Em seu primeiro CD de estúdio desde 2005, Marcelo Nova fala do sexo feminino e trata a música como moldura para narrativas – com ótimo resultado
São mesmo incertos os caminhos da criação artística. Muitas vezes o artista toma um caminho achando que vai chegar em determinado destino.
Aí entram em cena desvios e imprevistos: o imponderável. E o que era para ser assim, torna-se assado.
Marcelo Nova (fotos de Livia Lamana) experimentou bem essa situação durante as gravações do seu novo álbum, 12 Fêmeas.
A boa notícia é que o resultado do seu périplo pelo reino do imprevisível rendeu aquele que é, possivelmente, seu trabalho solo mais enxuto e bem resolvido.
Temático, o álbum de 12 faixas passeia, como se pode deduzir do seu título, pelas experiências e impressões de Marcelo com aquilo que mais lhe causa admiração e fascínio na vida: o sexo feminino.
“Eu não possuo a qualidade de compositores de alma feminina, como Chico Buarque, que se colocam como mulher na canção. Essa capacidade eu realmente não tenho”, admite o músico, pelo telefone.
“Todas as minhas canções são do ponto de vista heterossexual. Do ponto de vista do homem. São canções que expõem meus sentimentos sobre esses seres misteriosos que eu tanto aprecio. Há paixão e ódio, perda e redenção”, descreve.
Mas que não se espere revelações picantes ou algo que o valha. O que conta para Marcelo é a poesia, a metáfora, a impressão que as mulheres que passaram por sua vida lhe deixaram.
“Isso é um disco, não uma autobiografia”, avisa.
Mesma vaca, outra teta
Produzido “a três cabeças e seis mãos” – como ele mesmo diz – por Marcelo, seu filho Drake Nova (guitarras e violões) e Luiz De Boni (piano, órgão, contrabaixo, Harpsichord, violões), 12 Fêmeas começou como um desafio quase intransponível para o ex-Camisa de Vênus.
O desafio era transpor a sombra projetada por seu último CD de estúdio, o épico autobiográfico O Galope do Tempo (2005).
“A medida que o tempo foi passando, o Galope virou uma coisa quase insuperável entre as pessoas que apreciam meu trabalho”, relata Marcelo.
“Era como se eu não tivesse mais para onde ir depois daquele disco. Não tinha mais nada para sugar da teta daquela vaca”, diverte-se.
“Como eu gosto muito da vaca, troquei só de teta. Percebi que no Galope, eu havia buscado uma sonoridade única para todas os instrumentos. Fiquei 12 dias no estúdio só experimentando timbres. No que ia achando, estacionava ali. Gravei o disco todo como uma música só em 16 faixas”, relata.
Para o 12 Fêmeas, Marcelo decidiu variar as sonoridades e os timbres dos instrumentos. Mas de uma forma que a parte instrumental não colidisse com aquilo que ele considera o cerne de sua obra: as letras.
“Nesse disco, eu tive o cuidado de deixar o texto em primeiro plano. E coloquei, para contrapor, aquelas guitarras distorcidas e insinuantes que sempre fizeram parte do meu trabalho”, descreve.
E assim Marcelo entrou no estúdio com Drake e De Boni. Mas esqueceu a porta aberta – pela qual o imprevisto adentrou o recinto em uma forma das mais surpreendentes.
O monge ninja no estúdio
“Na verdade. Entrei no estúdio só com Drake. Queria um disco de sons crus e rudes: voz, violão e guitarras. Algo na linha Nebraska (1982), de Bruce Springsteen”, revela.
Depois de gravar três faixas, Marcelo pediu ao dono do estúdio, o De Boni, que adicionasse um órgão em determinada canção. De Boni gravou em três ou quatro. Foi incorporado ao projeto.
“Aí surgiu o Goba Wagnka”, conta.
“Uma noite, entrou no estúdio um bando de monges nepaleses de indumentária laranja. No meio deles tinha um, muito alto, carregando um monte de instrumentos de percussão estranhíssimos. Era o Goba Wangka”, detalha Marcelo.
Os monges, de passagem pelo Brasil, iam gravar uma música para o projeto Free Tibet. Admirado, Marcelo convidou o percussionista de nome exótico para gravar em seu disco.
Convite aceito, o religioso oriental concedeu um peso e um tempo completamente inusitados ao disco.
“Ele toca de uma maneira monástica, concentrado, quase imovel, sem expressão no rosto, como uma espécie de ninja. Foi muito desconcertante ver aquilo”, descreve.
“Quando ele bate na caixa da bateria, parece que está sempre alguns milissegundos atrasado. Ele puxa um pouquinho de nada a canção para trás no andamento, é muito sutil. Ele colocou a personalidade dele. E ai o disco ficou com outra cara, muito distante do que eu tinha imaginado anteriormente”, conclui.
Resenha: Em 12 Fêmeas, Marcelo encontrou forma musical ideal para derivações poéticas
Nos seus últimos trabalhos, Marcelo Nova andou perseguindo ferozmente a forma musical mais adequada para suas letras cada vez mais longas, narrativas e complexas – já que ele veio se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais distante do punk raivoso que viveu nos anos de glória do Camisa de Vênus.
Talvez só agora, aos 61 anos muito bem vividos, tenha chegado à forma musical perfeita para suas derivações poéticas.
Mal comparando, 12 Fêmeas, o resultado desta busca sem fim, é um álbum de caráter literário como New York (1989) ou Songs For Drella (1990), ambos de Lou Reed: é um disco que se ouve como se lê um livro.
Mérito não só dele, mas também – possivelmente, em igual medida – para Drake Nova (muito promissor, cria riffs tanto delicados quanto pesados) e Luiz De Boni, parceiros de primeira hora, além do incrível baterista nepalês Goba Wangka.
Aqui, a música muitas vezes atua como uma tela, na qual Marcelo pinta paisagens de beleza inusitada e algo selvagem, como na faixa A Minha Inveja: “Eu invejo o vento / Que sussurra em seus ouvidos / Que lhe arrepia as coxas / Suspende seu vestido / Afasta seus medos / Lhe sopra os cabelos / Afaga seus lábios, varre seus pensamentos / Eu invejo o vento”.
Caderno de impressões
Menos um caderno de memórias do que tratado de impressões sobre as mulheres, 12 Fêmeas consegue ser uma audição mais compensadora do que seu antecessor, O Galope do Tempo (2005), não apenas por que, como supõe seu autor, tenha uma sonoridade mais variada, mas também por que, mesmo sem buscar isso, consegue soar mais contemporâneo – em sua simplicidade espartana.Mais compensador ainda é notar como segue incólume aos apelos mercantilistas um artista cujo único compromisso sempre foi com a própria verdade.
No fim das contas, não há nada mais artístico do que isto.
12 Fêmeas / Marcelo Nova / Unimar Music / R$ 24,90 / www.marcelonova.com.br











































