quarta-feira, dezembro 12, 2012

BEMBA TRIO, EM BUSCA DA MÚSICA ELETRÔNICA POPULAR BAIANA


Nem só de cacofonia e misoginia vive o suíngue de Salvador.

Do bairro do Santo Antônio, no Centro Antigo, um apimentado vatapá de “ritmos periféricos”  vem cativando cada vez mais paladares sintonizados na cena alternativa: é o Bemba Trio (foto: Eládio Machado).

Formado por Russo Passapusso, Fael 1º e DJ Raiz, o Bemba (de BEm BAiano) vem lotando as casas de show aonde se apresenta, com um bem azeitado mix de dub, reggae, ragga e Miami Bass conjugados a ritmos baianos como samba reggae, samba chula e repente.

O resultado não surpreende quando se conhece as figuras.

Russo é uma estrela em ascenção na música baiana, atuando, em paralelo ao Bemba, na Baiana System e no Dubstereo. Teve uma composição sua incluída no último CD do Curumin.

Fael 1º você pode até não ter ouvido ainda, mas com certeza, já viu um de seus muitos grafites bacanas, espalhados pela cidade, além de também integrar o Dubstereo e o coletivo Ministério Público.

E o DJ Raiz vem discotecando  desde 2006 nas cenas rap e dub locais.

Em busca de nova fórmula

“Na verdade, o Bemba partiu de uma vontade minha e do Russo de pesquisar os chamados ritmos periféricos”, conta Fael.

“O foco  era o som eletrônico do gueto. Começamos em uma festa chamada Roleta Russa, em que rolava rap nacional, funk carioca, kuduro e outros ritmos que rodam pelo mundo. Concluímos que  tínhamos o dever de trazer isso pra Bahia”, diz.

O raciocínio deles é simples, mas faz total sentido: se o funk carioca é a música eletrônica do Rio de Janeiro, qual seria a música eletrônica da Bahia? Essa é a pergunta que move o Trio.

“Nosso desejo é criar uma nova fórmula, a partir das fusões de música jamaicana e baiana. Temos músicas  que abordam o pagode, o samba reggae etc. Buscamos a fusão do eletrônico com o orgânico, a linguagem popular com a música contemporânea eletrônica. Em resumo, estamos tentando criar uma música eletrônica com a cara da Bahia ”, declara Fael.

“E mais: dá pra fazer música popular com letras sólidas, que digam alguma coisa. Nosso trabalho é remar contra a maré, e ainda assim,  usando tudo o que está nesse mar de confusão que é a música baiana”, reflete.

Espertos, antenados, os Bembas já atravessaram o Atlântico, tendo se apresentado em Portugal, em julho último.

“Foi maravilhoso”, conta Fael. “Portugal é  tipo o espelho da Bahia na Europa. Me senti muito vontade e tivemos ótimos diálogos com artistas da cena local”, relata.

Verão quente: Em janeiro e fevereiro, o Bemba Trio toca o projeto Terça da BemSSA na Arena Sesc Senac Pelourinho, sempre com convidados. Em breve, a banda solta a agenda com o serviço completo.

ATUALIZAÇÃO DE ÚLTIMA HORA: Russo Passapusso foi contemplado no Edital Regional Bahia do Natura Musical. Com esse recurso, ele vai bancar a gravação do seu primeiro CD solo. Os outros contemplados nesse mesmo edital são Marcela Bellas,  Ilê-Ayê, o festival de documentários musicais IN-Edit Bahia e Márcia Castro. Veja mais.



http://www.bembatrio.com/

NUETAS

Joe & Morotó juntos
O incrível Joe Tromondo (ex-Dead Billies) estreia a filial soteropolitana  de sua banda solo em SP, Joe & A Gerência. Na guitarra está o grande Morotó Slim (outro ex-Billies), mais Rogério Gagliano (Les Royales) no baixo e Thiago Jende (Tentrio) na bateria. Sábado, no Donna Cheffa, com Trônica e Colidium. 21 horas, R$ 15 (rapazes) e R$ 10 (moças).

Blues de pai pra filho
Álvaro & Eric Assmar, pai e filho,  fazem a noite Acoustic Blues no Póstudo, com repertório de standards e autorais. Quinta-feira, 21h30, R$ 15.

LL Quinteto na quinta
O homem da Orkestra Rumpilezz, Letieres Leite, faz show de jazz com seu quinteto no Visca. Quinta-feira,  21 horas, R$ 12.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

O MALANDRO VOLTOU: ZÉ CARIOCA, 70 ANOS EM PROL DA MALANDRAGEM

Mas este senhor José Carioca não toma jeito mesmo.

