sexta-feira, março 06, 2009

ORQUESTRA IMPERIAL HOJE NA CONCHA

Repórter encara maratona de entrevistas com três membros da Orquestra Imperial antes do show de hoje, na Concha Acústica, pela promoção Sua Nota é um Show

Surgida há cerca de seis anos no Rio de Janeiro, como uma grande brincadeira entre músicos notórios e amigos, a Orquestra Imperial (em foto de Caroline Bittencourt) se tornou uma sensação no cenário musical carioca com seus animadíssimos bailes com clima de carnaval, despretensão e muita boa música.

Flertando com a boa e velha gafieira, mas com uma certa pegada pop rock, já que a maioria dos integrantes é oriunda da cena alternativa de lá, o grupo resgatou - mesmo sem querer - o estilo das orquestras de baile, gerando uma pequena onda de novos grupos.

No show de hoje na Concha, nove dos cerca de vinte integrantes originais estarão presentes no palco. Confira a escalação das feras: Rodrigo Amarante, Thalma de Freitas, Nina Becker, Kassin, Pedro Sá, Domenico, Nelson Jacobina, Wilson das Neves e Moreno Veloso.

No repertório, clássicos da música nacional em releituras dançantes, incluindo boleros e temas dos anos 60, além de sucessos da música pop, com novos arranjos.

Na abertura do evento, o Rei Momo de 2009, Gerônimo esquenta o público com sucessos como Jubiabá e Eu Sou Negão, entre outros. A festa ainda contará com o DJ Som Peba e o VJ e videomaker Marcondes Dourado.

Nas entrevistas a seguir, saiba mais sobre a Orquestra Imperial e três dos seus integrantes: Rodrigo Amarante (Los Hermanos, Little Joy), a cantora e atriz Thalma de Freitas (voz) e o baixista e produtor Alexandre Kassin (baixo).

SERVIÇO:
Sua Nota é o Show – Orquestra Imperial, Gerônimo, DJ Som Peba e Marcondes Dourado
Concha Acústica do Teatro Castro Alves | Praça Dois de Julho, s/n, Campo Grande.
Hoje, 06/03/2009, às 18h
Trocas por internet e call center: ingressorapido.com.br / 4003 1212


RODRIGO AMARANTE

“Sou velejador, então respeito muito o vento”

O bom navegador tem uma ligação quase umbilical com o vento. É a direção e a intensidade deste último que nortearão o curso de sua embarcação nas águas. Revelando-se velejador nesta esclusiva por email, Rodrigo Amarante (em foto de Caroline Bittencourt) parece navegar calmamente seu próprio curso, de acordo com os caminhos que o vento lhe oferece.

Depois da interrupção que a banda que o revelou para os holofotes da mídia, a Los Hermanos, fez há dois anos, Amarante consultou sua bússola, calculou sua rota e buscou novos destinos a bordo da banda Little Joy e da Orquestra Imperial, com a qual ele se apresenta hoje, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

Os dois projetos (termo que ele detesta, como se lê na entrevista) não poderiam ser mais distintos.

Enquanto o primeiro traz uma releitura tropical e bem desencanada de um certo indie rock, o segundo, formado por um who‘s who da música carioca, flerta com o som dos bailes de gafieira que parecia, até então, relegado ao limbo. Apesar de não ter um caráter “resgatista“ do estilo, como frisou seu parceiro Alexandre Kassin, baixista da Orquestra (leia sua entrevista mais abaixo), a iniciativa deu frutos, gerando uma pequena onda de novos projetos similares no Rio de janeiro, segundo o próprio Amarante.

Preparando-se para os dois shows especiais do Los Hermanos no festival Just a Fest, onde abrirá a noite com Radiohead e Kraftwerk nos dias 20 (no Rio) e 22 (em São Paulo), ele é lacônico quando se trata de revelar se há futuro para sua antiga banda após estas apresentações. Como ele mesmo já escreveu, “o vento vai dizer“.

Além da injeção de sangue novo que a proposta da Orquestra obviamente traz, graças aos talentos surgidos na última década que constituem sua formação (descontado o senhor Wilson das Neves, claro), o que o projeto traz de efetivamente novo ao cenário da música brasileira? Ou você refuta essa abordagem e não acredita em "novidade" na música?

Rodrigo Amarante: A Orquestra é uma celebração, uma pelada como dizia Seu Jorge, é o jardim da infância eterna. É uma festa mais do que um projeto, entende? É uma celebração da diversidade, da convivência de diferentes mentes, idéias e gerações, que se tornou uma escola para cada um de nós. Agora, musicalmente, qual a importância do que a gente faz eu não sei, isso aí é mais o seu trabalho do que o meu.

O formato orquestra, infelizmente, meio que caiu em desuso nas últimas décadas, devido a uma infinidade de razões. A Orquestra Imperial veio mesmo para ficar ou é um projeto sazonal? Você acha que com o tempo, a iniciativa de vocês poderá gerar uma nova onda de orquestras de música popular, resgatando o formato do limbo?

RA: Quando a gente começou não me lembro de ver bandas assim por aí e agora tem um monte, pelo menos no Rio. Mas a gente é diferente das bandas de gafieira tradicional porque a gente mistura o repertório clássico com qualquer coisa, faz uma putaria danada com os arranjos, mastiga tudo em nome da alegria, anda na corda bamba. Quanto a questão de se nós somos um projeto sazonal, não acho que somos um projeto, odeio essa terminologia, projeto é alguma coisa que não está pronta ou não se tem convicção de que é viável e nós já estamos nessa há sete anos. É sazonal a longo prazo, um estação que vai durar 50 anos, se deus quiser.

Como estão os preparativos para o show do Los Hermanos no festival Just a Fest? Vocês estão ensaiando direto ou estão indo de mansinho, no sentido de deixar a velha química atuar na hora do vamos ver?

RA: Não existe isso de deixar a química atuar quando se trata de tocar bem, relaxado, com uma banda que não se reúne há dois anos. Música também é trabalho (pasme). Muita gente acha que fazer música é fumar maconha e deixar rolar a inspiração, mas é muito trabalho, um trabalho meticuloso que exige horas e horas de prática e estudo. Com a gente não é diferente. A função do ensaio é fazer a gente não pensar no que tá tocando e poder tocar livre de qualquer pensamento mecânico e, aí sim, deixar o corpo falar pela alma, relaxado, sem grilo.

E depois do show do Just a Fest? Há planos para reativar a banda efetivamente?

RA: Ainda não.

Abrir para o Radiohead e o Kraftwerk tem algum significado especial para você? Ou é só mais um show?
RA: Eu adoro as duas bandas, tô muito feliz de poder dividir o palco com eles. Além de poder ver o show de perto. Esse não é só mais um show mesmo!

O som do Little Joy exala uma alegria e uma leveza que eram bem raras no som dos Los Hermanos (salvo engano de minha parte). Foi a sensação de algo começando do zero novamente (um Brand New Start, de fato) que concedeu essa característica ao Little Joy?

RA: Acho que sim, ter tido a oportunidade de começar de novo, num lugar novo, foi uma benção pra mim (e pro Fab). E esse disco foi sendo feito assim, sem muito a gente acreditar que ia mesmo ser um disco, que a gente ia acabar em turnê com uma banda e tudo. Então nossa alegria de tudo isso ter acontecido, de muitas pessoas terem gostado mesmo do que a gente fez é muito grande. A gente é muito agradecido de poder ter tido essa oportunidade, de ter tido tempo de fazer esse disco e essa turnê.

O que o futuro reserva ao Little Joy? Há planos imediatos para a banda?

RA: A gente já tem algumas músicas novas que a gente vinha fazendo na turnê. A questão é que o Fab tá em NY agora com os Strokes então acho eu vou ter que ir pra lá pra gente continuar isso. Vamos ver o que dá.

Você tem planos de lançar disco solo, como fez Marcelo Camelo, ou você gosta mesmo é de atuar em grupo, fazendo parte de uma banda?

RA: Eu gosto de fazer parte de banda, mas pra ser sincero, não escolhi esse caminho, ele me escolheu. Eu poderia ter feito um disco sozinho fossem outras as circunstâncias. O negócio é que o destino se apresentou assim e eu não deixei passar. Sou velejador então respeito muito o vento.

O que você tem ouvido de interessante, Rodrigo? Aqui no Brasil e lá fora?

RA: Esquivel, Zé Menezes, Julie London, France Galle, Serge Gainsboug, Zombies, Devendra Banhart, The Pop's, Cidadão Instigado, Wailers, funk africano dos anos 70, Monochorme Set, Talking Heads, + 2, WIlson das Neves, Victor Araujo, Luiz Melodia, Rolling Stones, Smiths, Adam Green, The Strokes, Fleetwoods, Leonard Cohen, Dylan...

ALEXANDRE KASSIN

Como surgiu a Orquestra Imperial?

