quarta-feira, maio 22, 2019

ASCENSÃO E QUEDA DE STEVE DITKO, O COCRIADOR DO HOMEM-ARANHA

Biografia de Roberto Guedes mostra o perigo que é o apego à ideologias baratas

Cena ícone de Ditko  com o Aranha, em Spider-Man 33 
Todo mundo conhece Stan Lee, o sorridente criador do Homem-Aranha, Homem de Ferro, X-Men e da maioria dos  super-heróis Marvel.

Obviamente, ele não criou tudo sozinho. Ao seu lado, uma equipe de artistas geniais foi responsável por criar o visual e a narrativa que os tornou icônicos. Os principais foram Jack Kirby e Steve Ditko.

Este último, o mais discreto de todos eles, acaba de ganhar uma bela biografia do pesquisador brasileiro Roberto Guedes.

Intitulada O Incrível Steve Ditko, a obra ganha contornos de cautionary tale (conto de alerta) ao narrar, de forma leve e objetiva, a triste história de um grande artista que sabotou a própria carreira por puro apego – quase fanatismo – a uma ideologia pra lá de duvidosa.

Nascido em 1927, descendente de imigrantes tchecoeslovacos, Stephen John Ditko começou a desenhar quadrinhos profissionalmente em 1953, após tomar aulas com Jerry Robinson, desenhista do Batman nos anos 1940.

Desenhou muitas HQs de terror e crime para a editora Charlton, até que foi atropelado duas vezes: primeiro, pelo psiquiatra Fredric Wertham, autor do livro Seduction of the Innocent (1954), no qual defendia que quadrinhos estavam transformando crianças em criminosos, homossexuais, comunistas e adoradores do demônio.

Em pleno mccarthismo, isso levou o governo americano a perseguir as editoras. O resultado foi a devastação do mercado, com editoras fechando e um monte de artista, escritor e editor desempregado.

Depois, passou por uma tuberculose. Voltou a trabalhar no final de 1955, desenhando para várias editoras, incluindo a Atlas, futura Marvel Comics, depois de ter conhecido Stan Lee ainda em seus tempos de estudante. Até que, em 1962, veio o furacão que mudaria toda a sua vida.

Objetivismo e queda

Ditko ficou #xatiado com hippies que fumavam umzinho pra curtir Dr. Estranho
Lee, que já havia criado o Quarteto Fantástico ao lado de Jack Kirby,  passou para Ditko a incumbência de ilustrar uma HQ de cinco páginas para o número 15 da revista Amazing Fantasy. Nascia o Homem-Aranha.

O sucesso foi estrondoso e transformou Ditko em uma das estrelas da Marvel, a  editora que mais se beneficiou da onda da contracultura dos anos 1960.

Não a toa, sua cocriação seguinte na Marvel foi o Doutor Estranho, prato cheio para o visual psicodélico em que ele era especialista.

E aí é que entra a grande contradição do artista: Ditko era profundamente conservador. Ficou horrorizado quando soube que hippies fumavam maconha para “viajar” na  leitura do Doutor Estranho.

Era também recluso. Ninguém sabia de sua vida fora do bullpen, o escritório da Marvel em Nova York. Logo começou a se desentender com o solar e bem-humorado Stan Lee, seu completo oposto em tudo.

As coisas pioraram quando se tornou adepto do Objetivismo, doutrina criada pela escritora russa naturalizada americana Ayn Rand, autora de  A Revolta de Atlas, entre outros livros.

Muito em voga ainda hoje, apesar de já ter sido refutada e desmascarada inúmeras  vezes, Rand é, na superfície, a defensora definitiva da individualidade e da “meritocracia”.

Mas, na realidade, Rand não passava mesmo de uma defensora do 1% mais rico , enquanto considerava todo o resto parasita. O mundo em preto e branco, sem tons de cinza.

Na época, Ditko acreditou em cada palavra da escritora. E passou a querer defender sua doutrina em seus trabalhos. Resultado: sua carreira só decaiu dali em diante.

Em vez de boas HQs, passou a criar panfletos – às vezes até amadores – nos quais expunha e defendia os “nobres” ideais do Objetivismo.

Ainda teve bons momentos e criou personagens interessantes, como o Rastejador, o Questão e a dupla de heróis Rapina e Columba (e mesmo eles, uma óbvia alegoria da forma dualista como via o mundo).

Morreu solitário em 2018, aos 90 anos. Seu corpo só foi encontrado dois dias depois, o que denota sua reclusão.

O livro de Guedes é uma preciosa contribuição à historiografia dessa ala da cultura pop, com muitos detalhes de bastidores da indústria de HQs americana em seu auge.

Não se espera menos do autor de  livros  como A Era de Bronze dos Super-heróis (2008, HQM) e Jack Kirby: O Criador de Deuses (2017, Noir).

O Incrível Steve Ditko / Roberto Guedes / Editora Noir / 264 p. / R$ 54,90 / www.editoranoir.com.br

Gênio recluso

Solitário por natureza,  Ditko não gostava de aparecer em fotografias. Acima, o retrato do artista quando  jovem, uma das suas raras imagens. Misterioso, recusava qualquer contato para entrevistas ou convenções

Rapina e Columba

Em seu período na DC, criou  Rapina e Columba, alegoria de sua ideologia. Enquanto Rapina é conservador, reacionário e violento, Columba é mostrado como um palerma pacifista

Mister A

Ditko radicalizou na ideologização com Mister A, um justiceiro filosófico sem meios termos: “Apenas tolos afirmam que o dinheiro é a raiz do todo o mal”, alertava ele em suas lições de moral

terça-feira, maio 21, 2019

DO METALCORE AO RAP

Rebaianizar o rap é a busca de Eldo Boss. Confira ao vivo sábado no Mercadão CC

Eldo Boss em seu cantinho. Foto Daniele Cézar
Em 2012, esta coluna apresentou ao seus leitores uma banda de metalcore cristão (?!?) chamada Dynamus. À frente do power trio estava um jovem eloquente chamado Eldo Luiz.

Qual não foi a surpresa do colunista ao receber um novo contato de Eldo, desta vez rebatizado Eldo Boss e com um novo trabalho, como rapper.

Rebaianizar é o título do seu EP de seis faixas, que já chega todo conceituado, como “um disco para resgatar e ressignificar a música rap baiana”, promete o artista.

Se cumpre o que promete, o colunista prefere deixar para os reais entendidos em hip hop (confesso minha ignorância), mas o fato é que Rebaianizar tem mesmo bons momentos, como Avião, Cidade Groove Caos e É Proibido Aqui.

"Desde o antigo grupo eu mesclava elementos do rap com rock, cresci ouvindo bandas que faziam isso, como Planet Hemp, Pavilhão 9, Rodox e Rage Against the Machine. O rap brasileiro mudou bastante, a 'nova safra' consegue caminhar por outros caminhos, como samba, MPB, rock e jazz, o que potencializou a vertente nacionalmente e atraiu músicos de outros estilos. Em relação ao nascimento da figura Eldo Boss, eu fiz um trabalho a convite de uma produtora local que foi meu passo inicial em maio de 2018, lancei duas musicas com eles, depois a Aquahertz Beats me abraçou e produzimos esse EP além de singles", relata Eldo.

“A ideia e a concepção de disco como  objeto de cultura esta se perdendo por que, para fazer um, é necessário conteúdo, experimentalismo e, acima de tudo, coragem. Possivelmente muito disso falta a cena local. Se nos reportarmos aos anos 90, uma parte (do rap)  era feito com bandas, em bases orgânicas. Os grandes artistas de rap hoje como Rincon, Rael, Emicida e até o Racionais MCs nessa ultima tour, todos se apresentam com banda. Quero reaver essa importância dos elementos orgânicos  e não simplesmente reproduzir / “copiar” o que vem do Sul, somos riquíssimos, podemos reconstruir”, exorta o rapper.

"Isso é rebaianizar, resgatar o que temos de melhor musicalmente sem regras ou grilhões. Temos artistas que já entenderam esse caminho, como Opanijé, Xarope MC, Baco Exu do Blues (inclusive ele é o primeiro produto rentável vindo da Bahia na roupagem do rap), entre outros, trazendo elementos tipicamente da nossa raiz oriunda das matrizes africanas. A cena ainda é primária, necessita de um grande investimento como acontece no eixo RJ/SP, entretanto talentos não faltam, pois desde os anos 90 existe um movimento acontecendo, principalmente nas periferias. Hoje com a abertura das plataformas de streaming, a possibilidade de levar seu som para diversos lugares com um clique deixou tudo mais dinâmico, porém criou uma montanha de repetidores, deixando o ouvinte mais passivo do que seletivo. A cena baiana carece de produções artísticas focadas na formação de público e trabalhos mais profissionais. Existem sites especializados no gênero como o RAP071 e canais como o BASE071, mas ainda é pouco, faltam festivais relevantes no estilo, cursos de formação, oficinas periódicas, enfim um apoio mais forte", detalha.

