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Contar a história do rock é fácil. O seminal bluesman Muddy Waters – um dos pioneiros do gênero – a resumiu de maneira definitiva ao cantar, no seu álbum Hard Again (1977): “The blues had a baby and they named it rock and roll“. O blues teve um filho e este se chamou rock and roll.
Tendo o correr das décadas tornado esta história um tanto mais extensa (e controversa) , o quadrinista francês Hervé Bourhis resolveu contá-la a sua maneira, no álbum O pequeno livro do rock (Conrad).
Desenhista de recursos a primeira vista limitados, mas de habilidade inequívoca para retratar seus personagens com fidelidade aos traços que os tornam reconhecíveis, Bourhis revê a trajetória roqueira ano a ano, começando quase 100 anos atrás – em 1915, quando uma fábrica de Chicago lança a primeira máquina jukebox.
A história segue até 2009, com o autor registrando a eleição de Barack Obama e prenunciando o que parece ser o crepúsculo da primeira era roqueira: “A opinião geral é que a banda de fanfarra psicodélica Animal Collective é o melhor grupo atual . Triste época“, escreve, com toda razão.
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Desta forma, além dos astros e LPs “discoteca básica“ do rock, o cartunista também registra cortes de cabelo, fatos, movimentos e até a criação de instrumentos importantes, como o sintetizador Moog, inventado por Bob Moog em 1964.
Outro mérito do livro de Bourhis é que seu autor não é americano. Desta forma, destituído da visão histórica estreita que costuma acometer os conterrâneos menos afortunados de Charlton Heston, Bourhis inclui no seu relato brasileiros importantes, como os Mutantes, Sepultura – e mesmo não tão importantes assim, como o Cansei de Ser Sexy.
Até João Gilberto, com o LP Chega de Saudade (1958) é citado. Quem diria: a bossa-nova faz parte da história do rock?
Os astros franceses, claro, também marcam forte presença, o que é bem legal para quem quer se inteirar mais do pop francófono, com muitas referências a gênios como Serge Gainsbourg, Johnny Hallyday, e mais recentemente, os duos Air, Daft Punk e Justice.
O autor homenageia seus conterrâneos com graça e inteligência, como nesta passagem: “1959: Serge Gainsbourg estala os dedos em frente a um jukebox“.
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No exterior, o nome que dão para livros do gênero é flipbook, ou seja, livro de folhear. Pode-se abrir em qualquer página e sair lendo. Claro, apocalípticos e chatos de plantão já terão seus argumentos na ponta da língua: ora, se não é um livro de texto, se não é sequer um livro de HQ, isso não é nada.
Alto lá. Pode-se até criticar a forma escolhida por Bourhis, mas, qualquer um que se disponha a ler – não apenas folhear – O pequeno livro do rock poderá constatar que seu mérito como pesquisador é incontestável. E pesquisador em diversas frentes.
Além de desenterrar diversos fatos obscuros (o que confirma uma ampla pesquisa histórica / factual), Bourhis lança mão de um vastíssimo acervo visual do rock e da cultura pop – tudo convertido ao seu próprio traço, incluindo aí reproduções de fotos clássicas, capas icônicas, vestimentas da moda de cada período, logotipos de bandas e por aí vai. Um trabalho visivelmente exaustivo do autor.
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Com sua homenagem apaixonada – sim, não há outra explicação para um trabalho tão detalhista – Bourhis concede um alento para quem já perdeu as ilusões quanto ao futuro do rock – hoje, um parquinho cada vez mais infantilizado. Se parece não haver futuro, pelo menos tivemos um lindo passado.
O pequeno livro do Rock / Hervé Bourhis
Conrad / 224 páginas / R$ 44,90