segunda-feira, junho 09, 2014

PAULO CESAR DE ARAÚJO: "FUI TRATADO COMO CRIMINOSO"

Paulo Cesar de Araújo, em foto de Bel Pedrosa
Cinéfilo, o historiador baiano Paulo Cesar de Araújo acertou em cheio ao comparar seu confronto com Roberto Carlos no Fórum da Barra Funda (RJ), em 2007, ao duelo final do filme Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966), de Sergio Leone.

Após se encararem em silêncio por breves momentos, todos sacaram suas armas (argumentativas e jurídicas).

O tiroteio que se seguiu foi tão brutal e traumatizante que os disparos ecoam  até hoje nas planícies e planaltos Brasil afora.

Contado em detalhes no capítulo nove do livro O Réu e o Rei, recém-lançado, o relato do embate entre biógrafo e biografado é, como o próprio Paulo diz, o momento “mais dramático” de um livro que se lê com inquietação.

Um colega da imprensa sudestina o comparou ao relato de um acidente aéreo. Já sabemos que vai terminar em tragédia, mas é impossível não se angustiar ao conhecer os detalhes.

Mas nem só de decepções é feito O Réu e o Rei.

Há história de um menino conquistense pobre que trabalhava de engraxate e sonhava comprar um LP do Rei.

Há a inusitada amizade que surge entre o autor e João Gilberto.

Há revelações, traições e o desejo de justiça em uma leitura de tirar o fôlego.

Nesta exclusiva, o autor da biografia proibida do Rei fala de tudo isso e um pouco mais. Sempre Em Detalhes.

Suspirou de alívio após a notícia de que Roberto Carlos não ia tentar censurar este novo livro? Ou  já esperava por isso?

Paulo Cesar de Araújo: Não me preocupei muito. Se fosse me preocupar com a reação dele, não teria feito o primeiro livro. Meu compromisso é com a História, as lacunas nas historiografia. E depois, o contexto agora é outro. Avançamos muito nesse debate. Os juízes – a sociedade está mais esclarecida. Então, não me surpreendeu. Não havia possibilidade para ele censurar outro livro. Isso é uma página virada. Esse negócio de proibir livros, como diz Chico Buarque, é uma “página infeliz de nossa História”, que estamos superando, felizmente.

Agora que o Congresso votou a mudança dos artigos 20 e 21 do Código Civil (que, entre outras coisas, permitiam o veto a biografias não autorizadas) o senhor vai tentar liberar O Roberto Carlos em Detalhes?

PCA: A Câmara votou em abril, e O Réu e o Rei saiu no mês seguinte. Estamos aguardando agora a votação no Senado. Então, não houve ainda a confirmação dessa mudança. Mas estamos bem encaminhados, foi um passo importante. Aquilo (o acordo dos advogados de RC com a editora Planeta) foi um acordo imoral, absurdo. Eu narro as circunstâncias dele no livro e o questiono desde 2007. Eu estava sem advogado, na prática. Eles eram da Planeta. Agora, com meu próprio advogado fica mais fácil esse questionamento, pois temos jurisprudência. O acordo foi feito naquele circunstância específica, mas  o Direito se modifica em razão dos fatos. Súmulas são alteradas e revogadas. Vamos à luta. Certamente, eu acho que pro Roberto fica difícil. Devia partir dele essa iniativa de pôr um ponto final nessa história. Meu livro seria o último proibido e RC,  o último censor. Eu acho que ele não quer esse título. Ninguém suporta mais isso. A ‘mão peluda’ da censura, como diz Elio Gaspari, é página virada. Vou tentar mais uma vez e sempre que for possível. Espero que ele tome a iniciativa. Se ele tiver um amigo, um conselheiro, ele vai tomar essa atitude. Censura não cabe mais.

Pelo que você conta, Roberto e assessores já sabiam que você estava escrevendo um livro sobre ele. E mesmo assim, nunca tentaram te impedir antes que ele fosse publicado.

PCA: Eu mostro no livro documentos que provam isso. É importante lembrar disso porque ele me acusam de publicar o livro sem avisar o artista. Eu cito nos autos do processo que Roberto diz: ‘Vocês não tiveram o cuidado de me avisar’. Mas eles sabiam, sim. Nunca me disseram ‘não queremos o livro’. Eles só protelaram. A editora os procurou. Tudo  sempre nos caminhos legais, oficiais do artista e sua equipe de assessores e empresários. E assim se passaram 15 anos de pesquisa, consultando todas as fontes possíveis. Por isso, o livro foi feito, mesmo sem  entrevista com RC.

