terça-feira, janeiro 08, 2013

BOWIE & BERLIM, UM CASO INACABADO

Há dez anos, David Bowie se calou. Depois que lançou seu último álbum, o regular Reality (2003), não lançou mais nada inédito.

Hoje, justamente quando completa 66 anos, o camaleão capricorniano ressurge com música nova, Where Are We Now?, uma linda balada a base de pianos, em que parece declarar, sem medo de nostalgia, sua saudade da aclamada "fase Berlin" (1976-79).

No clipe divulgado hoje em seu site (http://www.davidbowie.com), dirigido por Tony Ousler, o gênio do rock aparece com o rosto acomodado, via chroma-key, em um ursinho de pelúcia deixado em um cenário meio desolado que lembra o ateliê de artista.

Enquanto canta, uma tela atrás dele (e de outro boneco de pelúcia com um rosto de mulher ao seu lado) exibe cenas em preto e branco de Berlin.

Na letra, exposta em lettering na tela, Bowie cita locais famosos da metrópole alemã, como Potzdammer Platz, Dschungel (clube noturno que ele frequentava) e Nurnberger Strasse (rua Nurnberger), locais em que ele, se dizendo um homem perdido no tempo ("man lost in time"), levava os mortos para passear ("just walking the dead").

Polêmica, sua fase Berlin, que marcou o auge do seu vício em cocaína e um mal-disfarçado, porém efêmero fascínio pelo nazi-facismo, gerou três grandes discos em sua vasta e brilhante discografia: Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979), conhecidos como Trilogia Berlin.

Além disso, ele ainda produziu dois álbuns igualmente históricos para Iggy Pop, como The Idiot (1977) e Lust For Life (1977).

Agora, em Where Are We Now, composta com o velho parceiro Tony Visconti, Bowie parece querer acertar contas com um passado de certa forma obscuro, mas sem pedir desculpas.

Melancólico, mais parece explicitar inquietação com o fim da vida que se aproxima, do que arrependimento.

Olhar angustiado, Bowie canta versos como "o momento em que você sabe que sabe o que sabe" ("The moment you know / you know / you know"), como o prelúdio de um encerramento.

Mas não custa lembrar: este é David Bowie, um dos maiores atores de personagens - senão o maior - que o rock já produziu. Vale a pena esparar por março, quando sai seu novo álbum, The Next Day (O Próximo Dia).

Não será de se admirar se o álbum soar como uma contradição a tudo isso.

Boas-vindas de volta ao Camaleão. Que continue entre nós por muito tempo ainda.


POSSÍVEIS SEXUALIDADES EM BELA HQ BAIANA



O Quarto Ao Lado, álbum em quadrinhos (e alguma prosa) de Marcelo Lima e André Leal (com participações de Bruno Marcello e Daiane Oliveira), é uma obra que, por si só, já nasce histórica: salvo engano, é a primeira HQ baiana dedicada ao tema da diversidade sexual.

Longe do panfletarismo das cartilhas de ONGs, O Quarto Ao Lado centra sua narrativa principal no relacionamento ambivalente de dois amigos de infância, Rafa e Matias.

Há três outras tramas menores envolvendo personagens periféricos à trama principal, mas que ajudam a ilustrar a ampla gama de afetos bi e homossexuais que eram o objeto de interesse do idealizador da HQ, o roteirista Marcelo Lima.

Talento em ascenção após os bons resultados de seu álbum anterior, Lucas da Feira (em parceria com Marcos Franco), Lima começou a se interessar pelo tema da diversidade sexual ao integrar o grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), orientado pelo professor Leandro Colling (Ufba).

“Aí surgiu a oportunidade de me  aprofundar nesse tema, até por que muitos amigos meus tinham se assumido gays. Achei que HQ seria uma boa mídia para abordar o assunto e aí fui compondo a história”, detalha Marcelo Lima.

Com uma linguagem adulta e narrativa baseada em longos diálogos, Lima construiu sua história dispensando a estrutura clássica início-meio-e-fim, preferindo enfocar um período de tempo na vida dos personagens – um tempo de (in)definições.

“Assim como na vida, também na sexualidade muitas vezes as coisas não estão definidas. Então, quando pensei na estrutura da história, achei que eu tinha que acompanhar com naturalidade o que estava acontecendo, como numa passagem do tempo”, observa Lima.

“Tudo depende da configuração de cada relacionamento. Tem gente que se define e outras não. Mas, mesmo assim, passa por experiências. Alguns personagens são gays de fato, mas precisam se identificar e passar por experiências diferentes”, diz Marcelo.

Ele não sabe se O Quarto Ao Lado é, de fato, a primeira HQ baiana dedicada ao tema da homossexualidade, mas fica feliz por que só o tema em si, acredita, deverá atrair leitores não usuais de quadrinhos.

“O teor de sexualidade traz leitores não tão familiarizados com HQ. Muita gente me falou que este foi o primeiro álbum de quadrinhos que comprou na vida. Isso  mostra que HQ serve para abordar qualquer tema: não-ficção, jornalismo etc. Isso me deixa feliz. Gostaria que mais gente explorasse esses outros caminhos nos quadrinhos baianos”, exorta Lima.

Contemplado com financiamento pelo Fundo de Cultura da Bahia através do Edital Culturas LGBT, o projeto de Lima se materializa neste belo álbum P& B, no qual três artistas se esmeraram para visualizar os personagens e tramas do autor.

A principal, de Rafa e Matias, e a que abre o álbum, de Warren e Uíliam (que trata de um affair entre um turista inglês e um soteropolitano da Gamboa de Baixo), tem desenhos de André Leal, que também vem mandando muito bem em HQs como São Jorge da Mata Escura.

“Leal foi meu parceiro nesse projeto desde o início. Mesmo sem edital,  já tinhamos páginas prontas”, conta Lima.