Alexandre Kassin: Começou de um jeito nada planejado. A gente tinha uma data no Balroom (casa de shows do Rio de Janeiro), o cara de lá queria uma coisa semanal, e aí marcamos uma temporada e aí rolou legal. Eu liguei pra duas pessoas que tocam soporos e aí eles rapidamente arranjaram outras pesoas, liguei també pro Nelson Jacobina, que eu sabia que gostava de gafieira. Daqui a pouco outras pessoas começaram a ligar interessadas, amigos de amigos, todo mundo a fim de participar. Isso numa quinta feira. Tivemos ensaios sábado e domingo e na segunda estreamos. Nenhum de nós tinha tocado essa música (gafieira) antes, todo mundo era de banda de rock, mas todos gostavam daquele tipo de coisa. E foi isso que deu um som diferente. Era para durar quatro shows e já tem seis anos. Se fosse uma orquestra mesmo,seria bem mal planejada (risos). Tem três guitarras, sabe, umas coisas que não tem um porquê. Temos três guitarras simplesmente por que apareceram três guitarristas. Aí a coisa foi desenvolvendo desse jeito estranho.

O repertório será mais baseado nos bailes, onde vocês executam vários covers ou mais das músicas próprias que estão no CD? O que o público do show de hoje pode esperar?

AK: O repertório ao vivo era das décadas de 50, 60, que a gente achou que não fazia sentido ser regravado. A Orquestra Imperial nunca foi um projeto "resgatista", é uma coisa depretensiosa, mas nada careta, tipo aula de OSPB, não temos nenhuma pretensão de não deixar o samba morrer ou outra logística nacionalista. Como ninguém queria regravar nada, então gravamos as músicas que as pessoas compuseram para o projeto. A gente não é um show, a gente um baile. Mas show de hoje vai ter músicas das duas vertentes.

Você é considerado um dos grandes nomes da música brasileira desta década, como músico e como produtor. Ao contrário de outras décadas, quando os músicos agiam dentro de um nicho próprio (rock, MPB, etc), você transita com facilidade por várias vertentes, de CSS a Vanessa da Matta. Você vê toda a música brasileira hoje como uma coisa só? Caíram todas as barreiras? Onde acaba o rock e começa a MPB?

AK: Puxa, não sei, agora você me pegou. Nunca parei para pensar nisso. MInha banda nos anos 90, a Acabou La Tequila, era basicamente rock, mas não só de rock, a gente do lado do Barão Vermelho, por exemplo, era uma coisa muito distante. Nunca pensei muito nessa coisa de gêneros indefinidos. Acho, na verdade, que alguns gêneros estão se tornando mais fechados. O rock está mais aberto, mas outros gênertos estão mais fechados. O hip hop está menos experimental, menos interessante. Já o rock passou por uma época em que as pessoas começaram a se desinteressar e talvez por isso voltou desse jeito, mais difuso.

Seu projeto mais querido são as produções para os discos dos outros ou as coisas mais autorais, como o projeto +2?

AK: Olha, o que eu me divirto mais de fazer e tocar é a Orquestra. Eu não gosto muito de fazer show, mas com a Orquestra é muito divertido. Geralmente quando o show tá ficando bom, ele acaba. Como o show da Orquestra é grande, podendo durar até quatro horas, então mata bem a minha vontade de tocar. Sobre o + 2, devemos seguir gravando, mas sem muito compromisso, é um projeto aberto. Ainda não pensamios muito sobre isso.

Quais foram as suas últimas produções?

AK: Terminei agora o dvd ao vivo da Vanessa da Matta, o CD da Mariana Aydar e a trilha de um desenho japonês, que é ambientado no Rio de Janeiro, Michiko e Hatchin. A trilha saiu lá no Japão em dois discos, com vinte temas. Foi um ano de trabalho.

Dizem que você é um cara que transita muito bem entre o experimental e o convencional. Como é se equilibrar nessa corda bamba?

AK: Acho que não existe isso, que é tudo a mesma coisa. Esse negócio de que as coisas são diferentes, eu quase discordo (risos). Tem um lance que me anima a fazer música, é que o dia a dia nunca é igual. Por isso que eu não gosto de ter banda,sabe, é quivalente a peça de tatro. Todo dia você tem que subir no palco e tocar as mesmas músicas. E isso é distante da música. Tem um dia que eu tô tocando baixo, outro eu tô tocando um piano malzão (risos), outro dia eu só faço barulho... A vida tem que ter um pouco de tudo. Até em casa, se eu ouço o mesmo disco umas quatro vezes, eu já entendi, então eu quero ouvir outras coisas, para ter outro ponto de vista.

É a primeira vez da Orquestra em Salvador, não é?

AK: Infelizmente, é a primeira vez da Orquestra, mas eu já toquei aí outras vezes, com o + 2, com o Lenine, com Arto Lindsay no Cortejo Afro, no Carnaval. E também com o Acabou La Tequila, acho que em 1995. Adoro tocar aí em Salvador, é uma grande cidade.

Que banda recente te chamou a atenção aqui no Brasil?

AK: Rockz. Eu gosto muito dessa banda.

THALMA DE FREITAS

Quais músicas você canta na Orquestra Imperial? O que o público pode esperar do show de hj?

TF: Entre outras, canto a musica que eu gravei no disco, Não Foi Em Vão, que é minha e Onde Anda o Meu Amor, do Orlandivo. O público pode esperar muita boa música.
É a primeira vez da Orquestra aí, então tenho certeza q vai ser bem legal. Tomara que as pessoas gostem.

Como você entrou na Orquestra? O Kassin disse que o projeto surgiu numa quinta-feira, ensaiou-se sábado e domingo e na segunda, a Orquestra já estava no palco do Ballroom (Rio de Janeiro).

TF: Entrei logo que começou desde a tal quinta-feira. Eu tava no estúdio com o Kassin na hora que o dono do Ballroom ligou para ele fazendo o convite da temporada. Kassin desligou o telefone e me perguntou: "quer cantar numa orquestra de gafieira"?

Qual é o grande barato da Orquestra Imperial?

TF: É tocar com os meus amigos, que també são meus músicos prediletos. A Orquestra tem músicos dos grupos que eu mais gosto, como o Amarante (Los Hermanos), Pedro Sá (Do Amor, Caetano Veloso), Nelson Jacobina (Jorge Mautner), o Wilson das Neves, o Kassin (+ 2). Enfim, tocar com os meus amigos o som que eu gosto. Isso me pira.

Além de ser cantora, você também tem uma carreira sólida como atriz. Do que você gosta mais, de cantar ou de atuar? Ou dos dois mesmo?

TF: (Demonstrando irritação) Olha, me desculpe, mas eu não vou responder essa pergunta. Já tem seis anos que a Orquestra Imperial existe. É óbvio que eu prefiro e gosto de fazer os dois, e conheço muita gente que toca as duas carreiras, atuando e cantando de forma sólida, e ainda dá tempo de sair com os amigos, fazer compras e pagar as contas.

Quando sai seu próximo CD solo?

TF: Vou gravar meu disco novo ainda esse ano, produzido por Kassin e Berna Ceppas, com canções de minha autoria.

Você utiliza recursos cênicos de atriz no palco quando canta? Como você lida com isso?

TF: Palco é palco, sabe? Não uso técnica, uso meu estilo mesmo. Trabalho nisso há vinte anos, então eu nem penso mais.

quinta-feira, março 05, 2009

BAIA VOLTA A SALVADOR EM DOSE DUPLA

Um dos mais interessantes músicos surgidos no cenário underground dos anos 90, Mauricio Baia se apresenta hoje e amanhã em clima intimista no Balcão Botequim.

Roqueiros de quilometragem mais avançada devem lembrar de sua antiga banda, Baia & Os Rockboys, que fez ótimos shows no circuito alternativo local na década passada. Em 2006, após o fim dos Rockboys (em 2003), lançou seu primeiro CD solo, o elogiado Habeas Corpus. De lá para cá, volta e meia ele se apresenta na Bahia, terra onde nasceu e cultivou um público fiel.

Nos shows do Balcão, Baia será acompanhado por dois músicos locais: Graco (ex-Inkoma e Scambo) no baixo e Thiago Trad (Cascadura) na bateria. “O repertório vai ser um apanhado das minhas duas fases: Rockboys e solo. Costumo também fazer músicas de Zé (Ramalho), Raul (Seixas) e alguma coisa do (Bob) Dylan“, adianta.

De Zé Ramalho e Bob Dylan, aliás, ele pode falar de cadeira. O CD mais recente do primeiro, em homenagem ao último, inclui duas versões suas para canções do velho bardo ianque: Tá Tudo Mudando (versão de Things Have Changed) e Rock Feelingood (versão para Tombstone Blues), sendo que a primeira deu título ao disco.

Em outra frente, Baia dá continuidade ao projeto 4 Cabeça, grupo que integra junto a outros nomes significativos da cena alternativa carioca: Luis Carlinhos, Gabriel Moura e Rogê.