A que você atribui esse comportamento de RC & cia?

PCA: Má fé, descaso, acho que é tudo isso. Eles chegaram a adulterar trechos do meu livro . O livro diz que a Jovem Guarda era “uma combinação de  sexo, garotas e playboys”. Na queixa-crime, trocaram “garotas” por “drogas”. E depois, alegaram que foi erro de digitação. Fui acusado de tudo, de ofender o artista, enfim. No livro, os fatos relatam tudo e os leitores tiram suas conclusões.

Qual foi a sua maior decepção: ele nem ter lido o livro ou ele ter te processado criminalmente?

PCA: A forma toda do processo, o radicalismo. Ele pediu R$ 4.5 mil R$ 500 mil por dia (erro do repórter, sorry), minha prisão por um tempo superior a dois anos. Me tratou como criminoso, apenas por que exerci meu trabalho. Sou um profissional da memória. A Constituição cidadã de 1988 me ampara no seu artigo 5. Então, ao escrever o livro do RC e mesmo o Eu Não Sou Cachorro, Não (2002), eu estou amparado. Sou um profissional e fui tratado como criminoso pelo Roberto. Claro que com ele se agarrando numa aberração que são aqueles artigos (20 e 21 do Código Civil), que vão contra a Constituição. Eles negam o que a Constituição garante.

O senhor ainda ouve Roberto Carlos? É possível separar o artista do homem que quis vê-lo na cadeia?

PCA: Sempre separei. Sou um admirador. Não acho que Detalhes ficou feia. Sempre separei o homem da música. Embora ele seja um dos meus ídolos, nunca o acompanhei. Ele nunca gostou de política, eu, sim. Ele é supersticioso. Eu, não. Eu gosto de marrom. Ele é Vasco, eu  sou Flamengo. Sempre estivemos em posições opostas em relação a tudo. Sou leitor desde criança. Ele não gosta de ler. Minha relação com ele é em relação a obra. Em relação ao resto, continuamos em lados opostos. Ele podia ser Flamengo, pelo menos. Mas nem isso! (risos)



O Réu e o Rei expõe uma face de RC que poucos viram: autoritária, radical. O senhor se sente mal por isso?

PCA: O homem é seu contexto também. Essa parte mais conservadora dele ficou mais a sombra no livro Em Detalhes. Falo do processo movido contra Ruy Castro em 1983 e contra seu mordomo, em 1979. Conto detalhes, mas foi coisa de menor repercussão. Na época, a sociedade brasileira era mais tolerante com a censura. Vivíamos uma época de autoritarismo que RC compartilhava. Mas agora, quando ele veio  com a mesma atitude, como se fosse 1979, assustou. São outros tempos. E o radicalismo do processo, minha resistência... Eu poderia ter aceitado e tudo  ficaria por isso mesmo, mas  ele se deparou com alguém com uma posição progressista. Eu não poderia admitir a censura em relação a minha obra. Aí ficou explicita essa face dele mais obscurantista. Isso fica claro em O Réu  e o Rei por que é um fato novo, que o livro atualiza. O capítulo 9 do livro, o mais dramático, mostra o RC que ninguém conhece, o RC que não sorri e diz ‘que emoção, bicho’. Mas o que diz ‘minha história é patrimônio meu’  e bate no peito. Isso surpreende e  mostra que ele é humano, não é um super homem, um herói. É um grande artista, mas como ser humano, tem falhas e contradições. O livro mostra isso com fatos, declarações e atitudes.

Me parece que ele realmente acreditou nesse papo de “Rei”, e portanto, achou que estava acima do bem e do mal.

PCA: Ele já disse que ‘o Brasil me mima muito’. Isso foi no início dos anos 2000. Acho que está na hora de o Brasil lhe dar um puxão de orelha.

Igual suposição, pelo jeito, fizeram os artistas do Procure Saber, correto?

PCA: No episódio do Procure Saber, os artistas se uniram achando que bastava comunicar que não queriam aquilo. Aprovaram a lei do Ecad passando por cima dos trâmites, brincando. Acharam que ‘somos muito fortes’, mas foram surpreendidos. A sociedade tem um bem maior, que é a liberdade de expressão. A assessoria deles diz agora que o Procure Saber não discute mais biografias, isso desde que RC saiu. Foram surpreendidos com reação contra a censura.

O senhor, de fã e biógrafo, passa a ser também personagem na própria biografia de RC. Imaginou isso alguma vez?

