sexta-feira, outubro 14, 2005

A ULTIMA CENA DO CBGB'S

"This ain't no Mudd Club or CBGB'S
I ain't got time for that now"
Life During Wartime, Talking Heads

Duas decisões judiciais recentes sobre a situação do lendário clube nova-iorquino CBGB'S( o Calypso deles) deixam pouca chance de futuro para que o clube continue no local. Berço e precussor do que viria a ser o punk(sorry, na minha opinião o movimento só se cristalizou na Inglaterra), o clube ganhou uma ação referente a alugueis atrasados, mas perdeu a questão quanto a renovação do aluguel, que venceu em 01/09, e agora espera apenas a notificação de despejo. Apesar da enorme mobilização da cidade e de seus protagonistas( de Patti Smith ao prefeito Bloomberg) para que, a proprietaria Associação de Residentes do Bowery( de apoio aos sem-teto), revisse sua posição ,e nada foi revertido. Hilly Kristal, veterano do Vietnam e dono do CBGB'S não pretende abrir o clube em outro local, "se fechar, fechou." O RockLoco presta sua homenagem ao clubinho de bêbados e junkies que povoou nosso imaginário nas décadas de 70 e 80 e ajudou de forma decisiva a mudar a face da cultura pop tal como a conhecemos hoje.
Uma breve historia do CBGB'S
Aberto na pessimamente frequentada Bowery em 1973 pelo ex-marine HillyKristal( então com 42 anos) para ser um clube de musica Country,Blue-Grass e Blues(CBGB'S) e provavelmente permanceria como tal se não fosse visitado por mero acaso por dois rapazes recém-chegados do Delaware, Tom(Miller)Verlaine e Richard(Meyers)Hell. Eles que faziam parte da embrionaria cena alternativa nova-iorquina, extremamente inspirada na boêmia romântica de poetas como Rimbaud e Verlaine, e ao olharem o local, totalmente decadente com sua vizinhança de bêbados, veteranos de guerra, ex-internos de asilos,junkies e vagabundos em geral, pensaram juntos, "é aqui mesmo". Considerada a primeira banda do que viria a ser o punk, o Television(ex-Neon Boys) tocou noCBGB'S pela primeira vez em 31 de Março de 1974, e quase foi a ultima. HillyKristal, apavorado pelo o que ele chamou da pior apresentação musical que ele presenciou na vida quase cancela toda a temporada acertada para os próximos meses. Mas a aquela altura a pequena cena, da qual faziam parte as nativas de New Jersey Patti Smith e DebbyHarry, começava a atrair os órfãos dos New York Dolls e do Max´s Kansas City, como um suburbano de Queens, Douglas Colvin.E foi justamente a banda de Douglas(aka Dee Dee), os Ramones, que foi escolhida por Tom Verlaine para ser a banda de apoio na segunda apresentação do nascente movimento do Lower East Side, ( o wild side ao qual se referia Lou Reed no antológico Transformer). A apresentação dos únicos nativos de Nova Iorque desta nova cena foi um desastre do ponto de vista profisional, os Ramones ficavam discutindo agresivamente entre si em pleno palco(?) para depois entrarem em musicas de duração media de 2 minutos. 2 minutos que resumiam Stooges, Phil Spector, "60´sBritish Invasion", 50´s bubblegum e agressão sonora. Hilly Kristal odiou, mas o "scenester" Legs McNeill(Mate-me Por Favor) estava na platéia, e o impacto o inspirou a fazer a seminal revista Punk. Apenas 10 pessoas estavam nesta primeira apresentação, mas o boca a boca foi tão intenso no underground que eles tocariam mais 22 vezes naquele ano , e junto com o Television deram partida no que viria a ser o punk rock.No inicio de 1975 a emergente artista Patti Smith foi covencida por Tom Verlaine(então seu namorado) a fazer um showcase para a Arista Records no CBGB'S. Já reconhecida em Londres e em outros círculos intelectuais boêmios por suas leituras de poesia acompanhada por guitarra elétrica(Rock'n'Rimbaud),Smith catapultou o imundo e barra pesada CBGB's para a badalada velha-guarda underground nova-iorquina. Lou Reed, John Cale, Allen Ginsberg e o povo de Andy Warhol. Mesmo para estes caras, afinal de contas artistas cultos e sofisticados, ver bandas toscas como os Ramones fugiam a compreensão deles, e fora a já celebrada Smith, a elite underground nova-iorquina não levava muito a serio aqueles moleques. A essa altura Kristal percebeu que aqueles malucos conseguiram atrair alguma atenção para aquele pardieiro e mandou em julho de 1975 o festival"Top 40" das novas bandas de nova cena de N.Y. Este festival revelou para os olheiros das gravadoras e vários jornalistas da imprensa alternativa o Talking Heads, Blondie e Ramones. O Village Voice encantado com o rock esperto e minimalista dos Talking Heads estampou os caras na capa, a Rolling Stone começou a dar notas sobre os Ramones, e mais importante de tudo, o inglês NME, mandou o jornalista Charles Shaar Murray investigar o que diabos estava acontecendo no outro lado do Atlântico. Apesar de Murray não ter entendido exatamente o estava acontecendo( na verdade ninguem sabia direito), estes artigos seriam fundamentais para o futuro movimento punk, uma vez que nos Estados Unidos o movimento punk era restrito ao Lower East Side e no maximo com algum alcance no circuito universitário de Boston. Só que na Inglaterra o papo era outro, a crise econômica inglesa seria solo fértil para o estabelecimento do punk enquanto movimento musical e fenômeno comportamental e os ingleses dariam o reconhecimento aos precussores do punk , que era negado a todos eles(exceção de Patti Smith) nos U.S.of A. Mas esta é uma outra discussão(procurem nos arquivos do Rock Loco).
Em dezembro de 1975 Horses de Patti Smith é lançado para aclamação geral, em Maio de 1976 o do Ramones é lançado pela Sire sendo totalmente ignorado pelo publico americano e 99% da imprensa musical americana. Quando os Ramones tocaram em Londres em julho de 1976 tiveram uma acolhida de ídolos, para a total estupefação deles. Afinal de contas, em casa eles eram ilustres desconhecidos fora da cena CBGB'S. Ao menos serviram para reavivar a cena underground nova-iorquina forçando a reabertura do Max's Kansas City e a abertura de dezenas de clubes com propostas semelhante ao CBGB's. A partir de 1977 o CBGB's deixa de ser progressivamente a sala de estar das bandas(nas palavras de Richard Hell) e as bandas como Blondie,Voidoids,e Dead Boys conseguem seus contratos com gravadoras, e passam a fazer tours pelos U.S.of A., e especialmente pelo Reino unido, onde o tal do Punk Rock tinha finalmente explodido e posto o rock e seu establishment de cabeça pra baixo. Ao longo dos anos o CBGB'S firmou-se como o lugar com total credibilidade no mundo alternativo e o numero de bandas que la tocaram depois da cena inicial( Sonic Youth, Minutemen, ect.) até os dias de hoje é um who's who do rock atual, apesar do local continuar com pouca estrutura.Em 1989 pude dar uma rapida olhada no local de dia, enquanto funcionarios do bar limpavam e abasteciam o bar, e nao tinha nada de especial, com capacidade para umas 300 pessoas. Obviamente o lugar jà era um bar mais normal e jà tinha virado atraçao turistica para roqueiros de passagem.
O impacto e a influencia desta cena isolada e auto-referente é imensuravel.Eles anteciparam o cinismo, tédio e individualismo que definem melhor o compotamento moderno, principalmente da juventude, oposto da idealista( e hipocrìta) juventude dos 60's. Sim é um retrato mais sombrio, mais muito mais realista dos dias que vivemos.

