sexta-feira, novembro 24, 2017

OCUPAÇÃO SONORA NO CENTRO

No Coro de Rua, Lívia Nery comanda dois domingos de muito som na Barroquinha, com grandes convidados locais e nacionais

Lívia Nery, foto Davi Caires
Enquanto muitos ainda esperam que a  revitalização do Centro Histórico se dê por obra e graça das instâncias governamentais e / ou de empresários, há quem entenda que, para começar, é preciso que o público abrace e ocupe o Centro, “forçando” a ação de governos e empresas.

A cantora Lívia Nery parece disposta a  fazer sua parte com a realização do evento Coro de Rua, neste domingo e no dia 10 próximo.

Viabilizado através do Edital Arte Todo Dia Ano III, da Fundação Gregório de Mattos, o evento trará, nos dois dias, Lívia comandando um pequeno grupo de artistas (locais e nacionais) em um palco armado na escadaria da Rua do Couro, ao lado do Teatro Gregório de Mattos, na Barroquinha.

O evento, inédito no espaço em que será realizado, surgiu após um show de Lívia ali mesmo, no TGM.

Ministereo Público Foto Rafael de Bellis
“Foi justamente após um show na Barroquinha  que minha produtora Tatiana Lírio (Noarr Produções) e eu pensamos em como essa escadaria funcionaria bem para um evento com sound system”, conta Lívia.

“Um lugar lindo, de uma história tão antiga quanto a história da nossa cidade. Então idealizamos este projeto para ocupar a rua, o centro antigo, de uma forma que lhe seja natural, ou seja, com um projeto ancorado na cultura de rua, com a música como elo”, diz.

A única outra constante, alem da anfitriã, é o sound system Ministereo Público, que fará a conexão com a cultura jamaicana que dá o mote da ocupação.

"Bem, a cultura sound system nasce na Jamaica, levando os sistemas de som para a rua, num contexto em que o povo não podia frequentar os clubes com música ao vivo. Desse cenário surge uma vertente musical em que o som exclusivo e original , e o improviso da rua passam a ser os protagonistas.  Aqui na Bahia a coisa se desenvolveu de um jeito que o som também ocupa a rua, com os trios elétricos, os sons dos carros nos fins de semana, os carrinhos de café, e a música percussiva, também usando a rua como lugar de "ensaio". Ambos lugares tem forte conexão com a rua e com a música, ambos são pólos de diáspora africana. São ramificações de uma matriz semelhante. Esse projeto é um agradecimento a todo esse legado tão importante pra todos e todas", detalha a cantora.

Ocupar e não desaparecer

Áurea Semiséria, Foto Tamires Allmeida
Neste domingo, primeiro dia do Coro, Livia recebe no palco a cantora baiana Danzi Love Jah, a pernambucana Karina Buhr e a paulista  Mis Ivy. Quinze dias depois é a vez dos rappers locais Aurea Semiséria, Vandal e do carioca BNegão.

“Os artistas convidados são pessoas que já dialogam com nossa cena musical, sobretudo com o sistema de som do Ministéreo Público, que estará ‘amplificando’ o projeto. Chamamos de amplificação pois o coletivo levará seu paredão de som e sua pesquisa em música jamaicana”, conta Lívia.

“Karina Buhr e BNegão já se apresentaram neste contexto antes e dá muito certo. Cada artista vai assumir os microfones cantando em instrumentais de música jamaicana, ou suas próprias canções, com suporte dos DJs do Ministéreo. Eu vou interagir com todos também. Os artistas locais podem ser novos aos ouvidos do grande público, assim como eu também (risos), mas são conhecidos na cena que frequentam, como Áurea, uma mina do rap muito atuante na cena, e Danzi, cantora de reggae roots da cidade. Ah,teremos uma atração surpresa, revelada aqui pra você, que é Miss Ivy, uma cantora de dancehall de São Paulo que estará aqui e vai participar conosco. Ela é fervura!”, diz.

Realizado na rua, o evento, garante a artista, terá toda uma estrutura profissional para quem for curtir a tarde de domingo no Centro.

