sábado, novembro 15, 2008

UMA PALAVRINHA DO SEU BLOGUEIRO ROCKLOQUISTA

Abaixo, segue minha fala durante o II Fórum de Música, Mercado e Tecnologia, que até hoje ainda rola no Icba (com shows no Pelourinho). Compus mesa ontem de tardinha com os companheiros Luciano Matos (mediador), Bruno Nogueira (de Pernambuco, atualmente na Bahia, autor do site Pop Up!) e Bruno Maia (do Rio de Janeiro, do site Sobremúsica). A mesa foi intitulada Jornalismo Musical - Tecnologia da Informação em Música. Agradeço à galera da mesa, à todos que compareceram lá e especialmente ao Gilberto Monte, Diretor de Música da Fundação Cultural do Estado, por ter me convidado, fato que me concedeu um prestígio que eu ainda estou em dúvida se mereço mesmo. Segue o texto...

Confesso que, quando fui convidado para vir falar aqui, fiquei meio assustado. Eu sou só um jornalista formado pela Ufba, sabe, não tenho mestrado, não ensino em faculdade nenhuma, nunca escrevi um livro, e, o mais importante de tudo: tenho pânico de falar em público.

É, falar em público para mim é tão agradável quanto andar de avião, ir ao dentista ou enfiar o dedo na tomada. Mas enfim, cá estou eu, numa mesa sobre jornalismo musical na era da informação.

Já disseram por aí que depois de matar o CD, a internet e suas engenhocas virtuais mataram também o jornalismo musical. Sinto informar, mas acho que a notícia da morte do jornalismo musical foi um tanto exagerada.

Sim, hoje, qualquer moleque de 15, 30 ou 50 anos pode abrir um blog dizer tudo o que pensa sobre música. Mas isso faz dele um jornalista musical? Suponho que não. Sabe por que? Eu embro que, nos anos 80, no auge da empolgação com o Plano Cruzado, o rock brasil teve um boom de bandas lançadas pelas grandes gravadoras. Mas e daí? Quantas dessas sobreviveram? Só as realmente boas e que trabalharam certo.

O que eu quero dizer é que existe uma seleção natural em tudo na vida. Quantos blogs musicais já nasceram e morreram, depois de meia dúzia de posts? Não adianta sair falando que entende de rock, se, na verdade, vc começou a ouvir música com Teatro Mágico, NX Zero ou Arctic Monkeys - sem juízo de valor para qualquer uma dessas bandas - e não foi muito além disso, por que na verdade, essa pessoa teria muito pouco conteúdo a oferecer. Basicamente, meia dúzia de posts.

Então, eu não vejo ameaça nenhuma ao jornalismo musical via blogs de apreciadores que só querem um passatempo ou, no máximo, babar o ovo de sua banda preferida.

O cara que se dispõe a ser jornalista de música - ou mesmo de cultura em geral - é, geralmente, alguém que já tem uma tendência a isso desde muito jovem. É um apaixonado. Pior: é um cara que foi pego por essa paixão ainda adolescente. Como toda paixão adolescente, ela é capaz de nos cegar, mas também de nos inspirar, de nos dar força para para realizar, buscar, fazer e acontecer em nome de consumar essa paixão.

Eu mesmo decidi que ia trabalhar na Bizz aos 13 anos de idade. Apesar de provavelmente, ser o jornalista com menos experiência de redação em caderno 2 aqui da mesa, devo ser o mais velho. Não vem ao caso agora, mas além de ter batalhado duro e durante muito tempo até chegar ao Caderno 2 da Tarde, fiz um desvio que me levou a trabalhar com propaganda durante seis anos. Mas nunca joguei fora essa idéia. E durante todo esse tempo, nunca deixei de acompanhar o que acontecia, até por que sempre fui do rock e parte do meio rock local.

Boa parte dos jornalistas do rock só desperta para esse mundo quando chega na faculdade, aí cai num certo deslumbre e tal. Eu, não. Meus melhores amigos sempre foram do rock. Era a galera da Úteros, da Cascadura, da brincando deu deus, etc. Quando eu entrei na faculdade aos 21 anos (atrasado, como sempre), já era macaco velho desse meio. Hoje tenho 37.

