusive algumas são muito menos pensadas do que outras. Desde o surgimento do Duo B.A.V.I. até agora, o modo como lidamos com a aparelhagem ligada aos instrumentos amadureceu de um jeito que já conseguimos visualizar o que é possível fazer ou  o que pode dar microfonia, por exemplo", afirma João.

"A primeira música que fizemos chama-se, Na Cordadeira, é um pagode groove arrastado que foi nascendo em etapas, à medida que íamos dominando os nossos aparelhos modificávamos a música adicionando elementos melódicos, rítmicos e onomatopeias ao invés do canto comum”, completa Anderson.

Em setembro, o Duo será a única representação baiana no Festival Música Mundo, em Belo Horizonte.

"Temos a nossa primeira viagem programada pra Belo Horizonte, em 5 de Setembro tocaremos em uma feira internacional de negócios na música. O Festival Música Mundo selecionou 20 projetos, dentre 260 inscritos nacionais e 58 internacionais. Somos os únicos da Bahia fazendo parte do showcase", conclui João.

Se liga neles.

www.facebook.com/duobavi/



NUETAS

QVoS niver com Ivan

A maravilhosa Ivan Motosserra abre hoje o mês de aniversário (três anos!) do Quanto Vale o Show?, com convidados supimpas. Cola lá no Dubliner’s, 19 horas, pagando o quanto puder.

Marconi lança clipe

O bardo urbano Marconi Lins faz show para lançar clipe da música Moscou / Amsterdam. Sexta-feira, 22 horas,  Lebowski Pub, R$ 10.

Via Sacra e Pastel

Via Sacra e Pastel de Miolos quebram tudo no Buk Porão. Sábado, 20, horas, R$ 10.

Baia no domingão

Baia volta à Salvador para mais uma session voz e violão na Varanda do Sesi – desta vez, lançando o álbum Alter–Nativo, de faixas raras ou não lançadas. Domingo, 17 horas, R$ 40 reais ou R$  30 (via email baianavaranda@gmail.com).

quinta-feira, julho 27, 2017

BOÊMIA, MÚSICA E CERVEJA GELADA

Ponto tradicional do Centro Antigo de Salvador, o Velho Espanha volta rebatizado, repaginado e com festival de música de alto nível

Descontração e cerveja gelada do lado de fora (foto Ramiro Smith)
Tradicional ponto de encontro para intelectuais e nem tão intelectuais assim, o centenário (em 2020) Bar do Espanha reabre neste fim de semana repaginado e sob nova direção.

Para marcar a ocasião, um pequeno festival de música popular de amanhã à domingo.

Rebatizado Velho Espanha, o espaço defronte à Biblioteca Central dos Barris abre as portas para o público e para atrações como Chorinho do Dadá e o duo Vanessa Melo & Felipe Guedes (amanhã), Pirombeira e Duo B.A.V.I. (sábado) e Coisa Mandada, Samba das Moças e Carla Lis (domingo).

À frente do empreendimento, que já vinha funcionando há alguns dias em esquema soft open, estão dois entusiastas do Centro Antigo de Salvador: Arthur Daltro e Uiara Araújo.

...e do lado de dentro do Velho Espanha (foto Ramiro Smith)
"Desde que vim morar em Salvador, que moro nos Barris, tanto eu quanto minha sócia. E o Espanha para nós era um era um fetiche. Seu Zé, que atendia no balcão antigamente, digamos que não era o sujeito mais simpático (risos), mas mesmo assim a gente vivia lá. Mesmo ele nos servindo cerveja quente. Mas com o tempo, o tratamento foi melhorando e a cerveja foi gelando. Uns dez anos se passaram e em 2012, seu Zé passou o bar adiante. A última administração tava saindo há alguns meses quando entrei em contato com o proprietário do imóvel, porque o bar ia até fechar, outros investidores queriam o local para outras coisas. A próprio dono do imóvel gostou da ideia de assumirmos para manter o bar aberto, mesmo eu e Uiara não tendo experiencia no ramo", relata Arthur.