Leal, dado a desenhar belas mulheres em trajes de ginástica, conta que nunca tinha trabalhado com personagens homossexuais antes, mas “não tive nenhuma dificuldade porque encarei como um serviço de qualquer outro quadrinho. É pegar as orientações contidas no roteiro e executar os desenhos dentro do prazo”, conta.

Ao Bruno Marcello coube quadrinizar a história da espevitada Isa, namorada de Rafa, contada em flashback.

E Daiane Oliveira ilustra o conto em prosa Um Corpo Estranho, que fecha o álbum.

Após o lançamento em Feira de Santana no mês passado, um coquetel na Livraria Cultura marca o lançamento na capital, amanhã.

(Imagem 1: André Leal, imagem  2: Bruno Marcello e imagem 3: Daiane Oliveira.)


Lançamento: Amanhã, 19 horas / Livraria Cultura (Salvador Shopping)

O Quarto ao Lado / Marcelo Lima, André Leal, Daiane Oliveira e Bruno Marcello / Fundação Pedro Calmon / 104 p. / R$ 15 / http://oquartoaolado.com

domingo, janeiro 06, 2013

CABEÇA DINOSSAURO AO VIVO 2012 REVITALIZA TITÃS REMANESCENTES

Com o perdão do clichê, às vezes é necessário dar um passo atrás para depois, avançar dois passos adiante.

Parece que é mais ou menos isto que acontece com os Titãs agora, com o lançamento do CD / DVD / Blu-ray Cabeça Dinossauro Ao Vivo 2012.

Gravado no Circo Voador (Rio de Janeiro), a performance, apresentada em preto & branco, captura os Titãs se reconectando à ferocidade punk rock que caracterizou o clássico LP Cabeça Dinossauro (1986) – um momento de virada decisivo para o então octeto paulista.

Hoje reduzida à um quarteto, a verdade é que a banda passou por momentos bem difíceis nos últimos doze ou quinze anos.

Entre saídas de integrantes (Nando Reis, Charles Gavin), a morte de Marcelo Fromer (2001) e a crise criativa evidenciada por uma saraivada de discos ao vivo, além de álbuns de estúdio insatisfatórios, como o último (Sacos Plásticos, 2009), a ironia é que foi com mais um “ao vivo” que estes veteranos conseguiram soar renovados.

Cabeça Dinossauro Ao Vivo 2012 é uma verdadeira pedrada no juízo e soa absolutamente à altura da obra original, o que, por si só, é uma boa notícia.

Cabeça DNA

Mas melhor ainda é descobrir que esse estágio já está influenciando o quarteto (mais o ótimo baterista Mário Fabre) nas composições do próximo álbum de estúdio dos Titãs, previsto para sair no  segundo semestre.

“Não tenho dúvidas que essa fase do Cabeça Ao Vivo vai influenciar nosso próximo disco”, confirma Paulo Miklos em entrevista por telefone.

“Uma coisa que aconteceu foi que o público descobriu  uma banda íntegra e cheia de tesão no palco. E com a gente em nova formação, com  o (Sérgio) Britto e o Branco (Mello) se revezando no baixo, eu na segunda guitarra e o Fabre na bateria, tudo isso  trouxe um ânimo renovado da juventude”, diverte-se Miklos, rindo ao telefone.

“Tocar esse repertório é entrar em contato com nosso  DNA. O Cabeça foi o momento em que definimos nosso estilo e nossa personalidade, ele forjou o caráter da banda”, vê.

Daí a importância do passo atrás antes dos dois adiante: “É saudável estar em contato com isso, agora que vamos nos debruçar sobre um material novo. É muito importante dar um passo adiante sintonizado com essa nossa tradição”, acrescenta.

Curiosamente, a retomada do Cabeça Dinossauro, incluindo a turnê iniciada no primeiro semestre – que passou por Salvador em julho e prossegue neste início de 2013 –, não estava nos planos iniciais da banda para 2012, garante o Titã.

“Radicalizamos”

“Nosso plano era sair em turnê com o show Futuras Instalações, preparatório para um disco novo”, conta Miklos.

“Aí, no final de 2011,  recebemos um convite do Sesc para fazer um show do Cabeça. Nós nem tínhamos muita vontade de fazer, mas quando virou o ano do nosso aniversário de 30 anos, começamos a achar interessante, que se justificava”, detalha o músico.

Recheado de hits como Polícia, Aa Uu, Bichos Escrotos, Igreja e Família, Cabeça Dinossauro foi o momento em que a banda apostou todas as fichas em um projeto arrojado: “Àquela altura, a gente já tinha feito sucesso de rádio, mas vimos que aquele não era nosso objetivo”.

“A coisa do hit radiofônico é que é um publico transitório, que se liga quando você faz sucesso, mas não acompanha seu trabalho”, constata.

“Aí radicalizamos: quem quiser vir junto agora é por que realmente gosta do que fazemos. Aí aconteceu o fenômeno. Mesmo nos shows de estreia, as pessoas cantavam todas as músicas, todos os lugares lotados. Foi uma grande felicidade”, conclui Miklos.







 
Titãs / Cabeça Dinossauro - ao Vivo 2012 / Titãs Diversão & Arte - Universal / R$ 24,90 / DVD: R$ 33,90  /  Blu-ray: R$ 69,90

quinta-feira, janeiro 03, 2013

PHILIP K. DICK: VOLUME DE CONTOS ADAPTADOS AO CINEMA TRAZ OS TEMAS MAIS CAROS AO AUTOR DE BLADE RUNNER

Meio genial, meio esquizofrênico (do tipo dado a visões místicas), o escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), permanece um enigma a ser devidamente desvendado.

Realidades Adaptadas (Aleph), livro que reúne sete dos seus contos transpostos para o cinema, poderá não elucidar os muitos pontos obscuros em sua vida e obra, mas é bom começo – além de ser uma senhora leitura para os apreciadores de sua ficção científica psicodélica, pessoal e intransferível.

