segunda-feira, agosto 10, 2009

ENTREVISTÃO MARCELO NOVA - TEXTO INTEGRAL

Senta, que lá vem história...


Na infância:
Eu era muito tímido e concentrava todos os meus desejos através da música. Tudo para mim vinha através da música. Eu me lembro de tardes inteiras sozinho no meu quarto ouvindo música, sem fazer mais absolutamente nada. Mas ouvindo música no sentido mais amplo da palavra: atento, ouvidno o baixo, ouvindo a guitarra, o pratro. Tirava um disco, colocava outro. Eu não ficava divagando sobre outros temas. Eu ouvia tudo com a maior atenção, como se estivesse aprendendo alguma coisa. Mas na verdade, era mais um estímulo para a sensibilidade, mesmo. Aquilo me possúía de uma maneira... Hoje eu acho impressionante. Na época era tão natural, tá entendendo? Era tão natural gostar daquilo, eu me sentia excitado com aquilo, eu queria fazer parte daquilo no meu mundo imaginário. Era assim, muita música o tempo todo. Enquanto que os moleques gostavam de jogar bola, ir para a quadra... Eu tinha um amigo aqui em Salvador que nunca mais eu vi, chamadao Mário Mílton, eu não lembro o sobrenome dele. Nós estudávamos no Colégio Antônio Vieira, e no recreio - ele era um ano mais adiantado que eu - a molecada toda ia jogar bola, quem não tava jogando esparava a de fora. Eu me lembro que ficávamos no cantinho da quadra, dizendo: "Você viu o cabelo de Brian Jones, bicho"? "Eu viiii. Eu queria botar o meu por cima da orelha, mas meu pai disse que era coisa de veado. Aí mandou eu cortar o cabelo".

Eu morava na Graça, na Rua Horácio Urpia. Passei ontem pela porta, graças ao Osvaldo (Silveira) Júnior (Bramis), que me levou pelos caminhos do tempo".

Osvaldo (Bramis): "Ele era vizinho do pai de Pedro "Bó" Rocha (ex-baixista da banda Sangria, tocou com Marcelo no show do Groove Bar), Mário e Lula, irmão dele".

Primeiro Contato com o Rock:
Me lembro perfeitamente do momento. É gozado, hoje quando você fala em rock 'n' roll, você tem tantos signos e referências, (naquela época) ninguém sabia o que era rock 'n' roll. 'Que porra é rock 'n' roll?' Eu tô falando de 1959. Rock 'n' roll era um negócio que acontecia nos Estados Unidos e tinha um tal de Elvis Presley que cantava uns negócios, mas ninguém sabia o que era aqui no Brasil. Era música americana, música da moda, qualquer coisa assim, o tratamento era assim. E como meus pais não tinham o costume de ouvir música e minha irmã só ouvia bossa nova, a chega daquilo através de um disco de Little Richard, chamado Aqui Little Richard (Here's Little Richard). Saiu assim, traduzido: 'AQUI, LITTLE RICHARD". E havia uma loja que ficava numa travessa da Rua Chile, chamada C. Sampaio. E eu passei por ali um dia com meu pai e ouvi esse Little Richard, que eu nunca nem tinha ouvido falar. Eu tinha oito ou nove anos de idade, 1959, 60. E eu pedi a ele para me dar o disco. Ele comprou, e pela primeira vez eu tive um disco musical. (Até então) Eu só tinha aqueles discos de Branca de Neve, Os Três Porquinhos, historinha. Aqui Little Richard. Quando eu cheguei em casa que eu botei aquilo na vitrola do meu pai, eu enlouqueci, bicho. Enlouqueci completamente. Era algo radicalmente diferente de tudo o que eu tinha ouvido. João Gilberto era um CHATO! Little Richard era um grito de liberdade total, cê tá entendendo? A ponto de eu pular no sofá de mola de minha mãe, que ela tinha comprado em Deraldo Móveis. Quando você pula no sofá que sua mãe comprou em Deraldo Móveis... isso é uma transgressão. Essa é a verdadeira transgressão. Quebrar a mola do sofá que sua mãe comprou em Deraldo Móveis".

Néctar, a loja de discos:
Tive antes de viajar para os Estados Unidos, entre 1975... Antes eu trabalhei com meu pai (Dr. Fernando Nova, fundador do Instituto Baiano de Reabilitação em 1956). Ele era médico e ele tinha uma clínica de fisioterapia e eu fui fazer palmilha para pé chato, tinha uma expressões. Era... genuraro e genuvalgo, pé que tinha muita curva, pé que tinha pouca curva... Eu fazia pedigrafia, que era um aparelho simples, era de madeira com uma camada de plástico, de borracha em cima, bem fininha, tinha uma tinta a pessoa pisava por cima do plástico e fazia a impressão do pé. Fiz isso duante um tempo com ele. Vendi seguro também, da Mombrás - Montepio dos Militares do Brasil (risos). E queria fazer um programa de rádio. Eu vivia nessa. A loja foi mais uma tentativa de me aproximar da música. Era uma lojinha, na verdade, na Rua Barão de Itapoan, na Barra. Durou dois, três anos, quase. Aí, em determinado momento eu passei o ponto da loja e com a grana que eu ganhei, fui passar três meses em Nova Iorque. Na verdade, fui passar um mês e fiquei três. Isso, em 1980. Foi a primeira viaem que fiz para fora do Brasil. Eu já era radialista, né? Em 1978, fui trabalhar na Rádio Aratu FM. Além (do programa) Rock Special, eu fazia a programação da rádio. Você ouvia Frank Sinatra cantando My Way e quando acabava, entrava Sid Vicious cantando My Way junto, colado. Principalmente para levar os donos da rádio e seus familiares a loucura completa. Por que (naquela época) FM não era esse bagulho completo que se tornou hoje, não. Era sinônimo de de sofisticação. Quem era povão ouvia AM. Quem tinha 'bom gosto' musical, ouvia a FM, que era uma programação selecionada, para pessoas que realmente conheciam música. Aí eu tocava Frank Sinatra cantando My Way e todos os donos da rádio em casa, tomando banho de piscina com seus amigos influentes, diziam: 'olha aí a minha rádio, o nível da programação da minha rádio'. Aí depois entrava Sid Vicious bêbado, vomitando e cuspindo e cantando My Way. 'Queeeem foi o filho da puta que botou isso pra tocar?' (Risos).

Osvaldo: "Uma coisa interessante aí, Marcelo, era como esses discos chegavam na sua mão. Até o Kid Vinil fala sobre isso no Botinada (documentário sobre a história do punk rock no Brasil, de Gastão Moreira, disponível em DVD). Vários desses discos chegavam lá nas gravadoras do Sul e ninguém sabia do que se tratava. Aí mandavam pro Marcelo Nova na Bahia.

Marcelo: (Na época) Ninguém sabia o que era o (The) Clash. Ninguém sabia. Ninguém tinha menor ideia. Sex Pistols? Era uma coisa que o cara tinha ouvido falar e só sabia que era uns caras se vestia toda rasgada (risos). Era uma banda que se vestia podre, uma banda rota.

Osvaldo: O interessante é que com a loja e o programa, ele acabou se tornando uma referência. Chegava um disco que ninguém sabia o que era? Mandavam pra Marcelo. Eu vivia peruando na Néctar e na época não tinha internet.

Marcelo: Mesmo durante a época da programação da rádio, os caras me levavam pro Rio, abriam um armário com 300 LPs que eles não sabiam literalmente o que fazer com os discos. Eu me lembro que eu peguei o cara da Polygram, que na época era Phonogram, e hoje é a Universal, eu fui falar pra ele o que era The Jam, Siouxsie and The Banshees... Ele não tinha a menor ideia. A menor ideia. 'Marcelo, vem cá, você conhece isso aqui? Dá pra vender?'. (Risos) Muito bom! Os caras da indústria, cara! Muito bom!