Rock conservador não dá

Eldo, o pensador. Foto Daniele Cézar
De fato, as faixas mais fortes de Rebaianizar são também as que soam mais orgânicas, ou seja, gravadas com guitarra, bateria etc.

“Sou instrumentista e, junto com o produtor do disco, Marcelo Santana, construímos todas as linhas de forma orgânica. Toquei todos os instrumentos menos guitarra baiana, que ficou a cargo de Marcelo”, conta.

“Buscamos resgatar essa essência e trabalhar com o que acreditávamos ser real. No EP tem muita guitarra e refrãos pesados, que lembram ate punk além de versos mais melancólicos. Sampleamaos diretamente do vinil vários trechos de nomes baianos, desde Dorival Caymmi a Camisa de Vênus, passando por Caetano Veloso. Extraí o máximo dentro de uma roupagem que engloba o pós-hip hop, desde os elementos estéticos da nossa música como sonoros. Priorizei na produção geral apenas a participação de mulheres, desde as canções que contam com Elana Laela (Coletivo Vira Lata) e Mari Buente (A Cama de Manuela) e produção de todo material gráfico de Isadora Furlan, artista plástica que assinou a capa. A cultura brasileira deve demais ao Nordeste, não existe nada comparável na música brasileira a João Gilberto ou à Nação Zumbi. Nacionalmente, na guitarra, Missinho do Chiclete e Pepeu dos Novos Baianos são monstros sem o merecido reconhecimento”, descreve.

A transição do metalcore para o rap, afirma Eldo Boss, foi natural. De fato, desde a Dynamus ele já namorava com o gênero.

E agora, o providencial e necessário dedo na ferida. “O rap é um elemento de rua, do ao vivo, das vivências urbanas, algo muito próximo do  hardcore e do thrash metal, que foram minhas escolas.  O rock está ficando cada vez mais conservador e enfadonho no Brasil. Esse disco foi um grito  nesse quadro caótico, uma forma de reinvenção”, afirma, certíssimo.

Sábado tem som no Mercadão CC. "Sim, dia 25 no Mercadão CC, com Underismo e Faustino Beats. Tem uma produção da Bonke Music, junto com o DJ Nei MHC, que traz muitos convidados, uma festa muito legal. Além disso, tenho algumas datas fechando no interior e certas no segundo semestre para Belo horizonte e São Paulo, vou passar uma temporada lá. Com isso, ainda farei algumas apresentações em Salvador e região metropolitana ainda esse semestre", conclui.

Cola lá.

Festa Sem Ideia – Com Underismo, Eldo Boss, Faustino Beats, Yan Cloud, A cama de Manuela, Rajada de Conciencia e convidados / Sábado, 16 horas /  Mercadão.cc / R$ 10

https://www.bossdiscos.com/




NUETAS

Death metal fest


Behavior, God Funeral e a paulista Podridão fazem o Bahnhof Death Fest nesta sexta-feira, as 20 horas. Extermine seus canais auditivos no Club Bahnhof SSA, R$ 25.

Invena, GOR, E4P

Invena, Game Over Riverside e Entre 4 Paredes trazem as Soterorock Sessions de volta. O esquema é neste sábado, no Buk Porão, às 19 horas e com entrada a R$ 10. Prossigam, Soterorock Sessions!

Sanitário Sexy sábado

A grande banda juazeirense Sanitário Sexy volta à Salvador sábado, na já tradicional session dos sábados no Bardos Bardos. Desfrute o espaço público na Travessa Basílio da Gama (Rio Vermelho) às 19 horas, prestigie a cerveja da casa e pague quanto quiser.

sexta-feira, maio 17, 2019

SHOW-WOMAN À LA DUSSEK

Silvia Machete volta à cidade para duas sessões do espetáculo Dussek Veste Machete. Sábado e domingo, no Sesc Casa do Comércio

Silvia e os balões, foto Nathalie Mellot
Tradição meio esquecida entre os cantantes brasileiros, a figura do artista entertainer – aquele que canta, dança, conta piadas, dá pirueta etc – tem em Silvia Machete um de seus últimos representantes. Amanhã e domingo, a carioca estará em Salvador apresentando um de seus espetáculos (ela faz quatro no momento): Dussek Veste Machete, no Teatro Sesc Casa do Comércio.

Como o nome explicita, trata-se de um show com a base do repertório formada por canções do inimitável Eduardo Dussek. Um dos artistas mais irreverentes da MPB, Dussek é praticamente a alma gêmea artística de Silvia Machete: debochado, bem humorado, romântico, extravagante.

No palco, Silvia se apresenta acompanhada apenas do pianista / tecladista Danilo Andrade, desfiando um repertório com muitas canções de Dussek, como Aventura, Cabelos Negros, Chocante, Saga, A Índia e o Traficante e Totalmente Tchá Tchá Tchá – a última feita por Dussek para Silvia.

Além dessas, reforçam o show outras canções que se encaixam no espírito dussekiano / machetiano: Back to Black (Amy Winehouse), Great Balls of Fire (Jerry Lee Lewis) e Tango da Bronquite (Angela Rô Rô).

“Tem as músicas do Dussek que tem esse universo de personagens apaixonantes e decadentes. Dussek faz parte de um cabaré que também é a minha praça”, conta Silvia.
“E escolhi Angela Rô Rô, Jerry Lee e Amy. A Amy é a Angela Rô Rô da Inglaterra, então acho que eles conversam como artistas e dentro da poesia. E coloquei uma música minha, Dois Cachorros”, acrescenta.

Além de cantar, Silvia, ex-artista de rua, com muito orgulho, se esmera no aspecto cênico, a começar pelo glorioso longo preto de Guto Carvalho: “Sim, venho com vestido, salto alto, bambolês e muita sensualidade”, promete.

O nome dela é trabalho

Silvia e Dussek, ft Renato Mangolin
Apaixonada pelo homem do Rock da  Cachorra, Silvia gravou um DVD desse espetáculo, lançado no final de 2017: “O público adora o Dussek. Tem público que não conhece e tem também os fãs do Eduardo e os meus. Esse projeto foi gravado em DVD junto com o Canal Brasil e fizemos ele pelo Rio e São Paulo. Adoraria rodar pelo Brasil com ele. Vou fazer esse show pra sempre... eu amo”, derrete-se a artista.

Sem se apresentar em Salvador há seis anos, ela comemora a volta à capital baiana: “Sim. Faz tempo. Meus projetos ficaram pelo Rio nos últimos anos. Escrevi um musical, Mondo Machete, o primeiro sobre uma cantora viva, estrelado por ela mesma”.

“Fizemos temporada em teatro e foi uma experiência ótima! Antes disso, teve esse projeto, Dussek Veste Machete. Não tive a oportunidade de vir antes. Mas cheguei”, diz.

Além do Dussek Veste... e do Mondo Machete, ela ainda toca outros dois espetáculos: “Tenho feito um show chamado High Times, com Simone Mazzer. Um cabaré muito divertido, cheio de jazz e músicas internacionais. Arrumei uma super parceira de cena”.

“E tem um projeto com Junio Barreto, cantando  músicas de Dolores Duran e Antônio Maria. É emocionante”, conta.

Sem parar, ainda grava um novo trabalho: “Chama-se Rhonda. Composições em inglês de minha autoria com produção de Emerson Vilani e parcerias com Alberto Continentino. Estou apaixonada por esse projeto. Diferente de tudo que já fiz em termos de sonoridade”, conclui.

Silvia Machete: Dussek veste Machete / Amanhã e domingo, 20h30 / Teatro SESC Casa do Comércio (Av. Tancredo Neves, 1.109) / R$ 50 (plateia) e R$ 30 (balcão) / Vendas: bilheteria TSCC Ou no www.ingressorapido.com.br

sábado, maio 11, 2019

DE FOTOGRAFIAS E DESPEDIDAS

Ricardo Cury lança o romance Tchau, seu segundo livro. Hoje, no Mercadão CC

Ricardo Cury, foto Will Vieira
Ex-baterista muito atuante no cenário rock local entre os anos 90/2000, o empresário e publicitário Ricardo Cury lança seu segundo livro hoje, no Mercadão CC.

