quarta-feira, julho 17, 2013

TODAS AS MULHERES DO MUNDO


Em seu primeiro CD de estúdio desde 2005, Marcelo Nova fala do sexo feminino e trata a música como moldura para narrativas – com ótimo resultado

São mesmo incertos os caminhos da criação artística. Muitas vezes o artista toma um caminho achando que vai chegar em determinado destino.

Aí entram em cena desvios e imprevistos: o imponderável. E o que era para ser assim, torna-se assado.

Marcelo Nova (fotos de Livia Lamana) experimentou bem essa situação durante as gravações do seu novo álbum, 12 Fêmeas.

A boa notícia é que o resultado do seu périplo pelo reino do imprevisível rendeu aquele que é, possivelmente, seu trabalho solo mais enxuto e bem resolvido.

Temático, o álbum de 12 faixas passeia, como se pode deduzir do seu título, pelas experiências e impressões de Marcelo com aquilo que mais lhe causa admiração e fascínio na vida: o sexo feminino.

“Eu não possuo a qualidade de compositores de alma feminina, como Chico Buarque, que  se colocam como mulher na canção. Essa capacidade eu realmente não tenho”, admite o músico, pelo telefone.

“Todas as minhas canções são do ponto de vista heterossexual. Do ponto de vista do homem. São canções que expõem meus sentimentos sobre esses seres misteriosos que eu tanto aprecio. Há paixão  e ódio, perda e redenção”, descreve.

Mas que não se espere revelações picantes ou algo que o valha. O que conta para Marcelo é a poesia, a metáfora, a impressão que as mulheres que passaram por sua vida lhe deixaram.

“Isso é um disco, não uma autobiografia”, avisa.

Mesma vaca, outra teta

Produzido “a três cabeças e seis mãos” – como ele mesmo diz – por Marcelo, seu filho Drake Nova (guitarras e violões) e Luiz De Boni (piano, órgão, contrabaixo, Harpsichord, violões), 12 Fêmeas começou como um desafio quase intransponível para o ex-Camisa de Vênus.

O desafio era transpor a sombra projetada por seu último CD de estúdio, o épico autobiográfico O Galope do Tempo (2005).

“A medida que o tempo foi passando, o Galope  virou uma coisa quase insuperável entre as pessoas que apreciam meu trabalho”, relata Marcelo.

“Era como se eu  não tivesse mais para onde ir depois daquele disco. Não tinha mais nada para sugar da teta daquela vaca”, diverte-se.

“Como eu gosto muito da vaca, troquei só de teta. Percebi que no Galope, eu havia buscado uma sonoridade única para todas os instrumentos. Fiquei 12 dias no estúdio só experimentando timbres. No que ia achando, estacionava ali. Gravei o disco todo como uma música só em 16 faixas”, relata.

Para o 12 Fêmeas, Marcelo decidiu variar as sonoridades e os timbres dos instrumentos. Mas de uma forma que a parte instrumental não colidisse com aquilo que ele considera o cerne de sua obra: as letras.

“Nesse disco, eu tive o cuidado de deixar o texto em primeiro plano. E coloquei, para contrapor, aquelas guitarras distorcidas e insinuantes que sempre fizeram parte do meu trabalho”, descreve.

E assim Marcelo entrou no estúdio com Drake e De Boni. Mas esqueceu a porta aberta – pela qual o imprevisto adentrou o recinto em uma forma das mais surpreendentes.

O monge ninja no estúdio

“Na verdade. Entrei no estúdio só com Drake. Queria um disco de sons crus e rudes:  voz, violão e guitarras. Algo na linha Nebraska (1982), de Bruce Springsteen”, revela.

Depois de gravar três faixas, Marcelo pediu ao dono do estúdio, o De Boni, que adicionasse um órgão em determinada canção. De Boni gravou em três ou quatro. Foi incorporado ao projeto.

“Aí surgiu o Goba Wagnka”, conta.

“Uma noite, entrou no estúdio um bando de monges nepaleses de indumentária laranja. No meio deles tinha um, muito alto, carregando um monte de instrumentos de percussão estranhíssimos. Era o Goba Wangka”, detalha Marcelo.

Os monges, de passagem pelo Brasil, iam gravar uma música para o projeto Free Tibet. Admirado, Marcelo convidou o percussionista de nome exótico para gravar em seu disco.

Convite aceito, o religioso oriental concedeu um peso e um tempo completamente inusitados ao disco.

“Ele toca de uma maneira monástica, concentrado, quase imovel, sem expressão no rosto, como uma espécie de ninja. Foi  muito desconcertante ver aquilo”, descreve.

“Quando ele bate na caixa da bateria, parece que está sempre alguns milissegundos  atrasado. Ele puxa um pouquinho de nada a canção para trás no andamento, é muito sutil. Ele colocou a personalidade dele. E ai o disco ficou com outra cara, muito distante do que eu tinha imaginado anteriormente”, conclui.



Resenha: Em 12 Fêmeas, Marcelo encontrou forma musical ideal para derivações poéticas

Nos seus últimos trabalhos, Marcelo Nova andou perseguindo ferozmente a forma musical mais adequada para suas letras cada vez mais longas, narrativas e complexas – já que ele veio se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais distante do punk raivoso que viveu nos anos de glória do Camisa de Vênus.

Talvez só agora, aos 61 anos muito bem vividos,  tenha chegado à forma musical perfeita para suas derivações poéticas.

Mal comparando, 12 Fêmeas, o resultado desta busca sem fim, é um álbum de caráter literário como New York (1989) ou Songs For Drella (1990), ambos de Lou Reed: é um disco que se ouve como se lê um livro.

Mérito não só dele, mas também – possivelmente, em igual medida – para Drake Nova (muito promissor, cria riffs tanto delicados quanto pesados) e Luiz De Boni, parceiros de primeira hora, além do incrível baterista nepalês Goba Wangka.

Aqui, a música muitas vezes atua como uma tela, na qual Marcelo pinta paisagens de beleza inusitada e algo selvagem, como na faixa A Minha Inveja: “Eu invejo o vento / Que sussurra em seus ouvidos / Que lhe arrepia as coxas / Suspende seu vestido / Afasta seus medos / Lhe sopra os cabelos / Afaga seus lábios, varre seus pensamentos / Eu invejo o vento”.

Caderno de impressões

Menos um caderno de memórias do que tratado de impressões sobre as mulheres, 12 Fêmeas consegue ser uma audição mais compensadora do que seu antecessor,  O Galope do Tempo (2005), não apenas por que, como supõe seu autor, tenha uma sonoridade mais variada, mas também por que, mesmo sem buscar isso, consegue soar mais contemporâneo – em sua simplicidade espartana.

 Mais compensador ainda é notar como segue incólume aos apelos mercantilistas um artista cujo único compromisso sempre foi com a própria verdade.

