quinta-feira, janeiro 24, 2013

BATRÁKIA: PARTY LIKE IT'S 1989

Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante, as paradas de sucesso eram dominadas por  homens de jeans (muito) apertados e cortes de cabelo estilo mullet (interessados chequem este outro link. É inacreditável).

Não, não era o Chitãozinho & Xororó. Quase. Eram bandas como Bon Jovi, Poison, Cinderella e Def Leppard.

Depois a coisa até que melhorou, com a chegada de grupos com um som um pouco mais pesado, como Guns ‘n’ Roses e Skid Row.

Mas aí Kurt Cobain apareceu berrando de dor de barriga e botou todo mundo pra correr, mas essa é outra história.

O lance é que o hard rock de FM daqueles dias pré-grunge nunca morreu.

Nem que seja como caricatura, em filmes como Ainda Muito Loucos (1998) e o recente Rock of Ages (2012), com Tom Cruise.

Agora Salvador ganha uma banda que segue de forma sincera o estilo do Guns e Skid Row – sem ser uma paródia, como a banda  The Darkness, por exemplo.

É a Batrákia (na foto de David Vasconcelos), liderada pelos irmãos gêmeos Dell (guitarra) e Chico Brito (bateria).

Sem medo de farofa

Depois de fundar a banda em 2008 e as formações flutuantes de praxe, se estabilizaram em 2010 com Bruno Passy (voz), João Daltro (guitarra) e Lucas Vieira (baixo).

De lá para cá, fizeram vários shows pelo circuito do Rio Vermelho e demais recantos underground da cidade, além de incursões pelo interior.

“Tocamos em Irecê e já  fomos convidados para voltar em abril. Também recebemos convites para ir em Cicero Dantas, Paulo Afonso e Feira“, conta Dell.

“Ficamos espantados em ver como o cenário no interior é forte, até em termos de organização”, afirma.

Finalista do concurso de bandas iBahia Garage Band, a Batrákia não ganhou, mas teve votação expressiva do público, além de já estar confirmada para tocar, pelo segundo ano consecutivo, no Palco do Rock 2013, durante o Carnaval.

Com letras em português e um vocalista muito promissor, a Batrákia não tem medo de soar caricata pela associação com a colorida cena da qual tira inspiração.

“É, já ouvimos críticas. Dizem que é rock farofa e tal. Mas é o som que a gente curte. Sabemos que era comercial e tal, mas tentamos dar uma pegada atual, com nossa cara”.

Além do repertório autoral com letras em português, a banda faz covers de Guns n’ Roses, Skid Row,  Mötley Crüe...

Ouça: www.palcomp3.com/batrakia e aqui.

NUETAS

Skanibais famintos
Vendida como “a primeira banda de ska da capital baiana”, a Skanibais faz show no  Cine Teatro Solar Boa Vista sexta-feira, 20 horas. Na verdade, a banda faz este show e depois corre lá pro Clube Fantoches, aonde faz o número de abertura do Baile da Terapia, da Baiana System. Tão começando bem. Este macaco velho aqui realmente não se lembra de nenhuma outra banda baiana de ska  – bom, tem o senhor Luiz Natureza, mas ele também está chegando agora. Será que finalmente a Bahia está descobrindo o mais esfuziante dos ritmos jamaicanos? Demorô! R$ 10 e R$ 5 (Abaixo, vídeo deles na apresentação do dia 4 de janeiro, no Solar Boa Vista).




Sábado rock ‘n’ risos
Os Mizeravão e Os Jonsóns (vistos há poucas semanas nesta coluna) se apresentam sábado, no Dubliner’s Irish Pub. Os Mizeravão é veterana da night local e tem público cativo para sua mistura bagaceira de Black Sabbath com Roupa Nova. Já Os Jonsóns, autoral, segue o estilo psicodélico despojadão do rock gaúcho. Diversão e risadas garantidas. 22 horas, R$ 15.

Robertão por Sete Cabeludos

Ontem teve o primeiro show da banda Os Sete Cabeludos (foto Jamile Vasconcelos) na Varanda do Sesi. Formada por caras bem conhecidas da cena local - Paquito (voz e guitarra), Morotó Slim (guitarra), Rex (bateria), Nuno (baixo) e Juliano Oliveira (teclados) -, essa rapaziada só toca o repertório juvenil de Roberto Carlos (1963 a 1972). Dada a categoria do repertório e dos músicos envolvidos, vale conferir a próxima apresentação deles, na quarta-feira, dia 30. Varanda do SESI, Rio Vermelho, às 21hs, R$ 20 e R$ 15 (lista amiga).

quarta-feira, janeiro 23, 2013

TEMPO DE GUITARRINHA

 Tema do Carnaval 2013, a guitarra baiana é celebrada esta semana com nada menos que cinco shows / bailes diferentes

Ela é pequenininha e  quem vê pela primeira vez pode até achar que é um brinquedo.

Em mãos hábeis, porém, levanta até defunto: é a guitarra baiana, patrimônio  cultural (e científico) legitimamente baiano, tema do Carnaval 2013.

Nesta semana, a celebração em torno dela está à toda, com nada menos que cinco diferentes shows.

A maratona começa quinta-feira, com ensaio aberto do Trio Guitarra Baiana, formado por Júlio Caldas, Fábio Batanj e Márcio de Oliveira, no Largo  Teresa Batista.

Na sexta-feira, dose dupla: Retrofolia na Arena Sesc Senac Pelourinho e Baiana System no Clube Fantoches.

Sábado tem Júlio Caldas & Choro Rock com mais um show de lançamento do seu novo CD, Circuito Guitarra Baiana, também na Teresa Batista.

No domingo, Fred Menendez comanda o  Domingos Instrumentais na Ponta de Humaitá.

Cabe a Júlio, Fábio e Márcio abrir os trabalhos da semana com o show do seu Trio Guitarra Baiana, que desfila no Carnaval e tem este ensaio aberto na quinta-feira.

“É um trabalho diferente do que faço com a banda Choro Rock”, diz Júlio.

“Segue a onda de releituras dos clássicos do instrumento, mais alguns temas de Jimi Hendrix (Voodoo Chile, All Along The Watchtower, Little Wing, If Six Was Nine) e  Stevie Ray Vaughan (Pride & Joy, Mary Had a Little Lamb). E não é instrumental, não. Eu canto”, diz.

Se alguém aí estranhou a escolha de repertório, a resposta vai na ponta da língua: “Decidi que vou tocar o que eu quiser, cara. Sou livre” demarca.

Sábado, Júlio e a já citada banda Choro Rock fazem mais um show com o repertório do CD instrumental lançado em dezembro.

Na sexta-feira, a Baiana System faz show de lançamento do seu EP Terapia, recentemente solto na internet.

Com a faixa-título mais uma – Amendoim Pão de Mel – a banda liderada pelo guitarrista Robertinho Barreto recebe o famoso cantor Ninha (ex-Timbalada, atual Trem de Pouso) no palco.

Co-produção entre Marcelo Seco (baixista) e o experiente Dudu Marote (Skank), o EP sinaliza a direção que a banda deve seguir no próximo trabalho, com um som, na definição de Roberto, “mais universal”.

“Com tantos hits do Skank, o Marote tem a manha do nosso tipo de som. Nos conhecemos em um dos festivais do Conexão Vivo”, conta Robertinho.

“Ele tirou um som nosso que nunca imaginamos. Terapia tem uma coisa maio arrocha-pagode-dub, bem popular. Tinha que ser o Dudu. E o resultado ficou muito bacana”, aposta o músico.

No mesmo dia, o Retrofolia, pioneiro baile de retomada da guitarra baiana comandado pelos Retrofoguetes, espalha confete & serpentina pela Arena do Sesc Senac.

Além do trio, hoje formado por Rex (bateria), CH (baixo) e Julio Moreno (guitarra), o ex-membro Morotó Slim e Paulo Chamusca, assim como o cantor Kaverna, estarão o tempo todo no palco.

Paquito, Ronei Jorge, Júlio Caldas e Fernando Barreto (Mil Milhas) são os convidados da vez.

“Além de Armandinho, Dodô & Osmar, tocamos temas do Trio Tapajós e  Missinho. Tem uma dele bem difícil, aliás: Tulasi”, diz CH.

