terça-feira, outubro 09, 2018

"TUDO TENSO NOS LUGARES, NOS BARES, NAS RUAS"

Tesouro enterrado do rock baiano volta à superfície no inédito Cravo Negro ‘92

Luisão, Marcos, Cau e Artur na foto de Haroldo Abrantes
Um capítulo esquecido do glorioso rock baiano dos anos 1990 acaba de surgir nas plataformas digitais: Cravo negro ‘92, disco nunca lançado pela banda então liderada pelo indefectível Luisão Pereira, hoje mais conhecido pela banda Dois Em Um e pela passagem pela banda Penélope.

Luisão, para quem não sabe, formou a Cravo Negro ainda nos anos 1980 e com ela gravou dois discos.

Apenas um foi lançado (em LP de vinil, hoje raro). Este outro, gravado em 1992 e até outro dia engavetado, é o segundo.

Para os fã do rock local, há diversas razões para ouvir o disco com atenção.

Na época, a formação contava com Luisão na guitarra, Marcos Moraes (bateria), Cau Barreto (baixo) e Artur Ribeiro (vocais).

Artur, hoje aos 60 anos e na Theatro de Seraphin, é uma lenda viva do rock baiano e um de nossos melhores letristas desde sempre.

À época, ele tinha acabado de sair de outra grande banda da época, a Treblinka, com a qual havia gravado o antológico Indução Hipnótica (1990), uma joia punk funk noise.

"O Cravo Negro começou em 1987, daí fomos convidados para participar da coletânea Conexão Bahia (com as bandas de rock da Bahia da época). Depois participamos da coletânea Rock 96, que foi um disco de uma rádio rock daqui de Salvador que tocava bandas locais. Na sequência, começamos a pensar no primeiro LP. Fizemos uma especie de crowdfunding analógico, com cupons de vale-disco e show de lançamento de recompensa, e deu certo. Em 1990 lançamos o primeiro disco. A formação até então era Carlinhos (voz e guitarra), Cau Barreto (baixo), eu (guitarra e voz) e Marcelo Brasil (bateria)", relata Luisão.

“Em 1990 lançamos (a Cravo Negro) o primeiro disco. Mas não fiquei feliz com o resultado. Eu era fã do Treblinka, banda que Artur cantava e compunha. Eu já tinha feito umas três músicas em parceria com ele e ate toquei guitarra em uma faixa do Indução. Ficamos amigos e um dia ele chegou lá em casa e contou que o pessoal tinha posto ele pra fora da banda. Não pensei duas vezes e o convidei pro Cravo Negro”, relata.

Na época, a entrada de Artur na Cravo consolidou a transição da banda dos anos 1980 para os 90, com uma virada no som.

“Sim, foi uma banda que mudou quase tudo, menos o nome. Estávamos influenciados pelo surgimento da Úteros em Fúria (que fez uma de  suas primeiras apresentações na abertura de um show do Cravo) e partimos pra um som mais pesado, visceral, que combinasse com as letras de Artur”, relata Luisão.

“A entrada também de Marcos Moraes na bateria fez uma diferença incrível pra sermos mais coesos enquanto banda”, acrescenta.

Cravo Negro, foto Haroldo Abrantes
O resultado que se ouve nos fones é um híbrido muito interessante da poética melancólica / raivosa 80’s de Artur com um som mais pesado e funkeado, na linha das bandas que surgiam então, como a já citada Úteros em Fúria.

Um exemplo espetacular é a faixa Como Atravessar a Rua e Não Cair na Primeira Esquina, que combina uma levada suingada com uma letra que, infelizmente, soa atual como nunca: “Solto a voz a alma tensa, o corpo dói mas o nervo aguenta / Vou reagir a apatia, meu mundo cai n’outra armadilha / Tudo tenso no lugares, nos bares, nas ruas / Tudo calmo nos lugares, nos apartamentos da cidade / Como saber se há perdão, se vamos poder sair ou não / Do labirinto da solidão que nos abraça em confissão?”.

“Acho que as letras de Artur sempre foram ímpares dentro do rock baiano. ele é um poeta / cronista sensacional”, diz.

Selo Festim, Peu Sousa

Gravado em apenas quatro dias no Estúdio Tapwin, Cravo Negro ‘92 não foi lançado à época por conta de uma prática muito comum naqueles dias: a enrolação das gravadoras.

“Na época havíamos acertado de lançar pela Radical Records, uma gravadora de São Paulo. O pessoal enrolou muito e acabou não saindo. Ficamos com as masters, mas naquele tempo era quase impossível lançar sozinho”, diz.

“Agora em 2018 criei o selo Festim. Lançamos uma caixa com a discografia do sambista Ederaldo Gentil, dois discos de trilha sonora que compus (para os filmes Um Casamento e Negros, ambos de Monica Simões) e temos mais dois lançamento previstos para este semestre. Quando re-escutei o Cravo Negro, tive a certeza que devia lança-lo também”, diz.

"O Tapwin era considerado 'o segundo melhor estúdio da Bahia', mas eu entrei com uma certeza grande que iríamos tirar o melhor som possível pra época, o que acabou acontecendo. Como já fazíamos alguns shows com um cache razoável, conseguimos juntar uma grana e a própria banda acabou pagando o estúdio. Fernando Gundluch (engenheiro de som do disco) abraçou o projeto com a gente também. O que viabilizou também foi que gravamos as bases da banda ao mesmo tempo e finalizamos tudo em quatro dias", lembra.

Outra curiosidade do disco é que ele registra a primeira gravação do saudoso guitarrista Peu Sousa (morto em 2013), com passagens brilhantes pela Dois Sapos & Meio e Pitty, na faixa Na Boca dos Leões.

“Guardei comigo as fitas originais e também os slides com a sessão de fotos da época, feitas por Haroldo Abrantes. Dai estava dando uma entrevista sobre Peu e lembrei que neste disco foi a primeira vez que ele entrou num estúdio de gravação. Me surpreendi com o resultado daquele material gravado ha 26 anos atrás. Chamei Artur pra escutar e resolvemos lançar. Inclusive, ele já estava mixado da época. foi preciso apenas uma masterização para o digital”, detalha.

"Por enquanto não faremos nenhum evento presencial para o lançamento. O disco está disponível nas principais lojas virtuais: Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play, Napster, Shazam, Tidal, YouTube Music, dentre outras. Talvez haja uma possibilidade, assim como foi com o primeiro disco, de lançar uma versão em vinil", conclui.

Cravo Negro ‘92 / Cravo Negro / Selo Festim / Disponível no Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play, Napster, Shazam, Tidal, YouTube Music

NUETAS

Beatles for Kids

Neste dia das crianças, a banda cover Five Beatles faz matinê especial do espetáculo  The Beatles for Kids, especialmente para a garotada conhecer (e gostar) dos Fab  Four. Sexta-feira, 15 horas, no Portela Café – Rio Vermelho. R 30 (no Sympla) e R$ 40.

Mizeravão Groove

Quem também marca presença no dia 12 é a banda Os Mizeravão, mas essa festa é para os adultos. Além dos Mizera, também se apresenta a banda cover de Mamonas Assassinas Arlindjos Homis. Groove Bar, 22 horas, R$ 20.

Matanza: a saideira

A turnê de despedida da banda carioca Matanza passa por Salvador e Serrinha. Aqui é sábado, 20 horas, no Alto do Andu (Paralela). R$ 62 + 1 quilo de alimento (Sympla).

Domingo de volta


Tradicional reduto alternativo soteropolitano, o Domingo de Cabeça pra Baixo está de volta já neste fim de semana. No palco:  Irmão Carlos, Coquetel Banda Larga e Trincados. Destaque para o anfitrião funk soul brother Carlinhos e a banda Trincados, que reúne novos talentos como Thiago Ronco e Duda Spínola detonando clássicos do rock baiano. Domingo, no  Espaço Cultural Dona Neuza (Marback, setor 2) 16 horas, R$ 10 e R$ 5. Gratidão ao Edital ArteTodo Dia (Fundação Gregório de Mattos).

sábado, outubro 06, 2018

NÓS (LÁ ELES) SOMOS VENOM

Estreia: Vilão do Homem-Aranha, Venom ganha seu próprio filme – sem direito a ter um antagonista à altura para chamar de seu. O resultado é pífio e divertido. Ninguém esperava nada diferente, mesmo 

"Quem é dentuço? Repete se tu for homem"
Um dos maiores homens sábios deste país já dizia há quase um século: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”. A frase, do imortal Barão de Itararé, resume bem a maior estreia cinematográfica da semana: Venom, produção da Marvel via Sony Pictures.