Estão aqui os seguintes contos: Lembramos Para Você a Preço de Atacado (adaptado como os filmes O Vingador do Futuro, de 1990 e 2012), Segunda Variedade (adaptado como Screamers - Assassinos Cibernéticos, 1995), Impostor (Impostor, 2001), O Relatório Minoritário (Minority Report - A Nova Lei, 2002), O Pagamento (O Pagamento, 2003), O Homem Dourado (O Vidente, 2007) e Equipe de Ajuste (Os Agentes do Destino, 2011).

Infelizmente, quase todas estas adaptações falharam em captar o real espírito filosófico da obra literária de Dick e se ativeram aos aspectos mais superficiais dos contos, o lado mais aventuresco e comercial.

Desta leva, a adaptação mais digna é – por incrível que pareça – a primeira versão de Lembramos Para Você a Preço de Atacado: o filme O Vingador do Futuro (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger.

 Mas não exatamente por causa do carismático brucutu austríaco, mas por mérito do diretor, o holandês Paul Verhoeven, um legítimo subversivo entranhado no sistemão de Hollywood, e que, em 1987, já tinha cometido uma obra-prima da FC distópica: Robocop.

Já filmes como  Screamers - Assassinos Cibernéticos, Minority Report - A Nova Lei e  Os Agentes do Destino  ainda se prestam a uma sessão da tarde descompromissada.

Quanto aos outros... bom, era melhor que nem tivessem sido “cometidos”.

Realidade esfacelada

Quanto aos contos, o que se depreende da maioria deles (assim como da maior parte da obra de Dick) é que o homem era atormentado pelo princípio que veio a ser conhecido como Matrix: a realidade é uma ilusão.

E antes que alguém aí cite a célebre trilogia dos Irmãos  Wachowski, vale lembrar que a maioria destes contos foi escrito na década de 1950.

De diferentes ângulos, ele aborda diretamente o tema da “falsa realidade” em pelo menos três destes sete contos: Lembramos, Relatório e Equipe.

Já em Impostor, Segunda Variedade e O Homem Dourado, o tema também é o mesmo: o que é ser humano? O que nos torna seres humanos?

Que aliás, é o tema central do mais bem-sucedido filme  baseado em  um de seus romances: o clássico Blade Runner - O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott.

Questionamentos naturais para um ex-estudante de Filosofia da Universidade de Berkeley, diga-se. As formas como ele abordava essas questões é que eram extraordinárias.

Fama póstuma

À moda Hitchcock, seus protagonistas eram sempre homens comuns envolvidos em seus afazeres diários que, um belo dia, caem em uma espécie de toca de coelho (influência de Lewis Carrol?) e veem a realidade se esfacelar diante de seus olhos.

Um ótimo exemplo é Equipe de Ajuste.

O conto, de ambientação idílica nos subúrbios e escritórios norte-americanos dos anos 1950, mostra um homem que, um belo dia, chega na hora errada ao trabalho e flagra uma estranha equipe de trabalhadores “remoldando” a realidade, incluindo desde as divisórias até o físico das pessoas, como se faz com massa de modelar.

Acima, cena do filme Os Agentes do Destino, com Matt Damon e Emily Blunt, baseado neste conto.

Segue-se aí uma frenética busca do homem pela verdade, além do questionamento da sua própria sanidade mental.

O conto é bem ilustrativo da mente de Dick, que vivia atormentado com o que ele achava ser o espírito encostado de sua irmã gêmea, morta aos três meses de idade.

Outro episódio é sua experiência mística de 1974, experimentada após atender a porta e se deparar com uma entregadora de farmácia usando um pingente de colar na forma de um peixe – símbolo dos primeiros cristãos.

O episódio, ele relatou, o transportou para a Roma antiga, entre outras peripécias. Robert Crumb quadrinizou essa história maluca, que o jornalista brasileiro Alexandre Matias traduziu e jogou on line. Leia.

No fim das contas, tudo isso só torna ainda mais fascinante a leitura destes contos – como de resto, qualquer coisa que ele escreveu.

Morto por acidente vascular cerebral pouco antes da estreia de Blade Runner nos cinemas, Dick nunca viu nenhum dos filmes baseados em sua obra e é mais popular hoje do que jamais foi em vida.

Realidades Adaptadas / Philip K. Dick / Aleph / 304 p. / R$ 48 / www.editoraaleph.com.br

EXOESQUELETO: POWER TRIO ROQUEIRO FAZ BLACK MUSIC EM TEMPORADA NO JC COM BANDAS DE PRIMEIRO TIME

Dizem que o rock é o mais mestiço dos gêneros musicais, encontro de tradições negras (blues, spirituals) e europeias – através do country, um amálgama norte-americano de diversas tradições levadas aos EUA por imigrantes pobres.

Contudo, é praticamente inegável que o elemento negro desta equação sempre soou mais predominante do que o branco.

É nessa suposição que trabalha a promissora banda local ExoEsqueleto (foto: Maurício Lídio).

“Se for pra botar rótulo, o rock da gente é alternativo”, afirma André Dias (guitarra e vocal). “Agora, nosso som tem muita influência negra. Nossa proposta é basicamente tratar o rock como música negra”, diz.

“O rock começou com os negros então a ideia é resgatar isso mesmo, indo desde ritmos da África no som até as roupas, que são batas africanas”, conta.

Parceiras de primeiro time

Com Renato Almeida (bateria) e Ricardo Bittencourt (baixo e vocal) completando o power trio formado há menos de um ano, eles iniciam neste sábado temporada de quatro datas no badalado Café Atelier JC Barreto, em São Caetano.

Os shows terão sempre uma segunda banda escolhida a dedo entre as melhores do cenário local – bandas que aliás, não costumam tocar tanto quanto gostaríamos, portanto, a oportunidade é de ouro.