No momento, ele se encontra no processo de gração do primeiro CD do grupo. “Depois de umas temporadas lotadas no Rio, resolvemos gravar. Sai no meio do ano“, promete.

Maurício Baia
Sexta e sábado (6 e 7.03), no Balcão Botequim (3334-7450)
Rua da Paciência, Rio Vermelho | R$ 20

segunda-feira, março 02, 2009

WATCHMEN DESVENDADO

Chega ao Brasil o livro Os bastidores de Watchmen, making of do clássico romance gráfico de Alan Moore

Tornou-se lugar-comum, de 20 anos para cá, apontar o romance gráfico Watchmen como A Melhor História em Quadrinhos de Todos os Tempos. Se predicados não lhe faltam para tanto, informações mais acuradas sobre sua criação e feitura eram esparsas e, não raro, pouco confiáveis.

Em tempo para a estreia (no dia 6) da aguardadíssima adaptação cinematográfica, a Editora Aleph solta nas livrarias o livro Os bastidores de Watchmen.

A edição caprichadíssima, e, por isso mesmo, de preço salgado, é assinada pelo próprio co-autor de Watchmen, Dave Gibbons, que desenhou as 12 edições originais da série e colaborou, como se pode depreender da leitura do livro, com o escritor Alan Moore na criação de muitos dos conceitos e detalhes da obra.

Em capa dura (com sobrecapa), papel de primeira e impressão soberba, Os bastidores de Watchmen está, na verdade, mais para um livrão de arte do que para uma análise aprofundada da complexa obra-prima que é a HQ em si.

A impressão de "livro de arte" é reforçada pela assinatura – conjunta à de Gibbons – dos aclamados designers Chip Kidd e Mike Essl, ganhadores de diversos prêmios Eisner (o Oscar dos quadrinhos) pelos seus trabalhos em livros importantes, como Peanuts: the art of Charles Schulz e DC Comics Covergirls, respectivamente.

Arquivos – Gibbons se limita a abrir seus arquivos e demonstrar ao leitor a exaustiva – e também frutífera – tarefa que foi desenhar Watchmen ao longo de pouco mais de dois anos de sua vida, deixando a análise aprofundada para os muitos ensaístas e pesquisadores (sem esquecer os gaiatos) que pululam pelo chamado fandom (ambiente virtual que reúne os fãs de HQ e cultura pop em geral).

O grande barato do livro é ver como o conceito geral de Watchmen foi sendo maturado pela dupla Moore & Gibbons ao longo da confecção da obra, além de diversas curiosidades sobre esta que é a única HQ presente na lista dos 100 Melhores Romances em Língua Inglesa, segundo a revista Time.

Estão lá desde desenhos feitos por Gibbons aos 13 anos de idade de um certo Night Owl – depois reaproveitado por ele mesmo já adulto, na criação do Nite Owl (Coruja) de Watchmen – até os leiautes preliminares de absolutamente todas as páginas da série.

Entre as revelações mais surpreendentes de Gibbons está o visual inicial do personagem Rorschach, o implacável justiceiro com a máscara inspirada nas manchas aleatórias do famoso teste psiquiátrico de mesmo nome. Ao invés do consagrado conjunto de sobretudo marrom e chapéu Stetson que os leitores conhecem, o lunático espancador de criminosos usava inicialmente um traje colante de corpo inteiro, algo mais convencional quando se pensa em heróis de HQ.

Da mesma forma, o azulado Doutor Manhattan, pivô da série e o único personagem a possuir, de fato, poderes sobre-humanos, chegou a ter orelhas pontudas como as do senhor Spock (Jornada nas Estrelas) e um calção preto como uniforme.

Por fim, tanto as orelhas pontudas quanto o calção foram abolidos, com os autores partindo para a nudez frontal assumida pelo personagem.

Ainda há muitas curiosidades e detalhes, como uma pequena HQ de Gibbons, onde ele relata como conheceu Alan Moore em Londres em 1984, além do relato do colorista John Higgins, artes enviadas a Gibbons pelos fãs da série (alguns famosos) e as imagens dos grosseiros bonecos de chumbo que acompanhavam o RPG de Watchmen, lançado no rastro do sucesso da série.


Os bastidores de Watchmen
Dave Gibbons / Chipp Kidd / Mike Essl
Editora Aleph
280 p. R$ 124
http://www.editoraaleph.com.br/



DESCONSTRUINDO UM GÊNERO

Detalhista ao extremo, HQ marcou por várias razões

É difícil escrever alguma coisa nova sobre Watchmen, que é considerada, ao lado de Maus de Art Spiegelman e Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a HQ que mudou a cara das HQs e concedeu, de uma vez por todas, dignidade artística e profundidade literária a um gênero visto com desconfiança por muitos – até hoje, na verdade.

Para quem ainda não sabe direito do que se trata essa HQ cuja milionária adaptação para os cinemas têm despertado tanta curiosidade e interesse, aqui vai um breve resumo.

Watchmen (a HQ) retrata, com um grau de realismo e apego a detalhes até então nunca visto, como seria o mundo (ambientado na década de 80), se vigilantes e justiceiros mascarados realmente existissem.

Moore se vale de uma narrativa fragmentada que vai e volta no tempo (na época, outra novidade que hoje é largamente utilizada em tudo que é mídia), mostrando quando os heróis surgiram nas décadas de 30 e 40, homenageando a literatura pulp e a chamada Era de Ouro dos quadrinhos, quando estes eram bem mais ingênuos, dirigidos ao público infantil.

No anos 50, porém, com os McCarthistas caçando bruxas a torto e a direito, os vigilantes foram considerados ilegais e colocados na clandestinidade, fazendo com que a maioria deles abandonasse o colante e as máscaras. É importante notar que todos eles eram meros humanos com certas habilidades de luta e apetrechos especiais. Nenhum deles tinha superpoderes.

Aceleração de partículas – A grande virada de Watchmen ocorre quando um acidente em um campo de pesquisas nucleares americano desintegra um funcionário, preso inadvertidamente numa câmara de aceleração de partículas (algo similar àquela máquina que se temia que criasse um buraco negro na Europa, no fim de 2008).

Poucos dias depois desse acidente, esse funcionário reaparece, totalmente transformado, com a pele azulada (e brilhante) e superpoderes de verdade.

O surgimento dessa criatura, chamada de Doutor Manhattan (referência ao Projeto Manhattan, que resultou na criação da bomba atômica americana) desequilibrou a já frágil balança de poder entre Estados Unidos e União Soviética em plena Guerra Fria. Quando estoura a Guerra do Vietnã, o governo americano não hesita em enviar Manhattan ao campo de batalha.

Resultado: os Estados Unidos ganham a Guerra do Vietnã, Watergate nunca houve e Richard Nixon foi reeleito diversas vezes. Nos anos 80, quando se passa a história, ele está em plena campanha, para ganhar "four more years" (mais quatro anos).

Terrível simetria – Moore parte dessa premissa já complexa e eleva o tom ainda mais, criando, com o auxílio de Gibbons e do colorista John Higgins um mundo alternativo inteiro, onde a cultura, a política, a economia, a filosofia e a religião foram profundamente influenciadas pela presença na Terra de uma criatura de poderes praticamente divinos – e que, por mais parecido que isso possa soar com a possível existência de um Deus, parece se distanciar cada vez mais da humanidade, inclusive da sua própria.

Em paralelo a tudo isso, a narrativa (que está longe de ser linear) ainda consegue estabelecer uma conexão profunda entre o leitor e todos os personagens da história, minuciosamente radiografados ao longo da série em todos os detalhes mais sórdidos (ou não) de suas personas.

Há ainda uma forte simbologia que percorre todas as suas páginas, com ícones recorrentes aqui e ali (atenção para a carinha Smiley), bem como personagens transeuntes que se repetem em um certo cruzamento em Nova Iorque, marcas de produtos e empresas fictícias e até mesmo – o cúmulo da sofisticação – uma edição inteira (o capítulo 5) totalmente simétrica, "planejada para ter o mesmo arranjo de quadros quando vista de trás para frente e de frente para trás", como explica Gibbons em Os bastidores de Watchmen.

Enfim: em Watchmen, nada – absolutamente nada – é por acaso. Tudo tem seu significado e sua função dentro da história. E o que não falta ali é detalhe.

Por tudo isso, Alan Moore sempre se mostrou radicalmente contra a adaptação de suas obras, seja para o cinema ou qualquer outro meio, já que, segundo ele próprio, a obra em HQ tem recursos inerentes ao próprio meio que só podem ser apreciados numa HQ.

Ele chegou mesmo a abrir mão formalmente de todos os lucros (há quem desminta, claro) com os filmes baseados em suas HQs em favor dos artistas que trabalham com ele. Uma coerência raramente vista em qualquer meio artístico.

