quarta-feira, julho 30, 2014

MAIOR & MILLÔR

Homenagens na FLIP, exposições, relançamentos, novos livros: aos  90 anos (se vivo fosse), Millôr Fernandes segue incontornável e irresumível

Esse negócio de homenagem é complicado. Adoniran Barbosa (1910-1982) uma vez fechou a questão: “Chega de homenagens. Quero dinheiro”.

Mas – assim como Adoniran – certos homenageáveis são simplesmente inescapáveis (com o perdão pela rima). Millôr Fernandes (1923-2012) é um deles.

Este ano, quando o  escritor, cartunista, dramaturgo, humorista, tradutor e inventor do frescobol (entre outras funções) faria 90 anos, é o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP 2014, que começa hoje e vai até domingo, na cidade colonial fluminense.

Intitulada Millôr - 90 Anos de Todos Nós, a homenagem tem uma vasta exposição dividida em quatro módulos: Compozissõis imfãtis, De Vão Gôgo ao guru do Méier, Cada exemplar é um número e Um elefante no caos.

Cada módulo aborda uma fase de sua vida ou faceta de sua obra. A primeira mostra a descoberta dos quadrinhos e os trabalhos  feitos na juventude.

De Vão Gôgo... traz o Millôr inicial na grande imprensa, em revistas como A Cigarra e O Cruzeiro. Cada Exemplar... mostra os trabalhos na antológica revista Pif-Paf, fundada por ele e precursora do Pasquim.

E Um Elefante no Caos aborda sua faceta dramatúrgica e de tradutor erudito, responsável por verter para português acessível  obras de Shakespeare e Molière.

E mais: a cada dia da FLIP será distribuído o jornalzinho Daily Míllor, com textos e desenhos de Reinaldo, Antonio Prata, Chico Caruso, Luis Fernando Verissimo, Ivan Fernandes (filho de Millôr), além do próprio Guru do Méier.

“Espero mesmo que a cidade fique toda pintada de Millôr”, diz por telefone Paulo Werneck, um dos curadores da FLIP.

“Uma homenagem tradicional, careta, é tudo o que ele não gostaria. Ele dizia: ‘Quero tudo, menos status’. Então pensamos em uma homenagem bem calorosa e divertida, sem esse caráter de  estátua”, acrescenta.

“A obra dele é muito viva neste momento de muita  politização no Brasil. Andei relendo umas coisas e é impressionante como seus comentários se encaixam. Era um crítico incansável, que nunca deixava de pegar no pé dos poderosos”, vê.

Além da FLIP, a Companhia das Letras e Instituto Moreira Salles lançaram alguns livros  que deverão vender bem em Paraty.

Pela Companhia, são quatro clássicos: Esta é a verdadeira história do Paraíso, Essa cara não me é estranha e outros poemas, A vaca foi pro brejo (The cow went to the swamp) e Tempo e contratempo.

Já o IMS recorreu ao acervo de quase 8 mil obras de Millôr para compor Millôr 100 + 100: Desenhos e Frases.

O jornalista  Sérgio Augusto garimpou 100 frases luminares e o cartunista e pesquisador Cássio Loredano, 100 desenhos igualmente espetaculares para casar com as frases pinçadas pelo primeiro.

“Loredano fez um trabalho esplêndido ao casar as imagens com o texto do Millôr”, aplaude Sérgio, do Rio. “A ideia do projeto, a editoração gráfica –  foi um projeto muito feliz”, diz.

“Obviamente, os critérios (para escolher 100 frases) foram altamente subjetivos. Quais são as melhores frases em um universo de 3,5 mil, 5 mil? Simplesmente escolhi as melhores mesmo”, garante Sérgio.

De sua parte, Loredano diz por que é importante lembrarmos de Millôr nos seus 90 anos: “Pra ir lembrando até o centenário”, demarca.

Millôr era um absurdo

Nascido Milton Viola Fernandes em 16 de agosto de 1923, o carioca iniciou cedo no jornalismo: aos 14 anos  já estava na redação da revista O Cruzeiro.

Sérgio Augusto lembra que o conheceu em 1963 e testemunhou o histórico imbróglio em torno do material que deu origem ao livro Esta é a verdadeira história do Paraíso, sua visão do livro do Gênesis.

“Ele parou a redação para ler aquilo. Quando foi publicado, foi um bombardeio dos leitores carolas. A revista, em vez de ignorar, disse que Millôr publicou o material sem seu conhecimento. Ele pediu demissão, processou e ganhou, claro”, relata.

“Mas o  Millôr pode ser lembrado todo dia. Foi  a pessoa mais inteligente que eu já conheci – e olha que já conheci e convivi com muita gente culta: Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Antonio Callado...”, afirma.

Sérgio está certo. Porque Millôr não era só muito inteligente ou muito talentoso. Era ambos.