Há setenta anos ele foge do trabalho, bota o Nestor nas maiores frias, fila a feijoada do Pedrão, enrola na zaga do Vila Xurupita Futebol Clube e nunca sai do noivado com a pobre da Rosinha.

Ainda assim, o danado é tão gente fina e simpático que ninguém consegue brigar com ele.

Ícone de brasilidade, Zé Carioca chega aos 70 anos sem perder o gingado e com boas notícias.

Em comemoração à data festiva, a Editora Abril está soltando duas edições especiais com material raro e inédito.

Zé Carioca 70 Anos Volume 1 traz, pela primeira vez, todas as suas tiras de jornal produzidas ainda nos Estados Unidos entre 1942 e 44, além de uma seleção de HQs dos anos 1950 e 60, mostrando sua evolução.

Mas os fãs estão salivando mesmo é pelo Volume 2, que, entre mais HQs clássicas dos anos 1970, 80 e 90, trará histórias inéditas – as primeiras produzidas desde a extinção do Estúdio Disney Abril em 2001.

E, a partir de 2013, cada edição de sua revista de linha (hoje no nº 2377) deverá trazer pelo menos uma HQ inédita.

“Neste primeiro momento, optamos por  um time de Mestres Disney: Fernando Ventura, Arthur Faria Jr., Luiz Podavin e Carlos Edgard Herrero. Mais adiante, vamos buscar jovens criadores”, adianta Paulo Maffia, editor dos gibis Disney.

Piadas de papagaio

E pensar que tudo começou com as piadas de papagaio.

Contaram tantas ao Walt Disney, quando de sua viagem ao Brasil em 1941, que ele acabou tendo o estalo de usar a ave típica dos trópicos para representar o Brasil no seu filme Alô, Amigos, lançado no ano seguinte.

Era tudo parte do esforço de guerra conhecido como política da boa vizinhança. Temeroso de que o Brasil se engraçasse com o Eixo Nazista, o governo norte-americano pagou a Disney para vir ao Brasil, acompanhado de sua equipe, para afagar nosso ego. Deu no que deu.

No texto de apresentação do ZC 70 Anos Volume 1, assinado pelo pesquisador da Usp Celbi Pegoraro, há detalhes saborosos desses bastidores. “A aparência do papagaio, com terno, chapéu de palha e guarda-chuva teria sido espelhada num tipo boêmio e bem conhecido nas ruas do Rio dos anos 1940, o Dr. Jacarandá”, escreve Celbi.

Politicamente incorreto, em algumas de suas primeiras HQs, parecia um Tom Ripley (personagem da escritora Patricia Highmith) empenado: sempre na corda bamba, improvisando saídas mirabolantes para as enrascadas em que se metia.

“Mas não acho que as características básicas dele são a malandragem e a ojeriza ao trabalho, e sim um cara que tenta sobreviver ao dia a dia sem perder o bom humor”, sustenta Maffia.

Com o passar das décadas, o personagem foi esquecido pelos americanos, mas não pelos brasileiros. Em 1950, lá estava ele na capa da revista Pato Donald Nº 1.

Em janeiro de 1961, Zé ganhou sua própria revista, até hoje em circulação.

De lá para cá, acumulou vasta mitologia, graças a grandes artistas brasileiros como Primaggio Mantovi, Renato Canini, Jorge Kato, Ivan Saidenberg e muitos outros.

“A contribuição do Canini é enorme. Com Saidenberg, modificou os trajes e trouxe a ambientação para um contexto de maior brasilidade, com os morros, campinho de futebol e  feijoada. Deu uma alma carioca para o Zé, mesmo, ironicamente, sem nunca ter vindo ao Rio de Janeiro”, conta Maffia.

Nos anos 1990, modernizaram o Zé, com direito à tênis e boné virado para trás. Mas o visual não é obrigatório.

"Vamos dar liberdade para os artistas brincarem com a versão que preferir do Papagaio, pode ser boné, chapéu, terno, etc. E por quê? Simplesmente porque na revista o leitor continuará vendo diversos visuais do Zé, pois vamos republicar histórias de eras distintas, como temos feito normalmente. A Disney é marcada por essa liberdade. Veja Mickey, por exemplo. Ele não segue a roupa padrão do Donald”, conclui Maffia.

