sexta-feira, abril 27, 2007

VISÍVEL COMPETÊNCIA

Aos 25 anos de carreira, o Ira! lança o CD de inéditas Invisível DJ, dribla produtor suspeito e mantém credibilidade

Detratores e céticos vão ter que engolir, mas a verdade é que o Ira! conseguiu, mesmo tendo seu novo disco produzido por um dos homens mais suspeitos do mercado fonográfico brasileiro - Rick Bonadio - parir uma obra à altura do seu legado.

Bonadio, para quem não sabe, é o homem do selo Arsenal Music (filiado à Universal) e um produtor franco-atirador que lançou, além de algumas das piores bandas da história recente do rock brasileiro, como CPM 22, NX Zero e Hateen, armações como os grupinhos Rouge e Bros.

Daí o temor de que Invisível DJ, o novo CD do Ira! pelo Arsenal, descambasse para um lado excessivamente comercial.

Venceu o bom senso artístico da banda, contudo. Invisível DJ pode ainda estar longe do vigor criativo dos melhores álbuns do grupo, como Vivendo e Não Aprendendo (1986) e Psicoacústica (1988), mas, apesar de um ou outro deslize, o disco flui bonito e equilibrado, alternando os rocks mais agitados, típicos de sua produção, com algumas baladas "para tocar no rádio".

E são apenas nesses "momentos-balada" que o CD desnuda suas fragilidades. A começar pela discutível faixa de trabalho, Eu Vou Tentar, de Rodrigo Koala.

Considerado o novo hitmaker do rock brasileiro, Koala é o líder do Hateen e tem alguns sucessos gravados pelo CPM 22, como Um Minuto para o Fim do Mundo e Irreversível. Ele é o garoto de ouro de Bonadio.

Eu Vou Tentar, já devidamente lançada nas rádios e transformada em clipe pelo parceiro / fã Selton Melo, é, com o perdão do trocadilho, melosa de doer. Arrastada e com uma letra para lá de brega, é indigna de quem criou pequenas pérolas românticas como Flores em Você e Tarde Vazia.

"Essa faixa foi uma sugestão dele (Bonadio), mesmo. Mas na hora em que a ouvimos, percebemos que era possível transformá-la em uma música do Ira!", garante o guitarrista Edgard Scandurra em entrevista ao jornal A TARDE por telefone.

Segundo Scandurra, a relação com o polêmico produtor foi equilibrada. O fato de o Ira! ser uma banda com 25 anos de estrada contribuiu para que o parceiro não interferisse demais no processo todo.

"Conhecemos tanto o lado para o bem quanto o lado, digamos, para o mal do Bonadio. Tivemos liberdade total no estúdio e ficamos muito à vontade. Pô, temos 25 anos de banda, e ele acabou se revelando um admirador do nosso trabalho. O lado para o mal é que ele tem uma disciplina muito grande e cobra muito das pessoas que trabalham com ele. O disco foi 60% composto no estúdio, o que o deixou meio inseguro às vezes. Então ele vinha e nos mostrava trabalhos de outros caras, mas depois relaxou e conseguimos falar a mesma língua", descreve Edgard.

Foi aí, "mostrando o trabalho de outros caras", que surgiu a baladinha do Koala. "Ela [a música] veio atender às expectativas das rádios e do grande público. O Ira! é uma banda de rock, na qual as rádios, desde os anos 80, buscam o lado pop. Procuramos manter essa atitude rock, por que a intenção [das gravadoras] sempre foi transformar o Ira! numa banda pop, desde o nosso primeiro disco", explica o guitarrista.

O segredo do êxito artístico de Invisível DJ reside no equilíbrio que os integrantes da banda, macacos velhos, conseguiram impor no estúdio, superando as pressões do produtor. O disco exibe uma saudável convivência entre o som do velho Ira! e sonoridades mais contemporâneas.

"Eu credito esse equilíbrio a dois fatores: nossa maturidade como banda e ao mesmo tempo, uma disposição em continuar antenado, em trocar figurinhas com o pessoal das bandas mais novas. Temos um vasto repertório de influências e sonoridades de que lançamos mão, desde o som mod que é nossa origem, até o rock clássico, passando pelo pós-punk, o folk e o rock atual. Então tudo isso acabou por dar essa cara mais contemporânea ao CD", explica Scandurra.

E quem via Rick Bonadio como o bicho-papão do rock acabou por se surpreender: "Ele tem uma visão mercadológica, claro, mas também é capaz de ter uma visão artística, de conseguir produzir um CD como o do Ira! e deixar o som rolar, sem muita interferência", defende o guitarrista.

Quanto à turnê de lançamento, os fãs baianos terão chance de curtir o novo repertório ao vivo no 2º semestre. "Começamos em maio por São Paulo, depois vamos pro interior, e aí então tocaremos pelo Brasil todo. Nosso empresário está olhando para o Nordeste com muito carinho e no segundo semestre estaremos aí em Salvador", garante Edgard.

