sábado, abril 17, 2010

ORGULHO E PRECONCEITO E ZUMBIS: MUITO HUMOR, NEM TANTA SANGUINOLÊNCIA



Não chega a ser uma “verdade universal“, expressão com a qual Jane Austen inicia seu clássico Orgulho e preconceito (1813), mas pode-se dizer que, com zumbis, tudo fica bem mais divertido. Foi pensando assim que um americano ligeiramente matusquela, Seth Grahame-Smith, resolveu “reler“ o livro original, transformando-o em Orgulho e preconceito e zumbis (Ed. Intrínseca).

Típico produto desta época de canibalismo (olha os zumbis aí) cultural, o livro gerou tanto fúria em professores de literatura inglesa quanto cócegas no cérebro de leitores de cuca mais fresca, além de gordas vendagens, o que o levou a ocupar o terceiro lugar da lista de mais vendidos do New York Times em 2009.


O sucesso foi tanto que a brincadeira, já designada de “mash-up literário“ pelos gaiatos de plantão, gerou uma série de lançamentos similares, como Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, Android Karenina e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, este último escrito pelo próprio Grahame-Smith.

Assim como os zumbis, os mash-ups parecem se espalhar rapidamente, chegando até o Brasil. A revista Época divulgou recentemente que a editora Desiderata tem uma versão morta-viva de Memórias Póstumas de Brás Cubas, nos planos – o que, aliás, parece casar como uma luva para a alma penada criada por Machado de Assis.

Não para por aí. Orgulho e preconceito e zumbis já está nas mãos da produtora Lionsgate para virar um filme, com Natalie Portman no papel da heroína Elizabeth Bennet. Enquanto isso, Grahame-Smith escreve a série de HQs Zumbis Marvel.


Comédia romântica e zumbis

Clássico da literatura universal e um dos retratos mais bem acabados da fleugma britânica em contraste com seu rigoroso sistema de castas, Orgulho e preconceito é uma deliciosa comédia romântica centrada no difícil relacionamento entre Elizabeth Bennet, uma linda jovem sem papas na língua, e o charmoso Sr. Darcy, igualmente franco em suas colocações.

Considerado um dos exemplos mais perfeitos de como se utiliza o recurso do discurso indireto em um romance, Orgulho e preconceito é também um rico painel de época e costumes.

A versão zumbificada de Grahame-Smith, segundo o próprio, manteve 85% do texto original de Austen intocado. Nos outros 15%, o “co-autor“, em um procedimento definido por ele mesmo como “uma microcirurgia“, introduziu uma terrível praga de mortos-vivos na Inglaterra – além de rigoroso treinamento nas artes do kung-fu em um templo shaolin para todas as belas e casadoiras irmãs Bennet.

Obviamente, o leitor que leva este tipo de brincadeira a sério – os leitores de Austen – devem passar bem longe da prateleira deste livro. Já o leitor bem-humorado – e, necessariamente, fã de George Romero – que se aventurar por suas páginas poderá ter duas sensações.

A primeira é tédio. Fã de zumbi que é fã de zumbi que ver o bicho pegar – e desmembrar e arrancar nacos de cérebro. Em Orgulho e preconceito e zumbis, estes últimos, na verdade, aparecem bem menos do que se espera. As vezes, muitas páginas se passam sem que um ataque dos “não-mencionáveis“, como são chamados, ocorra.


Porém, aqueles que se mantiverem firmes na leitura poderão ser recompensados com a segunda sensação que o livro provoca: um senso de humor dos mais divertidos, que contrapõe as frescuras dos empertigados ingleses com o desespero causado pelos ataques dos fétidos desmortos.

A mistura de comédia romântica com mortos-vivos, na verdade, não é exatamente nova. O DNA de Orgulho e preconceito e zumbis pode ser traçado a partir do filme Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead, 2004), de Edgar Wright, no qual um adorável loser vivido por Simon Pegg tenta reconquistar sua noiva entre machadadas e tripas voando numa Londres tomada por zumbis.

Orgulho e preconceito e zumbis / De Jane Austen e Seth Grahame-Smith / Tradução: Luiz Antônio Aguiar / Ed. Intrínseca / 320 p. / R$ 29,90

9 comentários:

Franchico disse...

Não poderia deixar passar uma oportunidade de publicar uma foto da gloriosa israelense Natalie Portman, no blog, né?

Judia de mim, judia, que eu num sou merecedor, deeeesse amooorrr...

(Alguém me dê uma surra, por favor?)

Mirdad disse...

Mudando de assunto, João Parahyba alerta:

"Vejam: quase todos os festivais e shows já têm apoio do seu município, do seu estado, (conquista deles é verdade) e muitos da grande iniciativa privada, e quase todos, com a desculpa da promoção e da formação de público não pagam cachê aos artistas e músicos convidados “é divulgação Etc. e tal”, mas não justifica, pois ganha pão, é ganha pão".

Leiam aqui, carta aberta aos músicos: http://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/

Franchico disse...

Aproveitando a deixa, deixo aqui o link para uma outra matéria que tá fazendo uma barulho dos diabos:

http://www.laboratoriopop.com.br/combustao/o-racha-dos-indies/6

Franchico disse...

Deu no Finatti:

* E MAIS UMA MORTE NO ROCK – incrível, mas é verdade: a home do nosso portal informa que o guitarrista Daniel Garcia, que tocou na banda sergipana Snooze (uma sensacional indie guitar band brazuca dos 90’), também foi pro saco, vitimado por um ataque cardíaco. O músico tinha apenas 34 anos de idade. Virou moda, agora?

Que melda.

cebola disse...

Melda msmo, cara. A snooze era muito massa e Daniel, gente boa. Descanse em paz, man.

cebola disse...

Hey. Vi a Você me Excita sábado, no ali do lado. Banda massa, héim!!? Acompanharei a gurizada. Pegada e refrôes na medida. E uma incidental de Pimball Wizard de responsa. Recomendadíssima.

Franchico disse...

Que tristeza. Parece que Walter Salles vai mesmo levor On The Road para as telas.

http://omelete.com.br/cinema/adaptacao-de-pe-na-estrada-dirigida-por-walter-salles-contrata-ator-de-tron/

Sou totalmente contra adaptar um livro como On The Road para o cinema.

Dirigido por Waletr Salles então...

É como injetar valium numa torta de anfetamina.

Simplesmente não vai dar certo. Salles é "artista" demais, contemplativo demais e politicamente correto demais para um livro frenético, anárquico e libertário como On The Road. Vai virar um Diários de Motocicleta 2.

Que horror.

marciorocks disse...

Ou seja: BEAT DEMAIS... senão vejamos...

Ernesto Ribeiro disse...

Francis, você acertou em cheio.

A crítica americana em peso também deu uma recepção FRIA para esse monumental engano que é On The Road by Walter Salles.


"Não tem a energia nem o espírito selvagem do livro." foi a opinião geral dos ianques.


Brasileiro em geral é cuzão.
E cineasta brasileiro filho de banqueiro paulista de família quatrocentona é inescapavelmente bundão, fracote e covarde.


Morno. Medíocre. Parado. Tudo o que Jack Kerouac NÃO ERA.

Cumé que deixam um projeto desses (o livro fundador da geração beatnick quie inaugurou a Cultura Jovem de Sexo & Drogas) nas mãos de um almofadinha que JAMAIS se drogou nem nunca experimentou uma sensação forte na vida?

Puta que pariu.

No meio da estrada, alguém devia ter atropelado aquele playboy com um caminhão.

Ah, se eu fosse um dos Hell's Angels...