quarta-feira, novembro 23, 2005

TAKE IT TAKE A LITTLE PIECE OF MY HEART NOW BABE

Nem terminei ainda (faltam umas 60 páginas), mas eu não resisto. Enterrada viva (8ª edição em 1991, 334 páginas, Ed. Civilização Brasileira, tradução de Vera Neves Pedroso), a clássica biografia de Janis Joplin escrita por Myra Friedman, amiga pessoal da cantora e assessora de imprensa e RP do escritório de Albert Grossman (judeuzão esperto como a porra que também era empresário de Bob Dylan e Peter, Paul & Mary entre outros - veja mais sobre Grossman em No direction home, o recente documentário de Martin Scorsese que já nasceu clássico) é, se ninguém aí perdeu o fio da meada com tantos nomes citados de uma vez só, simplesmente, um dos melhores livros sobre rock, sobre uma época e finalmente, sobre uma verdadeira estrela da música, que eu já li em toda a minha caspenta existência, se me permitem um toque amargo de baixa auto estima aqui. É que não dá para se sentir diferente, não depois de ler o relato preciso e a análise fria e acurada de Friedman, uma repórter de mão cheia, sobre aquela época e aquela pessoa em particular. Quando se fala em anos 60, os sobreviventes daqueles anos loucos costumam dizer que não se lembram direito de nada, por que estavam tão inapelavelmente pirados na batatinha, que foi tudo pro ralo do esquecimento mesmo. Myra Friedman, contudo, deve ter sido uma das pessoas mais chatas do mundo naquele tempo, pois ela devia ser o único ser humano "de cara" a freqüentar shows e festivais de rock. Só isso explica como ela se lembra de detalhes como a roupa que Janis estava usando dia tal, quando elas tomaram um café na esquina tal em NY. Suas descrições são extremamente precisas e suas análises do comportamento e da personalidade de Janis são como as que você faria de seu melhor amigo: você conhece os defeitos, as qualidades, os traumas e vitórias. É foda: a mulher tava lá no concerto que Janis deu, à pulso, digamos assim, para uns 2 mil motoqueiros Hell's Angels numa espelunca em São Francisco, à pedido dos motoqueiros. (Naquela época não era muito aconselhável declinar de um convite da temida gang.) O resultado foi Janis arrebentando sua garrafa de Southern Comfort em pleno palco na cabeça de um deles. O infeliz não parava de puxar uma de suas echarpes. Sorte que o líder deles viu que o bebum tava abusando Janis e deixou por isso mesmo. Friedman começa sua história do início, da infância de Janis. Como diz Ruy Castro, biógrafo tem que gastar sapato para escrever. Foi o que Friedman fez, indo à cidade natal de Janis, Port Arthur, Texas, entrevistar os pais, parentes e amigos da cantora. Ficamos sabendo que, no ano em que entrou na faculdade - que nunca terminou, claro - Janis ganhou o título de "Homem mais feio do campus". Isso aí, entre outros episódios deprimentes, mais uma tendência natural ao alcoolismo (seu maior vício), transformaram a menina texana de boa família numa pilha ambulante gigantesca, uma bomba relógio com hora certa para detonar. Muitos personagens típicos e engraçadíssimos da época, que passam rapidamente pelo livro, ganham um perfil detalhado e sardônico, para dizer o mínimo. Coisa digna de um Tom Wolfe. Vejam só esse trechinho pescado à esmo numa página qualquer:

"Emmet Grogan: autor de uma autobiografia, Ringolevio, editada em 1972. Quando o conheci, em 1968, ele ainda estava à procura de si mesmo. Ex-viciado em entorpecentes, ator, ladrão e naturalmente, digger (nota: Boiei. Alguém? Ferris?), Emmet alcançara alguma fama como um Robin Hood do Haight-Ashbury. Na verdade, alcançara mais do que fama. No "underground" (aspas da autora) americano, Emmet é tão lendário quanto o Pimpinela Escarlate. É procurado aqui, ali e há sempre dúvida quanto ao lugar onde ele possa ser achado: no céu ou no inferno. Na realidade, ele se parece com o Pimpinela tanto quanto com Sonny Corleone, com a diferença de que é um bonito descendente de irlandeses, com feições corretas e uma ira conquistada nas ruas do Brooklyn. Também já foi um menino de coro, tudo isso resultando numa combinação explosiva e numa tendência alarmante para julgar, de vez em quando, que todo o país está preocupado - negativamente - com Emmet Grogan".