Zé Carioca 70 anos Volumes 1 e 2 / Vários autores / Abril / 300 p. (cada) / R$ 16 (cada) / www.abril.com.br


quinta-feira, dezembro 06, 2012

JÚLIO CALDAS LANÇA CD COM SHOW GRÁTIS NO SESI


Circuito Guitarra Baiana registra gravações realizadas em 2010 e 2011, no projeto homônimo criado pelo guitarrista

Não é de hoje que o guitarrista Júlio Caldas sua banda, Choro Rock, vem militando na renovação e divulgação da guitarra baiana.

Há quase uma década tocando projetos como Circuito Guitarra Baiana (Teatro do Sesi) e Mostra de Guitarra Baiana e Bandolim por Abaete(Casa da Música do Abaeté), o músico agora inicia nova fase em sua trajetória, com o lançamento do CD Circuito Guitarra Baiana, no qual registra alguns dos melhores momentos dos shows realizados no projeto homônimo.

A ocasião mais que especial contará com um show gratuito de Júlio & Banda Choro Rock, no qual os músicos vão executar o repertório do disco.

"É basicamente um disco de chorinho, tocado com a guitarra baiana. Então, pode-se dizer que é um concerto bem coerente com a proposta do CD", demarca Júlio.

O álbum registra faixas gravadas em uma noite de 2010 e em outras quatro de 2011, durante os concertos do Circuito.

O caráter ao vivo das gravações está preservado nos improvisos dos músicos, ainda que algumas faixas tenham sofrido intervenções posteriores em estúdio e outras produzidas inteiramente – os chamados overdubs, no jargão dos técnicos de som.

"Mesmo assim, o disco está com cara de ao vivo total. Os improvisos ficaram do jeitinho que foram feitos. Só regravei o que achei necessário, como alguns temas (os riffs iniciais, que estabelecem a melodia principal da música)", garante.

"E isso não é novidade nenhuma. Todo mundo que grava ao vivo faz isso e insere um monte de overdub. Eu só estou assumindo", observa.

Outra característica do álbum é seu caráter híbrido. "Experimentei muito nesse disco, com tudo o que se pode imaginar. Utilizei pedais, gravei com dois tipos de amplificadores ao mesmo tempo (transistorizados e valvulados) ao mesmo tempo, usando cinco microfones diferentes, além de várias combinações de instrumentos acústicos e elétricos", descreve.

As muitas variações de timbres e técnicas foi a forma que Júlio encontrou para não deixar que o disco ficasse todo com um único som.

"Esse é um disco de música instrumental, em que há um instrumento solista - a guitarra baiana - que de fato, sola em todas as faixas. Então fiz questão de explorar todas as possibilidades oferecidas pelo instrumento e pelos equipamentos", explica.

O lançamento contará com Júlio (guitarra baiana, bandolim), Cláudio Diolu (baixo), Bruno Rodrigues (violão de 7 cordas), Washington Oliveira(cavaquinho) e Ricardo Hardmann (percussão), a banda Choro Rock lança este CD que já nasce histórico, com registros de inestimável valor para a discografia da guitarra baiana.

São 14 faixas - todas autorais - gravadas no Teatro do Sesi e finalizadas no Estúdio Som das Águas.

Participações (no CD) dos guitarristas baianos Renatinho (ex-Trio Tapajós) e Parah Monteiro e do baterista Márcio Diniz (bateria).

Esse CD tem como patrocinador o Fundo de Cultura do Estado da Bahia, através do edital de Demanda espontânea de 2011.

JÚLIO CALDAS & CHORO ROCK / LANÇAMENTO DO CD CIRCUITO GUITARRA BAIANA / DIA 14 DE DEZEMBRO (SEXTA-FEIRA), 20 HORAS / TEATRO DO SESI (RIO VERMELHO) / ENTRADA GRATUITA

terça-feira, dezembro 04, 2012

MICRO-RESENHAS DE NATAL 1

Ácido demais dá nisso

Pobre Wayne Coyne. Outrora um gênio do indie rock psicodélico, o líder do Flaming Lips vive uma bad trip que já dura uns dez anos. Perdidão, tem experimentado diversos formatos – regravou o Dark Side of The Moon inteiro, lançou álbum duplo, música com duração de 24 horas vendida em um pendrive acondicionado dentro de uma caveira de gelatina e por aí vai. O último CD decente da banda é de 2005 – At War With The Mystics. Agora, vem com este CD de duetos, que, a despeito de (alguns) ótimos convidados, como Tame Impala, Nick Cave e Erykah Badu, se revela apenas mais um capítulo mal-escrito de uma saga que já foi gloriosa. The Flaming Lips / ...And Heady Fwends / Warner /R$ 34,90