Fechando a tampa, Fred Menendez e  banda fazem a trilha sonora do fim do domingão na idílica Ponta de Humaitá (Cidade Baixa).

“Tô com a agenda lotada. Sábado ainda saio com dois bloquinhos no Bonfim: Micaretinha às 9h30 e o Carnamigos,  16 horas. Me sigam!”, convida Fred.

GUIA: Siga aquela guitarrinha!

Trio Guitarra Baiana Quinta-feira, 24 de janeiro, 20 horas / Largo Tereza Batista (Pelourinho) / Gratuito
 

Baiana System: Baile da Terapia Sexta-feira, dia 25, 21 horas / Clube Fantoches da Euterpe (Rua Democrata, 18, Bairro Dois de Julho) / R$ 25
 

Retrofoguetes & Convidados: RetrofoliaSexta-feira, dia 25, 21 horas /Arena do Sesc-Senac Pelourinho (Praça José de Alencar, 19, Centro Histórico) / R$ 20 e R$ 10
 

Júlio Caldas & Choro Rock: Sábado, 21 horas / Largo Tereza Batista (Pelourinho) / Gratuito
 

Fred Menendez: Domingos InstrumentaisDomingo, 17 horas / Ponta de Humaitá (Cidade Baixa) / Gratuito

segunda-feira, janeiro 21, 2013

MÁRIO MEMÓRIA: PARTE 1

É com imenso prazer e o coração latejante de emoção que anuncio ao volta do RockLoquista Original a sua casa: Mário Jorge, velho amigo pessoal deste jornalista, baterista das bandas Úteros em Fúria e Penélope, fundador do programa de rádio Rock Loco (origem deste blog), está escrevendo algumas de suas memórias dos loucos anos 1990. Neste primeiro texto, que ele publica também em sua página no Facebook, Mário nos conta como foi seu périplo solitário (ou nem tão solitário assim) de Salvador ao Rio deJaneiro, para testemunhar o histórico Hollywood Rock de 1993 - aquele do Nirvana. Sem mais, divirtam-se!

DIÁRIO DO ROCK 1 - 19 de janeiro de 1993:
Caganeira, caipirinha e pimentas ardidas

No início dos anos 90, o rock estava com gosto de querosene, inclusive em Salvador: MeioHomem, brincando de deus, Mütter Marie, Dr. Cascadura, Crack... Visceralidade e vontade de sobra. Duas rádios tocavam “rock” (96 FM e Cidade), mas MTV não pegava por aqui (que tardou, só chegou em 1995).

A gente tinha que se contentar em assistir ao Vídeo Jovem com Josenel Barreto como apresentador, soltando pérolas como: “O Metallica que acaba de ganhar o premio gremlins”. Quem tinha acesso a MTV? Só lembro dos irmãos Serravalle (Dalmo e Quinho, da brincando de deus), TV a cabo ainda era muito restrita.

Nessa época, o Brasil entrava na rota dos shows internacionais. O Hollywood Rock rolava no verão no Rio e em SP e concentrava grandes atrações em poucos dias de apresentação. Solução: o velho Itapemirim comercial, sem nenhuma dúvida... Avião não era pra roqueiro. E se não tivesse onde ficar, ficava na rua, ninguém quer mexer com um “maluco sujo”.

Época de uma leva de rock alternativo espetacular e nenhuma preocupação. A madrugada de 19 de janeiro de 1993, exatamente há 20 anos atrás, passei de caganeira . Comprei elixir paregorico (opiáceo usado pra diarréia... Minha mãe usou muito na minha infância. Acredito que hoje seja uma medicação controlada) e embarquei torcendo pra dá tudo certo.

O remédio deu um sono monstro e dormi quase que a viagem toda sem precisar do banheiro do buzú. Vinte e seis horas depois: o Rio. Mais um buzu rumo a Copacabana, onde Fernando Bueno (amigo baterista que morava no Rio com a sua banda Dead Easy) me cedeu um teto.

Banho básico, um pão com ovos e suco na esquina e vamos lá! “Praça da Apoteose”. O DeFalla abriu o festival com um show bem maluco, mas quando a gente é fã, acha tudo bonito.

Foi então que me apareceu meu amigo Cebola e me apresentou a maior invenção do verão de 93: “a
caipirinha em lata” (a partir desse momento não tenho certeza da real seqüencia dos fatos). Nos abraçamos e pulamos como cangurus endemoniados.

Na seqüencia, biquíni cavadão. Que beleza! Hora de ir pro bar e chapar o coco de caipirinha. Eu e Cebola já estávamos achando tudo lindo.

O Alice In Chains, com um puta de um show pesado e sombrio (e isso é um elogio, tá?), e eu curtindo. E aí que veio a porra! O Red Hot Chilli Peppers entrou no palco “botando prá vê táuba lascá”, rock do bom e muita disposição para chegar colado ao palco.

Fiquei emocionado, só senti coisa igual no Robert Plant (com Jimy Page) em 1994 e no Neil Young no Rock in Rio de 2001. O guitarrista não era o Frusciante... Acho que foi uma das poucas apresentações de Erick Arik Marshall no RHCP. Gás total até o final do show e a sensação de que tudo vale a pena.

Cheguei na casa de Bueno com uma fome da porra. Nada perto dava esperança de alimento naquela hora da madrugada. Saí andando a esmo pelas ruas de Copacabana e no calçadão avistei uma barraquinha de cachorro quente. Quando cheguei me deparei com Edu K e Castor Daudt (DeFalla).

Pensei... Caralho, ou o mundo do glamour é uma farsa mesmo ou esses caras são muito bagaceira... Hospedados no Copacabana Palace, acabaram de tocar no festival mais importante do país e estavam ali comendo aquele cachorro quente da pior qualidade. Trocamos umas ideias, eles conheciam a Úteros e falamos sobre a possibilidade de tocar juntos.

No dia seguinte, após acordar, forrei o estomago com um churros e rumei à apoteose. Cheguei e fui direto pro bar em busca da “maravilha”. Calor da porra, caipirinha gelada e a doideira “carcomendo no front”.



As primeiras bandas da noite (nem lembro quais foram) não me interessavam, eu estava no aguardo do L7 e do Nirvana. Então, O L7 fez um show massa! Divertido e alto astral (as meninas estavam se divertindo mesmo, no dia anterior, tinham mostrado as bundas brancas queimadas de sol na janela do ônibus).

O show do Nirvana em SP uma semana antes tinha sido bizarro, João Gordo falou para Kurt que aquele era um festival capitalista vendido, patrocinado por uma marca de cigarros e transmitido para todo o país por uma rede de televisão de bosta.

Silêncio e lá vem o show do Nirvana, confesso que não estava entendendo muita coisa, as pausas pareciam longas demais, afinadas intermináveis, Kurt acendia um cigarro e ironizava o festival, tirava o pau pra fora e cuspia na câmera da rede globo...

A poucos metros de mim, uma ruivinha nariguda linda com uma faixa da banda na cabeça olhava meio entediada. Dei-me conta que tinha coisas interessantes além do palco... Duas ou três frases engraçadinhas e o show ficou melhor.

No dia seguinte, encarei o velho Itapemirim comercial (dessa vez sem opiáceo). Exausto, rumei para casa com a sensação de que só o show do RHCP e a caipirinha em lata já tinha valido tudo.

E se passaram 20 anos...


quarta-feira, janeiro 16, 2013

VOCÊ ME EXCITA VOLTA REFORMADA E REFORMULADA, COM PROPOSTA ELETRÔNICA

Surgida no cenário roqueiro local em 2010, a banda Você Me Excita (ao lado, em foto de Paula Cubilhas) logo se tornou um dos xodós da rapaziada descolê do Rio Vermelho.

Energética, a proposta do então quarteto seguia a linha indie disco punk de bandas como The Rapture e  LCD Soundsystem, entre outras.

Muito jovens, contudo, os carinhas não seguraram a onda do hype: “Com o primeiro boom de resposta do público, de ser considerado aposta de 2010 até por sites de fora da Bahia, a gente meio que passou a viver uma certa tensão, um nervosismo que nem entendíamos direito. A gente ainda tava muito verde”, relata o baterista Tazzio P.

