quinta-feira, setembro 25, 2014

NOIR EM PRETO, BRANCO & CGI

Estreia: Sin City: A Dama Fatal traz de volta o noir em preto, branco e CGI de Frank Miller e Robert Rodriguez

A deusa Eva Green rouba a cena como Ava, uma femme pra lá de fatale...
Nove anos depois de sua estreia nos cinemas, Sin City - A Cidade do Pecado (2005), finalmente ganha sua inevitável sequência: Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame To Kill For).

Assim como sua predecessora, a película tem direção da dupla formada pelo quadrinista Frank Miller (The Spirit, 2008) e pelo cineasta Robert Rodriguez (Planeta Terror, 2007).

Miller se tornou diretor de cinema justamente pelas mãos de Rodriguez, quando este o convenceu de que uma adaptação cinematográfica de sua série de HQs Sin City (publicada no Brasil pela Devir) era viável tanto estética, quanto financeiramente.

O resultado foi o filme de 2005, aclamado pela ala mais pop da crítica, enquanto o setor mais cinéfilo sapateou com raiva sobre sua apropriação da estética noir, estilizada por Miller às raias do exagero graças aos cenários em CGI.

Rosario Dawson é a líder das prostitutas sadomasô e exímias lutadoras
(Especialmente divertido foi ver Arnaldo Jabor espumando de raiva no Jornal da Globo).

Dama fatal e peladona

Em A Dama Fatal, Miller & Rodriguez se limitam a ampliar a mitologia de Sin City, contando novas histórias com novos personagens e mantendo alguns do primeiro filme.

O elenco mantém a tradição e é estelar, aliando nomes “da hora” como Joseph Gordon-Levitt, Josh Brolin, Eva Green (a Dama Fatal do título, que passa mais da metade do seu tempo de tela peladona) e Jessica Alba com veteranos de responsa, como Mickey Rourke, Powers Boothe (brilhante como o maléfico Senador Roark) e Bruce Willis.

Tudo se passa na fictícia Basin City, uma mistura de Los Angeles (pelos coqueiros e colinas) com Brasília (pela corrupção generalizada), onde as prostitutas usam trajes sadomasô 24 horas por dia e são exímias lutadoras com espadas samurai.

Há três ou quatro histórias que se desenrolam de forma errática, como a do jogador Johnny (Joseph Gordon-Levitt), que chega a cidade decidido a limpar o Senador Roark no pôquer e, claro, arranja uma baita encrenca.

Vemos o começo do périplo de Johnny no início do filme, mas seu desenlace só se dará na parte final.

Jessica Alba é Nancy, uma stripper traumatizada pelos eventos de Sin City
O “miolo” de Sin City: A Dama Fatal é dominado pela sensual Eva Green como a Ava, uma epítome de mulher fatal e manipuladora, que faz gato e sapato do pobre Dwight (interpretado aqui por Josh Brolin. No primeiro filme, foi por Clive Owen).

A despeito de seus 90 e tantos minutos regulamentares passarem sem sacrifício para o espectador interessado, alguns pontos enfraquecem Sin City: A Dama Fatal.

Curiosamente, todos os seus protagonistas tem o costume de gravar narrações em off e mais: todos eles soam como um clichê de detetive noir – amargos, desiludidos, sempre tecendo observações sobre como “esta cidade é como uma prostituta ruim” etc e tal.

Talvez seja intencional, já que o filme (e as HQs) não passam de pastiches do noir original dos anos 1940.

Jessica Alba, como a stripper Nancy, faz boa figura, mas acrescenta pouco com seu drama muito ligado ao primeiro filme, do qual poucos se lembram, nove anos depois.

Mickey Rourke retorna como Marv, um brutamontes superfã de trocar soco
Já Mickey Rourke segue como o personagem mais legal da franquia: Marv, o grandalhão guarda-costas de Nancy, sempre pronto para um bom quebra-pau.

Nove anos e inúmeras outras adaptações de HQ para as telas depois, a continuação de Sin City perdeu o fascínio da novidade, apesar do apuro técnico e meia dúzia de atuações carismáticas.

Uma hora e meia de escapismo e pronto.

Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame To Kill For) / Dir.:  Frank Miller e Robert Rodriguez / Com  Joseph Gordon-Levitt, Josh Brolin, Eva Green, Jessica Alba, Mickey Rourke, Rosario Dawson, Powers Boothe, Bruce Willis / Em cartaz: Cinemark, UCI Orient Iguatemi, UCI Orient Barra, UCI Orient Paralela, Cinépolis Bela Vista, Itaú Glauber Rocha, Cinépolis Salvador Norte


quarta-feira, setembro 24, 2014

VELHA ESTRADA, ABORDAGEM DIFERENTE

Aos 56 anos, Álvaro Assmar chega ao sexto álbum, The Old Road, com show de lançamento amanhã

O velho bluesman e sua nova Gibson Les Paul modelo 1960. Ft: Laryne Nascimento
Comumente saudado como precursor e mestre do blues na Bahia, Álvaro Assmar chega ao sexto álbum de carreira com sua obra ao mesmo tempo mais fiel e mais acessível ao público leigo, não tão ligado ao gênero.

The Old Road, que tem show de lançamento amanhã, no Teato do Irdeb, tem tudo o que um fã de Álvaro e de blues espera: as levadas manhosas características, as letras sofridas (algumas em português, outras em inglês), os belos solos.

Mas também é, tranquilamente, o álbum mais conciso da carreira do bluesman, com apenas uma faixa mais longa (a arrastada Dependência) e o resto delas variando entre os 2 minutos e meio e 4 minutos.

Melhor que isso: com  solos mais enxutos e diretos e canções mais curtas, o álbum ficou com um estilo que remete aos melhores momentos radiofônicos de bluesmen como Eric Clapton ou Gary Moore, por exemplo.

Melodiosas, faixas como I Wanna See You Again ou Kiss Me Again (o “Again” repetido é coincidência) estão entre as melhores do CD e tem apelo pop para frequentar as playlists das rádios menos popularescas.  

Álvaro conta a nova abordagem foi mesmo intencional. “Só incluí músicas que qualquer um pode pegar e sair tocando no violão. Agora, vou te contar, nunca pensei que fosse tão difícil tocar simples. Fiz um disco para os leigos, mesmo”, conta.

“É que uma coisa que sempre percebi é que, muitas vezes, por querer se esmerar demais, o músico acaba fazendo discos só para outros instrumentistas, esquecendo que o povo só quer ouvir uma boa música e se divertir”, detalha Álvaro.



Tributo ao Ramal 12

Com 13 faixas, The Old Road traz 11 delas de  autoria do próprio Álvaro.

Ramal 12, banda clássica do rock local, gravada por Álvaro. Foto: Hamilton Penna
As outras duas são uma de seu filho, o também guitarrista Eric Assmar (Just Need The Blues) e a outra é uma antiga canção resgatada do repertório da Ramal 12, antológica banda da cena roqueira local dos anos 1980: Nessa Cidade.

“Isso é um tributo ao Ramal 12, que nunca gravou essa música. Eu ia muito aos shows deles e essa era a música que eu mais gostava”, relata.

“Quando eu falei para o Cláudio Lacerda, Marcão Botelho e Eduardo Scott (autores) que queria fazer essa música, eles nem acreditaram, por que não a viam dessa forma. E assim eu gravei essa canção tão linda que estava esquecida”, conta.

No álbum, Álvaro contou com participações de grandes músicos locais e nacionais, como Adriano Grineberg, Miguel Archanjo, Cristiano Macchi, Marquinho Carvalho, José Luiz Lima (órgãos Hammond, pianos), Caio Dohogne (bateria) e Nivaldo Cerqueira (sax).

“No fim das contas, as ideias fluíram legal, com  as pessoas muito envolvidas. Me senti em um abraço coletivo, com  todos querendo que o trabalho desse certo e colocando energia para a coisa decolar. Estou muito feliz com o resultado”, conclui.

No palco, ele toca com a Mojo Blues Band: Octavio Américo (baixo), Rene Almeida (bateria), Eric Assmar (guitarra e voz) e Cristiano Macchi (Teclados).

