terça-feira, junho 26, 2007

NOVAS ORELHADAS NOVAS + NOTINHA DE HQ

Cambitos que ofendem

Como sempre chegando atrasado às ondas do momento, não vou cair na besteira aqui neste blog de, como 11 entre dez jornalistas / resenhistas, render glórias ao soul, ao swing, à voz, ao dente quebrado, às bebedeiras e à sensualidade contida de Amy Winehouse - ou mesmo à exatidão de timbres, arranjos e execução da produção de Back to Black, a essa altura um mega-sucesso mundial. Não, caro leitor, nada disso. Vim, sim, fazer duas coisas: primeiro, colar o mundialmente famoso e cobiçado selinho de "aprovado pelo Rock Loco" no tal disco - só para que não haja dúvidas. Realmente, Back to Black é uma linda e bem resolvida homenagem à sonoridade clássica da Motown, nota dez, do caralho e coisa e tal. Isto feito, passo alegremente à minha segunda tarefa neste texto, que é chamar a atenção para um detalhe que nenhum outro jornalista - daqui ou do mundo inteiro - parece ter atentado. O fato é este: não é aceitável que uma cantora de soul - ainda mais com uma voz tão quente - tenha pernas tão finas. Os cambitos da senhorita Winehouse são uma afronta à tradição dos pernis luxuriantes de grandes divas do estilo, como Tina Turner, Aretha Franklin, Etta James, as Supremes e todas as backing vocals de James Brown (isso para não entrar no terreno de suas contemporâneas cantoras de r'n'b, indignas de comparação na seara musical, mas que batem um bolão, se é que vocês me entendem, como Beyoncée, Maryah Carey ou mesmo Joss Stone). É de se imaginar que algum diretor de marketing da gravadora já deva, a essa altura, ter abordado esse assunto com a artista - entre um porre e outro -, sugerindo medidas como malhação, enxertos de silicone ou algo do tipo para sanar este problema. Vamos lá, senhorita Winehouse, está na hora dar seus pulinhos e encher esses cambitos aí - em tempo para o lançamento do próximo disco, de preferência. Mas enfim, o que importa é isso: o disco é nota dez - mas para os cambitos eu dou zero.


Back to Black
Amy Winehouse
Universal



Campeões da segunda divisão


Com justiça, superei uma clara má-vontade inicial com este disco. Depois de me decepcionar um pouco com o primeiro CD dos Kaiser Chiefs, Employment (2004) - o nome do meu problema, aliás- , que pouco ou quase nada trazia além dos ótimos hits I Predict a Riot e Everyday I Love You Less and Less, minha curiosidade para Yours Truly… era próxima do zero. Depois de deixa-lo descansar algum tempo, minha antipatia deu uma recuada e consegui ouvi-lo de forma mais atenta e menos preconceituosa. Yours Truly... está longe de ser assim, uma Brastemp, mas tem lá suas qualidades, com uma sonoridade bem próxima do rock britânico clássico e com certeza, não é o lixo que a maioria das resenhas por aí apregoa. Menos hypada e mais isolada dos grupos de sua geração, que rezam pela cartilha pós-punk, as referências britpop e british invasion (nessa ordem) da banda aparecem com mais clareza. Kinks, Animals, Ocean Colour Scene, Blur, Oasis, Cast e outros nomes do rock britânico dos anos 60 e 90 afloram naturalmente ao longo do CD, causando uma bem-vinda sensação de familiaridade no ouvinte. Não é que seja um puta disco do caralho, do tipo que se ouve sem pular faixas. Pula-se, sim. Só que as faixas que eu pulo são em número bem menor do que as que não pulo. Descubra as suas - vale a pena pelas outras.


Yours Truly, Angry Mob
Kaiser Chiefs
Universal


Jayne Mastodonte premiada


É com alegria que o Rock Loco registra que a revista Jayne Mastodonte nº 2, do cartunista e quadrinista baiano Flávio Luiz, ganhou o prêmio de Melhor Revista Independente no Troféu Alfaiataria de Fanzines, promovido pelo site Pop Balões. Minha brodagem com o artista à parte, a premiação é mais do que merecida, pois o cara batalhou muito para botar essa revista na rua (além das suas óbvias qualidades humorísticas e artísticas). Quem quiser saber como foi a saga da publicação de Jayne Mastodonte, pode ler a entrevista que fiz com o cara lá mesmo no site, que a publicou há um ou dois anos atrás. Flávio ainda concorre no Troféu HQ Mix como melhor desenhista pelo álbum O Messias (roteirizado por Gonçalo Júnior) e de novo como Melhor Publicação Independente com Jayne M. O resultado sai em julho. Fica aqui a torcida do Rock Loco para que essa boa fase se confirme com mais esses prêmios para Flavinho.

quarta-feira, junho 20, 2007

ORELHADA VÉIA É QUE FAZ RESENHA BOA

Sintonia fina com o Radiohead

Direto do túnel do tempo (PQP, acabei de escrever "direto do túnel do tempo", alguém me estrangule!), mais uma banda bacana dos anos 90 que só agora vim a conhecer. O primeiro disco da banda inglesa Six By Seven é um belo cartão postal daqueles anos que parecem ainda não ter acabado - pelo menos para mim. Com um som de difícil classificação, nas dez faixas do CD pode-se ouvir ecos de Pink Floyd a Jesus and Mary Chain, passando pelo som da mítica Madchester (na descabelada faixa Candlelight, uma das melhores do disco). Pelo climão austero e semi-experimental da maior parte do álbum, parece que eles estavam mais ou menos na mesma sintonia do Radiohead naquela época. O disco saiu um ano depois de OK Computer, em 1998, e compartilha com este último uma certa estranheza de mundo, um ensimesmamento (ops!) que se encontra bem expresso na letra de Spy Song, um inusitado looping de guitarra e sax que chega a deixar tonto o ouvinte: "Everything's a cheap laugh, no fun drinkless, drugless, happy emptiness". É o bom e velho mal-estar da modernidade produzindo ruídos que tocam o ouvinte em lugares que ele nem imaginou que existissem (hum, hum...). Outros destaques de The Things We Make são a indie até o osso For You, de refrão contagiante, e a pinkfloydiana 88-92-96, em que a voz de Chris Olley emula Roger Waters de forma impressionante. Um disco embriagante, capaz de te deixar chapado no sofá - mesmo de cara.