Naquele mesmo ano, a Você Me Excita implodiu, com cada membro seguindo seu caminho. No início de 2012, porém, resolveram se reunir.

Mais uma vez, não deu certo: “Não estava funcionando. Havia um sentimento de que a banda tinha voltado só por voltar”, diz.

Dos quatro membros originais, dois se desligaram e dois permaneceram: Tazzio e Mateus P. (guitarra e voz). Hoje, a banda é um trio, com a adição de Pedro Ozzy (guitarra, baixo e sintetizadores).

E apesar de manter o nome Você Me Excita, pode-se dizer que se trata de outra banda: essencialmente eletrônica, a VME atual se inspira na dance music contemporânea de bandas como Chromeo, Daft Punk, Chromatics e Glass Candy. “Esses são top influências pra gente”, avisa Tazzio.

Já, já, Jamaica

Trabalhando na cocó para não gerar pressão, o trio vem trampando a cerca de seis meses em um EP com cinco músicas intitulado Jamaica, a ser lançado ainda neste verão.

Como prévia, soltaram o single Roseta em dezembro último.

“O Jamaica tem um conceito muito forte. Pensamos nele para reviver a banda e nossa história. Queremos escrever uma história nova”, afirma Tazzio.

Cuidadoso, ele diz ainda não saber, porém quando a banda sobe no palco de novo: “Acho que em março já podemos fazer show, mas, por estarmos tão concentrados na gravação, ainda não sabemos. Precisamos terminar, aprender a tocar essas músicas ao vivo, ensaiar e, só então, subir no palco”, reflete.

“Fora que queremos controle total. Até na iluminação”, diz.



Ou ouça aqui: https://soundcloud.com/vocemeexcita

NUETAS

Esqueleto com Pastel, Esqueleto com Theatro

O punk furioso da Pastel de Miolos é a convidada da ExoEsqueleto no terceiro show da temporada do power trio de afro-rock no Café Atelier JC Barreto (Ladeira do Bambui,  São Caetano). Sábado, 21 horas, R$ 3. No outro sábado (dia 25), a Theatro de Seraphin (foto: Emanuel Mirdad - veja vídeos aqui) encerra a temporada com muita classe.

Tabuleiro rodando

A Tabuleiro Musiquim faz as primeiras incursões fora de Salvador. São quatro datas, começando amanhã, no festival Rock Cordel em Souza, Paraíba, aonde também tocam as baianas Maglore, Vendo 147 e Sertanília. De lá, partem para  João Pessoa, aonde fazem show,  dia 17. No dia seguinte já tem som em Recife (PE). A miniturnê se encerra sábado (19),  em Feira de Santana, no Festival Veraneio Fora do Eixo (Centro de Cultura Amélio Amorim), com Maglore, Vivendo do Ócio, Tangerina Jones e outras.

Mariella comanda

A incrível Mariella Santiago recebe Chico César, Mateus Aleluia, Laila Rosa e Lívia Matos na segunda edição dos seus  Encontros de Verão no Museu de Arte Moderna (Solar do Unhão). Abertura e after por conta do coletivo de DJs  Sistema Kalakuta. Domingo, 19 horas, R$ 16 e R$ 8.

ENTREVISTÃO LEO JAIME: "PRECISAMOS ATENDER ÀS INQUIETUDES CRIATIVAS"

 As novas gerações, que só conhecem Leo Jaime como ator de Malhação, cronista do jornal O Globo ou apresentador de TV (nos programas Saia Justa e Detox do Amor) vão ficar espantadas: ele também canta?

Pois é, e fez muito sucesso, especialmente nos anos 1980, quando emplacou vários hits em rádios de todo o Brasil, como Sônia, O Pobre, A Vida Não Presta e outros.

Agora volta às lojas  um disco seu de 1995, Todo Amor. Álbum de intérprete, traz releituras em clima intimista para canções como Minha Mulher (Caetano Veloso), Preciso Dizer Que Te Amo (Cazuza), Eu Amo Você (Cassiano) e outras, além da inédita Diz.

Nesta entrevista por email, ele fala do disco e da experiência em TV nos programas Saia Justa e Detox do Amor (canal GNT).

Por que esse disco em especial para ser relançado?

Leo Jaime: Esse disco marca a metade do percurso. Depois de 5 anos sem gravar, fiz um disco de intérprete, como acordo pelo tempo na geladeira. O disco saiu maravilhoso e apontava para um novo caminho diferente daquele do início da carreira. Pena que não teve sequência. Ainda. Tanto que Diz, a música bônus que foi gravada recentemente, é parte da ideia de dar continuidade àquela onda.

Você lembra como foi o critério de seleção das canções? O que te guiou, além de serem sobre um tema específico, no caso, amor? E quanto a inédita Diz?

LJ: Lembro que eu procurava canções que não fossem muito óbvias e que eu sentisse que podiam ser cantadas por mim como se fossem minhas. Experimentamos muitas ao longo dos ensaios para o disco. Marina e Felipe Abreu me ajudaram muito neste período. Durante a gravação apareceram outras, como Preciso Dizer Que Te Amo. E tinha um combinado de que teriam duas inéditas: Começo e Infiel. Gosto muito de cantar e queria uma sonoridade mais madura, que me possibilitasse mostrar um som e uma temática que tivessem a ver com o que eu estava vivendo. Amor foi o tema do disco que começa com Começo e acaba com Extravios, e passa por vários fragmentos do discurso amoroso. Aliás, o livro homônimo (Fragmentos de um Discurso Amoroso, de  Roland Barthes) foi o ponto de partida. Diz é uma música que tem a ver com tudo o que ali se iniciou. Tenho vontade de fazer o Todo Amor 2.

Se fosse gravar esse disco hoje, faria diferente? Acha que há algum aspecto de produção que o deixa datado? Ou o faria exatamente como está?

LJ: Faria exatamente como está. Talvez  a mixagem fosse um pouco diferente, com sons mais atuais. A sonoridade ali era atemporal. Uma das propostas era lidar com sentimentos e sonoridades atemporais. Mas a tecnologia ainda não oferecia tantas possibilidades como agora. Diz evidencia um pouco isto.

Hoje você é visto como multimídia, mas você já era "multi" desde os anos 1980, quando era (é) cantor de sucesso e fazia pontas em filmes.

LJ: Acho que demorou para que entendessem que isto era uma característica e não um defeito. A pluralidade era vista como falta de foco. Diziam que eu estava dando tiro para tudo quanto é lado. Mas eu penso em Caetano e Chico, sem me comparar, e vejo que fizeram o mesmo. Temos que atender às inquietudes criativas e não às expectativas do mercado. Mesmo que isto signifique, como foi o meu caso, criar um longo e tortuoso caminho distante dos refletores do sucesso. Fui sincero comigo mesmo. Paguei o preço e estou aí até hoje.

Você curte reality show? Como é apresentar o Detox do Amor? Você classifica o programa como reality ou é outra coisa?

LJ: É um reality, sim. Cria da casa! Não é um formato comprado. Assim como Amor & Sexo, este programa foi criado do zero e vai sendo aperfeiçoado a cada temporada. Tenho orgulho de ter feito parte da gênese dos dois. É uma pequena, mas sincera e efetiva contribuição para com o rico universo da nossa televisão. Adoro trabalhar em TV. Sempre gostei.

Já teve alguma situação difícil nesse programa, já que se trata de relacionamento de casais?

LJ: Este é um programa que trata de assuntos difíceis, da intimidade de famílias que não estão ali para buscar uma carreira na mídia, mas sim melhorar seus relacionamentos. É delicado o tempo todo! E conflitos acontecem e precisam acontecer. É pra isso que todos estão lá! Mas nunca ninguém perdeu a linha. Se bem que na temporada atual temos uma psicóloga, a Dra. Eda, pra cuidar das eventuais crises. Pra mim ficou claro na primeira temporada que esta era uma necessidade. Temos que ter como apagar os incêndios que provocamos.

E o Saia Justa? Você continua depois dessa temporada  de verão só com os homens? Ele vai ser reformulação?

Vai ser reformulado, sim. E acho que a intenção do canal é mudar tudo. Vou sentir muita falta e imagino que o público também. Quem sabe não resolvem fazer um Saia Justa só com homens? Seria o  Calça Arriada. (Risos).