“Aí passamos três meses em reforma, uma reforma que dialoga com o tradição do centro, com iluminação vintage e fotos antigas. A perspectiva é de ser um bar de cerveja sempre gelada e à preços acessíveis. A ideia é movimentar a região, ser uma ode ao centro da cidade. Mas ao mesmo tempo querendo provocar e trazer algo novo. Um bar para todos e toda a cidade”, diz Arthur.

O grupo Samba das Moças se apresenta no domingo. Foto Umeru Bahia
Como nem só de cerveja vive o ser humano, a casa conta com a chef Ariadne Maceió no preparo de pratos e petiscos tradicionais de boteco – com um toque gourmet.

”A costelinha de porco, por exemplo, vem com cebola caramelizada. E assim como a cerveja, tudo tem preço acessível, na faixa dos R$ 30 a R$ 40 o prato para duas pessoas”, conta Arthur.

A ambientação também mereceu atenção especial, para não apenas valorizar a elegância antiga do local, mas também fazer referência ao seu passado glorioso de ponto de encontro da nata intelectual da cidade.

“Impossível conceber o projeto de reforma de um bar de quase 100 anos sem respeitar toda a história que aquele lugar conta a quem o visita”, afirma a arquiteta Damile Mata.

No projeto da  foram mantidos o teto de madeira de lei, o piso de ladrilho hidráulico (material que sequer é mais fabricado na Bahia) e paredes de adobe exposto.

“(Mas) Fizemos questão de dar uma nova cara ao bar, jovem, descolado e com a personalidade dos novos donos – mantendo a tradição do balcão, das prateleiras de bebidas, a mesinha de carretel, o piso, as paredes e teto”, diz.

Em breve, fotos de ex-frequentadores ilustres como o cineasta Glauber Rocha e o jornalista André Setaro adornarão as paredes do bar, complementando a  decoração.

Duo B.A.V.I. toca sábado. Ft Joana Rizério
Sem terror na vizinhança

Com atrações de primeira linha como a elogiada banda Pirombeira, Samba das Moças e o Duo B.A.V.I., o fim de semana vai ser agitado na Rua General Labatut – mas sem terror para a vizinhança: os shows começam cedo e terminam cedo.

“Sou morador dos Barris há 30 anos e o bar sempre foi um local de encontro e diálogo dos transeuntes e moradores. A volta do bar,  um casarão histórico, é importante, é  um pedacinho do centro que volta a pulsar”, afirma Rafael Alvim, bandolinista do grupo  Coisa Mandada, que no domingo leva o samba de  ao local.

"Tocamos samba tradicional da Bahia: Batatinha, Riachão, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, o samba raiz da Bahia. Venham que vai ser massa", convida Rafael.

Festival Barris de Música / Sexta- feira, sábado (17h) e domingo (14h) / Velho Espanha Bar e Cultura (Rua General Labatut, 38, Barris) / Pague quanto quiser / https://www.facebook.com/velhoespanha/

sábado, junho 10, 2017

DESPEJO DE MICRO-RESENHAS PARA SAIR DE FÉRIAS!

Caro Henry, Caro Robert...

Henry James (A Outra Volta do Parafuso) e Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro), dois dos principais autores do século 19, não poderiam ter estilos mais diferentes, mas se igualavam no que havia de mais importante: a genialidade. Aqui, a correspondência trocada por eles ao longo de uma década. A Aventura do Estilo / H. James, R. L. Stevenson, Marina Bedran (org.) / Rocco / 272 p. / R$ 34,50






Os subterrâneos da liberdade

Premiado com o Pulitzer e elogiado por Barack Obama, este livro conta a saga de Cora,  escrava das plantações de algodão que foge por uma ferrovia subterrânea  rumo ao Norte, onde a escravidão era proibida. Breve nas telas, em série de TV. The Underground Railroad: Os Caminhos Para a Liberdade / Colson Whitehead / Harper Collins / 320 p. / R$ 44,90