The Things We Make
Six By Seven
Mantra Recordings / Roadrunner Records

Direto das ondas do rádio
A capa é feia pra caralho, lembra aqueles piratas italianos que inundaram as lojas de discos (no tempo em que isso ainda existia) uns dez anos atrás, quando o dólar equiparado ao Real trouxe uma cacetada de CD importado ao Brasil. Mas o som é honesto e fiel como um bom cachorro de estimação (o hard rock é o cachorro fonográfico?). São doze faixas com a fodástica Earl Slick Band, gravadas ao vivo no estúdio de uma rádio de Rochester, Nova Iorque. O que ouvimos no CD é exatamente o que os ouvintes da rádia ouviram no radinho de pilha ou do carro naquele distante ano de 1976. Não espere nada de novo aqui: é só o bom e velho rock 'n' roll na veia, via hard rock setentista e executado com extrema precisão - à beira do virtuosismo. O velho Slick, que tocou com David Bowie na fase Diamond Dogs, era um daqueles prodígios como não se fazem mais, capazes de cantar como um rouxinol (sua voz lembra a de Peter Frampton, aliás), ao mesmo tempo que esmerilha riffs faiscantes de sua guitarra. Com uma banda entrosadíssima segurando a onda por trás (lá dele), o CD é um lindo registro de como se faz rock 'n roll a la old school: sem afetação, sem conceitos cabeça, sem tiração de onda, mas com muita garra e o coração subindo pela boca. A crueza da gravação, que o encarte garante ser livre de quaisquer remixagens ou overdubs, só a torna ainda mais preciosa. Ponto para a nacional Sum Records, que lançou esse inusitado CD por aqui. Destaques: Dead Man's Ransom, Boom Boom (versão matadora do velho Hooker) e PJ Proby (bela homenagem ao cantor pop inglês dos anos 60).

Live ‘76
The Earl Slick Band
Metal Blade Records / Sum Records

terça-feira, junho 12, 2007

O ANSIADO RETORNO DAS ORELHADAS

O céu que nos protege

O disco novo da cultuada banda Wilco pinta uma paisagem desértica em tons suaves, confortáveis. De uma sonoridade que beira o entorpecente, porém, Sky Blue Sky (como deve ser o céu do deserto, aliás) pode não impressionar o ouvinte à primeira vista. Não há aquela faixa que salta aos ouvidos, candidata a hit single. Seu forte é a sutileza e a guitarra de Nels Cline, que costura círculos folk psicodélicos (mandalas?) ao longo de todo o álbum. Jeff Tweedy parece ter deixado para trás as pretensões de ser o Radiohead do alt.country (subgênero que ele mesmo foi um dos artífices) demonstradas no soberbo Yankee Hotel Foxtrot (2001) e criou com sua banda um álbum de sonoridade mais ortodoxa, mais desprovida de artifícios espetaculosos e mais orgânica. Não há samples, sintetizadores e ruídos estranhos em Sky Blue Sky. Não é, contudo, um álbum que grude nos ouvidos. O fã deverá se esforçar um pouco para curti-lo e "entende-lo" melhor. (O nosso honorável Reverendo Dom Cebola até disse por aqui, nos comments desse blog, que se trata de um disco que cresce com as seguidas audições - ou algo assim). Paradoxalmente, o band leader declarou à Rolling Stone deste mês (Darth Vader na capa) que "é mais fácil nos escutar agora. Há menos estática”. Será?

Sky Blue Sky
Wilco
Nonesuch / Warner

O Trinity Sessions dos anos 90

O Buffalo Tom foi uma daquelas bandas que se beneficiaram do caminho aberto para as gravadoras após a explosão do rock alternativo americano pós-Nirvana, mas nunca - pelo menos aqui no Brasil - desfrutaram de grande popularidade. Uma notinha na Bizz aqui, outra menção na Dynamite ali e pronto. A única coisa que consegui ouvir desta banda naqueles tempos de transição entre a chegada e a posterior dominação mundial da internet foi uma faixa na fantástica coletânea No Alternative - que era legal e só, não me causou uma grande impressão. Mais recentemente, adquiri de segunda mão em plena Feira Hype (recomendo!), na mão de Zezão, o Sleepy Eyed, álbum de 1996 que foi lançado no Brasil naquela mesma época pela extinta Paradoxx Music / Sum Records. Agradabilíssima surpresa, o tal do disco quase não saiu do meu CD player (é, eu ouço CD no CD player, dá para ser mais careta do que isso?) desde então. Visceral até o osso, o disco é grunge que dói. Mas não o grunge deprê de Seattle, e sim, o rock alternativo sujo do leste americano, de quem cresceu ouvindo muito Hüsker Dü e Led Zeppelin ao mesmo tempo. Nas fotos do encarte, a banda aparece gravando no que parece ser um estúdio improvisado dentro de uma capela (as janelas em arco e com vitrais não deixam dúvidas) e em condições diversas, captando ao máximo a ambientação do local (mais ou menos como o clássico Trinity Sessions [1986] dos Cowboys Junkies). O resultado da feitiçaria de estúdio é um álbum vigoroso, cantado e tocado no limite da emoção, recheado de músicas que não perderam em nada o seu frescor, mesmo passados 10 anos de lançado. Confira (tente baixar por aí) faixas como Tangerine, Summer, Rules e When you discover. O vocal pungente de Tom Maginnis é um show à parte. Um disco tão puro e sincero é um bálsamo em tempos tão cínicos.

Sleepy Eyed
Buffalo Tom
Beggars Banquet / Paradoxx Music

sexta-feira, maio 25, 2007

O HULK DE BARBATANA NA CABEÇA VOLTOU

Savage Dragon, a melhor revista da primeira geração da Image Comics, volta às bancas brasileiras em edição especial de origem

Fãs de Todd McFarlane, Jim Lee, Rob Liefeld e Marc Silvestri (acho que não tem nenhum fã do Jim Valentino, aí, né?) que me perdoem, mas da primeira geração de revistas lançadas pela Image Comics em seus primórdios, a Savage Dragon de Erik Larsen, era, tranqüilamente, a melhor de todas.

Enquanto essa cambada aí só se preocupava com o setor de marketing (leia-se capas alternativas, splash pages, crossovers, spin-offs e action figures a granel), Larsen se esmerava em criar histórias de ação e super-heróis de tirar o fôlego. Havia splash pages sensacionais? Por Deus, e como! Havia papel especial, cores berrantes, mulheres gostosas em trajes mínimos e quebra-paus apocalípticos entre seres superpoderosos? Sim, e muito. E ainda havia tramas bem elaboradas, traições, conspirações, reviravoltas, surpresas e - Aleluia, Senhor! - vida inteligente e personagens sólidos! Numa revista da Image!

Enquanto Spawn se arrastava sem sair do lugar em um novelão monótono, os WildCATS e o Gen13 exibiam os corpinhos sarados em banhos de sol e os grupos de Silvestri e Liefeld (sequer lembro seus nomes) competiam para ver quem imitava mais os X-Men, Dragon, o policial mais durão de Chicago suava a camisa desbaratando gangues de supervilões, aplicando e tomando surras homéricas e ainda sobrava tempo para dar um trato nas moças.

(Justiça seja feita, os WildCATS depois tiveram uma fase sensacional nas mãos milagrosas de Alan Moore - publicada agora pela Pixel Media -, que depois ainda pegou o Supremo de Rob Liefeld. Outro grupo menor, o Stormwatch, teve uma bela sobrevida graças a Warren Ellis, que acabou remodelando-o para se tornar o fodástico Authority).