Do que você mais gosta no Saia? Da conversa com as mulheres? Ou do papo entre homens, como agora?

LJ: Gosto é de bater papo com gente inteligente. Papos muito interessantes,  por sinal. Não importa o gênero ou orientação sexual do interlocutor, nem mesmo a idade ou condição social. O papo inteligente é sempre bem vindo. Se podemos chamar isto de trabalho, aí passa a ser o trabalho ideal. Adoro fazer parte do Saia Justa. Saindo de lá, vou procurar outro programa parecido pra fazer.

Para quando pode-se esperar um CD com músicas inéditas?

LJ: Inéditas eu não sei. Sinto que devo um DVD para meu público e também adoraria seguir no projeto de um novo disco de intérprete. E sempre encaixar umas coisas novas minhas no meio.

Já pensou em voltar  com Os Miquinhos Amestrados?

LJ: Eu gostaria muito que a gente se reunisse pra fazer algo. Mesmo que fosse só por uma noite. Adoro aquela banda!

Todo Amor / Leo Jaime /  Warner / R$ 19,90 / www.leojaime.com.br




sexta-feira, janeiro 11, 2013

ENTREVISTÃO ERASMO CARLOS - 50 ANOS DANDO NO COURO

Diretamente dos arquivos do Rock Loco, entrevistão com Erasmo Carlos feita em maio de 2012, na ocasião do lançamento do DVD 50 Anos de Estrada Ao Vivo no Theatro Municipal. A matéria foi publicada no Caderno 2+ do jornal A Tarde em 30 de maio de 2012, mas não lembro por que não a publiquei aqui antes. Lembrei dela e achei que seria muito egoísmo guardar esse belo material só pra mim. Foi minha segunda entrevista com o Tremendão e, como sempre, ele esbanjou sabedoria e generosidade - para não falar da simpatia com que tratou este humilde e honrado repórter. A primeira foi um ano antes, quando ele lançou o álbum Sexo (2011). Segue a transcrição completa do áudio da entrevista por telefone.


Uma trajetória tão espetacular quanto a de Erasmo Carlos merece uma comemoração à altura. O CD duplo / DVD 50 Anos de Estrada Ao Vivo no Theatro Municipal cumpre a missão com louvor, sem ceder à nostalgia ou emoções baratas.

Gravado no suntuoso palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o show traz o Tremendão em uma bela revisão de carreira, acompanhado de banda enxuta, porém afiadíssima, que inclui o power trio Filhos da Judith (Luiz Lopez, Pedro Dias e Alan Fontenele), Dadi Carvalho (na guitarra, uma raridade), Billy Brandão (guitarra), José Lourenço (maestro e teclados) e, em algumas faixas, a Orquestra de Cordas do Municipal.

Mesmo que às vezes pareça meio tímido no palco, Erasmo esbanja seu carisma natural e está com a voz em forma.

Os convidados são uma atração à parte: Marisa Monte (com quem canta Mais Um na Multidão, faixa que compuseram juntos) e claro, um Roberto Carlos mais solto e  à vontade do que em 30 e tantos anos de especiais na Globo, cantando Parei na Contramão e É Preciso Saber Viver.

Desnecessário dizer que é o momento mais emocionante e especial do show, até por que, como Erasmo confirma nesta entrevista, não houve roteiro, o que gerou um ou dois divertidos momentos de desconcerto entre os velhos amigos.

Uma linda coleção de sucessos e o testemunho definitivo de um gênio da música popular.

Ficou satisfeito com o resultado? Com o show em si, com a direção do DVD?

ERASMO CARLOS: Senhor tá no céu! (Risos). Senhor é o Papai Noel, Dom Pedro II. Mas sim, Fiquei satisfeito sim, ficou bonito pra caramba, um dos dias mais felizes da minha vida.

Logo no início voccê diz à plateia que "nunca antes vocês viram um compositor mais feliz no palco". Você se sente mais compositor do que performer?

EC: Eu sou compositor, é minha profissão mesmo. Eu não sou cantor. Canto por consequencia de minhas composições, mas eu me considero mesmo é compositor.

Você se vê mais como compositor, então?

EC: Não, eu me vejo não: eu sou. O que eu sei fazer é música, né? Tudo o que gira em torno disso – show, cantar, gravar, dar entrevista – tudo é em função de eu ser compositor.

A coisa toda de ser um show comemorativo de 50 anos de estrada, de ser no Municipal etc - tudo isso chegou a te intimidar em algum momento? Você ainda fica nervoso antes de subir no palco?

EC: Nervoso a gente fica sempre. Em qualquer show, a gente fica. Mesmo sabendo tudo, tendo feito milhares de shows pela vida, mas é que cada dia é uma emoção diferente. cada público, cada cidade é diferente, sabe? Então isso dá a vontade que saia tudo perfeito, que não tenha problema nenhum no som, que o show ocorra tranquilo, que as pessoas entendam o amor que agente quer transmitir, que a gente consiga receber também o amor que as pessoas querem devolver, se não vai pifar nada, o instrumental... Então essa preocupação toda gera uma tensão muito grande, dá aquele nervoso na gente, que chamam de friozinho na barriga, que não é friozinho, é dor, mesmo! É dor na barriga mesmo (risos). Mas lá pela terceira música ela passa e o show caminha tranquilo.

É até uma coisa natural, é necessário para se manter atento a tudo, né?

É! Agora respondendo à sua outra pergunta, eu não sei hoje em diz o conceito que as pessoas tem do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas acontece o seguinte: quando eu comecei minha vida (artística) lá nos anos 1960, lá na Tijuca, menino sonhador, sabe, aventureiro, eu jamais imaginaria um dia poder pisar naquele palco, que é uma coisa tão grande, um templo sagrado que abriga as artes nobres, sabe? Então, eu jamais imaginaria, naquele tempo, pisar um dia no palco do Municipal – ainda mais cantando rock 'n' roll! Então, minha alegria, minha felicidade, no dia que eu fiz isso, foi inexplicável, inenarrável. Inclusive, cantar Festa de Arromba no Municipal, isso pra mim, foi a maior vitória que eu já tive na minha vida. Muito significativo pra mim. Na minha cabeça, todo mundo que eu falo em Festa de Arromba tava ali no palco comigo.

Você retomou a pegada rock 'n' roll nos últimos discos. O que motivou isso? Uma necessidade de retorno às origens, ou o senhor achou que tava na hora de mostrar a molecada como se faz? Por que tá faltando rock 'n' roll, né?

EC: É um misto disso tudo o que você falou e mais o seguinte: eu sou um compositor brasileiro, sabe? Então, você sabe que, aqui no Brasil, a gente sofre muitas influências, né? Na Inglaterra, o compositor é aquilo só. É só aquilo que tem, aquele negócio deles, lá. Eles não sabem outras coisas. Aqui, não. A gente é muito rico de influências, sabe? No Maranhão tem influência, Recife... A Bahia, então, nem se fala. Tem lá no Sul, no Centro-Oeste...

É, cada região tem suas músicas características, né?

EC: É, então, tudo isso influencia você. Assim como eu me influenciei na minha vida com todos os ritmos que apareciam... A minha estrada é assim, tão longa, que eu vivenciei o nascer de vários ritmos. Mambo, rumba, cha cha chá... Eu vi o nascer do rock 'n' roll e da bossa nova. É diferente de uma pessoa hoje em dia: "Como é que é essa tal de bossa nova?" Aí o menino vai ouvir e "Porra, é isso aí?" Ele ouve por ouvir, com o ouvido "frio" do menino de agora, sabe? Mas eu não, eu vi a magia do nascer da coisa. Eu ouvia os comentários nas ruas: "Já ouviu a música tal? Tem um cara aí que canta esquisito, com a voz baixinha, ele é desafinado pra caramba"! (Risos) As pessoas nem tinham noção. Eles confundiam a afinação de João Gilberto com desafinação. Então, essa maravilha toda, os comentários nas esquinas, os primeiros acordes novos, ia um ensinando pro outro, sabe? Era a magia do momento. Então eu vivi isso tudo, o rock 'n' roll, a bossa nova e outras coisas também. Então, hoje em dia, claro, eu sou um compositor brasileiro que sofre essas influências todas e isso me faz, de vez em quando, ir por outros caminhos. Aí daqui a pouco eu tô muito emepebista, depois faço um bolero... sei lá o que eu faço. Aí, de repente eu me toquei: porra, eu comecei minha vida cantando rock 'n' roll. Então eu deixei isso... apesar de nunca ter deixado de fazer rock 'n' roll, eu nunca mais tinha assumido mesmo a coisa. Eu sou isso. Apareci assim e vou ficar assim. E tem também isso aí que você falou. Porra, tá na hora de ensinar pros meninos o que é rock 'n' roll mesmo. Aí voltei, me dei muito bem e vou continuar.