Tchau, o livro em questão, foi viabilizado após bem-sucedida campanha de crowdfunding junto a amigos e leitores de seu livro anterior, o volume de crônicas Para Colorir (2008), “que não é livro de colorir”, apressa-se Cury.

Se, em Para Colorir, as crônicas abrangiam sua vivência como baterista de diversas bandas do rock baiano (brincando de deus, Dinky-Dau), Tchau é um passo além: trata-se de um romance.

“(A ideia do romance surgiu) A partir de uma imagem e de um diálogo presenciado por mim, e que em seguida se desencadeou em uma série de cenas e situações. Aí juntei esse roteiro com um tema que sempre me interessou: a despedida. Mas não a despedida do ‘até logo’ e sim, a do ‘adeus’, conta Ricardo.

Destemido, Cury explora em Tchau um tema doloroso: a despedida de pacientes terminais. Para tratar do assunto com a seriedade que ele exige, conversou com diversos profissionais da área de saúde.

“As histórias que conto, mesmo que romanceadas, são reais. As experiências da personagem principal, nesse universo de despedidas, existiram e foram fruto de uma pesquisa que fiz com psicólogos e médicos que trabalham com cuidados paliativos e pacientes terminais”, detalha.

“Criei uma história com base em minhas questões pessoais (dúvidas) sobre esse momento de se despedir. Do filho que sabe que aquela ida ao hospital pra ver o pai é a última. Ou da neta com a avó. Da mãe com a filha”, acrescenta.

Experiência boa e ruim

Percorrer terreno tão delicado trouxe muitas dificuldades à escrita, o que acabou levando ao atraso na entrega do livro aos financiadores do projeto: “(A experiência de crowdfunding) Foi ótima e péssima. Ótima porque viabilizei o projeto com dinheiro privado, com 215 leitores que bancaram a ideia a partir de um primeiro capítulo que disponibilizei”.

“Péssimo porque acreditei que a história estava pronta quando divulguei o crowdfunding. Mas, no decorrer da coisa, percebi que não estava e não foi fácil terminar. Até marcar uma consulta com um hematologista pra tirar dúvidas sobre o tratamento de certa leucemia eu tive que fazer. Porém, mantive os colaboradores informados sobre o andamento da produção e nesses dois anos de atraso apenas duas pessoas pediram o dinheiro de volta. Hoje tenho 213 leitores”, detalha.

Felizmente, a espera terminou. No pique, ele já planeja os próximos: “Tenho vários (projetos de livros). Um que se chama A biografia de meu avô, que vai ser a biografia de meu avô", conta.

"E outro que é uma espécie de Para Colorir 2 (mas que não terá esse nome). No Para Colorir, eu conto histórias minhas, sobretudo sobre bandas que fiz parte. Nesse, a ideia é contar a história dos outros, das outras bandas, imortalizando-as, a partir de um certo recorte que começa com Flores do Mal e Rabo de Saia, passando pela Úteros em Fúria, brincando de deus, Cascadura, as bandas da coletânea UmdaBahia e outras daquele recorte, que é pessoal, terminando nos anos 2000, com o fim dos Dead Billies”. Promete!

Tchau, de Ricardo Cury / Lançamento hoje, 17 horas / Mercadão CC / Gratuito

Tchau / Ricardo Cury / Independente (edição do autor) / 240 páginas/ R$ 40


quarta-feira, maio 08, 2019

JULHO DETONANTE: ROCK CONCHA DETALHA CAST E FESTIVAL

Rock Concha apaga 30 velinhas com Planet, Camisa, RDP e grandes bandas locais

Planet Hempa fazendo sua cabeeeeça! Foto Divulgação
Alvíssaras roqueiras. Se não faltam shows de bandas pequenas / médias em bares e casas de show pela cidade, o publico adepto tem ficado meio que a ver navios quando se trata de grandes shows de grandes bandas.

Tradicional, o festival Rock Concha, que rola em julho (dias 13 e 14), surge no horizonte trazendo um respiro pra quem sente falta de guitarras pesadas no solo sagrado da Concha Acústica.

Como sempre, serão dois dias. No sábado tem Camisa de Vênus, Ratos de Porão, Malefactor e Drearylands. E no domingo, Planet Hemp, Pedro Pondé e Alquímea. Uma bela edição comemorativa de trinta anos do festival.

Um dia  metal / punk e outro mais diverso. A produção (desde 1989) é de Irá Carvalho (Íris Produções) e a curadoria, do Alexandre Afonso (leia-se Rock Freeday, rádio on line).

“Quando a Íris Produções fez o convite para a Rock Freeday atuar na produção e curadoria do RC 30 Anos, veio a ideia de criar um line up inédito, sobretudo, pela importância do evento e pelos artistas que atuaram nas últimas edições”, conta Alexandre.

Os inimitáveis Drearylands: metal pra frente. Foto Rafael Almeida
“Não é fácil negociar agenda, condições para um festival importante como o RC. Mas conseguimos! Apesar das dificuldades, montamos um cast onde a maioria dos artistas são inéditos no festival”, afirma.

Nesta edição, as dificuldades inerentes aos eventos voltados ao rock continuam, assim como a busca de soluções.

Disseminado nas inúmeras feiras realizadas pela cidade, o esquema hambúrguer & cerveja artesanais vai invadir a Concha: “A falta de apoio e patrocínio para o projeto também é um problema, mas, para 2019, estamos criando um formato em que vamos ter uma feira com os produtos das bandas, gastronomia e cerveja artesanal”, conta Irá.

“(Para o RC seguir acontecendo) Precisamos que o público que gosta de rock em Salvador volte a prestigiar. Em outros estados são realizados projetos do mesmo segmento com sucesso de público e receita”, lembra a produtora.

Sábado e domingo

Ratos de Porão: antifa até o osso. Foto Wander William
Responsável por montar a grade do festival, Alexandre conta que buscou diversidade, mas também garantir um dia para bandas mais pesadas.

“Tirando a última edição (2016) o RC tinha pouca atuação com bandas  de hardcore e metal. No primeiro dia teremos três grandes representantes, duas da Bahia: Malefactor e Drearylands – mostrando a importância delas num festival desse porte”, conta.

“Aí temos a honra de contar com o RDP, uma das principais bandas de hardcore do país. Eles completam 30 anos  do álbum Brasil e estão a muitos anos sem vir aqui“, conta.

Fechando a night, a banda baiana mais importante de todos os tempos: “O Camisa de Vênus  é respeitado até hoje por todos no rock. E dialoga bem com todos os artistas da primeira noite. O Camisa faz um show especial, de clássicos de Raul Seixas”, detalha.

O domingão não deixa por menos: “Planet Hemp, Pedro Pondé e Alquímea trazem na letra das músicas muita personalidade e integração com seus públicos. E os shows do Planet na Concha são historicamente memoráveis para o público baiano. Muita gente ainda lembra da época do extinto Garage Rock, shows que entupiram a Concha”, diz.

Camisinha: show com repertório de Raulzito. Foto Carina Zaratin
“Já o incrível Pedro Pondé traz toda energia  que passou pela banda Scambo, agora com um trabalho solo muito legal. E tem a banda Alquímea, liderada pelo músico Geo Benjamin, que faz um rockão estilo anos 70”, detalha Alexandre.

Curiosamente, praticamente todas as bandas do festival  tem um histórico progressista, quase ativista, como o Ratos, ferozmente antifa, ou o Drearylands, que acaba de lançar um novo single bem nessa linha também, além do Planet Hemp (e Marcelo D2), que dispensam comentários. Mas não foi algo pensado, garante Alexandre.

"Não houve intenção política ou ideológica para montar o cast (apesar de EU, Alexandre, ser um ativista progressista) houve foi uma necessidade de montar um cast que dialogasse bem com o público, por isso, temos o primeiro dia mais 'pesado' e o segundo dia mais dançante, digamos assim. Sendo todos os grupos do segmento que batiza o nome do festival, ou seja, Rock", conclui.

Às bilheterias, meus bravos!