Grandiloquência vazia

O trio inglês Muse tem ótimos CDs, como Absolution (2003) e Origin of Symmetry (2001). O sucesso (e subsequentes turnês em estádios), porém, não lhe fizeram bem. É mais ou menos como o estado da Bahia: já foi grande. Hoje é só medíocre. Neste novo álbum, a pretensão grandiloquente de Matt Bellamy & Cia alcança novos patamares de chatice abissal. Muse / The 2nd Law / warner / R$ 34,90

 





A qualidade de sempre

O quinteto inglês Hot Chip é um raro fenômeno dentro da música eletrônica. Suas canções não soam como pop plastificado de boate, embora sejam bem dançantes. São como os Pet Shop Boys eram vinte anos atrás: electro pop inteligente e nada vulgar. Hot Chip / In Our Heads / LAb 344 / R$ 34,90

 








Alguém ainda aguenta Two Princes?

One hit wonder (maravilha de um sucesso só) de 1993, graças a então onipresente Two Princes, os Spin Doctors até que não eram tão ruins, comparados ao que se ouve hoje. Edição dupla de aniversário, com demos. Spin Doctors / Pocket Full Of Kryptonite (Anniversary Edition) / Sony / R$ 47,90










Talento promissor

O filho de peixe Eric Assmar estreia bonito no CD do seu trio, com  pegada Stevie Ray Vaughaniana evidente nos riffs de blues rock texano. A crítica é para a voz: ainda que adequada, as vezes parece que ele força um pouco na rouquidão. Precisa mesmo? Eric Assmar Trio / Idem / Star Blues / R$ 20 / www.ericassmar.com.br






Precisa mais feijão

A canadense Metric é uma daquelas bandas super elogiadas pela crítica gringa (e seus repetidores brasucas), mas quando se vai ouvir, é bem mais ou menos. Nos melhores momentos lembra  Blondie e Garbage, mas sem o arrebatamento que caracteriza essas bandas. Se for a sua, arrisque. Metric / Synthetica / Lab 344 /R$ 29,90







Hitchcock de saias

Se Agatha Christie era a rainha do romance policial, Miss Highsmith era a rainha do suspense, uma espécie de Hitchcock de saias que escrevia. Nesta coletânea de contos, sua habitual maestria transforma o ordinário em perturbador, o comum em apavorante. Coisas de gênio. A Casa das Sombras / Patricia Highsmith / Benvirá/ 272 p./ R$ 34,90/ benvira.com.br

 






Humor sofisticado

Divertidíssimo, este guia segue todo o roteiro de um jantar chique em casa de pessoas esclarecidas, dividido por capítulos como “Entrada: Como se comportar diante de um jornalósofo?”. Até a “Sobremesa: Não como sobremesa, sou epicurista”. Hilariante. Pequeno Manual de Filosofia Para Sobreviver a um Papo-cabeça / Michel Eltchaninoff, Sven Ortoli / Agir / 152 p. / R$ 29,90 / ediouro.com.br

 





Bacaninha e só

Donos de invejável lista de hits colecionados ao longo de quase 30 aos de carreira, os Pet Shop Boys retornam com álbum de inéditas solar, mais para um fim de tarde regado à  drinques do que para se acabar na night. Nada que faça retornar seus tempos de glória. Pet Shop Boys / Elysium / EMI / R$ 39,90
 







Blues sem dor

Marcel Ziul é um ótimo guitarrista de pegada bluesy e um cantor bastante razoável. Pena que cai na vala comum da “boa música” e acaba soando como mais um bluesman galã, linha John Mayer. Gente, blues é coisa séria. Vão sofrer um pouco. Marcel Ziul / In a Minute / Tratore / R$ 27,90
 







A pior coisa

O Smashing Pumpkins de Billy Corgan veio, viu, venceu e acabou – tudo nos anos 1990.  Voltou há alguns anos, mas, a bem da verdade, ainda não mostrou a que veio. Este Oceania não chega a ser ruim, mas também não empolga. O que é a pior coisa para um disco de  rock. Se fosse ruim, seria melhor. Smashing Pumpkins / Oceania / EMI / R$ 34,90







Libertário antissemita

Lançado no calor do filme Na Estrada, esta biografia de Jack Kerouac se caracteriza por não ter pudores em esmiuçar as contradições do Rei dos Beats – apesar da aura libertária, Kerouac tinha posições conservadoras e antissemitas. Há ainda um longo e precioso relato sobre o processo criativo de On The Road. Jack Kerouac: King of The Beats / Barry Miles / José Olympio/   420 p./ R$ 49/ record.com.br






