sexta-feira, fevereiro 07, 2014

OS MARCIANOS SOMOS NÓS

FC: As Crônicas Marcianas,  obra-prima de Ray Bradbury, volta às prateleiras com seus contos carregados de ironias e crítica social aos terráqueos

Sonda Curiosity chegando em Marte. Concepção da NASA - Caltech
O que o senhor ou a senhora que estão aí lendo fariam se um grupo de pessoas, roupas de astronauta e tudo, batesse na sua porta, dizendo que acabaram de chegar de outro planeta? Chamaria a polícia, correto?

Pois é, é justamente este estranhamento – e outras reações tipicamente humanas – que movem os personagens (da Terra ou de Marte) em As Crônicas Marcianas, clássico de Ray Bradbury (1920-2012), que acaba de ser relançado junto ao livro de contos A Cidade Inteira Dorme.
 

Lançado originalmente em 1950 (há 64 anos), As Crônicas Marcianas é um conjunto de 26 contos que relatam a conquista de Marte pelos terráqueos.
 

Os resultados da empreitada são os mais inusitados –   como a situação descrita no primeiro parágrafo, só que ao contrário: são os marcianos que, no início, não acreditam em terráqueos.
 

O episódio, visto no conto Agosto de 1999: Os Homens da Terra, chega a ser cômico na forma como Bradbury subverte as expectativas, transformando o que, em outras mãos seria um previsível momento solene, em uma comédia bufa de erros.

É por causa de momentos como este que o norte-americano figura entre os maiores escritores de ficção científica do século 20, ao lado do russo Isaac Asimov (Eu, Robô) e do britânico Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisseia no Espaço).
 

Os três (e outros grandes autores do gênero) compartilham justamente dessa capacidade de subverter aquilo que se espera da FC comum (naves espaciais, robôs, alienígenas, armas de raios) para tratar de temas bem humanos, como o medo do desconhecido, preconceito, estupidez, ignorância etc.
 

"Ylla", uma das Crônicas, adaptação em HQ de Dennis Calero
Curiosamente, o próprio Bradbury disse que sua primeira influência para falar do planeta vermelho foi Uma Princesa de Marte (1917), extravagante clássico pulp de  Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan. Ou seja: uma evolução e tanto (com todo respeito ao velho Edgar).


”O que eu acho muito interessante em Bradbury é uma declaração  dele mesmo, de que fazia FC com a desculpa de falar do futuro, mas estava mesmo era falando das sociedades do passado e do presente”, diz Ana Lima Cecílio, editora do selo Biblioteca Azul (GloboLivros), que reedita os livros do mestre.
 

Outro exemplo perfeito deste truque está no conto Junho de 2003: Flutuando no Espaço. Ambientado em uma cidadezinha do sul dos Estados Unidos (tradicionalmente mais racista), ele mostra a revolta de um habitante branco ao perceber que todos os negros da cidade estão se preparando para subir em um foguete, rumo às colônias terráqueas em Marte.
 

“Mas eles podem fazer isso? Não há nenhuma lei contra isso”?, pergunta o racista, perplexo.

“Este  conto  emocionante é um dos meus preferidos”, afirma Ana.  “Os caras ficam putos por que não tem mais como escravizar  os negros. Não há mais como prende-los”, diz.
 

“Você visualiza a cena de um jeito incrível, é muito humano, verdadeiro. Chega a ser doído de tão atual”, conta.

Vale lembrar que Flutuando no Espaço, bem como todos os outros contos deste livro, foi escrito na década de 1940, quando o racismo nos EUA ainda era institucionalizado – décadas antes das lutas pelos direitos civis.

Tédio americano


Mas ainda há muito mais para ser apreciado n’As Crônicas Marcianas.


Há uma linda homenagem à Edgar Allan Poe em Usher II, conto que dialoga diretamente com duas outras obras-primas: A Queda da Casa de Usher (de Poe) e Fahrenheit 451, que o próprio Bradbury escreveria poucos anos depois.
 

No conto, um terráqueo constrói em Marte uma réplica perfeita da mansão Usher do conto de Poe, como um memorial da “Grande Fogueira de 1975”, quando “ele, (HP) Lovecraft, (Nathaniel) Hawthorne, Ambrose Bierce (...) foram queimados sem dó nem piedade”, diz um personagem.
 

Em Fahrenheit, o tema é justamente a proibição – e subsequente queima – de livros em uma sociedade controlada por um governo totalitário.
 

“O que fez esse homem de Illinois, pergunto-me, ao fechar as páginas de seu livro, para que episódios da conquista de outro planeta povoem-me de terror e solidão?”, escreve o brujo Jorge Luis Borges, autor do luxuoso texto de apresentação que adorna esta edição das Crônicas.
 

“Neste livro ele colocou seus longos domingos vazios, seu tédio americano, sua solidão”, conclui o gênio argentino.

As crônicas marcianas / Ray Bradbury / Tradução: Ana Ban / 296 p. / R$ 39,90 / E-book: R$ 26,60 Biblioteca Azul - Globo Livros

9 comentários:

Franchico disse...

Novidades Vertigo da Panini:

http://omelete.uol.com.br/panini-comics/quadrinhos/vertigo-conclusao-de-sweeth-tooth-e-novos-volumes-de-fabulas-e-planetary-chegam-bancas-em-fevereiro

Franchico disse...

Palavras de salvação:

http://entretenimento.r7.com/blogs/andre-barcinski/a-sabedoria-de-lux-interior-20140207/

Amostrinha:

"“A melhor definição da palavra ‘punk’, pra mim, é a de William Burroughs (autor ‘beat’): ‘Sempre achei que punk eram quem levava no rabo!’”.

Franchico disse...

"Wim Wenders e aprendenders".

rodrigo sputter disse...

cacete, o e-book é somente 10 reis mais barato? porraéssa???

essa capa do livro é de Rex?


ó:

http://hqpoint.blogspot.com.br/2014/02/frank-miller-work-in-progress.html

Franchico disse...

Que eu desprezo o futebol (não o esporte em si, mas a indústria, a corrupção, a violência e a babaquice generalizada que o cerca), quem me conhece já sabe bem. Mas pelo visto, eu não preciso me preocupar muito - o futebol will eat itself:

http://entretenimento.r7.com/blogs/andre-barcinski/futebol-e-coisa-de-rico-20140210/

Franchico disse...

Sputter, o e-book é uns R$ 13 mais barato. O que é pouco, também acho. É bom que as próprias editoras brasileiras sabotem o e-book assim, que enterra logo essa moda, aí voltamos todos ao bom e velho (e nada ecológico, sei) papel.

Não, a capa não é de Rex. Parece, mas não é.

Franchico disse...

Porra de e-book!

rodrigo sputter disse...

eu falei com ele sobre a capa...aliás, perdeu o showzão do Vô Diddley!

rapá nada contra o e-book...minha namo tem um ipad, parece ser bem interessante ler...mas não tenho lido nenhum...tem várias funções que gostei, principalmente poder ir ao dicionário ali na hora e poder fazer pesquisa de referÊncias na net...

bicho, na moral, me arrependo de ter voltado a gostar de futebol...algo me diz que em breve vou voltar somente a acompanhar de longe, aliás, é o que estou fazendo...o surreal (o preço) chegou ao futebol, há tempos!

Franchico disse...

Xodó dos hipsters nos anos 90, o dupla japa Cibo Matto volta a cena, depois de 15 anos sem lançar discos:

http://newalbumreleases.net/62172/cibo-matto-hotel-valentine-2014/#more-62172

Cool.