quarta-feira, outubro 05, 2005

MODS, ROCKERS E SANGUE NAS RUAS

The Originals - Sangue nas ruas é um belo conto de rito de passagem escrito e desenhado em deslumbrantes preto, branco e tons de cinza por Dave Gibbons, fantástico co-autor da obra prima Watchmen, de Alan Moore. O enredo (que não é samba) não tem nada de muito original assim (ops), contando a história da amizade de dois jovens londrinos que sonhavam em entrar para a gangue dos Originals, dândis uniformizados que circulam por uma Londres retrô-futurista montados em hovers, lambretas sem rodas, movidas por um colchão de ar alguns centímetros acima do chão. Os Originals estão sempre entrando em brigas com os Dirts, gang de motoqueiros sujos e cabeludos. As referências são óbvias: os Originals são mods e os Dirts, rockers, gangs que realmente existiram e, não raro, entravam em conflito na Londres dos anos 50 e 60. (Para mais informações, vide filmes como Absolute beginners e Quadrophenia e de preferência, avise ao papai aqui onde encontra-los, pois só vi o primeiro uns quinze anos atrás e depois nunca mais. Você também pode clicar aqui para se informar com quem entende do assunto). Em The Originals, Dave Gibbons se mostra no auge da forma, seus desenhos estão mais belos do que nunca, ainda que não sejam muito diferentes daqueles mostrados em Watchmen. Você fica tão maravilhado com as expressões faciais perfeitas, os movimentos precisos e o detalhamento inexcedível, que fica achando que Rorschach, Doutor Manhattan ou Ozymandias vão aparecer a qualquer momento na história. Mas não. Aqui, os jovens das gangs rivais mandam no pedaço. Drogas, lutas, motocas e lambretas envenenadas, ritos de passagem, amores perfeitos, noites insanas regadas à uísque e bolinhas e por fim, morte e renascimento dão a tônica desta bela graphic novel editada de forma primorosa pela Conrad, como aliás, é de costume desta editora. The Originals foi editada nos EUA pela Vertigo / DC e ganhou alguns prêmios Eisner, fato contestado pelo conceituado site brasileiro Universo HQ, que não gostou muito do material. Eu me amarrei e recomendo. Não é nada genial, mas é muito bacana e fala nossa língua: sexo, drogas, rock n' roll, máquinas envenenadas, amizade. Beleuza.
The Originals - Sangue nas ruas, de Dave Gibbons. Conrad Editora. R$ 34,00.

LADRÕES, VAGABUNDOS, PSICOPATAS E PROSTITUTAS - Sangue ruim, do artista underground Joe Coleman, auto-proclamado Visionário do Apocalipse, é um soco no estômago do leitor. Alguém cujos fãs declarados reúne nomes tão loucos e insanos como Robert Crumb, Jim Jarmusch e Charles Manson, só pode ter um trabalho, no mínimo, interessante. Nunca tinha ouvido falar desse sujeito, mas dei de cara com seu livrinho numa banca dessas por aí e, após ler as referências entusiasmadas dos três fãs acima citados, nem vacilei. Comprei no escuro e me dei bem. O livro é curto e os textos são diretos. É assim: a cada página, tem um parágrafo (10, 15 linhas no máximo) e uma ilustração em p&b. E que ilustrações, companheiro. Como não sou crítico de artes plásticas, me limito a dizer que o mestre Robert Crumb o tem na mais alta consideração. Quer mais o quê? Jim Jarmusch escreve no prefácio do livro que mesmo a crítica especializada tem dificuldades em colar um rótulo no trabalho do rapaz. Ele chega a citar o perverso e pervertido Robert Williams, mestre do sadomasoquismo e máquinas hot rods, mas logo o descarta. Para vocês terem uma idéia, a referência mais próxima que Coleman se permite dizer influenciado é o pré-renascentista Hieronymus Bosch, conhecido por suas geniais e aterradoras visões do inferno. Sangue ruim é composto de quatro histórias reais de criminosos americanos. No primeiro deles, "É Inútil Insistir", Coleman adapta a história de Jack Black, fora-da-lei lendário no séc. XIX e cuja autobiografia inspirou Junkie, o primeiro livro de William Burroughs. "Bertha Vagão de Trem" é a segunda história, que narra os dias sinistros de uma mulher sem rumo no período da Grande Depressão. Já "Carl Panzram # 31614" aborda o submundo misterioso de um dos mais famosos serial killers de todos os tempos. Em "Os Últimos Dias de Paul John Knowles", a quarta história, o leitor acompanha um desfecho incomum na vida de um outro serial killer dos anos 70. E assim vai. Bem vindo ao universo infernal, doentio e perigoso de Joe Coleman.. Sangue ruim no Submarino.
Sangue ruim, de Joe Coleman. Conrad Editora. R$ 25,00.