PCA: É um fato curioso, incomum. É verdade. Isso agora é História. Mas certamente é um dos fatos mais polêmicos em que ele (RC) se envolveu. Ele sempre se preservou, sempre evitou se envolver em polêmica. Fosse de igreja, política, Diretas Já, anistia. Sempre evitou bola dividida para ficar como o cantor romântico. Agora, aos 70, se mobiliza com advogados, tentando modificar leis. Encontrou uma causa pública para lutar, mas é obscurantista. Em época de Comissão da Verdade, ele continua na contramão. Em pleno século 21, quer defender uma pauta tão velha quanto a censura a livros... Vai ser um capítulo na vida dele para sempre. Não tem como apagar isso. Só nas biografias autorizadas. Por isso elas são limitadas,  o cara bota o que quer. Mas nos livros independentes, o capítulo da briga dele contra um livro e a liberdade de escrever livros de História – isso será narrado para sempre.

No livro o senhor relata que os advogados de RC chegaram a adulterar trechos do seu livro para tentar incriminá-lo. O senhor pensou em tentar alguma medida legal contra eles?

PCA: Claro! Está na justiça, está tudo anexado aos autos. Mas para RC a justiça foi rápida. Para mim, a lei  é a normal: lenta. RC entrou na justiça contra o livro em janeiro de 2007. Em fevereiro, o livro estava fora das livrarias. Já eu vou aguardar anos, né?

Depois daquele episódio do juiz fã, o senhor tomou alguma providência legal?

PCA: Tudo isso está relatado nos autos. Tentamos pelo cível. Lá foi no criminal. Eu não tinha sido citado no cível por um erro. Foram me procurar pela lista telefônica e encontraram um outro Paulo Cesar Araújo. Aí tudo foi enviado para esse rapaz, cabista telefônico. E eu não fui citado. Na defesa, relatamos como se deu o acordo no criminal.

Caetano Veloso em principio se pronunciou a favor do seu livro. Depois fez parte do Procure Saber. O que o senhor acha que motivou essa mudança?

PCA: Caetano teve essa mudança. Mas na época, ele falou mal de RC. Disse que o livro era carinhoso, defendeu o livro. Depois teve essa mudança que surpreendeu o país. Mudou de lado, depois se desentendeu com RC e ele saiu. Eles mesmos não se entenderam por que não tinha lógica, era  uma contradição com as biografias deles, de Caetano e Gil, que são artistas de vanguarda... Como a vanguarda vai se aliar ao atraso? Não tinha como dar certo. Espero que eles reavaliem isso e se mostrem defensores da liberdade da expressão.

Sua relação com João Gilberto é uma das passagens mais bonitas do livro, uma revelação. O senhor ainda é amigo dele?

PCA: A Bahia em si é um personagem do meu livro, né? Começa em Vitória  da Conquista, depois Salvador. A Bahia está bem representada nesse livro. Fiquei muito contente de contar essas histórias que eu não poderia contar se não tivesse a oportunidade. Ao tirar meu livro, ele (RC) acabou me dando um tema para outro. Ele me tirou um livro e me deu outro. É uma história afetiva, a história de um menino que sonhava comprar um disco dele. Em 1976, finalmente eu consegui. Foi  no mesmo ano que ele conseguiu vender seu primeiro milhão de LPs. 30 anos depois eu lanço meu livro e ele pede minha prisão. É uma história brasileira. Mesmo que não tivesse acontecido comigo, eu gostaria de contá-la. Me senti na obrigação. São as surpresas da história. O João Gilberto, de vez em quando eu falo com ele. Quando dá. Mas o que eu vivi com ele fica para sempre. Ele influenciou toda a música brasileira e me influenciou de alguma forma. Minha reaproximação com meu pai foi por causa de João. Posso me incluir no rol dos que foram influenciados por ele de alguma forma. Ele tem essa imagem de difícil, mas  eu me surpreendi.

Outra surpresa foi saber que João viu Roberto cantando antes de virar roqueiro, quando tentava imitar o próprio João.

PCA: Esta é  uma das revelações do meu livro. O RC fez dezenas de tentativas de levar o João para seu especial de fim de ano na Globo. Ele tenta e João vai escapulindo. João Gilberto é o Roberto Carlos do  Roberto Carlos. Desde 1974 que ele convida João, mas não  levou. Todo mundo  quis aparecer no especial do Roberto. Menos João. Seria lindo esse encontro. Mas até agora RC não foi feliz.

Em seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não o senhor deu uma outra ótica à chamada música brega dos anos 1970, valorizando-a. Isto também gerou algumas críticas. Como o senhor  vê a produção similar feita hoje? Merece o mesmo respeito? Ou só daqui a vinte anos?