Estrelada pelo ótimo Tom Hardy (Mad Max: Estrada da Fúria), Venom traz como protagonista às telas de cinema não um herói, mas um vilão oriundo das HQs do Homem-Aranha.

E antes que alguém pergunte: não, o Teioso não aparece no filme. Ah, mas por que?

Nossa, é complicado, mas vamos lá.

Nos anos 1990, então à beira da falência, a Marvel vendeu os direitos cinematográficos de alguns de seus personagens para grandes estúdios de Hollywood.

A Fox “comprou” os X-Men e o Quarteto Fantástico. A  Sony comprou o Homem-Aranha. Detalhe crucial: quando um estúdio “compra” um personagem, leva junto todo o seu universo: vilões, aliados etc.

Michelle Williams e Tom Hardy como Annie e Eddie Brock
Sob a batuta da Sony, o Homem-Aranha estrelou cinco filmes entre 2002 e 2014: três estrelados por Tobey Maguire e dois por  Andrew Garfield.

Venom inclusive já havia aparecido em Homem-Aranha 3 (2007), vivido por Topher Grace (o bobão Eric Forman, da série That 70’s Show).

Mais de uma década depois de vender esses personagens, a Marvel, já recuperada, criou seu próprio estúdio e lançou em 2008 seu primeiro filme, Homem de Ferro (2008).

De lá para cá, conquistou o mundo de vez com seu universo narrativo compartilhado, no qual coabitam os Vingadores, os Guardiões da Galáxia etc.

Depois disso, a Sony acabou entrando em acordo com a Marvel Studios e liberou – “emprestou” – o Homem-Aranha para aparecer em filmes como Capitão América: Guerra Civil, Vingadores: Guerra Infinita e até no solo Homem-Aranha: De Volta Para Casa.

Tudo indicava que a Sony tinha largado o osso, mas que nada: vendo o sucesso e o apelo que o Escalador de Paredes ainda tem, logo começou a desenvolver novos produtos em um universo Marvel à parte relacionado ao Aranha.

De onde menos se espera...

"O senhor poderia virar só um pouquinho pra lá? Esse teu bafo é de matar"
E aí finalmente chegamos à Venom.

A ideia do filme é esdrúxula por si só: um vilão sem seu nêmesis – o Homem-Aranha, ainda emprestado à Marvel, que já prepara um segundo filme do personagem.

Daí a frase lá do primeiro parágrafo se aplicar tão bem à situação deste filme: ninguém esperava muito dele mesmo.

Isso quer dizer que é um filme horrível, como muitas críticas já decretaram por aí? Nem tanto, aí depende das expectativas de cada um.

Quem procura uma mera diversão pipoca para passar tempo e dar boas risadas sem pensar muito em furos de roteiro – ou mesmo o quão primário este parece ser – pode cair dentro de Venom sem medo.

É tão “bom”  quanto o último filme da franquia Predador, por exemplo: ação e diversão descerabradas para desopilar o fígado em um fim de semana especialmente tenso.

Roteiro primário

Criado por David Michelinie e Todd MacFarlane ainda nos anos 1980, Venom surgiu nos quadrinhos como uma versão anabolizada, sombria e maléfica do Homem-Aranha.

O personagem é basicamente uma gosma alienígena senciente que na Terra só consegue viver de forma plena quando em simbiose com outro ser vivo: seres humanos, gatos, cachorros etc.

Fez imenso sucesso entre os leitores e ganhou inúmeras versões “hospedeiras” ao longo das décadas.

Agora, no filme de Ruben Fleischer (Zumbilândia), Venom é encarnado pelo seu primeiro e mais clássico hospedeiro das HQs: o jornalista Eddie Brock (Hardy).

Eddie Brock entrevista Carlton Drake (Riz Ahmed)
Vivendo em São Francisco depois de se envolver em um escândalo em Nova York, Brock até que leva uma vida boa na Costa Oeste, trabalhando em um site de notícias no qual ele é a estrela do momento e namorando a bela Annie (Michelle Williams).

Esta é advogada a serviço de  uma megacorporação tecnológica, a Fundação Vida, dirigida com mão de ferro pelo ambicioso Carlton Drake (Riz Ahmed). Este é quem tem em seu poder a tal gosma senciente que vem a ser Venom.

Eventualmente – não vamos estragar (mais) o filme com spoilers – Brock entra em contato com Venom e se torna seu hospedeiro.

Os principais problemas de Venom são dois.

O primeiro é o roteiro: o indigitado é tão primário e cheio de clichês que parece ter sido escrito a partir de um template (modelo) básico ensinado na disciplina inicial de alguma faculdade de cinema.

O segundo problema que realmente incomoda em Venom é que o protagonista simplesmente não tem um vilão à altura. Este, quando aparece, é praticamente nos vinte minutos finais da película – e quase não diz a que veio.

O que se salva, então? Tom Hardy, muito divertido e engraçado – tanto solo, quanto possuído por Venom. E a ação em si, razoavelmente bem orquestrada entre perseguições pelas ladeiras de São Francisco (Bullit, alguém?) e os confrontos super-humanos de praxe.

"Me beija como se não houvesse amanhã!"
Resumo: assista por sua conta e risco, mas não espere nada tão bem feito quanto os filmes mais recentes da Marvel. Ah, aguarde até o final dos créditos: há duas cenas indicando os próximos passos do universo Marvel da Sony.

Venom / Direção: Ruben Fleischer / Com Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Scott Haze e Reid Scott / Em cartaz: Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shopping Salvador Norte, Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela / 110 minutos / Classificação indicativa 14 anos

sexta-feira, outubro 05, 2018

REDUTO LIBERTÁRIO HISTÓRICO DO ICBA É PALCO PERFEITO PARA IFÁ E LAZZO

Projeto TOCA!, realizado no pátio do Instituto Cultural Brasil Alemanha (ICBA), traz o encontro imperdível da banda IFÁ com o cantor Lazzo. No repertório, sucessos do segundo e o suingue do IFÁ

IFÁ, foto Fernando Gomes
Uma das melhores novidades da música baiana desta década se encontra com um dos maiores cantores que esta terra já ouviu: é hoje, é imperdível, é a banda IFÁ convida Lazzo no pátio do Instituto Cultural Brasil Alemanha (Corredor da Vitória).

O encontro, que promete ser histórico, acontece na série de shows TOCA!, que já trouxe Jaloo (PA) e Ana Muller (ES) ao mesmo espaço.

Até o fim do ano  estão previstas ainda as atrações Francisco El Hombre (SP, dia 26), Ronei Jorge e Tuyo (PR) dia 23 de novembro, Metá Metá no dia 30 seguinte e um encerramento em 12 de dezembro, atração a ser definida.

Mas hoje a night é de IFÁ e Lazzo, encontro que traz muita felicidade aos membros do octeto, fãs de longa data do cantor: “Já tivemos a experiência de tocar com Lazzo em Salvador anos atrás. Era um sonho pra gente dividir o palco com ele. Recentemente, o Sesc - SP nos convidou pra um espetáculo e convidamos Lazzo e Gabi Guedes. Ali nascia o projeto”, conta o baixista Fabricio Mota.

“Como desdobramento, estamos produzindo com ele uma faixa e recebendo  convites pra mostrar o show em outras cidades”, acrescenta.

Punhos ao alto

No palco, Lazzo e IFÁ tocarão juntos alguns sucessos do primeiro: “O show é um encontro de gerações da música feita na Bahia. Uma honra, um momento de reverência e parceria com um artista que é ao mesmo tempo inspirador e nosso contemporâneo”, afirma.

“Nessa edição, Lazzo figura como convidado cantando algumas músicas de sucesso, em momentos específicos do espetáculo. Os demais ficam por conta do groove do IFÁ”, detalha Fabrício.

Além da música em si, que certamente será celestial, o show de hoje ganha ainda mais significado pelo momento e pelo local em que acontece: às vésperas de uma eleição que poderá ter graves reflexos no futuro do país – e no mesmo ICBA que no anos 1970 era reduto de artistas e pensadores progressistas.