Uma coisa, porém, sempre intrigou os fãs do Dragon: qual era, afinal de contas, a sua origem? Tudo o que se sabia sobre aquele Hulk de barbatana na cabeça era que, um belo dia, ele surgiu, pelado e desacordado (olha que de bêbado não tem dono), no meio de um terreno baldio em chamas. Como Larsen não é muito chegado em blá blá, blá, o ritmo vertiginoso de ação do título acabou distraindo os fãs, que leram durante anos as aventuras do herói sem questionar muito o seu passado nebuloso - e até mesmo curtindo o clima de mistério quanto à sua origem.

Esta só veio à tona nesta edição especial, lançada em fevereiro último no Brasil pela HQ Maniacs Editora.

Narrada nas sucintas e regulamentares 24 páginas de um comic book sem capa dura ou variantes, apliques fosforescentes ou qualquer outra frescura - como convém ao autor - a origem do Savage Dragon pega o leitor de calças curtas ao criar um ponto de partida bem inesperado para o personagem.

Alienígena já dava para sacar que ele era - afinal, o homem é verde! - mas ditador crudelíssimo de um povo em busca de um planeta para colonizar, ninguém previu.

Com sua estupenda arte híbrida de Jack Kirby, Frank Miller e Walt Simonson (suas famosas onomatopéias estão presentes nas páginas de SD desde o início), só para ficar nos mais óbvios, Erik Larsen mais uma vez, manda muitíssimo bem e nos brinda com uma história curta, caceteira e divertida - ainda que chocante em certos trechos.

Não chega a matar a saudade dos leitores que acompanharam sua extinta revista pela Editora Abril nos anos 90, pois o Dragon que vemos aqui, definitivamente, não é o policial durão mas boa-praça que nos acostumamos a gostar e sim, um FDP virado no cão, sanguinário que só ele. Para dar uma idéia, o sujeito é incapaz de transar com uma mulher sem desmembra-la em vários pedaços.

Mas mata a saudade dos leitores do estilo ágil, bombástico e desprovido de firulas de Erik Larsen. Fica a torcida para que a editora continue com o Dragon e lance novas histórias - de preferência, inéditas - por aqui.

Quem mora em Salvador já pode procurar nas bancas, que chegou essa semana, mesmo.
Savage Dragon Especial
Image Comics / HQ Maniacs Editora
R$ 5,90 – Edição Especial
Formato Americano - 28 páginas
Como tudo aconteceu
Roteiro: Erik Larsen
Arte: Erik Larsen
Cores: Reuben Rude e Abel Mouton

segunda-feira, maio 14, 2007

ORELHADAS 2

Resenhas de lançamentos mais ou menos recentes, baixados diretamente do servidor Bramis-Torrent. Dois hoje, dois no próximo post e assim por diante. (A menos que surja alguma notícia urgente na Central de Jornalismo da Rock Loco Corporation).

Profetas do Apocalipse

O clima de concerto na capela continua para o Arcade Fire em Neon Bible. Também, com tantos órgãos de igreja, cordas, coros e acordeons, fica difícil não fazer a associação com uma congregação de domingo. Isso, mesmo para quem não entende inglês, já que as letras seguem investigando os recônditos sombrios da alma humana nestes tempos de retorno à barbárie, ignorância e fundamentalismo religioso, algo já bem próximo ao catolicismo brasileiro, vide o blá blá blá medieval de Bento XVI em sua passagem pelo Brasil - um país em transe profundo por quatro dias, paralisado pela mera visita de um sujeito que usa saias. (Tudo culpa da imprensa, mas aí eu já me desviei demais do assunto em questão). O que difere o Arcade Fire do discurso puramente religioso é que a fé de Win Butler, Regine Chassagne e cia na humanidade (e em sua redenção) parece já ter se esgotado; o que lhes resta é, como profetas do apocalipse que são, é anunciar e esperar pelo dia de se abrigar das bombas e gases tóxicos. Do jeito que vão as coisas, não é de se estranhar que uma banda com uma proposta tão singular seja uma das mais aclamadas pelos críticos. A veneranda Ana Maria Bahiana, em artigo assinado na última Bizz (Tarantino na capa), já se assumiu plenamente convertida. Seu fervor foi tamanho, que, qual um John Belushi de saias (em The Blues Brothers), o deixou aos pulos pela sala, como se possuída pelo próprio Espírito Santo. Conversões à parte, não há dúvidas de que se trata de uma obra à altura - talvez até melhor que sua antecessora. Na verdade, é cedo para dizer. O que é certo é que faixas como Keep the Car Running (Talking Heads no confessionário), Black Waves / Bad Vibrations (divino dueto do casal líder), Antichrist Television Blues (Bruce Springsteen fase Nebraska no púlpito) e No Cars Go (que já tinha aparecido do EP de estréia da banda, épica e carregada de enlevo espiritual) são alguns pontos altos de um álbum que parece estar sempre a pelo menos um metro do chão. Assim fica mais fácil de nos ajoelharmos em adoração.

Neon Bible
Arcade Fire
Slag


O Punk blues da diva exótica

Em homenagem ao grande radialista britânico John Peel, falecido em2004, P.J. Harvey lançou seu CD de Peel Sessions, um título que invariavelmente prenuncia belas performances gravadas ao vivo nos estúdios da BBC, apresentando grandes bandas. As "Sessões Peel" da exótica Polly Jean mantêm a tradição e valem este puta disco de rock na veia, totalmente desprovido de firulas. É tudo muito simples e intenso: baixo, guitarra e bateria em fúria, acompanhando o proverbial vozeirão da cantora em estado de graça. Tem gente que vai chiar, mas na minha humilde opinião, isso aqui é o que de mais próximo existe do que seria o blues urbano contemporâneo, se o estilo nascido nas plantações de algodão do sul dos EUA não fosse tão preso aos seus próprios dogmas e chavões. O clássico Wang Dang Doodle, do pai Willie Dixon não está aqui (em versão arrasadora) de graça. Naked Cousin (fantástica), Victory e Water são lamentos furiosos nascidos no asfalto e não me deixam mentir. Mais para o fim do CD, de That was my Veil (de John Parish, com quem ela lançou um álbum em parceria anos atrás, e é quase um spiritual) em diante, violões aparecem, suavizando um pouco a bagaceira que veio antes. Mas o estrago já foi feito. John Peel sorri do outro lado.

The Peel Sessions 1991-2004
P.J. Harvey
Universal

quinta-feira, maio 10, 2007

Rockloquistas do meu Brasil,

Após os três últimos (agitados) meses em que cobri férias no periódico da Avenida Tancredo Neves (período durante o qual alimentei o Rock Loco com as matérias ali produzidas e que julguei adequadas para o blog), precisei me ausentar por alguns dias deste vigoroso órgão da imprensa nanica para assentar minhas idéias, traçar planos e clarear a mente.

E procurar emprego também, claro.

É com a cara mais limpa do mundo, porém, que comunico aos leitores do blog que ainda não obtive êxito em qualquer uma destas tarefas.

Sagitariano insuportável que sou, contudo, ainda não desisti - de nada - e espero que já nos próximos dias, eu volte a este espaço cheio de amor para dar, sempre com algum texto produzido exclusivamente para o Rock Loco - ou não.