E continua, mas isso aqui é só um parágrafo. Não é possível. Essa moça Friedman deve ter dado pra esse cara. Ou pelo menos, quis dar. Mas isso aí é só para vocês terem uma idéia do nível de refinamento do texto dessa mulher. Na página 196, encontramos o brevíssimo relato - pro tanto de história que até hoje nego (Serguei, principalmente) conta - sobre a passagem dela pelo Brasil no verão de 1969. Infelizmente, a autora não acompanhou Janis nessa viagem. Portanto, nada sobre Arembepe, nada sobre Serguei. Mas Salvador é citada: "Janis e David (Niehaus, que ela conhecera na praia em Copacabana) acabaram não se embrenhando na selva. Preferiram viajar pela costa nordeste do Brasil, até a cidade de Salvador". E só. É isso aí, amiguinhos. Enterrada viva é A Biografia quando se trata de Janis Joplin, se é que alguém aí ainda se interessa por ela. Eu mesmo achava que não me interessava mais. Janis Joplin é aquela coisa: você descobre ainda em algum ponto da adolescência, ouve loucamente durante uns dois ou três anos, e depois larga de mão. Pelo menos comigo foi assim. Já tive minha cota de Me and Bobby McGee, sabe? Bom, ainda não tenho nenhum disco dela, nem tive vontade de procurar um. Só comprei o livro por que achei por um preço razoável na banca de revista do shopping: R$ 19,90 (quem costuma ler isso aqui deve achar que eu sou o maior fominha: "porra, esse cara só compra coisas em promoção!". Nem sempre, galera). Ah: mais uma coisa: não sei se existem edições mais novas desse livro. Se não, é uma tremenda marcação de bobeira da editora nacional. Uma nova edição, acrescida de uma nova introdução da autora, entre outros extras, foi lançada pela editora americana. A Civilização Brasileira (ou outra editora) bem que podia relançar o livro com esse upgrade. Essa edição que eu tenho, de 1991, parece que foi feita antes do advento do Windows, pois a capa, ainda que austera, é bem tosquinha - em econômicas duas cores. Pesquisei no Submarino e a edição que eles oferecem - mas está esgotada - é igual à minha. Uma nova edição, devidamente revisada, com uma nova tradução, encadernada, acrescida do conteúdo atualizado da autora, repaginada (literalmente) e com uma nova e moderna direção de arte, certamente seria um sucesso de vendas. Enterrada Viva, A Biografia de Janis Joplin, por Myra Friendman, é um puta trabalho de fôlego. Se puderem, leiam.

SCOTT SOTO SOLTA A VOZ (E O REPÓRTER DO RL VÊ TUDO PELA GRETINHA DO LADO DE FORA) - Perguntei prum broher das antigas como foi o show do Jeff Scott Soto no Rock in Rio Café sexta passada e o cara de pau me envia o relato a seguir.

Cara, o show do JSS foi legal mas foi uma viagem porque eu cheguei lá por volta das 23h com Bubu. A porra da banda que tava tocando era mais ou menos merda e dei uma volta com Bubu pra queimar um... quando voltei fiquei ouvindo o som do lado de fora, não estava cheio... perguntei com toda educação (após um tradicional "boa noite") ao maluco da portaria se podia ver como estava lá dentro pela porta, sem entrar, e o cara disse que não dava... eu não acreditei e perguntei de novo: "Rapaz, eu não posso chegar na porta e ver como está lá dentro???" e não é que o FDP reiterou o não! Fiquei indignado e dei as costas pra ele com um sorriso escroto, e continuei do lado de fora falando com Bubu... de repente lá se vai uma seqüência de músicas do Marching Out... Percebi que era o JSS e o bonde já estava andando... Fui pelos fundos ver pela greta o movimento e só tinha cueca... Acendi outro dedo de hulk com Bubu e fiquei vendo o show pela greta... O som tava redondíssimo... Os caras tocaram cover do Queen, Scorpions, dance dos anos 70, Malmsteen, Whitesnake... Foi muito legal man, e o cara ainda canta pacas...