EDIÇÃO EM CAPA DURA VEM AÍ

Lançada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1986, em doze edições mensais pela DC, Watchmen chegou ao Brasil em novembro de 1988 pela Editora Abril, que optou por lançá-la em seis edições, com cada uma contendo dois capítulos da versão original.

Onze anos depois, em 1999, a mesma Abril a relançou de forma mais fiel à original, em doze edições mensais. Uma terceira edição foi lançada no meio desta década pela Via Lettera, desta vez direto em livrarias e em quatro volumes (três capítulos em cada volume).

Agora, com a estreia do filme já pertinho, a Panini Books se prepara para soltar nas livrarias a quarta edição brasileira de Watchmen, e com certeza, a mais luxuosa, baseada na edição Absolute americana, com capa dura, diversos extras e recolorida digitalmente (pelo próprio John Higgins).

Bastardos venenosos – Sobre o filme e a relação de Moore com tudo o que o cerca, a novidade é que não há novidade. Ele continua, como avisou que ia fazer desde 2007, "cuspindo veneno" na mídia sobre a adaptação.

Na sua última entrevista sobre o assunto, para a revista britânica Total Film (noticiada no Brasil através do site Omelete), o barbudão de Northampton chegou a negar a própria obra, associando o gênero de super-heróis com a conhecida deslealdade americana: "Na época em que escrevi Watchmen, eu ainda acreditava nos bastardos venenosos [os super-heróis], eu tinha uma opinião diferente sobre quadrinhos de super-herói norte-americanos e o que eles significavam (...). Os EUA têm uma afeição desmedida por lutas desleais. É por isso que armas são tão populares lá – porque você pode atacar de supresa, atirar pelas costas, lutar de forma bastante covarde. O que lá chamam de fogo amigo, no resto do mundo a gente chama de fogo americano", disparou.

Conhecido não apenas pela genialidade e complexidade que imprime em cada quadrinho que cria em sua vasta obra, mas também por ser um praticante assumido de bruxaria, Alan Moore ainda é um mito oculto, um enigma a ser descoberto por futuras gerações.

Até já existe um documentário sobre ele, The Mindscape of Alan Moore (2003), de Dez Vylenz e Moritz Winkler.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

TRATADO GERAL DO NARCISISMO

Chega as livrarias edição bilíngue de O retrato de Dorian Gray, o mais famoso romance do dândi Oscar Wilde


Até onde pode chegar uma busca incessante pela auto-satisfação, mesmo que isso inclua destruir vidas alheias? O narcisismo desenfreado, um assunto atualíssimo, é a questão central do clássico livro O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (1854- 1900), que chegou as livrarias em edição bilíngue, pela Editora Landmark.

O livro, assim como outra obra-prima sua contemporânea, O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, causou grande comoção (e indignação) na Inglaterra da Era Vitoriana, por tocar em tabus como liberação sexual feminina em Chatterley e homossexualismo (velado) e hedonismo em Dorian Gray.

Além de ser bilíngue, esta edição tem outro diferencial, que, salvo engano, a torna inédita para os leitores brasileiros: trata-se do texto nos 13 capítulos originais publicados em 1890 pela revista norte-americana Lippincott‘s Monthly Magazine.

No Reino Unido, a obra só seria publicada em 1891, com diversas alterações exigidas pela editora Ward, Lock & Company, o que resultou numa certa suavizada em diversas passagens do romance – o que, ainda assim, não o livrou de se tornar escandaloso a época.

Romance mais famoso do polêmico dândi Oscar Wilde, O retrato... é o relato da decadência moral de um jovem ingênuo que a todos encantava pela rara beleza. Após se apaixonar pelo rapaz, o artista plástico Basil Hallward pinta o seu retrato e o presenteia com o quadro.

Gray, ao ver a obra pronta, apaixona-se por si mesmo, desejando manter aquela aparência de eterna juventude.

Ao mesmo tempo, um amigo de Hallward, Lorde Henry Wotton, aristocrata cínico e hedonista, começa a exercer uma forte influência sobre o jovem, levando-o a uma busca sem fim pela satisfação dos seus mais sórdidos e inomináveis prazeres.

Reflexo distorcido – Fora de controle após ter sua cabeça feita pelo mefistofélico Lorde Wotton, Dorian Gray mergulha fundo no narcisismo, na futilidade, no egoísmo, e pior: no crime. Sua aparência, no entanto, nunca muda, mantendo-se jovem e encantador enquanto os anos passam para todos.

Se o espelho nada denuncia e o rosto de Dorian continua angelical, para onde vão os traços de crueldade, demência e culpa que deveriam marcar suas feições? Enquanto tudo isso acontece, Dorian mantém seu retrato pintado por Basil escondido no sótão de sua casa.

Ao mesmo tempo em que comete as maiores barbaridades em sigilo, ele ainda é capaz de frequentar os salões mais exclusivos da aristocracia, pavoneando-se como um conservador linha-dura. Essa dualidade entre o hedonismo e o conservadorismo do personagem rendeu comparações com outro clássico da literatura, O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

Esteticismo – Na época, Wilde usou o livro como veículo para divulgar a corrente artística à qual se filiava, o esteticismo.

Este movimento, cujas bases se apoiavam no livro Studies in the History of Renaissance (1873), de Walter Pater, professor de Estética da Universidade de Oxford, defendia a busca da beleza acima de todas as coisas, transformando o lema a arte pela arte em filosofia de vida.

Daí vem o estilo extravagante de ser e se vestir do escritor, que tanto alvoroço causou na fleugmática sociedade vitoriana.

A propósito, esta edição da Landmark traz como bônus o manifesto esteticista de Wilde no prefácio, incluída na edição britânica de 1891. Numa série de aforismos curtos e geniais, Wilde conclui: "Toda arte é inútil".

Wilde é pop – Espalhafatoso, destemido e sempre com uma observação ácida e intrigante na ponta da língua, Oscar Wilde pagou o preço de ser legítimo em um tempo em que isso não era bem visto e muito menos aceito. Depois de amargar alguns anos na prisão acusado de sodomia (um crime na época), morreu pobre e decadente em Paris.

Seu estilo e sua escrita genial, contudo, sobreviveram ao tempo e foram inúmeras vezes revistos e homenageados ao longo do último século. Diversas vezes adaptado para o cinema, a TV e os quadrinhos, Dorian Gray tem sua versão mais famosa no filme de 1945, com o ator Hurd Hatfield no papel-título.

Ainda este ano, um novo filme para Dorian Gray estreará nos cinemas, com Ben Barnes (o Príncipe Caspian, de As Crônicas de Nárnia) na pele do personagem principal.

Não dá para não citar também seu maior discípulo declarado nas últimas décadas, o ídolo pop Morrissey, ex-Smiths.
O personagem ainda apareceu recentemente no filme A Liga Extraordinária, a malfadada adaptação cinematográfica de Sean Connery para a HQ de Alan Moore e Kevin O'Neill. Nos quadrinhos (se não me engano, fazem anos que li essa história), Dorian Gray não aparece hora nenhuma, mas enfim.

TRECHO:

"Vivemos em umaépoca em que os homens tratam a arte como se fosse uma forma de autobiografia. Perdemos o senso abstrato de beleza. Se eu viver, mostrarei ao mundo o que é isso; e, por essa razão, o mundo nunca deverá ver meu retrato de Dorian Gray". Fala do personagem Basil Hallward.

O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde
Editora Landmark
240 p. R$ 34
www.editoralandmark.com.br

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

NOVAS FORMAS PARA NOVOS LEITORES

HQ - Dom Quixote e Benjamin Button ganham boas adaptações


Transpor obras da literatura para a linguagem das HQs não é uma idéia nova. Desde os anos 50, a saudosa Editora Brasil-América (EBAL) já publicava quadrinizações de clássicos como O Guarani, Escrava Isaura e Jubiabá, entre outros.

Essa tendência, esquecida durante anos, tem sido retomada por diversas editoras. E entre os lançamentos mais recentes, destacam-se Dom Quixote e O Curioso Caso de Benjamin Button.

O primeiro é a imortal obra-prima do espanhol Miguel de Cervantes (1547 -1616), relida, resumida e detalhadamente desenhada pelo quadrinista paulistano Bira Dantas.

Já a produção estrangeira Benjamin Button é uma bem cuidada adaptação da dupla de roteiristas Nunzio DeFilippis & Christina Weir, em parceria com o desenhista Kevin Cornell, sobre o conto de Francis Scott Fitzgerald (1896-1940).

Em comum, o fato de ambas as obras contarem histórias incomuns de dois homens incompreendidos em seu próprio tempo e lugar.

Enquanto Quixote representa, com seu romantismo anacrônico, a passagem entre último suspiro da idade média e o nascimento da era moderna, Button seria uma espécie de marginal definitivo (condenado a este papel pela sua própria condição incomum) em plena era de ouro dos Estados Unidos, entre o fim do século XIX e o início do século XX.