Festival Rock Concha 2019 / Com Camisa de Vênus, Ratos de Porão, Planet Hemp, Drearylands, Malefactor, Pedro Pondé e Alquímea / 13 e 14 de julho / Concha Acústica do TCA / Ingressos entre R$ 50 e R$ 200 / Vendas: www.ingressorapido.com.br

NUETAS

Popoff ao quadrado

Contrabaixista de renome, Yuri Popoff faz jornada dupla em Salvador nesta quarta-feira. Às 15 horas, palestra na FoxTrot do Shopping Bela Vista (gratuito). Às 20 horas, show de lançamento do álbum De Paris a Minas no Jazz na Avenida. R$ 60 e R$ 30.

Skanibais & Okwei

Não tem como dar ruim: Skanibais convida Okwei Odili e Viny Brasil. Quinta-feira, 23 horas,  Borracharia. R$ 20.

Oi! Cury lança Tchau

Baterista de bandas importantes como Dinky-Dau e brincando de deus, Ricardo Cury lança seu segundo livro, Tchau, sábado, no Mercadão CC. Se o primeiro, Para Colorir (2008), era uma divertida coleção de crônicas, este é um romance. Promete. 17 horas.

quinta-feira, maio 02, 2019

O POETA DA ALEGRIA

Moraes Moreira, Davi Moraes e banda celebram 50 anos de carreira do homem do Pombo-correio com o show No Teatro do Poeta, amanhã, no TCA

Moraeszão e Moraeszinho, foto Davi Hawk
Sexta-feira de muita alegria, música e poesia no Teatro Castro Alves, amanhã. O gigante Moraes Moreira, seu filho guitar hero Davi Moraes e banda levam ao solo sagrado do palco mais importante da Bahia o show justamente intitulado No Teatro do Poeta, em comemoração ao seu meio século de carreira.

Inspirado, Moraes enviou com exclusividade ao Caderno 2+ não apenas algumas respostas por e-mail, mas também um poema inédito, Dá Pra Viver Sem Cultura?, uma resposta / reflexão aos que tentam transformar os artistas em vilões da História. Aprecie na coluna ao lado mais abaixo.

No show, repertório na medida para deliciar os apreciadores de sua arte: Chame Gente, Preta Pretinha, Cidadão, Eu Sou o Carnaval e também músicas dos recentes Ser Tão (2018) e Tá Em Casa (2017, de Davi). “Com certeza vai ter músicas novas dos nossos mais recentes discos, mas a base é uma só: clássicos, um atrás do outro”, afirma Moraes.

“Clássicos que o povo da Bahia nunca esqueceu, e cultivou com amor na alma e no coração, não se esquecendo, como nos registros oficiais, que tentam contar o caminho certo da história mas pecam, omitindo fase tão importante que aconteceu antes do estouro da axé music”, acrescenta, certamente se referindo à era de ouro do Trio Elétrico Armandinho, Dodô & Osmar, do qual foi o primeiro vocalista, além dos Novos Baianos, claro.

No palco, uma superbanda, a começar pelo próprio Davi Moraes na guitarra, mais a lenda viva Jorginho Gomes (Novos Baianos) na bateria, Augusto Albuquerque (baixo), Roberto Stefesom (saxofone e flauta), Vander Nascimento (trompete), Rafael Meninão (acordeon) e Guerrinha (percussão).

“(O som) Sai bonito, mestre Jorginho, junto com o Davi, garantem tudo, para que o Papai (maiúscula de Moraes) aqui possa flutuar a bordo do seu violão. Todos os músicos são de alta competência e chegam junto”, afirma o treinador do Pombo-correio.

Moraes conta que ele e Davi tiveram a ideia para este show no último Carnaval, tocando no trio, justamente na praça do poeta: “Na Praça Castro Alves, vimos um público maravilhoso que brincava e não brigava. Ficamos felizes por termos abandonado os velhos circuitos, colapsados, tomados por artistas que não conhecem, nem querem conhecer a bela história do Carnaval da Bahia”, afirma o músico.

“A gota d’água para o abandono dos circuitos foi quando recebi dois trios sucateados, maquiados para serem aprovados. Não seguraram a onda, quebraram. O primeiro logo na saída e o segundo no meio do circuito Barra-Ondina. Não posso afirmar que foi de propósito, mas o fato aconteceu e eu não sei se a Bahiatursa cuidou para que vergonhas desse tipo não mais aconteçam. Só sei que outros artistas recebem trios especiais e bancados pela autarquia”, relata.

Jubileu de ouro 

O poeta ao violão, foto divulgação
Chateações à parte, Moraes reafirma seu amor maior: “O show celebra marca importante: 50 anos de carreira com um trabalho que, em todas as suas vertentes, tem como ponto de partida a Bahia”.

“Já Davi completa 30 anos (de carreira), um artista precoce que, aos três anos de idade, me passou a certeza que seria da música”, acrescenta.

Outra grande alegria é se apresentar no Teatro Castro Alves: “O TCA é especial, a melhor acústica do Brasil, o templo do Poeta, que, aliás, será bastante lembrado nas canções, além das declamações, que se tornaram obrigatórias depois que virei ocupante da cadeira numero 38 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, no Rio de Janeiro, agora com o status de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro”, conta.

Para terminar, outra grande notícia, desta vez sobre os Novos Baianos: “Está previsto um disco de inéditas para o fim deste ou no começo do próximo ano”. Grande Moraes.

Moraes Moreira & Davi Moraes e banda: No Teatro do Poeta / Amanhã, 21 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / Cadeiras A a H: R$ 140 e R$ 70 / I a P: R$ 120 e R$ 60 / Q a Z6: R$ 100 e R$ 50 / Z7 a Z11: R$ 80 e R$ 40 /Vendas: Bilheteria TCA, SACs Shopping Barra e Shopping Bela Vista e Ingressorapido.com.br / 18 anos

BÔNUS: DÁ PRA VIVER SEM CULTURA?

O poeta ajeita os óculos para enxergar os minúsculos que nos governam 
Sem alma, corpo é cadáver; Sem corpo, alma é fantasma. Ah, como é triste se ater Com quem não se entusiasma! Prefiro uma sepultura Do que viver sem cultura, Onde a matéria não plasma.

A história da humanidade Jamais se escreveu sem arte; Em toda e qualquer idade O grande artista fez parte, Eternizando momentos, Verdadeiros monumentos, Em várias formas, destarte.

E quem é que não precisa Dessas ricas referências? O sorrir de “Mona Lisa”, Entre outras aparências, A beleza foi pintada; Van Gogh – “Noite Estrelada” A despertar consciências.

Veja bem como se trata O traço do grande esteta: Composição abstrata A sua obra é completa; Quão genial é seu toque, O americano Pollock, Pintando, era um poeta.

Apresentou seu talento No mundo da lua, o artista! Ali, naquele momento, Era ele o impressionista.. Vou olhar de pincenê O trabalho de Monet, Que vai encher minha vista.

Do amor se fez o tesouro! Dei nota dez e dou vinte, Pintado em folha de ouro Assim foi o “Beijo” de Klimt, Tela que pegou na veia, Foi ela, – “A Última Ceia” De Leonardo da Vinci.

Não demorou muitas horas O mestre, pra dar ouvidos: Senhores e minhas senhoras! Os relógios derretidos, O Salvador, desses ismos, Formigas, surrealismos, Dali, dos tempos vividos.

Tema: “Bombardeamento” Traz a tristeza no traço; Tem um arrebatamento Que leva a gente ao abraço. A vida significa, Admirando “Guernica” Do grande Pablo Picasso!

Michelangelo pintou No céu, “Capela Sistina” O que Papa encomendou Aquilo que o mestre ensina, Em suas visões idílicas, Mostrou-nos passagens bíblicas, Que a gente nem imagina.

As obras-primas são tantas, Só acha quem as procura. Ó gênios, como me encantas Com a divina loucura!

Meu povo, vai, não vacila! “Abaporu” de Tarsila! Dá pra viver sem cultura?

Moraes Moreira 22 de abril 2019

terça-feira, abril 30, 2019

VALE DO CAPÃO ORIGINAL STYLE

Do Vale do Capão, banda Caeté Raiz junta músicos de quatro países em torno da arte

Caeté Raiz, foto divulgação
Pedaço do mundo no coração da Bahia, o Vale do Capão atrai músicos e artistas de todo canto, graças aos seus eflúvios místicos e paisagens deslumbrantes. A banda Caeté Raiz é justamente fruto dessa atração, reunindo músicos de quatro países, incluindo o Brasil.

“Nos conhecemos no Vale do Capão, lugar onde todos chegamos viajando pela arte. Viemos de diferentes partes do Brasil e do mundo: Colômbia, Argentina, Chile. Temos dois brasileiros: um gaúcho e um baiano de Salvador”, conta...