Vou ali e já volto. Não demoro.

segunda-feira, abril 30, 2007

ARREGAÇANDO AS MANGAS + DROPS JETHRO TULL EM SP

The Honkers lançam primeiro CD, viajam à São Paulo e fazem show no Teatro Sitorne no dia 13 próximo com pernambucanos da Vamoz!

Joseph Goebbels, o marketeiro de Hitler, disse que, toda vez que ouvia falar em cultura, sacava logo sua arma. Anos depois, um conterrâneo lá dele, o brilhante cineasta Fritz Lang, rebateu a frase em um filme de Jean-Luc Godard, dizendo que, em vez da arma, sacava a carteira.

Aqui na Bahia, onde cultura e turismo se confundiram em uma única coisa amorfa, sorridente e inócua, a recomendação é sacar do bom senso e buscar, fora dos viciados esquemões manchados de dendê, o que há de interessante para alimentar cabeças mais arejadas e menos bitoladas nas coisas da terra.

Nos subterrâneos da capital baiana, formiguinhas dedicadas trabalham dia e noite (mais à noite) animando suas próprias festas, criando sua própria cena cultural, administrando suas próprias carreiras – sempre de forma independente e sem pedir licença, nem bênção, nem homenageando à quem quer que seja.

Ninguém ganha dinheiro com isso - pelo contrário, costuma-se perder - mas pelo menos, o pessoal se diverte adoidado. E nesse quesito - diversão - poucas bandas se equiparam aos fabulosos The Honkers.

Idealizada em 1997, fez seu primeiro show somente no ano 2000. De lá para cá, a banda lançou dois EPs, participou de coletâneas, rodou o Brasil e a Argentina fazendo shows e apareceu de cuecas na TV, durante um polêmico show no Festival de Verão de 2006.

Na verdade, foi só o vocalista Rodrigo Sputter Chagas que ficou de cueca, mas da destruição que se seguiu no palco, todos da banda participaram, cheios de amor para dar.

Agora eles estão de volta à estrada, finalmente lançando seu primeiro CD cheio, Roll Up Your Sleeves and Help Us Rock Up This Honker World. Em bom português, "Arregace as mangas e ajude-nos a balançar este mundo Honker".

São treze faixas, sendo as sete primeiras inéditas e gravadas ao vivo no estúdio. O restante saiu no EP Between The Devil And The Deep Blue Sea (2004, esgotado), com exceção de This is an Old World, lançada em single.

"O objetivo é de ser uma demo, mesmo. Foi tudo ao vivo no estúdio, senão perde o punch. Nosso som não precisa de maquiagem", dispara o guitarrista Felipe Brust, demarcando território.

Para lançar o CD, os rapazes viajaram na semana passada à São Paulo, onde cumpriram uma apertada agenda de quatro shows em três dias.

O primeiro foi quinta-feira na casa Funhouse. Na sexta, a banda foi à Campinas, onde tocou no Bar do Zé. No sábado, sessão dupla em São Paulo. De tarde eles animaram um pocket-show no Radio Clash, uma loja de discos na Galeria do Rock, e, à noite, quebraram tudo no Inferno Club, com os paraibanos da Zefirina Bomba e o DJ / produtor baiano Rogério Big Brother.

"E todos os shows com repertórios diferentes!", garantiu um post recente no fotolog oficial da banda (www.fotolog.com/thehonkers).

Em Salvador, o show de lançamento será no próximo dia 13 de maio, no Teatro Sitorne (Rio Vermelho), com participação da ótima banda indie pernambucana Vamoz!, que também estará lançando CD e DVD ao vivo.

Na mesma ocasião ainda será exibido em primeira mão o clipe da faixa People Love Hate, dirigido pelo premiado Alexandre Xanxa Guena.

Ainda esse ano, os meninos maluquinhos dos Honkers pretendem iniciar um projeto inédito no mercado fonográfico: gravar e lançar, simultaneamente, 5 CDs diferentes.

Repertório para isso eles já têm. Consta que Rodrigo Sputter, o vocalista desbandeirado que curte um semi-strip-tease no palco e é um leitor voraz de autores beatniks e marginais em geral, teria umas 300 letras rabiscadas e engavetadas.

"Tem um disco que é só de música bem pop e baladas. Um mais porradeiro, punk. O terceiro é no meio termo. O quarto é só de covers e o quinto, com músicas em português", descreve o baterista Dimmy O Demolidor Drummer.

Se esse é um projeto certamente impraticável para bandas estabelecidas nas majors e de vendagem garantida, que dirá para um grupo de garagem independente - e pior: oriundo da maldita e malquista cena rock soteropolitana.

Não à toa, o projeto custa a sair do papel, se arrastando há anos. "Esse projeto dos 5 discos surgiu em 2004, mas de lá pra cá a gente teve que repensar. A indústria, a conjuntura toda mudou muito. Mas de qualquer jeito, vamos entrar em estúdio para registrar todas as músicas do projeto original. Aí então é que vamos estudar a melhor maneira de implementá-lo", garante Brust.

Enquanto os cinco discos não vêm, o negócio é curtir o CD da hora. E que CD. Curto e grosso, percorrem-se suas treze faixas sem qualquer esforço.

É rock de garagem na veia, com suíngue e levadas para entortar o cangote de qualquer cristão, com muitas influências de Chuck Berry, rockabilly, garageiros dos anos 60 e 70, punk e até mesmo indie rock contemporâneo, como na citada This is an Old World, que parece ter sido surrupiada de alguma sobra de estúdio dos Strokes.

Os momentos mais dançantes ficam com She'll be my Little One, Devil Girl e Distorced Party (surf music de primeira). É música para se descabelar na pista de dança.

Let me Feel the Sun namora com o garage psicodélico dos anos 60, Where Do I Go é ska na linha The Specials e Between the Devil and the Deep Blue Sea é uma balada indie para casais de todas as idades dançarem juntinho.

Um belo disco e mais um golaço do rock baiano - cada dia melhor, apesar dos mil e um percalços e dificuldades.

The Honkers:
Rodigo Sputter Chagas: vocal
Felipe Brust: guitarra
Bruno Pizza Carvalho: guitarra
T612: baixo
Dimmy O Demolidor Drummer: bateria

Roll Up Your Sleeves And Help Us Rock Up This Honker World

The Honkers
2007
aTalho discos
R$ 15,00
http://www.myspace.com/thehonkers

Matéria publicada na capa (!) do Caderno 2 do jornal A Tarde de 29 de abril de 2007. Texto sem a edição do jornal, como pode atestar o enorme e inútil nariz-de-cera antes do lead.