CLASH CITY PARTY - O blog brother Clash City Rockers comemora mais de 17 mil acessos em seis meses de atividades com festinha bala amanhã (quinta-feira, 5 de outubro) no Miss Modular. (Poxa, como faz pra colocar um contador de acessos no Rock Loco? Uma vez eu tentei e me mordi todo.) Discotecagem da galera toda, muito riso e muita alegria para todos, que eles merecem. Só R$5 e a cerveja tá mais barata nessa quinta.

APROVEITA QUE EU TÔ CALMO - Já na outra semana tem show do Nervoso, que toca pela primeira vez em Salvador aonde, aonde? No Miss Modular, claro. Nunca ouvi, só vi que o rapaz foi indicado no VMB como melhor clipe independente. As referências são boas (pra mim): Frank Jorge e o rock gaúcho, jovem guarda etc. A banda que acompanha o músico, Os Calmantes, é formada por Kiko Ramos no baixo, Benjão na guitarra, Alberto nos teclados e Robério na bateria. Segundo Luciano Matos, o próximo trabalho do músico, uma versão remixada do CD "Lembranças das minhas saudades", deve encartar a revista OutraCoisa de janeiro de 2006.Completando a night que, prestem atenção, começa cedo (20h), tem Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta esquentando os tamborins para a grande final do concurso Claro que é rock e para lançar em breve seu primeiro CD cheio. Força, galera. Nossa torcida tá com vocês. De quebra, ainda tem eu mess, el Cabong, Big Bross e Batata (tá namorando! tá namorando!, desculpem, eu não resisto.) tocando nossas músicas prediletas no sistema de som da casa. Lembrem-se: começa cedo, então dá para ir, se divertir à grande e ainda voltar pra casa em tempo de não acordar totalmente inutilizado na quinta feira, que é dia de branco. Snif. Mais info sobre Nervoso: www.nervoso.art.br Serviço: Nervoso e Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta. 12.10.2005 20h R$10 Miss Modular Morro da Paciência, 3810, Rio Vermelho Salvador-BA.

9 comentários:

Barry disse...

Interessante essa dica do Joe Coleman, Chico. Vou procurar. Eu também comprei o 'The Originals' e achei foda. Só faltava mesmo referências à música mod, coisa que o mestre Alan Moore jamais esqueceria de fazer. Aliás, toda vez em que penso em 'Watchmen', lembro de quão genial era o seu final: um 11 de setembro colocando um fim em todas as guerras, levando a humanidade a uma era de paz. Não se pode negar que, hoje em dia, esse argumento pareça irônico, não acha?

marcos rodrigues disse...

Chico e Bramz, vão no www.weboscope.com/free cadastra o blog e pega o código, que deve ser colocado no html (alguém ai saca? fala com Greice). Depois é so correr pro abraço e falar pro mundo pra ter cuidado com vcs :) Abçs e esperamos todos no Miss Modular amanhã.

Franchico disse...