Tava vendo o release do Arnaldo Antunes e ele diz que você surgiu apenas dez anos depois do rock 'n' roll em si. Como foi acompanhar o desenvolvimento do rock ao longo dessas décadas?

EC: Eu tive que acompanhar, né? Fui crescendo junto com ele, mas tenho que confessar que, dos anos 1970 em diante, nada mais me arrepiou, bicho. Eu parei nos anos 70 nesse lance de músicas preferidas, de me arrepiar com as músicas, de chorar pra caramba ouvindo uma música, eu parei ali. Nada me arrepiou nos anos 80, 90, 2000, hoje, nada me arrepia. Então meus discos preferidos são esses, meus rocks básicos, a bossa nova básica de João Gilberto, Marcos Valle, Tom Jobim, Vinícius, eu gosto dessas coisas assim.

O arranjo estilo 007 de Negro Gato ficou espetacular. Como surgiu?

EC: Os arranjos a gente vai fazendo... O maestro Zé Lourenço toma as iniciativas lá e todo mundo vai criando, bicho. Eu digo como é que eu quero mais ou menos a levada, não abro mão das minhas divisões e eles fazem o arranjo em cima delas. Por isso que é bom você contar com excelentes músicos criativos, sabe? Por que tem músico que não cria, só vai na água com açúcar. Pega a harmonia e pronto, vai tocando com a cifra, vai seguindo e não cria nada. Músicos criativos não, eles enriquecem seus arranjos.

O senhor tocou com uma banda compacta mas muito eficiente, os meninos da Filhos da Judith, Dadi, Billy Brandão...

EC: É mesmo, mas pô! Para de me chamar de senhor!

Ô, desculpe, é o costume!

EC: É respeito demais (risos)!  

Aquela canção ecológica do sr. e do Roberto é antiga? O senhor diz que não ouviram vocês falando de ecologia nos anos 1970 por que vocês falavam em português.

EC: Aquela música é de 74 ou 76, se não me engano. Mas aquilo que eu falo é uma ironiazinha, sabe, daquilo que eu chama de "complexo de vira-lata". Eu chamo, não. Eu acho que foi o Nélson Rodrigues que criou esse termo. É esse eterno complexo que brasileiro tem de achar que tudo que é (norte) americano é melhor. De seguir os americanos em tudo. Logicamente que é um povo espetacular, defensor de uma liberdade legal pra caramba, mas também é um povo prepotente e arrogante. E o Brasil tem essa mania de achar que tudo que é americano é lindo e maravilhoso, ao ponto de dar um valor exagerado, eu acho, às coisas americanas, em desprestígio das nossas. Isso me causa uma certa chateação. Então aquilo que eu falo é um pouco de ironia em cima disso. Quando o cara fala em português, ninguém presta atenção, pensa que é besteira, "o cara tá maluco" (risos). Aí o outro fala em inglês, tem outra seriedade.

A participação da Marisa Monte ficou maravilhosa. Vocês gravaram aquela música juntos, né?

EC: Fizemos e gravamos juntos. Aí era óbvio que a gente cantasse, por que nunca tínhamos cantado ela juntos ao vivo. Foi bonito, um momento marcante e registrou pra sempre nós dois cantando nossa música juntos.

Como todo grande artista o senhor tem várias facetas: tem o Erasmo roqueiro, o Erasmo romântico, o Erasmo comentarista social - em qual pele o senhor se sente mais confortável, mais Erasmo?

EC: Olha, eu acho que, desde que eu goste do tema, eu acho que eu sou eu, sempre. Quando o tema calha de um tema que possa fazer ele com humor, ih, eu fico muito feliz, eu gosto muito de usar a ironia, o humor, de deixar alguma coisa no ar para as pessoas pensarem, sabe? Por exemplo: "Dizem que a mulher é o sexo frágil". Não sou eu que estou dizendo – "dizem". Então já bota a responsabilidade pro outro, sabe? Eu gosto muito desse jogo, do comentário. Eu sou cronista. Me considero um contista, eu conto coisas da vida, vistas pelo meu foco.

Aquela introdução com o senhor falando disfarçado, como nos jornais da TV, foi uma sacada muito inteligente que fala do preconceito contra os roqueiros aqui no Brasil, uma coisa que até eu, que só tenho 40 anos, sofri nos tempos da escola, já nos anos 80. O senhor sofreu muito com isso?

EC: Claro, sofri muito preconceito! Era terrível, rapaz! Contando assim, nem dá pra transmitir o que era. Por que no início, tinha a religião contra (o rock). Chamava de coisa do diabo (risos), dizia que o demônio entrava nas pessoas, eram contra a dança, contra a música, o ritmo... Então tinha movimentos. Aí na Bahia, por exemplo, eu fui com Renato & Seus Blue Caps, quando eu era da banda, a gente foi em Itabuna. Fizemos uma excursão por Itabuna, Feira de Santana e Salvador. A gente cantou no (Clube) Baiano de Tênis e, porra, não teve um aplauso, cara!


  
Foi mermo?

EC: Imagine você, uma banda acaba de tocar e ninguém aplaude. A juventude queria dançar: as meninas, os rapazes. Mas os pais estavam junto e eles tinham medo, sabe? Era muito preconceito sobre tudo, os costumes. E o gênero (rock 'n' roll) libertou essas pessoas. O rock 'n' roll libertou a juventude toda, por que era uma juventude presa, escravizada aos gostos dos pais. Até no modo de se vestir, o comportamento... e claro que a música também, ouviam o que os pais ouviam, os cantores antigos como Silvio Caldas, Orlando Silva e outros. E no Estados Unidos era Sinatra, as big bands, Glen Miller. Antigamente, quando morria uma pessoa do governo eram três dias de luto, parava de tocar tudo quanto era música nas rádios tocava só música clássica (risos). Então a gente teve essa vivência, o rock 'n' roll era completamente marginalizado. Tatuagem também, qualquer coisa que exprimisse liberdade era mal vista. E começava em casa, era mal visto pelos pais e pela sociedade em geral. Então, quem vivia daquilo, daquele ritmo que estava surgindo, quem abraçou e dedicou àquilo, sofreu pra caramba.

Ver o senhor e Roberto Carlos juntos no palco já é emocionante para qualquer brasileiro, imagino como dever ser para vcs dois. Como é para o senhor? Respira fundo, ou tira de letra?

EC: Imagina pra nós! Mas é bonito, respira fundo, engole a lágrima, o abraço é mais forte, por que você vê além da sua alegria, a alegria do outro que também está feliz naquele momento. Roberto foi de uma generosidade, de uma entrega maravilhosa, foi inesquecível pra mim. E ele estava muito solícito, olha que a gente já cantou por vários anos nos especiais dele na televisão, mas ali ele estava diferente comigo, sabe? De repente era por que era o meu show, minha relização e ele estava apenas participando. A entrega dele foi total. Foi um Roberto como eu nunca tinha visto antes comigo. Embora já tivessemos cantado tantas vezes antes juntos.

É verdade, ele estava mais solto, mais à vontade.

EC: Era como se estivessemos cantando em casa, e nada foi combinado. Diferente dos textos que a gente recebe nos especiais dele, por que vem o texto antes, sabe? Aí a gente improvisa em cima de um texto. Lá (no Municipal) não teve texto. Foi que vinha na cabeça a gente falava.

Por que o senhor e Roberto não fazem um projeto juntos?