DROPS FROM SÃO PAULO: JETHRO TULL
por Osvaldo Braminha Silveira

classe maxima o show do jethro tull ontem.com um credicard hall lotado, a ponto de neste domingo ter sido programado um show extra, ian anderson, junto com o extraordinaire martin barre, botaram pra fuder, mostrando que rock não é so atitude, é tambem musica de altissimo nivel,com virtuosismo em doses certas. da atual banda, destaque para a belissima e talentossisima violinista sino-americana anne marie calhoun. classicos tocados em novos arranjos, num show eletro-acustico, no volume certo, numa verdadeira explosão de musicalidade e emoção quando classicos como thick as a brick, sweet dreams e o encore locomotive breath foram tocados. anderson não toca mais de uma perna só, e a voz esta mais fraca, mas a a classe da banda e das composições transformam o show num evento memoravel. na plateia, muita gente mais velha, mas muita, muita garotada, mostarndo que o som do tull atravessou gerações mesmo. rock geriatrico? pode ser, mas bandas com o jethro tull ajudaram a transformar o genero em arte, e a arte é eterna.

sexta-feira, abril 27, 2007

VISÍVEL COMPETÊNCIA

Aos 25 anos de carreira, o Ira! lança o CD de inéditas Invisível DJ, dribla produtor suspeito e mantém credibilidade

Detratores e céticos vão ter que engolir, mas a verdade é que o Ira! conseguiu, mesmo tendo seu novo disco produzido por um dos homens mais suspeitos do mercado fonográfico brasileiro - Rick Bonadio - parir uma obra à altura do seu legado.

Bonadio, para quem não sabe, é o homem do selo Arsenal Music (filiado à Universal) e um produtor franco-atirador que lançou, além de algumas das piores bandas da história recente do rock brasileiro, como CPM 22, NX Zero e Hateen, armações como os grupinhos Rouge e Bros.

Daí o temor de que Invisível DJ, o novo CD do Ira! pelo Arsenal, descambasse para um lado excessivamente comercial.

Venceu o bom senso artístico da banda, contudo. Invisível DJ pode ainda estar longe do vigor criativo dos melhores álbuns do grupo, como Vivendo e Não Aprendendo (1986) e Psicoacústica (1988), mas, apesar de um ou outro deslize, o disco flui bonito e equilibrado, alternando os rocks mais agitados, típicos de sua produção, com algumas baladas "para tocar no rádio".

E são apenas nesses "momentos-balada" que o CD desnuda suas fragilidades. A começar pela discutível faixa de trabalho, Eu Vou Tentar, de Rodrigo Koala.

Considerado o novo hitmaker do rock brasileiro, Koala é o líder do Hateen e tem alguns sucessos gravados pelo CPM 22, como Um Minuto para o Fim do Mundo e Irreversível. Ele é o garoto de ouro de Bonadio.

Eu Vou Tentar, já devidamente lançada nas rádios e transformada em clipe pelo parceiro / fã Selton Melo, é, com o perdão do trocadilho, melosa de doer. Arrastada e com uma letra para lá de brega, é indigna de quem criou pequenas pérolas românticas como Flores em Você e Tarde Vazia.

"Essa faixa foi uma sugestão dele (Bonadio), mesmo. Mas na hora em que a ouvimos, percebemos que era possível transformá-la em uma música do Ira!", garante o guitarrista Edgard Scandurra em entrevista ao jornal A TARDE por telefone.

Segundo Scandurra, a relação com o polêmico produtor foi equilibrada. O fato de o Ira! ser uma banda com 25 anos de estrada contribuiu para que o parceiro não interferisse demais no processo todo.

"Conhecemos tanto o lado para o bem quanto o lado, digamos, para o mal do Bonadio. Tivemos liberdade total no estúdio e ficamos muito à vontade. Pô, temos 25 anos de banda, e ele acabou se revelando um admirador do nosso trabalho. O lado para o mal é que ele tem uma disciplina muito grande e cobra muito das pessoas que trabalham com ele. O disco foi 60% composto no estúdio, o que o deixou meio inseguro às vezes. Então ele vinha e nos mostrava trabalhos de outros caras, mas depois relaxou e conseguimos falar a mesma língua", descreve Edgard.

Foi aí, "mostrando o trabalho de outros caras", que surgiu a baladinha do Koala. "Ela [a música] veio atender às expectativas das rádios e do grande público. O Ira! é uma banda de rock, na qual as rádios, desde os anos 80, buscam o lado pop. Procuramos manter essa atitude rock, por que a intenção [das gravadoras] sempre foi transformar o Ira! numa banda pop, desde o nosso primeiro disco", explica o guitarrista.

O segredo do êxito artístico de Invisível DJ reside no equilíbrio que os integrantes da banda, macacos velhos, conseguiram impor no estúdio, superando as pressões do produtor. O disco exibe uma saudável convivência entre o som do velho Ira! e sonoridades mais contemporâneas.

"Eu credito esse equilíbrio a dois fatores: nossa maturidade como banda e ao mesmo tempo, uma disposição em continuar antenado, em trocar figurinhas com o pessoal das bandas mais novas. Temos um vasto repertório de influências e sonoridades de que lançamos mão, desde o som mod que é nossa origem, até o rock clássico, passando pelo pós-punk, o folk e o rock atual. Então tudo isso acabou por dar essa cara mais contemporânea ao CD", explica Scandurra.

E quem via Rick Bonadio como o bicho-papão do rock acabou por se surpreender: "Ele tem uma visão mercadológica, claro, mas também é capaz de ter uma visão artística, de conseguir produzir um CD como o do Ira! e deixar o som rolar, sem muita interferência", defende o guitarrista.

Quanto à turnê de lançamento, os fãs baianos terão chance de curtir o novo repertório ao vivo no 2º semestre. "Começamos em maio por São Paulo, depois vamos pro interior, e aí então tocaremos pelo Brasil todo. Nosso empresário está olhando para o Nordeste com muito carinho e no segundo semestre estaremos aí em Salvador", garante Edgard.

RESENHA INVISÍVEL DJ:
No Invisível DJ, diversas faixas representam uma visível evolução ao que o Ira! vinha fazendo desde o fraco Entre Seus Rins, último disco de estúdio, lançado em 2001.

A faixa-título resume bem o feito: riff marcante, levada contagiante, letra com a costumeira temática urbana, refrão grudento e as vozes de Nasi e Scandurra docemente entrelaçadas na mixagem. É o bom e velho Ira!, sem dúvida.

Sem Saber Para Onde Ir segue mantendo o CD em alta. É uma faixa-coringa: pode tanto se dar bem nas rádios quanto cair no gosto dos fãs mais exigentes - coisa que não é qualquer banda de meninos que consegue fazer.

A próxima faixa é a famigerada Eu Vou Tentar. Pula, pula. Mariana foi pro Mar, a faixa seguinte, é outro destaque do CD: conduzida por violão vigoroso, a música é um delicioso folk rock de letra sensível sobre uma menina que joga tudo pro alto e vai morar à beira-mar.

O disco segue, e Não Basta o Perdão lembra os bons tempos de Vivendo e Não Aprendendo. Culto de Amor vem em seguida. De Edgard e sua ex-esposa, Taciana Barros (ex-Gang 90), a faixa já havia aparecido em Amigos Invisíveis (1989), o primeiro disco-solo de Scandurra. Regravada, a baladinha não ficou nada mal.