“De imediato topamos embarcar no fortalecimento de um espaço que tem tanta importância como cenário de resistências e lutas anti-ditadura. Não podemos esquecer, por exemplo, que o Movimento Negro teve no ICBA um território de livre expressão e organização do Núcleo de Cultura Afro Brasileiro, essencial na reestruturação do ativismo negro em plena década de 70”, diz Fabrício.

“Pra nós vai ser uma experiência muito forte,  afinal atravessamos um momento angustiante com o ressurgimento de candidaturas fascistas, redução de direitos sociais e novas investidas contra a liberdade de expressão. Estamos do lado de quem ainda tem coragem de lutar pela dignidade, pela cidadania e pela liberdade”, conclui.

TOCA! apresenta: IFÁ convida Lazzo Matumbi / Hoje, 20 horas / Pátio do Goethe-Institut / R$ 40 e R$ 20 / Lote 2: R$ 50 e R$ 25 / Vendas: sympla

*Programação TOCA! 2018.2:*

- 14/09: Jaloo (PA)
- 28/09: Ana Muller (ES)
- 05/10: IFÁ (BA) convida Lazzo Matumbi (BA)
- 26/10: Francisco El Hombre (SP)
- 23/11: Ronei Jorge (BA) e Tuyo (PR)
- 30/11: Metá Metá
- 14/12: encerramento (atração a definir)

ENTREVISTA COMPLETA: IFÁ

Como vai ser o show? É a banda e Lazzo juntos o show inteiro ou Lazzo só faz uma participação em algumas musicas? É grande a satisfação dessa parceria com ele?

Fabricio Mota: O show é um encontro de gerações da música feita na Bahia. Uma honra, um momento de reverência e parceria com um artista que é ao mesmo tempo inspirador e nosso contemporâneo também. É uma das mais belas lições que aprendemos com Lazzo: estamos no mesmo barco! Nessa edição, Lazzo figura como um convidado cantando algumas músicas de sucesso, em momentos específicos do espetáculo. Os demais ficam por conta do groove do IFÁ. É sempre uma satisfação tocar com o mestre Lazzo Matumbi. Um dos maiores cantores do Brasil, Uma página rica de nossa História da música.

Lazzão, foto Djalma Salntos
Como surgiu essa parceria com Lazzo? Ela pode se estender para outros projetos ou fica só nesse show mesmo?

Fabricio Mota: Essa apresentação faz parte de um projeto nosso, o ANCESTRALIDADES. A ideia é convidar ícones da música negra, pessoas cuja trajetória influenciou nosso trabalho, nossa formação. Já tivemos a experiência de tocar com Lazzo em Salvador anos atrás. Era um sonho pra gente dividir o palco com ele. Recentemente, o SESC SP nos convidou pra um espetáculo e convidamos Lazzo e Gabi Guedes. Ali nascia o projeto. Como desdobramento, estamos produzindo com ele uma faixa e recebendo outros convites pra mostrar o show em outras cidades. A ideia é levar esse encontro pra outros espaços, fortalecendo o trabalho construído por ele nesses anos todos.

O primeiro disco da IFÁ saiu em 2015. Já há planos para o segundo disco da banda? Qual a previsão?

Jorge Dubman e Fabricio Mota: Nosso primeiro álbum instrumental é de 2016, o IJEX∆•FUNK•∆FRØBE∆T. Vamos lançar um single nas próximas semanas, chamado "Manifesta" que sairá pelo selo Microgrooves em vinil (compacto 7"). Ele vem puxando outras faixas que vão compor um novo disco autoral a ser lançado no próximo ano, seguramente. Como sempre, deixamos a música definir o ritmo das coisas...

O show é no ICBA, que tem na sua história o fato de ter sido um reduto de liberdade artística e intelectual nos anos mais difíceis da ditadura militar. É simbólico termos essa série de shows neste espaço neste momento?

Fabricio Mota: Sem dúvidas!! Quando recebemos o convite pensamos exatamente nesse significado! De imediato topamos embarcar no fortalecimento de um espaço que tem tanta importância deste como cenário de resistências e lutas anti-ditadura. Não podemos esquecer, por exemplo, que o Movimento Negro teve no ICBA um território de livre expressão e organização do Núcleo de Cultura Afro Brasileiro, essencial na reestruturação do ativismo negro em plena década de 70, até a criação embrionária do que seriam as comemorações ao redor da data histórica do 20 de novembro.  Pra nós vai ser uma experiência muito forte, sem dúvidas, afinal atravessamos um momento muito angustiante com o ressurgimento de candidaturas fascistas, com a redução de direitos sociais, com novas investidas contra a liberdade de expressão. Por outro lado, estamos do lado de quem ainda tem coragem de lutar pela dignidade, pela cidadania e pela liberdade! Esse show, seguramente vai ser marcante pra todo mundo!

Como está o movimento da IFÁ? Tem feito shows pela Bahia e fora dela?

Jorge Dubman e Fabricio Mota: A IFÁ está sempre em movimento. Desde o final de 2017, estamos tocando em alguns circuitos fora de salvador, a exemplo dos festivais em Brasília e Rio de Janeiro (Circo Voador), Recife (Porto Musical e Rec Beat), em São Paulo no consagrado palco do Instrumental Sesc Brasil e Sesc Pinheiros com a participação de Lazzo e Gabi Guedes. Nessas idas e vindas, aqui em salvador produzimos o "IFÁ & Negra Força Feminina" que nessa edição contou com as participações da Luedji Luna e a Tássia Reis (SP), e o baile Manifesta. Mas, buscamos concentrar nossas energias aqui no estado por uma questão de viabilidade mesmo. Sentimos, como artistas, o peso que a crise provocada no cenário político brasileiro nos trouxe nos últimos anos, e como os cortes nas áreas da cultura afetam as possibilidades de interação e integração do nosso trabalho no país e fora dele. Por outro lado, seguimos fortalecendo parcerias e fechando propostas que comportem nossa big band em alguns festivais nos próximos meses e no ano que vem. Não ficamos parados! Estamos sempre buscando circular e divulgar a nossa música, um trabalho que tem o seu lugar na cena da música baiana e no  Brasil.

terça-feira, outubro 02, 2018

QUEM NÃO TÁ DOIDO NÃO ESTÁ ENTENDENDO NADA

Professor Doidão & Os Aloprados lança segundo manifesto: A Vida é uma Doideira

Juliana, Isaac, Mateus e Lucas em foto de Marcelo Moraes
Vamos ser francos? A coisa tá tão fora de controle que quem não está à beira da loucura não está entendendo nada.

Mas calma, amiguinhxs! Temos a solução!

Siga nosso sábio guru Isaac Fiterman, o Professor Doidão e sua banda, Os Aloprados.

Psicólogo de formação, aos 56 anos, o Professor distribui lições de vida à la maluco beleza para todos os lados em suas músicas.

Agora, Isaac e seus fieis aprendizes  Juliana Rosa (baixo e backing vocal), Lucas Kelsch (guitarra e backing vocal) e Mateus Gomes (bateria) se preparam para lançar seu segundo trabalho, o EP A Vida é Uma Doideira.

No You Tube já é possível curtir o clipe do primeiro single, Pela Estrada – uma delícia neohippie de riff marcante, muito tchap-tchura e direito até a uma Kombi psicodélica.

Fiel ao espírito estradeiro, esta semana o quarteto está em São Paulo, tocando pelas ruas e em points underground.

“Faremos um evento na Rádio Planet Music em Santo André e gravaremos nosso segundo clipe, com a música Lembranças. O evento de lançamento é no próximo dia 5 (sexta-feira), na Escotilha Casa de Cultura e Artes”, conta Isaac.

O tesão move o mundo

O Professor Doidão em transe, foto Marcelo Moraes
Em A Vida é Uma Doideira, o Professor Doidão & Os Aloprados seguem basicamente a mesma linha hippie rock do primeiro EP, Quero Reunir os Meus Mundos (2014), mas agora com mais... método.

“Em relação ao anterior, é um EP com mais qualidade e melhor elaborado, sem perder de vista o nosso estilo hippie rock. Continua sério e divertido ao mesmo tempo”, afirma.

"Também marca a despedida de nosso mestre Tony Lopes e da nossa doce backing vocal, Eliana Assumpção, que partiram pra novas  empreitadas, respectivamente a Bardos Bardos e o Pão de Mel  da Liliu", acrescenta.