EC: Isso é meio impossivel, muita coisa, muitos interesses paralelos, editoras e gravadoras diferentes, é meio complicado. As pessoas me cobram muito isso. 'Faz isso', 'faz aquilo', mas tudo o que a pessoa pensa já foi pensado por mim. Eu já pensei em todas as pessobilidades possiveis e impossiveis de gravar disco, mas tudo tem sua hora, se tiver que ser é, na minha vida eu não forço nada, tudo o que acontece é porque tem que acontecer mesmo. A vida botou na minha frente, aí cabe a mim dizer sim ou não, com a responsabilidade de, de repente, dizer não a uma coisa que dá certo. Ou dizer sim a uma coisa que não deu certo. Isso é a sorte, mas eu não procuro nada, não forço barra nenhuma, não pertenço a grupo nenhum, panela nenhuma. Eu sigo simplesmente minha vida fazendo minha música, e o que tem que acontecer, acontece.

Por que Wanderlea não participou?

EC: Por que... ela não... (Para e pensa um pouco) Não fui eu quem fez as escolhas. Seria muito óbvio, sabe? Acho que queriam fugir do óbvio, botar pessoas da Jovem Guarda, fica aquela coisa, DVD da Jovem Guarda. Não é, cara. Também não convidaram um monte de artistas para participar, por que não foi uma coisa feita para o Municipal. Foi o último show da temporada do disco Rock 'n' Roll. Então a gente ia fazer o último show aqui no Rio. Poderia ser em qualquer casa de show. Mas de repente, surgiu o Municipal. Aí fizemos e a coisa cresceu. Aí minha produção convidou o Roberto Carlos e a Marisa Monte. Foi surpresa até pra mim quando me disseram, "Ih, o Roberto vai!". Eu fiquei "É mesmo?" "A Marisa Monte também!". "Pô, que genial", num sei o que. Quer dizer, não foi uma coisa feita para o Municipal nem para os 50 anos de Estrada. Foi o último show da temporada Sexo & Rock 'n' Roll, que calhou de ser no Municipal.

O senhor vai correr pelo Brasil com esse show do DVD?

EC: Já fiz a Bahia, inclusive, uma semana antes do Municipal. Agora devemos voltar, mas não fechamos data ainda, já fizemos Rio, São Paulo e Belo Horizonte e agora vou pro Rock in Rio Lisboa, na volta vamos pensar a estrada desse show do DVD. (Fala com alguém ao lado) Hein? Ah, eu fiz um show semana passada aí, na Costa de Sauípe. No não sei o que da Mata, foi um evento fechado para uma firma lá, no Hotel Ibero Star.

O senhor já tem planos para um próximo trabalho?

EC: Não, não tenho nada ainda, bicho. Tô na estrada e devo ficar nela por mais um ano, pelo menos. Depois penso em coisa nova.

A Coqueiro Verde está botando muita coisa nova bacana no mercado. O que senhor tem ouvido?

EC: Cara não tenho mais muito tempo, é muita musica, muita gente, muita informação. Se eu parar para ouvir todo mundo, não faço mais nada. Na Coqueiro é meu filho, Leo Esteves, quem comanda. Ele me manda uns suplementos, mas nem dá pra ouvir todo mundo.

Erasmo, é sempre um prazer falar com você.

EC: Pô, pra mim, também, que eu posso falar um monte de mentira e você acredita. (Risos)

Espero ouvir muito mais mentira do senhor, ainda.

EC: Tá bom, bicho! Obrigado por tudo e fica com Deus.

Erasmo Carlos / 50 Anos de Estrada Ao Vivo no Theatro Municipal / CD: R$ 19,99 | DVD: R$ 24,99

quinta-feira, janeiro 10, 2013

ORIGINAL OLINDA STYLE E EMICIDA CONFIRMADOS NO DIGITÁLIA 2013

O coletivo Original Olinda Style (foto pescada daqui) e o rapper paulista Emicida (acompanhado de banda completa) são as primeiras atrações confirmadas para a parte musical da edição 2013 do Digitália - Congresso e Festival de Música e Cultura Digital.

Os músicos vão se apresentar no dia 5 de fevereiro, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, como atrações principais da festa de encerramento do Digitália 2013, que acontece de 1º a 5 de fevereiro, com oficinas, conferências, cursos, apresentações de trabalhos acadêmicos e outras atividades, sempre em torno do tema das "novas tecnologias da informação e da comunicação, notadamente aquelas conformadas pela chamada Cultura Digital", conforme explica o site do evento.

Sobre as atrações: o Original Olinda Style consiste de um coletivo que une a banda pernambucana Eddie e a Orquestra Contemporânea de Olinda no mesmo palco. O resultado é uma grande festa no estilo do carnaval pernambucano.

Já o rapper Emicida (foto: Jordi Burch / Trip) é hoje um dos mais apreciados do gênero no Brasil.

Dono de articulada linguagem pop, já transcendeu o público do hip hop, mas sem deixar de agradar aos "manos" e "minas".

Pela primeira vez, Emicida se apresenta em Salvador acompnhado de banda completa e um convidado muito especial: Rael da Rima, o único MC que derrotou Emicida em uma disputa de rimas.

(Na verdade, acabei de receber um telefonema da assessora do Emicida, que me disse que Rael nem participa de disputas de rimas. Ô Messias! Tá querendo me deixar doido? ;-) )

Na parte acadêmica, o Digitália já confirmou conferências de Gilberto Gil (pelo segundo ano consecutivo), Jon Pareles (o temido crítico de música e editor de cultura do New York Times) e Chris Kaskie, Presidente do Pitchfork Media, empresa responsável pelo famoso site www.pitchfork.com, referência mundial em música independente e / ou digital.

terça-feira, janeiro 08, 2013

BOWIE & BERLIM, UM CASO INACABADO

Há dez anos, David Bowie se calou. Depois que lançou seu último álbum, o regular Reality (2003), não lançou mais nada inédito.

Hoje, justamente quando completa 66 anos, o camaleão capricorniano ressurge com música nova, Where Are We Now?, uma linda balada a base de pianos, em que parece declarar, sem medo de nostalgia, sua saudade da aclamada "fase Berlin" (1976-79).

No clipe divulgado hoje em seu site (http://www.davidbowie.com), dirigido por Tony Ousler, o gênio do rock aparece com o rosto acomodado, via chroma-key, em um ursinho de pelúcia deixado em um cenário meio desolado que lembra o ateliê de artista.

Enquanto canta, uma tela atrás dele (e de outro boneco de pelúcia com um rosto de mulher ao seu lado) exibe cenas em preto e branco de Berlin.

Na letra, exposta em lettering na tela, Bowie cita locais famosos da metrópole alemã, como Potzdammer Platz, Dschungel (clube noturno que ele frequentava) e Nurnberger Strasse (rua Nurnberger), locais em que ele, se dizendo um homem perdido no tempo ("man lost in time"), levava os mortos para passear ("just walking the dead").

Polêmica, sua fase Berlin, que marcou o auge do seu vício em cocaína e um mal-disfarçado, porém efêmero fascínio pelo nazi-facismo, gerou três grandes discos em sua vasta e brilhante discografia: Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979), conhecidos como Trilogia Berlin.

Além disso, ele ainda produziu dois álbuns igualmente históricos para Iggy Pop, como The Idiot (1977) e Lust For Life (1977).

Agora, em Where Are We Now, composta com o velho parceiro Tony Visconti, Bowie parece querer acertar contas com um passado de certa forma obscuro, mas sem pedir desculpas.

Melancólico, mais parece explicitar inquietação com o fim da vida que se aproxima, do que arrependimento.

Olhar angustiado, Bowie canta versos como "o momento em que você sabe que sabe o que sabe" ("The moment you know / you know / you know"), como o prelúdio de um encerramento.

Mas não custa lembrar: este é David Bowie, um dos maiores atores de personagens - senão o maior - que o rock já produziu. Vale a pena esparar por março, quando sai seu novo álbum, The Next Day (O Próximo Dia).

Não será de se admirar se o álbum soar como uma contradição a tudo isso.

Boas-vindas de volta ao Camaleão. Que continue entre nós por muito tempo ainda.


POSSÍVEIS SEXUALIDADES EM BELA HQ BAIANA



O Quarto Ao Lado, álbum em quadrinhos (e alguma prosa) de Marcelo Lima e André Leal (com participações de Bruno Marcello e Daiane Oliveira), é uma obra que, por si só, já nasce histórica: salvo engano, é a primeira HQ baiana dedicada ao tema da diversidade sexual.