Feito Gente é cover de Walter Franco e mantém o bom nível. Apesar do arranjo interessante, com piano e guitarras étereas, o mesmo não pode ser dito de Tudo de Mim, parceria do baixista Ricardo Gaspa e Scandurra. No Universo dos Seus Olhos é outro bom momento do CD, com levada bluesy à la Led Zeppelin.

A Saga retorna ao som mod do Ira! dos primórdios e chega a lembrar Pobres Paulistas (mas sem a suposta e exaustivamente negada xenofobia da faixa mais antiga). O Candidato não chega a convencer, mas também não compromete. A última faixa, La Luna Llena, é um experimento bem-sucedido em criar um som folk latino, com destaque para a ótima interpretação de Nasi.

Saldo final: não é o CD mais brilhante do Ira!, mas também não faz feio ao lado dos seus melhores trabalhos.

Matéria publicada no Caderno 2 do jornal A Tarde de 26 de abril de 2007. Texto sem a edição do jornal.

quarta-feira, abril 25, 2007

MICRO RESENHAS ESPECIAL LIVROS

Romeu & Julieta dos infernos
Galilee
Clive Barker
Bertrand Brasil
714 págs R$ 79
www.clivebarker.com

O inglês Clive Barker surgiu nos anos 80 como uma versão britânica, mais sanguinária e perversa de Stephen King. Após várias obras de sucesso como os filmes das séries Hellraiser e Candyman, quadrinhos e livros como O Jogo da Perdição, Os Livros de Sangue e O Desfiladeiro do Medo, chega ao Brasil seu livro mais recente, Galilee. Em linhas gerais, trata-se de uma versão macabra de Romeu & Julieta. Dois jovens de famílias riquíssimas, poderosas e com ligações com o sobrenatural se apaixonam. Esse amor proibido levará ao acirramento da rivalidade entre famílias e aí tome-lhe violência, escatologia, horror e destruição. Típico Barker: longo e escroto.

Vikings e índios em luta
Desbravadores
Laeta Kalogridis e Christopher Shy
Devir Livraria
152 págs R$ 42
www.devir.com.br

Desbravadores – Uma Saga Americana é uma HQ de fantasia épica baseada no filme de mesmo nome que estréia no Brasil no dia 27. 500 anos antes de Colombo, uma embarcação viking chega à América. O único sobrevivente da jornada pelo Atlântico foi um menino, que é encontrado por uma índia e adotado pela sua tribo. Anos depois, os vikings fazem nova investida para conquistar as terras do Novo Mundo, e o personagem principal, agora um jovem guerreiro, deverá fazer sua escolha entre defender o povo que o criou ou juntar-se aos bárbaros que tanto se parecem com ele mesmo. O filme de Marcus Nispel (que dirigiu o recente remake de O Massacre da Serra Elétrica) tem sido malhado sem dó nem piedade pela crítica, mas a HQ se salva pela belíssima arte pintada de Christopher Shy e o ritmo constante da narrativa. Boa opção de aventura jovem.

Lupa enfiada na lama
Afroplagicombinadoresciberdélicos: Afrociberdelia e plagicombinação nas letras de Chico Science e Nação Zumbi
José Henrique Freitas dos Santos
Quarteto Editora
R$ 20,00
www.cursoshumanidades.com.br

Fruto de alentada pesquisa, o livro Afroplagicombinadoresciberdélicos: Afrociberdelia e plagicombinação nas letras de Chico Science e Nação Zumbi, pode assustar o leitor não-acadêmico com seu título quilométrico. Contudo, apesar do jeitão de dissertação de mestrado (o que de fato, é), o texto de José Henrique Freitas dos Santos é plenamente acessível aos leitores minimamente letrados e interessados no tema em questão. No livro, o autor propõe que a música pop pode ser "um espaço estratégico para a formulação e difusão de conceitos para se pensar, hoje, a questão étnica no Brasil, uma vez que atinge um público jovem bastante amplo". Partindo de conceitos emprestados do próprio Chico Science (a afrociberdelia) e de Tom Zé (a estética da plagicombinação, lançada pelo compositor baiano no CD Com Defeito de Fabricação), José Henrique faz um passeio no novo mundo proposto pelos homens-caranguejo de Recife, analisando a cena manguebeat dos anos 90, radiografando não apenas os músicos e bandas, mas também as outras manifestações surgidas naquele momento, incluindo cinema, jornalismo, quadrinhos, moda e tecnologia. Um trabalho de fôlego que merece ser conhecido. Em Salvador, o livro pode adquirido apenas na Quarteto Editora (Av. ACM, 3213, Ed. Golden Plaza, sala 702, tel.: 3452-0210) ou na Humanidades Centro de Estudos (Av. Manoel Dias da Silva, Ed. Esplanada Avenida, sala 204, tel.: 3248-4944).

Micro-resenhas publicadas no Caderno 2 do jornal A Tarde em datas variadas.

segunda-feira, abril 23, 2007

BAIANOS NO HQ MIX 2007

HQ - De leve, com oito indicações, baianos vão chegando no Troféu HQ Mix, maior prêmio dos quadrinhos brasileiros

Aos poucos, os quadrinistas e entusiastas baianos das HQs vão chegando lá, aparecendo e ocupando espaços, mesmo que o reconhecimento local seja algo próximo do zero.

Uma prova é a lista de indicados ao 19º Troféu HQMix, o mais respeitado da área de quadrinhos e cartum do Brasil. São nada menos que 8 (oito) indicações para baianos - entre desenhistas, roteiristas, álbuns e até mesmo livros teóricos, sites e jornalistas especializados.

Os líderes baianos em indicações à premiação são o desenhista e cartunista Flávio Luiz Nogueira e o jornalista e roteirista Gonçalo Júnior.

Flávio concorre para Melhor Desenhista Nacional, Melhor Edição Especial Nacional (com O Messias, dele de Gonçalo) e Melhor Publicação Independente (com Jayne Mastodonte).

Gonçalo, que divide a indicação com Flávio por O Messias, aparece com mais duas indicações: Melhor Roteirista (O Messias) e Melhor Livro Teórico (com Benício: Um perfil do mestre das pin-ups e cartazes de cinema).

Antônio Cedraz aparece com uma indicação, para Melhor Álbum Infantil, com A Turma do Xaxado: Lendas e mistérios. Não custa lembrar que os leitores de A TARDE têm o privilégio de poderem ler as tirinhas do Xaxado todos os dias aqui no Caderno 2.

O jornalista Marko Ajdaric (que apesar do nome, é baiano) concorre na indicação Jornalista Especializado no Segmento. Marko assina o site e newsletter Neorama dos Quadrinhos (www.neorama.com.br).

A última e talvez a mais surpreendente das indicações é na categoria Melhor Site de Quadrinhos, para o Nostalgia do Terror (www.nostalgiadoterror.com). Gerado a partir da distante Itiúba (380 km de Salvador), o site é uma bela homenagem ao gênero que o intitula (leia mais no box).

O prêmio é organizado desde 1988 pela ACB - Associação de Cartunistas do Brasil, fundada pelos profissionais Jal e Gualberto Costa, com apoio do IMAG - Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil, sediado em São Paulo.