Aos 56 anos, é quase sempre a pessoa de mais idade nos shows que comanda.

“Quando faço shows, olho em volta e vejo que sou o mais experiente – seja na banda, no público ou da equipe do estabelecimento que sedia o evento. Isso me move. O tesão move o mundo e eu continuo querendo gozar, mas não sozinho. Continuo acreditando no fazer arte como fonte da juventude”, diz.

Se essa lição de vida não foi o bastante para você, seguem mais duas: “Os tempos sombrios que vivemos não nos podem intimidar. Precisamos reagir com a arma que temos, que é a arte. Levamos alegria (sem alienação) com letras sérias e impactantes como em Fake e Mundo Cão. Mesmo que o momento fosse feliz, acredito que nós continuaríamos na mesma pegada pra não deixar a peteca cair”, conta.

Fiel ao ideário raulseixista, o Professor Doidão conclui: “’Nunca é tarde quando se tem a noite’, porque ‘sonhar não é loucura, é acreditar no que se procura’”.

Palavras de salvação.

www.facebook.com/professordoidao



NUETAS

Thiago Trad hoje

O ex-Cascadura Thiago Trad faz show de lançamento do seu álbum solo Moscote hoje, na Sala do Coro do TCA. 20 horas, R$ 30 e R$ 15. 

IFÁ com Lazzo sexta

O projeto TOCA! do Instituto Goethe  apresenta IFÁ convida Lazzo Matumbi. Tá bom ou quer mais? Pátio do Goethe-Institut, sexta-feira, 20 horas. R$ 40 e R$ 20.

Eddie com Radio Mundi

O Intercenas Musicais bota  Eddie e RadioMundi no palco do Largo Tereza Batista. Sexta, 20h30. R$ 20 e R$ 10

Ódio e Tiro sábado

Punk rock com Todo Meu Ódio e Tiro Na Rótula: sábado, 19 horas, no Buk Porão,  R$ 5.

domingo, setembro 30, 2018

SHOWS E OFICINAS GRATUITAS ENCERRAM FESTIVAL MA_SSA HOJE E AMANHÃ

Parque Solar Boa Vista recebe último fim de semana do Festival MA_SSA com Rael, Pirombeira, Radio Mundi e Zuhri


Vince de Mira e DJ Mangaio: Radio Mundi, foto David Campebell 
Espaço histórico importante, o Parque Solar Boa Vista precisa e deve ser ocupado por quem de direito – a saber, o povo.

Ótima iniciativa, portanto, a do Festival MA_SSA, que ocupou o local nos fins de semana de setembro e que hoje e amanhã chega ao grand finale  com shows grátis do rapper Rael (SP), Canela Fina, Psit Mota, Pirombeira, Radiomundi, Zuhri e Bloco Afro Mirim Okanbi.

Realizado por uma parceria entre empresas públicas e privadas via Fazcultura (Secretarias da Fazenda e de Cultura), o MA_SSA ainda oferece ao longo de todo o dia atividades como oficinas de Dança Urbana (com Milena Lacerda), Discotecagem (DJ Jarrão), Basquete (Basquete na Praça), Slackline (Slackline Salvador) e Jogos e Improvisação Cômica (Nariz de Cogumelo) etc.

Atração principal que fecha o festival amanhã, Rael deverá reunir boa parte da comunidade rapper local. Em boa fase, o paulista ainda encaixou duas outras apresentações na Bahia: ontem ele esteve em Vitória da Conquista e hoje em Feira de Santana.

Rael em foto Jorge Bispo
“Não tenho sempre a oportunidade de ir a Bahia, então é a chance de fazer uma grande celebração, esse é o clima”, afirma o artista, por email.

Sem atmosfera de balada

No show, Rael será acompanhado pelo DJ Soares. “A tour leva o nome do disco Coisas do Meu Imaginário (2018), mas tem músicas mais antigas, sim, a gente repassa a carreira desde o início. E tem um momento voz e violão também, em que toco músicas minhas com outros artistas, tipo Emicida, Criolo, Kamau etc”, conta.

Satisfeito por vir à Bahia, o rapper ficou ainda mais contente ao saber que se trata de um show aberto ao público: “Melhor que isso não tem, né? Tem o fato também de ser em um parque, essa ideia de as pessoas ocuparem o espaço público, que é delas na verdade, me deixa muito feliz”.

“E aí a possibilidade de receber famílias inteiras, com crianças, sair um pouco da atmosfera de balada, me agrada muito. Curto muito fazer show em Salvador, de verdade. Não é um lugar onde consigo estar todo mês, mas sempre que estou é muito especial, são shows quentes, plateia animada cantando tudo”, afirma.

"Estive no Carnaval este ano, cantei no Pelourinho, cantei no trio da Margareth Menezes com ela, foi muito especial, inesquecível, tenho um carinho muito especial por Salvador. Desta vez na verdade, chego à Bahia nesta sexta pra cantar em Vitória da Conquista, sábado em Feira de Santana e domingo em Salvador. É uma minitour que me deixa muito feliz",  acrescenta.

Com uma cena de rap cada vez mais notada Brasil afora – vide os dois prêmios recebidos por Baco Exu do Blues esta semana no Prêmio Multishow – a Bahia está no radar de Rael há algum tempo: “Fico feliz de ver o rap da Bahia conquistando o Brasil. Do Nordeste vieram nomes essenciais para a história do rap, mas muitas vezes só chega para a  maioria das pessoas o que está no circuito Rio-SP. Que bom que as coisas estão mudando”, diz.

Banda Zuhri, foto André Fofano
“Acho a BaianaSystem uma das coisas mais impressionantes da música brasileira dos últimos tempos. O disco é bom, mas o show tem uma energia que não dá pra explicar. Eu tive a oportunidade de estar no trio deles no último Carnaval aí em Salvador e fiquei muito impressionado, incrível a força que tem a música deles”, afirma.

Sobre a complicada situação política  do Brasil, Rael parece manter o espírito elevado: "Apesar de tudo, sou otimista. Quem nasce na quebrada sabe desde pequeno o que é adversidade e aprende a lidar com ela. Estou esperançoso de que após esse doloroso período conseguiremos ver a democracia fortalecida, sem espaço para intolerância, preconceito e violência", conclui.

Festival MA_SSA / Hoje e amanhã, Atividades ao longo de todo o dia / Shows Rael, Pirombeira, Radiomundi, Zuhri e Bloco Afro Mirim Okanbi domingo, a partir das 17 horas / Parque Solar Boa Vista (Engenho Velho de Brotas) / Gratuito

sexta-feira, setembro 28, 2018

DADO VILLA-LOBOS: "SHOW DA LEGIÃO, SEMPRE UMA NOVA EMOÇÃO"

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá trazem show com repertórios completos do Dois e Que País É Este amanhã, na Concha  Acústica

Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos agora. Foto Fernando Schlaepfer
Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante, o rock brasileiro estava na linha de frente entre as vozes que clamavam por democracia e justiça social no Brasil que apenas despertava de um  transe de 20 anos causado pelo marchar de coturnos e a novela das oito.

Amanhã, quase ao mesmo tempo em que milhares de pessoas voltarão às ruas em todo o Brasil para protestar contra uma volta à este passado obscuro, dois remanescentes da Legião Urbana, uma das principais bandas daquele período, voltarão ao palco da Concha Acústica.

No repertório, a fúria e o afeto de dois de seus principais discos: Dois (1986) e Que País é Este (1987).

No palco, os membros originais Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria).
Ao lado deles, o ator e cantor André Frateschi, Lucas Vasconcellos (guitarra), Roberto Pollo (teclados e programações) e Mauro Berman (baixo).

Intitulado Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocam Dois + Que País é Este, o show é parte da segunda turnê deste grupo. Na primeira, em 2015, comemoraram os trinta anos de lançamento do primeiro álbum, Legião Urbana (1985).

Encalacrados em uma feroz – e aparentemente interminável – pendenga jurídica com Giuliano Manfredini, filho e herdeiro de Renato Russo, Dado e Bonfá se encontram impedidos de usar o nome Legião Urbana na promoção dos próprios shows.

Nesta entrevista por email, Dado Villa-Lobos, aos 53 anos, fala do prazer de voltar a tocar estes repertórios ao vivo, da permanência das canções da Legião junto ao público e da inquietude que sente nestes dias tão estranhos.