Lelé da cuca – Publicado pela primeira vez em duas partes, a primeira em 1605 e a segunda em 1615, Dom Quixote se tornou um dos pilares sobre os quais se sustenta a literatura ocidental ao relatar, de forma ao mesmo tempo cômica e melancólica, as jornadas aventurescas do decadente fidalgo Dom Alonso Quixano.

Apaixonado pelos romances de cavalaria que mostravam bravos aventureiros medievais a salvar mocinhas de dragões, Quixano, um senhor um tanto lelé da cuca, resolve ele mesmo vestir a antiga armadura do seu avô, e, montado sobre um pangaré em fim de carreira, partir em busca de uma vida mais emocionante e aventureira.

Delirante, via gigantes onde só haviam moinhos de vento e lindas donzelas no lugar de matronas acima do peso.

Aquarela – Para transpor o caudaloso romance de Cervantes para a linguagem das HQs, Bira Dantas se inspirou primeiramente na iconografia clássicas de Gustave Doré (1832- 1883) e Francisco Goya (1746- 1828). Dom Quixote é a segunda adaptação de um livro clássico por Dantas, quadrinista experiente que já tinha adaptado Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, para a mesma editora.

O processo de adaptação consumiu oito meses de trabalho do desenhista, que ainda teve auxílio em casa. "Levei até janeiro de 2008 para finalizar os desenhos com nanquim e escrever os diálogos. Cláudia e Thais, minha mulher e filha, me ajudaram a apagar o grafite das páginas para eu poder fotocopiar e pintar com aquarelas", conta Bira.

O resultado foi uma HQ leve, de leitura ágil e de cores orgânicas, mais bonitas do que o colorido por Photoshop, regra nos quadrinhos contemporâneos.

Vida em reverso – Em voga por conta do oscarizado filme homônimo estrelado por Brad Pitt, O curioso caso de Benjamin Button foi um conto de F. Scott Fitzgerald publicado pela primeira vez na revista The Smart Set (A Turma Esperta), fundada pelo irascível jornalista Henry Louis Mencken (1880-1956).

O conto, a bem da verdade, foi o estilo literário pelo qual Scott ficou menos famoso, já que sempre foi mais lembrado pelos seus romances clássicos da era do jazz, como O grande Gatsby e Suave é a noite.

Nesta adaptação para a HQ, os roteiristas Nunzio DeFilippis e Christina Weir (que já assinaram Novos X-Men, da Marvel) optaram por serem mais fiéis ao texto original do que o filme foi, mantendo a ação na época em que ela realmente se passa, entre os anos 1860 e 1920.

O texto sobre o estranho caso do homem que nasce velho e rejuvenesce com o passar do anos também conserva bastante da prosa econômica e elegante de Scott, ganhando aqui a moldura da arte igualmente enxuta do bom desenhista Kevin Cornell.

Em tempo: ainda em 2009,diversas outras adaptações da literatura chegarão às livrarias em HQ, como Os Sertões (Euclides da Cunha), O Cortiço (Aluísio de Azevedo), O Guarani (José de Alencar) e Policarpo Quaresma (Lima Barreto), entre outras.

Dom Quixote
Miguel de Cervantes / Bira Dantas
Escala Educacional
85 p. R$ 23,90
http://www.escalaeducacional.com.br/










O curioso caso de Benjamin Button
Francis Scott Fitzgerald / Nunzio DeFilippis & Christina Weir / Kevin Cornell
Ediouro
128 p. R$ 29,90
http://www.ediouro.com.br/ocuriosocaso/

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

BANDA SUÍÇA PODE SER BOA SURPRESA NO PdR 2009


Polêmico por natureza, o Palco do Rock de Piatã, organizado há 15 anos pela Associação Cultural Clube do Rock (ACCBR), sempre foi visto como uma espécie de "patinho feio" – tanto no âmbito do Carnaval em si, quanto pela própria cena rock local, francamente dividida entre apoiar ou ignorar solenemente o evento.

O fato é que, em 2009, o PdR parece ter dado o primeiro passo numa caminhada rumo a dias melhores. Pelo menos, é o que se espera, agora que os organizadores contam com apoio da Secult, via edital.

A escalação deste ano também está bem mais interessante do que a dos últimos dez anos – no mínimo. Os destaques são as bandas Plebe Rude e Inocentes, duas representações fundamentais do punk rock (ou pós-punk) brasileiro, e o quinteto suíço Underschool Element.

Se as duas primeiras praticamente dispensam apresentações, esses rapazes de Zurique deverão surpreender o público.
De estilo indecifrável, o grupo é capaz de flanar do indie-folk em francês (como em Les Tournesols) ao hard rock em espanhol (El Dragon Negro) ao funk metal em inglês (Real Stinky).

Destaque para o vocalista Greg, que além de ter uma voz de alcance inequívoco (indo do falsete ao gutural sem esforço aparente), canta de forma desenvolta nas três línguas.
Estas três faixas citadas acima (e outras) estão disponíveis para audição no MySpace da banda (ww.myspace.com/underschool), parada recomendável para se familiarizar com o som da USE antes do show de manhã.

Boas bandas das cenas local e nacional também pintam por lá, como Zefirina Bomba (PB), Maldita (RJ), Pastel de Miolos, The Honkers, Movidos a Álcool, Almas Mortas, Minus Blindness e Irmãos da Bailarina, entre outras.

Programação completa e mais informações: www.palcodorock.accrba.com.br

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

AINDA ENTRE AS MELHORES BANDAS DA DÉCADA

Franz Ferdinand mexe pouco na sua receita no terceiro CD, Tonight

Uma das bandas-sensação desta década que já se encaminha para seu ocaso, a Franz Ferdinand percorreu o caminho clássico que caracteriza quase todos os músicos de sucesso surgidos há pouco menos de dez anos: depois de soltar seu som na internet e um punhado de shows bem-sucedidos, o grupo vira hype de uma hora para outra.

No caso do FF, cujo terceiro álbum, Tonight: Franz Ferdinand, acaba de chegar as lojas brasileiras, pelo menos, o hype se justifica: a banda é realmente boa.

A boa notícia sobre Tonight... é que o CD, pelo menos às primeiras audições, soa mais bem resolvido do que o anterior, You Could Have It So Much Better With Franz Ferdinand (2005). A má é que eles ainda não superaram o CD de estreia, auto-intitulado, lançado em 2004.

Ainda assim, o álbum dispõe da mesma consistência e frescor que caracterizam o som da banda como um todo desde que ela surgiu, fazendo um barulhão nos sites e blogs mais descolados da internet.

A novidade – se é que se pode chamar assim – que o FF traz neste disco é uma certa tendência ao uso de teclados e sintetizadores, o que faz o som pender menos para as influências de pós-punk dos seus primórdios, e mais para um tecnopop tardio.

Não que a concepção do disco novo tenha sido algo fácil. Depois de estourar mundialmente, com dois álbuns lançados na sequencia e turnês intermináveis, os quatro membros da banda estavam exaustos.

Produtores em profusão – Após meses de férias para recarregar as baterias, Alex Kapranos (vocal), Nick McCarthy (guitarra), Bob Hardy (baixo) e Paul Thomson (bateria) se reencontraram em Glasgow no final de 2007, prontos para entrar em estúdio novamente.

Previamente decididos a soar mais pop do que rock, convocaram inicialmente o DJ e produtor Erol Alkan, um dos mais famosos do mundo. Não funcionou. Ainda tentaram Brian Higgins ( Girls Aloud) antes de se resolverem com Dan Carey (Hot Chip, CSS).

O resultado é satisfatório, com bons hits tipicamente franzferdinandianos, como Live Alone, Ulysses e Turn It On. Mas será que a receita dance + pós-punk ainda funcionará em um quarto álbum? Quem viver, ouvirá.

Dica: nesta sexta-feira (20), a MTV Brasil exibirá o especial Zane Meets Franz Ferdinand, com o famoso DJ da BBC Zane Lowe entrevistando Alex e Nick sobre o disco novo.