Neste sábado, a temporada se inicia com o instrumental arrojado da TenTrio. Dia 11 tem o pós-punk denso e poético da Declinium. No sábado seguinte (18), o punk ‘77 clássico da Pastel de Miolos. Encerrando a temporada, a Theatro de Seraphin faz o show do belíssimo álbum No Fim de Maio (2011).

“Chamamos bandas de que gostamos, até para fazer com  que circulem pela cidade. Fora que são  pessoas amigas também”, conta André. Em março, eles entram em estúdio para gravar o primeiro EP.

ExoEsqueleto e Convidados / Dias 4 (Com TenTrio), 11 (Declinium), 18 (Pastel de Miolos)  e 25 (Theatro de Seraphin) / Café Atelier JC Barreto / Ladeira do Bambui,  São Caetano / 21 horas / R$ 3



NUETAS

Scambo e Velotroz
Verão instalado, amigo(a). Não adianta reclamar. Uma boa é se jogar no Amostrão Vila Verão do Teatro Vila Velha, que, entre outras ótimas atrações, bota Scambo e Velotroz (na foto de Lunaé Parracho / Ag. A Tarde) no histórico palco do Passeio Público. A primeira na sexta-feira e a segunda no sábado. Sempre às 20 horas, R$ 30 e R$ 15.

Pelô night fever
O Pelourinho também vai andar bem agitado este verão. Vai ter uma senhora night hip hop com DaGanja & DJ KL Jay (Racionais Mc’s), Cosquarque Cosquality, Fall Clássico, Kiko e Blequimobiu (sexta-feira, mesmo local), Bemba Trio & Convidados (domingo, na Arena SESC  Pelourinho) e Gerônimo & Banda MontSerrat (mesmo dia, na Escadaria da Igreja do Paço). Programe-se, evite os zumbis viciados em crack e... divirta-se.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

SIN CITY - A CIDADE DO PECADO VOLTA EM REEDIÇÃO COM NOVA TRADUÇÃO


Em 1991, o quadrinista norte-americano Frank Miller estava no topo da sua fama e glória.

Foi nesse ano que, surpreendendo a todos, ele lançou uma série  independente e distante dos super-heróis que lhe valeram sua fortuna: Sin City - A Cidade do Pecado  – que agora, volta às prateleiras em reedição com nova tradução pela Devir.

Naquele momento, Miller tinha seu passe disputado a peso de ouro pelas grandes editoras de quadrinhos (Marvel e DC) e até pela indústria cinematográfica, que lhe ofereceu os roteiros de Robocop 2 e 3.

Foi ele o responsável por alguns dos quadrinhos mais influentes dos anos 1980 até os dias de hoje, como Batman - O Cavaleiro das Trevas, Ronin,  Batman - Ano Um, Elektra Assassina e outros, além de uma longa e espetacular fase inicial na revista do Demolidor (Marvel).

Fase esta que lhe rendeu a notabilidade para desenvolver estes outros trabalhos citados. Só que, após este período de trabalho febril e ultracriativo, Miller deu uma sumida.

O que aconteceu foi que, nos bastidores da indústria, criadores como ele, Alan Moore (Watchmen), Howard Chaykin (Black Kiss) e Marv Wolfman (Crise nas Infinitas Terras) começaram a brigar com as grandes editoras, as quais não apenas detinham o direito sobre suas criações, como ainda exerciam  censura.

Miller, Moore e Chaykin se encheram e pularam fora desta indústria por um bom tempo.

Descida ao inferno

Foi assim que, a partir  199o, Miller começou a lançar trabalhos por editoras independentes, nas quais manteria a propriedade intelectual sobre seus esforços,  como Hard Boiled - A Queima Roupa, Liberdade: Um Sonho Americano e Sin City - A Cidade do Pecado.

Sin City, a HQ em questão aqui, foi inicialmente publicada em capítulos na revista Dark Horse Presents, da editora indie Dark Horse, sendo mais tarde lançada completa nesta coletânea, agora em nova edição.

Nela, somos apresentados à fictícia Basin City e ao seu universo de personagens – todos sem caráter, envolvidos com o submundo local e sempre com o dedo no gatilho, prontos para matar ou morrer.

Em glorioso preto & branco (sem tons de cinza), Miller demonstrou a evolução da sua narrativa gráfica, que sempre esteve  muito próxima ao cinema – no caso, ao noir dos anos 1930 / 40, bem como à sua retomada moderna na década de  1980.

Nesta HQ inaugural de uma longa série, o foco está no personagem Marv, um grandalhão de tendências psicopatas que, após uma noite de sexo com uma prostituta, acorda no dia seguinte com a moça morta ao seu lado.

Ressaqueado, Marv não se lembra de nada. Foi ele mesmo que a matou? Ou não? Mais noir, impossível.

A partir daí, dá-se uma frenética descida ao inferno que é o submundo de Sin City, habitado por gangsters, traficantes, políticos corruptos, polícia idem e mais prostitutas.

O sucesso foi tamanho que, em 2005, Sin City ganhou fidelíssima adaptação ao cinema pelo diretor Robert Rodriguez (Machete).

Ele ainda convidou o próprio Miller para co-dirigir o filme, baseado nesta HQ (também conhecida pelo subtítulo em inglês The Hard Goodbye) e mais dois volumes posteriores: O Assassino Amarelo (That Yellow Bastard) e A Grande Matança (The Big Fat Kill).

Uma continuação, Sin City: A Dame To Kill For (baseada no volume A Dama Fatal) já está sendo rodada em 3D por Rodriguez e Miller no Texas, com estreia prevista para 4 de outubro de 2013 nos EUA.

Sin City - A Cidade do Pecado / Frank Miller / Devir/ 216 p./  R$ 44/ www.devir.com.br

PÓS-COREIA, QUARTETO DE CINCO SOLTA EP PARA DOWNLOAD GRATUITO

Bem apreciada pela rapaziada alternativa local, a banda Quarteto de Cinco (foto: Agnes Cajaíba) está de volta ao cenário após um hiato de alguns meses, nos quais gravaram o EP Recompensa, disponibilizado para download gratuito.