9 comentários:

Barry disse...

Duas correções. Em primeiro lugar, Lou Reed declarou abertamente, no DVD de 'Transformer', que o disco fazia referência à Factory de Andy Warhol. 'Walk On The Wild Side' tem, inclusive, menções a alguns dos personagens que povoavam o estúdio naquela época (como o ex-michê Joe D'Alessandro e os travestis Candy, Jackie e Holly). Por sinal, 'Transformer' foi lançado em dezembro de 1972, alguns meses antes da abertura do CBGB´s. Em segundo lugar, que história é essa de acusar a juventude dos anos 60 de hipócrita? Eles podiam ser tudo - idealistas, utópicos, levianos - mas definitivamente acreditavam no sonho de uma mudança social (e muitos transformaram esses ideais em razões para a sua própria existência). Eu também gosto do cinismo e hedonismo dos anos 70, mas isso não retira o mérito da geração que os antecedeu. O próprio Johnny Rotten queixa-se, no 'Lixo E A Fúria', da alienação dos jovens adoradores do punk e da maneira como o discurso do movimento se perdeu no caminho. A meu ver, não existe geração mais próxima ou distante da "realidade". Há somente artistas. Qualquer movimento, politizado ou não, pode se distanciar dos anseios da sociedade. Desculpe-me discordar de um blog irmão e camarada, mas tenho que dizer o que sinto.

osvaldo disse...

Blz Barry, eh obvio que nao precisamos concordar em tudo .Quanto a referencia a Walk on The Wild Side nao quis dizer que se referia ao CBGB'S, e sim a antiga fama de barra pesada do lower east side como bairro povoado de figuras do submundo nova-iorquino , o tal do wild side. A musica e o album sao anterior a cena CBGB's, sendo que David Bowie foi fundamental para que Reed conseguisse fazer o album( tenho Transformer desde 1974).Reed e o Velvet Underground sao os precussores da cena, sendo influencia e nao os influenciados.Se deixei margem pra duvida no texto em relacao a isto, foi mal.Quanto a hipocrisia da geracao 60 , apesar da bela utopia, mantenho o que disse no texto, so nao faco juizo de valor.nao acho que as geracoes 70 ou 80 foram melhores, apenas acho que o punk foi mais realista, e olhe que era uma cena cheia de equivocos.De qualquer maneira meu idolo-mor eh Dylan, e estou terminando de ler Cronicas, e o messias designado dos 60( coisa que ele nunca se propos a ser) nao tem uma opiniao muito simpatica daquela epoca.

yaravasku disse...