Barry, tem umas referências à música sim, no caso à soul music, com todos aqueles selos de compactos de northern soul (provavelmente fictícios, não saco muito dessa ala da soul music) em algumas páginas, lembra? Claro que Moore integraria as referências de música mod na obra de forma muito mais interessante, mas....

A única forma que um 11 de setembro pudesse levar à uma era de paz seria exterminando toda a raça humana, Barry. enquanto houver gente nesse planeta, vai haver desejo de vingança. se eu fosse novaiorquino, provavelmente iria querer estripar o Bin Laden com minhas próprias mãos. e olha que eu sou um cara super pacato.

Valeu, Marcos. Eu peguei uma vez um código de contador de acessos gratuito, mas simplesmente não sabia onde encaixar no código html do blog, já que não entendo bulhufas desse tipo de linguagem...

osvaldo disse...

Valeu pelas dicas Chico.Ha' tempos que nao acompanho mais hq e pelo menos vc circula a info.

Franchico disse...

As dez fotos mais ridículas do black metal de todos os tempos. Precisa dizer mais alguma coisa? Clique aí e salve seu dia.

http://ruthlessreviews.com/top10/10blackmetal.html

Franchico disse...

Com o devido respeito e a devida licença, gostaria de propor um texto muito interessante para leitura e reflexão de todos os que frequentam este blog. Este texto de Dulce Quental (autora da frase preferida de Braminha, "amanheceu o pensamento") foi roubado na cara dura do site Scream & Yell (http://www.screamyell.com.br/), que aliás, gosto muito e consulto regularmente. Tomara que nem Dulce nem o pessoal do site se zangue por isso. É por uma boa causa. Achei o texto muito oportuno nesse momento. Não concordo com tudo, mas considero que a autora tem sua razão em diversos pontos. Portanto, sem mais...

Caleisdoscópicas
Patrulhas da contra-cultura
por Dulce Quental
26/07/05

As patrulhas da contra-cultura estão de volta. Com elas, toda uma ideologia politicamente incorreta em defesa do que se costumou chamar de "alta cultura". Pureza na arte nos tempos de hoje é um conceito careta e superado, mas os defensores da "arte séria" insistem em afirmar existir um padrão de qualidade, que é claro, é estabelecido por eles, senão não se chamariam formadores de opinião, nem escreveriam nos principais jornais e revistas de grande circulação.

No entanto, em nome desse suposto padrão, milhares de trabalhos artísticos sequer alcançam o grande público e por isso não chegam nem a ter a experiência de ser ou não reconhecidos e validados artisticamente, por aqueles a quem de fato caberia a função. Pois é para o público que o artista canta. É ele seu ouvinte/leitor e patrão.

O fato é que validar um trabalho artístico ou um artista nos dias de hoje ficou difícil e arriscado. Qualidade, consistência, histórico: em que se apóia a mídia ou os formadores de opinião para classificar uma obra ou destacar ser ela merecedora de ser repercutida?

Parece que, como diz Chico Buarque, não precisamos escrever livros, nem compor mais canções para existirmos artisticamente. Basta que pareçamos estar fazendo alguma coisa, ou simplesmente, que já tenhamos feito um dia algum trabalho artístico, seja livro ou disco, para que aquilo gere notícia e aconteça ad finitum.

Seremos julgados eternamente pelos nossos primeiros trabalhos mesmo que tenhamos feito coisas bem mais interessantes depois. E como podemos infelizmente constatar, grande parte dos jornalistas considerados "sérios" já tem uma idéia formada sobre tudo antes mesmo de escrever o que quer que seja. Então, porque se dar ao trabalho de pesquisar?

Se fossemos levar a sério o que esses caras escrevem, jamais sairíamos dos nossos quartos, nem escreveríamos canções. A Bossa Nova não teria existido. Vinicius de Moraes, saído dos salões literários e embaixador da canção popular, não teria nos brindado com suas letras com cheiro de calçada e chope. Graças a Caetano e Gil a geração dos 80 existiu. Os tropicalistas eram abertos. Sem lenço, sem documentos.