Com cinco músicas inéditas mais a faixa-bônus Boa Viagem, gravada para o álbum A Cara e o Coração (tributo a Guilherme Arantes), o disquinho foi gravado pouco tempo depois da viagem do grupo à Ásia, em novembro de 2011.

O grupo foi a Seul (capital do Coreia do Sul) como  finalista do concurso Yamaha Brazilian Beats e fez bonito representando a Bahia em um show.

“Ah, essa viagem com certeza marcou muito nossa ainda curta trajetória e nosso currículo. Muita gente ainda pergunta pra gente como foi, Foi um grande passo pra gente e pro rock baiano. Fomos muito bem tratados e nos divertimos muito”, conta João Victor, o vocalista.

O que vier, eles estarão lá

No show em Seul, ele até arriscou falar coreano. “Foi bem engraçado. Iniciamos o show com a  música Ela, que começa com um toque de agogô. Todo mundo começou a bater palma. Aí quando entraram as guitarras eles adoraram, bateram palmas, dançaram. Aí quando eu disse  ‘boa noite’ e ‘obrigado’ em coreano, eles ficaram bem surpresos”, descreve João.

Na sexta-feira passada, a banda se apresentou no Portela Café com Vivendo do Ócio e Velotroz, parceiras de geração, diante de uma casa cheia – e em janeiro, já há uma data para eles (a ser divulgada em breve) em uma das praças do Pelourinho.

“Tinha sete meses que a gente não tocava aqui. Desde que voltamos dessa viagem, só fizemos um show aqui (em abril) e outro em Vitória da Conquista. Por isso o nome do EP é Recompensa. É nosso agradecimento ao público  por estar nos dando um feedback tão positivo desde que começamos”, diz.

Formada por  João (voz), Silvio de Carvalho (guitarra e voz), Beto Calasans (guitarra), Coelho (baixo) e Thiago Gomes (bateria), a Quarteto de Cinco espera conseguir entrar em estúdio ainda em 2013 para gravar seu primeiro álbum cheio.

“No que depender de nossa boa vontade sai em 2013 mesmo. Estamos muito esperançosos. Queremos formar mais publico. Nosso trabalho é sério e  nossa prioridade agora é rodar a cidade, o interior, São Paulo, Rio... o que vier, estaremos lá” conclui o entusiasmado João.

www.quartetodecinco.wix.com/recompensa

terça-feira, dezembro 25, 2012

O ROAD MOVIE E O BAIXISTA PERDIDO DOS FAB FOUR

Existem poucas verdades universais verificáveis e incontestes, como, por exemplo, “o céu é azul” ou “Beatles nunca é demais”. Ao menos, não para os fãs.

Dois lançamentos recentes vem corroborar esta segunda verdade – e certamente, estarão amanhã, empacotados, sob muitas árvores de Natal.

O primeiro é aquele adorável registro do auge da psicodelia em película: Magical Mystery Tour, o filme de 1967 produzido e dirigido pelos próprios Beatles, restaurado, remasterizado e lançado em DVD e Blu-ray.

O segundo é a HQ Baby’s In Black: O Quinto Beatle, do quadrinista alemão Arne Bellstorf.

Curiosamente, ainda que este último não seja um produto Beatles “oficial”, ambos, filme e HQ, jogam luz sobre dois dos momentos menos documentados da banda de Liverpool – se é que isso ainda é possível.

Psicodelia à bordo

Produzido como um especial de TV com pouco mais de 50 minutos e exibido pela BBC em 26 de dezembro de 1967 – há exatos 45 anos, portanto – Magical Mystery Tour foi considerado tão ruim, à época, que a emissora cancelou uma segunda exibição previamente agendada.

Compreensível: a coisa toda era tão sem pé nem cabeça, além de obviamente movida a fartas doses de LSD,  que foi demais para a tradicional família britânica – Real ou plebeia.

Basicamente, o filme mostra os quatro Beatles e mais um elenco de adoráveis maluquetes de várias idades em excursão pelo countryside inglês, partindo de Liverpool em direção à Blackpool, Noroeste do país.

Não havia roteiro. Apenas situações nonsense, como a de Ringo (Beatle mais engraçado em cena), que passa quase que o filme inteiro às turras com “Tia Jessie”, uma senhora interpretada pela atriz Jessie Robins.

Ringo brilha novamente na parada que o ônibus faz em um quartel, aonde o grupo é “regulado” por um sargento histérico, que fala sem parar.

Só que ele fala tão rápido e sem sentido que a legendagem em português abre um parêntese e se desculpa: “Oficial do exército diz coisas incompreensíveis”.

Quando ele termina de falar, Ringo candidamente pergunta: “Por que”? – para total desconcerto do milico.

Não a toa, o filme foi muito comparado aos da trupe inglesa de comédia Monty Python, e com razão.

Entre um esquete nonsense e outro, clipes da genial trilha sonora, que inclui clássicos como I Am The Walrus, Fool on The Hill e a faixa-título.

Nos extras, making of, trilha de comentários do diretor Paul McCartney e outras delícias.

O trágico destino de Stu

Já a HQ Baby’s in Black: O Quinto Beatle rebobina a fita até os primórdios da banda, em 1960, quando esta ainda contava com Pete Best na bateria e Stuart Sutcliffe no baixo.

A história em si é conhecida, especialmente por quem que já assistiu ao filme Backbeat: Os Cinco Rapazes de Liverpool (1994), de Iain Softley.

Stuart Sutcliffe, melhor amigo de John Lennon, foi o primeiro baixista dos Beatles na sua fase inicial, quando a banda ganhava a vida tocando nas espeluncas mais mal-afamadas de Hamburgo, Alemanha.

Após conhecer a jovem Astrid Kirchherr, Stuart resolve sair da banda – mas um destino trágico o aguardava logo em seguida.