Não sei se é o meu caso, mas os melhores jornalistas musicais, para mim, são aqueles que vieram desse mundo: do rock para o jornalismo, e não o caminho inverso.

Como sabemos, a imprensa musical é parte da própria mitologia do rock 'n' roll. Foi um fanzine americano que batizou o movimento punk. Foi um DJ de Londres que divulgou as bandas desse mesmo movimento em diante para o mundo. Foi para um editor da Rolling Stone que John Lennon declarou morto o sonho da era hippie. Há muitos outros exemplos, mas por fim, e mais importante, foi um radialista americano que deu nome a tudo isso: rock 'n' roll.

Então, eu acho que a imprensa musical, especialmente no Brasil, ainda é muito subvalorizada. O jornalista cultural em si - não apenas o musical - vive sobre uma corda bamba. Ele tem direito a emitir opiniões, mas só é respeitado enquanto essas são favoráveis aos músicos.

Por que quando ele critica de verdade, aponta inconsistências e tal, imediatamente os fãs e os próprios músicos logo se apressam a desmoralizá-lo, com argumentos do tipo: "esse cara não entende porra nenhuma de música", "ele não entendeu nossa proposta", "ele tem inveja", "os críticos são músicos frustrados" etc.

As reações na hora do elogio são exatamente o contrário: "excelente matéria, cara", "apareça no nosso show" etc.

Então o cara que se propõe a escrever sobre música é sempre esse ser indefinido, que os músicos não sabem se é "amigo" ou "inimigo" até que ele publique alguma coisa sobre sua banda.

Mas afinal, qual é o papel do jornalista musical? É a obrigação dele ter uma opinião sobre tudo? É a obrigação dele fabricar um um significado sobre a obra dos outros, por mais insossa que esta seja? "Ah, este disco é um tratado sobre a futilidade hi-tech da vida urbana pós-pós-moderna deste início de século, blá blá blá". Alguém ainda aguenta esse papo? Qual o nosso papel, afinal?

O jornalista de música precisa ser músico também para poder falar? Por que eu suponho que muitos dos melhores jornalistas do ramo jamais empunharam uma guitarra. Na minha humilde opinião, é até melhor que o jornalista de música não seja músico, para não impregnar o texto de observações técnicas que só entediariam o leitor. Por que a gente não escreve para outros músicos. A gente escreve para o público. Somos consumidores de música, como qualquer outro.

O cara que escreve sobre cinema, com raras exceções, jamais vai dirigir um filme. Então, na minha opinião, a visão do jornalista de música deve partir de um ângulo muito mais próximo ao do consumidor comum do que ao do músico.

Qual foi a intenção desse cara ao fazer esse disco? Ele teve sucesso, atingiu seu objetivo? Ele é popular ou erudito? Enquanto um ou outro, ele foi bem sucedido? Essa música tem poder para seduzir o público ao qual ela se destina?

São essas as perguntas que me faço quando vou escrever sobre um disco ou uma banda. Por que meu papel não é me colocar do lado do músico, mas ao lado do público. Na verdade, de um ideal de público: informado, inteligente e bem formado.

É aquela coisa: tem muito músico que se revolta quando falamos mal de suas bandas, por que supostamente, não temos autoridade para falar de música por que não somos músicos – a não ser quando falamos bem, claro. Então, quem tem essa autoridade? Só outros músicos? Mas esses não são jornalistas para escrever no jornal. Se eles forem escrever sobre música vai ser uma tragédia, por que não é assim que eles se expressam melhor. É fazendo música.

Recentemente, acho que acabei criando uma micro-polêmica no meio rock local, por que eu reclamei que tinha muita banda por aí que, apesar de ter potencial, não estava lançando mão de um dos principais recursos de sedução do público: o refrão.

O refrão, como sabemos, é parte integrante de uma estrutura maior, que é a canção. A canção é o formato mais simples e popular da música, é aquilo que ouvimos quando ligamos o rádio.

Fui criticado por cobrar dos músicos locais algo que eles, desde o início, deveriam se dispor a fazer: música para o público. Sim, por que quem faz música para outros músicos ou para os amigos não vai para frente nunca.

Se incomodei tanta gente - até alguns dos meus melhores amigos me criticaram duramente por conta dessa minha posição - é por que estou certo mesmo.

