segunda-feira, março 20, 2006

DYLAN POR SCORCESE (PARTE 1)

Bob Dylan foi o traidor original do movimento. A esta altura do campeonato muito já foi dito a respeito deste documentário, mas muita água ainda vai passar debaixo desta ponte devido a quantidade inesgotável de Historia e estórias contidas neste documentário. O documentário mostra o que é provavelmente o momento mais crucial da cultura pop , quando o golden boy da esquerdista musica folk americana torna-se elétrico e volta-se para o rock.Horror e choque. Escolha seu momento : causos folclóricos, revelações e confirmações de situações históricas, corações partidos e declaraçoes acidas de ex-amantes, alem de muita musica e poesia, contado por algumas das maiores figuras da historia contemporânea e pelo próprio Dylan, tudo filtrado e dirigido pelo maior cineasta americano da atualidade ( sorry Altman), Martin Scorcese.
Fazer um documentário sobre um artista reconhecidamente difícil de se lidar, alem das contradições contidas nas suas declaraçoes carregadas de ironia e sarcasmo não é uma tarefa fácil.Dylan é um artista que se tornou, aparentemente contra sua própria vontade, num semi-deus, mas Scorcese se mostra a altura e faz uma obra-prima.De verdade. Logo no inicio temos um envelhecido Dylan dizendo que sua vontade como artista sempre foi de fazer uma longa jornada , procurando por coisas não especificas durante esta trajetória e depois voltando pra casa, que ele nunca soube ao certo onde fica. Esta eterna procura de uma casa( no sentido de lar) é o mote do filme. Corta, entra uma versão furiosa de Like A Rolling Stone em 1966, que contem a estrofe que da nome ao filme.Continuando traçando as origens do caipira( pira-pora) de Hibbing, Minesotta, pertencente ao chamado Iron Range, temos a descrição de um quadro(desolado) do que seria sua casa, casa aqui no sentido de origem, alem de expor sua origem pobre. Região pesadamente dependente da mineração para girar a economia dos congelados grandes lagos, o garoto Robert Zimmerman desde cedo ligou-se a musica( basicamente country) para fugir a seu destino de trabalhar na pequena loja do pai ou trabalhar nas minas. Sua trajetória inicial em nada indicava que ali estava o herdeiro das mais caras tradições da musica folk americana, que diferentemente da breguissima musica country, era a musica da tradição do mito da ?Americana?,abraçada pela ?inteligentsia? americana, alem de ser trilha sonora oficiosa da então existente esquerda americana.. Se auto-intitulando um expedicionário musical, Dylan, já fora de Hibbing, e enrolando na Universidade de Minesotta em Minneapolis, se passou por um cantor pop de sucesso local(Bobby Vee), alem de roubar dezenas de Lp?s raríssimos de pesquisador Paul Nelson. Neste ponto Dylan já estava ligado na folk music, mergulhando firme na musica dos Weavers, John Jacob Niles, Odetta, John Cohen e principalmente Woody Guthrie. Mítico,Guthrie , todos sabem, foi a luz que guiou Dylan. A América estava em combustão, e a folk music era parte integrante do movimento dos direitos civis, que estava incendiando a América, e mudaria a historia, de todo o mundo, para sempre.E o epicentro da efevercencia artística ficava no Greenwich Village. Dylan desembarca no Village e em pouco tempo estava ligado a nomes como Dave Van Ronk, os Clancy Bros.,Allen Ginsberg, e depois Peter, Paul & Mary e Joan Baez.
Impossível não ficar fazendo referencias a técnica utilizada por Scorcese para contrapor este ambiente da folk music, que se achava sacrossanto, com as antológicas apresentações de Dylan na Inglaterra em 1966, aquela turnê do grito de ?Judas?! A resposta de Dylan não é menos antológica. Com escárnio, ele devolve: ?Eu não acredito em você, você é um mentiroso?. Alias a raivosa reação de grande parte da platéia mostra o quanto arriscado foi a decisão de Dylan de se tornar elétrico( leia-se rock?n?roll). A Band é chamada de banda pop ridícula, os fãs mais radicais ficaram revoltados, tudo isso retirado de sobras do ?Don?t Look Back,? de D.A. Pennebaker. Também existem trechos do filme ?Festival? de Murray Lerner, sobre o Newport Folk Festival, mostrando as vaias da platéia quando Dylan se apresenta pela primeira vez com uma banda elétrica. Depoimento do venerando Pete Seeger, dos Weavers, um bastiao da esquerda e do engajamento comunista dentro do movimento folk, mostra que até hoje esta mudança não foi bem assimilada. Seeger, e sua turma se sentiriam por anos traídos por Dylan, afinal Seeger tinha substituído Guthrie, e Dylan substituiria Seeger. Como aquele magrela caipira, que foi aceito no olimpo da esquerda intelectualizada, ousava dar as costas para a tradição e nobres propósitos do ?movimento?.Engraçado como é antiga esta discussão na arte e na musica pop, sobre integridade artística e o artista ?se vender?. Para os puristas, Dylan não poderia jamais se utilizar do vulgar Rock?n?Roll para passar mensagens, ou então não se corromper pelo comercialismo descartável do pop, verificado já naquela época( café pequeno comparado com o que viria depois). E qual foi a de Dylan? Um revolucionário que enxergou a emergência do rock como o principal porta-voz da contra-cultura? Um oportunista? Um dos principais poetas contemporâneos? Um mistificador? Tudo isso é claro, mas aquele papo que Elvis liberou o corpo, e Dylan liberou a mente, acaba sendo verdade. Não me parece que tudo tenha sido feito de forma intencional e planejada, mas sem duvida estes acontecimentos narrados no documentário são os momentos mais decisivos e influentes para o rock, e para a cultura pop em geral e suas circunstancias naqueles anos cruciais. Dylan, junto com Elvis e os Beatles, mudou o curso da historia. (continua)