Osvaldo: Uma coisa que impressionava a gente é que, como ninguém sabia o que era aquilo, não tinha internet, nada, era você que tinha que captar o espírito daquela porra sem ter informação. 'O que significa isso'?. Ninguém tinha, ninguém sabia. E ele (Marcelo) era um dos caras que conseguiam pegar – não se sabe como, morando na Bahia – ele conseguiu entender aquela porra e traduzir pra gente. Ninguém sabia o que era aquilo. Nem ele sabia. Era instintivo. Isso era foda! Eu me lembro do disco do Radio Birdman...

Marcelo (interrompe): Você lembra do Radio Birdman (clássica banda do punk rock australiano)? Radio's Appear! (LP de 1977). (Risos)

Osvaldo: A gente ficava coçando a cabeça: QUE PORRA É ESTA? (Risos) E ele ficava lá, 'não por que isso é uma banda australiana assim assado', ele criava uma interpretação ali na hora. Era criação.

Marcelo: Eu sabia que a banda era australiana. Aí eu ouvia, entendia uma boa parte do que eles tavam falando outra parte não entendia mesmo e fazia uma interpretação em cima disso. Do que era, qual era a intenção, pra onde a coisa musicalmente ia... Era...

Osvaldo: A gente comprava a Melody Maker (revista inglesa de rock, já extinta), que chegava (na banca) A Revista, na (Rua) Afonso Celso (na Barra), com quatro, cinco meses de atraso, quando chegava. E mesmo eles naquela época não tinham a menor ideia do que estava acontecendo.

Em NY:
Foi importante, por que vi vários shows lá. É o que eu falei dos Panteras: o contato visual é importantíssimo. Eu já imaginava fazer parte de uma banda, integrar uma banda. Mas onde é que eu ia arranjar um guitarrista tão bom quanto Jimi Page? Ou um baterista tão bom quanto Ian Paice? Não tinha isso. O rock, naquele momento ali, era uma coisa que estava muito distante, concentrada no virtuosismo de cada integrante da banda. E o punk, de uma certa forma ou de todas as formas, veio e derrubou isso. Desmistificou isso. E isso eu vi. Os caras com quem eu saía em Nova York, eles trabalhavam em loja de disco de manhã e de tarde. Quando era de noite, eles pegavam um amplificadorzinho, uma guitarra Telecaster velha e iam pro CBGB's ou outra casinha tocar. Aí eu pensei: 'ora, isso eu também sei fazer'. (Risos) Aí comecei a arquitetar a ideia de que, quando voltasse pro Brasil, eu ia fazer uma banda nesses moldes, né? 'Faça você mesmo'. Como eu não sabia tocar instrumento nenhum, mas eu conhecia música, eu ouvia muito, eu percebi que eu poderia escrever, que era o que eu gostava mesmo de fazer. Eu gostava de contar histórias, eu gostava de escrever. E de ler. Eu gostava de ler, portanto gostava de contar histórias, portanto achei que poderia escrever textos de canções. E foi isso. Eu comecei a escrever primeiro em cima de músicas que eu ouvia do The Jam ou do próprio Clash... Mas até quando eu escrevia era diferente, né? Você pegar uma música como Complete Control, do Clash, que fala de uma outra coisa e eu fiz uma música chamada Controle Total (Fermata, 1981, primeiro compacto do Camisa de Vênus). Ou seja: como eu não sabia compor, eu escrevi um texto falando sobre a Bahia, a cena cultural e musical baiana. Mas aí, como eu não sabia compor, eu adaptava esse texto para uma música do Clash. Que não tinha nada a ver com aquilo que eu tava falando. Mas que caía como uma luva!

Bete Morreu:
Era uma matéria de jornal, falando sobre a menina que tinha sido violentada e um chofer de caminhão tinha encontrado o corpo e tal. Basicamente foi isso.

Pára a entrevista, atende o pessoal do programa de rádio Roda Baiana e fala ao vivo:
"Vc sabe que Os Panteras foram meus Beatles, né? Eu molequinho, eu tinha meu contato auditivo com música, com o rock espcificamente, mas eu nunca tinha visto. A primeira vez que eu vi uma banda na minha vida, a dois metros de distância foi Raulzito & Os Panteras. Então tem muita gente que gostaria de ter visto os Beatles. Eu não só vi, como hoje toco com os 'meus Beatles'. (...) Rapaz, olhe, eu não entrei por que vc mandou. Eu não faço nada que ninguém me manda, entedeu? Se vc tivesse sugerido essa possibilidade, talvez eu ainda lhe atendesse, mas apesar de velho, vc sabe que ainda tem um certo antro de radicalismo dentro de si que vc não consegue se desvencilhar. Mas vc pode ter certeza (risos) de uma coisa: dia 6 de outubro a gente vai tá aí, velho (no Música Falada, no TCA). (...) Na verdade, é isso mesmo, é tocar pra molecada, meu filho Drake vai tocar comigo também. Chega de velho, né? De velho já basta eu. Aquela má vontade desgraçada pra ligar o amplificador, aí reclama de tudo, da comida, do avião, da aeromoça... Negócio de velho mesmo. Então agora eu tô me divertindo tocando pra molecada. 'Marcelão é o cara e tal', beleza! 'É isso mermo, meu filho, vamo lá, vamo tocar'. Sim, venham mesmo, vocês são bem-vindos. (Muito naturalmente): Prometo que no Música Falada eu vou destruir numa noite tudo o que vocês construiram em anos. Pode deixar comigo. (Pausa. Começa a rir). Não, queisso, 'magina! Obrigado a vocês. Abraço! (Desliga o telefone, volta a conversar na mesa). 'Você entrou no site do Música Falada que eu mandei?' 'Meu amigo, eu não faço nada etc'. (Ri desbragadamente). Osvaldo, ninguém, ninguém (bate no peito) me manda fazer nada, velho! Nada!

Relação com a Bahia:
Desde muito cedo (comecei a perceber que não me identificava com a Bahia). Muito até por causa dessa história mesmo do rock. Era uma cena... por exemplo: depois daquela coisa anos 60 do Raulzito & Os Panteras e outras bandas que tinham aqui em Salvador, isso desapareceu completamente e acho que depois tinha o quê... Mar Revolto, eu acho, que foi a banda dos anos 70 que tinha uma relação próxima com o rock 'n' roll. E eu ia muito pra São Paulo, por que minha mãe tinha uma irmã lá. Então eu passava as férias de junho e julho na casa dessa minha tia em São Paulo. E eu sempre me senti atraído pela cidade grande, aquela série de outras possibilidades, por uma coisa mais... mais... mais urbana mesmo. E toda vez que eu ia pra São Paulo eu comprava uma porrada de discos... Era o meu 'parquinho mesmo. Então, quando finalmente surgiu a possibilidade de sair de Salvador, através do Camisa de Vênus para tentar uma carreira nacional, até porque nós não tínhamos mais nada para fazer aqui, o que tinha pra fazer, já tínhamos feito, eu passei sete, oito meses morando no Rio de Janeiro. Mas também não consegui me identificar nem me relacionar com a cidade, com o ambiente sócio-cultural do Rio.. Eu percebi que era São Paulo mesmo a cidade que eu tinha de ir. Nós do Camisa ainda tivemos um encanto muito grande por Porto Alegre, por que nós saímos de Salvador, íamos pro Rio, SP, mas os primeiros grandes públicos que nós tivemos foram em Porto Alegre. E as gaúchas eram muito atraentes do ponto de vista físico e elas nos perseguiam no meio da rua, como se fôssemos John, Paul, George e Ringo, entendeu? Então isso era muito interessante. Os baianinhos, queimadinhos do sol, com aquelas loiras de olho cinza, azul, aquelas alemãs, italianas de um metro e oitenta. Ali era uma espécie de colônia de férias do rock. Uma Disneylândia no bom sentido. A Disneylândia que Michael Jackson com certeza não gostaria. (Risos). Mas pra ficar, pra trabalhar, pra ter uma base mesmo, organizar uma banda, um centro de onde você pudesse partir pra viajar pelo país, o lugar mais adequado era São Paulo mesmo.