Enfim: acho que é esse o nosso papel: não apenas ficar fazendo resenhinhas de disco ou de show, comer pilha de a, b ou c e hypar ninguém, e sim, ter uma visão mais ampla de todo o processo, noticiar, observar, criticar e, até mesmo, apontar direções, caminhos.

E que Lester Bangs venha puxar meu pé de noite se eu estiver errado.

6 comentários:

Franchico disse...

A propósito, no Pop Up do B.N. tem streamings dos covers de Christimas Falls on a Sunday (clássico da brincando de deus) de Loveless (do Pelvs) que a banda Wry fez para seu próximo disco, National Indie Hits, só de covers do indie brazuca.

teclas pretas disse...

franchico,
c merece estar em todas, velho. e ao mesmo tempo. onipresença total! haha

só uma coisa: um artista pode quere ir "pra frente", como vc diz. mas ele pode tmb querer ir para todos os lados. and back again. quem quiser vir junto, eh bemvindo.

joga duro, mermão!

GLAUBER

Franchico disse...

Preciso dizer que já espero por esse filme mais do que ansiosamente?

Diretor de Quantum of Solace vai assumir a Guerra Mundial dos zumbis

Marc Forster dirige a adaptação do livro World War Z: An Oral History of the Zombie War

http://www.omelete.com.br/cine/100016437/World_War_Z.aspx

Anônimo disse...

Salve Chico, prazer conversar pessoalmente o debate realmente foi produtivo, mas agora esqueci o nome completo do cara que vc citou tchelo .... se puder me recorde pra poder baixar. Nos encontraremos no sábado pra colocar o papo em dia, te cuida e que a força esteja com você.
Vagabundo Iluminado

Cebola disse...

Este discurso, tão lúcido e instigante ao mesmo tempo, é um bom de um danado refrão. Daqueles simples com três acordes, mas que podem ser cantados nas mais diversas situações. Inclusive agora em frente ao computador com o desafio de aproximar a música do público.
Abraços meu velho

Ernesto Ribeiro disse...

Grande Francis!


Os que vão morrer lhe saúdam!


Subscrevo suas palavras no Forum.


De fato, reparei que temos muitos pontos em comum. MUITOS mesmo.


Eu escrevo apaixonadamente desde os 10 anos. Todos os meus amigos são músicos de rock ou ligados á cena rocker. Fui colega de sala na faculdade de Rex Crotus dos Dead Billies, Andrea Gabriel da Lilith e da Lou e meu cumpadre Alexandre "Xanxa" Guena (guitarrista da Arsene Lupin) hoje decano do videoclipe do rock baiano (premiado por videos de Pitty e diretor da Oficina de Videoclipe).


E por uma década eu estive "em todas. e ao mesmo tempo. onipresença total!" como disse Glauberovski.


"Ernesto é o multi-homem! O cara freqüenta todas as rodas, conhece TODO MUNDO, tá em todos os círculos; dos colegas de faculdade músicos, fotógrafos, escritores, jornalistas, pintores, videomakers..."


Glauber Moskabilly:


"Ernesto, sabia que tem gente que pensa que somos irmãos? Quando a gente sai junto, é que nem Os Skrotinhos: iguais. Até nas roupas. É a mesma coisa quando eu saio com Morotó."


Pergunta para um concurso:


"Quantas bandas de rock foram formadas ao mesmo tempo por estudantes de Publicidade e Propaganda do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Salvador?


NOVE.


Coexistindo ao mesmo tempo.


The Dead Billies. Dinky Dau. Arsene Lupin. The Honkers. Tudomundo. Shes. Lilith. Uninvited. Jack Road.



No caso da Tudomundo, TODOS os cinco integrantes eram colegas de turma.

Na Lilith, tinham três.


O guitarrista dos Honkers, Felipe Brust, foi o presidente do DA de Comunicação, promovendo festivais de rock, fanzines punks e uma revolução no circuito acadêmico, metendo o pau em toda a máfia católica: "Esse filadaputa não tá aqui pra agradar ninguém!"


Dinky Dau significa "louco de pedra" em vietnamita.


ADORO sua imagem-avatar do Dr. Evil. Rivaliza com a minha do Roscharch.


Continuemos na luta contra os soberanos da merdiocridade triunfante.


Hurm!...