“Era completo. Desenhava muito, artista gráfico extraordinário. Humorista, dramaturgo, grande frasista. Por tudo isto,  é mais que os outros. Oscar Wilde, por exemplo: era um gigante do teatro. Mas  não desenhava porra nenhuma. Saul Steinberg, outro gênio - mas não tinha essa produção do Millôr”, nota Sérgio.

"Ele tinha uma total clareza nas coisas que dizia. Se você puder escrever algo com quinze palavras, tente escrever com onze. Aí ele vinha e escrevia com nove. Uma outra coisa que acho muito engraçada dele são os seus Provérbios Prolixos, que contraria toda essa maneira de escrever enxuto. Ele pegava esses ditados comuns, tudo 'à noite todos os gatos são pardos' e faz toda uma explicação, uma definição em 200 palavras - e é engraçado pra cacete. Era a deformação de tudo o que ele pregava: a concisão, a clareza", cita Sérgio Augusto.

Até a grande polarização política que o Brasil vive agora, Millôr já previa, garante Sérgio. "Ele era contra o Lula desde o inicio. Ele duvidava, achava ignorante, achava até que não ia dar certo. Mas não naqueles termos preconceituosos do Paulo Francis, Millôr não era reacionário. Ele só estava decepcionado - e tinha horror a vacas sagradas. Duvidava de tudo e de todo mundo", conta.

“Com 14 anos, já estava n’O Cruzeiro. Com 20, criou a Pif Paf. Fez tudo que você puder imaginar. Você  vê a  obra de algum humorista e pensa: Millôr  fez isto nos anos 50. É um dos grande filósofos brasileiros. E muito mais divertido. Millôr era um absurdo”, define o jornalista.

Sérgio lembra a convivência com Millôr no Pasquim, a partir daquela história de alguns anos atrás, quando perguntaram a ele se, a exemplo de Ziraldo e Jaguar, ele também ia pedir indenização ao governo pelos perrengues da época da ditadura, ao que ele respondeu: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?"

"O Millôr era engraçado, sempre tinha comentários irônicos e tal, mas não era de contar piada. Era muito inteligente, observador, muito simpático comigo. Agora, no Pasquim, tirando eu, Francis e Ivan Lessa, todos tiveram problemas com Millôr. Mas comigo nunca teve nada, não. Eu fiquei no Pasquim até 1979. A partir do fim da censura prévia, eu fazia um editorial na página 3 com críticas a imprensa. Esculhambava mesmo e fazia críticas ao próprio Pasquim. Numa dessas, Jaguar me demitiu. Disse que não vesti a camisa, tal. Adoro Jaguar, mas teve isso. Liguei para o Ziraldo e ele tava de porre. Nem Jaguar nem Ziraldo se mexeram. Meses depois, ele me pediu desculpa. Eu falei não, tudo bem, é o seguinte: o Pasquim me deve dinheiro aí. Entrei na justiça - e o Millôr foi depor em meu favor! Ele tinha essas coisas. Era extremamente honesto e íntegro com negócio de dinheiro. Me ensinou demais. Ele dizia: se você tiver condição de exigir aumento, faça isso, por que ajuda todos os seus amigos, você sobe o patamar de pagamento. Já mais velho, sem saco, Millôr ficava em casa e volta e meia alguém pedia a ele algum trabalho. Aí ele pedia um preço absurdo, tipo 50 mil por duas laudas, só para se sair. Aí o cara topava e ele ficava totalmente sem graça", relata Sérgio Augusto.

Cartunista de A TARDE, Cau Gomez o conheceu em um jantar entre humoristas. “Estávamos diante de um gigante, que tinha um clarão no olhar”, nota.

“Foi  um caso raro onde artista e pensador passaram por uma fusão. Não houve temor profissional em cruzar a fronteira entre texto e imagem”, diz.

“Millôr era bem humorado porque sabia o que sabia”, conclui Loredano.

Millôr 100 + 100: Desenhos e Frases / S. Augusto e C. Loredano (Orgs.) / Instituto Moreira Salles / 264 p. / R$ 50 / www.lojadoims.com.br 

Esta é a verdadeira história do Paraíso / Millôr Fernandes / Cia das Letras/ 152 p./ R$ 56/ www.companhiadasletras.com.br

Essa cara não me é estranha e outros poemas / Millôr Fernandes / Cia das Letras / 192 p. / R$ 27

A vaca foi pro brejo (The cow went to the swamp) / Millôr Fernandes / Cia das Letras / 128 p. / R$ 33
Tempo e contratempo / Millôr Fernandes / Cia das Letras / 128 p. / R$ 52

6 comentários:

Franchico disse...