As votações, restritas aos 1,2 mil membros cadastrados pela ACB, ocorrem durante todo este mês de abril, com auditoria do advogado Edwin de Brito, do Tribunal de Ética da OAB-SP.

A entrega do troféu aos premiados será no dia 11 de julho, no SESC Pompéia, em São Paulo, com apresentação de Serginho Groisman, do programa Altas Horas.

Entre os dias 10 e 20, haverá ainda uma série de palestras e debates com profissionais e jornalistas sobre o mercado de HQs no Brasil.

Como em todas as edições do HQ Mix, o troféu homenageia algum personagem dos quadrinhos nacionais. Este ano, o homenageado é o Cactus Kid, personagem do desenhista Renato Canini, que gozou de certa popularidade nos anos 70.

Para saber mais informações e conhecer todos os indicados ao Troféu, é só acessar o site www.hqmix.com.br.

FLÁVIO MULTIFACETADO - As três indicações (uma delas em parceria com Gonçalo Júnior) para o desenhista Flávio Luiz são um reflexo do alcance do trabalho deste soteropolitano irrequieto.

Sempre jovial, Flávio ainda concorre indiretamente na categoria Exposição, com Eu... Camisa 10, que rolou no SESC Interlagos em São Paulo, na época da Copa da Alemanha e teve dois trabalhos seus.

"Essa indicação para Desenhista é uma vitória da minha perseverança em querer ser respeitado como cartunista, apesar do desinteresse completo que sofremos por aqui. Fico muito feliz, independentemente de ganhar algum prêmio, pois a concorrência é forte", disse Flávio.

Ele tem razão. Somente na categoria Desenhista Nacional, Flávio encara pesos pesados de HQ brazuca, como Ivan Reis (que desenha Superman para a DC Comics), Lourenço Mutarelli (com o álbum Caixa de Areia) e os gêmeos - cada dia mais internacionais - Fábio Moon & Gabriel Bá (com o álbum Mesa para dois).

Isso, somente para citar os mais cotados, pois os outros concorrentes, Fido Nesti (Os Lusíadas em Quadrinhos) e Samuel Casal (Domínio Público), também apresentaram trabalhos de alto nível. É um páreo duro.

De qualquer forma, somente ser indicado em três categorias já tem um gostinho de vitória para Flávio. Especialmente a indicação à difícil categoria de Desenhista, que vem chamar atenção para a qualidade multifacetada de seu trabalho, que passeia do cartum cômico (como em Jayne Mastodonte), aos quadrinhos adultos (como em O Messias), passando pela charge, tiras, caricatura e trabalhos publicitários.

"Agradeço ao Gonçalo por apostar na parceria e à Lica e Marina (mulher e filha) pelo amor e paciência comigo", conclui.

SITE DE ITIÚBA É UM DOS MELHORES DO BRASIL

E quem diria: o interior da Bahia abriga o melhor site especializado em quadrinhos de terror do Brasil.

No Nostalgia do Terror (http://www.nostalgiadoterror.com/), fãs do gênero têm um vasto conteúdo de atrações para explorar a vontade, como galerias de capas com coleções inteiras de revistas clássicas dos anos 70 e 80, como Krypta, Capitão Mistério, Lobisomem, Drácula e Mestres de Terror - entre diversas outras que tiravam o sono da molecada - mais HQs escaneadas e em formato PDF, biografias, reportagens, galerias de imagens e contos.

Um verdadeiro baú onde está conservada a memória dos quadrinhos de terror no Brasil e um belo serviço em prol da HQ nacional.

O site é gerado a partir de Itiúba, a 380 km de Salvador e é editado pelo batalhador Ulisses Pinto de Azeredo e seu parceiro, conhecido apenas como Caveirinha Sombrio. "Apesar do cognome, ele existe", garante Ulisses, um soteropolitano ex-bancário e ex-gerente de loja de departamentos. Hoje ele é dono de uma pequena escola de informática na cidade.

O rapaz de 36 anos mantém o site com dinheiro do próprio bolso, pelo puro prazer de fazer algo relacionado aos quadrinhos. "Coloquei alguns anúncios do Google, mas só rende algo se clicarem, e até agora só rendeu R$1,95, acredite se quiser!".

Colecionador criterioso, Ulisses diz nem ter tantas revistas assim em sua coleção, "mas as que tenho são importantes para o cenário de HQ de terror em nosso país, pois muitas são antigas e viraram até preciosidades do gênero", conta.

Como seria de se esperar, Ulisses ainda é visto meio de esguelha pela população local, mas nos meios especializados em quadrinhos, porém, o Nostalgia do Terror já é comemorado como o melhor do seu gênero no Brasil. Sites como os conceituados Universo HQ e Blog dos Quadrinhos, veículo oficial do Portal UOL sobre o assunto, noticiaram a existência do site com entusiasmo e o recomendaram aos leitores.

E agora, até o conceituado Troféu HQ Mix, o mais importante do gênero no Brasil, reconheceu sua importância, indicando-o para concorrer na categoria Melhor Site de HQ. "É uma honra ser indicado a este prêmio, visto que é muito difícil obter incentivo no segmento, ainda mais radicado no interior. Não há espírito de colaboração, inclusive de certos profissionais... foi uma brincadeira que deu certo e com muitas madrugadas de trabalho...estou muito feliz com esta indicação!", disse Ulisses.

Não é para menos. No Nostalgia do Terror, mestres da arte seqüencial brasileira têm seu trabalho conservado e disponível para ser conferido pelas novas gerações. Monstros sagrados - alguns já falecidos - e carentes de reconhecimento popular como Jayme Cortez, Nico Rosso, Mozart Couto, Eugênio Colonnese, Antonino Homobono e Flávio Colin, entre muitos outros, têm alguns de seus melhores trabalhos ao alcance de um clique do mouse.

São diversas pin-ups, capas e histórias completas, escaneadas e prontas para ler no computador, com destaque para uma raridade dos quadrinhos nacionais: a HQ Garra Cinzenta, publicada entre 1937 e 1939 no periódico A Gazetinha. Escrita por Francisco Armond e desenhada por Renato Silva, a historinha é uma agradável mistura entre o terror e o (então nascente) gênero dos super-heróis.

E assim, Ulisses vai levando o site com seu próprio suor e dinheiro: "eu continuo aqui, firme e forte com o meu trabalho, que por muitos é valorizado. Tenho contatos em todo o país, através de artistas, editores e profissionais da área. De vez em quando, chegam até os convites para encontros sobre HQs", conta, orgulhoso - e com toda a razão.

Matéria publicada no Caderno 2 do jornal A Tarde de 21 de abril de 2007. Texto sem a edição do jornal.

sexta-feira, abril 20, 2007

NÃO&PROLIFERAÇÃO MANTÉM ACESA CHAMA PUNK ROCK

A Não&Proliferação, que faz punk '77 legítimo, toca amanhã

Como disse o poeta, as notícias sobre sua morte foram um tanto exageradas, pois o punk rock vive na periferia. A banda Não&Proliferação mantém viva a tradição do punk '77 em show amanhã, no Galpão das Artes no bairro do São Caetano, com participação da banda convidada Confusão, mais afeita à mistura de ritmos à Chico Science.