Longe do panfletarismo das cartilhas de ONGs, O Quarto Ao Lado centra sua narrativa principal no relacionamento ambivalente de dois amigos de infância, Rafa e Matias.

Há três outras tramas menores envolvendo personagens periféricos à trama principal, mas que ajudam a ilustrar a ampla gama de afetos bi e homossexuais que eram o objeto de interesse do idealizador da HQ, o roteirista Marcelo Lima.

Talento em ascenção após os bons resultados de seu álbum anterior, Lucas da Feira (em parceria com Marcos Franco), Lima começou a se interessar pelo tema da diversidade sexual ao integrar o grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), orientado pelo professor Leandro Colling (Ufba).

“Aí surgiu a oportunidade de me  aprofundar nesse tema, até por que muitos amigos meus tinham se assumido gays. Achei que HQ seria uma boa mídia para abordar o assunto e aí fui compondo a história”, detalha Marcelo Lima.

Com uma linguagem adulta e narrativa baseada em longos diálogos, Lima construiu sua história dispensando a estrutura clássica início-meio-e-fim, preferindo enfocar um período de tempo na vida dos personagens – um tempo de (in)definições.

“Assim como na vida, também na sexualidade muitas vezes as coisas não estão definidas. Então, quando pensei na estrutura da história, achei que eu tinha que acompanhar com naturalidade o que estava acontecendo, como numa passagem do tempo”, observa Lima.

“Tudo depende da configuração de cada relacionamento. Tem gente que se define e outras não. Mas, mesmo assim, passa por experiências. Alguns personagens são gays de fato, mas precisam se identificar e passar por experiências diferentes”, diz Marcelo.

Ele não sabe se O Quarto Ao Lado é, de fato, a primeira HQ baiana dedicada ao tema da homossexualidade, mas fica feliz por que só o tema em si, acredita, deverá atrair leitores não usuais de quadrinhos.

“O teor de sexualidade traz leitores não tão familiarizados com HQ. Muita gente me falou que este foi o primeiro álbum de quadrinhos que comprou na vida. Isso  mostra que HQ serve para abordar qualquer tema: não-ficção, jornalismo etc. Isso me deixa feliz. Gostaria que mais gente explorasse esses outros caminhos nos quadrinhos baianos”, exorta Lima.

Contemplado com financiamento pelo Fundo de Cultura da Bahia através do Edital Culturas LGBT, o projeto de Lima se materializa neste belo álbum P& B, no qual três artistas se esmeraram para visualizar os personagens e tramas do autor.

A principal, de Rafa e Matias, e a que abre o álbum, de Warren e Uíliam (que trata de um affair entre um turista inglês e um soteropolitano da Gamboa de Baixo), tem desenhos de André Leal, que também vem mandando muito bem em HQs como São Jorge da Mata Escura.

“Leal foi meu parceiro nesse projeto desde o início. Mesmo sem edital,  já tinhamos páginas prontas”, conta Lima.

Leal, dado a desenhar belas mulheres em trajes de ginástica, conta que nunca tinha trabalhado com personagens homossexuais antes, mas “não tive nenhuma dificuldade porque encarei como um serviço de qualquer outro quadrinho. É pegar as orientações contidas no roteiro e executar os desenhos dentro do prazo”, conta.

Ao Bruno Marcello coube quadrinizar a história da espevitada Isa, namorada de Rafa, contada em flashback.

E Daiane Oliveira ilustra o conto em prosa Um Corpo Estranho, que fecha o álbum.

Após o lançamento em Feira de Santana no mês passado, um coquetel na Livraria Cultura marca o lançamento na capital, amanhã.

(Imagem 1: André Leal, imagem  2: Bruno Marcello e imagem 3: Daiane Oliveira.)


Lançamento: Amanhã, 19 horas / Livraria Cultura (Salvador Shopping)

O Quarto ao Lado / Marcelo Lima, André Leal, Daiane Oliveira e Bruno Marcello / Fundação Pedro Calmon / 104 p. / R$ 15 / http://oquartoaolado.com

domingo, janeiro 06, 2013

CABEÇA DINOSSAURO AO VIVO 2012 REVITALIZA TITÃS REMANESCENTES

Com o perdão do clichê, às vezes é necessário dar um passo atrás para depois, avançar dois passos adiante.

Parece que é mais ou menos isto que acontece com os Titãs agora, com o lançamento do CD / DVD / Blu-ray Cabeça Dinossauro Ao Vivo 2012.

Gravado no Circo Voador (Rio de Janeiro), a performance, apresentada em preto & branco, captura os Titãs se reconectando à ferocidade punk rock que caracterizou o clássico LP Cabeça Dinossauro (1986) – um momento de virada decisivo para o então octeto paulista.

Hoje reduzida à um quarteto, a verdade é que a banda passou por momentos bem difíceis nos últimos doze ou quinze anos.

Entre saídas de integrantes (Nando Reis, Charles Gavin), a morte de Marcelo Fromer (2001) e a crise criativa evidenciada por uma saraivada de discos ao vivo, além de álbuns de estúdio insatisfatórios, como o último (Sacos Plásticos, 2009), a ironia é que foi com mais um “ao vivo” que estes veteranos conseguiram soar renovados.

Cabeça Dinossauro Ao Vivo 2012 é uma verdadeira pedrada no juízo e soa absolutamente à altura da obra original, o que, por si só, é uma boa notícia.

Cabeça DNA

Mas melhor ainda é descobrir que esse estágio já está influenciando o quarteto (mais o ótimo baterista Mário Fabre) nas composições do próximo álbum de estúdio dos Titãs, previsto para sair no  segundo semestre.

“Não tenho dúvidas que essa fase do Cabeça Ao Vivo vai influenciar nosso próximo disco”, confirma Paulo Miklos em entrevista por telefone.

“Uma coisa que aconteceu foi que o público descobriu  uma banda íntegra e cheia de tesão no palco. E com a gente em nova formação, com  o (Sérgio) Britto e o Branco (Mello) se revezando no baixo, eu na segunda guitarra e o Fabre na bateria, tudo isso  trouxe um ânimo renovado da juventude”, diverte-se Miklos, rindo ao telefone.

“Tocar esse repertório é entrar em contato com nosso  DNA. O Cabeça foi o momento em que definimos nosso estilo e nossa personalidade, ele forjou o caráter da banda”, vê.

Daí a importância do passo atrás antes dos dois adiante: “É saudável estar em contato com isso, agora que vamos nos debruçar sobre um material novo. É muito importante dar um passo adiante sintonizado com essa nossa tradição”, acrescenta.

Curiosamente, a retomada do Cabeça Dinossauro, incluindo a turnê iniciada no primeiro semestre – que passou por Salvador em julho e prossegue neste início de 2013 –, não estava nos planos iniciais da banda para 2012, garante o Titã.

“Radicalizamos”

“Nosso plano era sair em turnê com o show Futuras Instalações, preparatório para um disco novo”, conta Miklos.

“Aí, no final de 2011,  recebemos um convite do Sesc para fazer um show do Cabeça. Nós nem tínhamos muita vontade de fazer, mas quando virou o ano do nosso aniversário de 30 anos, começamos a achar interessante, que se justificava”, detalha o músico.

Recheado de hits como Polícia, Aa Uu, Bichos Escrotos, Igreja e Família, Cabeça Dinossauro foi o momento em que a banda apostou todas as fichas em um projeto arrojado: “Àquela altura, a gente já tinha feito sucesso de rádio, mas vimos que aquele não era nosso objetivo”.

“A coisa do hit radiofônico é que é um publico transitório, que se liga quando você faz sucesso, mas não acompanha seu trabalho”, constata.

“Aí radicalizamos: quem quiser vir junto agora é por que realmente gosta do que fazemos. Aí aconteceu o fenômeno. Mesmo nos shows de estreia, as pessoas cantavam todas as músicas, todos os lugares lotados. Foi uma grande felicidade”, conclui Miklos.







 
Titãs / Cabeça Dinossauro - ao Vivo 2012 / Titãs Diversão & Arte - Universal / R$ 24,90 / DVD: R$ 33,90  /  Blu-ray: R$ 69,90

quinta-feira, janeiro 03, 2013

PHILIP K. DICK: VOLUME DE CONTOS ADAPTADOS AO CINEMA TRAZ OS TEMAS MAIS CAROS AO AUTOR DE BLADE RUNNER

Meio genial, meio esquizofrênico (do tipo dado a visões místicas), o escritor norte-americano Philip K. Dick (1928-1982), permanece um enigma a ser devidamente desvendado.