Interior

Experimentado autor infanto-juvenil, o gaúcho Caio Riter já publicou mais de 40 livros. Agora ele retorna aos contos adultos, evidenciando influências de Jorge Amado e Guimarães Rosa, mas esquivando-se de certos clichês regionalistas. Para Riter, o único interior que interessa é o dos personagens. Vento sobre terra vermelha / Caio Riter / 8Inverso/ 184 p./ R$ 39/ 8inverso.com.br







Amém

Abençoados sejam Black Francis, Kim Deal, Joey Santiago e David Lovering que, com esta obra-prima de 1987, iniciaram a retomada do rock que culminou com a explosão grunge de 1991 e varreram muito lixo. Palavras de salvação. Pixies / Surfer Rosa & Come On Pilgrim / Lab 344 / R$ 29,90

 








Pop erudito

Ex-membro do Cérebro Eletrônico, Dudu Tsuda casa música eletroacústica com pop neste trabalho refinado e repleto de participações (Tiê, Lulina, Luis Chagas). Belo, intrigante e classudo. Dudu Tsuda / Le Son Par Lui Même / YB Music / R$ 24,90 / Download gratuito: www.dudutsuda.com/soloworks

 








Raiva incontida


No terceiro disco solo após a dissolução da banda System of a Down, o vocalista armênio / americano Serj Tankian segue gritando contra o sistema e praticando sua mistura de altmetal, punk rock e raiva incontida em pedradas certeiras, impiedosas. Serj Tankian / Harakiri / Warner / R$ 34,90







 Não só para jovens

”Minha querida cidade, que te aconteceu, que já não te reconheço? (...) Para ver-te, preciso alcançar os espelhos da memória. Da saudade. E então sinto que deixaste de ser, que estás perdida”. Qualquer semelhança com Salvador não é mera coincidência. É genialidade, mesmo. Crônicas para Jovens / Cecília Meireles / Global / 96 p./ R$ 29 / globaleditora.com.br

quinta-feira, novembro 29, 2012

MÖTRICIA FAZ PRÉ-LANÇAMENTO DO AGUARDADO PRIMEIRO CD, NESTE SÁBADO

Longe vai o tempo em que roqueiro brasileiro tinha, como dizia Rita Lee, “cara de bandido”.

Ou não? Bom, no que depender da banda baiana Mötrícia, que faz show de pré-lançamento do seu primeiro CD neste sábado, esta gloriosa tradição há de ser mantida e preservada.

“A bandeira do rock ficou pesada. Ninguém mais quer encarar essa barra”, observa o vocalista Leonardo Leão.

Figura atuante no cenário local há coisa de vinte anos, Leão é oriundo da cena do heavy metal, tendo liderado bandas elogiadas, como Shadows e Drearylands.

Com a Mötrícia, ele e  Álvaro Tattoo Medrado, Adriano Bastos (guitarras), Larriri Vasconcelos (baixo) e Mark Mesquita (bateria) apostam no movimento marotamente batizado de MPB: Música Pesada Brasileira, com direito a manifesto e tudo, a ser lançado em breve e assinado por diversas bandas daqui e de outros estados do Brasil.

Trata-se de uma reação ao atual cenário do rock brasileiro, infestado de “MPB” – a outra. "E quaisquer outras bandas de rock que quiserem assinar o manifesto e entrar no movimento, é so entrar em contato", convida Leão.

Sem mistura indigesta

“Hoje só vejo a garotada fazendo rock misturado com samba, eletrônico, rap, regional, MPB e, aqui, até axé music, que  deixou de ser odiada pelos rockers e foi incorporada em misturas indigestas”, dispara Leão.

A culpa por este estado de coisas, entretanto, não é tanto dos jovens, contemporiza: “Os roqueiros das antigas ficaram velhos. Com a maturidade veio uma certa vergonha de ser roqueiro. De repente todo mundo ficou sério, posando de intelectual, cabeça aberta. O radicalismo deu lugar ao ecletismo”.

Com a Mötrícia o papo é outro. “É o rock que vem do hard rock, do  metal, do hardcore, do r0ckabilly: os sons que a gente curte. Eu ouço Novos Baianos, mas não é por isso que eu vou botar na minha música”, diz.

Produzido por andré t., o primeiro álbum da Mötrícia estará disponível em CD a partir de janeiro, mas quem quiser baixar, poderá faze-lo em breve.

“Em dezembro, liberamos para download, mas este é um disco para ser ouvido em alto e bom  som: bote o CD e aumente o volume. Esse negócio de ouvir MP3 em fone de ouvido não nos faz justiça”, demarca o cantor.