Vida na escola de médicos

Publicada na Europa antes do Brasil (e muito elogiada pela crítica especializada), esta HQ da carioca Cynthia B. resgata seus dias de estudante de Medicina  na UFRJ. Entre bebedeiras homéricas, dissecações de cadáveres e dilemas existenciais, surgem reflexões sobre o execício da medicina. Estudante de Medicina / Cynthia B. / Veneta / 176 p. / R$ 49,90







Prisioneiro do próprio corpo

Aos 12 anos, o autor foi diagnosticado com uma doença degenarativa. Um ano depois, já se encontrava no estado vegetativo do qual só se libertaria doze anos depois. Aqui, ele conta sua história real, incluindo os maus tratos que sofreu e como superou tudo, conseguindo estudar e casar. Quando Eu Era Invisível / Martin Pistorious / Astral Cultural/ 288 p./ R$ 34,90






Chiclete sem banana

Em sua estreia, a mineira Iá transita por Cetano (Como 2 e 2), Gil (Cérebro Eletrônico), Red Hot Chili Peppere (Otherside), Adriana Calcanhoto (Mentiras),  e outros – e fica tudo mais ou menos igual. Vale investir mais na identidade própria. Iá / Esquerdo Direito / Independente - Tratore / R$ 27,90



Revelação pernambucana

Segundo do pernambucano Almério, de timbre similar ao de Ney Matogrosso e repertório original, cheio de vigor lírico. A produção é espartana, privilegiando violão, percussão e pífano. Elba Ramalho canta junto Do Avesso. Revelação. Almério / Desempena / Natura Musical / R$ 27,90







Encontro Recife / Paris

Belo EP de quatro faixas, resultado do encontro entre os pernambucanos Mombojó e a musa indie francesa Laetitia Sadier (ex-Stereolab). Psicodelia tropical com um toque de chanson e kraut rock. Agradará aos fãs de ambos. Mombojó + Laetitia Sadier / Summer Long / Joinha  / Baixe: www.summerlongsongs.com







Power-trio de responsa

Segundo trabalho do power trio baiano, este EP de quatro faixas desce redondo com um indie rock de sabor clássico (anos 1990) e bem azeitado. Ouça: Transition (levada disco) e a melodiosa  Moonshine. suRRmenage / Headphoning Life / Brechó-Big Bross-São Rock / Ouça: www.surrmenage.bandcamp.com







Alma torta, verdades nuas

Tony Lopes, o Reverendo T do rock baiano, lança seu primeiro livro de poemas – alguns com feitio de oração, outros, pura blasfêmia. Em todos, as verdades nuas e cruas de uma alma torta mas plena de sentimentos reais e muito  humanos. Blasfêmias & Orações / Reverendo T / Edição do Autor/ 156 páginas / R$ 30 / discipulosdescrentes@gmail.com






E irracionais são os animais?

Recentemente adaptado para o cinema, este livro conta a história real do casal responsável pelo zoológico de Varsóvia durante a  ocupação nazista, que arriscou as próprias vidas para proteger judeus e armazenar munição para a resistência nas celas dos animais. Zoológico de Varsóvia / Diane Ackerman / HarperCollins / 304 páginas / R$ 34,90







Agora em capa dura

Com um novo filme a ser produzido em breve,  a clássica space opera Duna retorna ao mercado em edição de luxo (capa dura, prefácio de Neil Gaiman). Comparado a’O Senhor dos Aneis, é uma megassaga que mistura política, religião, ecologia e aventura com um príncipe herdeiro de um império no centro da trama. Duna / Frank Herbert / Aleph/  680 p./ R$ 69,90







Big bands em profusão

A big band carioca Zé Bigode é mais um nome a integrar a brilhante cena de grupos como Bixiga 70, Aláfia e outras. O som é bem eclético e capaz de estimular tanto mentes quanto cinturas. Ouça: 7 Caminhos, Nebula. Zé Bigode / Fluxo / Independente / Ouça: www.zebigode.bandcamp.com







