quarta-feira, dezembro 19, 2012

EM SUPERDEUSES, GRANT MORRISON DESVENDA OS SUPER-HERÓIS SOB VIÉS (BEM) PSICODÉLICO


Um dos responsáveis por transformar HQs de super-heróis em um milionário commodity transmídia, o escritor escocês Grant Morrison (Photo by Kin Lui) faz, no seu livro Superdeuses (Seoman), um rico painel em que mistura a história e a análise desta indústria, sua autobiografia, iniciações ocultistas, viagens psicodélicas  e o relato de encontros com seres de outra dimensão.

Subintitulado Mutantes, Alienígenas, Justiceiros Mascarados e o Significado de Ser Humano na Era dos Super-Heróis, o livro  reflete muito bem a mente fragmentada e delirante do escritor, conhecido pelas HQs ambiciosas – por vezes, até mesmo dadaístas – e com absoluto desprezo pela narrativa linear.

Autor de HQs hoje clássicas como Os Invisíveis, Homem Animal, Asilo Arkham, Como Matar Seu Namorado, We3 e dezenas de outras em uma carreira de mais de 30 anos, Morrison foi uma das estrelas da chamada “Invasão Britânica”, que mudou a cara dos quadrinhos americanos na década de 1980.

Ao lado de nomes como Alan Moore (autor de Watchmen e desafeto a quem reserva espetadas em diversas passagens), Neil Gaiman (Sandman), Peter Milligan (Skreemer) e Alan Grant (Juiz Dredd), Morrison ajudou a cristalizar uma revolução que, na verdade, já vinha em curso nos quadrinhos americanos desde os anos 1970, quando as HQs mainstream começaram a namorar com temas “adultos”, como drogas, violência urbana, especulação imobiliária, racismo, guerra do Vietnã e a filosofia hippie.

Para cada super, um mito

Multifacetado, Superdeuses começa com Morrison, na introdução, constatando a atual explosão de popularidade dos supers na grande mídia: “Nomes que já foram xiboletes arcanos agora estão à frente de campanhas de marketing global”, observa.

A partir daí, narra o nascimento da indústria de quadrinhos de super-heróis com o lançamento da revista Action Comics, que trazia a primeira aparição do Superman.

Só a capa da revista, Morrison leva umas dez páginas analisando minuciosamente, como se fosse um manuscrito do Mar Morto: “Perceba como a composição se baseia em um X mal escondido, que dá estrutura sólida e apelo gráfico. O X subliminar sugere o desconhecido e intrigante, e é exatamente isso que Superman era: o enigma encapuzado no olho da tempestade da Pop Art”, afirma.

Isso é só o início de uma longa viagem em que Morrison sustenta que os super-heróis, hoje, são o equivalente dos arquétipos e deuses de civilizações antigas, os mais altos ideais a que a humanidade pode almejar em um mundo fadado ao caos.

Superman, segundo o escocês, é o Jesus Cristo da era atômica, enviado por seu pai à Terra para nos salvar. Ele ainda o compara a Moisés, Apolo (deus do Sol) e Karna (deus hindu).

Já o velocista Flash é Mercúrio (deus mensageiro romano), Hermes (sua contraparte grega), Ganesha (indiano), Toth (egípcio), Legba (vodu) e por aí vai.

Para cada herói, Morrison saca diversas referências arquetípicas ao mesmo tempo em que narra a evolução da indústria e traça pequenos perfis biográficos dos escritores, desenhistas e editores envolvidos.

(Vale lembrar que essa abordagem não é inédita. Em 2010, a editora Cultrix lançou o livro Nossos Deuses São Super-Heróis, de Christopher Knowles, fonte básica sobre as origens ocultas mitológicas dos super-heróis, bem como ampla investigação sobre as ligações dos quadrinistas com ordens secretas de supostos manipuladores do mundo, como a Maçonaria etc. Veja mais sobre o livro, leitura recomendadíssima, aqui).

Mas nada supera a descrição de Morrison para suas viagens psicodélicas interdimensionais empreendidas através do uso indiscriminado de substâncias não aprovadas pela Constituição, como ácido lisérgico, psilocibina, cogumelos variados e ecstasy, entre outras.