Realidades Adaptadas (Aleph), livro que reúne sete dos seus contos transpostos para o cinema, poderá não elucidar os muitos pontos obscuros em sua vida e obra, mas é bom começo – além de ser uma senhora leitura para os apreciadores de sua ficção científica psicodélica, pessoal e intransferível.

Estão aqui os seguintes contos: Lembramos Para Você a Preço de Atacado (adaptado como os filmes O Vingador do Futuro, de 1990 e 2012), Segunda Variedade (adaptado como Screamers - Assassinos Cibernéticos, 1995), Impostor (Impostor, 2001), O Relatório Minoritário (Minority Report - A Nova Lei, 2002), O Pagamento (O Pagamento, 2003), O Homem Dourado (O Vidente, 2007) e Equipe de Ajuste (Os Agentes do Destino, 2011).

Infelizmente, quase todas estas adaptações falharam em captar o real espírito filosófico da obra literária de Dick e se ativeram aos aspectos mais superficiais dos contos, o lado mais aventuresco e comercial.

Desta leva, a adaptação mais digna é – por incrível que pareça – a primeira versão de Lembramos Para Você a Preço de Atacado: o filme O Vingador do Futuro (1990), estrelado por Arnold Schwarzenegger.

 Mas não exatamente por causa do carismático brucutu austríaco, mas por mérito do diretor, o holandês Paul Verhoeven, um legítimo subversivo entranhado no sistemão de Hollywood, e que, em 1987, já tinha cometido uma obra-prima da FC distópica: Robocop.

Já filmes como  Screamers - Assassinos Cibernéticos, Minority Report - A Nova Lei e  Os Agentes do Destino  ainda se prestam a uma sessão da tarde descompromissada.

Quanto aos outros... bom, era melhor que nem tivessem sido “cometidos”.

Realidade esfacelada

Quanto aos contos, o que se depreende da maioria deles (assim como da maior parte da obra de Dick) é que o homem era atormentado pelo princípio que veio a ser conhecido como Matrix: a realidade é uma ilusão.

E antes que alguém aí cite a célebre trilogia dos Irmãos  Wachowski, vale lembrar que a maioria destes contos foi escrito na década de 1950.

De diferentes ângulos, ele aborda diretamente o tema da “falsa realidade” em pelo menos três destes sete contos: Lembramos, Relatório e Equipe.

Já em Impostor, Segunda Variedade e O Homem Dourado, o tema também é o mesmo: o que é ser humano? O que nos torna seres humanos?

Que aliás, é o tema central do mais bem-sucedido filme  baseado em  um de seus romances: o clássico Blade Runner - O Caçador de Androides (1982), de Ridley Scott.

Questionamentos naturais para um ex-estudante de Filosofia da Universidade de Berkeley, diga-se. As formas como ele abordava essas questões é que eram extraordinárias.

Fama póstuma

À moda Hitchcock, seus protagonistas eram sempre homens comuns envolvidos em seus afazeres diários que, um belo dia, caem em uma espécie de toca de coelho (influência de Lewis Carrol?) e veem a realidade se esfacelar diante de seus olhos.

Um ótimo exemplo é Equipe de Ajuste.

O conto, de ambientação idílica nos subúrbios e escritórios norte-americanos dos anos 1950, mostra um homem que, um belo dia, chega na hora errada ao trabalho e flagra uma estranha equipe de trabalhadores “remoldando” a realidade, incluindo desde as divisórias até o físico das pessoas, como se faz com massa de modelar.

Acima, cena do filme Os Agentes do Destino, com Matt Damon e Emily Blunt, baseado neste conto.

Segue-se aí uma frenética busca do homem pela verdade, além do questionamento da sua própria sanidade mental.

O conto é bem ilustrativo da mente de Dick, que vivia atormentado com o que ele achava ser o espírito encostado de sua irmã gêmea, morta aos três meses de idade.

Outro episódio é sua experiência mística de 1974, experimentada após atender a porta e se deparar com uma entregadora de farmácia usando um pingente de colar na forma de um peixe – símbolo dos primeiros cristãos.

O episódio, ele relatou, o transportou para a Roma antiga, entre outras peripécias. Robert Crumb quadrinizou essa história maluca, que o jornalista brasileiro Alexandre Matias traduziu e jogou on line. Leia.

No fim das contas, tudo isso só torna ainda mais fascinante a leitura destes contos – como de resto, qualquer coisa que ele escreveu.

Morto por acidente vascular cerebral pouco antes da estreia de Blade Runner nos cinemas, Dick nunca viu nenhum dos filmes baseados em sua obra e é mais popular hoje do que jamais foi em vida.

Realidades Adaptadas / Philip K. Dick / Aleph / 304 p. / R$ 48 / www.editoraaleph.com.br

EXOESQUELETO: POWER TRIO ROQUEIRO FAZ BLACK MUSIC EM TEMPORADA NO JC COM BANDAS DE PRIMEIRO TIME

Dizem que o rock é o mais mestiço dos gêneros musicais, encontro de tradições negras (blues, spirituals) e europeias – através do country, um amálgama norte-americano de diversas tradições levadas aos EUA por imigrantes pobres.

Contudo, é praticamente inegável que o elemento negro desta equação sempre soou mais predominante do que o branco.

É nessa suposição que trabalha a promissora banda local ExoEsqueleto (foto: Maurício Lídio).

“Se for pra botar rótulo, o rock da gente é alternativo”, afirma André Dias (guitarra e vocal). “Agora, nosso som tem muita influência negra. Nossa proposta é basicamente tratar o rock como música negra”, diz.

“O rock começou com os negros então a ideia é resgatar isso mesmo, indo desde ritmos da África no som até as roupas, que são batas africanas”, conta.

Parceiras de primeiro time

Com Renato Almeida (bateria) e Ricardo Bittencourt (baixo e vocal) completando o power trio formado há menos de um ano, eles iniciam neste sábado temporada de quatro datas no badalado Café Atelier JC Barreto, em São Caetano.

Os shows terão sempre uma segunda banda escolhida a dedo entre as melhores do cenário local – bandas que aliás, não costumam tocar tanto quanto gostaríamos, portanto, a oportunidade é de ouro.

Neste sábado, a temporada se inicia com o instrumental arrojado da TenTrio. Dia 11 tem o pós-punk denso e poético da Declinium. No sábado seguinte (18), o punk ‘77 clássico da Pastel de Miolos. Encerrando a temporada, a Theatro de Seraphin faz o show do belíssimo álbum No Fim de Maio (2011).

“Chamamos bandas de que gostamos, até para fazer com  que circulem pela cidade. Fora que são  pessoas amigas também”, conta André. Em março, eles entram em estúdio para gravar o primeiro EP.

ExoEsqueleto e Convidados / Dias 4 (Com TenTrio), 11 (Declinium), 18 (Pastel de Miolos)  e 25 (Theatro de Seraphin) / Café Atelier JC Barreto / Ladeira do Bambui,  São Caetano / 21 horas / R$ 3



NUETAS

Scambo e Velotroz
Verão instalado, amigo(a). Não adianta reclamar. Uma boa é se jogar no Amostrão Vila Verão do Teatro Vila Velha, que, entre outras ótimas atrações, bota Scambo e Velotroz (na foto de Lunaé Parracho / Ag. A Tarde) no histórico palco do Passeio Público. A primeira na sexta-feira e a segunda no sábado. Sempre às 20 horas, R$ 30 e R$ 15.

Pelô night fever
O Pelourinho também vai andar bem agitado este verão. Vai ter uma senhora night hip hop com DaGanja & DJ KL Jay (Racionais Mc’s), Cosquarque Cosquality, Fall Clássico, Kiko e Blequimobiu (sexta-feira, mesmo local), Bemba Trio & Convidados (domingo, na Arena SESC  Pelourinho) e Gerônimo & Banda MontSerrat (mesmo dia, na Escadaria da Igreja do Paço). Programe-se, evite os zumbis viciados em crack e... divirta-se.