A HQ de Bellstorf, longe de apenas quadrinizar os fatos (ou o filme), desenvolve uma narrativa intimista e até mesmo poética para o episódio, o que gera uma HQ de leitura bastante fluida, agradável e, de certa forma, emocionante.

O único senão fica para  o estilo dos desenhos de Bellstorf, um tanto derivativo do clichê "HQ indie sensível" para não dizer do já clássico Persépolis, de Marjane Satrapi.

Magical Mystery Tour / Beatles / Emi / R$ 49,90 (DVD) / R$ 89,90 (Blu-ray) / www.thebeatles.com / www.emimusicbrasil.com

Baby’s in Black: O Quinto Beatle / Arne Bellstorf / 8Inverso/ 208 p./ R$ 51/ www.8inverso.com.br


domingo, dezembro 23, 2012

MICRO-RESENHAS DE NATAL VOL. 2 (DE DOIS)

"Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho"...


Em seu segundo álbum, Dylan Leblanc,  jovem (22) revelação do folk,  segue sua trilha de canções semiacústicas lentas, tristes e belas, naquela linha Cowboy Junkies, Townes Van Zant etc. Esqueça o folk hype fajuto de Munford & Sons: o lance aqui é sério. Canções de partir o coração como Part One: The End, Chesapeake Lane e a faixa-título já valem o álbum inteiro. Dylan Leblanc / Cast The Same Old Shadow / Lab 344 / R$ 34,90








Bad Santa

Autor de hits como Crazy e  F**k You, o soulman CeeLo Green ressurge com o disco de Natal mais suingado de todos os tempos desde A Soulful Christmas (1968), de James Brown. Tem até Noite Feliz (Silent Night). Participações de Rod Stewart, Trombone Shorty, Christina Aguilera e... dos Muppets. Ceelo Green / Ceelo’s Magic Moment / Warner / R$ R$ 34,90

 






Gringa bossa nova

Apaixonada pelo Brasil, a cantora norte-americana de jazz Stacey Kent solta CD duplo gravado ao vivo no La Cigale (Paris). No repertório, standards ianques (It Might As Well Be Spring) e brasucas (Coração Vagabundo, Samba de Verão), cantados em português claro – uma raridade, em se tratando de cantora gringa. Stacey Kent / Dreamer In Concert - Ao Vivo Sonhando / EMI / R$ 34,90

 





Viola fever


Noel Andrade é violeiro da nobre estirpe folclórica brasileira que já nos rendeu mestres como Almir Sater e Tião Carreiro. Suas modas são fruto de ampla pesquisa e vem  ao som de violas caipiras, flautas, rabecas e lindas vozes. Música brasileira em sua forma mais pura e bela. Noel Andrade / Charrua / Tratore / R$ 27,90







O fotógrafo do cangaço

Autor de Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço (2010), Mello volta ao tema com a biografia do árabe Benjamin Abrahão, secretário do Padre Cícero, além de fotógrafo autorizado de Lampião. Trabalho de fôlego, com mais de 50 páginas de fotografias. Benjamin Abrahão: Entre Anjos e Cangaceiros /  Frederico Pernambucano de Mello / Escrituras/ 352 p./ R$ 45/ www.escrituras.com.br







Nova galhofa

E se os Três Reis Magos fossem criminosos sanguinários fugitivos do Oriente? O galhofeiro Seth Grahame-Smith (Orgulho e Preconceito e Zumbis, Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros) parte dessa ideia esdrúxula para cometer outra obra maluca e intensamente divertida. Como se Tarantino tivesse escrito a Bíblia.  Breve no cinema. Noite Infeliz / Seth Grahame-Smith / Intrinseca /  272 p. / R$ 29,90 / e-book: R$ 19,90 / www.intrinseca.com.br

 





O Spirit da coisa Vol. 2


Segundo volume das HQs do Spirit de Will Eisner publicadas em 1998 por grandes autores. Aqui, Paul Chadwick (Concreto), John Ostrander (Grimjack), Paul Pope (Batman: Ano 100), Eddie Campbell (Do Inferno),  Joe R. Lansdale (Jonah Hex) e outros emprestam seu talento ao personagem. The Spirit: Mais Aventuras / Vários autores / Devir/ 128 p. / R$ 43,50 / R$ 56,25 (capa dura) / www.devir.com.br
 






Quem sabe faz ao vivo

Marceleza relê seu repertório (Camisa e solo) em belo show no Bolshoi (Goiânia), com sua banda, bastante competente. Cansa um pouco a mania de estender as músicas, mas é um registro importante desta figura fundamental. Também em Blu-ray. Marcelo Nova / Hoje no Bolshoi - Ao Vivo / Unimar Music / R$ 29,90 (DVD), R$ 49,90 (Blu-ray), R$ 27,90 (CD duplo) 







Rockomédia

Da capa às letras, passando pela interpretação, tudo é comédia no novo CD da banda do ator Jack Black. Como paródia de classic rock, bate um bolão, mas não espere mais que isto, até por que, quem não sabe inglês não vai sacar. Para fãs do Meat Loaf. É mais negócio ver os clipes, que são de rachar, como o de Low Hangin' Fruit. Tenacious D / Rize of The Fenix / Sony / R$ 27,90

 






Eterno em Dallas

Com mais de 40 anos de muito blues rock e boogie woogie no juízo, o power trio mais casca-grossa do Texas volta em grande estilo com um CD em que retoma sua melhor forma, cortesia do produtor Rick Rubin. O som dos bares mais sujos e mal frequentados de Dallas, para deitar e rolar. ZZ Top / La Futura / Universal / R$ 34,90








O poder da gata

Veio da revista Spin a  melhor definição da cantora Cat Power: “Agonia soft tem sido seu idioma desde os anos 90”. Senhora da tristeza convertida em música ora doce, ora sombria, ela é sempre intensa. Para ouvir já: Nothin But Time (com Iggy Pop), Cherokee e Manhattan. Cat Power / Sun / Lab 344 /R$ 29,90








