| Tom Zé faz concha com a mão para te ouvir melhor. Foto: André Conti |
“Daqui a alguns anos / vamos ter de governar, infelizmente governar / Oh, e os nossos ideais, ai, quem diria / no mesmo camburão da burguesia / Uma renca de parentes atender / nos ritos e delitos do poder / Puta, que tragédia / desaba sobre nós! / logo depois que a ilusão tem voz”, recita um melancólico e sardônico Tom Zé logo na faixa de abertura do seu novo álbum, Vira lata na Via Láctea.
“Este é meu primeiro disco, desde 1976, que sai sem um tema central. São várias músicas sobre assuntos diferentes em cada uma”, conta Tom Zé, por telefone, de São Paulo.
“No caso da faixa Geração Y, eu tive uma tendência imediata de simpatizar com ela por que voltaram a dar atenção a ética. A última vez que ouvi falar em ética foi na minha infância em Irará”, afirma.
“Imagine a tarefa dessas criaturas quando forem chamadas a governar. Isso me inspirou no refrão como se fosse uma tragédia, por que se vai entrar num campo de trabalho onde a ética é chutada para escanteio, que é a política”, observa Tom Zé.
Milton e Caetano
Com lançamento on line (via iTunes) marcado para
Inspirado (e quando ele não o foi?), o artista volta seu olhar crítico, irônico e poético em várias direções: Esquerda, Grana e Direita (autoexplicativa), a mídia impressa (Banca de Jornal, parceria com Criolo), a usura (Mamon), Irará (duas faixas: Guga na Lavagem e Irará Irá Lá), patrulha ideológica (Papa Perdoa) e até para o próprio umbigo (A Boca da Cabeça), entre outros temas.
Este também deve ser o álbum de Tom Zé com o maior número de parcerias e participações.
Além de Criolo, outros nomes significativos da atual nova MPB comparecem, como as bandas O Terno, Trupe Chá de Boldo e Filarmônica da Pasárgada, os músicos SILVA, Kiko Dinucci (Metá Metá) e Daniel Maia.
Mas surpresa mesmo é ouvir Tom Zé cantando em dueto com Milton Nascimento (em Pour Elis, homenagem a Elis Regina) e Caetano Veloso (Pequena Suburbana).
“Fiz essa letra em 1987, a partir de uma carta que Fernando Faro escreveu para um vídeo do aniversário de morte da Elis. Quando li, eu ‘puxa, isso tá tão bem escrito’! Comecei a cantar de brincadeira e fiz uma música dando mais importância a melodia, coisa que nem sempre eu faço. Quando Marcus Preto (jornalista, atualmente produzindo a biografia de Tom Zé) viu, disse ‘isso é a cara do Milton. Milton gostou e gravou”, relata o músico.
Já Caetano, sobre quem pesavam acusações de ter “abandonado” o iraraense durante o ostracismo que este viveu após a Tropicália, Tom Zé faz questão de desfazer a noção.
“Nunca teve abandono. Cada pessoa estava do seu lado, se virando com seus problemas. Não é possível ninguém carregar ninguém no colo. Tem um ditado que é assim: ‘Se uma pessoa estiver se afogando e a outra quiser salvar, morrem os dois’”, afirma.
“A verdade é que ele e Gilberto Gil fizeram, com o Tropicalismo, o campo artístico mais profícuo do movimento. A música acabou sendo a estrela principal do Tropicalismo. Isso se deve a ele e ao Gil, os quais, quer queira, quer não, são pessoas que podem ser chamadas de gênios”, diz.
Mesmo sem tema específico, é a política que está no centro de Vira Lata na Via Láctea. Em Esquerda, Grana e Direita, ele cita Paulo Freire: “Quando o trabalhador cresce na sociedade e tem oportunidade de ser protagonista da História – ele pratica o método do opressor porque foi o único método que aprendeu; então, ele só sabe agir como o opressor”.
Seria este um recado com destinatário certo, Tom Zé?
"Bom, o Paulo Freire é um dos fundadores do PT e sim, realmente o PT está incluído naquela frase. Quando o operário se torna o personagem central da história da nação, ele começa a agir como opressor, por que foi o único método que ele aprendeu. E se você exigir mais do PT, é normal ficar decepcionado, tem que se conformar com essa modificação que o Paulo tinha previsto", despista o esperto.
Neste fim de semana, Tom Zé faz o show de lançamento do álbum no Sesc Vila Mariana.Salvador? “Espero os empresários da cidade me chamarem. Já tem alguma conversa, mas ninguém acertou nada ainda. Sei que meus três últimos shows na Concha Acústica foram lotados. Sério, nunca imaginei isso”, ri o artista.
Tom Zé / Vira lata na Via Láctea / Pommela / R$ 24,90
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