No fim das contas, não há nada mais artístico do que isto.

12 Fêmeas / Marcelo Nova / Unimar Music / R$ 24,90 / www.marcelonova.com.br


terça-feira, julho 16, 2013

BANDA SETEMBRO RETORNA COM NOVO ÁLBUM, NOVOS INTEGRANTES E A SOFISTICAÇÃO DE SEMPRE

Quem frequentava a cena alternativa / roqueira da cidade em meados dos anos 1990, início dos 2000, deve se lembrar da Banda Setembro.

Formada por músicos talentosos que se inspiravam em Earth Wind & Fire, Tim Maia e Cassiano, entre outras potências soul e MPB, ela começou a chamar atenção quando ainda se chamava Jardim da Infância.

Depois de mudar de nome e gravar um primeiro CD (algo bem mais complicado na época) chamou a atenção de Ed Motta, que a elogiou publicamente, em uma entrevista na MTV.

Com o nome “quente”, se mudaram para São Paulo. “Tocamos em algumas casas. Mas aí cada um precisou trabalhar e se sustentar. A banda ficou em segundo plano. Só o baterista (Kezo) ficou por lá. O resto voltou pra cá”, relata o vocalista, CH.

Pois bem, passados alguns anos, eis que a Setembro (em foto de Antônio Geraldo Paim) está de volta com disco de inéditas, dois novos integrantes e a mesma sofisticação nos arranjos.

Intitulado simplesmente 2, o álbum está todo disponível para audição no site oficial da banda e foi produzido pelo baixista original, Alexandre Processo.

Além deste último, Zé Travassos (guitarra) CH, a Setembro hoje conta com Anderson Chrystopher (bateria), e Bruno Aranha (teclados).

Não quero dinheiro

“A Setembro nunca acabou, na verdade. Só parou, mas sempre quisemos fazer um novo trabalho”, diz CH.

O primeiro passo foi a  participação em um musical do grupo teatral Dimenti. “Ali desenvolvemos um conceito de musical para nossa  estética, adequando nossas canções  ao ritmo da peça, um viés cênico”.

“Mas o grande incentivo mesmo foi nossa participação no disco tributo ao Guilherme Arantes, A Cara & O Coração, no qual gravamos duas faixas”, conta.

Com o disco pronto e disponível (inclusive para venda no iTunes), a Setembro se prepara para o show de lançamento, depois de amanhã.

“O que mais gostei depois de tudo é essa mobilização em torno de algo que não tem relação direta com comércio. Não busca dinheiro. Busca valor estético. Esse desprendimento natural que existe em  todo músico”, garante o vocalista.

Banda Setembro /Show de lançamento do CD 2: Quinta-feira, 22 horas / Commons Studio Bar / R$ 20 (lista no www.commons.com.br ou antecipado na Midialouca) e R$ 25 (na porta)

Ouça: bandasetembro.com.br


NUETAS


Manu no Sesc Pelô
Irreverente, carismática e  baita cantora, Manuela Rodrigues (foto Márcio Lima) se apresenta no Teatro Sesc-Senac Pelourinho sexta-feira e sábado. A moça conta com super banda. Se liga na formação: Tadeu Mascarenhas (teclado e direção musical), Son Melo (baixo), Júlio Caldas (guitarra, guitarra baiana, cavaquinho e violão) e Lalo (batería). No show ela já apresenta música nova, que deverá constar do seu próximo álbum. 20 horas, R$ 20 e R$ 10

Mês do rock segue

Anda no Pelô, a programação do mês do rock segue em alta nesta sexta-feira com Radiola (Largo Tereza Batista) e Cascadura (Largo Pedro Archanjo). 21 horas, entrada gratuita.

Latinidad no Visca

CH Strattman leva os belos sons do seu  Efecto Vertigo ao  Visca Sabor & Arte. Sábado (20), 22 horas, R$ 15 (preço único).  CD à venda no local. Recomendo.

sábado, julho 13, 2013

LETRAS DE ROCK

Tão importante quanto ouvir rock, é compreende-lo. No Dia Mundial do Rock, uma data chapa branca criada pela ONU, o Rock Loco subverte a ordem das coisas é recomenda não ouvir rock hoje. E sim, ler sobre ele. E quem sabe, entender melhor seus mistérios e contradições


O Dia Mundial do Rock, comemorado no próximo dia 13 (sábado que vem), carrega em sua origem uma baita contradição.

Nascido sob a égide da luxúria – representado pela liberdade com a qual os quadris se mexiam ao seu ritmo – o rock ‘n’ roll veio ao mundo como a trilha sonora de um movimento de busca pela liberdade individual, iniciado décadas antes pelos beatniks de Jack Kerouac e pela “Geração Perdida” de Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald.

Contudo, o chamado Dia Mundial do Rock tem uma origem completamente distante dessa gênese meio mundana.

Para começar, foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) – ou seja, mais “chapa branca”, impossível – em homenagem ao evento Live Aid, aquele mega-festival realizado em 1985 (e depois, em 2005, como Live 8) para arrecadar fundos e ajudar a aliviar a fome na Etiópia, país africano berço da humanidade, então em grave crise humanitária.

Donde se conclui, então, que um dos ritmos mais lascivos de todos os tempos é oficialmente celebrado no dia em que ele foi dedicado a uma causa nobre.

Baita contradição. Mais rock ‘n’ roll, impossível.

Zappa é que sabia das coisas

Mas tão importante quanto ouvir rock é conhece-lo a fundo – entender por que um gênero musical simplório, surgido há mais de meio século, sobreviveu (enquanto tantos outros desapareceram), se transformou e se adaptou às décadas seguintes.

E mais: é importante saber por que o rock extrapolou o âmbito da música e invadiu a vida das pessoas, se tornando um ideal, uma ideia, um estilo de vida.

Impregnou o cinema, namorou a literatura e as artes em geral – e mudou a cara da cultura Ocidental, se espalhando pelo planeta mais rápido do que uma praga de zumbis.

Além de uma discografia infinita aonde a música em si está registrada, o caminho mais indicado para entender o rock – na verdade, para entender qualquer coisa – está nos livros.

Portanto, para celebrar o Dia Mundial do Rock, a edição literária do Caderno 2+ (sempre aos  sábados) o Rock Loco enfoca alguns lançamentos recentes, além de listar (mais abaixo) uma “biblioteca básica do rock” para neófitos.

Frank Zappa (1940-1993), um cara que sabia das coisas – até por que era, na verdade, um erudito disfarçado de roqueiro – matou a charada sobre a imprensa musical lá nos anos 1970, ao dizer que “a maior parte do jornalismo de rock é feita por pessoas que não sabem escrever, entrevistando pessoas que não sabem falar, para pessoas que não sabem ler”.