15 comentários:

Franchico disse...

AAAÊÊÊÊ!!! Apareceu a margarida!! Nem li ainda, fiquei tão contente de Brama voltar a escrever aqui que comentei logo. Bem vindo de volta, Bramis!

Davi & Iris disse...

Doc,doc, doc. Onde tá passando, onde você viu?
texto muito bão.
Iris de Oliveira

sora disse...

Tá passando numa locadora perto de sua casa, ou na amerricanas por 50 cru-crus...

Bramis, tô encarando distinto doc pela sexta ou setima vez, e jah mudei de opinião inúuuumeras vezes sobre ele. Mais que é videoteca básica, é coisa que afirmo plenamente.


Abrçs


sora

cebola disse...

Muito legal esse post. O documentário é uma obra prima, até quem não gosta de Dylan deveria assistir, vale como cinema puro. Só uma questão em relação ao texto de braméuris. Não acho a música country em si brega, não. Existem muita boa música country, de altíssima qualidade, assim com muito folk metido e chato. Só de exemplo, Willie Nelson é Johnny Cash, beberam e são inspiração na country music da boa. No mais, tudo beleza, valeu rockloco, alguém tinha que fazer este trabalho.

osvaldo disse...

Onions a musica country era percebida naqueles tempos pela elite cultural. Dylan foi um dos responsaveis pela valorizaçao da country music, principalmente depois da basement tapes, mas isso é uma outro historia.

marciorocks disse...

"Dylan is
A punk rocker..."
E por aí vai.
Inclusive, "traidor do movimento?" foi como intitulei o post que escrevi ano passado no CCR sobre a turnê do "Judas". Providencial, com certeza!
Esse filme(DVD duplo!), comprei a 39,90 mangos no dia do lançamento em novembro passado via Americanas.com(tinha feito uma pré-ordem).
É absolutamente emocionante, essencial e definitivo sobre aquele período e além.
Valeu mesmo, grande Osvaldo!

osvaldo disse...

