terça-feira, junho 12, 2018

UM NOVO (E BELO) CAPÍTULO

Dono de impressionante consistência na carreira de mais de 25 anos, Ronei Jorge lança amanhã, com show no Teatro Sesc Pelourinho, seu primeiro álbum solo: Entrevista

Os dois lados (dos muitos) de Ronei Jorge, em foto de João Milet Meirelles
Amanhã, o cantor e compositor soteropolitano Ronei Jorge inicia um novo capítulo de sua carreira de mais de 25 anos: Entrevista, seu primeiro disco solo, será lançado com um show no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Desde 1992, quando surgiu  à frente da banda punk tropicalista Mütter Marie, Ronei vem construindo uma carreira das mais singulares do cenário local – e também uma das mais consistentes.

Singular também é o lugar de Entrevista em sua carreira. Fora o fato óbvio de ser o primeiro disco solo de um artista sempre ligado à bandas (Mütter, Saci Tric, Ladrões de Bicicleta), a obra traz o inquieto músico explorando outras estéticas e sonoridades.

“Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda queria também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios”, diz Ronei.

O que salta aos ouvidos é que, aqui, Ronei canta pela primeira vez acompanhado ao longo de todo o disco pelas vozes afinadas da dupla Carla Suzart (baixo) e Aline Falcão (teclado, piano e sanfona).

Juntas, as vozes de Aline e Carla auxiliam Ronei a implementar uma estética específica que ele buscou para Entrevista, algo entre Tom Jobim e Itamar Assumpção, que se utilizavam muito das vozes femininas para pontuar as harmonias e cantar em contraponto.

“Tanto Carla quanto Aline  cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho”, nota o artista.

Completam a banda o guitarrista Ian Cardoso (que já toca com  Aline na ótima Pirombeira) e o baterista Maurício Pedrão, parceiro de Ronei desde os Ladrões de Bicicleta.

Juntos, o quarteto Carla - Aline - Ian - Maurício formam a banda Dziga Tupi, nomeada pelo próprio Ronei, que, confessa, não sabe trabalhar sem uma banda pra chamar de sua.

”Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido”, conta.

“Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote”, diz.

Fora da caixinha

Indefinível – como de resto, tem sido seus discos ao longo da carreira – Entrevista é bem a obra de um artista que não aceita se confinar em caixinhas ou prateleiras de gêneros ou estilos musicais.

Aqui e ali é possível pescar suas referências – Caetano, vanguarda paulista, Tom Jobim – mas em nenhum momento se identifica a vontade de soar igual a eles.

“Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda”, aquiesce.

“Eu tinha pensado em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto”, detalha.

Com a produção rebuscada de Pedro Sá – responsável pelo  antológico Frascos Comprimidos Compressas (2009), com os Ladrões de Bicicleta – Entrevista ainda se vale de algumas participações especiais: Moreno Veloso (voz e percussão), Joana Queiroz (clarinete e clarone) e Luana Carvalho (caxixi).

A bela capa é de outro ex-Ladrões, o guitarrista  Edson Rosa e é literalmente uma pintura. Uma embalagem à altura para tamanha beleza.

Ronei Jorge & Dziga Tupi: Entrevista / Amanhã, 20 horas / Teatro Sesc Senac Pelourinho / R$ 20, R$ 10

Entrevista / Ronei Jorge / Independente (com apoio do Fundo de Cultura, SecultBA e Sefaz) / Nas plataformas digitais / CD: R$ 20



ENTREVISTA COMPLETA: RONEI JORGE

Álbum finalizado e lançado, o que te passa na cabeça sobre a obra agora?

Pô gente, deixa o homem dormir! Foto JMM
Ronei Jorge: Estou muito feliz. O disco ficou muito o que eu queria, e acho que o que a banda também. O som está muito bom. Adoro o resultado de mix e master, conseguiu dar mais evidência ao que havíamos feito nos ensaios. A capa de Edson Rosa é um presente, uma arte maravilhosa e que tem tudo a ver com o disco. As participações enriqueceram bastante o trabalho. Tem um álbum ali. Um caminho estético bem definido. A equipe, tanto no estúdio quanto na pós, foi fundamental. O entendimento de Tadeu Mascarenhas na técnica, Igor Ferreira na mix e Daniel Carvalho na master fez tudo começar e terminar bem. Acho que o maior desejo é que as pessoas escutem e que ele possa reverberar de alguma forma. Que as pessoas tenham a chance de escutá-lo com calma, o que hoje é mais difícil. Ele é bem representativo para mim artisticamente e bem fiel ao som que eu e a banda estávamos fazendo durante os ensaios.