A apresentação de sábado ainda traz de volta a série mensal de shows A Casa do Rock.

"Em janeiro tem mais Casa do Rock. A gente deve se apresentar nas próximas edições também, mas sempre terá mais duas bandas: uma autoral e uma de cover", conclui Leão.

A Casa do Rock – Motricia, Jonas, Combat Rock / Dubliners Irish Pub (Rio Vermelho) / Sábado, 22 horas / R$ 10

MICRO-RESENHA: MÖTRÍCIA

Tirem as crianças da sala. A Mötrícia, alinhada a bandas locais como Pastel de Miolos, Bestiário e Gozo de Lebre (há outras), faz rock misturado com... rock. E sem abrir mão de itens essenciais como peso, poesia, objetividade e personalidade. As referências são, obviamente Mötorhead (o trema em Mötrícia é só mais um detalhe), Black Sabbath e, de mais recente, stoner rock. A faixa de abertura, Noturno, é para ficar no ouvido, com sua letra espetacular e, desde já, icônica: "Não sou um cara triste, mas sinto que a alegria não me cai / Sempre tento ver o sol que todos cantam, mas só há nuvens em meus dias", urra Leão, cada dia mais rouco, sob as guitarras imundas de Álvaro e Adriano. Rock tradicional, mas nunca careta, para quem garante o que tem entre as pernas. Bem-vindos. Download gratuito em dezembro, CD físico disponível em janeiro. Ouça mais em http://soundcloud.com/motricia

terça-feira, novembro 27, 2012

MICRO-RESENHAS SEM TÍTULO - E APROVEITA QUE EU TÔ CALMO

Bobby na trave

Gênio do soul, o veterano Bobby Womack (68 anos) bem que tentou um retorno em grande estilo com este novo álbum produzido por Damon Albarn. A despeito de sua voz ainda espetacular, a produção modernosa bateu na trave. Nota 7. Bobby Womack / The Bravest Man in the Universe / LAB 344 / R$ 34,90

Quem sabe no próximo

Uma das sensações mais recentes do rock inglês, o segundo CD do The Vaccines soa como uma transição entre o hype indie mané (nas faixas No Hope e Teenage Icon) e a grande banda de rock que ainda podem vir a ser (Aftershave Ocean, Weirdo). The Vaccines / Come of Age / Sony / R$ 27,90







A velha fritação psyche

Dizem que grandes artistas fazem sempre a mesma obra, apenas recriando-a ao longo da carreira. Está aqui mais um exemplo: o Spiritualized, combo neopsicodélico do inglês Jason Pierce, com mais um épico na mesma linha dos álbuns anteriores. Neste caso, isto é um elogio. Spiritualized / Sweet Heart Sweet Light / Lab 344 / R$ 34,90







Jazzístico erudito

O incrível pianista Chick Corea, seus quatro músicos de acompanhamento e orquestra de câmara “viajam” pelo mundo em seis peças, uma  para cada continente. No disco 2, improvisos. Prazer auditivo ininterrupto, do tamanho do mundo. Chick Corea / The Continents / Universal / R$ 42,90







Embate de titãs

Gigantes em suas respectivas épocas, reduzidas nestes tempos picaretas, Ultraje a Rigor e Raimundos saem com este split, no qual releem pérolas do repertório uma da outra. Destaques: Mim Quer Tocar em arranjo surf e Selim,  com levada de arrocha. Ultraje a Rigor Vs. Raimundos /  Idem / Deckdisc / R$ 29,9







Iluminação musical

Conhece Edmundo Villani- Côrtes? Aos 80 anos, ele é um dos grandes compositores eruditos do Brasil. E se não fosse esta bela homenagem do Grupo AUM, íamos continuar sem saber. Agora, ouça e se ilumine. Grupo Aum / Cortesia: 80 anos de Edmundo Villani-Côrtes / www.grupoaum.com.br / R$ 36,50







A fina arte perdida do pop invulgar

Mestres da fina arte perdida de fazer música  pop com classe, o Duran Duran deve até as calças à Bryan Ferry & Roxy Music (fase Avalon, claro). O que não tira seu  brilho próprio, pleno neste show, de dezembro de 2011. Hit após hit, competência e carisma totais. Duran Duran / A Diamond inthe Mind / Lab 344 / R$ 39,90