Incidente com Clemente e os punks:
Na verdade, não foi no Madame Satã. Foi no Carbono 14. Eu me envolvi numa discussão com um cara, e esse cara tava com mais cinco ou seis caras, e quando a coisa... Eu era um menino de temperamento quente. Quando a coisa esquentou, ele puxou um punhal pra mim, com uma lâmina enorme e veio pra cima. Clemente simplesmente pulou na frente dele, virou pra mim e falou: 'saia fora que eu resolvo'. E foi exatamente o que eu fiz. Só que, como eu era um moleque da cabeça muito quente, eu fui pra casa e peguei um 32 que meu pai tinha deixado pra mim quando morreu. Peguei e voltei. 'Ah, é punk? Então agora eu vou mostrar como se pode ser punk, mesmo'. Só que, quando eu cheguei lá, o cara já tinha ido embora. Clemente veio falar comigo: 'oi, eu sou o Clemente, eu sei quem você é, você o cara do Camisa de Vênus', Aí eu agradeci a ele, por que se não fosse ele, eu provavelmente teria virado churrasquinho, por que eram seis caras e armados, né? Aí ficamos conversando e até hoje eu digo pra ele: 'Clemente, eu sou um sujeito tão imerecedor da luz divina, mas tão imerecedor que todo mundo tem um anjo da guarda lourão de asas longas. O meu anjo da guarda é preto!". (Risos) E Clemente até hoje é um grande amigo meu. Outro dia tocamos juntos e ele falou pra mim: 'É, se eu soubesse que tu ia dar nisso, tinha deixado tu morrer lá na faca!'. (Risos) Ficamos amigos a partir desse dia, lá no meio dos anos 80.

Rock Special:
As pessoas paravam mesmo pra ouvir! O curioso é que era um programa de rock 'n' roll absolutamente radical, por que só tocava rock 'n' roll mesmo e 70%, 80% do que tocava não era lançado no Brasil, não eram coisas que as pessoas pudessem encontrar nas lojas, e isso começou a chamar a atenção das gravadoras que ficavam no Rio e São Paulo. 'Pô, tem um cara maluco lá na Bahia que toca um programa de rock'. E começaram a me mandar discos, e me convidar pra ir pro Rio e abrir as prrateleiras com 300 discos que eles não tinham a menor ideia do que era e achavam que, de alguma maneira, eu pudesse ajudar a divulgar aquilo. O que muito me agradava, por que pegava vários discos de boas bandas que eu achava que tinham a ver com o programa e colocava no ar. Foi o meu Autorama. Na verdade, o Camisa de Vênus é que foi o meu Autorama. De vez em quando eu gosto de montar o Autorama, dou duas voltinhas. Depois enjoa. Foi o meu Autorama, o Camisa de Vênus.

As três únicas bandas que importavam nos anos 80, segundo Marcelo:
A reação (ao Camisa de Vênus) sempre houve. A minha incompatibilidade com o cenário baiano depois se estendeu pro rock brasileiro também! Eu continuei fazendo lá o que eu fazia aqui! Só que ao invés de discutir e me incompatibilizar com o - na época não se chamava ainda de axé, eram os telúricos - passei a me incompatibilizar com os tais dos caras do rock brasileiro. E nem era com ninguém especificamente. Era aberto, era franco. Era uma distândcia que havia muito grande a forma de... Primeiro, uma coisa: naquela coisa toda dos anos 80, só tinham três bandas. Três. O resto era tudo segunda divisão. Era Ultraje a Rigor, que era uma banda que tinha um texto que pendia para um certo humor irônico. Você tinha o Legião Urbana, que tinha aquela coisa messiânica de Renato Russo, que era um cara que sabia falar pra molecada, aquelas questões de brigas com pai, com mãe, as angústias adolescentes, ele traduzia isso muito bem. E tinha o Camisa de Vênus, que era uma banda absolutamente anárquica, corrosiva e que não se enquadrava em nenhuma categoria. Por que não era punk, não era pop, não era metal, mas era tudo isso misturado de alguma maneira. O resto era tudo segunda divisão. Essas eram as três bandas de rock que importavam. Hoje todo mundo fala dos anos 80, fulano, sicrano... Quem tava lá sabe: o Led Zeppelin, o Black Sabbath e o Deep Purple (do rock Brasil) não necessariamente nessa ordem eram o Camisa, o Ultraje e o Legião. Ponto.