All hail Princess Diana!

http://www.universohq.com/noticias/primeira-foto-da-mulher-maravilha-em-batman-v-superman/

rodrigo sputter disse...

oxe, como ele ia fazer 90 anos se nasceu em 1923 Chicong? que matemática é essa? hehehehehehe
essa do inventor do frecosbol eu tinha ouvido falar, mas esqueci, vou pesquisar mais.
eu li quando garoto um livro dele que meu pai tem e eu me apossei, chamado "fábulas fabulosas", foi uma das 1as coisas que li na vida, de livro, literatura, adorei...bão demais...e se não me engano, foi na veja, ou isto é, que li a seguinte frase com uns 10 anos de idade, recortei e colei na porta do meu quarto que tem um pedaço que com o tempo foi apagando e eu há vários anos atrás, reacendi com uma caneta:

"Quando eu morrer só acreditarei na sinceridade de uma homenagem -
o agente funerário não cobrar o enterro"

eu cheguei a manda no site dele perguntando onde achava essa citação, falando que li quando guri e tal...mas nunca fui respondido...grande Millor...

Ernesto Ribeiro disse...

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MÊ DE MÚSICA #7 - Rock Maldito!


http://www.youtube.com/watch?v=pSp5aa5tCi0



Bastante elucidativo.


Não pelo assunto em si, pois é o tipo de pauta que nunca leva a esclarecimento algum; apenas de chove no molhado. Mas sim pelo que pude observar na comunicação verbal e não-verbal de certas pessoas.


Apesar da edição ruim e frustrante desse programa, cortando as partes que seriam mais interessantes, é possível notar como Pitty se expressa muito bem gesticulando e se comunica muito mal apenas falando.


Tanto nas letras de suas canções como na oratória, o discurso dela é limitado e pouco articulado, ás vezes sem completar sentenças (algo cada vez mais comum nas últimas gerações de brasileiros) mas a "linguagem do corpo" de Pitty é muito bem desenvolvida. As mãos dela expressam todos os pensamentos dela de maneira completa, refinada, até eloquente.


Quanto á sua participação, Mr. Castro:


Como eu disse: a edição põe tudo a perder. SEI que você disse coisas mais interessantes. Sobre si mesmo e sua relação com a música.


Anyway, ainda estou procurando o vídeo do debate do Mê de Música em que você participa.

Mesmo lembrando o seu próprio comentário de anos atrás:


"A questão é: por que será que debates como aquele (e aí incluo também o debate do Mê de Música em que eu mesmo participo) não rendem? Será que ainda é razoável debater o rock baiano, para começo de conversa?"

Rodrigo Sputter disse...

R.I.P:

http://diversao.terra.com.br/gente/no-twitter-fas-se-dizem-chocados-com-morte-de-fausto-fanti,e7cacad918987410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

Ernesto Ribeiro disse...

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Finalizando aquele outro ponto sobre a discrepância musical dentro de uma mesma banda, cujos integrantes seguem tantas direções diferentes que não chegam a lugar nenhum:


A impressão visual que melhor ilustra o som da banda Lou é a dos 4 instrumentistas como sujeitos mal-encarados em um caminhão todo preto de 10 toneladas descendo uma ladeira a toda velocidade, enquanto os vocais parecem os de uma menina vestindo uma camiseta rosa da Hello Kitty, subindo a mesma ladeira numa bicicletinha.

Ernesto Ribeiro disse...

Matéria com a Lou no Soterópolis


https://www.youtube.com/watch?v=mw1AIueQFWA


Agora, constrangedor mesmo é assistir esse video de pronunciamento da banda Lou: como sempre, apenas Carol Ribeiro demonstra firmeza no discurso e na atitude, embora nunca fale em público com naturalidade. Já os outros 4 integrantes são um desastre. O baterista se confunde todo; a guitarrista Mel Lopo se mantém calada e desanimadíssima: sempre cabisbaixa, tem a expressão abatida de um moribundo e o olhar de uma defunta; a baixista tem o vocabulário mais acanhado de todos; e a vocalista Jera Cravo mal consegue articular uma frase.


"É... er... é o que eu espero... e... não vão se arrepender... porque tá muito bacana... e a gente tá fazendo isso, pra que as pessoas gostem mesmo... e que... curtem o trabalho da gente."



Nenhum deles fala com desenvoltura. Nunca transmitem segurança e domínio de seu ofício. Todos ficam intimidados diante da câmera, em graus variados. Mal parecem rockers, exceto pelo visual.


Isso é o rock baiano. Meninos de classe média assustados e bem-comportados. Nos anos 80, tínhamos gente que não dava a mínima para o que pensassem deles. Simplesmente não ligavam se todo mundo os odiassem.


Ao contrário: Marcelo Nova sempre INTIMIDOU todo mundo, desde a voz forte, grande e potente até a atitude agressiva que te põe nas cordas e o discurso virulento, impiedoso. Caras assim são do tipo que demarca seu território e mostram quem manda na área. Se não gostarem, fiquem de fora e não se metam. Gostem ou odeiem, aqueles caras sempre botavam pra fuder mesmo.


Mas essa galera de hoje... pfff...