segunda-feira, julho 30, 2007

MEIAOITO MORREU?

Vinte anos depois de matar Rê Bordosa, Angeli afia a ponta do lápis e dá cabo do último comunista


Ele fez de novo. Depois de matar sua personagem Rê Bordosa, há 20 anos, o cartunista Angeli matou - aparentemente - mais uma de suas criações. No último dia 20 de julho, em sua tira diária no jornal Folha de S. Paulo, um caminhão da Coca-Cola atropelou - melhor dizendo, esmigalhou - Meiaoito, também conhecido como "o último dos barbichinhas". Morte cruel para alguém que ainda acreditava na tomada de poder via revolução armada.


O momento fatídico pode ser visto no primeiro veículo a noticiar o trágico acontecimento, o Blog dos Quadrinhos (http//blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/), ou mesmo no site da Folha, para assinantes do UOL. É só ir na edição da data em que a tira foi publicada, dia 20 de julho.


Nas suas últimas tiras antes do atropelamento, o personagem foi visto em plena crise existencial, trancado no banheiro. Via fantasmas de Stalin, Che Guevara e outros partidários de Karl Marx. Estes o exortavam a desistir da revolução.


O autor, personacida (sic) notório, foi procurado pela reportagem de A TARDE para saber as razões da aparentemente definitiva eliminação de Meiaoito. Porém, esbarrou na secretária eletrônica da casa do autor, que não atende ao telefone, nem dá resposta aos recados que a essa altura já devem ter abarrotado o aparelho, nem responde aos emails que foram enviados pela reportagem.


Restou consultar seu amigo de décadas e editor da extinta revista Chiclete com Banana, Toninho Mendes, que por email, respondeu: "Sequer tenho certeza que o Meiaoito morreu, apesar da tira do atropelamento pelo caminhão da Coca-Cola. Você, como leitor, sabe que no mundo dos quadrinhos e da imaginação tudo é possivel...", concluiu. Toninho tem razão. Nas HQs, a morte não costuma ser levada muito a sério. Especialmente nos casos dos quadrinhos de super-heróis - o que não é o caso do Meiaoito.


Muitos, mesmo não-leitores habituais de HQ, ainda se lembram da morte do Super-Homem, notícia em todos os jornais do mundo nos idos de 1993. Poucos meses depois, lá estava Kal-El, de volta à vida e às bancas, após um período no "outro lado".


Recentemente, o Capitão América também foi assassinado em meio a uma guerra civil que dividiu o Universo Marvel em dois lados. Essa história, justamente intitulada Guerra Civil, está sendo publicada agora no Brasil pela editora Panini Comics, apesar da surpresa reservada para o final já ter sido estragada (a morte do Capitão). Até agora não há sinais do retorno do Capitão América, mas este já é dado como certo - tanto pelos profissionais da indústria, quanto pelos fãs.


Mas isso é no universo dos super-heróis, âmbito dos quadrinhos publicamente desprezado pelo criador de Meiaoito. Angeli, como todo os que entendem um pouco de quadrinhos sabem, é fortemente influenciado pelo quadrinista underground americano Robert Crumb, criador de personagens como o Gato Fritz e Mister Natural, ícones da contracultura dos anos 1960.


Em 1973, irado pelo pífio resultado final do filme Fritz The Cat (disponível em DVD), dirigido por Ralph Bakshi (Heavy Metal - Universo em Fantasia e American Pop), Crumb decidiu matar o personagem. Depois de ser desprezada por Fritz, uma avestruz apaixonada o matou traiçoeiramente com uma facada na cabeça. Foi o fim definitivo de Fritz, que nunca mais foi retomado por Crumb.


Angeli, aluno aplicado da escola de quadrinhos sujos e underground de Crumb, também nunca ressuscitou sua Rê Bordosa, morta em 1987, no especial Rê Bordosa - A morte da porraloca. Ainda que a tenha trazido de volta em um especial publicado em 1995, intitulado Rê Bordosa - Memórias da porraloca. Outra aparição recente dela foi no filme de animação Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock 'n' Roll (disponível em DVD), magistralmente dublada por Rita Lee. Mas foram casos isolados, em que não houve um retorno, e sim, flashbacks de momentos da vida do personagem.


"Angeli é discípulo notório de Crumb. Duvido muito que ele traga Meiaoito de volta", aposta o jornalista especializado em quadrinhos Gonçalo Júnior, autor de diversos livros teóricos sobre o assunto, como A guerra dos gibis e O Homem-Abril. Gonçalo vai além: "Acho que o Angeli, assim como o Laerte [Piratas do Tietê], se acomodou muito com a fama. Eles se tornaram burocratas dos quadrinhos, aquela coisa 'funcionário público'".


Nem tudo está perdido, porém. No início deste ano, a revista Piauí publicou uma HQ autobiográfica de Angeli, na qual ele relata o impacto que teve, ainda na infância, ao ouvir o compacto de Satisfaction, dos Rolling Stones, então recém-lançado no Brasil. A HQ foi considerada pelos fãs e jornalistas especializados uma obra-prima do autor, um testemunho do seu amadurecimento como artista.


"A morte do Meiaoito, assim como a HQ da Piauí, pode ser um bom sinal de inquietação de Angeli, que está dando uma chacoalhada na sua própria existência. A morte do Meiaoito pode significar o renascimento do próprio Angeli como artista", conjectura Gonçalo.


Cartunista de A TARDE, Bruno Aziz é um exemplo de quadrinista que cresceu lendo Angeli. Para ele, “o autor deve ter motivos pessoais para fazer isto, mas o mais importante é dar um destino digno aos personagens que não se adaptam aos novos tempos. E Meia Oito é um dinossauro, o último dos moicanos. Sua morte reflete o tempo em que estamos vivendo“, conclui.


Matéria publicada no jornal A Tarde de 30 de julho de 2007.

4 comentários:

Franchico disse...

Dica do Universo HQ: Hulk, He-Man e Chaves nos tosquíssmos VTs da Mearim Motos. Reparem no sotaque do Hulk (Oxente?!?) e no reflexo da iluminação no chroma-key (VT do Chaves).

Demais pra cabeça....

http://www.youtube.com/watch?v=9Ro0iaEW1Rc&mode=related&search=

miguel cordeiro disse...

meia oito não morreu!!
ele tem um emprego comissionado numa estatal no governo lula...

miwky disse...

gentes,

lá no bbb uma nota sobre o encontro da educadora com a produção musical baiana de ontem e segue uma agendaça. fim de semana quente!

http://burnbahiaburn.blogspot.com

Franchico disse...

Para aguardar com carinho:

Neil Young escreverá graphic novel para a DC Comics

Por Marcus Ramone (02/08/07)

O veterano e aclamado roqueiro canadense Neil Young escreverá, em parceria com o roteirista Joshua Dysart (Faça 5 Pedidos), uma graphic novel para a linha Vertigo da DC Comics.

A HQ será uma adaptação do disco Greendale, gravado por Young em 2003, e contará a história de Sun Green, um adolescente californiano que está sempre às voltas com o ativismo político.

Sean Murphy (Off Road) será o desenhista da graphic novel, que ainda não tem data de lançamento.

http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/n02082007_03.cfm