Por Ricardo Estupô, repórter especial para o Rock Loco.

Eu guento?

12 comentários:

Franchico disse...

Morotó Slim chora agarrado à uma garrafa de gim (a rima foi involuntária): MORRE LINK WRAY, ídolo da guitarra surf rock. Leiam a notícia na Dynamite: http://www.dynamite.com.br/2003a/lernews.cfm?cd_noticia=14514

Franciel disse...

Franchico,
que fominha, que nada! Você é um perdulário.
97,4% dos meus livros foram comprados em sebo. E mesmo assim quando havia promoções.
No entanto, já fui muito pior para as editoras. Na adolescência, gastei muitas tardes e sonos na Biblioteca dos Barris a custo zero.
Quanto a Janis Joplin, só tenho uma certeza: Serguei comeu ela porra nenhuma, rapaz.

Franchico disse...

É como eu vinha frisando, Franciel. É como eu vinha frisando. Triste isso. O cara baseou toda a sua (lá dele) vida e "obra" no fato de que, em 1969, teria comido Janis nas areias de Copacabana. Repetiu tanto, que é capaz até de acreditar que aconteceu, mesmo. Acontece.

Nei Bahia disse...

Chico, é um bom documento, mais é meio "Gilberto Braguiana" a visão da vida dela.
Sou fã de carteirinha, acho uma das figuras mais injustiçadas do rock, pois ela infelizmente está em mais camisetas do que nas estantes de cds.
Um pouco por nunca ter tido uma banda do seu nível, jogou quase sempre sempre sozinha, cruzando pra ela mesmo fazer o gol de cabéça.

Franchico disse...

Isso é verdade, Nei. A própria Myra Friedman diz no livro que a banda que mais se aproximou de ser à altura dela, foi a última, a Full Tilt Boogie. Porque a Big Brother and The Holding Company e a intermediária (esqueci o nome) entre essa e a Full Tilt estavam bem aquém do talento de sua líder. Mas discordo da visão "gilbertobraguiana", Nei. Acho que às vezes - devia ter dito isso no texto - Friedman analisa TANTO Janis e seu comportamento tresloucado e extremamente carente, que chega a cansar. Mas ela nunca, em nenhum momento do livro, resvala para o sentimentalismo barato. Pelo contrário: a mulher é uma pedra de gelo - fria como a porra, tanto no relato dos acontecimentos, quanto na análise dos mesmos.
Ah: realmente, nunca tive um disco dela. Na adolescência, eu ouvia Janis em fitas k7 gravadas pelos amigos. Já camiseta de Janis, tive duas, compradas na Coringa - e olha, faziam o maior sucesso nos shows da Úteros, 14, 15 anos atrás. Tanto que a primeira eu tive que dar - não, fui obrigado mesmo - para alguma doidona na época. Ê, tempo bão!

osvaldo disse...

A banda do meio era a Kozmic Blues Band, na qual Janis "Pearl" Joplin era bandleader, ao contrario da Big Brother, aonde ela era uma integrante ate estourar para o grande publico em Monterey. Não acho Janis injustiçada, o que houve na minha opinião foi uma super-exposição( como Hendrix e Doors) , alem da necrofilia desenfreada, após sua morte. Ao contrario de Hendrix, que tinha milhões de horas de gravações ineditas, Joplin teve uma carreira bem menos prolifica, daí o desgaste do seu repertorio, trilha sonora dos "ripis" de todo o mundo. Cantora extraordinaria, mais feeling que tecnica, ela é um dos expoentes do rock.(ponto). Sem sua existencia o rock teria sua expressão diminuida. E o na onda do revisionismo rocker, foi lançado recentementer um ao vivo do Big Brother & The Holding Company, pre Janis, e a Mojo se derreteu dizendo que eles eram uma grande banda de acid-rock.

osvaldo disse...