O colunista não sabe quem contou. O pessoal é tão coletivo que esqueceu de dizer quem respondeu a entrevista por email. Mas sem crise.

O importante é que essa superbanda faz um puta som entre o afrobeat, o jazz latino e o ska.

"Nossa união musical não está restrita a um gênero específico. Levamos mensagens de transformação, elevação para o despertar de uma nova consciência, dessa forma, encontramos nos ritimos do Ska, Reggae e Afrobeat a base para manifestar essa ânsia de revolução", afirmam.

Neste sábado, essa rapaziada toda comemora um ano de banda com um show gratuito, e quem estiver por lá no Capão está convidado.

“No dia 5 de maio completaremos 1 ano de banda e vamos celebrar essa caminhada no palco mais lindo do Vale. Vai ser na Pousada do Capão às 14 horas, com entrada franca, um evento para toda a família com zero lixo e zero álcool”, acrescentam os músicos.

Um ano só e já estão comemorando, mas o que que é isso? Pois é, um ano de muita música e muito trabalho, com muitos shows pela Bahia, inclusive aqui em Salvador. Ih, você não soube? Então aguarde que eles voltam.

“Sim já tocamos em outras partes da Bahia. Lençóis foi nosso primeiro palco fora do Vale, e logo fizemos algumas apresentações em Salvador, onde se destacam Teatro Gamboa e o (Bar) Oliveiras (no Santo Antônio)”, contam.

“Temos muita vontade de compartilhar nossa música novamente, e esperamos em breve organizar uma nova visita até a capital baiana”, dizem.

Seres transformadores 

Interessou, curtiu? Vai no YouTube que tem um material bem legal deles, incluindo dois vídeos da música Para Despertar.

Um ao vivo, com participação da cantora francesa Line Tafomat e o clipe oficial.

No momento, a galera está gravando seu primeiro álbum, lá mesmo no Vale.

“Já temos nosso primeiro single nas principais plataformas de streaming. Dentre os integrantes da banda também temos técnicos e engenheiros de som, com estúdio e equipamento profissional, possibilitando as gravações sem sair do nosso querido vale”, contam.

"Também tivemos a oportunidade de masterizar nosso single Para Despertar com Chalo Gonzales, do Estúdio CHT, que já trabalhou com Queen, Incubus, Simply Red, entre outros", conta.

“Caeté Raiz é uma família de seres transformadores que se encontrou através da arte, buscando uma nova vida, inspirando-se na natureza. Levamos essas mensagens em nossas músicas”, concluem.

Caeté Raiz / Domingo, 14 horas / Pousada do Capão (Vila do Capão) / Gratuito / www.facebook.com/caeteroots



NUETAS

Beatles de feriado

Beatles Social Club hoje na  Cia. da Pizza. Véspera de feriado, uhú! 20 horas, gratuito.

Blues no Lebowski

Rapaziada do Restgate Blues quinta-feira no Lebowski Pub. 20 horas, R$ 10 e R$ 15.

Rock em debate

O Clube dos Bons Sons promove o debate Rock ‘n’ roll em Salvador: situação atual e como ampliar o mercado. Quinta-feira, 19 horas, Casa OLEC, Rua das Esperas, 78, Pituba.

Irmão, Ativos, Trio

Tem Faustão Falando Sozinho domingo, com Irmão Carlos, Ativos Resistentes e Trio ao Vento. Espaço Dona Neuza, 16 horas, R$ 10. Recomendo.

sábado, abril 27, 2019

TRILOGIA EM CONCERTO

Show Os Três Primeiros Ao Vivo vai agitar geral a Concha Acústica do TCA hoje. No palco, o Skank relembra seus primeiros anos, cheios de sucessos e balanço reggae

Haroldo, Lelo, Samuel e Henrique, foto Diego Ruahn
Na longa (e louca) história do pop rock brasileiro, são poucas as bandas de sucesso que logram  manter a mesma formação por muito tempo. Uma dessas poucas é o Skank. O quarteto mineiro traz hoje à Concha Acústica o show que relê seus três primeiros álbuns. No palco, os mesmos quatro músicos que gravaram os três discos há mais de 20 anos.

Já disponível em áudio (CD, streaming) e vídeo, os show Os Três Primeiros Ao Vivo traz uma seleção de canções dos álbuns Skank (1992), Calango (1994) e O Samba Poconé (1996), alternando sucessos inescapáveis e também aquelas que Samuel Rosa, Henrique Portugal, Haroldo Ferretti e Lelo Zaneti consideram importantes na trajetória do quarteto.

“O show traz uma seleção de músicas, mas não na ordem dos álbuns e nem são os álbuns completos, o show ficaria muito longo”, conta Henrique, o tecladista, ao Caderno 2+.

“Fizemos uma seleção a partir de duas referências. Uma, músicas conhecidas do público. A outra são canções importantes para nossa história e que acabaram não se tornando tão conhecidas na época de lançamentos dos álbuns. A cada disco a gente ia viajando e conhecendo mais o Brasil, desenvolvendo musicalmente, artisticamente, sendo mais ousados a cada álbum”, diz.

Assim, o público na Concha hoje poderá ouvir ao vivo Jackie Tequila, Tanto,  É Uma Partida de Futebol, Garota Nacional, Tão Seu, Pacato Cidadão, O Homem que Sabia Demais,  Baixada News, Sem Terra, Eu Disse a Ela, Te Ver e outras.

Assim como outra sólida formação, os Paralamas, o Skank partiu da celula mater jamaicana do reggae para depois incorporar elementos diversos ao seu som, característica possível de ser observada (ouvida) nos três álbuns iniciais da sua próspera carreira.

Se Skank era puro reggae pós-Bob Marley calcado na abordagem industrial da banda inglesa UB40, Calango já trouxe mais tempero na receita, trazendo dancehall, raggamuffin e o ritmo folclórico mineiro que dá nome à obra.

Já O Samba Poconé aprofundou essa abordagem, adicionando um toque roqueiro a mais. “Concordo totalmente com sua definição sobre a diferença de cada um dos álbuns, mas acho que isso foi consequência de nossa experiência. O primeiro foi gravado de forma 100% independente, em Belo Horizonte”, afirma.

“No segundo já tivemos uma estrutura de estúdio de melhor qualidade, estrutura da gravadora, chamamos o Dudu Marote para ser o produtor. Então demos um passo a mais no Calango. E o terceiro álbum foi o que inclusive nos levou para fora do Brasil. Garota Nacional a gente comenta que é nosso hit internacional e realmente foi uma evolução”, reflete o músico.

Hoje prática consolidada, a mistura de música pop (e rock) com outros ritmos, marcadamente os  brasileiros, era uma quase novidade nos anos 90, ja que iniciativas semelhantes nos anos 80 (honrosa exceção aos Paralamas) não eram muito bem recebidas.

“O Skank surgiu na primeira metade da década de 1990, junto com outros artistas que tinha essa característica de pegar uma referencia internacional e misturar com alguma fonte cultural local forte. Tinha o Raimundos, que misturava hardcore com repente, o Skank o dancehall com calango, Chico Science também fez a mistura”, observa Henrique.

“O que acho muito bacana daquele inicio dos anos 90 é que foram bandas que ficaram. Uma boa parte delas existe até hoje, e isso já faz tempo, sinal que foi uma geração que tem conteúdo”, afirma

Inéditas agora e no futuro

Você pode não ser fã, mas tem que admitir: os caras tem dignidade. Diego R.
No show, respeito aos arranjos originais, o que faz muito fã respirar aliviado: “Buscamos respeitar os arranjos originais das canções, mas as mudanças tecnológicas acabam nos obrigando a fazer algumas alterações. Mas Para quem conhece as músicas originais eu tenho certeza que ficará muito satisfeito, porque nos empenhamos bastante em fazer ao vivo algo bem proximo do que fizemos no estúdio”.

No álbum Os Três Primeiros Ao Vivo o Skank incluiu duas canções inéditas: Algo Parecido e Beijo Na Guanabara, as quais também devem ser ouvidas no show. “Algo Parecido já está tocando bem nas rádios, tá  na novela, é muito gostosa de tocar ao vivo”, conta.

“Já Beijo na Guanabara  foi composta naquela época dos três primeiros. Aí criamos um arranjo respeitando as referências musicais que utilizávamos”, acrescenta.

Com isso, Henrique não sabe dizer quando haverá um novo álbum de inéditas do grupo. Velócia, o mais recente, é de 2014. “Está nos planos, mas com todas essas mudanças, a maioria dos artistas lançando somente singles, ainda estamos pensando como vamos fazer: se lançamos uma música por vez ou um álbum completo”, conta.