Em Catmandu, numa viagem hedonista, ele conta ter sido visitado em seu quarto de hotel por “bolhas de puro metamaterial holográfico ondulado, baboso, de anjos ou extraterrestres”. Esses seres o transportaram a um outro plano de existência, no qual lhe foi revelado o “segredo do universo”.

Ele conta qual seria esse segredo no livro, mas é algo tão complexo e extravagante que não vale a pena expor aqui.

O que fica  é a impressão de que, sim, Grant Morrison é dono de uma das imaginações mais férteis do mundo. Leitura recomendada a qualquer fã de cultura pop, não só HQ:  “Os super-heróis me ajudaram a entender que tudo é real, inclusive nossas ficções”.

Superdeuses ainda guarda muito mais para o leitor atento e ligado em cultura pop. Esses pontos aqui levantados são apenas alguns. Para descobrir outros, vale a leitura.

Superdeuses / Grant Morrison / Seoman / 496 páginas / R$ 59,90 / R$ 47,92 no site da editora / www.editoraseoman.com.br



Abaixo, o documentário sobre Grant Morrison, Talking With Gods, legendado em português


10 comentários:

Franchico disse...

Recebido por email. SEGUE RELEASE:

Oi pessoal, é amanhã (no caso, HOJE, 19.12) o Encontro de Guitarristas 2012!

Segue em anexo cartaz com informações, ou pelo site: www.ricardoprimata.com.br

A Escola de Música volta 07 de janeiro de 2013, já na sede nova!

Abraços,
---

Ricardo Primata

Franchico disse...

Alguma boa alma encontrou uma cópia do único clipe da Úteros em Fúria e o postou no You Tube:

https://www.youtube.com/watch?v=wwKBZsYVlL8&list=PL4-boesWwWPuGpS12s07msbUk13YDKGF5&index=1

Aonde encontraram é uma boa pergunta. Os próprios membros não dispunham mais desse material, mofado além da recuperação em fitas VHS jurássicas. E no meu doc, tem os créditos passando por cima. Esse tá limpinho.

Gravado no Rio de Janeiro, em 1993, como peça promocional do disco Wombs in Rage, lançado naquele ano pela Natasha Records.

Aliás, essa pessoa, Dan13rock, que não sei quem é, pelo visto, gosta muito da Úteros. Postou todas as músicas do disco e reproduziu meu doc.

Franchico disse...

Barça anuncia um doc sobre John Hugues, imperdível desde já:

http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br/2012/12/19/john-hughes-inventou-a-nossa-adolescencia/

Franchico disse...

John HUGHES, quero dizer.

Old School disse...

Minha cancao anti Natal favorita:

http://www.youtube.com/watch?v=21dh4JDZ2ts

"I'll blacken your Christmas,I'll piss on your door,you'll cry out for mercy,still there'll be more."
Acho q o Brooker compos isso em parceria com o Grinch,hehe.
Rolou ai um caso inedito de tres sosias perfeitos na mesma banda:o batera parece com o Keith Moon,o baixista lembra o Ronnie Van Zant,e o guitarra parece muito com o Roger Waters.
Outra da mesma sessao:
http://www.youtube.com/watch?v=ROYDH_3kKpc

Franchico disse...

A nova editora chefe da Vertigo é uma gatinha...

http://www.bleedingcool.com/2012/12/19/shelly-bond-promoted-to-executive-editor-of-vertigo/

Franchico disse...

Curioso: a banda Oh Mercy, da qual nunca ouvir falar, lançou um disco, Deep Heat, com uma foto de Monique Evans (bem antiga, no auge da gostosura) em pleno desfile de escola de samba.

http://newalbumreleases.net/48686/oh-mercy-deep-heat-2012/#more-48686

Franchico disse...

Primeira imagem de Tom Hardy como o novo Mad Max Rockatansky:

http://omelete.uol.com.br/mad-max/cinema/mad-max-4-veja-tom-hardy-no-primeira-foto-do-filme/

Cool!

Franchico disse...

Como se imaginava, as HQs de Star Wars voltam para a Marvel, por volta de 2015:

http://www.bleedingcool.com/2012/12/20/star-wars-comics-come-back-to-marvel/

O que faz todo o sentido, já que a Disney é dona tanto da Lucasfilm, quanto da Marvel.

Franchico disse...

Aqui, a fonte original da notícia:

http://www.blueskydisney.com/2012/12/a-marvelous-dark-horse.html