Cê pensou que não ia piorar. tá em plena Styllus post do venerando Simon Reynolds tecendo loas a Tati- Quebra Barraco, Edu K ( Popuzuda Rock'n'Roll) e ao funk carioca.Nada como o exotismo, ou "Am I missing something"? http://www.stylusmagazine.com/feature.php?ID=1981

Franchico disse...

Quem não perdeu nada foi o Vaticano. Burros somos nós (quer dizer, lá eles). Segura essa:

Para Cardeal, musica de Daniela Mercury é caótica

Sexta-feira 25 de Novembro, 2005 9:03 GMT Sexta-feira 25 de Novembro, 2005 9:03 GMT

VATICANO (Reuters) O cardeal de Sevilha, Don Arturo Corlate, afirmou nesta manhã na Praça de São Pedro, que o veto da cantora Daniela Mercury nada teve haver com a posição dela em relação ao uso da camisinha. De acordo com o Cardeal, o motivo do veto foi mesmo as músicas das cantora, que não soaram nada bem aos ouvidos dos Cardeais. ?O ritmo dela é caótico e sem métrica alguma, e nada tem haver com a atmosfera harmoniosa que dá vida ao Vaticano?, afirmou o Cardeal regente do Coral Gregoriano de Roma. ?O Vaticano respeita a opinião de todos os artistas, embora seja muito claro em suas determinações. O caso da cantora brasileira, foi estritamente musical?, completou o Cardeal.

Nascido na Espanha, Don Arturo Corlate se mudou para Viena aos 14 anos idade. Lá, ele estudou música clássica por dez anos até descobrir sua vocação religiosa e se mudar para Roma. Lá iniciou seus estudos teológicos, porém jamais abandonou a paixão pela boa música. Cardeal Maestro com é conhecido, Arturo Corlate já regeu diversas orquestras como a Filarmônica Juvenil de Roma e a Orquestra das Armas do Vaticano. Morando nas instalações da capital da Igreja Católica há dezoito anos, o Cardeal Maestro é tido como um dos menos conservadores e mais amistosos do clero.

Segundo fontes do Vaticano, a questão da camisinha foi criada apenas para não ofender o duvidoso gosto musical brasileiro, que tem Daniela Mercury como um de seus grandes ícones.

© Reuters 2005. All Rights Reserved.

UAH-UAH-UAH-UAH-AUH-IUA-UIAH-AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!

Marcos Rodrigues disse...

Ai macacada; domingo tira a bunda do sofá e deixa Faustão falando sozinho. Soul Sundays no Miss Modular, 18h. Mod jazz, Northern Soul, Motown e outros 'rare grooves'. Só 10 pila. Até às 19h, R$5. Ah, e Lorena colocou a caipirinha dupla aos domingos.

Franchico disse...

Hã? Claro o quê?

osvaldo disse...

Pela primeira vez em muito tempo sou forçado a concordar com uma posição da igreja catolica. E o Cardeal sabe das coisas. E tem mais, toda a patetica discussão gerada na Bahia sobre o veto a Mercuri ( pronuncia Mer-cú-ri, é vero!) teve como função encobrir os reais motivos da sua barração. Primeiro sua musica de gosto duvidoso , e segundo sua condição de não-católica. O sincretismo religioso entre catolicismo e candoblé é tolerado no Brasil, mas não é admitido em sociedades mais rigidas e/ou menos permissivas.Antes que me acusem de alguma coisa, não tô nem aí, sou agnostico, mas é engraçado ver Daniela Mercuri achar que no berço do catolicismo vaõ tolerar papo de "muito axé pra você".

Marcos disse...

Miss Modular 01 Ano. Festa de aniversário, com DJ Dolores, Brinde, Dj Angelis Sanctus e...Dj Batata (será?). Quinta, 01 de Dezembro, no Miss Modular, 22h. Quem ainda não conseguiu um convite que dê os seus pulos ;)