“Ainda acreditamos bastante no conceito de álbum, mas preferimos, neste momento, divulgar essas duas inéditas que saíram junto com essa revisão de carreira”, conclui.

Skank: Os Três Primeiros  Ao Vivo / Hoje, 17 horas /  Concha Acústica do Teatro castro Alves / R$ 120 e R$ 60 / Camarote: R$ 240 e R$ 120 / Vendas: Bilheteria TCA, SACs Shopping Barra e Shopping Bela Vista ou www.ingressorapido.com.br

OS TRÊS PRIMEIROS COMENTADOS

Skank (1992 / 93)



Gravado e lançado de forma independente pela própria banda em 1992, o álbum de estreia do Skank  foi relançado com mais alcance no ano seguinte pela Sony, que contratou o quarteto. Basicamente reggae moderno linha UB40, tem hits como Indignação, Tanto (I Want You, de Bob Dylan) e Let Me Try Again (Sinatra)

Calango (1994)



Produzido por Dudu Marote (inaugurando longeva e próspera parceria), o segundo álbum do Skank expôs melhor tanto sua identidade musical / artística quanto sua brasilidade. Resultado: uma avalanche de hits como É Proibido Fumar, Te Ver, Jackie Tequila, Pacato Cidadão e outros

O Samba Poconé (1996)



O terceiro do Skank ampliou ainda mais o sucesso da banda junto ao público, vendendo mais de dois milhões de cópias na época. Garota Nacional, com seu ousado clipe cheio de atrizes  famosas seminuas, foi sucesso até na gringa. É Uma Partida de Futebol é uma das melhores canções sobre o esporte.

sexta-feira, abril 26, 2019

CINCO ASES E UM CORINGA

Quinteto Astor Piazzolla traz hoje à Salvador o show Revolucionario, iniciando as homenagens do centenário do Maestro em 2021

Quinteto Astor Piazzolla, foto Christian Welcomme
Gênero nascido entre o Uruguai e a Argentina, o tango é, ao lado do nosso samba, uma das joias culturais legadas à humanidade pelo continente sul-americano. E entre os muitos nomes que elevaram o tango a tal status, nenhum brilhou mais do que Astor Piazzolla.

Hoje, o Quinteto Astor Piazzolla traz à Sala Principal do TCA um pouco dessa alta arte, no show justamente intitulado Revolucionario.

Fundado pelo próprio Astor (1921 - 1992) ainda em vida, o Quinteto foi refundado após sua morte pela viúva do Maestro, Laura Escalada Piazzolla, como uma forma de manter vivos seu nome e sua arte.

Atualmente formado por Lautaro Greco (bandoneon), Sergio Rivas (contrabaixo), Germán Martínez (guitarra), Sebastián Prusak (violão) e Cristian Zàrate (piano), o Quinteto mostra em Salvador o show da turnê Revolucionario, que já passou pelo Uruguai, Colômbia, Equador, Peru, Panamá e México. Depois da temporada brasileira, segue para Ásia e Europa.

Curiosamente, o Brasil teve um papel importante em seu reconhecimento mundo afora: “Piazzolla é hoje um músico de renome mundial, seus diferentes artistas (intérpretes) e sua riqueza musical fazem com que diferentes públicos do mundo se sintam identificados e ligados ao seu trabalho”, afirma o saxofonista e flautista Julián Vat, diretor musical do QAP.

“No entanto, como eu disse nos shows do Rio e São Paulo, o Brasil ajudou muito. O professor acreditava em seu próprio trabalho, e aqui ele foi valorizado desde o começo. Isso é sempre apreciado”, diz.

Cidadão do mundo, Piazzolla também não teve dificuldade em atrair feras do jazz, o que lhe  garantiu um bom público no cobiçado mercado norte-americano: “Finalmente, suas colaborações com grandes músicos de jazz, como Gerry Mulligan e Gary Burton, além de planos com artistas da estatura de Miles Davis, que infelizmente não puderam ser concretizados, fazem do público americano uma plateia ansiosa para ouvir sua música”, afirma Julián.

O tango A.P. e D.P.

Para não-iniciados, a importância de Piazzolla pode ser resumida no fato de que o tango era uma coisa antes dele e se tornou outra depois.

“Piazzolla incorpora novas harmonias e critérios rítmicos ausentes até sua aparição, (sendo essa) sua contribuição para universalizar ainda mais o gênero, fazendo com que mais músicos do mundo queiram interpretá-lo”, afirma Julián.

No repertório do concerto, clássicos como La Camorra, Adiós Nonino, Mumuki, Vayamos al Diablo e  Tanguedia. Duas curiosidades são Retrato de Milton, homenagem de Astor ao nosso Milton Nascimento e Retrato de Alfredo Gobbi, homenagem ao músico considerado pai do tango.

“Faremos criações do professor com um perfil mais jazz, como Años de Soledad,  junto com algumas mais acadêmicas, com a fuga (estilo de composição) como característica, chamada Fuga y Misterio, entre outras composições”, diz.

A dois anos do centenário do Maestro, o QAP prepara suas homenagens, sendo o álbum e turnê Revolucionario o primeiro volume de quatro, a ser concluído em 2021. Mais, Julián não conta: “Infelizmente, pouco podemos adiantar, apenas compartilhamos que existem muitas e muito importantes colaborações que estão sendo gerenciadas. Felizmente, os grandes músicos do mundo amam tocar Piazzolla”, diz.

“(Na Argentina, ele) deixou de ser discutido. Mas felizmente, já é um ícone da música Arge,  que nos representa e nos deixa orgulhosos”, conclui.

Quinteto Astor Piazzolla / Hoje, 21 horas / Teatro Castro Alves (Sala Principal) / Fileiras A  a  W:   R$ 120 e R$ 60 /  X  a  Z6:  R$ 90e R$ 45 /  Z7 a Z11: R$ 60 e R$ 30 / Vendas: bilheteria TCa, SACs Shopping Barra e Shopping Bela Vista e www.ingressorapido.com.br

terça-feira, abril 23, 2019

INDIE POP GAÚCHO INICIA TURNÊ PELO NE NA CAPITAL BAIANA

Quinta-feira: Tagua Tagua, do gaúcho Felipe Puperi, e a banda paraibana Glue Trip estreiam em Salvador no Bahnhof

Felipe Puperi AKA Tagua Tagua, foto Rafael Rocha
Rapaziada que gosta de novidade nos palcos locais tem destino certo na quinta-feira: o show que rola no Club Bahnhof com o gaúcho Tagua Tagua, a banda paraibana Glue Trip e a local Tangolo Mangos.

Tagua Tagua é o projeto solo do músico Felipe Puperi, um indie pop de tons experimentais e bem cosmopolita (mesmo cantado em português), ao gosto dos apreciadores de Beach House e afins.

Curiosamente, ele já passou pela Bahia  ano passado, tendo feito shows em Feira de Santana (no Fervura Feira Noise) e Vitória da Conquista (no Suíça Baiana), mas só agora chega a Salvador, primeira parada de uma turnê nordestina que ainda passa por Aracaju, Maceió, Recife e João Pessoa.

“Pra mim é muito incrível estar levando esse show pro Nordeste. O povo nordestino é maravilhoso, extremamente aberto a coisas novas, muito acolhedor e receptivo. Tenho ótimas lembranças da primeira vez e tenho certeza que dessa vez não será diferente, ainda mais tendo na rota várias cidades em que nunca estivemos”, derrete-se Felipe.

No palco, Felipe se apresenta acompanhado de três músicos: “O show é com a banda que está comigo desde o primeiro show do Tagua Tagua, ainda em 2017. São dois aracajuanos (Leo Mattos na bateria, percussão e programações e Rafael Findas no baixo) e um gaúcho (Jojô, na guitarra e sintetizadores)”, conta.

Escritores e produtores

A banda paraibana Glue Trip: 100 mil audições no Spotify. Foto Dani L.
No repertório, canções de seus dois trabalhos já lançados: Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018).

Pedaço Vivo foi gravado no Brasil, mas masterizado na gringa, pelo norte-americano Brian Lucey, com longa folha de serviços prestados para grandes nomes do rock e do pop.