Por que montar uma banda de rock:
Eu montei uma banda de rock, primeiro para saciar um desejo que eu tinha de conviver com a música que sempre me acompanhava do ponto de vista da audição. Eu queria incorporá-la ao meu dia a dia e fazê-la. Eu queria fazer meus poemas, minhas canções e eu precisava da música pra isso. Em segundo lugar, por que eu queria esculhambar com a Bahia. (Risos) E eu consegui fazer as duas coisas. E as pessoas me pagavam pra isso! Então eu achava isso muito interessante. Eu era pago pra esculhambar. Eu entrava nas rádios e as pessoas falavam: 'E aí, Marcelo? E num-sei-quem?' E falavam de um músico baiano. 'E fulano?' O que eu achava que ia ser uma ofensa, digamos assim, acabou se tornando um lugar comum. O Camisa, quando lançou o terceiro disco (Correndo o risco, 1986), Só o Fim, quando saiu o single dessa música, ela saiu junto com uma música da Madonna (Papa Don't Preach). Estamos falando de 1986, quando Madonna era, disparada, a figura mais destacada do universo pop e um sucesso retumbante de execução em rádios. Só o Fim foi a música mais tocada da Warner naquele ano, superando inclusive Madonna. Ou seja: o Camisa saiu do grito de 'Bota Pra Fuder' na Casa de Festejos para se tornar a banda mais executada em 1986. Só o Fim foi um hit que tocou sete meses na rádios sem parar! Sem parar! E eu percebi que eu estava correndo o risco de virar uma caricatura de mim mesmo. Eu tinha alguns exemplos recentes aqui mesmo na música baiana. Eu disse: 'não vou padecer desse mal'. Quando o Camisa estava naquilo que se chama de 'auge da popularidade', da vendagem de discos, das turnês, eu estava profundamente insatisfeito com aquilo. Eu já tinha visto aquele filme antes e aquilo pra mim era tudo deja vu. Daí a sua pergunta. Eu não frequentava festinhas, eu não cheirava cocaína, eu não achava graça em tiete. Eu já tinha feito tudo isso! Eu não queria me perpetuar nessa coisa do glamour, da fama, da celebridade, por que eu nunca persegui isso! A minha maior perseguição, primeiro eu queria esculhambar com a Bahia. E depois com o rock brasileiro, que depois eu descobri que era ainda mais divertido do que esculhambar a Bahia, até por que a maioria dos músicos baianos são semi-analfabetos. A maioria deles não sabe articular uma frase com sujeito e predicado. Então não adianta você bater num cavalo morto. Não tem graça. O rock brasileiro, como era povoado por meninos de classe-média, havia ainda uma certa pretensão intelectual, ou certas referências intelectuais, então aí era bom de bater. Eu me diverti muito batendo em muita gente no ringue. Eu gosto de estar no ringue. Pra mim, seu bato ou se eu apanho, pra mim é indiferente. Eu gosto é de estar no ringue, velho! Estar no ringue é sensacional. A luta em si. O resultado da luta varia. Tem dia que você ganha, tem dia que você toma uma no queixo e cai. Faz parte da luta. Eu gosto da luta. Hoje, não. Hoje eu tô mais pra um treinador. Como era o nome daquele cara que treinava Mike Tyson? Aquele cara gordinho de cabeça branca? Hoje eu tô aqui, ó: esse é o meu lutador (aponta para o filho Drake). Eu tô cuidando da carreira dele no bom sentido. Não da carreira profissional. Mas da carreira existencial dele. Me considero responsável por apontar-lhe um caminho. E tenho cuidado disso, por que essa vida de rock star, cara, do rock 'n' roll, shows, mulheres, turnês, se você começar a acreditar realmente nisso - e as tentações são inúmeras - você tende a menosprezar o que tem realmente de concreto e de real (bate no peito). Você tá entendendo? Eu, aos 34, mandei tudo isso embora. Saí do Camisa na época, em 87. Àquela altura, o Camisa pra mim não fazia mais sentido. E foi a realização do meu sonho, cara. O Camisa foi a minha primeira banda. Nós, e aí eu incluo Karl (Franz Hümmel), Robério (Machado), Gustavo (Müllen), nós percorremos uma trajetória como totais alienígenas. O Camisa de Vênus realmente não sabia tocar! As pessoas diziam isso e eu respondia: 'mas quem precisa saber tocar é músico. As pessoas não vêm pra ver a gente tocar. As pessoas vêm nos ver. As pessoas vêm ver a performance do Camisa. Nós somos tão bons e tão interessantes, que nossa música é uma outra coisa! Nós não precisamos saber tocar! Saber tocar é pra gente medíocre, que precisa disso!' (Risos) Aí vinha: 'Como ele ousa falar isso', aí era uma delícia, aí eu deitava e rolava. Era uma delícia por que eles são muito ingênuos, né? Então as provocações eram um espetáculo a parte. Tem crítico musical que até hoje fala mal de mim. Ele não fala mal da minha música. Ele não fala mal do que eu escrevo. Ele fala mal de mim! Por causa das ironias que eu perpetrei há 20, 30 anos atras. Eles nunca me perdoam por isso. Outro dia, um menino, que já não é tão menino, ele me confidenciou: 'porra, cara, eu fiquei puto com você por que você disse que crítico musical era igual a eunuco numa suruba. Ele vê fazer, ele sabe como fazer, mas ele não pode fazer. (Risos) Ele escrevia num jornal em Porto Alegre. Aí nego publicava, né? 'Marcelo diz que críticos são eunucos'. Isso, uma frase dessas, que era mais ou menos como você estar correndo no campo, e o ponta-direita cruza, você mete o pé e a bola vai no ângulo, foi muito mais um acaso, bate-pronto do que propriamente uma coisa articulada, isso adquiria uma importância por que partia de mim. E como eu não dava margem pra nego me pegar no contrapé, por que eu nunca fiz reggae, eu nunca fiz pop song, eu nunca fiz funk, nem música eletrônica, eu nunca fui MU-derno. Pelo contrário. O que eu faço vem da tradição. Tudo o que faço vem da tradição. Tudo o que eu faço é por que alguém fez antes de mim e se eu tenho algum mérito nisso é de ter conseguido borrar minha impressão digital no que eu faço. Por que quando eu abro a boca e canto, todo mundo sabe que sou eu. Ninguém pergunta 'quem é esse cara?' Todo mundo sabe que sou eu. Não é como a maioria das bandas dessa nova geração que você não sabe quem é quem? E não tem nenhum critério de valor de ficar dizendo que é bom ou ruim, nem parto desse ponto de vista. É despersonalizado. As bandas de hoje estão todas despersonalizadas. As bandas todas seguem uma tendência, todas seguem um estilo e até tem todas o mesmo produtor! Ou os mesmos produtores, né? Que já trabalham dentro daquela mesma sonoridade pra poder ir tocar nas principais rádios pra poder reverter e... aquela história toda. Então essa história de 'criar algo novo', isso é tolice! Tolice! Quer criar um som novo? Enfia um berimbau no cu e sai arrastando ele no asfalto. Vai sair algum som novo daí? Talvez saia. Mas e daí, isso tem algum valor? Isso tem alguma importância, alguma relevância? Essa coisa do culto do novo pelo novo é profundamente ridícula.

A missão de Marcelo: esculhambar a Bahia
Era uma coisa juvenil e que remetia a um certo heroísmo: um contra todos. Totalmente quixotesco! Eu me insurgi contra o poder da música baiana de uma forma totalmente radical! Aberta, franca! E eu tinha uns asseclas que compraram a história, que eram caras que não tinham uma... uma direção na vida. Estavam perdidos em Salvador. Perdidos, completamente. Nos insurgimos contra o mito da Bahia, 'a Terra de Io-iô e Ia-iá'.

Osvaldo: É aquela coisa da Bahia mítica de de Ary Barroso, que não existe. É o Valhalla brasileiro. E eu desconfio que Ary Barroso nunca pisou na Bahia. Não tenho certeza. Mas Carmen Miranda nunca botou os pés aqui. Isso não é crítica nem nada, é uma constatação. É o mito da Terra de Felicidade, onde todo mundo é feliz. Nego não ganha dinheiro, mas é legal, a Bahia é bonita, tem sol. Realmente, essa parte é muito bonita, diga-se de passagem, mas... é um mito. Pra quem mora aqui, vive aqui, se fode... Você sabe disso tanto quanto eu.

Marcelo: Eu fiz até uma piada na época: 'Já foi a Bahia, nego? Então, Valhalla!" (Risos)

Se a Bahia estivesse pegando fogo, vai queimar tudo, o que você salvava da Bahia?
Porra! (Risos. Pára e pensa.) Veja bem, eu acho que a distância que eu estou da Bahia é tão grande, que a minha mangueira não ia chegar até lá. Entendeu? (Risos).

Relação com gravadoras:
Praticamente não havia relacionamento por que eles pretendiam algo que eu não era capaz de oferecer. Eu tinha uma visão muito clara do que eu queria. Não vou nem dizer que era certo ou errado. Mas eu sabia o que eu queria. Por onde eu queria percorrer.

Eles acharam que tinham contratado a próxima Blitz mas pegaram foi um Sex Pistols pela frente.