O que te levou a chamar Pedro Sá para produzir este disco - fora o fato de já conhece-lo e aos seus métodos de trabalho? Que características você buscava no produtor?

RJ: Eu gostei muito de ter trabalhado com ele no ‘Frascos Comprimidos Compressas’ da Ladrões. Ali, ele já tinha me apresentado coisas que admiro muito numa direção de trabalho. Ele tem uma tranquilidade no estúdio que tem a ver com sua atenção, a ansiedade passa longe; então, você não vê ali um cara que quer te entupir de informação, você vê um produtor que quer que você renda da melhor forma possível e que te dá indicações sensíveis, sutis e importantes de como fazer isso. O ouvido dele está sempre atento – ele tem um ouvido muito musical –, mas ele só vai fazer observações precisas e inteligentes, no momento certo. Pedro é um produtor de pé de ouvido, chega junto de cada músico, ouve, pergunta, tenta buscar com cada um o melhor caminho para a música, sempre a serviço dela, do resultado final. Todo mundo fica bem tranquilo e seguro. Eu acho isso muito precioso, porque você tem no estúdio alguém em que você confia e admira. Você tem um produtor que entende o que você quer como resultado e consegue fazer uma leitura muito inteira do seu trabalho e potencializa ele tanto no estúdio quanto no acompanhamento na pós-produção. Além disso, é um amigo, um cara que abraçou esse projeto de uma maneira muito bonita e séria. Mesmo com dificuldades que surgiram, ele enfrentou tudo de maneira muito corajosa.

Você tem uma forma muito peculiar de escrever sobre - e descrever - relacionamentos. Que pistas você poderia nos dar para entender de onde vem essa lírica tão particular?

RJ: A gente que tá dentro do processo não percebe muito isso. Inclusive, algumas leituras são muito interessantes sobre o que escrevo. Um amigo, dia desses, me definiu como um falso romântico. Como se meu texto falasse de quem vê a ilusão, sabe que ela existe, mas não deixa de se envolver com ela. Palavras dele. Eu acho que tem realmente muito disso. Agora, a matriz disso é mais difícil ainda de se identificar. Acho que tem um pouco da experiência pessoal e de audição e leitura de artistas que admiro. No final das contas, essas relações humanas acabam abarcando um pouco de tudo. As nossas virtudes e vícios, culpa e prazer estão nessas relações. É mais universal, amplo, mas acaba falando de um monte de coisa. Desde nossos sentimentos mais íntimos, até nossa relação com as coisas do mundo político, profissional etc.

Como se deu seu encontro com esses músicos extraordinários que são Carla Suzart, Aline Falcão e Ian Cardoso? Como avalia a contribuição deles para o resultado final do álbum?

Dziga Vertov: Aline, Ronei, Carla, Ian e Maurício, foto João Milet Meirelles
RJ: Eu sou realmente um cara de sorte. Veja, não tiro minhas qualidades como um observador, uma pessoa que gosta de agregar, mas poderia dar tudo errado. Eu acabei juntando pessoas de lugares bem diferentes, mas que tinham em comum o fato de terem uma personalidade musical muito marcante. Ian eu vi quando fui jurado do Caymmi, fiquei fascinado com o fraseado, a técnica e a liberdade. Ian é muito livre e despido de preconceitos. Aline veio depois da saída de Lívia Nery. Eu tinha visto Aline com o Pirombeira e qualquer pessoa fica maravilhado com ela. Aline tem um vocabulário musical incrível e muita sensibilidade. Tem momentos que você percebe que ela está totalmente entregue à música, ali é o mundo dela, ela toca como se estivesse conversando, com uma naturalidade impressionante. Sabe tudo e mais um pouco. Toca demais. Carla eu conheci através de João Meirelles. João convidou ela para tocar com a gente no Tropical Selvagem e eu já cresci o olho naquela musicista de percepção sensível. Carla toca baixo de maneira muito particular, melodioso e com pausas e notas muito inteligentes. Além disso, tem um senso de conjunto muito apurado. Tanto Carla quanto Aline também cantam muito bem, têm vozes muito bonitas, o que era fundamental pra esse trabalho. Pedrão também tem essa característica particular, uma assinatura, uma preocupação com o timbre do instrumento, com a ambiência. Ou seja, todos eles contribuíram de forma decisiva nos arranjos, seja por característica própria, ou por nossas conversas e nossos ensaios constantes. Eu levei para eles minha ideia inicial e fomos lapidando juntos. Eles trabalharam nas músicas intensamente.