ENTREVISTA: DADO VILLA-LOBOS

Como é o show? Os repertórios dos dois álbuns são tocados na íntegra ou há uma seleção das faixas mais significativas?

A Legião Urbana original em 1980 e poucos, foto Ricardo Junqueira
Dado Villa-Lobos: Esse show comemora os trinta anos do Dois e Que País é Este, a direção musical é do nosso baixista e maestro Mauro Berman que entendeu que deveríamos tocar todas as músicas dos dois discos fora da sequência e em blocos privilegiando a dinâmica das canções. Ficou demais, é isso que sinto. É muita história!

Esse grupo recrutado por você e Bonfá  está junto há algum tempo e tem já alguma experiência tocando juntos. Como avalia a evolução da banda nesse tempo?

DV-L: A banda me acompanha em carreira solo há tempos, então foi muito simples e tranquila a adaptação ao repertório da Legião. A primeira tour foi uma experiência avassaladora para todos nós. Voltei a entender essas músicas como nunca antes, voltei um músico definitivamente melhor, mais sereno, contemplativo, sem qualquer outro compromisso que não nossa música.

Música popular, no decorrer do tempo, tem um de dois destinos: ou fica eternizada na memória do público ou cai no esquecimento (pode até ser "resgatada" em algum momento, mas até para isso, precisa ser, claro, esquecida). A Legião Urbana, obviamente, pertence ao primeiro grupo. A que você atribui essa permanência da música da Legião junto ao grande público?

DV-L: Ah, só posso acreditar que foi um sonho adolescente de se fazer uma banda de rock e mudar o mundo a sua volta fazendo canções universais, atemporais – que confabularam com as demandas do universo no espaço e tempo de sua criação... Para repetir isso, só com muita magia e feitiçaria transcendental. A banda era fabulosa no estúdio.

Nos Estados Unidos, grupos como Aerosmith e Rolling Stones já processaram campanhas políticas por uso indevido de suas canções. Aqui no Brasil, Que País É Esse é volta e meia citada tanto em protestos de esquerda, quanto de direita. Te incomoda essa "promiscuidade"?

DV-L: É difícil ver sua música relacionada com Poder, Corrupção e muita Mentira (citação de Dado ao álbum Power, Corruption and Lies [1983], da banda New Order). O Brasil é esse abismo que nunca chega mesmo, e pra citar  meu conterrâneo Claude Lévi-Strauss em 1935, “O Brasil vai sair da barbárie pra decadência sem passar pela civilização”. Deus salve nossa gente. (Dado, assim como o filósofo que ele citou, nasceu em Bruxelas, em 1965. Seu pai, Jaime Villa-Lobos, era diplomata na Bélgica. Dado só passou a morar no Brasil a partir de  1979).

Pessoalmente, como é a sensação de tocar essas músicas tanto tempo depois? Tem um peso, por conta de toda a bagagem emocional e de memórias ou você consegue deixar toda essa bagagem um pouco de lado para simplesmente curtir o momento?

DV-L: Está sendo incrível como antigamente, sendo que agora essas músicas passaram a ser parte de nossas vidas. É como ver sua vida passar na forma dessa experiência sonora indescritível. Como dizíamos trinta anos atrás: show da Legião... sempre uma nova emoção.

Sei que vocês preferem não falar muito sobre as questões legais envolvendo o nome Legião Urbana, mas é inescapável. Chegou-se a um acordo (com o herdeiro de Rento Russo), já que pelo menos vocês dois conseguiram viabilizar uma turnê com as músicas da  banda?

DV-L: Sem acordo, sem conversa. Me parece que se trata de uma questão insolúvel para a outra parte.

Ainda existe material inédito da Legião engavetado para ser lançado futuramente? Ou tudo ainda depende de acordo entre as partes?

DV-L: Bem, planejamos lançar junto com essa tour os outtakes (sobras de estúdio) do Dois. Percebi que tínhamos algumas pérolas como a gravação de Juízo Final, uma versão de Fábrica em inglês,  entre outras tantas. Tendo certo controle da questão autoral, o herdeiro simplesmente vetou o projeto, a companhia de discos recolheu-se e eu simplesmente tirei meu time de campo pra não mais voltar a pensar nesse assunto. Perdem todos, perde o público, perde a História.

Chegando tão perto das eleições, como o cidadão Dado se sente neste momento? Mais para o esperançoso ou mais preocupado?

DV-L: Preocupado, angustiado, ansioso, perturbado, aflito, atormentado, medroso e pensando seriamente em dar um tempo desse lugar...

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocam Dois + Que País é Este / Sábado, 19 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 120 e R$ 60 / Camarote: R$ 240 e R$ 120 / Vendas: Bilheteria TCA, SACs Shopping Barra e Shopping Bela Vista e www.ingressorapido.com.br

terça-feira, setembro 25, 2018

MÚLTIPLA JOSYARA

Hoje: Josyara lança o aguardado Mansa Fúria com show na Sala do Coro do TCA

Josyara é muitas na foto de Natália Arjones
Desde que surgiu na cena local com aquela voz toda e aquele violão cheio de personalidade, Josyara veio ganhando mais e mais admiradores.

Hoje, ela fecha um ciclo ao lançar seu segundo álbum – o primeiro em um esquema profissional de alcance nacional: Mansa Fúria, pelo Natura Musical.

O show é às 20 horas na recém-reinaugurada Sala do Coro do Teatro Castro Alves.

No palco, a artista se faz acompanhar por  dois músicos: Lucas Martins (baixo e programações) e Bruno Marques (bateria e programações).

Produzido por Junix 11 (que entre outras atividades, é “o outro guitarrista” da Baiana System), Mansa Fúria é retrato acabado da artista juazeirense que se lançou em Salvador e há anos atua em São Paulo: é sertão, litoral e metrópole. Regional, provinciano e cosmopolita. Acústico, afro e eletrônico.
Tropicalista e pós. Mansa e furiosa – e quem nunca?

Se na primeira metade do disco é a face baiana interiorana (mansa) que prevalece, o lado B é a fúria da cidadã que se impõe, de acordo com os dias de luta que ora nos convocam.

“Essa sequência veio junto com o próprio nome Mansa Fúria. Essa dualidade está nos prazeres que sinto quando vejo o mar, a natureza. É uma liberdade infantil, interiorana”, conta Josyara.

“E o lado b é a fúria, dizer as coisas objetivas, de formas mais diretas. O conjunto é  uma água barrenta clara”, define.

A letra de Engenho da Dor não deixa dúvidas: Josyara sabe muito bem quem é de que lado está: “Nobre cabelo ao tempo / Que embola nas mãos do meu amor / Eu que não quero tormento / Me encaro nos noticiários de horror / Bomba de efeito moral / Saiu no jornal que é preciso esconder / Pra agradar os senhores do engenho da dor / Não vamos voltar pra senzalas / Não vamos voltar pros porões / Não vamos voltar pros armários / Não vamos voltar pras prisões / Há de ver que a liberdade / Tá cravada no ser/ Na alma”.

Porradas como esta são emolduradas por uma sonoridade que é ao mesmo tempo árida e rica, unindo o violão de Josyara, o fagote de Uru Pereira (Laia Gaiatta) e os sons eletrônicos  providenciados pelo produtor.

“Junix comenta que o desafio maior foi manter intacta a coisa da voz e violão que vem da minha raiz com os elementos de apoio, como  o naipe de fagotes, que é incomum na música popular mas dialoga com a música do interior, as filarmônicas”, conta Josyara.

“Mas cada música  tem vida proporia, tem seu dizer, os arranjos foram pensados música por música, de acordo com o que elas pedem: os silencios, a respiração, os diversos elementos. Tem um sentido, um caminho nesse conjunto”, acrescenta.

A esperança está aí

Josyara, foto Natália Arjones
Lançado nacionalmente no último dia 6 com show no Centro Cultural São Paulo, Mansa Fúria está apenas começando seu giro pelo país.

“Sim, temos perspectivas de fazer outros shows pelo país. Já estamos circulando pelo interior de São Paulo. Já fizemos São José do Rio Preto e Bauru. E no dia  27 de outubro me apresento em Recife“, conta.