Isso significa que, bem, não se deve mesmo acreditar (ou levar a sério) tudo o que se lê na imprensa musical.

Mas, sim, há grandes obras dedicadas ao gênero, escritas em diversos estilos, que vão desde a biografia de artistas ao estudo acadêmico dos fenômenos sócio-culturais, passando por romances, HQs e até livros infantis (afinal, o moleque diferentão de hoje poderá ser o gênio do rock de amanhã).

Páginas da vida roqueira


No campo das biografias, uma que acaba de chegar às prateleiras enfoca uma da maiores bandas de heay metal de todos os tempos: O Reino Sangrento do Slayer (Ideal, 368 páginas, R$ 54,90), de Joel McIver (mesmo autor de uma biografia do Black Sabbath, já lançada no Brasil pela editora Madras).

Em segunda edição com capa dura, revisada e atualizada com a recente morte do seu guitarrista Jeff Hanneman (aos 49 anos, por cirrose, em 2 de maio último), o livro é item obrigatório na prateleira dos apreciadores do true metal.

Elogiada pela crítica especializada, O Reino Sangrento do Slayer não é uma biografia oficial da banda, mas é como se fosse: McIver entrevistou todos os membros diversas vezes ao longo de vários anos e seu texto cobre tanto a trajetória musical, quanto pessoal dos californianos. Recomendada.

Já Morte a Bono, de Neil McCormick (Martins Fontes, 414 páginas, R$ 45), não é uma biografia do líder do U2, mas sim, a de seu autor, um respeitado jornalista musical britânico, amigo de Bono desde criança.

Por isso mesmo, Neil e Bono compartilharam aquele importante período da adolescência inicial quando, juntos, descobriram o rock e resolveram se tornar ricos e famosos na idade adulta.

Como se sabe, só Bono atingiu este objetivo.

Dono de prosa ágil,  engraçada e autoirônica, McCormick conta sua trajetória paralela a acensão de Bono ao estrelato mundial.

Best-seller no Reino Unido, este livro rendeu uma adaptação ao cinema em 2011, ainda inédita no Brasil.

Francamente biográfica é a HQ Amy Winehouse, de Cristophe Goffette, Patrick Eudeline (roteiro) e do desenhista Javi Ferandez (Conrad, 48 páginas, R$ 39).

Primeiro volume da coleção Clube dos 27 (dedicada aos roqueiros famosos que morreram aos 27 anos), é mais indicada aos fãs completistas da cantora, já que não oferece nenhuma informação ou abordagem que  já não tenha sido alardeada pela mídia, desde sua trágica morte em 2011.





Dicas de Sexo de Astros do Rock, de Paul Miles (Best-Seller, 272 páginas, R$ 39,90)é uma bobagem.

Mais indicada para adolescentes devido ao seu caráter educativo – especialmente quanto ao que não fazer por aí – é uma série de depoimentos de astros mais ou menos famosos sobre sexo e diversos assuntos correlatos divididos por tópicos: Roupas & lingerie, Locais ousados, Aumentos & extensões, Divórcio e por aí vai.


 
Por último, mas não menos importante, é Rock Para Pequenos: Um Livro Ilustrado Para Futuros Roqueiros, de Laura Macoriello e Lucas Dutra (Ideal, 36 páginas, R$ 39,90).

"Fofo", apresenta bandas e artistas clássicos do rock em linguagem infantil e desenhos bacanas, sempre com uma mensagem edificante junto.

Por exemplo: na página sobre os Rolling Stones, apresentados como “vovôs do rock”, o texto recomenda: “Devemos sempre respeitar os mais velhos”!

Então, aumenta, que isso aí...

Bibliografia roqueira básica (mas não definitiva, feita de memória entre alguns livros já lidos pelo - ou recomendados ao - blogueiro. Sim, sei que há muitos outros, mas aqui estão só esses, tá?)

Rock: o Grito e o Mito, (1973, de Roberto Muggiati, Ed. Vozes). Um dos melhores estudos sobre a gênese e o fenômeno do rock escrito em qualquer língua, encontra-se criminosamente fora de catálogo. Alô, editoras!

Raízes do Rock, (2012, de Florent Mazzoleni, Cia. Editora Nacional), belíssimo estudo ilustrado das origens negras e brancas do rock.

The Beatles - A Biografia (2012, de Bob Spitz, Ed. Larousse). O subtítulo e o número de páginas (1.800!) não deixam dúvidas. Fab Four? Este é O Livro.

Led Zeppelin: Quando Os Gigantes Caminhavam Sobre A Terra,(2009, de Mick Wall, Larousse). Talvez a melhor (entre muita outras) biografia de Page, Plant & Cia

Mate-me por Favor (1998, de Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain, L&PM) A história oral do punk nos Estados Unidos. Hilariante e hoje há quem o ache "ultrapassado" ou algo assim, mas ainda assim, recomendadíssimo

Dias de Luta (2002, de Ricardo Alexandre, DBA). O melhor livro já escrito sobre o fenômeno do BRock dos anos 1980, relançado agora pela Ed. Arquipélago)

sexta-feira, julho 12, 2013

CIRCUITO BANCO DO BRASIL TRAZ JOSS STONE À SALVADOR

Depois de algum burburinho em sites de fãs e redes sociais, veio a confirmação durante entrevista coletiva na manhã de ontem em São Paulo: a cantora inglesa de neosoul Joss Stone se apresenta em Salvador no dia 31 de agosto, como atração principal do Circuito Banco do Brasil 2013, série itinerante de eventos que acontecerá até dezembro em seis capitais brasileiras.

Em salvador, o evento será no Wet n Wild, e terá três palcos: Palco Circuito, Palco Brasil e Eletrônico.

O principal (Circuito) terá como atrações a citada Joss, Carlinhos Brown com participações de Rogério Flausino (Jota Quest), Samuel Rosa (Skank) e Monobloco, além dos próprios Skank e Jota Quest.

No Palco Brasil, shows de Monobloco, Preta Gil e Jau de convidado e mais uma banda ou artista a ser escolhida pelo publico via voto popular, no concurso Sompratodos.

No Eletrônico marcam presença Taboo (integrante da banda Black Eyed Peas) e o DJ Ask 2 Quit (Pede pra sair, em bom português).

O projeto todo esta orçado em R$ 25 milhões, "quantia publicada no Diário Oficial da União, seguindo todos os critérios de transparência", disse Hayton Jurema da Rocha, diretor de Marketing e Comunicação da instituição (na foto ao lado, é o homem à direita).

Os organizadores - Banco do Brasil e a produtora Planmusic - enfatizaram bastante o caráter múltiplo do evento, que além de muita musica, terá também o, acontecendo simultaneamente, a Copa Brasil de Skate Vertical e uma Galeria de Esporte e Cultura. Na parte do esporte, o foco está nos atletas e equipes patrocinadas pelo BB, como vôlei, tênis e vela.