Beleza de texto/homenagem, Osvaldo. Ainda preciso ler mais para ter uma opinião certeira sobre o nascimento do punk (que até o momento considero americano...) :D

Franchico disse...

Barry, acho que o que Brama quis dizer com "hipócrita" é que nos anos 60, nego ficou tão absorvido pelo ideal de paz e amor que meio que perdeu o contato com a realidade. O mundo em volta desmoronando em guerras, crise do petróleo, desemprego, recessão, ditaduras, e os hippies delirando com flores no cabelo. o punk rompeu com essa cegueira e assumiu aquela postura cínica e desesperançada que lhe deu fama. na verdade, o punk foi a mera confirmação da percepção de Lennon qdo disse sua famosa frase "the dream is over" etc. talvez o termo que Brama usou não tenha sido o mais exato para definir a postura hippie, mas acho que foi isso que ele quis dizer. se estiver errado, me corrija, Brama.

mas o texto tá ducaralho, man, nunca é demais mais informações sobre o assunto.

Barry disse...
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Barry disse...

Peraí, bicho. O que eu tô levantando aqui é que os hippies tiveram uma vertente tão engajada quanto o punk. Havia nego delirando com flor no cabelo, só querendo saber de ácido? Claro que havia. Mas também tinha gente que falava de questões políticas e sociais, usando uma abordagem diferente daquela dos anos 70. O próprio Dylan era um exemplo disso. Richie Havens, Country Joe And The Fish, Jefferson Airplane, Crosby Stills & Nash, Arlo Guthrie e muitos outros também seguiram essa mesma linha. Concordo que não era uma estética tão agressiva quanto a do punk, mas o seu discurso era igualmente contundente. Menos sombrio e mais poético. Tratava-se apenas de uma maneira diferente de enxergar a realidade, com mais otimismo e crença na capacidade de mudança - porém nada "hipócrita", nem menos "realista". Afinal de contas, "ter esperança" não significa ser "alienado".

Franchico disse...

Falou, brother, tá certo, todos esses artistas que vc citou aí eram muito conscientes no seu discurso - na gênese da era paz & amor. E não nos esqueçamos tb dos yippies (eu grafei certo? e não confundir com yuppies, pelamordededeus), vertente mais politizada do hippie, Abbie Hoffman, Panteras Negras, Panteras Brancas, The Last Poets etc. Mas com o passar dos anos, no início dos anos 70, na ressaca do fim do sonho, o rock tava precisando de um banho de realidade e radicalismo, banho esse que foi o punk que se encarregou de dar. Entre erros e acertos, como bem frisou Brama. Sem contar que o clima de "comunidade" que os hippies tanto cultuavam não mais condizia com o individualismo exacerbado que veio com a nova década (a de 70). Tudo isso armou a cama na qual o punk veio a se deitar. Cama de pregos, claro.
Claro, nada disso anula a grande importância que os protestos e a utopia dos anos 60 tiveram na cultura ocidental. Tão importantes que, se não tivessem havido, também não haveria o próprio punk, concorda?

osvaldo disse...

Reproduzo o comment que Miguel Cordeiro me enviou:
osvaldo: seu texto é muito preciso sobre o q representou o CBGB e a cena
punk novaiorquina, ou melhor, a cena do east village e seus princípios
filosóficos. o CBGB teve o seu auge exatamente entre 1973 até 1978. mas
quando estive em nova york nos anos de 1982/83 ele já era um palco sem
muitos atrativos apesar de ter assistido por lá o sonic youth algumas vezes.
mas o grosso da programação eram bandas fraquinhas se engalfinhando para
tocar no lendário CBGB, quanto às diferenças entre as gerações dos anos 60 e
os punks, eu concordo com voce. existe uma enorme confusão entre o ativismo
politico/cultural dos anos 60 (que era uma coisa sensacional) e aquela
bobagem conformista do flower power e do paz & amor. são duas coisas muito
diferentes e até contrárias. é como disse o mestre dylan: dava vontade de
meter bala naqueles hippies imbecis, e o próprio jerry rubin (ativista dos
anos 60) terminou indo trabalhar em wall street. money!! miguel cordeiro

Franchico disse...

A quem interessar possa, o site esecializado em quadrinhos Fanboy (http://www.fanboy.com.br/) começou a publicar algumas (humildes) resenhas de HQ do papai aqui. Por enquanto, nenhuma inédita, são três já publicadas neste blog: Maus, The Originals e Sangue ruim, mas em breve deve rolar alguma exclusiva para o site.