Primórdios do rala 'n' rola (lá ele)

Quem acha que o rock nasceu com Elvis terá uma  surpresa com este livro. O pesquisador Mazzoleni rastreia os primórdios do gênero, remontando aos anos 1930, através de ritmos negros como boogie woogie, swing jazz e, claro, o blues. Trabalho de fôlego, ricamente ilustrado. As raízes do rock / Florent Mazzoleni / Companhia Editora Nacional/  224 p./ R$ 49,90 / www.ibep-nacional.com.br






Um novo dia para cantar

Tão matador quanto James Bond é o seu  legado musical. Estão aqui do tema clássico de John Barry à gemas de Shirley Bassey, Tom Jones, Louis Armstrong, Nancy Sinatra, Paul McCartney e outros com licença para cantar. Vários Artistas / Best of Bond... James Bond - 50Th Annyversay Ed. / EMI / R$ 29,90








Mais um hype fuleiro

Adorado na Europa e coqueluche entre (cof, cof) hipsters, o trio inglês The XX tenta passar na prova do 2º álbum. Pelas críticas gringas, passou. Melancólico grau dez, o som privilegia arranjos eletrônicos minimalistas e cresce a cada audição. Mas está muito longe de ser algo genial, como fazem crer os chegados em hype. The XX / Coexist / Lab 344 / R$ 34,90 






Nordeste espetacular

Injustamente pouco comentado, o novo álbum dos paraibanos da Cabruêra traça uma espantosa e espetacular rota Nordeste - Índia, com o help da cítara de Alberto Marsicano. Vem com belíssimo livro de fotografias, Nordeste Desvelado. Nota dez. Cabruêra / Nordeste Oculto / Independente / R$ 30

 





Laços de família

Fim de jornada para Miss Vega: com este volume 4, de canções dedicadas ao tema família, ela fecha  Close-Up, a série em que reviu e regravou sua carreira de 30 anos. Adorável audição, traz seu violão dedilhado e sua voz em grande forma. Suzanne Vega / Close Up, Vol.4 - Songs of Family / Lab 344 / R$ 29,90

sexta-feira, dezembro 21, 2012

EQUILIBRADO, NASI LANÇA SEU MELHOR TRABALHO SOLO


Uma das personalidades mais fortes do rock brasileiro desde sempre, Nasi tem longa folha de serviços prestados ao gênero desde os tempos do Ira!.

Com seu novo CD solo, Perigoso (Trama Virtual / Coqueiro Verde), se mostra tão relevante hoje quanto nos saudosos Dias de Luta.

Gravado em apenas um mês nos estúdios da gravadora Trama, o álbum foi lançado em CD pelo selo Coqueiro Verde. Conciso, traz dez faixas.

“Esse projeto da Trama Virtual é muito legal. Ela dá ao artista um mês de estúdio, sendo que você passa parte do tempo monitorado ao vivo pelo fãs”, conta Nasi, por telefone.

“(Um mês) Não é muito tempo, mas também não é pouco. Então esse esquema fez com as gravações rolassem com  bastante intensidade e crueza. O som é o de um disco de banda ao vivo”, acredita o cantor.

Metade do repertório é de faixas inéditas, parcerias do próprio cantor com seus músicos Johnny Boy (vários instrumentos) e Nivaldo Campopiano (guitarra), além do letrista Carlos Careqa, na linda balada  Não Vejo Mais Nada de Você.

A outra metade é de releituras. As cinco são pérolas mais ou menos conhecidas, como As Minas do Rei Salomão (Raul Seixas e Paulo Coelho), Não Há Dinheiro que Pague (Renato Barros, hit na voz de Roberto Carlos), Como É Que Vou Poder Viver Tão Triste (Demetrius), Tudo Bem (Garotas Suecas) e Dois Animais na Selva Suja da Rua (Taiguara).

“Essas faixas são coisas que passei muito tempo escutando até chegar a esta seleção. Primeiro, fiz uma lista com vinte candidatas. Depois, dez. Finalmente, cheguei nessas cinco”, conta Nasi.

“Na verdade, o projeto original era lançar este disco com minha autobiografia (A Ira de Nasi, Ed. Belas Letras, lançado em setembro), Inclusive, o livro e o disco tem a mesma foto de capa”, acrescenta.

“Mas quando o livro saiu, eu ainda estava terminando as letras, que acabaram saindo com um  tom bem confessional. A autobiografia deu essa atmosfera. Ele  poderia ser ouvido como uma trilha para o livro”, vê.

Macaco velho, dono de talento inegável, Nasi conseguiu um feito e tanto em Perigoso ao conseguir estabelecer um equilíbrio entre seu repertório autoral e standards de Raul, da Jovem Guarda e Taiguara.

Passa-se de uma faixa a outra com leveza e fluidez numa audição bastante agradável, sem abrir mão da visceralidade que é a marca registrada de Nasi.

“O (Marcelo) Sussekind (produtor, ex-Herva Doce) uma vez disse que disco a gente não acaba. A gente desiste”, ri Nasi.

“Sempre tem um detalhe, uma filigrana,  mas sim, o disco  está intenso e resume bem minha música hoje”, acredita.

Tempo de vinil e oração

Ele, que sempre foi da marca de roqueiro “direto ao ponto”, fez questão de refletir essa atitude na própria duração do álbum, com menos de 40 minutos no total.

“Investi na tempo do vinil. Na época, trabalhávamos com tempo limitado. Era vinte minutos por lado”, lembra.

“Com os CDs, veio uma pressão para fazer discos com 14, 16 faixas. Antigamente, pré-produzia-se 15 ou 16 músicas e escolhíamos dez. Com o CD, diluiu-se muito  o resultado final, por que a verdade é que nem tudo o que se compõe vale a pena ser gravado”, admite.