Na parte da cultura, o publico poderá ver pare das mostras já recebidas pelos Centros Culturais BB do Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, como a mostra O Mundo Magico de Escher e Impressionismo: Paris e a Modernidade.

"Essa é uma nova plataforma de marketing e relacionamento para o Banco do Brasil", resumiu Hayton.

"Serão seis capitais (além de Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília) em quatro regiões do País, com atrações acessíveis a um publico de 8 a 80 anos", acrescentou.

Já o empresário Luiz Oscar Niemeyer (o homem à esquerda, na foto acima), da Planmusic, destacou a importância de se estar trabalhando com praças que ele chamou de "mercado secundário", ou seja: capitais fora do eixo Rio-São Paulo, que ele considera "esgotado".

"Temos que aproveitar o potencial de outras regiões", afirmou.

Sobre a escolha do local do show - o parque aquatico desativado Wet 'n' Wild, quando poderia ser na recem-inaugurada Arena Fonte Nova - , Niemeyer justificou dizendo que "O estádio poderia não ser adequado para abrigar o público (estimado em 25 mil pessoas), mais dois palcos, uma tenda, uma galeria e uma pista de skate. O conceito do Circuito é que seja em espaço aberto. O Wet é bem grande, recebe vários eventos e tenho certeza de que será umaexperiencia excelente para todos", acrescentou.

"Acho que o gramado de um estadio como a Fonte Nova tem entre 7 ou 8 mil metros quadrados. Com certeza, não é suficiente para tudo o que quremos fazer", disse também Hayton.

O criterio de seleçao de cada atraçao para cada cidade foi outro asunto abordado na coletiva, já que nomes maiores do que Joss Stone no cenario mundial se apresentarão no CBB.

Stevie Wonder será atracao principal em Brasilia (7 de dezembro), enquanto a banda Red Hot Chili Peppers se apresentará em Belo Horizonte (2 de novembro) e Rio de Janeiro (9 de novembro).

"Entendemos que Joss Stone é uma artista que se adequa bem ao que o publico do Nordeste aprecia, musicalmente falando. Claro que qualquer um destes artistas faria sucesso em qualquer uma das capitais que vão receber o Circuito, mas aí também entraram outros fatores como disponibilidade dos artistas etc", justificou Niemeyer.

Lançado o projeto, a ideia é que ele continue acontecendo nos próximos anos, abarcando mais capitais. "Sem duvida, queremos ampliar o circuito. Mas vamos ver como será a resposta deste primeiro ano", disse Hayton.

Presentes à coletiva estavam também os artistas Max de Castro e Wilson Simoninha (Baile do Simonal, atração em Brasília) e Rogério Flausino (Jota Quest, atração em Salvador e BH), que falaram rapidamente com os jornalistas.

"Para nós, é um sonho tocar na mesma noite mesmo palco do Red Hot Chili Peppers em BH e com a Joss Stone em Salvador", disse Flausino, que chegou no finzinho da coletiva.

"O Brasil já provou estar pronto para receber este tipo de evento, especialmente esses que misturam artistas brasileiros e estrangeiros, é uma troca muito gratificante. Quem puder aparece lá em BH também, que sempre tem uma cachacinha da boa", convidou, arrancando risos da plateia.

Para os shows de Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e São Paulo as vendas serão realizadas pelo site www.ingresso.com.

A pré-venda (para clientes BB) começa hoje ontem mesmo, ao preço de R$ 112 (desconto de 30%).

Para os demais interessados, começa no dia 15 (segunda-feira), ao preço de R$ 160, a meia a R$ 80.

Mais informações: www.circuitobancodobrasil.com.br

Matéria publicada ontem no Caderno 2+ do jornal A Tarde. O jornalista viajou a São Paulo a convite da produção do evento. Fotos cedidas pela produção do evento.

sexta-feira, julho 05, 2013

GIGANTE BRITPOP COM ENERGIA RENOVADA

Com show em São Paulo marcado para novembro, o Blur mostra do que é capaz em cima palco no DVD ao vivo Parklive

Se, nos anos 1960, o Reino Unido se abalou com as revoluções de costumes e artes da chamada Swingin’ London, os anos 90 produziram um (ruidoso) eco daquele momento, conhecido hoje como Cool Britannia.

Foi uma época gloriosa de grande agito social e artístico, uma euforia generalizada após mais de uma década com os Tories (Partido Conservador) no poder e chegada de Tony Blair, representando o New Labour, (Novo Trabalhismo) à casa número 10 de Downing Street.

A cena cultural tomou novo fôlego em todas as áreas: cinema (Danny Trainspotting Boyle à frente), literatura (Nick Alta Fidelidade Hornby), visuais (Damien Hirst), moda (Alexander McQueen) e, claro, música.

Apesar de povoada por bandas brilhantes como Pulp, Suede, Supergrass, The Verve, Elastica e Spiritualized, a chamada cena britpop ficou mesmo  marcada pela intensa rivalidade entre as duas maiores bandas do período: Blur e Oasis.

Esta última até durou bastante, após finalmente sucumbir aos quebra-paus dos irmãos Gallagher, em 2008.

Volta aos palcos e estúdios

Já o Blur, após um hiato iniciado em 2003, voltou em 2009 para alguns shows.

No ano passado, fizeram uma das festas de encerramento das Olimpíadas de Londres, com um mega show no  Hyde Park, palco de momentos históricos do rock inglês.

Show este que chega às lojas  em DVD e CD duplo para alegria dos fãs brasileiros, que começam a se preparar para recepcionar o quarteto liderado por Damon Albarn em novembro, quando a banda será a atração principal do festival Planeta Terra, em São Paulo.

Não é só: em maio, Albarn revelou à plateia de um show em Hong Kong que a banda ficaria  lá por mais uma semana, “por que achamos que é uma boa hora para tentar gravar um disco novo”, disse ele.

Ainda sem mais informações, este deverá ser o primeiro álbum do Blur em dez anos, desde o mediano (fraco mesmo, vá) Think Tank (2003).

Formada em 1989 em Londres, o Blur nunca foi banda de um estilo só, como o Oasis, que construiu toda uma carreira sugando na jugular dos Beatles.

Mais ecléticos, os rapazes do Blur passearam por variações de indie rock, indie dance, shoegazer, merseybeat e outros, desfiando uma longa lista de hits.

No DVD em questão, a banda lança mão de cada um deles em uma performance corrida, suada, elétrica.

Visivelmente animados com o mar de gente enlouquecida à sua frente, Albarn, Graham Coxon (guitarra), Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria) entregam uma performance acima de qualquer suspeita em mais de duas horas em cima do palco.