Climática e fantasmagórica

Sweet Desastre é o duo Glauber Guimarães (ex-Dead Billies) e Heitor Dantas (Laia Gaiatta), praticando música instrumental climática e algo fantasmagórica. Ouça: Simbolicatron, Pocketmantra. Sweet Desastre / Música Para Aparelhos Subversivos / Independente / Ouça: www.sweetdesastre.bandcamp.com






Hinos punk saídos do forno

Segundo trabalho dos punks locais Antiporcos, este EP de cinco faixas declara a paixão pelo futebol (Meu Esporte é Arquibancada, com Gigito) e reafirma sua união (Somos Fortes). Hinos prontos. Punk rock é amor, gente. Antiporcos / Seguimos no Front / Under Rocks Records / Ouça: www.antiporcos.bandcamp.com







Médico sem fronteira

Médico, professor, pesquisador e humanista de estirpe, o baiano Carlos Marcílio (morto em 2016) ajudou a formar gerações de médicos na Universidade Federal da Bahia. Aqui, é homenageado pela sua viúva, a pesquisadora Maria Thereza. Introdução de Edivaldo Boaventura. Carlos Marcílio: um homem plural / Maria Thereza Oliva Marcílio / Quarteto / 306 p. / R$ 40






"Eu não lembro de nada"

Um homem acorda sem memória em um quarto de motel barato e rapidamente descobre que está metido em encrenca da grossa e mais: é um tremendo casca-grossa. Apesar do início clichê, a HQ Dead Letters ganha o leitor pela agilidade e surpresas da narrativa. Bom início de saga. Dead Letters Vol. 1: Operação Existencial / Christopher Sebela e Chris Visions / Devir / 112 páginas / R$ 45






A união faz...

Iniciada com Eu Sou o Número Quatro, a saga Os Legados de Lorien chega ao fim no sétimo volume, Unidos Somos Um. Fantasia com toques de ficção científica, trata de nove jovens com poderes que enfrentam uma raça alienígena invasora na Terra. Os Legados de Lorien Vol. 7: Unidos somos um / Pittacus Lore / Intrínseca/ 352 p. / R$ 44,90 / E-book: R$ 29,90






Linha Renato

De Itabuna, o cantor Cardoso Filho estreia com single de duas faixas: Meu Mundo e A Ti. De voz grave e letras confessionais, segue a linha Renato Russo com alguma  eficiência. Se evoluir, pode encontrar a própria voz. Cardoso Filho / Meu Mundo / Brechó - BigBross - São Rock / R$ 10







Tape em K7

Primeiro trabalho da dupla formada por Silvia Tape (Mercenárias) Edgard Scandurra, est aposta na liberdade criativa, com bons resultados de perfil indie rock. Ouça: Asas Irreais, Rio Rastro. Tape e Scandurra / est / 180 Selo Fonográfico / K7 ou CD: R$ 25 / LP: R$ 89,90 /  Baixe: www.tapescandurra.com







Ortodoxo e bem feito

Residente em Nova York e casada com o pianista John Allen Watts, Débora põe sua voz à serviço de repertório próprio de MPB ortodoxa, porém muito bem executada e produzida. Ouça: Eu Sou do Samba, Calma e Bem Feito. Debora Watts / Um Samba ao Contrário / Independente / Preço não divulgado







O testamento de um gênio

Espécie de rock star dos fumetti (HQs italianas), Andrea Pazienza (1956-88) viveu pouco mas produziu muito – e muito bem, com vigor criativo, humor e habilidade técnica. Nesta, que é sua última obra, ele relata a luta de um artista contra o vício em heroína – droga que terminou por mata-lo. Os últimos dias de Pompeo / Andrea Pazienza / Veneta/ 136 p./ R$ 74,90