ESPECIAL - ZANE MEETS FRANZ FERDINAND Entrevista do VJ Zane Lowe com a banda Franz Ferdinand Amanhã, 20h30 Reprise: sábado, 17 horas MTV, Canal 13 UHF


Tonight: Franz Ferdinand
Franz Ferdinand
Sony BMG
R$ 29,90
www.franzferdinand.co.uk

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

MICRO-RESENHAS PRÉ-CHATEAÇÃO CARNAVALESCA

Tricky retorna à velha quebrada

Tricky, um dos maiores nomes do trip hop (o hip hop lento, viajante e meio deprê surgido na década de 90 em Bristol, na Inglaterra) chega ao seu sétimo álbum com o que vem sendo apontado por muitos resenhistas como seu melhor trabalho desde sua estreia, Maxinquaye (1995). Se ainda não se superou, 13 anos depois de lançar seu primeiro trabalho, certamente Tricky soa renovado em Knowle West Boy. A pegadinha é que, para se renovar, o rapaz praticou a estratégia de olhar para trás. Knowle West é o nome da vizinhança em Bristol onde ele cresceu e se iniciou na carreira musical. Da mesma forma, diversas passagens do CD remetem ao trabalho de estreia. Complexo e de sonoridade instigante.
Knowle West Boy
Tricky
EMI
R$ 29,90
www.trickysite.com


Caricatura tosca de banda

Surgida na mesma leva de bandas como My Chemical Romance e Panic! At The Disco, o Fall Out Boy não nega suas origens white trash e entrega mais um disco igualmente vagabundo para as hordas de adolescentes descabeladas prontas para consumir qualquer bobagem que toque na MTV. Devidamente embalada para presente como uma banda que supostamente teria chegado à maturidade (tem até participação de Elvis Costello no CD! Até tu, Elvis?!?) em seu terceiro álbum, o tiro n‘água fica evidente no primeiro minuto de audição. Basicamente, todas as músicas parecem iguais depois de 30 segundos, até por conta das vocalizações sofríveis de Patrick Stump, o vocalista transformado em coadjuvante pelo baixista (!), Pete Wentz. Este último, alçado a condição de símbolo sexual por uma geração sexualmente confusa que considera atraente homens que usam lápis de olho e chapinha, é uma caricatura de rock star numa caricatura de banda. Tenha dó.
Folie à Deux
Fall Out Boy
Universal
R$ 29,90
www.falloutboyrock.com


Crônicas de um tempo ridículo

Nos dias que correm, quem dispõe de meio neurônio vive a um passo da náusea. Esse mal-estar acomete os que não compactuam com a ignorância generalizada vigente, sendo o sintoma mais frequente do que o cronista Gillus Boccatus batizou, apropriadamente, de era patética. O autor explica: “A era patética é caracterizada pela auto-adoração do umbigo e a cegueira em relação ao entorno. Cordialidade, generosidade e solidariedade não fazem parte desta nossa era“. Agora o leitor já sabe de onde vêm os energúmenos que conversam no cinema, avançam com seus tanques de guerra no sinal vermelho e ouvem música alta na rua, com a mala do carro aberta.
A era patética
Gillus Bocatus
Marco Zero
144 p. R$ 33
www.editoranobel.com.br


Gênio do crime de 12 anos

Artemis Fowl, criação do escritor irlandês Eoin Colfer (pronuncia-se Óuen), é uma espécie de Harry Potter do mal: um gênio do crime de doze anos de idade, sempre às voltas com planos mirabolantes e tecnologias extravagantes. Único herdeiro de um célebre clã de trapaceiros (os Fowl), Artemis luta para se afirmar depois que seu pai desapareceu sem deixar pistas, levando parte da fortuna da família consigo. Nesta graphic novel desenhada por Giovanni Rigano (do estúdio Disney italiano), Artemis sequestra uma capitã do Povo das Fadas para que esta lhe revele o esconderijo do ouro que eles escondem há séculos. O problema é que estes seres encantados não são nem um pouco parecidos com os dos contos de fadas. Militarizados e contando com tecnologias avançadíssimas, eles partem para cima de Artemis e seu ajudante, o mordomo brutamontes Butler. Frio como gelo e estiloso como James Bond, o anti-herói Artemis Fowl é o grande atrativo desta HQ.
Artemis Fowl - Graphic Novel
Colfer / Donkin / Rigano
Record
120 p. R$ 23
www.galerarecord.com.br


Despedida de mentirinha

Lançado em 2005, o CD / DVD Shoot The Moon - The Essential Collection era para ser o canto do cisne da banda californiana de hardcore e punk pop Face To Face. Era, por que, em 2008 os rapazes (não se sabe a pedido de quem) resolveram voltar com uma turnê que, inclusive, passou pelo Brasil em dezembro último. De qualquer forma, os fãs tem aqui um excelente registro da carreira do grupo. No DVD, show de “despedida“ com 75 minutos de duração na casa The House of Blues, mais todos os clipes. E no CD, 21 faixas com os maiores sucessos.
Shoot The Moon
Face To Face
Coqueiro Verde
R$ 16,90 (CD) R$ 29,90 (DVD)
www.facetofacemusic.com


Punk pop que não impressiona

Não tão conhecida pelo grande público no Brasil, a banda Plain White T‘s experimentou uma ascenção meteórica em 2007, graças ao hit acústico Hey There Delilah. No final de 2008, os rapazes de Chicago lançaram seu novo disco, Big Bad World, onde, surpreendentemente, não tentam perseguir a fórmula do sucesso anterior, investindo no punk pop com guitarras que caracteriza a sua proposta original. Ainda assim, trata-se de um disco ordinário onde nada salta aos ouvidos, podendo ser confundido com qualquer coisa que toca na MTV.
Big Bad World
Plain White T‘s Universal
R$ 29,90
www.plainwhitets.com


O black metal da calota polar

Com mais de 15 anos de estrada, a banda finlandesa Children of Bodom é uma das mais conceituadas dentro do black metal, a facção mais sombria e cabulosa do heavy metal. Entre um incêndio e outro às igrejas de Helsinque (fora de brincadeira, um sério problema social lá pelas bandas da calota polar ártica), o rapazes da CoB praticam um dos sons mais agressivos, acelerados e brutais ouvidos na atualidade. Contribui para isso a formação musical clássica que as crianças de lá recebem desde cedo, adquirindo grande domínio e técnica sobre os instrumentos. Neste novo CD, o oitavo de estúdio, a banda demonstra não ter perdido a mão pesada que a caracteriza.
Blooddrunk
Children of Bodom
Universal Music
R$ 27,90
www.cobhc.com


Misturança não desanda

Atuante na cena alternativa da cidade há mais de seis anos, a banda Neto Lobo & A Cacimba lançou seu primeiro CD no ano passado, quase despercebido. Injustiça com o rapaz e sua trupe de cabras da peste, que mandam muito bem na seara das misturanças pop regionais, com claras influências de nomes como Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado e as “bases“ de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e literatura de cordel. Méritos também devem ir para o craque dos estúdios andré t., que com sua habitual sensibilidade aguçada, captou bem a proposta híbrida da banda, aliando a suingueira de triângulos e zabumbas com guitarras pesadas na medida, sem prejuízos nem de um lado (do rock), nem do outro (da música regional). Destaque para as faixas Ladeira (música de abertura dos shows, com um intenso crescendo rítmico), e A Peleja do Diabo Com a Flor, bela em sua simplicidade.
Neto Lobo & A Cacimba
Independente
Preço não divulgado
www.netoloboeacacimba.com.br


Filosofia atual estilo Chacrinha

O filósofo e sociólogo esloveno Slavoj Zizek (pronuncia slavói jijec) é, muito provavelmente, um dos mais avançados pensadores da chamada contemporaneidade. No seu livro mais recente, A visão em paralaxe, Zizek reflete sobre questões da atualidade, desconstruindo o olhar marxista e buscando revitalizar a dialética de Hegel, que ele considera oferecer respostas muito mais profundas sobre as crises atuais do que o velho Karl. Como notou o articulista Marcelo Coelho, apesar de escrever de forma clara, não se sabe exatamente para onde Zizek quer levar o leitor. Ou como diria Woody Allen, “eu não entendi nada, mas o autor é genial“.
A visão em paralaxe
Slavoj Zizek
Boitempo
512 p. R$ 74
boitempoeditorial.com.br


A psicodelia do sertão revisitada

Fãs da psicodelia nordestina praticada nos anos 70 por nomes como Fagner, Alceu Valença e Zé Ramalho podem procurar a árvore mais próxima e dar-lhe um caloroso abraço. O quarteto recifense Nuda, de um neo-hippismo a toda prova, conseguiu um feito notável: resgatar o estilo, que unia uma certa tradição popular com psicodelismo – sem soar caricatural. Com letras herméticas (ou cabeça mesmo), influenciadas por um certo concretismo, mas aliando uma pegada quase radioheadiana na intensidade com que as faixas se desenvolvem, o Nuda se demonstra como uma das mais promissoras bandas da sempre rica cena recifense. É bom ficar de olho.
Menos Cor, Mais Quem
Nuda
Independente
R$ 5
www.myspace.com/sitionuda


O Vietnã e suas várias revoluções

Quem só conhece a conturbada história do Vietnã pelos filmes americanos – via de regra, uma fonte para lá de duvidosa – pode recorrer à este livro, que refaz a trajetória histórica do país desde suas origens milenares, até tempos mais recentes, quando o governo adotou o chamado “socialismo de mercado“, à moda chinesa. O autor, o professor-doutor Paulo Fagundes Visentini, destaca o papel do Vietnã como sendo muito mais importante do que o de um mero coadjuvante da Guerra Fria, contextualizando os fatos históricos de forma cronológica e numa linguagem acessível a qualquer leitor que seja minimamente familiarizado com o tema.
A revolução vietnamita
Paulo F. Visentini
Ed. Unesp
128 p. R$ 20
editoraunesp.com.br