Para aqueles com mais de trinta, tudo poderá parecer um enorme (e emocionante) flashback de uma época inesquecível, mas o fato é que hits como Girls and Boys, Beetlebum, Coffee and TV, Country House, This Is a Low e Song 2 (entre outros), envelheceram bem.

Nada mais cool, Britannia....

Parklive / Blur / CD duplo: R$ 42,90 / DVD: R$ 38,90


quarta-feira, julho 03, 2013

TEENAGE BUZZ: NOVIDADE DE INFLUÊNCIAS SESSENTISTAS É BEM-VINDA AO CENÁRIO

O colunista detesta esse negócio de hype. Acha coisa de modista: vem fácil, vai fácil.

Mas se tivesse poder para “hypar” algumas bandas locais, a Teenage Buzz seria uma delas.

Por que?

Por que quase todas as referências que fazem o surrado coração deste jornalista bater mais forte estão no som dessa garotada: Beatles, Stones, Velvet Underground, indie rock, Britpop, melancolia light.

A César o que é de César: foi o Honker Rodrigo Sputter Chagas quem chamou a atenção para esses meninos: “Follow –, faixa do primeiro EP demo da TB – parece Beatles”, disse ele.

Como não é todo dia que aparece uma banda por aqui “parecendo Beatles” – exceto suas trezentas bandas cover locais –, conferir o som foi praticamente uma reação instintiva.

De fato, há um quê de Lady Madonna na ambientação folk- psicodélica de Follow.

Sex After Ice Cream fica entre os americanos do Guided By Voices e os sergipanos do Snooze.

Can’t Try The Summer deve um tantão ao VU – e assim por diante.

Fazer por gosto

Então vamos às apresentações: na foto ao lado, da esquerda para a direita: Yan Franco (teclado) Marcus Seadog (voz e guitarra), Lucas Pellegrini (baixo), Andrés Mayan (bateria) e Rafael Freire (guitarra e voz).

“A gente ouve muito Beatles e sons que não estão tanto na mídia, especialmente coisas dos anos 1960”, conta Andrés.

A banda começou com ele e Marcos: “A gente gostava muito do Britpop que era moda há algum tempo, tipo Franz Ferdinand, Arctic Monkeys. Aí a gente se juntava para fazer som, mas  nada sério”, relata.

Com o tempo, a dupla começou a sentir necessidade de se aprofundar na coisa: “Começamos a ouvir coisas mais antigas, vintage: Beatles, Stones e garage rock underground dos anos 60, bandas como Defectors e Mockers", conta o rapaz.

"Aí em março, já com a banda formada, gravamos uma demo com cinco faixas no estúdio de Leo Marinho, baterista dos Honkers”, acrescenta.

A demo foi lançada no mês passado e a banda está na fome de palco.

“A gente sabe que o público de rock aqui é pouco mesmo, mas  fazemos isso por que gostamos. Se fosse para ser comercial, não tocaríamos este som. Agora, sabemos que tem uma galera que gosta desse estilo,  mas não sai de casa. Queremos trazer essas pessoas para o nosso lado”, conclui.

O colunista queria ter filhos assim.

Ouça: http://tnb.art.br/rede/teenagebuzz

segunda-feira, julho 01, 2013

ELE SÓ SABE QUE NADA SABE - E CONTINUA MANDANDO BEM ASSIM MESMO


Sete anos após Habeas Corpus, seu primeiro e cultuado  álbum solo de estúdio, Maurício Baia (fotos Georgeana Godinho) chega ao segundo, Com a Certeza de Quem Não Sabe Nada.

Engana-se, porém, quem acha que o rapaz não fez mais nada esse tempo todo.

De 2006 para cá, o ex-líder dos Rockboys descolou contrato com a Som Livre – pela qual lançou o DVD ao vivo Baia no Circo –, integrou o  grupo 4Cabeça (Melhor Grupo MPB do Prêmio  da Música Brasileira 2010) e se apresentou por todo o Brasil e alguns países da Europa.

“É, esse é meu segundo  disco pela Som Livre. E o  sétimo de carreira, contando os que lancei com os Rockboys e 4Cabeça”, contabiliza Baia, por telefone.

“Eu vejo uma continuidade bem clara nesses trabalhos todos. Todos eles moram dentro de mim, são parte de mim. Então conto este como o sétimo, mesmo”, afirma.

Músico popular, mas não popularesco, letrista afiado e de pendor poético evidente, é de se admirar o fato de  Baia se manter em uma gravadora major nesses tempos de achatamento intelectual óbvio, dado o que se ouve nas rádios e TVs.

“Fiquei bem feliz por continuar na Som Livre”, admite. “Eles ficaram satisfeitos com o resultado do DVD”, conta.

“Acho que isso mostra que meu trabalho tem essa continuidade, né?”, conjectura.

Coesão ao violão

Lançado para um Circo Voador lotado no último dia 17, Com a Certeza de Quem Não Sabe Nada soa como um álbum mais coeso do que seu antecessor, com arranjos mais enxutos.

“No Habeas eu mudava muito de ritmo no meio das músicas. Nesse, por ter vindo direto do meu violão, sem interrupções, ele soou mais coeso e dançante também, com mais groove. É um CD mais fluido mesmo”, compara Baia.

“Tudo nele eu comecei no violão. Reuni as canções, gravei tudo em pré-produção no violão. Aí depois botei as levadas, a ambientação, começo, meio e fim”, conta o músico.

Só com as composições muito bem delineadas, Baia foi para o estúdio com sua banda e alguns convidados, como Dé (ex-baixista do Barão Vemelho), Nicolas Krassik (violino) e  o Pandeiro Repique Duo”, detalha.

“Aí veio o colorido do coprodutor, Duda Melo. Foi  ele quem convidou algumas dessas pessoas e fez toda a  parte de gravação e mixagem. Foram nove meses de trabalho no total, por que é trabalhoso mesmo, minucioso. Mas estou bem satisfeito com o CD pronto”, diz.

Diálogos insolentes

O resultado é mais um álbum em que este baiano de origem pernambucana e radicado no Rio dá vazão a uma produção musical e poética de raro brilhantismo.

Se em Habeas Corpus havia meia dúzia de faixas espetaculares e outras razoáveis, aqui, ele crava um CD que começa e termina no mesmo alto nível de artesania.

Com sua origem e vivência dividida entre Nordeste e Sudeste, não seria exagero dizer que ele consegue resumir o que há de melhor nessas duas tradições musicais, dialogando com ambas, sem recorrer a misturebas.

Um exemplo é Em Nome da Fome, faixa em que fala da seca – aliás, alguém mais faria isto hoje em dia? – com a flauta de Mônica Ávila e o flugelhorn de Leandro Joaquim costurando rendas em torno de frases como esta: “A fome quando vem assola / Não brinca de roda / Não faz cafuné / Não quer saber qual é a moda / Não se importa e nem arreda o pé”.