De luta, Josyara está preocupada com o futuro do paí pós-eleições, mas sem medo: “É um momento em que não temos onde respirar, parece que o esforço que fazemos não é capaz de mudar esse caos nos pressionando. Ao mesmo tempo, a esperança está aí, todos que tem sensibilidade se juntando. Desejo sempre o melhor mas tô pronta para o que der e vier”, conclui.

Josyara: Mansa Fúria / Hoje,  20 horas / Sala do Coro (Teatro Castro Alves) / R$ 20 e R$ 10
Mansa Fúria / Josyara/ Produzido por Junix 11 / Natura Musical / Disponível nas plataformas digitais



NUETAS

Júlio Caldas no BSC

Hoje tem mais uma edição do evento Beatles Social Club. E quem anima  a Companhia da Pizza desta vez Julio Caldas & Banda. 20 horas, gratuito.

Paulo Mutti no Sesc

Músico de larga experiência no cenário baiano e nacional, Paulo Mutti lança seu primeiro álbum solo, Quietude, hoje no Teatro SESC Casa do Comércio. 20 horas, R$ 30.

Andaluz na Tropos

A banda Andaluz leva seu belo show Perdido em Contos e Sonhos ao Tropos Gastrobar quinta-feira, 21 horas. Pague quanto quiser .

Cinco bandas free

Malgrada, Ronco, Madame Rivera, My Friend is a Gray e Thiago Schindler fazem o evento Flash Day neste sábado, no Santa Máquina Tatuagem (Alameda das Cajazeiras 145, Caminho das Árvores). 14 horas, gratuito.

Exoesqueleto no BB

A banda Exoesqueleto lança disco novo no Bardos Bardos. Sábado, 16 horas, gratuito.

segunda-feira, setembro 24, 2018

UM TRIBUTO AOS VANGUARDISTAS BAIANOS

Batalhão de músicos homenageia Luciano Souza, Dom Lula Nascimento e Annunciação hoje, na Casa da Música (Abaeté)

Dom Lula. Foto Péricles Mendes
Três músicos geniais, contemporâneos e de perfis parecidos, Luciano Souza, Dom Lula Nascimento e Annunciação ganham merecida homenagem de um batalhão de colegas hoje, na Casa da Música.

Além das características acima citadas, há duas outras que os unem: os três morreram há mais ou menos pouco tempo – e em condições difíceis, destino comum a artistas que não  transitam pelo meio mais comercial / popular.

Como não são – foram – exatamente populares em vida, cabe aos amigos, parceiros e seguidores da nova geração lembrar e homenagear.

Hoje, a Casa da Música receberá um verdadeiro quem é quem da música instrumental baiana, como as bandas Raposa Velha (Zeca Freitas, Fred Dantas e Asa Branca), Triatu’an (Edu Fagundes, Luciano Chaves e Asa Branca), Laurent Rivemales Trio (Laurent, Isaías Rabelo e Nino Bezerra), Joatan Nascimento, Hugo Sanbone, Amadeu Alves e mais uma dezena de nomes, todos   em torno dos homenageados.

Antes da mega jam ainda será exibido um documentário semiamador sobre Dom Lula, dirigido justamente por um dos organizadores do evento, o maestro Zeca Freitas.

“Esse projeto nasceu com Annunciação já bastante doente, ele foi internado no hospital da Irmã Dulce e tal, mas faleceu (em julho último). Aí veio a ideia da homenagem. Fizemos uma lá mesmo na Casa da Música, uma coisa bem simples”, conta Zeca.

“Chamamos os amigos pra conversar sobre ele e tocar e  foi muito bom. Aí a própria Casa elogiou e solicitou uma nova edição. Como recentemente também morreu o Dom Lula, resolvemos juntar, os dois bateristas, que tinham tudo a ver. Para terminar acrescentamos Luciano Souza, que era do mesmo time da gênios”, diz.

Luciano Souza, foto Nancy Viegas
Um abrigo para os artistas

A partir da triste realidade de dificuldades que os três viveram em seus últimos dias, Zeca conta que o grupo organizador pensa em uma ações mais abrangente para ajudar artistas ainda vivos.

“Uma ideia é ter uma casa para abrigar músicos já no fim da vida com apoio, um abrigo”, conta.

“A gente sabe que não é fácil, mas está lançada a ideia. Agora vamos apenas chamar os amigos para tocar e conversar sobre esses três,  que eram todos muito queridos e geniais”, conclui.

homenagem aos Mestres / Hoje, das 18h às 22 horas / Com Raposa Velha, Triatu’an, Joatan Nascimento, Hugo Sanbone, Laurent Rivemales Trio, Amadeu Alves, Shalin Way, Lia Chaves, Wadson Calasans e outros / Casa da Música (Parque do Abaeté, s/n – Itapuã) / Colaborativo

Relembre matéria do blogueiro com Luciano Souza aqui.

sexta-feira, setembro 21, 2018

PIONEIRA COMPOSITORA EM LINGUAGEM FEMININA

Ouvida e cultuada no mundo todo, Joyce celebra cinco décadas de brilhantismo no show 50, que acontece hoje e amanhã no Café-Teatro Rubi. No repertório, sucessos e músicas do primeiro álbum

Joyce, foto Leo Aversa
Artista de primeira grandeza da música brasileira, Joyce Moreno volta à Bahia com o show 50, no qual celebra cinco décadas de carreira.

Mais lembrada pelo público graças ao grande sucesso de canções como Clareana, Feminina e Monsieur Binot, Joyce é um daqueles talentos que vem em um pacote completo: belíssima cantora, violonista muito habilidosa e compositora de mão cheia.

No show 50 ela mesclará as canções do seu primeiro álbum, Joyce (1968),  regravado por ela mesma tim tim por tim tim agora em 2018, com os sucessos de público.

No palco, apenas ela e o baterista - percussionista Tutty Moreno, seu marido. “É uma formação estranha, mas funciona às mil maravilhas. Temos uma afinidade musical muito grande”, conta Joyce por telefone, do Rio.

Além de todas as qualidades acima citadas, Joyce é figura de importância vital na MPB por outras razões. Vamos dar três delas.

Primeira: sempre foi de uma independência artística a toda prova. “Acredito que minha maior conquista nesses 50 anos foi essa,  não ficar presa em esquema comercial. Sempre fiz  a música que amo e acredito”, afirma.

Segunda:  foi uma pioneira compositora de música popular em uma época em que isso ainda não era nada bem visto: “Quando comecei fui muito criticada por compor na primeira pessoa do feminino. Isso quase não existia, a não ser feitas por homens, como Ary Barroso, Assis Valente e Chico Buarque”.

“Não era correto, era considerado vulgar ser uma mulher compositora. Mas passados dez anos de minha estreia, teve um movimento fortíssimo de compositoras. Isso provou que eu estava certa desde o começo. E grandes interpretes começaram a gravar minhas músicas”, diz.



Disciplina curricular

Com o instrumento de trabalho, foto Leo Aversa
A terceira razão que atesta a importância de Joyce na música brasileira é decorrente direta da segunda: ela estabeleceu – ou foi fundamental no processo – de estabelecimento de uma linguagem feminina na MPB.

“A linguagem musical feminina  é a maior marca das minhas composições”, afirma a artista.
O resultado de tamanho talento não poderia ser outro: Joyce é admirada nos quatro cantos do planeta.

Como a maioria dos grandes artistas da MPB, Joyce tem um xodó especial pela Bahia: "Amigos baianos, sempre tive. Sou casada com um baiano. Tutty tocou com Gil, Caetano e Bethania, tem uma longa historia com a música da Bahia, embora tenha saído daí muito jovem. Nos conhecemos em Nova York e criamos uma linguagem musical entre nós muito próxima. Temos as mesmas origens, e embora ele tenha ficado conhecido como o baterista do Tropicalismo, era muito ligado ao samba jazz. Eu também venho dessa mesma origem e seguimos em frente fazendo uma música que é derivada disso e recebe  essa influências todas. Isso fortalece muito esse laço Rio-Bahia. Até gravei um álbum com esse nome com Dori Caymmi. Nos meus shows sempre tem um momento Dorival. Já gravei um disco só com músicas dele e vamos tocar algumas nesse show também", diz.

Em 1976, no álbum Passarinho Urbano, Joyce gravou o clássico anti-ditadura Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. A canção voltou à baila após ter sua letra citada pelo jornalista Chico Pinheiro na ocasião da prisão de Lula, em abril último.