Marcelo: Exatamente! Eu não queria ser mais uma banda do pop rock brasileiro, do rock de bermudas. Aliás, essa ironia do rock de brmudas, o que tem de músico carioca que até hoje nã me perdoa por tê-los caracterizado dessa maneira... Eles não entendiam, né? Mas eu tive uma relação muito boa com o presidente da RGE, o falecido Marcos Silva, por que ele confiou em mim. A RGE era uma gravadora de música sertaneja, de brega. Ele não tinha nenhuma intimidade com o tipo de música que eu fazia. Nenhuma. E quando eu fiz isso ele achou que aquilo tinha uma importância. Embora ele não entendesse aquilo, ele apostou na coisa. Ele disse: 'Porra, Marcelo, vá lá e faça'. Por que quando eu gravei o Viva (RGE, 1987), ainda havia Censura noi Brasil. E todo o disco foi censurado. E mesmo assim, Sílvia tocou no rádio pra caralho. Mas os palavrões não iam ao ar. Era o bipe que ia no lugar dos palavrões. Era bipe. Bip! mas apesar disso, ele apostou. Ele não entendia. Ele achava que o negócio do palavrão poderia vir a ser uma revolução. Quando na verdade, a única coisa que eu fiz, quando inseri aquela série de palavrões - por que, para o bem ou para o mal, historicamente, eu fui o artista que inseriu o palavrão na música popular brasileira, nunca houve isso antes de mim, independente de estilo, de gênero, nunca houve. O única palavrão foi 'bosta' (Geni & o zepelim, de Chico Barque). Quando o que queria mesmo com aquilo era tirar meu chapéu pra Plínio Marcos, a quem eu tinha visto no Teatro Castro Alves, com Dois Perdidos Numa Noite Suja, e a dramaturgia brasileira naquele momento do final dos anos 60, início dos 70, ela vivia de traduções de Brecht, de Pirandello. Não tinha um autor nacional. Plínio foi o primeiro cara a pegar e levar peças pelo Brasil com uma linguagem que incluía o nosso vocabulário cotidiano. 'Vá tomar no cu, seu filho da puta! Seu viado!' (Risos) Eu me lembro que metade do Teatro Castro Alves se levantou e foi embora! Isso no finalzinho dos anos 60. A pequena burguesia baiana foi toda embora chocada! Como é que alguém poderia dizer numa peça de teatro: 'vá tomar no cu, seu filho da puta'! (Risos) Escândalo total! O Camisa tinha um grito da plateia que me persegue até hoje, o 'bota pra fuder', tinha Sílvia, a versão de My Way. Inserir a linguagem do cotidiano, sabe? Eu achava que o Camisa era um veículo bom pra isso. A forma como a banda se apresentava, as coisas que a gente dizia, elas se prestavam a esse tipo de coisa. Como é que eu vou explicar pra ele (Marcos Silva) que aquilo era uma homenagem a Plínio Marcos? Ele nem sabia quem era Plínio Marcos! Mas ele apostou e disse: 'Tudo bem! Vá lá e faça. Eu sei que você é bom no que você faz'. Ele me bancou! E eu sou grato a ele até hoje. E já tem mais de dez anos que ele morreu. Mas ele me incentivou a ir fundo nisso. Depois eu trabalhei com um cara na Warner chamado Andre Midani que também fez a mesma coisa. Com a diferença que Andre é um cara inteligente, culto. Não que Marcos não fosse inteligente. Mas ele não tinha a cultura que Andre tinha. Andre é um homem que conhece o mundo inteiro. Sírio, ajudou - ajudou não - ele participou, acompanhou a criação do selo Atlantic com os irmãos Ertegun. Era um homem que tinha uma visão cosmopolita da cena. Ele bancou essa história do Camisa. Nós assinamos um contrato de três discos com ele, em 1986. Naquele momento, eu tava tão incomodado com tudo aquilo, aquela coisa de punk baiano. Naquele primeiro disco (pela Warner, Correndo o risco), tinha uma música chamada A Ferro e Fogo que eu gravei com 35 músicos. Uma orquestra sinfônica. 'Punk baiano, punk baiano'. Ah, é punk? Então eu vou mostrar quão punk eu sou. Falei com o meu amigo Peninha Schmidt, que era o produtor do disco: 'Eu quero uma orquestra.' 'O quê?'. 'Eu quero uma orquestra. Completa. Uma orquestra sinfônica, por que eu quero gravar uma música sem a banda. Eu fiz um texto chamado A Ferro e Fogo, que é uma odisseia épica e eu quero ilustrá-lo com nada de rock 'n' roll. Eu quero ilustrá-lo com uma orquestra sinfônica, eu quero fazer dessa música a trilha sonora para Os Dez Mandamentos, você entendeu? Vou tirar Cecil B. de Mille e vou botar Marcelo Nova fazendo a trilha sonora disso'. E ele disse: 'Porra! Vou atrás!'. Foi atrás, conseguimos encontrar o Maestro Ferrante, esqueci o primeiro nome dele. Um cara cabeludo, barbudo, que vibrava, que tinha essa visão de maestro de organizar tudo em forma de partitura, e separar os metais das cordas. Tanto que, quando eu fui cantar, gravar a música, eu vi 35 músicos. Húngaros de 70 anos de idade, era uma linguagem totalmente diferente. Tinha gente de São Paulo, do Japão, da Hungria, da Alemanha, todo mundo reunido ali, e aí entrou aquela coisa, eu disse: 'puta que pariu! É minha canção!'. E quando o disco ficou pronto e saiu, era uma coisa que destoava do resto do disco. Por que até então, eu tinha escrito algumas canções boas. Tinha escrito outras bobagens, mas quando eu escrevi A Ferro e Fogo... A Ferro e Fogo pra mim é a canção que me fez ver que eu poderia vir a ser bom no que eu estava fazendo. Quando eu terminei de escrever A Ferro e Fogo, eu li. E reli. E trabalhei em cima. E depois ensaiei. E depois gravei com a orquestra. E isso, meses e meses se passaram. Eu fui percebendo que era, pra mim, uma canção totalmente definitiva. O que eu escrevi antes de A Ferro e Fogo e o que eu passei a escrever depois dela. Ela me fez perceber que eu não ia passar o resto da minha vida escrevendo Eu Não Matei Joana D'Arc, Sílvia, Bete Morreu e outras canções. Eu tinha um caminho mais maduro, mais adulto, mais poético. Através dela eu descobri outros universos literários e sonoros para compor. Então o Camisa de Vênus deixou de me interessar naquele momento. A partir dali, foi ficando cada vez mais tênue a minha relação com o Camisa. Eu comecei a achar que aquilo era uma brincadeira de menino. É o que eu falei do Autorama agora há pouco em tom de brincadeira, agora se justifica o que eu disse. Eu tinha comprado o Autorama, eu tinha armado o Autorama, coloquei a pista do jeito que eu quis, dei inúmeras voltas com os carrinhos, adorei aquilo, ganhei as corridas, mas como todo brinquedo, uma hora ele já não era mais aquilo, não é? E até hoje, de uma certa forma, eu tenho que agradecer aos outros meninos da banda, por que quando eu saí, apesar do choque que eu provoquei com a minha saída, se por um lado eu dei o nome da banda pra eles. Eu disse: 'olha, vocês põem outro cantor no meu lugar, eu fico na banda até o outro vocalista estar definitivamente assentado, e você podem coninuar usando o nome da banda, mas eu tô saindo'. E eles disseram: 'não. Sem você não tem Camisa de Vênus'. Aí é a parte do agradecimento. Por que eu acho que o Camisa tinha marcas muito legíveis assim. Isso foi o início da minha carreira solo. Na sequencia, eu fui chamado por Andre Midani, que me disse: 'o que você está pensando em fazer?' O Andre foi muito cavalheiro comigo, por que quando eu decidi sair, eu ainda devia dois discos do Camisa pra Warner. Ele disse: 'Olha, se você quer sair da banda, quem sou eu pra dizer que você está errado ou certo?' Ele ouviu as minhas ponderações e embora eu tenho certeza que ele queria dizer 'olha, dá um tempo, vocês estão cansados, fazendo show em cima de show, pára um pouco, fiquem um ano se se ver'. O famoso apaziguador, né? Ele, não. Ele disse: 'Tudo bem'. Eu perguntei: 'Posso lhe pagar com um álbum duplo?' Ele disse: 'Pode'. Eu queria me livrar daquilo. E ele considerou o nosso álbum duplo, o Duplo Sentido (1987) como dois álbuns e eu paguei minha dívida para com a Warner. E aí, logo na sequencia, ele me pediu para uma das meninas que era diretora artística Warner me ligar: 'Olha, o André quer fazer um contrato da carreira solo com você e tal'. Foi quando eu assinei um contrato com a Warner prevendo três discos. O terceiro acabou não se concretizando. O primeiro foi o 'Marcelo Nova & A Envergadura Moral' (1988). O segundo foi 'A Panela do Diabo' (1989), que eu tive a bordo um outro cara (Raul Seixas) comigo (risos). E isso foi o início da minha carreira-solo. Claro que mal-acompanhado, né? (Risos).