“Fiz essa música depois de um show com o 4Cabeça em Conceição do Coité, a cidade em estado de emergência. Mesmo assim, o teatro estava cheio, as pessoas conheciam a músicas e aquilo me tocou demais. Essa letra passa por aí, tenta englobar esse sentimento que é a  fome da alma pela vida também”, detalha Baia.

As duas últimas faixas – Quando Eu Morrer e Oração de Regresso – trazem o lado mais místico de Baia.

Na primeira, faz seu testamento musical, dialogando com o clássico Fita Amarela, de Noel Rosa.

“Na verdade, é um diálogo com várias mortes declaradas por autores da MPB. Já que tem tanto testamento musical, vou deixar o meu também, mas contestando um pouco essas mortes mundanas do samba”, conta.

E em Oração, Baia literalmente clama pela volta de Jesus, mas não como um religioso e sim, como alguém cansado de promessas: “É uma cobrança, mesmo. Um chamado para que ele pague o que prometeu.  Parece religioso, mas eu tô bem mais proximo do ateu”, avisa.

“Agora quero mostrar aos baianos meu novo show inteiro, com banda, cenário, luz”, conclui. Fica a dica aos senhores empresários.

Ouça: www.mauriciobaia.com.br

Com a Certeza de Quem Não Sabe Nada / Baia / Som Livre / R$ 22,90





MEMÓRIAS RANDÔMICAS DA ERA DISCO


Ideias e tendências são um troço engraçado. Elas costumam (na falta de termo melhor) pairar por aí, ao alcance das antenas de alguns poucos visionários privilegiados.

Aqui no Brasil, outro dia mesmo, Ed Motta se saiu com um novo álbum (AOR) em que recupera sons do fim dos anos 1970 / início dos 80.

Eis que, de lá de fora, lá vem o duo francês Daft Punk fazer mais ou menos o mesmo com o seu novo disco, Random Access Memories.

Lançado no mercado internacional no último dia 17, o álbum caiu como uma bomba para público e crítica. De cara, estreou no topo das vendagens de discos em nada menos que 22 países.

A crítica especializada caiu de joelhos. Classificações como “nota 10” ou “cinco estrelas” são comuns na imprensa internacional.

E a razão para tamanho sucesso de público e crítica é muito simples: o disco é danado de bom, mesmo.

OK, nada aqui é, assim, original, mas o que é hoje em dia? Basicamente, o que o duo formado por Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo fez foi resgatar e retrabalhar, com muita propriedade e criatividade, diversas sonoridades e estilos daquela época citada lá no início deste texto.

Escaldados pelas críticas mornas recebidas pelos seus dois últimos álbuns – Human After All (2005) e a trilha do filme Tron: Legacy (2010) –, acusados de serem meio frios, eletrônicos demais, os franceses resolveram deixar a robótica de lado (exceto pelos famosos capacetes) e investir em músicos de carne e osso para as gravações do seu quinto álbum de estúdio.

Mestres da disco recuperados

Decisão acertadíssima. Mestres na ambientação da pista de dança, Bangalter e Homem-Christo abriram mão dos samplers e ativaram sua máquina do tempo em busca de inspiração.

Lá no passado estavam os dois nomes fundamentais da disco music: o produtor italiano Giorgio Moroder e o guitarrista norte-americano Nile Rodgers.

O primeiro formatou a disco ao processar Kraftwerk e James Brown no liquidificador, resultando nos hits de Donna Summer, Sparks, Bonnie Tyler, etc.

Já Rodgers é o guitarrista (e band leader) do Chic, certamente a melhor banda disco de todos os tempos.

Do primeiro, eles gravaram um depoimento, que usaram ao longo da faixa Giorgio By Moroder. Em seus nove gloriosos minutos, ouvimos, na verdade, dois depoimentos: o verbal, de Giorgio, e o musical, da banda.

O resultado é uma emocionante homenagem ao mago da disco, que soa como uma suíte em quatro movimentos, cada um mais intenso e pesado do que o anterior.

Já Nile Rodgers foi aproveitado fazendo o que sabe fazer melhor: tocando guitarra em três faixas: a abertura arrasadora de Give Life Back to Music, Lose Yourself to Dance e Get Lucky. Nas duas últimas os vocais ficam por conta de outro convidado de primeira linha: Pharrel Williams, produtor e cantor muito requisitado no meio R&B.

Só essas quatro faixas com Moroder, Rodgers e Williams já valem o disco – na verdade, são mesmo seus melhores momentos.

É nas faixas restantes que as possíveis falhas de Random Access Memories se evidenciam. Há um  abuso do vocoder (voice encoder, aparelho que dá  tom robótico às vozes) em The Game of Love e na interminável introdução de Touch.

Especialmente na última, cantada pelo veterano ator / cantor Paul Williams – que, quando parece que vai engrenar ali pelos três minutos e meio, cai de novo.

Instant Crush, com Julian Casablancas, é um bom momento, mas não empolga. Já Beyond, abertura orquestrada, bate um bolão.

Tudo fecha em tom grandiloquente, em Contact. Um grande disco para uma época nem tanto. Talvez daí tanta aclamação.

Daft Punk: Random Access Memories  / Columbia -  Sony Music  / CD Nacional: R$ 29,90  / CD importado: R$ 74,90 / LP importado: R$ 159,90


quarta-feira, junho 05, 2013

GUITARRA VERSUS SAX: PAT METHENY TRAZ SHOW DA SUA UNITY BAND À CIDADE

O guitarrista norte-americano Pat Metheny nunca foi nenhuma unanimidade.

Maravilhou meio mundo com álbuns como 80/81 (1980) e Offramp (1981).

Horrorizou em igual medida, ao adotar a guitarra sintetizada Roland GR-300, um trambolho que logo foi abandonado.

Referência da guitarra no jazz dos últimos 40 anos, o Pat traz o show do seu mais recente trabalho, Unity Band, para Salvador, no dia 12 de junho, dentro da edição 2013 da Série TCA.

Fã declarado de música brasileira, Pat já tocou com gente do quilate de Naná Vasconcelos, Ivan Lins, Tom Jobim, Milton Nascimento e Toninho Horta.

“Para mim, o Brasil viveu uma ‘era de ouro’ da música entre os anos 1960 e 70, mais ou menos como aconteceu nos Estados Unidos entre as décadas de 1940 e 50, com o surgimento do be bop (jazz moderno)”, opina Pat, em entrevista por email.

Para ele, foi justamente a proximidade que havia entre as músicas brasileira e norte-americana que possibilitaram um “diálogo natural” entre ele e os músicos brasileiros.

“Aquele momento particular da MPB foi talvez a última vez, em qualquer forma de música popular, na qual harmonia e acordes desempenharam papeis centrais no aspecto formal do que torna esta forma de música tão atraente”, observa.