“É um evento de rua que está sendo realizado com o apoio da Prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos, com toda a estrutura  montada. Vai haver uma feira de vinil, (barracas de) comida e bebida à venda, banheiros”, afirma.

BNegão, foto Leco de Souza
“Estamos nos inspirando no formato quermesse. Queremos criar um ambiente de máximo alto astral e paz para este fim de tarde ser realmente especial, com muita música, dança e cultura de rua”, conta.

Apesar de já estar atuando no circuito independente há alguns anos, Lívia ainda não lançou um álbum completo, apenas singles. "Tenho percebido que lançar um álbum é o resultado de uma gestação, gestar uma obra, e é sempre melhor quando ela pode acontece num mergulho criativo. Eu tenho vontade de experimentar esta imersão, mas, até o momento, trabalhando de forma totalmente independente e caminhando com várias frentes simultâneas (uma delas é o Coro de Rua), tenho encarado cada música como uma obra em si. Por isso lancei um 'single duplo' (risos) no início do ano, e tenho mais alguns engatados para lançar até o carnaval. Ainda acredito no álbum como formato de experiência musical e quero passar por esta realização criativa. Mas o single é mais adequando a minha realidade de produção e de escuta do público nestes tempos. E estou de bem com isso também. É provável que além dos singles eu lance um EP com duração menor que um álbum no ano que vem", observa.

Alvo de muitas críticas, a política de editais, ainda é, por enquanto, a única alternativa para os artistas independentes, que não contam com patrocínios privados. Lívia acredita que, se não é perfeita, a política pode ser melhorada, mas não extinta. "A estruturação de políticas públicas de cultura, pra nós, é algo recente em todas esferas. Os orçamentos para cultura ainda são cifras minguadas. E diante disso há o aprimoramento das formas de acesso a estes recursos. Há muito a melhorar, a ser desburocratizado, a ser fiscalizado. Mas o que não pode é parar, interromper, extinguir estes mecanismos. Temos nossas opiniões e avaliações acerca das políticas públicas para ocupação do espaço urbano e para a cultura, inclusive na nossa cidade, mas acreditamos que a resposta a isso é ocupar. É o que estamos fazendo. Mesmo com os recursos tradicionalmente escassos", afirma.

Karina Buhr, foto João de Holanda
Artista independente que tem circulado bastante (em setembro último, se apresentou em Chicago, EUA), Lívia ressalta a importância de apoiar eventos desse tipo: “Queria reforçar mais uma vez a importância de ocupar. De unir forças criativas para não desaparecer na cidade. Temos um público consumidor de música que não prestigia, não paga pra ver a prata da casa. Ao mesmo tempo, temos uma leva de bons artistas despontando no cenário nacional, nas redes, que não tem retorno real . Salvador ainda caminha a passos lentos pra uma estruturação que permita a cadeia produtiva da musica - em toda sua diversidade de estilos -  sobreviver dignamente”, conclui.

Coro de Rua – ocupação sonora do centro da cidade / Domingo, 15 horas / Com Livia Nery (BA), Danzi Love Jah (BA), Karina Buhr (PE), Mis Ivy (SP) / Dia 10 de dezembro, 15 horas / Com Livia Nery (BA), Aurea Semiséria (BA), Vandal (BA), BNegão (RJ) / Sound System: Ministereo Público / Rua do Couro (Escadaria da Barroquinha, Centro) / Gratuito

2 comentários:

Franchico disse...

Vamo lá galera, todo mundo comigo: "Sheeee's an easy lover, She'll get a hold on you, believe it"!!!!

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/como-se-a-situacao-ja-nao-fosse-tragica-phil-collins-deve-fazer-shows-no-brasil/

Rodrigo Sputter disse...

acho massa o evento Chicón, mas edital num é "ajuda" do governo tb?
atitude mermo era a galera do "tomanacara" que fazia na cara e na coragem os sons...na rua...sem ajuda de "ninguém" a num ser deles, das bandas e do público...aí é rock!!!
parece que tão voltando com outro nome o evento deles...é esperar pra ver como vai ser!