Raul Seixas, o amigo, o escroto:
Cara, eu nunca desejei isso, eu nunca busquei isso (gravar um disco com Raul Seixas). Eu nunca nem sequer imaginei isso. Raul foi um cara que foi uma referência pra mim do ponto de vista de texto. Independentemente do valor estético-poético das canções brasileiras (pré-Raul), Raul foi o cara que instaurou a possibilidade de você, como ouvinte, se identificar com o que ele tava dizendo. Então eu acho que essa peculiaridade dele, essa característica dele é muito marcante. Quando eu ouvi Ouro de Tolo a primeira vez, eu não gostei nem um pouco da música. A música é aquele negócio (canta com voz anasalada): 'nana-nina-nina-nina', aquilo é chato. O arranjo é chato. Mas quando eu ouvi a letra, eu parei para ouvir a letra foi quase como se eu dissesse: 'porra, eu escrevi ese troço e esse cara tá cantando o que eu escrevi. Eu penso exatamente dessa forma'. Ele tinha essa capacidade. Os textos dele.. não era só uma coisa de apreciar a imagem a qual o texto remetia. Não! 'Porra, é isso aí! É isso aí o que eu quero dizer'. Então, gravar com ele, 25 anos depois de tê-lo visto com Os Panteras, foi uma experiência de vida mesmo, de estar no lugar certo na hora certa, de destino mesmo. Na verdade nós nos tornamos amigos primeiro. Nós só fomos compor e gravar um disco quatro anos depois de estarmos andando juntos direto. Se não houvesse amizade, jamais teríamos sido parceiros. Por que a gente saía pra beber, saía pra incomodar os outros, ele ia na minha casa, eu ia na casa dele, a gente ouvia muito Lightnin' Hopkins e Howlin' Wolf e enfim... Até chegar no Panela, foi uma trajetória de amizade. Nós ficamos de 83 até 87, quando gravamos nossa primeira música juntos (Muita Estrela pra Pouca Constelação, do dicso Duplo Sentido, 1987), nós ficamos andando junto. Por que ele apareceu um dia em show do Camisa no Circo Voador (Rio de Janeiro), e disse que queria assistir o Camisa por que era a única banda do rock brasileiro que prestava. Chamei ele pra subir no palco na maior cara de pau, por que nós não nos conhecíamos pessoalmente e cantamos Be-Bop-a-Lula, Whole Lotta Shakin' Goin' On. Quando acabou, ele deu uma declaração no JB dizendo que a única banda que prestava no rock brasileiro era o Camisa de Vênus. Aí ficamos uma semana sem falar com ninguém, né? (Tirando onda) 'Aaah, Raulzito que falou, porra! Aaahhhh!' (Risos) Mas Raul era um cara muito bem-humorado. Louco. Completamente doido, como é fácil de presumir e uma pessoa que - muito pouca gente sabe disso - era muito bem-humorado. E que não dava a mínima pra literalmente nada. Nada, nada. Nada. Eu acabava de ouvir um disco - a gente ouvia em vinil, né? - pegava o disco, botava dentro do envelope, pegava o envelope, botava dentro da caixa. Ele largava o disco no chão, ele pisava por cima do disco, ele não tava nem aí pra nada. Se você dissesse que estava com frio, ele pegava o casaco de couro que ele comprou em New Orleans, lhe dava, você ia embora e ele nunca ia lhe cobrar esse casaco. Ele era totalmente desapegado. Uma vez eu peguei na estante da casa dele um livro, uma biografia de Jerry Lee Lewis, chamado Hellfire. 'Porra, Raul, você me empresta pra eu ler esse troço?' Ele pegou o livro da minha mão, fez uma dedicatória pra mim e disse: 'Tome, leve, vá embora'. E ele não tinha outro daquele. Ele não tinha nenhum apego pela coisa material. Essa coisa normal que todos nós temos de querer guardar, cuidar das coisas, ele não tinha. Tanto não cuidava, que não cuidava nem de si próprio, né? Esse era Raulzito. O Raul que eu conheci. Não esse santinho que querem transformar, o Maluco Beleza bonitinho. Raul era um cara escroto! Fazia comentários avassaladores sobre todo mundo. Escroto no bom sentido, né? Ele não tinha pudores. Ele odiava o rock brasileiro dos anos 80. Odiava! Você como jornalista, se for procurar as declarações dele sobre as bandas dos anos 80, vai ver coisas hilárias. Hilárias! Ele era impiedoso. Esse era o Raulzito que eu conheci. Esse que inventaram depois, esse eu não sei. Eu sou que nem o Repórter Esso, eu sou testemunha ocular da história. Eu tava lá.

Rock baiano: uma contradição em termos?
Depois do Camisa surgiram quarenta bandas aqui. E é natural o rock baiano. Num lugar onde você tem tantos elementos antagônicos, é natural que você tenha um núcleo que se posicione contra. Isso é social, não é musical. É social.

O Galope do Tempo:
Eu, em 2005, lancei um álbum chamado O Galope do Tempo. Foi um álbum que eu levei 13 anos guardando, coletando canções. Toda vez que eu ia fazer alguma coisa, eu separava as canções do Galope do Tempo e fazia outras. Por que, aos 41 anos, a mãe dele (aponta para Drake), a mãe dele ficou grávida. Eu disse, caramba, eu vou ser pai aos 41 anos de idade. Eu não achava que ia estar vivo até os 30. E me descobri aos 40 para ser pai. De novo. E de um moleque. Por que eu tenho duas filhas. Então eu fui até o ginecologista e o cara disse pra mim: 'Marcelo, venha aqui no consultório, que você vai ver seu filho'. Poooorra, bicho! Entenda que era a pré-história do tal do ultra-som. Era a maior novidade da ciência! Era o ultra-som! Eu só soube que ia ser pai de duas filhas quando elas nasceram, não tinha menor ideia de nada. O cara vira pra mim e fala: 'Você vai ser pai de um homem'. E mais: 'Venha cá que você vai ver seu filho'. Eu vou! Botei meu melhor terno, fui todo charmoso pra ver meu filho. Chego lá e vejo uma tela preta e uma luzinha acendendo e apagando, com uma precisão matemática. O cara disse: 'É o coração'. Eu procurei, eu fui pra lá, na minha santa ignorância pra ver cabeça, tronco, membros - mais membro do que tudo, afinal de contas era meu filho. (Risos). Aí eu vou lá e veja essa luz acendendo e pagando. Eu fiquei - hoje parece uam declaração ingênua, mas na época, leigo como eu era, sendo convocado pelo médico da minha mulhere para ver meu filho em um aparelho misterioso chamado ultra-som e eu vejo aquela luz... Eu voltei pra casa completamente chapado. 'Será que eu gerei um alien? O que isso significa?' Eu entrei em casa -e isso foi automático - peguei um caderno e escrevi: 'Eu vi um ponto de luz / pulsando no escuro / sem nome / sem fome / aceso, sinalizando o futuro / Não possui um corpo como o nosso / disforme, desajeitado / Seu ritmo exato / é seu auto-retrato / tão intenso / seguro / Eu vi um ponto de luz / a pulsar no escuro'. Aí, dois dias depois, eu escrevi um poema chamado O Galope do Tempo pensando nisso, que eu já tava passado dos 40, cacete! Como é que o tempo passou nessa velocidade galopante? E ali, pela primeira vez eu percebi que eu tinha a oportunidade de fazer, diferentemente de tudo o que eu havia feito, eu tinha a possibilidade de fazer um disco com um só tema. Ao invés de fazer uma canção sobre isso e outra sobre aquilo, um disco que tratasse da minha trajetória através do tempo. E aí comecei a compor e a guardar. A compor e a guardar. E tem canções que remetem a minha infância, outras sobre a adolescência, tá rá rá, e termina com uma canção sobre a minha morte, por que durante esses treze anos eu perdi pessoas que eu amava, evidentemente e é um disco existecialista, que vai do útero ao caixão. É um disco que eu mesmo produzi, paguei estúdio, paguei os músicos... E isso me deu tempo para ficar dentro do estúdio dias inteiros, por que eu tenho restrições a alguns discos que eu fiz no que tange a sonoridade do disco. De alguns eu definitivamente não gosto. E eu queria acertar muito nisso. Então eu tive mais tempo do que quando você esta com uma gravadora atrás de você. O produtor fica dizendo 'porra, bicho, os caras tão ligando, que música vai blá blá blá'. Então eu fiquei muito tempo trabalhando que tipo de som eu queria pra guitarra, o órgão, o violoncelo... Depois do disco pronto, e agora eu posso dizer isso já que já tem quase cinco anos que ele saiu, é a obra onde eu cheguei mais próximo do que eu queria dizer em termos de linguagem e de qual é a minha função nessa história. Não vou dizer que é meu melhor disco, por que isso é muito subjetivo. Mas se eu tivesse que assinar em cima de algum, o primeiro seria ele.