De fato, Pat chegou a morar no Brasil por um tempo nos anos 1980 e visitou Salvador, mas não chegou a se apresentar por aqui. Daí seu entusiasmo pela visita de daqui a alguns dias.

“Estou muito animado por chegar até aí desta vez. Já visitei a cidade e adorei, mas não tive a chance de tocar. Por isso mesmo, estou planejando um longo repertório”, avisa Pat.

“Ainda que o foco esteja nas músicas do disco da Unity Band, vamos cobrir um largo espectro dos meus trabalhos”, diz.

Guitarra e sax na frente

Formada por Chis Potter (sax tenor), Antonio Sanchez (bateria) e Ben Williams (baixo), a Unity Band surgiu da admiração de Pat pelo sax de Potter.

Na verdade, esta é a primeira vez que ele trabalha com um saxofonista na linha de frente com sua guitarra –  até mesmo dobrando os acordes (quando os dois instrumentos tocam juntos a mesma linha melódica).

“Tenho sido muito sortudo, por que pessoas que adoro como fã, eventualmente se tornam colaboradoras e amigas”, afirma o músico.

Lá fora, já fez parcerias com nomes de peso como  Herbie Hancock,  Ornette Coleman,  Sonny Rollins, Brad Mehldau e até David Bowie (no hit This Is Not America).

“Mas cada músico com quem toquei me ofereceu uma janela para diferentes formas de pensar. Adoro estar entre pessoas com pontos de vista fortes e habilidades musicais profundas que se  manifestam nessas visões de realidades musicais”, viaja Metheny.

Como todo jazzista de estirpe, Pat tocado em dois ou três projetos ao mesmo tempo. Seu último CD é uma releitura de obras de John Zorn:  Tap: John Zorn's Book of Angels Vol. 20.

“Este  é um projeto especial, no qual eu arranjei radicalmente as notas, de forma que quase as transformei em outra coisa. Mas não importa como você a trate, a escrita de John sempre retém sua força musical própria”, conclui Pat Metheny.

Pat Metheny & Unit Band / 12 de junho (quarta-feira), 21 horas / Teatro Castro Alves / R$ 100 (filas de A a P), R$ 80 (Q a Z) e R$ 60 (Z1 a Z 11) / Vendas: bilheteria TCA e SACs Barra e Iguatemi


BOLLAND STRIPS! O ARTISTA DE CAMELOT 3000 E A PIADA MORTAL SE DESNUDA EM TRABALHOS AUTORAIS

Ídolo dos fãs no Brasil desde que abrilhantou com seus incríveis desenhos obras clássicas como Camelot 3000 e Batman: A Piada Mortal, Brian Bolland não tinha nenhum trabalho autoral só seu publicado por aqui.

Com o  recém-lançado álbum Bolland Strips! (Ed. Nemo), essa lacuna acaba de ser preenchida.

Dono de um dos traços mais firmes e precisos  da história das HQs, ele mostra aqui sua produção independente, já que até agora, só o que se conhecia dele no Brasil eram seus trabalhos para a DC Comics, já citados.

Basicamente, o álbum se divide entre duas séries escritas e desenhadas por artista inglês para editoras europeias: A Atriz & O Bispo e Sr. Mamoulian, mais algumas HQs curtas e ilustrações de portfólio.

Quem procurar por aqui traços dos seus trabalhos mais conhecidos vai quebrar a cara.

Mas pode ser recompensado com a descoberta de um artista muito mais completo e intrigante do que se supunha.

Bolland é famoso pelos desenhos detalhistas para Camelot 3000 e A Piada Mortal, HQ clássica do Batman escrita por Alan Moore.

Neste álbum, os fãs poderão descobrir um artista muito mais complexo do que  se imaginava por aquelas HQs.

A Atriz, o Bispo e o perplexo

A Atriz & O Bispo é sobre este estranho casal, formado por uma espevitada beldade em roupas provocantes e um senhor idoso, sempre em trajes eclesiásticos.

Eles vivem de forma muito comum,  em uma casa de subúrbio em Londres.

Os desenhos são no mais puro estilo Bolland clássico: detalhistas, hachurados, expressões faciais no limite do realismo fotográfico.

Mas são nos textos que o autor surpreende: é tudo em quadras, versos de quatro linhas que soam quase como nossos cordeis nordestinos (ponto para a tradução cuidadosa de Cassius Medauar, acrescente-se).

Como o próprio Bolland escreve em um texto introdutório, Sr. Mamoulian, a série seguinte, foi produzida em estilo bem mais despojado por que “desenhar estava me dando muito trabalho na época”.

Dado o nível de detalhismo que ele imprime em praticamente tudo o que faz, não pega bem culpá-lo.

Até por que Mamoulian também não decepciona.

Sujeito estranho, de olhos arregalados, cabelos espetados, acima do peso e em eterna expressão de estupor, Bolland diz que Mamoulian é ele mesmo.

Se for, representou muito bem sua perplexidade, característica inerente à quem se propõe artista.

Bolland Strips! / Brian Bolland / Tradução: Cassius Medauar / Nemo / 96 páginas / R$ 38 / www.editoranemo.com.br

terça-feira, junho 04, 2013

ATO 5: PUNKS BAIANOS DE PRIMEIRA HORA FAZEM SHOW COM CAMISA NA SEXTA


A Coletânea O Rock Loco hoje volta no tempo, mas retorna já já para o agora.

Em meados dos anos 1980, toda uma cena roqueira se formou, catalisada pelo estouro do Camisa de Vênus e do chamado BRock.

Escaldada e sufocada após o fim recente da ditadura militar, jovens de todas as classes sociais encontraram no rock sua forma de expressão de preferência.

Aqui, bandas punk e o pós-punk pululavam, para horror da tradicional família baiana.

Uma fértil cena de bandas punk e pós-punk surgiu, circulando por points como a loja Not Dead, Teatro Vila Velha, Clube de Engenharia, Solar Boa Vista, bares como o Manga Rosa, Espaço Bleff e outros.

Em em meio à tudo isso, uma rapaziada punk do bairro de São Caetano resolveu protestar.

Mas protestar mesmo, começando pelo nome da banda que formaram: AI-5.

“Ticka (Sinval carlos, baterista) era amigo de infância de Tinho (baixista), lá na Fazenda Grande do Retiro. Aí, quando Tinho foi morar no São Caetano, a gente se conheceu”, relata Neilton, vocalista.

“Tinho e Ticka já tinham uma banda chamada Revolta Suburbana, que tocou com o Cólera em Salvador, em 1984”, diz.

Rapaziada humilde, mas esclarecida, esses caras circulavam pelos shows da cena local: “Em 1986, rolavam shows do Camisa, Dever de Classe, Proliferação, Via Sacra, Velorium e outras. A AI-5 já estava formada, só não tinha tocado ainda”, diz.

