quinta-feira, maio 04, 2017

III FESTIVAL DE ILUSTRAÇÃO E LITERATURA EXPANDIDO: NEGLIGENCIAR FRONTEIRAS ENTRE LINGUAGENS

A artista mexicana Gimena Romero: oficina domingo. Foto Pedro Aragon
Em tempos de erguer muros e incentivar divisões, a terceira edição do Festival de Ilustração & Literatura propõe o oposto, ignorando fronteiras entre linguagens e incorporando-as em sua programação.

Desta forma, haverá música e poesia, além das tradicionais exposições, oficinas e atividades infantis.

“O festival esse ano incorpora o ‘Expandido’ como uma disposição em negligenciar as fronteiras. Transcender essa ideia de linguagens e culturas herméticas”, afirma Flávia Bonfim, idealizadora e organizadora.

"Queremos poder construir um espaço-tempo em que possamos questionar esse modelo que nos foi ensinado e incorporado. A Leitura Expandida, nesse caso, seria então uma leitura que deve ir além da obviedade que o nosso sistema simbólico (palavras, imagens, sons, odores) já codificou e reitera constantemente. Essa expansão só se dá, ou só seria possível a partir dessa revisão, ou seja, é preciso questionar as premissas e transver o que nos é colocado. Aprender a ler refere-se a elaborar novas conexões, novas sintaxes. Por isso defendemos uma educação pela arte. A arte nos ensina muito sobre o estabelecimento de novas sintaxes", acrescenta.

Mateus Aleluia: show de abertura, hoje, com Arto Lindsay. Ft Vinicius Xavier
Entre os destaques da edição deste ano, estão o show de abertura com Mateus Aleluia e Arto Lindsay, artistas como a mexicana Gimena Romero e o espanhol Isidro Ferrer, a Feira Ladeira (de publicações artesanais e pequenas editoras), a exposição Kirimurê: A baía dos Tupinambás (que vai espalhar lambe-lambes de dezenas de artistas pelo centro da cidade) e o Ateliê Vala (que reúne quatro editoras e produzirá uma revista a ser apresentada no domingo), entre várias outras atividades e atrações na programação, que pode ser conferida no site do festival.

“A curadoria do festival é feita por mim e costumo dizer que é também afetiva. Colocar pessoas juntas durante uma semana para pensar e estabelecer conexões exige uma atenção mais complexa. Não é só o que produzem, mas o que são, que nos importa. Busco trazer artistas criadores / questionadores, que estejam dispostos não só a apontar direções, mas também  a repensar os próprios trabalhos e criar conexões com os acontecimentos cotidianos e políticos”, diz.

“Isidro Ferrer é um artista que define um pouco esse propósito de criação constante de novas sintaxes. Gimena Romero reafirma o poder artístico e narrativo da arte têxtil. Maria José Ferrada nos desconcerta com seu texto lúcido e de sintaxes invertidas. André Letria, com uma ilustração aparentemente simples, nos resgata das metáforas óbvias. E por aí vai”, descreve Flávia.

Ladeira, Vala e Kirimurê

Raíça Bonfim, foto Victor Gargiulo
Para quem já cansou da mesmice das grandes megastores e seus best-sellers de gosto duvidoso, a Feira Ladeira é uma boa opção para quem procura novas ideias e publicações.

“O tema das feiras de publicação independente está ganhando muita força no Brasil nos últimos 10 anos. O grande ganho temos com esse fenômeno, além de fortalecer um contra-discurso ao do grande e cada vez mais difícil ‘mercado editorial’, é o da criação de novas maneiras, tecnologias de produzir livros e impressos. Essa criação esta relacionada não só aos métodos de impressão, onde muitas vezes há o retorno para uma ideia de gráfica lenta - aquela em que levamos em consideração a escala humana no que tange à velocidade e ritmo -  mas também às relações de produção”,  afirma Flávia.

“O que está por traz desses impressos é a beleza de um sistema cooperativo. A base desse modelo econômico e político é a solidariedade. Nessa edição, os expositores de outros estados e países se hospedarão  na casa de pessoas da cidade articuladas pelo festival, por exemplo”, conta.

E quanto à revista Vala, que será produzida e rodada em uma impressora Risograph durante o festival? Seria uma paródia da famigerada Veja? "Tudo por ser tudo... e tudo por ser nada, depende da leitura", ri Flávia.

"O Ateliê Vala é um encontro de 4 editoras: a Pipoca Press, a Pallas, a Conspire Edições e a Movimento Contínuo, que desenvolverão algumas ações no período do Festival e da Feira Ladeira. A revista é uma delas. Distribuiremos cadernos para alguns convidados de nossa programação para que registrem os acontecimentos do evento durante 3 dias. No quarto dia, escanearemos esse material e imprimiremos a revista que, de certa forma, terá um caráter documental das experiências de cada um.
Mais que uma paródia de algum outro veículo duvidoso, ela é uma afirmação criativa de uma maneira de produzir conteúdos", explica.

Tenille Bezerra lança hoje o livro de poemas Rumor. 
Já a exposição Kirimurê vai invadir os muros do centro. “Kirimurê é como os Tupinambás chamavam a Baía de Todos os Santos. O que vamos encontrar nos muros entre o Campo Grande e a Praça Castro Alves são as ilustrações selecionadas de uma convocatória internacional, para artistas e ilustradores, que fizemos para que criassem imagens sobre o mito do pássaro Kirimurê, aquele que gera geograficamente a Baía a partir de sua morte”, conclui.

III Festival de Ilustração e Literatura Expandido /  De hoje até domingo / Palácio da Aclamação / Gratuito / www.ilustrafestival.com.br

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