Errata, a musica country era percebida como brega pela elite cultural americana, ate meados da decada de 60.E Marcio, foi transmimento de pensaçao esse lance de traidor do movimento.

miguel cordeiro disse...

já faz um tempo q osvaldo me disse q escreveria sobre esse documentário. e fiquei ansioso e invejoso. ansioso porque osvaldo, assim como marcelo nova, nosso amigo comum albertino santana, marciorocks martinez e eu próprio, somos fãs terminais de dylan, e sabia q osvaldo iria fazer um relato emocional e preciso. e invejoso porque era eu que gostaria de escrever sobre este documentário.
algumas coisas q acho sobre dylan:
se não fosse ele e sua poesia beat musicada o rock´n´roll teria terminado ali por volta de 1963/64; ele ter se voltado para o rock elétrico era mais q normal. e, acho eu, q dylan ao visitar a inglaterra nos inicio dos 60 e ver caras da mesma idade q ele tocando uma musica eletrificada e calcada nos blueseiros e na raiz norte americana o levou a eletrificar tambem a sua musica. ver e entender o q faziam yardbirds, rolling stones, beatles e animals foi fundamental para sua mudança. e mais, tivemos no século 20 a figura de pablo picasso como modelo de artista q reflete e influencia o mundo e ele dominou este cenário até sua morte em 1973. e no turbilhão da arte pop a partir da segunda metade do seculo 20, vimos surgir outro gênio - mr. bob dylan, aquele q george harrison disse ser maior que william shakespeare. dylan sucede pablo picasso como o maior e mais influente artista do seu tempo.

Gabriela R. Almeida disse...

Na Velvet CDs (www.velvetcds.com.br) tá por 40 pilas.

cebola disse...

Vale a pena se dizer tb que, antes do própro Dylan, sua música já tinha sido eletrificada pela melhor banda americana ever ( essa sim, viu Nei!?), The Byrds, na canção Mr. Tambourine Man. O Byrds colocou na marca do pênalti, Dylan marcou o gol. Não me lembro de ter visto isso no documentário, que de resto, é perfeito. E tb não adianta, Hoje, Bob Dylan falar mal dos Byrds, que na época ele gostou, e não foi pouco, não.

marciorocks disse...

Errr... bem... veja só:
Em 1965, ano de lançamento do Mr. Tambourine Man dos Byrds, Dylan já havia lançado o Bringing It All Back Home poucos meses antes, sendo que o lado A era elétrico e o lado B, ainda com o pé no folk tradicional voz/violão/gaita. Ainda no mesmo ano(já depois do Byrds ter feito seu debut), viria a lançar o petaaardo Highway 61 Revisited, juntamente com aquela bombástica turnê abençoada pelo Deus do Trovão. O resto já se sabe...

Nei Bahia disse...

Dylan levou o rock a um outro patamar de poesia, mais como escreveu com muita felicidde Miguelito, ele foi a Inglaterra e viu que a américa já estava sendo dissecada de forma menos sutíl pelo bluesmen a muito tempo.

Dylan é o Miles Davis do Rock!!

cebola disse...

errr pt. 2. Me referi ao compacto simples Mr. Tambourine Man, que impresionou mr. Dylan sobremaneira. Os Byrds foram os primeiros a perceberem que o folk, poderia se unir aos Beatles e gerar uma terceira forma. Quanto à quem influenciou quem, eu diria que este trio, Byrds, Dylan, Beatles, praticaram um "menage a trois" de dimensões surubásticas, e frutos que se ploriferam até hoje.

cebola disse...

só pra complementar, Mr. Tambourine Man, versão The Byrds, é considerado A primeira canção folk-rock gravada. Influência dos Beatles, e da british invasion, é cvlaro, sobre a formação folk/country de Roger McGuinn, que era um grande admirador de Dylan e Beatles.

Davi & Iris disse...

gracias pelas info. vô copiá