Meu caro Bilal
Mais do que um belo álbum de HQ europeia clássica, este volume em capa dura é um evento: pela primeira vez a Trilogia Nikopol é lançada completa no Brasil. Paris, 2023: os fascistas estão no poder. Surge uma pirâmide voadora, com deuses egípicios. Entram em cena mutantes, uma mulher de cabelos azuis, conglomerados multinacionais e cineastas experimentais. Uma delirante trama com intrigas políticas, realismo fantástico e ficção científica. Coisa de gênio. A Trilogia Nikopol  / Enki Bilal /  Nemo/ 184 p./ R$ 69/ editoranemo.com.br





Ela também escrevia (ótimos) contos

Além de alguns obscuros dramas familiares (sob o pseudônimo Mary Westmacott), a  rainha do romance policial também escreveu alguns contos de terror e sobrenatural, como o que dá título à este coletânea, sobre uma marca de pólvora em formato de cão. De quebra, o clássico Testemunha de Acusação, que, no cinema, rendeu o melhor drama de tribunal de todos os tempos, dirigido por Billy Wilder (1957). O Cão da Morte / Agatha Christie / L&PM / 256 p. / R$ 19 / lpm.com.br






Bela cantora

Acusada por muitos críticos de over-singing (exageros vocais a la calouros do Raul Gil) Miss Stone solta LP de releituras de clássicos obscuros do soul, como a sensacional  (For God's Sake) Give More Power to the People (Chi-Lites), Teardrop (Womack & Womack)  e Sideway Shuffle (Linda Lewis).  Se erra de um lado, acerta do outro. Média cinco, passou. Joss Stone / The Soul Sessions Vol. 2 / Warner / R$ 27,90





Caixa de areia gigante

Criado sob sua asa, Elton John liberou o duo australiano de dance Pnau para “brincar” com sua obra e criar faixas originais. O resultado é bem interessante e passou longe dos cavalos de batalha do mestre do pop. Bom pra pista e também para simplesmente ouvir. Elton John Vs. Pnau / Good Morning to the Night / Universal / R$ 34,90







Estetas da voz

Conhecidos tanto pela abordagem avant garde da música pop quanto pelo fascínio pela arte vocal, o grupo Dirty Projectors e a cantora Björk uniram forças neste estranho mas ainda belo álbum com renda revertida ao projeto de proteção dos mares da National Geographic. Dirty Projectors + Björk / Mount Wittenberg Orca / Domino - Lab 344 / R$ 29,90






Quase no auge

Com este volume – o quinto – a L&PM fecha a primeira década das tiras diárias e pranchas dominicais da  genial criação de Charles Schulz, a tira Peanuts, que apresentou ao mundo o cachorrinho Snoopy, o azarado Charlie Brown, a geniosa Lucy e toda a turma. Nesta altura, seu estilo de desenho já estava cristalizado e a narrativa, bem próxima do auge criativo. Estão aqui clássicos como a tira “A felicidade é um cachorrinho fofo” e a dominical Observando nuvens.  Inocência e inteligência em absoluta harmonia. Peanuts Completo: 1959-1960 / Charles M. Schulz / L&PM / 344 p./ R$ 75 / lpm.com.br

No primas donnas

Quem pensa que O Fantasma da Ópera é só um musical brega da Broadway, pode ficar surpreso com o livro original. O peso trágico está todo aqui, mas a história do triângulo amoroso entre uma cantora lírica, um nobre e um gênio louco que habita os porões do teatro é muito mais sobre os contornos obscuros da alma humana do que sobre primas-donna se saracoteando no palco. O Fantasma da Ópera / Gaston Leroux / L&PM / 336 p. /  R$ 19,50 / lpm.com.br






Aprenda com o mestre

Renato Silva (1904-1981), foi um legítimo artista da Belle Epoque carioca. Trabalhou n’O Cruzeiro, A Gazeta e outros veículos. É dele a arte de Garra Cinzenta, clássico da HQ nacional. Pioneiro no ensino de desenho profissional, lançou este Manual em 1939, que volta às livrarias, após décadas fora de catálogo. Manual Prático de Desenho / Renato Silva / Criativo / 156 p. / R$ 49 / comix.com.br






Jogo de memória

Um morador de rua idoso e prestes a morrer (que ainda por cima, come dicionários), um casal viajando de carro pela Patagônia e até aquele menino que mandou Silvio Santos para aquele lugar são os personagens desta estranha, porém bela HQ do quadrinista (e  stand- up comic) Rogério Vilela. Jogo de memória entre o sonhar e mundo desperto, Vilela traça aqui sua história particular da cultura pop do último século. Acordes / Rogério Vilela / Devir / 72 p. / R$ 29,50 / devir.com.br

sábado, novembro 24, 2012

BARDO EM QUADRINHOS NA COLEÇÃO DA NEMO

Em um mundo aonde tudo parece conspirar para anular qualquer traço de pensamento crítico, personalidade própria e alma, ler William Shakespeare chega ser um exercício de subversão.