O primeiro show foi em 1987, no Clube de Engenharia, um dos espaços que reunia o povo do rock, assim como a loja Not Dead, Teatro Vila Velha, Clube de Engenharia, Solar Boa Vista, bares como o Manga Rosa, Espaço Bleff e outros.

Aí começou a saga da AI-5 (Ato Institucional 5), nome que, como se sabe, carrega um karma pesado ao citar o golpe definitivo da famigerada ditadura militar contra a democracia.

“Logo no primeiro cartaz que colamos na rua, um senhor desceu de um carro e disse: ‘vocês são malucos, estão fazendo apologia a isso’? Aí respondemos que era justamente o contrário, somos contra o militarismo e tal. Aí até ele disse que ia no show”, lembra Neilton.

Em outra ocasião, a banda foi entrevistada pelo lendário radialista Baby Santiago em uma emissora local: “Ele disse que ia entrevistar a gente, mas não ia pronunciar o nome da banda. O pessoal ainda tinha muito medo, mesmo com a ditadura já encerrada”, afirma Neilton.

Punk's not dead

O tempo passou e, depois de muitos shows e participações engajadas em protestos organizados por sindicatos e outras entidades, membros começaram a sair.

Em 2010, Ticka e Neilton, os remanescentes, resolveram reformar a banda, agora como Ato 5.

Lançaram CD em 2011 e, nesta sexta-feira, tocam com o Camisa de Vênus.

Assistir às duas bandas é testemunhar a própria história do rock local.

Além de Neilton e Ticka, a Ato 5 atual conta com Alan e Cristiano Ferreira (guitarras) e José Carlos (baixo).

Fotos: Arquivo da banda Ato 5.

Ato5 e Camisa de Vênus / sexta-feira, 19 horas / Cine Teatro Solar Boa Vista (Engenho Velho de Brotas) /  R$ 15

NUETAS

São Caetano calling
Como se vê na matéria da Ato 5 aí ao lado, São Caetano é pólo cultural alternativo não é de hoje. Neste sábado, um dos projetos que movimentam o bairro, o Radiola Alternativa, faz sua primeira edição em casa nova: espaço Gangara (defronte Colégio Ramo da Videira). Sábado, com as bandas Latryna, The Lex e Os Caras da Rádio. 17 horas, R$ 3.

Dimazz hoje, no TVV
Dimazz segue com sua residência mensal na Vila da Música. Hoje ele recebe Cascadura e o Camará Ensemble - Grupo de Câmara da Ufba. Diversidade musical recomendada. Sala Principal do Teatro Vila Velha, 20 horas, R$ 30 e R$ 15.

Bons sons vezes 2
Scambo & Sertanília dividem o palco do Portela Café nesta sexta-feira. Às 22 horas, R$ 20 (antecipado, na Midialouca). Na porta, sobe para R$ 25.

Tchaikovsky Fest na quinta

A Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) realiza nesta quinta-feira, seu Festival Tchaikovsky, com a pianista brasiliense Ligia Moreno (ao lado) como solista convidada e regência de Eduardo Torres. No programa do concerto em homenagem ao mestre Romântico russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), estão as peças Elegia; Concerto para Piano nº1 em Sib Menor op.23 e a Sinfonia nº6 Patética. Quinta-feira (dia 6), às 20 horas, na Sala Principal do Teatro Castro Alves, R$ 20 e R$ 10.

segunda-feira, junho 03, 2013

70 ANOS: JUNKY, DE WILLIAM BURROUGHS, VOLTA EM EDIÇÃO DEFINITIVA - E AINDA É O MAIOR BARATO


Para falar de Junky - Drogado, o clássico beat de primeira hora de William S. Burroughs (1914-1997), é preciso ter em mente duas coisas.

Uma: jamais julgar. Duas: mandar a hipocrisia classe-média  às merecidas favas.

Por que Junky é assim: sem retoques, sem meias palavras, sem julgamentos.

Publicado originalmente nos Estados Unidos em 1953, a obra relata o dia-a-dia de Bill Lee (o próprio Burroughs), um viciado (junky, na gíria) em heroína (junk) e no que mais pintar.

O estilão anavalhado, seco mesmo – quase noir – da narrativa em primeira pessoa, além da absoluta amoralidade ou propósito do personagem principal (fora se drogar) fez com que Junky fosse considerado “impublicável” na época.

Falar de drogas pesadas  era uma coisa tão complicada (na verdade, ainda é), que o poeta Allen Ginsberg nota, na introdução desta edição, que “se alguém dissesse em voz alta ‘fumo’ no ônibus ou no metrô, podia ser preso. Mesmo que estivesse apenas discutindo mudanças na legislação”.

Foi Ginsberg (o célebre autor de Uivo), o grande incentivador de Burroughs, ao lado de outro poeta beat: Carl Solomon (De Repente, Acidentes). Juntos, eles foram os responsáveis por botar Junky nas bocas.

Solomon era sobrinho do dono da editora Ace Books. Assim, Junky foi publicado não apenas com diversos cortes, mas em uma esdrúxula edição Two Books in One (dois livros em um), com outro livro no verso, escrito por um ex-agente da Delegacia Federal de Entorpecentes.

Esta edição, felizmente, não só não traz o dispensável livrinho moralista do cana, como chega, pela primeira vez, com o texto integral, sem cortes.

Para confirmar o caráter “definitivo” anunciado na capa da presente edição, a tradução é do mesmo Reinaldo Moraes que já havia traduzido a versão publicada pela Brasiliense nos anos 1980.

Para quem não sabe, Moraes é autor daquele que talvez seja o maior clássico beat brasileiro: Tanto Faz (1981).

Tão direto que fica cômico

Em tempos que se discute a legalização da maconha e uma mudança de paradigmas no combate ao tráfico e tratamento de viciados, Junky oferece uma visão sobre o tema das drogas tão descompromissada com a seriedade inerente ao assunto, que recomendar sua leitura como referência seria, no mínimo, uma irresponsabilidade.

É esse mesmo descompromisso, porém, que torna sua leitura tão fascinante.

Alguns trechos são tão absurdamente diretos que chegam a ser cômicos, de tão subversivos.

Exemplo: quando adota o uso de cocaína para se livrar da heroína, o narrador faz as seguintes considerações: “Coca é puro barato. Te deixa ligadão – uma ligação mecânica que começa a te abandonar mal você começa a senti-la. (...) Mas no que a cocaína abandona seu organismo, você esquece por completo dela. Cocaína não provoca dependência”.

Hum, hum.

Incorreção política à parte, Junky deve ser lido pelo que é: um clássico de sua época.

Junky - Drogado - Edição Definitiva / William S. Burroughs / Companhia das Letras/ 176 p./ R$ 37/ E-book: R$ 26/ www.companhiadasletras.com.br