O próximo disco:
É uma coisa que eu não costumo fazer - falar sobre o que eu ainda não fiz - mas estou trabalhando em um conjunto de canções e espero ter a chance de concretizar isso no início do próximo ano. Nunca mais eu vou fazer um álbum parecido com O Galope do Tempo, por que ele tem toda uma peculiaridade e uma longevidade de confecção, por que, imagina, eu nunca pensei que ia passar treze anos compondo, esperando o tempo passar, até por que se é um disco sobre o tempo, como é que eu poderia faze-lo sem dar tempo ao tempo? Não faria sentido fazê-lo em um ou dois anos. Mas agora eu tô fazendo um disco sobre o sexo feminino. São canções basicamente sobre mulheres e confusões com o sexo oposto. u espero lança-lo no primeiro semestre de 2010. Independente, claro. Eu não penso mais em gravadora. Eu não preciso disso. Lamento pela molecada que precisaria de ter alguém para quem mostrarsse, apostasse, trabalhasse. Quem gosta de rock no Brasil sabe quem eu sou. Ou gostam de mim ou me detestam. Eu tenho essa facilidade, né? As pessoas quando gostam de mim me adram. Quando não gostam, me detestam. Então eu não preciso nunca ficar em cima do muro, entendeu? Vou fazer meus discos cada vez mais a minha maneira. Não dá mais pra nem sequer pensar de uma outra forma, seria até tolice. Mas é isso. Aliás, você é o primeiro cara de imprensa para quem eu falo desse disco. Eu nunca antecipo as coisas. Mas acho que de alguma forma nós estamos tendo um papo tão informal aqui. Isso foi ideia de Osvaldo Júnior. Osvaldo Júnior é o Bill Graham, ele é maquiavélico! Ele escolhe os ambientespra deixar as pessoas a vontade, é um filho da puta rapaz, tô te dizendo! (Risos)

Uma possível volta do Camisa:
Ah, Autorama é assim, né? A qualquer hora eu tiro ele da prateleira. Mas falando assim parece que eu tô menosprezando a vontade dos outros meninos. Não é bem isso. O Camisa é a banda que eu tenho maior orgulho de ter montado, feito, participado, sabe? Foi a primeira concretização profissional da minha vida. O Camisa de Vênus é a minha banda, porra! (Bate no peito) Minha banda! Não dou direito a ninguém de falar mal, só quem pode falar mal sou eu, sabe como é que é? Mas o negócio é o seguinte: bandas de rock, cara, têm que acabar cedo. Por que eu tô dizendo isso? Por que banda de rock pressupõe juventude! Pressupõe união! Pressupõe aquele espírito um por todos, os mosqueteiros! Então, eu tô com 57 anos! Eu não posso estar mais com brothers do meu lado vestindo couro preto, xingando garçom, cê tá entendendo, mostrando o dedo pras pessoas na rua. Não cabe mais! Banda é o que eu digo: é o momento! Você vê por aí equívocos muito claros. Veja os Rolling Stones, que é uma banda sensacional, de uma trajetória incontestável, de um talento incontestável, de canções memoráveis, inúmeras delas e você vê os Stones hoje... é um cirquinho! Quer dizer: é um circão! Muito bem montado, muito bem produzido, mas é um teatro! Você vê Mick Jagger com aquela obsessão em parecer jovem, ele é obcecado com isso! Em mostrar a forma física, em demonstrar que está bem, que é capaz de correr o show inteiro. O risco que ele corre é o netinho olhar praquilo e dizer (fala com voz de criança): 'Ih, o vovô é bundão, ele fica mexendo aquele cu magro dele, que ridículo!'. Por que você rebolar aos 20, OK! Mas aos 60 e tantos? Francamente, é ridículo! Então, esses equívocos que você vê numa banda da dimensão dos Stones... Não, tem alguma coisa ali que não é exatamente isso. Então eu penso mesmo que banda... banda é pra ele (aponta para Drake), que está com 16 anos. Banda de rock! União! Tesão! Vontade de comer as menininhas todas! Todas! A plateia toda, camarim inteiro, virar tudo de cabeça pra baixo, fuder, fumar e botar pra quebrar! É coisa de moleque, de andar junto! Isso é que é banda de rock! Muita testosterona. Então, finalmente respondendo a sua pergunta, isso não quer dizer que você não sinta vontade de, ocasinalmente, brincar de trenzinho! Pegar o Autorama de dentro armário e dizer: 'Aaah, vamo fazer um racha aqui! Vamo fazer um racha!' Se o racha for do meu interesse e dos demais participantes da corrida, por que não? Por que não? Mas evidentemente que é isso que fizemos agora em 2007. Fizemos dez shows. Acabaram os dez shows, acabou. Cada um voltou para suas atividades. Não existe mais essa possibilidade de fazer uma carreira! Talvez um dia, quem sabe, a gente grave um disco. A troco do quê, não sei. Hoje, agora, nesse momento? nem pensar! Mas, afinal de contas, o Camisa já é uma banda que tem... cacete! Quase 30 anos. Em outubro de 2009 fazemos 29 anos de banda! São praticamente três décadas de banda. E nós ainda estamos aí! Agora, também não podemos demorar muito por que senão a próxima turnê, se tiver, vai ser todo mundo de cadeira de roda! E bengala. (Risos)

30 comentários:

Franchico disse...

Texto integral da entrevista que saiu ontem na Muito - aqui, com direito a todos os palavrões de Marcelo e intervenções de Bramis, que, como já disse, foi o grande responsável pela entrevista ter saído "descontraída" assim, além de ter feito os contatos. Não tenham pressa. Tá gigante mesmo. Mas eu não queria toda essa prosa boa empoeirando em um arquivo de word. E Bramis: vc ruleia, man!

osvaldo disse...

Parabens Franchico.Foi uma honra participar desta entrevista que vc conduziu com honestidade e integridade.Um daqueles momentos para se guardar.

Franchico disse...

Pô, Bramis, foi um prazer imenso pra mim - como jornalista e velho fã do Camisinha....

Franchico disse...

Esse fim de semana me atraquei com o novo livro do Ruy Castro (nenhum parentesco comigo - infelizmente), O Leitor Apaixonado: Prazeres à Luz do Abajur.

Trata-se de uma coletânea de crônicas literárias sobre literatura (claro) e jornalismo.

Em tempos de obscurantismo desenfreado, intolerância estúpida e tantos valores invertidos, este livro é um bálsamo de jornalismo à moda antiga, escrito com extrema classe e leveza por um sujeito iluminado, praticamente um erudito.

Coisa fina, recomendadíssima.

Breve, mais sobre isto e aquilo.

teclas pretas disse...

parabéns, osvaldão e chicão. muito bacana, a entrevista. ri muito com marcelo, como sempre.
o "galope do tempo" é um disco que ainda quero sentar, ver as letras, investigar a coisa toda com calma...

o que marcelo ele disse da "despersonalização" das bandas, da pasteurização dos discos, é o que há de pior hoje em dia. uma lástima, bandinhas que não possuem nada de si em seu som, cópias baratas de bandas gringas...cabe a cada um sacar o que tem personalidade e o que não tem.

no mais, deixo um som:

BIRGIMGHAM SUNDAY - "EGOCENTRICK SOLITUDE" [1968]

http://www.youtube.com/watch?v=ACYVaHe-GFA

GLAUBER

cebola disse...