O álbum ficou bem indefinível, um traço próprio de artistas que não se satisfazem em caixinhas. Ao mesmo tempo, isso pode ser um problema na hora de "se vender" como artista, vender shows etc? Como você lida com essa corda bamba, esse fio de navalha?

RJ: Eu tinha pensado bastante em fazer um disco em que os arranjos tivessem mais uma presença narrativa para a canção do que um acompanhamento. Que dialogassem com a canção, fossem reafirmando ela ou até a contrastando. Um disco que tivesse as vozes femininas, que fosse orgânico, com senso de conjunto. Com a banda, fomos fazendo tudo isso. Eu nunca pensei em como lidar com essa indefinição porque a composição aparece para mim como uma necessidade, consequentemente, todo o entendimento estético que vai abarcar essas canções também: os arranjos, timbres, produção, a arte e finalmente o disco, a obra. Depois de feito isso tudo, você percebe o tamanho do pepino. Eu concordo que o disco não cabe em gaveta e isso reflete muito meu pensamento, acho que desde a minha primeira banda.

O nome Dziga Tupi é uma referência tropicalista? "Tupi or no tupi", aqueles lances todos? O Dziga é do (cineasta russo Dziga) Vertov?

Eu acho que eu não sei ficar sem uma banda. Eu fiquei vendo aquele grupo com uma sonoridade tão específica que não resisti e quis dar um apelido. Tem esses lances de raízes; tecnologia; brasilidade; mundo; passado; futuro, essas aparentes contradições e isso tudo é meio tropicalista. Tem uma coisa também que me atrai que é artista solo que tem uma banda com nome: Caetano e Outra Banda da Terra, Djavan tinha em alguns discos a Sururu de Capote. Em relação ao nome, realmente eu parti do Dziga – sim, é o Vertov mesmo – por causa da relação com cinema que já tinha na Ladrões de Bicicleta. Fiz essa graça. Esse nome, que já é um apelido do diretor russo, tem uma sonoridade ótima. Assim como Tupi, que eu acho muito bonito. E é interessante pensar que teve uma TV Tupi. Mas, antes de tudo, é um apelido carinhoso, um nome afetuoso para esses músicos tão presentes nesse trabalho.

Saci Tric na revista Bizz 184 (nov 2000). Blog Disco Furado
Te conheci cantando na Mütter Marie, uma banda que em alguns momentos soava como Dead Kennedys, e ao longo das décadas você veio se refinando em suas bandas subsequentes. Você ainda se reconhece naquele início quase punk rock? O que o Ronei de 2018 diria àquele Ronei de 1992?

RJ: Diria: respire um pouco. Brincadeira. Acho que todas essas bandas foram importantes para minha formação. Ter encontrado com esses músicos – todos meus amigos até hoje – fez muito parte de minha formação. Desde a Mutter Marie, eu e meus amigos prezamos pela liberdade. Acho que a gente acabava não se enquadrando em nenhum gênero. E é interessante sua comparação porque o Dead Kennedys era uma banda que estava no punk, mas era meio fora da caixa. Na Mutter Marie, a gente de maneira torta já estava flertando com música brasileira. De uma maneira deliciosamente irresponsável, é verdade. Então, eu me reconheço nessa liberdade, nesse senso de coletividade, no desejo de estar constantemente burilando meu trabalho. Apesar de minha aparente tranquilidade, minha cabeça não tem muito sossego.

Tem planos de circular com este show pelo interior e outros estados? O que podemos esperar de Ronei e Dziga Tupi nos próximos meses?

RJ: Hoje, acho que não temos muito como prever o que acontece depois do disco pronto. Tem muitas variáveis possíveis. Essa coisa das plataformas digitais, da música passeando na internet, é um mundo muito vasto e muito imprevisível. O desejo de viajar com essa banda é imenso. Testar esse show, perceber novas possibilidades de interpretar essas e outras músicas, é o que queremos. Vamos ver como o disco e o show chegam nas pessoas.

Um comentário:

Franchico disse...

Como não amar?

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