Para quem estranhou o nome, Não&Proliferação eram duas bandas diferentes, cada uma com uma metade do nome atual. A Proliferação surgiu no longínquo ano de 1984, em plena agitação da ascensão do Camisa de Vênus, fundada pelo artista plástico Eduardo Tadeu, um dos primeiros grafiteiros surgidos naquela época.

"Eu tocava na Revolta Suburbana, que era outra banda punk, e só entrei na Proliferação em 88. Como ela só tocava de caju em caju, criei outra banda, a Não, no início dos anos 90", conta Carlos Alberto, vocalista e guitarrista.

Eduardo Tadeu faleceu em 1996 e Dinho, baixista da Não (e também da Bosta Rala), também morreu pouco depois, durante uma infame batida policial na Gamboa de Baixo (Avenida Contorno), na qual faleceu ainda Morcego, que também era da Bosta.

Somente em 2005, após alguns shows esparsos, os remanescentes das duas bandas resolveram se juntar na Não&Proliferação. "A gente sempre teve essa vontade, mas não tinha muito tempo", conta Carlos, que é técnico em Eletro-eletrônica formado pelo SENAI e trabalha numa empresa que presta serviço para a fábrica da Ford.

Carlos, mais o baixista Henrique Simões e o baterista Dielson Portella gravaram então seu primeiro CD, Mordendo e Dando Coice, em apenas seis horas da sexta-feira de Carnaval de 2006 no Estúdio Clã, da Baixa do Bonfim. O disco apresenta 12 petardos punk cheios de contestação e ironia, na linha do Camisa dos primórdios, e poderá ser adquirido no local do show por apenas R$3.

No show de amanhã, o pessoal da N&P caprichou na produção, garantindo som de qualidade e um cenário composto por obras de artistas plásticos do bairro de São Caetano, como J.C. Barreto, Devarnier, Mendes e do falecido Eduardo Tadeu. Haverá ainda uma performance da artista plástica Vânia Lima.

Não&Proliferação e Confusão Show no Galpão das Artes (Rua Mário Lisboa Sampaio s/n, São Caetano, ao lado do Bompreço) R$ 3 e R$6 (com CD da Não&Proliferação) Sábado 16h

Matéria publicada no jornal A Tarde de 20 de abril de 2007. Texto sem a edição do jornal.

quarta-feira, abril 18, 2007

O RETORNO DO FILHO DA NOIVA DAS MICRO-RESENHAS

Mestres do soft rock ao vivo
DVD: In Concert
America
Warner
R$ 45,90
www.venturahighway.com

O grupo America, pioneiro do soft rock, voltou com tudo em 2006, quando lançaram Here and Now, álbum com músicas inéditas produzido pelo ex-Smahing Pumpkins James Iha e Adam Schlesinger, do Fountains of Wayne. A moral dos tiozões com a moçada do indie rock é tanta, que nomes como Ryan Adams e Ben Kweller também participaram do CD, que ainda conta com com covers do Nada Surf e My Morning Jacket. Neste DVD ao vivo gravado na Austrália também no ano passado, é possível conhecer as razões da adoração: belas canções folk rock, melodias vocais trabalhadas, clima estradeiro. Atenção para os hits A Horse With No Name (que muita gente confunde com Neil Young quando ouve pela primeira vez - inclusive eu), Ventura Highway e Sister Golden Hair.

Padrão hostilidade total
Are You Dead Yet?
Children of Bodom
Universal
R$ 30,50
www.cobhc.com
Os finlandeses do Children of Bodom (o nome é em homenagem ao mais famoso assassino serial daquelas terras geladas) chegam ao quinto álbum de estúdio com Are You Dead Yet?. Lançado lá fora em 2005, só agora chegou ao mercado em edição nacional - e sem a faixa-bônus Somebody Put Something in my Drink, dos Ramones. Não que o público-alvo dê a mínima. O que realmente importa já consta em altíssimo e bom som nas nove faixas do álbum: heavy metal escandinavo extremo, virtuosismo técnico, solos de guitarra executados à jato, bumbo duplo igualmente veloz, vocais guturais e sabor erudito nas melodias. Só para iniciados.

O primeiro manifesto ecológico
Livro: A Carta do Cacique Seattle
Escrito por Ted Perry, inspirado no discurso do Cacique Seattle
Versal Editores 80 págs. R$ 24,90 www.versal.com.br

"O grande chefe de Washington diz que quer comprar a nossa terra. Essa idéia é estranha para nós. Como é possível comprar ou vender o céu e o calor da terra? Se o ar fresco e o brilho das águas não nos pertencem, como podemos vendê-los"?

Se essas palavras não lhe soam estranhas, não se admire muito. Esse é o trecho inicial do famoso discurso do Cacique Seattle, chefe da tribo Suquamish, proferido em 1854 diante do governador do estado de Washington , quando este veio as terras dos índios no intuito de comprá-las.

Carregado da sabedoria natural das coisas da terra que só mesmo um índio poderia ter, o discurso é agora lançado no Brasil em uma primorosa edição ricamente ilustrada e em capa dura pela Versal Editores.

Na ocasião do discurso, o bravo Cacique, que já havia lutado em inúmeras batalhas pelo seu povo, sabia que recusar a oferta do presidente americano significaria, cedo ou tarde, o extermínio de seu povo.

Com o coração pesaroso, cedeu e retirou-se com sua gente para uma reserva indígena – mas não sem antes dizer umas verdades para o menino de recados de Washington.

E assim, nasceu o famoso discurso. Presente à ocasião estava o médico Henry Smith, que o verteu para o inglês a partir das anotações apressadas que fez ali na hora. 33 anos depois, em 1887, Smith publicou o discurso no jornal Seattle Sunday Star.

Mas foi somente quase um século depois, já na década de 1970, que o documento ganhou a dimensão de manifesto ecológico que lhe cabia.

Ted Perry, roteirista e diretor do Programa de Cinema e Cultura Midiática da Middlebury College, adaptou a versão de Smith e a distribuiu pelas faculdades americanas. Em plena era da efervescência hippie, o documento prontamente caiu no gosto da rapaziada, espalhando-se rapidamente pelo mundo.

Não é para menos. Em uma época em que a ameaça de auto-extermínio da humanidade é mais do que nunca real, vide o advento do aquecimento global, o texto adquire uma atualidade impressionante.

Valorizado pelo belo projeto gráfico e ilustrações de Luciana Gobbo, o discurso ganha ainda mais significado em trechos envolventes como este: "O destino é um mistério para nós. Não entendemos por que búfalos são mortos, cavalos selvagens são domesticados. (...) Onde está o bosque? Desapareceu. Onde está a águia? Foi embora. Sabem o que significa dizer adeus ao potro veloz e à caça? É o fim da vida e o começo da sobrevivência".

Micro-resenhas e matéria publicadas no jornal A Tarde em diversas datas que não lembro agora. Textos sem a edição do jornal.