Taylor volta à cena com covers

Adorado pelos apreciadores de um folk mais ameno que o de Bob Dylan e ouvintes insones de FM, James Taylor, que andava meio sumido, volta à cena recorrendo ao último refúgio dos artistas sem inspiração: um álbum de covers. Com um repertório pinçado basicamente do cancioneiro oriundo dos primórdios do rock e do folk dos anos 60, Taylor torna suas canções como Suzanne (de Leonard Cohen, com o violoncelo luxuoso de Yo-Yo Ma), Hound Dog (um dos primeiros sucessos de Elvis Presley), Summertime Blues (Eddie Cochran) e On Broadway (hit nas vozes divinas dos The Drifters). Os arranjos sutis combinam com o fiapo de voz do cantor. Quem já é fã vai curtir.
Covers
James Taylor
Universal
R$ 34,90
www.jamestaylor.com


Terceiro CD quase bom

Este terceiro álbum do Kaiser Chiefs, banda de brit pop surgida na mesma onda que revelou Keane e The Rakes, entre outros, é melhor que o anterior, Yours Truly, Angry Mob (2007). Mas ainda não tem nenhum hit tão empolgante quanto I Predict a Riot ou Everyday I Love You Less and Less, do primeiro disco, Employment (2005). Mas o CD tem lá suas qualidades, a começar pela bem resolvida produção do multiplatinado de Mark Ronson (Amy Winehouse), que conseguiu criar no som um equilíbrio entre pegadas de pop e de rock em doses iguais, de modo a não assustar ouvintes nem de um, nem do outro (o que por si só, já é bem difícil). Dito isso, pode-se destacar Can‘t Say What I Mean, Never Miss a Beat e Addicted To Drugs. Nada que vá mudar a história do rock – longe disso. Mas, como eles mesmos disseram em uma faixa do CD de 2005, “everything is average nowadays“. Ou seja: “hoje em dia, tudo é mediano“.
Off With Their Heads
Kaiser Chiefs
Universal
R$ 29,90
www.kaiserchiefs.co.uk

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

ABRAM ALAS PARA OS ALTERNATIVOS

Atrações convidadas e /ou aprovadas via edital pela Secult garantem real diversidade



O que parecia inacreditável até pouco tempo atrás aconteceu: o Carnaval de Salvador 2009 promete ser bem mais democrático do que o que se tem visto nos últimos 20 e tantos anos. Ontem foi divulgado no Diário Oficial o resultado da seleção pública de projetos do Carnaval Pipoca da Secretaria de Cultura (Secult) – e eles são bem animadores.

A começar pela clara intenção de diversificar – de uma vez por todas – a oferta de gêneros musicais da festa para o folião pipoca, esse sofredor espremido entre os cordões dos blocos pra turista ver e os paredões de madeirite dos camarotes para empresários e celebridades da hora.

Haverá rock, reggae, samba, frevo, marchinhas, hip hop, dub e raggamuffin, entre outros ritmos divididos em oito desfiles, compondo um belo painel do que se faz de melhor em termos de música – a de verdade, que não se parece com jingle de refrigerante – na Bahia, hoje.

Além dos contemplados no edital do Carnaval Pipoca, haverá ainda mais doze desfiles escolhidos por curadoria, assinada pelo diretor de Música da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Gilberto Monte, e o coordenador de Ações para o Carnaval, Edivaldo Bolagi.

A programação completa dos desfiles contemplados por edital e por curadoria ainda está por ser divulgada, dependendo até de sorteio (no caso das atrações por edital), mas já dá para adiantar alguns pontos altos da festa.

Folia para todos – Por enquanto, o que há de certo mesmo é que, na segunda-feira de Carnaval, dia 23, o Foguetão, o trio dos Retrofoguetes será uma das grandes atrações do circuito Dodô (Barra - Ondina). O trio sai às 21 horas, e ainda contará com convidados superespeciais, como a banda carioca Autoramas e a cantora baiana Érika Martins (ex-Penélope).

O convite para capitanear esse trio não foi a toa. Entusiastas da guitarra baiana e do frevo trieletrizado que outrora foi a marca do carnaval baiano, o grupo promove há anos a festa Retrofolia (veja serviço abaixo), um baile onde resgata este ritmo e o das antigas marchinhas – com a pegada rock / surf music que caracteriza o som da banda.

Mas os roqueiros que se recusam a se isolar da festa ainda terão, no mínimo, outra bela opção com o trio de rock que reunirá o cantor Lobão e as bandas locais Cascadura e Radiola, mais participação especial da cantora Ivana Vivas, da banda Demoiselle.

“Nosso projeto foi aprovado no edital“, comemora Fábio Cascadura, líder da banda que leva seu apelido (ou vice-versa). “Vamos sair com o Casca, Lobão, Radiola e mais alguns convidados. Saiu no Diário Oficial“, disse, ainda no calor do momento.

Outra atração de destaque revelada pelo resultado do edital divulgado ontem é o Trio Terreiro Circular, que se apropria da estética dos sound systems jamaicanos e levará para a avenida o cantor Lucas Santtana mais os coletivos Ministereo Público e Terreiro Circular (trip hop, frevo, afro-beat), com participação do grupo de rap Milicianos, de Plataforma (Subúrbio Ferroviário).

O Trio de Guitarra Baiana reunirá três virtuoses do instrumento: Júlio Caldas, Morotó Slim (Retrofoguetes) e Jackson Dantas para uma apresentação puramente instrumental com muito choro, frevo e marchinhas.

Outro projeto curioso é o Trio na Folia, com as cantoras Claudia Cunha, Sandra Simões e Manuela Rodrigues, que apresentarão repertório baseado nas vozes femininas da MPB, além de um tributo a Carmem Miranda.

Nem a criançada ficou de fora, sendo contemplada com o Trio Galerinha, com as bandas Picolino e Gatos Multicores, mais artistas do Circo Picolino.

Retrofolia | Com a banda Retrofoguetes e convidados, mais os DJs Big Brother e Zezão | Sexta-feira, 22 horas | Boomerangue (3334-5577) | Rua da Paciência, 307, Rio Vermelho | R$ 15 até 0h | R$ 20 depois

Foguetão | Desfile do trio elétrico com Retrofoguetes, Autoramas e convidados | 23 de fevereiro, 21 horas | Circuito Dodô (Barra Ondina)

terça-feira, fevereiro 10, 2009

SUJOS, FEIOS E MALVADOS

Nos anos 90, o rock baiano dividiu-se – de maneira informal, claro – em pequenas facções. Havia o rock triste (brincando de deus, Jupiterscope), o rock cafona (Dr. Cascadura, Dead Billies) e o rock sujo (Lisergia, Dois Sapos & Meio). É dentro do espírito algo anárquico destes últimos que acontece amanhã, na Boomerangue, o evento Rock Sujo.

No line up, as bandas Estrada Perdida, Irmãos da Bailarina, Opus Incertum e Magallanes Muertos oferecem um pequeno panorama do que de melhor se faz hoje em Salvador em termos de rock pesado (sem ser necessariamente metal).

A primeira, com influências de Stooges e Motörhead, tem no carismático vocalista Cebola Elétrica sua maior atração. Com repertório predominantemente autoral, a banda privilegia os temas ligados a literatura marginal e seus personagens fora da lei.

Já a Irmãos da Bailarina oferece stoner rock personalíssimo, aliando a influência óbvia de Queens of The Stone Age ao lirismo poético de um Chico Buarque.

A Opus Incertum se caracteriza por repertório de covers de diversas eras do rock, indo desde Roy Orbison até o Camisa de Vênus, passando Sex Pistols e Queen.

Os covers também formam boa parte do set list da Magallanes Muertos, atendo-se inicialmente ao grupo que a inspirou, no caso, os punks de São Francisco Dead Kennedys. Depois de alguns shows, porém, abriram o leque, adicionando covers de outras bandas punks e músicas próprias.

O DJ Bruno Aziz completa a night, discotecando seu habitual set de rock ainda mais sujo, com Mudhoney, Dinosaur Jr. etc.

Rock Sujo
Com Estrada Perdida, Irmãos da Bailarina, Opus Incertum, Magallanes Muertos e DJ Bruno Aziz
Quinta-feira (12.02), 21 horas
Boomerangue (3334-5577)
Rua da Paciência, 307, Rio Vermelho
R$ 10 até 0h | R$ 15 depois

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

UM ASTRO DAS HQS EM QUALQUER ÉPOCA

A caminho dos cinema em super produção de Spielberg, Tintim tem sua coleção de álbuns finalmente completa no Brasil, no ano em que sua criação completa oito décadas

As aventuras de um jovem repórter de topete e seu cãozinho, quem vem fascinando gerações de leitores há quase um século, finalmente fecha um ciclo no Brasil.