Resgate suingado

Pouco lembrado, o sambalanço  surgiu no fim dos anos 1950, paralelo à bossa nova. Entre seus principais nomes estão Jorge Ben, Elza Soares, Miltinho, Orlandivo e outros. Neste livro, Tárik de Souza dá uma visão geral do movimento e seus principais artistas. Resgate importante. Sambalanço, a Bossa Que Dança - Um Mosaico / Tárik de Souza / Kuarup/ 272 p./ R$ 35,90







A minutos do fim do mundo

No livro final da trilogia O Último Policial, o mundo está a duas semanas de acabar, prestes a ser atingido por um asteroide. Perambulando por uma América devastada, o detetive Hank Palace ainda encontra forças para investigar um crime em meio ao caos. Mundo das horas finais / Ben H. Winters / Rocco / 320 p. / R$ 39,50 / E-book: R$ 26,00







Rock brazuca made in Bahia

Ex-Adão Negro, Duda Spínola “migrou” do reggae para o rock e  manda bem neste primeiro EP. Lembra um pouco Barão Vermelho, o que é muito bom. Ouça Sozinho no Universo e Ele e Ela. Duda Spínola / Direto Ao Ponto / Brechó - BigBross - São Rock/  Baixe: www.dudaspinola.com.br







Insólitos instrumentais

Ótima coletânea de bandas instrumentais brasileiras. Tem dose dupla de Camarones (Private Idaho e Rockaway Beach), Iron Maiden no tango (The Trooper via Yangos) e muito mais. Baixa, que vale a pena. Vários artistas / Sem Palavras / Scream & Yell / Baixe: www.screamyell.com.br







Doces e caipiras

Donos de belas vozes, o paulista Kleber e o brasiliense Rubi as unem em prol de canções singelas, entre o caipira de raiz e a doçura. Acompanhamento de luxo: Mario Manga (cello) e Rovilson pascoal (guitarra). Kléber Albuquerque + Rubi / Contraveneno / Sete Sóis - Tratore / preço não divulgado






Foi o chá, menino, foi o chá

O experiente quadrinista Laudo (Yeshuah) acerta as contas com o passado nesta HQ, uma grande sessão de psicoterapia xamânica por meio da ingestão do chá ayahuasca. Entre a ficção e o relato biográfico, a busca de um homem pela redenção e o amor do pai. Cadernos de Viagem: Anotações e Experiências do Psiconauta / Laudo Ferreira / Devir /  72 páginas/ R$ 34







Amor aos números

A amizade entre um recluso professor de matemática e o filho de sua faxineira é o ponto de partida para a escritora japonesa Yoko Ogawa construir uma carta de amor à ciência dos números, ajudando a desmitificar a mais detestada das disciplinas escolares. Best-seller internacional. A fórmula preferida do Professor / Yoko Ogawa / Estação Liberdade / 232 páginas/ R$ 43






Mais mitologia nórdica

Depois de se divertir (e aos seus fãs) com a mitologia grega na série Percy Jackson, o norte-americano Rick Riordan explora a mitologia nórdica em Magnus Chase e Os Deuses de Asgard, sua nova saga. Este é o segundo volume, O Martelo de Thor. Magnus Chase e os Deuses de Asgard: O Martelo de Thor / Rick Riordan / Intrínseca/ 400 páginas/ R$ 44,90/ E-book: 29,90






Onda boa que bate

Quarto trabalho da dupla maranhense Alê Muniz e Luciana Simões, bate uma onda boa com abordagem desencanada do reggae e da psicodelia dub. Vale ouvir Pare Que Eu Sigo a Pé, Compacto 76 e Jaracaty. Criolina / Radiola em Transe / Sete Sóis / Preço não informado







Indefinível e promissor
A banda paulista Mamparra demonstra personalidade em seu primeiro trabalho, um som indefinível entre o samba, o experimental à Arrigo e o suíngue à Novos Baianos. Maiana, a cantora, honra a estirpe: é filha da baiana Vânia Abreu. Mamparra / Mamparra / Independente / R$ 15