PCA: Primeiro, vamos constatar que o Brasil avançou. Há uma maior democratização social. Uma doméstica hoje é bem melhor tratada do que nos anos 1970. No campo da memória, isso tem acontecido. As pessoas estão mais atentas a esses processos. E meu livro faz parte desse processo. Ele foi lançado no ano da eleição do Lula (2002) Isso se reflete no campo da memória. Então essa nova geração de artistas populares merece um tratamento melhor. Claro que gosto é gosto, ninguém é obrigado a gostar, mas hoje há um olhar menos preconceituoso, há menos apartheid, há uma mistura, uma incorporação, uma inclusão. Embora, como todo mundo, tenho o direito de gostar do que quiser. Nem eu escuto e gosto de tudo. (risos)

O senhor está preparando algum outro livro?

PCA: Eu tenho cerca de 250 entrevistas com músicos da MPB. Usei parte desse material nesses três livros, mas a maior parte, ainda não. Certamente, vou escrever sobre música, mas ainda não defini o foco. Mas tenho material para mais dois livros. Não sei se vai ser uma biografia ou de análise mais geral de estilos, mas focando a MPB clássica a partir dessas entrevistas que tenho com Tom Jobim, João Gilberto, Chico, Caetano, Gil. Vou pensar nisso depois. O material esta à mão. Sabe, estou apenas começando a minha carreira. Agora lancei meu terceiro livro. Claro que com a mudança da legislação, sem ter que perder tempo com advogados, vou produzir mais. Sou professor, dou aula, corrijo provas. Isso tudo atrapalha. Mas, virando essa ‘página infeliz de nossa história’, vai sobrar mais tempo. Sou um estudioso, pesquisar é meu  trabalho, então vou escrever mais livros. E minha ideia é não demorar mais tanto. O Réu e o Rei levou cinco anos para ficar pronto. Por que tinha que ir em foro, dar aula, etc.

O senhor ainda tem parentes na Bahia? Costuma vir qui? Qual a sua relação com a Bahia?

PCA: Estou para voltar a Conquista agora. Prometi aos meus tios e meu pai, que ainda moram lá. E tenho parentes em Salvador, tios e primos, mas a maior parte mora em Conquista. Em Salvador, onde eu passava minhas férias, minhas lembranças são muitas, lembranças das canções de RC aí na casa do meu tio Euclides. Na época em que os discos eram lançados, eu estava em Salvador, as primeiras audições sempre eram no verão em Salvador. Tenho as melhores lembranças de Conquista também, que é minha cidade e espero voltar brevemente mas a Bahia nunca saiu de mim. Eu que saí da Bahia. Tenho saudade dos cinemas de Salvador. Quando chegava aí, ia aos cinemas todo dia. por que  em Conquista só tinha duas salas. Vi Tubarão no Guarany – inesquecível. Os verões que eu passei aí são minhas  melhores lembranças. Sou fissurado em cinema.

Previsão de uma noite de autógrafos por aqui?

PCA: Tô querendo fazer, sim. Vou ver com a editora. Tenho que  fazer lançamentos em alguns lugares e Salvador tem que ter, claro, por conta da minha relação afetiva com cidade.

O Réu e o Rei / Paulo Cesar de Araújo / Companhia das Letras / 528 p. / R$ 45 / E-book: R$ 31,50 / www.companhiadasletras.com.br

Entrevista publicada no Caderno 2+ do jornal A Tarde, no dia 9 de junho de 2014.

5 comentários:

Paulo Sales disse...

Muito boa entrevista, Poetinha. Preciso ler esse livro.
abs

Ernesto Ribeiro disse...

Eu imagino como essa matéria teve um significado a mais para um profissional da imprensa como você, Mr. Castro. Ou dois, considerando a sua avaliação pessoal do episódio em termos artísticos. Em suma, essa entrevista foi uma cartase.

Franchico disse...

Simplesmente espetacular a entrevista de Juca Kfouri ontem no Roda Viva. O cara desmontou a Copa, a Fifa, a imprensa, a Globo, o futebol brasileiro, a Olimpíada - CBF nem se fala. Arrasador. Me dá até vergonha de me dizer jornalista depois de ver um negócio desses. Uma verdadeira aula de jornalismo sem amarras nem rabo preso.

https://www.youtube.com/watch?v=4CKIyFNiBXI

Franchico disse...

Valeu, Paulinho e Ernesto.

Essa é do tipo que dá um puta trabalhão, mas tb é muito gratificante quando fica pronta.

andremendesmusica disse...

muito bacana a entrevista! parabéns,chico.