Massa mesmo chicouwsky, gostei pra caramba...e arrancou um furo aí né??
parabéns meu velho.

cebola disse...

Mais um Christmas album?? Não, agora é um disco de natal de mr. Dylan! Esse Ano!! O cara arromba!!!
http://www.uncut.co.uk/news/bob_dylan/news/13439

Nei Bahia disse...

Chicão,quem sabe..sabe, nota 10, apesar de achar sempre que as partes melhores vc guarda pra colocar aqui. Espero estar no "Música falada" de Marcello, acho que é perfeito pra ele, talvez o artista mais adequado para esse tipo de evento, vai ser imperdível.

osvaldo disse...

ta rolando direto esse papo( para alegria de uns tristeza de outros):

No more Radiohead albums says frontman Thom Yorke

http://www.telegraph.co.uk/culture/music/music-news/6006908/No-more-Radiohead-albums-says-frontman-Thom-Yorke.html

osvaldo disse...

o pop & hiss,blog de musica do l.a. times, atesta o ressurgimento das mega raves, com direito a tumulto no evento hard summer, tendo como atrações o crystal castle e os veteranos do underworld. é, parece que o verão que esta acontecendo no hemisferio norte esta sendo da musica eletronica, esperem reflexos no verão brazuca.
HARD Summer dishes out international dance jams at the Forum

http://latimesblogs.latimes.com/music_blog/

osvaldo disse...

e de novo do telegraph, fazendo cobertura decente de musica:

Bob Dylan 'to release' Christmas album

http://www.telegraph.co.uk/culture/music/bob-dylan/6001695/Bob-Dylan-to-release-Christmas-album.html

teclas pretas disse...

a entrevista de dylan para a telegraph:

http://www.telegraph.co.uk/culture/music/bob-dylan/5148025/Bob-Dylan-interview-with-Bill-Flanagan.html

senso de humor e sobriedade sensacionais...
GLAUBER

cebola disse...

Segue mensagem da berlinda:
Pra quem não sabe,finalizamos as atividades.
Gravamos um ep,Mar de Calma,que foi muito bem elogiado Brasil afora.Todo o processo de gravação foi muito bom e divertido,inclusive a mixagem no Rio,na Toca.Infelizmente devido á horários que não se batiam,tivemos que parar.Do jeito que estava não iria rolar...agradeço a todos que ajudaram e se amarravam na banda!Foi uma época muito especial pra min,e acredito que pra todos da banda,foi uma grande viagem;não só a música, mas tudo que envolveu aquela época.Além dos ensaios,as idas a Gilson,sempre regadas á zilhões de cervas e aditivos...Bom,pra min foi uma época inesquecível!Valeu Juliano,Cebola,Apú e André!Outra banda vem ai com quase todos os mesmos integrantes...
E o melhor de tudo:as noitadas em Gilson continuam!
Desejo que o Mar de Calma continue para todos!
Até a próxima jornada!
Agradecimentos especiais a Chicovsky,Candido,Nuno e Simone,Gabi,Priscila,Lídia,Tomáz,Dantas,Messias,Thiago,Alexandre, Bigs...e se estiver me esquecendo de alguem,se sintam agradecidos.
Batata.

Anônimo disse...

Marcelo: (Na época) Ninguém sabia o que era o (The) Clash. Ninguém sabia. Ninguém tinha menor ideia. Sex Pistols? Era uma coisa que o cara tinha ouvido falar e só sabia que era uns caras se vestia toda rasgada (risos)..."

Será que por achar que ninguém conhecia o Clash e que assim ele jamais seria desmascarado que ele copiou o Clash descaradamente?

Roque dos Santos

M.R. disse...

Tava bom demais pra ser verdade. Nota do TCA: "Mudanças na programação na Série TCA 2009, por razões adversas ao controle do Teatro Castro Alves, resultaram no cancelamento do espetáculo da cantora inglesa Marianne Faithfull, programado para 30 deste mês".

Anônimo disse...

Porra o que é isto? Texto muito bacana, foi uma verdadeira sucção.Rapaz, vcs. querem lançar um livro biográfico do cara? Material tá na mão. título sugestivo: Maceleza o mais instigante dos instigmas!!!!
Abraços,
Roberson

pica pau disse...

graande entrevista, em todos os sentidos rsrrrs. marceleza bota pra fuder mesmo!!!é um chute nos culhões do bundamolismo reinante.e ainda tem uma cambada de otario que fica se remoendo todinha pra estoria ficarr mais engraçada hehehe

Elmo disse...

Parabéns pela bela entrevista Chicão!
Marceleza é sempre divertido.
Um abraço!

Elmo.

Anônimo disse...

espero a volta docamisa de venus

Anônimo disse...

Valeu, Chicovsky. E que puta desenho!!! É de Cau????

Bjs

Sora

Franchico disse...

Não, Sora. É de Batistão! Achei pel'aí. Muito bom, né?

Angus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Estou fazendo um trabalho acadêmico sobre Camisa de Vênus e gostaria que indicassem com um pouco mais de exatidão a fonte da entrevista ou um link direto. Grato.

O SORRISO DO ARLEQUIM disse...

(Por Júlio Lucas)
Rir com o humor afiado e inteligente de Marcelo ao ler ou ouvir uma entrevista com ele, já era esperado. Acompanho a trajetória desse cara desde 83. Mas, me surpreendeu mesmo foi a profundidade e franqueza dele ao discorrer sobre assuntos diversos, alguns, salvo engano, nunca abordados antes. Valeu, por me proporcionarem mais uma oportunidade de continuar dando valor a essa figura que é o Marceleza!

Ernesto Ribeiro disse...

Franchico e Bramis:

PARABÉNS pelo trabalho de ouro!!!!

Você merece um troféu estilo Pulitzer de Melhor Entrevista com o Melhor Rocker: nosso ídolo inspirador pai musical, Marcelo Drummond Nova!!!!!



Marcelo Nova é uma montanha de ouro e diamante nesse oceano de bosta que é a tal da "cultura brasileira-afro-baiana."


Lembro até hoje como eu me senti aos 9 anos de idade em dezembro de 1982, quando ouvi no rádio as palavras imortais: "a cidade do axé, a cidade do horror." Foi quando eu descobri que: "Bem, EU NÃO ESTOU SOZINHO."



Marcelo Nova: "A gente não faz musiquinha pra treinador de macaco ficar ordenando pros animal, berrando: 'Sai do chão! Eu quero vê a mãozinha pra cima! Cadê o bumbum pra trás?! Agora todo mundo enfia o dedinho no cu! E agora, todo mundo bota o dedinho na boca!' O nível mental desse país de merda só vive em queda livre..."


Ernesto Ribeiro disse...

Roque Santeiro dos Santos: não há nada para ser "desmascarado" em Mr. Nova. Na própria contracapa do compacto Controle Total, estão os créditos de composição da música: "INSPIRADO NO CLASH".


Bem, fazer o quê? É a lei da ação e reação: quanto maior é a pressão em contrário, melhor é a criação artística. Por isso os melhores brasileiros sempre repudiaram mais o Brasil: Gregório de Mattos, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi e Marcelo Nova.


Todos eles desmascararam esse país de merda, desprezaram e cuspiram nessa falsidade, gargalharam e pisotearam a mediocridade reinante.

Ernesto Ribeiro disse...
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Ernesto Ribeiro disse...
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Ernesto Ribeiro disse...
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Ernesto Ribeiro disse...
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