Guinada pop

O  segundo CD das Vespas Mandarinas dá uma guinada no hard rock  em direção ao pop brasileiro, com alguma elegância. Muita gente boa colou: Samuel Rosa, Edgard Scandurra, Carlos Malta, Marcos Suzano. Ouça a faixa- título e E Não Sobrou Ninguém. Vespas Mandarinas / Daqui Pro Futuro / Deck / R$ 27,90 







Adoráveis e empoderadas

Neste volume 1 da HQ das Lumberjanes, Cuidado com o Sagrado Gatinho, acompanhamos as aventuras de cinco amigas no Acampamento da Senhorita Quinzella Para Garotas da Pesada, encarando criaturas sobrenaturais. Moderna e ousada, é a HQ das meninas superempoderadas. Inicialmente pensada como uma minissérie em oito partes, fez tamanho sucesso que conquistou não só o público teenager à qual era destinada, mas também o público adulto e dois prêmios Eisner. Lumberjanes Volume 1: Cuidado com o sagrado gatinho / Noelle Stevenson, Grace Ellis e Brooke Allen / Devir / 128 páginas/ R$ 45




Moleque valente

Estas são as memórias reais de Julian Kulski, um escoteiro que tinha dez anos em 1939, quando os nazistas invadiram seu país, a Polônia. Nos seis anos seguintes, ele se engajou na luta contra os alemães, cometendo pequenas sabotagens e pegando em armas, até ser preso pela Gestapo. A Cor da Coragem / Julian Kulski / Valentina / 416 páginas / R$ 59,90






A seis mãos

Romance adolescente escrito a seis mãos por três jovens escritores, sobre três jovens de cidades diferentes, que em algum momento se cruzam, se apaixonam, se confundem, se magoam e, eventualmente, fazem seu ritual de passagem à idade adulta. O Verão Em Que Tudo Mudou / Vinícius Grossos, Gabriela Freitas e Thaís Wandrofski / Faro Editorial / 304 páginas / R$ 44,90






Funky soul bróder

Um dos pilares da cena independente local, Irmão Carlos abafa geral na estreia solo em álbum pleno de suíngue e colaboradores de primeira linha. Ouça: Eu Sei do Movimento, Engrenagem da Ilusão (com IFÁ Afrobeat) e E Quando Eu Acordar (com Eric Assmar). Irmão Carlos / Irmão Carlos / Brechó - BigBross - São Roque / R$ 20






Bela e talentosa

Finalmente, em seu terceiro álbum, a banda norte- americana liderada pela cantora e atriz Taylor Momsen (Gossip Girl) diz a que veio. Hard rock vintage (de estilo sulista às vezes) de boa cepa. Ouça Back to the River e Take Me Down. The Pretty Reckless / Who You Selling For / Universal Music / R$ 29,90







Rumbora solo surpreende

Ex-Rumbora, Alf Sá estreia solo em um álbum pop rock de notável consistência. A faixa-título abre o disco e ganha o ouvinte na manha, aliando a batida dançante com a bela voz do cantor. Quando Tudo Se Desfaz e Mandinga também já valem o CD. Alf Sá / Você Já Está Aqui / Hearts Bleed Blue / R$ 19,80







Na linha de frente estelar

Ambientado durante a batalha que se seguiu à destruição da primeira Estrela da Morte (Episódio IV), este romance mostra a dura rotina dos soldados da Companhia do Crepúsculo, tropa rebelde na linha de frente da guerra contra o Império. Um olhar mais humanista para Star Wars. Star Wars Battlefront: Companhia do Crepúsculo / Alexander Freed / Aleph / 424 páginas / R$ 49,90