E quanto mais jovem, melhor. Um bom atalho para introduzir o bardo inglês às crianças e jovens está na Coleção Shakespeare Em Quadrinhos (Editora Nemo).

Com três volumes já lançados há alguns meses (Romeu & Julieta, Otelo e Sonhos de Uma Noite de Verão), a coleção acaba de ganhar mais dois volumes: A Tempestade e Macbeth.

É verdade que clássicos literários convertidos em quadrinhos se tornaram um belo filão de mercado para as editoras, ávidas a serem incluídas  na cobiçada lista anual de obras a serem adquiridas pelo Programa Nacional Biblioteca nas Escolas (PNBE), do Ministério da Educação (MEC).

É verdade também que,  nem sempre, tais HQs constituem uma adaptação à altura da obra original.

Felizmente, não é caso desta coleção.

Primeiro, é preciso dar um desconto: condensar uma obra de Shakespeare em 64 páginas de  quadrinhos não é tarefa fácil.

E depois, nenhuma adaptação em HQ substitui a obra original. Elas costumam servir justamente como uma introdução resumida, uma espécie de “aperitivo”, para que o leitor se interesse pela obra, o autor etc.

O editor da coleção, o também quadrinista Wellington Srbek (autor da premiada Estórias Gerais), chama a atenção justamente para este caráter introdutório: “A principal orientação (aos roteiristas e desenhistas) é ser o mais fiel possível aos fatos narrados na obra original”, conta, em entrevista.

“Partindo disso, cada dupla de autores faz um trabalho de transposição da peça para a linguagem dos quadrinhos, tendo em mente o público final ao qual as adaptações se destinam, que são os leitores jovens”, diz.

Com uma obra tão extensa quanto essencial, a seleção de peças a serem adaptadas é, certamente, a parte mais fácil do trabalho: “Simplesmente selecionamos as obras mais importantes e mais significativas de Shakespeare”, define Srbek.

Feita a escolha das obras, parte-se para a seleção dos profissionais designados para adaptá-las: “Neste caso, como conheço diversos roteiristas e desenhistas brasileiros, foi mais uma questão de reunir duplas cujo trabalho mais se aproximasse do estilo e da temática de cada peça”, detalha o editor.

A adaptação de A Tempestade é um ótimo exemplo de como o processo aparentemente simples assumido por Wellington funcionou bem.

O roteiro ficou a cargo de Lillo Parra, com experiência de mais de dez anos no meio teatral, com os coletivos paulistas Teatro Popular União e Olho Vivo.

Já o traço delicado, fluido, de Jefferson Costa caiu como uma luva em figuras fantasiosas como o feiticeiro italiano Próspero e seu servo monstruoso, Caliban.

Já o traço sombrio (e totalmente colorido em tons terrosos) de Rafael Vasconcellos se prestou com notável leveza ao clima de traições e intrigas medievais de Macbeth. Marcela Godoy, romancista (O Primeiro Relato da Queda de Um Demônio) e roteirista do volume Romeu & Julieta, também cumpriu bem sua tarefa em Macbeth.

Claro, todos aqueles longos monólogos e diálogos típicos do velho William são aqui resumidos, mas não diminuídos.

“Na verdade, no caso da Coleção Shakespeare, os roteiristas fazem uma recriação do texto original, partindo do que o autor escreveu, mas pensando na narrativa dos quadrinhos”, esclarece Wellington, que prepara, ele mesmo, uma adaptação sem resumos de Hamlet para breve, com o desenhista Alex Shibao.

“Está em produção agora Rei Lear, com roteiro de Jozz e desenhos de Octavio Cariello. Temos também em finalização uma adaptação de Hamlet, mas esta não será para a Coleção Shakespeare, pois tem uma proposta diferente; foi uma tradução direta do texto original da peça, feita por mim, que está sendo desenhada por Alex Shibao, e é voltada para um público mais adulto”, conclui.

Macbeth / William Shakespeare,  Marcela Godoy e  Rafael Vasconcellos / Nemo/ 64 p/ R$ 39/  www.editoranemo.com.br

A Tempestade / W. Shakespeare, Lillo Parra e  Jefferson Costa / Nemo/ 64 p/ R$ 39/  www.editoranemo.com.br