RESENHA INVISÍVEL DJ:
No Invisível DJ, diversas faixas representam uma visível evolução ao que o Ira! vinha fazendo desde o fraco Entre Seus Rins, último disco de estúdio, lançado em 2001.

A faixa-título resume bem o feito: riff marcante, levada contagiante, letra com a costumeira temática urbana, refrão grudento e as vozes de Nasi e Scandurra docemente entrelaçadas na mixagem. É o bom e velho Ira!, sem dúvida.

Sem Saber Para Onde Ir segue mantendo o CD em alta. É uma faixa-coringa: pode tanto se dar bem nas rádios quanto cair no gosto dos fãs mais exigentes - coisa que não é qualquer banda de meninos que consegue fazer.

A próxima faixa é a famigerada Eu Vou Tentar. Pula, pula. Mariana foi pro Mar, a faixa seguinte, é outro destaque do CD: conduzida por violão vigoroso, a música é um delicioso folk rock de letra sensível sobre uma menina que joga tudo pro alto e vai morar à beira-mar.

O disco segue, e Não Basta o Perdão lembra os bons tempos de Vivendo e Não Aprendendo. Culto de Amor vem em seguida. De Edgard e sua ex-esposa, Taciana Barros (ex-Gang 90), a faixa já havia aparecido em Amigos Invisíveis (1989), o primeiro disco-solo de Scandurra. Regravada, a baladinha não ficou nada mal.

Feito Gente é cover de Walter Franco e mantém o bom nível. Apesar do arranjo interessante, com piano e guitarras étereas, o mesmo não pode ser dito de Tudo de Mim, parceria do baixista Ricardo Gaspa e Scandurra. No Universo dos Seus Olhos é outro bom momento do CD, com levada bluesy à la Led Zeppelin.

A Saga retorna ao som mod do Ira! dos primórdios e chega a lembrar Pobres Paulistas (mas sem a suposta e exaustivamente negada xenofobia da faixa mais antiga). O Candidato não chega a convencer, mas também não compromete. A última faixa, La Luna Llena, é um experimento bem-sucedido em criar um som folk latino, com destaque para a ótima interpretação de Nasi.

Saldo final: não é o CD mais brilhante do Ira!, mas também não faz feio ao lado dos seus melhores trabalhos.

Matéria publicada no Caderno 2 do jornal A Tarde de 26 de abril de 2007. Texto sem a edição do jornal.

8 comentários:

miwky disse...

Sabe se rolou mesmo o show da Scarlett Johansson com o Jesus & Mary Chain ontem?

A atriz tem se envolvido frequentemente em projetos de música pop. Ela está no clipe da música “When The Deal Goes Down” de Bob Dylan e também no clipe de "What Goes Around Comes Around", do disco "FutureSex / LoveSounds", de Justin Timberlake.

Além disso, Miss Johansson pretende lançar um disco com regravações de canções de Tom Waits, é mole? Já gostava dela como atriz, mas me parece mais simpática com relação à música, pelo menos ao que escolhe pra fazer, só não sei se canta messs

Franchico disse...

E vem aí:

O PIOR PHODCAST ROCK LOCO DE TODOS OS TEMPOS!

Convidado desta edição: Zezão Castro!

Aguardem e confiem.

Franchico disse...

E atenção fãs dos Honkers: domingo agora (29), tem matéria sobre o CD novo e a banda na capa do Caderno 2 d'A Tarde!

Avisem aos amigos, fãs, familiares e o escambau! Domingão!

Franchico disse...

Funny or Die!

http://sjl.funnyordie.com/v1/index.php

Search "The landlord", com Will Ferrel e despiroque de rir.

"I want my money, bitch!"

Franchico disse...

Dica de Zezão: John Belushi imitando Joe Cocker no Saturday Night Live.

http://www.youtube.com/watch?v=cINjzu5773M

Gênio, gênio, gênio.

cebola disse...

Ainda não escutei, Bonadio realmente assusta, mas, é aquela coisa: In Ira! we trust, até prova em contrário.

post novo: http://www.oculosdecebola.blogspot.com

osvaldo disse...

classe maxima o show do jethro tull ontem.com um credicard hall lotado, a ponto de neste domingo ter sido programado um show extra, ian anderson , junto com o "extraordinaire" martin barre, botaram pra fuder, mostrando que rock não é so atitude, é tambem musica de altissimo nivel,com virtuosismo em doses certas.da atual banda, destaque para a belissima e talentossisima violinista sino-americana anne marie calhoun. classicos tocados em novos arranjos, num show eletro-acustico, no volume certo, numa verdadeira explosão de musicalidade e emoção quando classicos como "thick as a brick" "sweet dreams" e o encore "locomotive breath" foram tocados.anderson não toca mais de uma perna só, e a voz esta mais fraca, mas a a classe da banda e das composições transformam o show num evento memoravel.na plateia, muita gente mais velha, mas muita, muita garotada, mostarndo que o som do tull atravessou gerações mesmo.rock geriatrico? pode ser, mas bandas com o jethro tull ajudaram a transformar o genero em arte, e a arte é eterna.

Franchico disse...

Pô, Brama, por que vc não colocou esse textinho num post?