Clássico recriado

Clássico do cinema expressionista alemão,  O Gabinete do Doutor Caligari (1920), de Robert Wiene, é recriado frame a frame nesta HQ (com cara de storyboard, mas tudo bem) do artista gráfico paulista Alexandre Teles, por meio da técnica da monotipia. Uma viagem bela e sombria. Caligari! / Robert Wiene, Hans Janowitz, Alexandre Teles / Veneta / 336 páginas / R$ 69,90






Sujeira na gravata

Especializado em thrillers jurídicos, John Grisham volta às livrarias com mais um romance de seu melhor personagem, o advogado de porta de  cadeia Sebastian Rudd. Aqui, o malandro dos tribunais se move entre diversos casos escabrosos, enquanto tenta dar um jeito na vida pessoal. O advogado rebelde / John Grisham / Rocco / 400 p. / R$ 39,50






HC melódico ainda vive

Em seu segundo álbum, o  quarteto paulista de hardcore melódico Dinamite Club manda bem com uma boa dinâmica nas levadas velozes e riffs cortantes. O chato são as letras, muito na linha “autoajuda fofa”. Dinamite Club / Nós Somos Tudo O Que Temos / Hearts Bleed Blue / R$ 24,80







Estética da fome

Em três faixas, o trio paulista Giallos traduz a miséria em que o Brasil está afundado em um som sujo, industrial, minimalista e abafado: “Nunca fui num velório de menino morto pela polícia / Mas sei que ele existe”. Giallos / Blaxxxploitation / Independente / www.giallos.bandcamp.com







Erudito contemporâneo com prazer

Trilha sonora do compositor alemão Max Richter para um balé inspirado em três livros de Virgina Woolf: Mrs. Dalloway, Orlando e As Ondas. Piano e quinteto de cordas em  suspensão (e beleza) permanentes. Max Richter / Three Worlds: Music From Woolf Works / Universal / R$ 27,90






Investigadora linha-dura

Romance policial brasileiro de autora sob pseudônimo (questão de segurança, garante a editora), Bom Dia, Verônica segue a personagem do título em uma dupla investigação: o suicídio de uma jovem e o desaparecimento de outra. Baseado na experiência da autora, ex-investigadora. Bom Dia, Verônica / Andrea Killmore / DarkSide Books / 256 p. / R$ 49,90






Uma donzela no trono do império

Foi no reinado de Elizabeth I (1533 - 1603) que a Inglaterra se tornou a grande potência política, econômica e cultural do Ocidente no século XVI. Aqui, uma envolvente biografia assinada pela jornalista inglesa Lisa Hilton sobre a Rainha Virgem, como ficou conhecida. Elizabeth I: Uma biografia / Lisa Hilton / Zahar/ 416 páginas/ R$ 69,90 / E-book: R$ 44,90







Impossível não amar

Uma das melhores séries em quadrinhos da atualidade, Saga é uma deliciosa mistura de Star Wars, Romeu & Julieta e sitcoms familiares, com sua história sobre um casal de soldados de duas raças em guerra que se apaixonam, tem uma filha e são obrigados a fugir pela galáxia. Nesta edição, Marko tem um caso extraconjugal e Alana se vicia na droga da moda. Saga – Volume 4 / Brian K. Vaughan e Fiona Staples / Devir / 152 páginas / R$ 65






Psicodelia carioca

Figura carimbada do indie rock carioca, Lê Almeida abre Mantra Happening com Oração de Noite Cheia, baita trip psicodélica de 15 minutos, coisa de deixar o saudoso Júpiter Maçã orgulhoso. E olha que é só a primeira faixa... Lê Almeida / Mantra Happening / Independente /  www.lealmeida.bandcamp.com







Tendência consolidada

O afrobeat pegou mesmo no Brasil – demorou, né? De São Paulo, a Èkó Afrobeat quebra tudo em dez faixas: cinco canções e cinco instrumentais. Tem Chico Science (Macô), reggae (Mulher Negra), funk (Não Tem Como) etc. Sonzera. Èkó Afrobeat / Èkó Afrobeat / Independente / Preço não informado