Um trecho para relembrar: "Quando o muro separa uma ponte une / Se a vingança encara o remorso pune / Você vem me agarra, alguém vem me solta / Você vai na marra, ela um dia volta /
E se a força é tua ela um dia é nossa / Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando / Que medo você tem de nós, olha aí / Você corta um verso, eu escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto / De repente olha eu de novo / Perturbando a paz, exigindo troco / Vamos por aí eu e meu cachorro / Olha um verso, olha o outro / Olha o velho, olha o moço chegando / Que medo você tem de nós, olha aí".

"Como ela segue atual. Eu vejo esse momento com muita apreensão. Acho que falhamos em ensinar a historia do Brasil às novas gerações. É uma  falha imperdoável. Nesse momento, temos que ficar muito apreensivos mesmo. Mas também acho que vivemos um momento muito forte da identidade feminina, uma coisa que aliás nasceu aí na Bahia, com Gal, Bethania e bem antes delas Maria Quitéria, Joana Angélica. Temos estátuas delas aqui no Rio de Janeiro. Mais do que qualquer partidarismo, a questão feminina está mais atual do que nunca", afirma Joyce.

Além de frequentar rotineiramente os palcos dos grandes festivais de jazz, foi “descoberta” pelos DJs, que adotaram e remixaram canções como Feminina, Baracumbara e Aldeia de Ogum.

“Semana passada voltei de um curso na Califórnia sobre minha música. É, depois de uma certa idade a gente vira disciplina. E isso já aconteceu em outras universidades, em Berkeley e na Europa. Nossa música é a coisa mais forte da cultura brasileira. E o mundo ama. Dá  um orgulho danado”, conclui.

Joyce Moreno: 50 / Hoje e amanhã, 20h30 / Café-Teatro Rubi / R$ 100 e R$ 50 / Vendas: Bilheteria C.T. Rubi ou www.compreingressos.com

quinta-feira, setembro 20, 2018

FESTIVO REVIVAL

Com um caminhão de hits no currículo, A Cor do Som comemora 40 anos de formação com show na Concha Acústica do TCA neste domingo

Mu, Armandinho, Gustavo, Ary e Dadi na foto de Daryan Dornelles
Marco histórico da música pop brasileira, a banda A Cor do Som segue comemorando suas 4 décadas de fundação (em 2017) com lançamento de disco ao vivo com canções inéditas e a turnê A Cor do Som - 40 anos, que chega neste domingo à capital baiana, na Concha Acústica do TCA.

E eles vem com preciosos reforços. A formação clássica segue intocada: Armandinho (guitarra, voz), Dadi (baixo, voz), Mú Carvalho (teclados, voz), Gustavo Schroeter (bateria) e Ary Dias (percussão).

Só que, além deles, mais dois músicos de apoio se juntam ao quinteto. “Estamos com um reforço incrível no nosso time. Pedro Dias e Luíz Lopes, os Filhos da Judith (banda carioca de rock) nos vocais”, conta Dadi por email.

“Pedro também toca baixo e Luiz, guitarra. Em algumas músicas cantadas vou tocar guitarra e o Pedro vai pro baixo. Estamos ensaiando com eles e muito empolgados com este reforço nos vocais da Cor do Som”, acrescenta.

Além dos novatos, que também costumam tocar na banda de ninguém menos que Erasmo Carlos (melhor selo de qualidade, impossível), três músicas novas serão apresentadas: Olhos D'Água (de Mu Carvalho, Pierre Aderne e Alexis Bomtempo), Volúvel (Dadi Carvalho e Arnaldo Antunes) e Somos da Cor (Armandinho e Maria Vasco).

“Algumas novidades vão marcar esse novo show. Além dessas três músicas inéditas e do irmãos Pedro e Luiz,  alguns arranjos foram atualizados, preservando um festivo revival com as músicas que marcaram época”, conta Armandinho.

No disco A Cor do Som 40 Anos, que também saiu em LP de vinil, são cinco as canções inéditas – e vários os convidados ilustres: Gilberto Gil, Roupa Nova, Samuel Rosa, Lulu Santos, Djavan e outros.

“Ficamos super satisfeitos com o resultado (do disco). Gravamos cinco inéditas: duas minhas, duas de Dadi e uma de Mu. Tivemos ilustres convidados, que conviveram com nossa história musical, alguns escolheram o que gostariam de cantar e os deixamos à vontade. O resultado foi intimidade total e um som maravilhoso”, conta Armandinho.

BRock, Novos Baianos, Trio

Marcante pela mistura de rock, pop, jazz e ritmos brasileiros que praticava, A Cor do Som foi cria  direta da genialidade revolucionária d’Os Novos Baianos, levando essa receita – que já era praticada por Moraes, Baby & Cia – às últimas (e adoráveis) consequências.

Feliz encontro entre músicos extraordinários da Bahia e do Rio, A Cor do Som fez um sucesso estrondoso nas FMs entre o final dos anos 1970 e 80 com hits inesquecíveis como Zanzibar, Dentro da Minha Cabeça, Menino Deus, Abri a Porta, Magia Tropical, Swingue Menina, Alto Astral e outros.

Curiosamente, foram devorados pela mesma geração para a qual abriram caminho e foram uma influência decisiva, a do rock brasileiro dos anos 80 (o chamado BRock).

“A gente teve a influência dos Novos Baianos, banda que tive a felicidade de participar”, lembra Dadi.

“A rapaziada do BRock sempre fala pra gente que ia em todos os nossos shows. Paralamas, Barão Vermelho. Acho que o Paralamas é o que tem mais a ver com esta onda”, acrescenta.

Não a toa, Dadi chegou mesmo a integrar o próprio Barão Vermelho por um breve período, deixando sua marca em um dos melhores álbuns da banda do Roberto Frejat: Na Calada da Noite (1990).

Já Armandinho lembra que, na época do auge d’A Cor do Som, seu turno era dobrado, já que respondia pelas guitarras n’A Cor e no Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar.

“Era uma canseira com certeza, shows quase todos os dias. Tipo sair do Rio Grande do Sul pro Ceará ou fazer dois shows em cidades diferentes num mesmo estado no mesmo dia, com diferença de poucas horas, um com o Trio o outro com a Cor. Ufa!”, relata Armandinho.

E apesar de A Cor e do Trio terem canções em comum no repertório, até a abordagem era outra: “Um (o Trio) tem base mais nos frevos e ritmos afrobaianos, enquanto o outro (Cor) é mais suave ou reguiados com um instrumental à base de chorinhos e baiões progressivos”, observa.

“Com um ponto de encontro  nos momentos mais festivos quando tocamos Zanzibar, Beleza Pura, Dentro da Minha Cabeça, tendo em comum o instrumento que coloquei uma quinta corda, divulguei pro Brasil e pro mundo e dei o nome de Guitarra Baiana”, conclui o mestre, amém.

A Cor do Som – 40 anos / Domingo, 19 horas / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 80 e R$ 40 (primeiro lote) / R$ 100 e R$ 50 (segundo lote) / Camarote: R$ 160 e R$ 80/ Vendas: Bilheteria TCA, SACs Shopping Barra e Shopping Bela Vista e www.ingressorapido.com.br

terça-feira, setembro 18, 2018

TRAJETÓRIA RESGATADA

Malefactor lança documentário de 25 anos e faz show sábado com Headhunter DC


Jafet Amoedo, Daniel Falcão, Lord Vlad e Danilo Coimbra por Sergio Franco
Falo isso sempre por aqui: o heavy metal baiano (em seus vários estilos) é dos melhores do mundo, com bandas de primeira linha, reconhecidas inclusive no exterior.

Uma delas é a Malefactor, que fez 25 anos em 2017 e agora, graças à iniciativa do músico e jornalista Sérgio Franco Filho (ex-Automata), ganhou um documentário dando conta dessa trajetória.

Com mais de 50 minutos de duração, Malefactor: 25 Anos Sob A Lei da Espada já está disponível no You Tube e traz entrevistas com integrantes, ex-integrantes, jornalistas, amigos e fãs, além de muitas imagens de arquivo coletadas desde os anos 1990.

“O documentário foi um convite do diretor Sérgio Franco, como trabalho de conclusão de curso da  faculdade de jornalismo. Ficamos honrados demais com o convite”, conta o vocalista e fundador Vladimir Senna, o Lorde Vlad.