Surpreendentemente, uma das melhores faixas autorais, Ori, é  uma oração. É que Nasi é iniciado no culto de Ifá pelo sociólogo nigeriano Babá King.

“Ori é, literalmente, ‘cabeça’, mas  no orixá é a divindade pessoal da cada um,  o eu superior. Fiz a letra baseado numa interpretação dos versos de Ifá que consultei no acervo do Mestre King, sociólogo da Usp que desenvolve um culto tradicional de orixá”, conclui o hoje espiritualizado cantor.

Perigoso / Nasi / Trama Virtual - Coqueiro Verde Records / R$ 27,90 / www.nasioficial.uol.com.br




quarta-feira, dezembro 19, 2012

EM SUPERDEUSES, GRANT MORRISON DESVENDA OS SUPER-HERÓIS SOB VIÉS (BEM) PSICODÉLICO


Um dos responsáveis por transformar HQs de super-heróis em um milionário commodity transmídia, o escritor escocês Grant Morrison (Photo by Kin Lui) faz, no seu livro Superdeuses (Seoman), um rico painel em que mistura a história e a análise desta indústria, sua autobiografia, iniciações ocultistas, viagens psicodélicas  e o relato de encontros com seres de outra dimensão.

Subintitulado Mutantes, Alienígenas, Justiceiros Mascarados e o Significado de Ser Humano na Era dos Super-Heróis, o livro  reflete muito bem a mente fragmentada e delirante do escritor, conhecido pelas HQs ambiciosas – por vezes, até mesmo dadaístas – e com absoluto desprezo pela narrativa linear.

Autor de HQs hoje clássicas como Os Invisíveis, Homem Animal, Asilo Arkham, Como Matar Seu Namorado, We3 e dezenas de outras em uma carreira de mais de 30 anos, Morrison foi uma das estrelas da chamada “Invasão Britânica”, que mudou a cara dos quadrinhos americanos na década de 1980.

Ao lado de nomes como Alan Moore (autor de Watchmen e desafeto a quem reserva espetadas em diversas passagens), Neil Gaiman (Sandman), Peter Milligan (Skreemer) e Alan Grant (Juiz Dredd), Morrison ajudou a cristalizar uma revolução que, na verdade, já vinha em curso nos quadrinhos americanos desde os anos 1970, quando as HQs mainstream começaram a namorar com temas “adultos”, como drogas, violência urbana, especulação imobiliária, racismo, guerra do Vietnã e a filosofia hippie.

Para cada super, um mito

Multifacetado, Superdeuses começa com Morrison, na introdução, constatando a atual explosão de popularidade dos supers na grande mídia: “Nomes que já foram xiboletes arcanos agora estão à frente de campanhas de marketing global”, observa.

A partir daí, narra o nascimento da indústria de quadrinhos de super-heróis com o lançamento da revista Action Comics, que trazia a primeira aparição do Superman.

Só a capa da revista, Morrison leva umas dez páginas analisando minuciosamente, como se fosse um manuscrito do Mar Morto: “Perceba como a composição se baseia em um X mal escondido, que dá estrutura sólida e apelo gráfico. O X subliminar sugere o desconhecido e intrigante, e é exatamente isso que Superman era: o enigma encapuzado no olho da tempestade da Pop Art”, afirma.

Isso é só o início de uma longa viagem em que Morrison sustenta que os super-heróis, hoje, são o equivalente dos arquétipos e deuses de civilizações antigas, os mais altos ideais a que a humanidade pode almejar em um mundo fadado ao caos.

Superman, segundo o escocês, é o Jesus Cristo da era atômica, enviado por seu pai à Terra para nos salvar. Ele ainda o compara a Moisés, Apolo (deus do Sol) e Karna (deus hindu).

Já o velocista Flash é Mercúrio (deus mensageiro romano), Hermes (sua contraparte grega), Ganesha (indiano), Toth (egípcio), Legba (vodu) e por aí vai.

Para cada herói, Morrison saca diversas referências arquetípicas ao mesmo tempo em que narra a evolução da indústria e traça pequenos perfis biográficos dos escritores, desenhistas e editores envolvidos.

(Vale lembrar que essa abordagem não é inédita. Em 2010, a editora Cultrix lançou o livro Nossos Deuses São Super-Heróis, de Christopher Knowles, fonte básica sobre as origens ocultas mitológicas dos super-heróis, bem como ampla investigação sobre as ligações dos quadrinistas com ordens secretas de supostos manipuladores do mundo, como a Maçonaria etc. Veja mais sobre o livro, leitura recomendadíssima, aqui).

Mas nada supera a descrição de Morrison para suas viagens psicodélicas interdimensionais empreendidas através do uso indiscriminado de substâncias não aprovadas pela Constituição, como ácido lisérgico, psilocibina, cogumelos variados e ecstasy, entre outras.

Em Catmandu, numa viagem hedonista, ele conta ter sido visitado em seu quarto de hotel por “bolhas de puro metamaterial holográfico ondulado, baboso, de anjos ou extraterrestres”. Esses seres o transportaram a um outro plano de existência, no qual lhe foi revelado o “segredo do universo”.

Ele conta qual seria esse segredo no livro, mas é algo tão complexo e extravagante que não vale a pena expor aqui.

O que fica  é a impressão de que, sim, Grant Morrison é dono de uma das imaginações mais férteis do mundo. Leitura recomendada a qualquer fã de cultura pop, não só HQ:  “Os super-heróis me ajudaram a entender que tudo é real, inclusive nossas ficções”.

Superdeuses ainda guarda muito mais para o leitor atento e ligado em cultura pop. Esses pontos aqui levantados são apenas alguns. Para descobrir outros, vale a leitura.

Superdeuses / Grant Morrison / Seoman / 496 páginas / R$ 59,90 / R$ 47,92 no site da editora / www.editoraseoman.com.br



Abaixo, o documentário sobre Grant Morrison, Talking With Gods, legendado em português