E as gerações vão se reverenciando umas as outras. Os yuppies dos 90 não teriam existido sem os oitentistas. Eles chegaram com suas vozes tecnológicas num terreno já irrigado muitas estações atrás.

Aos tempos sisudos da ditadura, guitarras elétricas. À caretice da MPB setentista, roquinho bobinho de bermudas, por que não? Caiu bem a bessa naquela época. A esquerda pós-ditadura era ranzinza e retrógrada. Cantar na época : "Não sou dou tipo que faz comício tenho horror a compromisso", fez todo um sentido. Difícil de ser analisado nos dias de hoje, ainda mais sob as lentes fascistas das elites intelectuais.

Posso entender essa preocupação em preservar a "cultura autêntica", o samba de raiz, o que é nosso. Mas vejo, e não é de hoje, o prazer quase sádico com que essa turma patrulha os expoentes da nossa geração por ter sido uma geração formada pelo rock e pelo cinema, as maiores manifestações de cultura de massa do nosso século.

Em vez de tentarem enterrar a nossa geração, antes do tempo, esses caras deveriam voltar pra universidade, para tomarem uma lavada de história da cultura pop. Rock é atitude. É política. É comportamento. Já que é pra falarmos ao pé da letra. Mas isso não se aprende na academia ou na escola. Ah! então ta explicado!
Dulce Quental é cantora e letrista.
Saiba mais sobre a cantora no www.dulcequental.com

osvaldo disse...

Acho que essa patrulha politicamente incorreta da "alta cultura" de que fala Dulce, pode ser encarada tambem como uma reacao ao baixo nivel generalizado e cartilha do politicamente correto que reza que "tudo tem seu valor".Sou contra qualquer tipo de censura, mas a critica tambem 'e necessaria , diria que 'e o reverso da medalha. E ja que vc provocou Chico, reafirmo, "amanheceu o pensamento"( tem que ser na voz de Frejat!) 'e insuperavel.O que significa eu nao sei, mas ouso dizer que 'e o GRANDE ENIGMA do rock.Puta que o pariu, you CAN'T get any better!

Greice disse...

Franchico, instalei o contador que Rodrigues indicou. Me passa um e-mail pra que eu te dê as senhas e tal. Ainda estou vendo como isso daqui funciona...

bjins

Franchico disse...

Greice, vc é dez. Valeu mesmo. Vou pegar teu email com Juliana (Guttman).

Brama, essa foi pra te provocar mesmo, sabia que tu não ia se segurar. E com certeza que tudo é passível de crítica e revisão. Só idiotas não mudam de opinião. Mas eu achei bem interessante essa defesa de geração da parte dela. Para o público médio (a parcela que a conhece, claro), Dulce será eternamente a cantora do Sempre Livre, uma banda que acabou há 20 anos. Que cruz que essa moça tem de carregar, isso é pior que uma prisão. Se bem que do jeito que as coisas vão, eu era mais ela juntar os cacos da antiga banda e fazer logo um revival pra ganhar algum dinheiro, tá todo mundo se locupletando nisso aí, Kid Vinil, Ritchie, Léo Jaime, Leoni, Ultraje a Rigor, Capital... Ou eu tô sendo cínico demais?

Quanto aos enigmas do rock, o que dizer desse aqui?

"Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos." Daniel na cova dos leões.

Por falar no homem (modo de dizer, vai), vcs viram o filho dele no Fantástico ontem? Num sei não, pra mim aquele moleque já nasceu meio lesado.... Aliás, esse é outro que vai carregar para sempre a cruz de ser filho de Renato Russo. Que inferno. E aguardem, pois vêm aí o filho de Cássia Eller (meu xará Chicão) e a filha de Raulzito, que até já posou na Trip. Bem fez Cazuza, único ídolo morto do rock brazuca a não deixar rebentos.