A coleção de álbuns do Tintim, criação do belga Hergé, pela primeira vez está completa para os leitores brasileiros, com os lançamentos dos álbuns As aventuras de Tintim, repórter do “Petit Vingtième“ no país dos sovietes e Tintim e a alfa-arte, respectivamente, primeira e última aventuras do personagem nos quadrinhos.

Os livros vêm em boa hora. Criado há exatos 80 anos, Tintim parece prestes a gozar de um novo ciclo de popularidade neste início de século, com o anúncio de uma trilogia de filmes produzidos por Steven Spielberg e Peter Jackson (O Senhor dos
Anéis) para a Sony Pictures e Paramount.

No último dia 26 se iniciaram as filmagens do primeiro filme, The Adventures of Tintim: Secret of the Unicorn, baseado no álbum O segredo do Licorne. O primeiro filme será dirigido por Spielberg e produzido por Jackson, enquanto no segundo, ainda não anunciado, os papéis se inverterão. Os planos para o terceiro filme ainda não foram anunciados.

Filmado com o que há de mais moderno na tecnologia de captura de movimentos e computação gráfica para manter o visual lúdico das HQs de Hergé, os filmes contarão também com um elenco de primeira linha, com Jamie Bell (Billy Elliot) no papel de Tintim, Daniel Craig (o atual James Bond) como o vilão Rackham, Andy Serkis (o Gollum, de Senhor dos Anéis), na pele do Capitão Haddock e a hilária dupla britânica Simon Pegg e Nick Frost (de Todo Mundo Quase Morto) como os detetives atrapalhados Dupont e Dupond.

“Paraíso vermelho“ – Enquanto os filmes não chegam às telas do cinema, vale se divertir e se encantar com os álbuns lançados pela Companhia das Letras.

Especialmente com As aventuras de Tintim, repórter do “Petit Vingtième“ no país dos sovietes, primeira aventura do topetudo, lançada em 10 de janeiro de 1929, como uma história em capítulos no suplemento belga Petit Vingtième.

Ora, em 1929, faziam apenas 12 anos que a revolução comunista russa havia instaurado o regime socialista no antigo país dos Czares. Hergé, um cidadão de posições políticas claras, ainda que ingênuas, enviou seu personagem à então União Soviética com a missão definida de desmascarar para os jovens leitores do Petit Vingtième “a farsa da revolução bolchevique“.

O resultado, visto hoje, é não menos que hilário, mas não pelas razões que Hergé imaginou. A contra-propaganda do álbum ao comunismo é tão escancarada que, numa passagem do álbum, Tintim chega a descobrir fábricas de mentirinha, criadas como cenários de teatro. “É assim que os sovietes tapeiam os coitados que ainda acreditam no ‘paraíso vermelho‘“, admira-se o rapaz.

Inveja no 007 – Descontadas as incongruências e ingenuidades históricas, o que sobra é uma alucinante e bem-humorada aventura de Tintim em “território inimigo“. O ritmo imprimido por Hergé é tão rápido, cheio de perigos e reviravoltas, que deixaria o Sean Connery de Moscou Contra 007 corado de vergonha.

Entre outras façanhas, Tintim pilota aviões, barcos e automóveis em alta velocidade, foge de prisões, pratica mergulho sob o gelo e derrota um urso na unha. Tudo bem que o animal, que aliás, é o símbolo da Rússia, estava bêbado de vodca, mas ainda assim, é uma luta e tanto.

Como foi a primeira aventura do personagem, No País dos Sovietes mostra um Tintim ainda em preto & branco e sem a companhia de coadjuvantes famosos, como o encrenqueiro Capitão Haddock e os detetives Dupond & Dupont, os principais alívios cômicos ao longo da série.

O cachorrinho Milu, contudo, já aparece, travesso e falante como nunca.

Inacabado – Lançado após a morte de Hergé em 1983, Tintim e a alfa-arte é um álbum recomendado especialmente para, pelo menos, dois tipos de público: colecionadores e estudantes ou pesquisadores (de artes ou mesmo de HQs).

Incompleta, a obra se compõe dos esboços e croquis do artista para as páginas, estudos de personagens e o texto descritivo da história, incluindo os diálogos e ações.

O que se vê é um ensaio do artista sofisticado que era Hergé, considerado (erroneamente, aliás) o pai do estilo franco-belga por excelência, a ligne claire (linha clara), uma das mais influentes e importantes escolas de quadrinhos do mundo.

Obviamente, ler Tintim e a alfa-arte não é, nem de longe, tão divertido quanto os outros álbuns do personagem, mas a iniciativa da editora em publicar a obra derradeira de Hergé no Brasil é digna de aplausos, pois trata-se de um capítulo muito importante na história das HQs.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

BEM-VINDA MELANCOLIA

Dois Em Um, uma das mais gratas novidades musicais da Bahia, faz shows de lançamento

A Bahia tem muito mais mistérios do que supõem seus célebres artistas e pais-de-santo. Um dos mais intrigantes surgidos ultimamente é o duo Dois Em Um, que lança seu primeiro disco autointitulado com dois shows no cabaré do Teatro Vila Velha, sábado e domingo.

O mistério fica por conta do próprio som do Dois Em Um, fomado por Luisão Pereira e Fernanda Monteiro: intimista, sussurrado, sutil, melodioso e quase sempre etéreo.

Numa terra em que a sutileza tem pouco lugar em meio ao frenesi festeiro que assola corações e mentes dos soteropolitanos, as melodias doces e os arranjos aparentados da bossa nova do Dois Em Um soam, senão quase alienígenas na Salvador contemporânea, como um bem-vindo refresco melancólico para a alegria compulsória pra turista ver que é a marca do verão baiano.

“Não sei como o Dois Em Um pode ser absorvido. Não sei onde a gente se encaixa ou como podemos encontrar um lugar ao sol da Bahia“, reflete Luisão. “Mas o retorno tem sido muito bom, de qualquer forma“, garante o músico.

Tem mesmo. Surgida de forma despretensiosa há pouco mais de um ano, foi só postar algumas músicas no site de relacionamentos MySpace, que as coisas começaram a acontecer para a dupla.

Em questão de quatro meses, já tinham contrato com um selo independente de Nova Jersey (EUA). Na sequência, o selo indie carioca Midsummer Madness também se interessou pela dupla. O resultado é o CD que já está a venda on line ou em algumas lojas da cidade, como Mídia Louca (Rio vermelho e Pelourinho), Pérola Negra (Canela) e Tom do Saber (Rio Vermelho).

Velocidade Caymmi – Mal o CD saiu, resenhas apaixonadas começaram a pipocar pelos jornais e internet, bem como convites para apresentações pelo Brasil.
Mas o casal, pés firmemente fincados no chão, prefere ir com calma, sem deslumbre.

“Ja rolou convite pro festival Humaitá Pra Peixe e pra abrir pro Marcelo Camelo no Circo Voador, no Rio. Também recebemos convite para ir tocar em São Paulo, mas infelizmente, as datas bateram com apresentações de Fernanda com a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), com a qual ela toca violoncelo. E a prioridade dela é a Osba“, conta Luisão, sozinho em casa, enquanto a musa e parceira visita a família no Rio.

“E depois, como nosso som é muito sutil, muito intimista, não vamos entrar em qualquer roubada, tocar em qualquer lugar. Não tamos nessa de ir com muita sede ao pote. Nossa maior vontade é fazer a nossa música“, delimita, com razão.

Quem esteve nas suas apresentações anteriores em Salvador pôde perceber a diferença que faz tocar em locais adequados ao som da dupla.

No Teatro Casa do Comércio, em novembro, quando ganharam o prêmio Bahia de Todos os Rocks de Música do Ano (com E Se Chover?), todos puderam ouvir a sutileza dos arranjos e a voz sussurrada de Fernanda sem esforço.

Já poucos dias depois, abrindo para Bonnie “Prince“ Billy na Boomerangue, o burburinho do público suplantou o som da Dois Em Um, frustrando muita gente.

“No nosso caso, em que precisamos de 100% do PA e o baixo e a bateria são pré-gravados, necessitamos muito das caixas“, observa.

De imediato, os planos da Dois Em Um são divulgar o disco a medida que der e concluir os dois clipes que estão em andamento, co-dirigidos por Alexandre Xanxa Guena e Rodrigo Luna.

“Estão rolando as coisas, mas nós vamos devagarinho. As pessoas tão cobrando e tal, mas temos que ir na tranquilidade“, pontua.

Dois em Um
Show de lançamento do CD
Sábado (7) e domingo (8), as 20 horas
Cabaré do Teatro Vila Velha (3083-4600)
Av. Sete de Setembro, s/n, Passeio Público, Campo Grande
R$ 16 e R$ 8
CD no stand: R$ 10
Informações e vendas on line:
www.doisemum.com e www.mmrecords.com.br