"A masterização é a última fase do processo ao gravar um disco. É o toque final, o que equilibra a sonoridade do todo, ajuda a unir o trabalho e dá uma pressão no som. Também é importante para corrigir algumas frequências que estejam sobrando ou acrescentar algo que falte, como graves, médios e agudos. Estou acostumado a trabalhar com o Brian, ele é ótimo no que faz e tem um ouvido muito aguçado, dificilmente ele me manda uma manter e peço alteração, temos um gosto parecido", detalha Felipe.

Artista gaúcho e independente, Felipe / Tagua Tagua está feliz por iniciar uma turnê em, uma região distante da sua. Algo que pode ficar mais difícil nos próximos anos, com a economia e a política indo para o saco, como vemos. Ainda assim, ele não perde a esperança: "É uma tendência que as coisas fiquem mais difíceis pra cultura num geral nos próximos anos, mas pra artistas independentes sempre tem e sempre terá espaço, pois esses artistas estão acostumados a 'criar' esses espaços, a inventar as próprias oportunidades. E, mais do que nunca, é o momento de se movimentar pra fazer as coisas acontecerem, pra ocupar, pra se reinventar, criar festas, festivais independentes, mesmo sem saber onde isso vai chegar. Demanda existe, o público não sumiu, as pessoas seguem precisando de artistas novos, de novas ideias, de pessoas que as representem também".

Tagua Tagua, foto Rafael Rocha
Perguntado sobre suas influências, Felipe elenca escritores antes de outros músicos e bandas, o que não deixa de ser interessante: “Muitos artistas me inspiram e não  somente músicos. Gosto muito de filmes e livros, minhas composições muitas vezes nascem disso. A poesia sempre me ajuda a encontrar caminhos, gosto muito da Hilda Hilst. Me encanta também a romancista catalã Mercé Rodoreda”, conta.

De  som mesmo, ele cita uma gama de artistas black: do afrobeat de Tony Allen e Fela Kuti ao soul clássico de Marvin Gaye e Bill Withers, passando por Tim Maia e Cassiano.

Mas o que decifra mesmo seu som são seus gostos atuais: “Estou sempre atento a coisas novas também, mas daí minha busca é mais por sonoridade e produção. Atualmente, gosto muito dos produtores Danger Mouse (de álbuns como Rome, com Daniele Luppi, e Lux Prima, com a deusa indie Karen O), Gabriel Roth (selo Dap-Tone), Dan Auerbach (da banda The Black Keys) e Mark Ronson (Back in Black, de Amy Winehouse)”, conclui.

Tagua Tagua + Glue Trip e Tangolo Mangos / Quinta-feira, 19 horas / Club Bahnhof (antigo Idearium) / R$ 20 (Sympla) / R$ 30 na porta



NUETAS

Surrmenage sexta

O power trio Surrmenage (do ex-Dead Easy Arthur Caria) é a atração de sexta-feira no Bardos Bardos. 19 horas, pague quanto quiser. Sabadão é a vez de Tryxx Bomb e Malgrada, no mesmo esquema.

Mantra Sounds sex.

O Festival Mantra Sounds bota Van der Vous, Soft Porn, Orelha Seca, Favna e Kazenin Mafia no Buk Porão (Pelourinho), Sexta, 19 horas, R$ 15.

Rock Esmeril sábado

O mesmo Buk Porão abriga o show Poesia Rock Esmeril, com Modus Operandi, Jato Invisível e Organoclorados, com participação de Beatriz Biscarde. Sábado, 19 horas, R$ 10 + 1 kg de alimento.

Rock, Rua, domingo

As bandas Dom Sá e Jato Invisível fazem Rock na Rua. Domingo,  10 horas, na Av. Magalhães Neto, Pituba. Free.

sábado, abril 20, 2019

PÁSCOA CELESTIAL

Música Com Bach e Mozart, Orquestra Juvenil da Bahia e Coro Juvenil do NEOJIBA brindam o domingo em concerto regido por referência mundial do período barroco

Chiara Bianchini, foto Karol Azevedo
Um domingo de Páscoa verdadeiramente celestial, ao som de Bach e Mozart. Isso é o que espera quem comparecer amanhã, ao Concerto de Páscoa, com a Orquestra Juvenil da Bahia e o Coro Juvenil do NEOJIBA.

A ocasião ganha ainda mais brilho com os auxílios luxuosos da violinista e maestrina suíça  Chiara Banchini e do maestro Ricardo Castro (diretor geral e artístico do NEOJIBA), desta vez ao piano.

No programa, três peças de Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791) e uma de Johann Sebastian Bach (1685 - 1750): ChristLag in Todesbanden, Cantata BWV 4 (do último), Adágio e Fuga em dó menor, K. 546, Concerto para Piano e Orquestra em Mi Bemol maior, K. 271 (também conhecida como Jeunehomme) e Sinfonia 25 em sol menor, K. 183.

Esta última é uma das peças mais marcantes de Mozart, tendo sido bem explorada no clássico filme sobre sua vida, Amadeus (1984, de Milos Forman).

Com a batuta em punho, uma autoridade mundial  em música clássica, notadamente a barroca (séculos 17 e 18): a já citada Chiara Bianchini.

Praticamente sócia do NEOJIBA (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), Bianchini participa, amanhã, do seu terceiro concerto com os jovens músicos da instituição em Salvador.

Natural de Lugano (maior cidade da chamada Svizzera italiana, região da Suíça que fala italiano), ela tem vasta experiência tanto em concertos quanto em estúdio, tendo gravado registros aclamados por crítica e público, como o Concerti Grossi de Arcangelo Corelli (selo Harmonia Mundi, 1992) e o Stabat Mater, de Antonio Vivaldi (mesmo selo, 1995).

“No início dos anos 80, fiz um curso sobre as obras de Bach, ministrado pelo grande especialista (Nikolaus) Harnoncourt (1929-2016, maestro austríaco)”, conta Chiara.

“Entendi que a música antiga, barroca e clássica que tocávamos de maneira muito romântica, não deveria ter sido tocada assim e me apaixonei pela pesquisa histórica e filológica da interpretação com instrumentos antigos”, conta.



ASANBA

Rapaziada dos sopros (madeiras), foto Karol Azevedo
O envolvimento de Chiara com o NEOJIBA começou em Genebra, quando seu amigo, o renomado luthier André-Marc Huwiler, lhe contou sobre o projeto idealizado por Ricardo Castro.

“Eu tinha acabado de me aposentar e tinha mais tempo livre e vontade de ajudar um projeto como o NEOJIBA”, relata.

“Eu sabia que eles nunca tinham visto ou tocado com cordas barrocas e pensamos em trazer alguns (instrumentos) da Europa para começar o trabalho de construção na oficina de fabricação de violinos”, acrescenta.

Huwiler é tão apaixonado pelo NEOJIBA que fundou, lá  em Genebra, a ASANBA (Association Suisse des Amis de NEOJIBA, Associação Suíça dos Amigos do NEOJIBA), que “quer ajudar e convidar jovens brasileiros do NEOJIBA a virem treinar no Conservatório de Genebra e na Escola Suíça de Fabricação de Violinos”, conta.

No concerto de amanhã, Chiara dá prosseguimento ao seu trabalho com a Orquestra Juvenil, avançando para o período final da música barroca, com a entrada em cena de Mozart: “Mozart está na fronteira entre o barroco e o clássico, e é um grande inovador para o seu tempo e para sua busca por uma nova linguagem, que se estabelecerá no final do século XVIII”, observa a maestrina.

“Com Ricardo Castro, tivemos a ideia de planejar um concerto de piano de Mozart. Acho que Ricardo é um excepcional pianista e estou muito feliz e honrada por poder tocar com ele. Perto do concerto, eu propus uma magnífica sinfonia que Mozart escreveu em 1773, aos 17 anos! Uma alegre sinfonia de um jovem cheio de energia, que é adequada para a Páscoa”, acrescenta.

Por sugestão de Eduardo Torres, diretor musical do NEOJIBA, foi incluído também no programa a cantata BWV4, escrita por Bach para a Páscoa. “Para colocar Bach e Mozart em relação, a peça ideal é Adagio e Fuga, de Mozart. De fato, Mozart admirava muito a música de Bach e escreveu várias fugas usando um tema de Bach”, conta Chiara.

Priscila, a discípula

O maestro / pianista Ricardo Castro e a spalla Priscila, foto Karol Azevedo
Um outro destaque muito importante neste concerto amanhã estará à frente da orquestra: é a jovem spalla (primeiro violino)  Priscila Gabrielle Rodrigues.

Aluna de Chiara, ela foi admitida para um curso na área de música antiga em Basel, na Suíça, para onde embarca em breve.