“Gostamos muito (do resultado), mas a intenção é ampliar o filme com extras (no DVD), já que 50 minutos é pouco para contar o que passamos nestas mais de duas décadas na estrada do metal”, diz.

Com álbuns lançados no exterior e duas turnês internacionais no currículo – tocaram inclusive no Wacken (Alemanha), maior festival de metal do planeta – o Malefactor lançou seu último álbum, Sixth Legion, no ano passado.

Danilo Coimbra em ação, foto Sergio Franco
"Na verdade o filme saiu com um ano de atraso, e já completamos 26 anos. Dia 22 de setembro (sábado) agora, iremos estar com o Headhunter D.C., outra banda batalhadora (31 anos de atividade) para celebrarmos o metal baiano, num grande show na Groove Bar na Barra. O DVD do doc irá sair em Portugal pela mesma gravadora que lançou nosso ultimo álbum por lá, e aí sim faremos uma grande festa para celebrarmos o filme", conta.

“Agora o projeto é fazer dois novos video clipes com musicas do Sixth Legion em regiões belíssimas da Bahia. E em 2019, voltarmos a uma turnê europeia ou sulamericana. Agora com o disco lançado em Portugal e na Grécia, tem aparecido convites para entrevistas por lá e quem sabe, não role finalmente nosso retorno pela terceira vez ao continente europeu”, acrescenta Vlad.

Amor ao metal

Formada atualmente por Vlad (vocal e baixo), Danilo Coimbra  e Jafet Amoêdo (guitarras) e Daniel Falcão (bateria), a Malefactor tem uma história e tanto de luta e fé no próprio taco – ou melhor, espada.

Podem não ganhar dinheiro, mas tem moral para bater no peito: fazem o que amam sem jamais se vender ou buscar aprovação de ninguém.

“Conhecemos vários países, tocamos em quase todos os Estados do Brasil, dividimos palcos com ídolos e fãs. Tudo por causa da banda. Ganhar dinheiro com música underground é uma ilusão. Das centenas de bandas brasileiras, provavelmente só umas cinco realmente vivem exclusivamente da banda, sendo que algumas ainda precisam agregar com workshops e trabalhos de estúdio para outros artistas para obter uma renda compatível com a de artistas de estilos mais populares”, diz.

Lord Vlad, a voz malefactoriana na lente de Sergio Franco
“Fazemos por amor ao metal, e conseguimos, pelo menos, não ter nenhum gasto para nossos projetos há um bom tempo, embora projetos bem maiores estão em vista, e precisaremos realmente de apoio cultural em algum momento. O que deve ser de fato a cultura do incentivo, e não investir em artistas que já não precisam deste tipo de apoio. Já tem a iniciativa privada ao lado deles. A música alternativa dificilmente recebe esse apoio”, reivindica Vlad, justamente.

Malefactor e Headhunter DC / Sábado, 22 horas, Groove Bar, R$ 20 (Sympla)  / 

www.facebook.com/malefactor.oficial



NUETAS

TCA: Bona amanhã

Parceiro de uma infinidade de nomes que vão de Quincy Jones a Lenine, do jazz ao pop, o virtuoso camaronês do contrabaixo Richard Bona se apresenta amanhã, às 20 horas, na Sala Principal do  Teatro Castro Alves. Filas A a P: R$ 170 e R$ 85, Q a Z5: R$ 150 e R$ 75 e Z6 a Z11: R$ 130 e R$ 65. Som de gente grande.

Dom Lula Nascimento, mestre. Foto Vinicius Passarinho
René Nobre, o Véio

René Nobre apresenta suas versões acústicas de clássicos no show Rock de Véio. Quinta-feira, 20 horas, grátis, no Groove Bar.

Tributo aos mestres

Saudosos mestres da música baiana, Dom Lula Nascimento, Annunciação (bateristas) e Luciano Souza (guitarrista), serão homenageados por uma turma da pesada segunda-feira (24) no show Sem Paranoia. Com Zeca Freitas, Fred Dantas, Hugo Sanbone, Laurent Rivemales, Joatan Nascimento e muitos outros. 18 horas, na Casa da Música (Itapuã), pague quanto puder.

segunda-feira, setembro 17, 2018

EM NOME DA MÃE

Uma descoberta tardia sobre a própria mãe levou o escritor espanhol Antonio Altarriba a investigar seu passado. E o que ele descobriu foi mais do que uma história de família

Foi só bem próximo do momento  da morte de sua mãe, Petra, que Antonio descobriu que ela tinha o braço esquerdo quase imóvel, incapaz de  flexionar plenamente.

Foi assim que Antonio também se deu conta de que sabia muito pouco sobre ela.

No romance gráfico Asa Quebrada, o escritor Antonio Altarriba – auxiliado pela expressiva arte  em preto & branco do desenhista Kim – acerta as contas com o passado de Petra Ordóñez, sua mãe.

Perplexo pela descoberta tardia, Antonio visita o asilo em que se encontra seu pai a fim de pergunta-lo sobre a deficiência de Petra. Mas o pai nem desconfiava.

Ainda mais perplexo, Antonio volta para casa, imerso em perguntas sem resposta: “Como pode ser que meu pai não soubesse que minha mãe não movia o braço? Como era a intimidade deles? Que carinhos faziam entre si? De que abraço eu nasci?”

A partir desse tapa na cara que a vida deu em Antonio, ele reconstrói toda a vida de sua mãe a partir justamente do próprio incidente que aleijou Petra: seu nascimento.

Ao dar Petra à luz, Sofia, sua mãe, morreu. O pai de Petra, Damián, um barbeiro com pretensões a ator dramático, fã de Shakespeare, enlouquece de dor ao receber a notícia.

A cena bizarra  que se segue faz jus à predileção de Damián pela tragédia teatral – e também soluciona o mistério do braço curto de Petra. Contar mais é estragar a leitura de possíveis leitores da obra.

Conspiração monarquista

Obra de leitura viciante, Asa Quebrada tem pelo menos três níveis de leitura.

O primeiro e mais obvio é ser encarado como o mero relato biográfico da mãe de seu autor.

Mas também pode ser um testemunho pungente da força  e da abnegação silenciosa das mulheres espanholas em uma sociedade profundamente católica, machista e dominada por uma ditadura militar sanguinária e de cunho fascista.

E por último também pode ser lida como um comentário acerca desta mesma ditadura, jogando alguma luz em personagens históricos com os quais Petra Ordóñez conviveu, como o General Juan Bautista Sánchez González (1893 - 1957).

Já adulta, após a morte do pai Petra foi trabalhar de governanta na mansão de Sánchez González, em Zaragoza.

As duas faces da Espanha franquista: acima, a babação de ovo fascista...
Acontece que o tal general era um “rebelde” dentro da cúpula de poder do Generalíssimo Francisco Franco (1892 - 1975).

Monarquista convicto, Sánchez González – sustenta Antonio Altarriba – conspirava com alguns companheiros de farda para destituir Franco do poder e restaurar o regime monárquico na Espanha.

Entre os cuidados com os filhos do general e o serviço de copa e cozinha, Petra captava aqui e ali o burburinho conspiratório na mansão do militar – porém, à moda silenciosa das mulheres de então, mantinha-se absolutamente discreta sobre tudo o que via e ouvia.

...Enquanto a perseguição aos inimigos do regime não dava tréguas
Acabou que, pouco tempo depois de Petra pedir demissão do emprego para se casar com Antonio Altarriba (pai do autor), Sánchez González morreu em condições misteriosas, um episódio até hoje mal explicado na própria Espanha.

A edição bem cuidada da Editora Veneta traz um posfácio de Altarriba, no qual ele detalha todas as descobertas que fez ao pesquisar sobre a vida da própria mãe, incluindo os fatos conhecidos e as teorias correntes sobre a morte do General Sánchez González.

Completam a edição fotos de família e os estudos de personagem do desenhista Kim, pseudônimo de Joaquim Aubert i Puig-Arnau.

Altarriba, que é Doutor em Literatura Francesa pela Universidade do País Basco, é autor de quatro romances premiados em seu país natal. Que  venham outras obras de sua lavra.

Asa Quebrada / Antonio Altarriba e Kim / Veneta/ Tradução: Marcelo Barbão / 272 p./ R$ 64,90