“Conheci Priscilla aqui em Salvador e imediatamente senti seu interesse pela música barroca e por uma maneira diferente de realizá-la. Priscilla é uma boa violinista, corajosa, muito séria, e tenho certeza que ela merece estudar em uma grande e boa escola suíça, em Basileia, onde eu ensinei violino barroco por 20 anos”, elogia Chiara.

“Por isso, ajudei-a a apresentar-se no concurso de entrada, que é muito difícil – e ela foi admitida. Estou muito feliz e acho que quando ela voltar, poderá trazer todo seu conhecimento para jovens músicos brasileiros”, afirma.

Como autoridade em barroco, Chiara aprecia muito as igrejas soteropolitanas, construídas naquele período: “Claro! As igrejas do Pelourinho são magníficas e foram construídas no período renascentista e barroco. Certamente o colonialismo e a igreja trouxeram a cultura europeia para cá, mas também prejudicaram muito a cultura brasileira”.

“Ainda me sinto um pouco magoada quando penso que meus ancestrais europeus aproveitaram a riqueza sul- americana para construir seu império, despojando o povo”, conclui.

Concerto de Páscoa / Com a Orquestra Juvenil da Bahia e Coro Juvenil do NEOJIBA / Regência: Chiara Banchini / Piano: Ricardo Castro / Amanhã, 16 horas / Igreja Batista Sião (R. Forte de São Pedro, 68 - Campo Grande) / Entrada franca

quinta-feira, abril 18, 2019

MODELO DE VIDA

Momento relax do jovem Chico, foto Cynira Arruda
Memória Vida e obra de Chico Buarque são celebradas na fotobiografia Revela-te, Chico, um livrão de arte que dimensiona o tamanho do gênio

Artista, cantor, compositor, sambista, trovador, escritor, dramaturgo, ícone, ídolo, poeta,  “pão”, pai, filho, avô, esportista, subversivo, especialista da alma feminina e Julinho da Adelaide: Chico Buarque não é nem nunca foi um só. É muitos.

E no livro de arte  Revela-te, Chico, todos eles estão contemplados.

Organizado pelo designer e jornalista Augusto Lins Soares e com textos do  jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, o livrão de capa dura é, como o próprio Augusto define, “uma fotobiografia”.

Fruto de árdua e longa pesquisa em arquivos diversos (de pessoas físicas e jurídicas), Revela-te, Chico reúne 210 imagens, muitas delas raras e inéditas, além de mais 22 obras de arte, sendo 21 delas criadas especialmente para o livro.

A única que já estava pronta é o retrato que o pintor Di Cavalcanti (1897-1976) fez de Chico em 1972 – e que desde então repousa na parede de sua casa, longe dos olhos do público até ser publicada.

Que galera é essa, meu rei? Foto David Drew Zingg
“A ideia foi fazer um livro de arte, contando a história dele por meio da fotografia, já que já existem  varias biografias dele, mas nenhuma com a narrativa visual como condutor”, conta Augusto, por telefone.

“Como busquei principalmente sobras de ensaios e reportagens, tinha muito material disponível – mesmo na época do filme (fotográfico). Em  um cálculo aproximado, em alguns acervos, como no do Jornal do Brasil, cheguei a ver umas duas mil imagens”, afirma o autor.

Além do JB, Augusto fuçou outros acervos bem importantes, como Folha Press, institutos Moreira Salles, Antônio Carlos Jobim, Museu da Imagem e do Som (RJ), Editora Abril, Funarte e ainda de  alguns fotógrafos.

“Desse material todo que pesquisei, publicamos apenas um por cento. E nem teria como ser de outra forma”, observa.
 
E mesmo assim, teve acervo que ele sequer pôde pesquisar: “O acervo da Editora Bloch (das revistas Manchete, Amiga e Fatos & Fotos) está bloqueado por razões jurídicas. Na Manchete, a foto era muito importante, deve ter  muita coisa boa ali”, lamenta.

3 momentos, 3 critérios

No aconchego do apê / biblioteca em Paris, foto João Wainer
Diante de tanto material, era necessário estabelecer critérios claros para que uma foto merecesse ser publicada. Augusto estabeleceu três critérios básicos.

“Valor histórico: a foto que contextualiza o tempo em que foi feita. Qualidade estética: uma composição bonita, uma luz bonita, o registro de uma época. E por fim, memória afetiva: às vezes, a foto não é conhecida, não é aquela que foi divulgada, mas te remete a uma época”, detalha.

“Tudo isso foi importante. Montei uma linha do tempo a partir dos livros que contam a história dele e fui complementado com informações novas, que foram emergindo ao longo da pesquisa”, conta.

Um craque desde gruri, Acervo Inst. Antonio Carlos Jobim
Livro na mão, a primeira coisa que se percebe é que ele se divide em três partes: “São três momentos. Primeiro temos os retratos de Chico feitos por  grandes fotógrafos. Em seguida, a linha do tempo, que é o maior bloco. E fechando, as obras de  artistas, abrindo com Di Cavalcanti”, detalha.

“Isso dá uma contemporaneidade à obra. Não temos  nenhuma imagem fotográfica nova, produzida para o livro. Tudo estava disponível em arquivos. Então, de original mesmo, temos as obras dos artistas plásticos”, nota.

Ele conta que Chico não teve qualquer interferência no projeto, apenas liberou o uso de sua imagem: “Conheço o Mário Canivelo, assessor de imprensa do Chico. Falei com ele, ele consultou Chico, que achou interessante. Só disse que não ia participar. Foi tranquilo”

Viabilizado através da Lei Rouanet, o livro está à venda, mas também está sendo distribuído em escolas, bibliotecas e fundações culturais.

Um grande artista inspira outros grandes artistas


Além das fotos, Revela-te Chico é enriquecido com obras de artistas visuais brasileiros, como Di Cavalcanti

Como não poderia deixar de ser, um projeto como este, sobre, um dos nomes mais importantes de nossa cultura, só poderia mesmo contar com outros grandes nomes na sua seleção de imagens – fotográficas e artísticas.

Na parte fotográfica, como pode ser visto em uma pequena amostra na página anterior, reúne mais de 50 grandes fotógrafos, como Adhemar Veneziano, Adriana Pittigliani, Alécio de Andrade, Arlete Soares, Bob Wolfenson, Bispo, Bruno Veiga, Carlos Horcades, Cristiano Mascaro, Cristina Granato, Dadá Cardoso, Daryan Dornelles, David Drew Zingg, Fernando Seixas, João Farkas, João Wainer, Leo Aversa, Luiz Garrido, Madalena Schwartz, Marisa Alvarez Lima, Maureen Bisilliat, Murillo Meirelles, Paulo Garcez, Paulo Salomão e Ricardo Chaves.

Da mesma forma, o organizador se esforçou em selecionar artistas para criar retratos de Chico, a fim de oferecer um material absolutamente inédito à obra.

São 22 imagens. 21 uma delas foram criadas especialmente para Revela-te, Chico.

A única que já estava pronta é a de Di Cavalcanti, que abre a série.

Todas as outras foram encomendadas por Augusto.

“A (pintura) do Di é a única que não foi feita para o livro,  mas era inédita e do acervo dele mesmo. Ele liberou fotografar e está no livro”, conta.

“As outras todas eu pedi aos artistas e eles toparam meu desafio, que era fazer um retrato de Chico sem te-lo como modelo vivo. Alguns artistas recusaram. Todas as imagens foram feitas para o livro e depois cada artista ficou com sua obra”, acrescenta.

Cada artista, uma técnica

Além de Di Cavalcanti, que dispensa apresentações, alguns artistas presentes no livro são J.Borges, Paulo Bruscky, Regina Parra, Alex Flemming, Daniel Lannes, Nino Cais e Rodrigo Freitas, entre outros.

As técnicas são variadas. Há as clássicas pinturas à óleo (Di, Parra, Camila Soato, Marcelo Amorim, Bel Magalhães), acrílico (Lannes, Adriano Melhem, Gunga Guerra) e aquarela (Ingrid Bittar, Danielle Carcav).

J. Borges, mestre da xilogravura, o retratou jovem, na sua técnica consagrada.

E há trabalhos curiosos, como a instalação de Claudia Hersz, o bordado em linho de Bel Moura ou o prosaico e eficiente lápis de Ramonn Vieitez.

Revela-te, Chico / Augusto Lins Soares (org.) e Joaquim Ferreira dos Santos (textos) / Bem-Te-Vi / 240 p. / R$ 145