Álvaro Assmar / Show de lançamento do álbum The Old Road / Amanhã, 21 horas / Teatro do IRDEB (Rua Pedro Gama, 413, Federação) / R$ 30 (o teatro só aceita dinheiro em espécie)

Álvaro Assmar / The Old Road / Independente - Star Blues / www.alvaroassmar.com.br / A venda em shows e na loja Pérola Negra / R$ 30


A foto da banda Ramal 12 foi pescada do blog http://coveirosdocover.blogspot.com.br.

terça-feira, setembro 23, 2014

RENATA BASTOS: UMA MULHER E TREZENTAS IDEIAS

Renata Bastos , foto Natália Arjones
 É enfeitada pelo sorriso iluminado da cantora Renata Bastos que a coluna o blog respira aliviada: há quanto tempo não vemos uma moça por aqui! Só dá marmanjo feio – ainda que talentoso?

O legal é que, além do sorriso, Renata tem uma voz muito bonita. Talvez você já a tenha visto por aí. Ela realiza regularmente um show em tributo a Bob Marley no Commons Studio Bar, chamado Three Little Birds.

Ela também participa do coletivo Nossos Baianos, que reúne uma pá de gente legal do cenário alternativo em homenagem aos Novos Baianos.

Mas se fosse só isso – o que já é alguma coisa – ela não estaria aqui. Renata está em plena produção do seu primeiro trabalho autoral, produzido pelo competente Thiago Kalu, que já passou por esta coluna este blog.
Além disso, ela ainda tem outro projeto autoral com o músico Peu Tanajura, uma banda de releituras chamada A Trois com Bruna e Julia (da Lily Braun) e, como se fosse pouco, ela é uma das idealizadoras do Minavu, uma plataforma digital de arte feminina, ao lado de Andrea Martins e Natália Arjones.

“Olha, eu sou bem organizada, viu?”, garante Renata. “Sério, tenho até TOC. O povo dá risada, mas comigo é assim”.

“Eu tenho que fazer foto, flyer, divulgar na imprensa... Eu que faço tudo”, afirma.

Baiana de Salvador, ela é publicitária por formação e morou três anos no Rio. Quando voltou, em 2013, veio decidida a trabalhar só com música.

Dividindo sonhos

Mesmo com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, Renata diz que não perde o foco: “A coisa principal é o trabalho solo com meu nome, que está sendo produzido por Kalu”, diz.

“Mas meu grande lance é que sou intérprete. Sempre cantei as músicas dos meus amigos. Me preocupo muito com a questão da interpretação”, afirma.

Ainda assim, outros dois trabalhos batem forte em seu coração: Nossos Baianos e o Three Little Birds.

“O Nossos Baianos é um coletivo de 12 artistas que tem seus trabalhos e todos são compositores. São várias pessoas que dividem os sonhos. Isso me inspirou bastante. Aí eles pegaram minhas letras e começaram a  musicar”, conta.

Renata Bastos , foto Natália Arjones
"Mas minha paixão mesmo, atual, é o tributo ao Bob Marley. É um show que comecei a fazer acústico e aí atraiu muita gente bacana do cenário de reggae. São músicas que conheci menina, sempre fui apaixonada por Bob e também nunca vi nenhuma mulher fazendo um show só com o repertório dele. É tudo tão instintivo que nunca nem fiz nenhum ensaio. Como somos todos apaixonados por reggae, a gente toca seguindo os arranjos originais, mas sempre tem ago nosso também. Tudo isso me emociona muito. Eu choro e tudo, é um negócio que não sei nem explicar", relata.

Já o trabalho com Peu Tanajura se chama Univocalinos. "Peu é um grande incentivador do meu trabalho autoral. Mas quando vi que o material que produzimos juntos não tinha muito a ver com meu trabalho solo, resolvi fazer à parte. Aí no nosso penúltimo ensaio, Andrea Martins fez uma piada, dizendo que nós somos gêmeos. Aí ficou essa piada. Vamos lançar este projeto como Unívocalinos", conta.

E o Minavu, do que se trata mesmo?  "É uma plataforma de produção e divulgação de artes da mulher. É que eu e Andrea sempre tivemos várias ideias, mas não conseguíamos organizar direito. Aí encontramos Natália, que é mais organizada e trabalha melhor com essa parte de comunicação e burocracia. Começamos a nos encontrar e resolvemos fazer uma festa com todas as mulheres daqui que tinham trabalhos incríveis, mas ninguém conhecia. Tem tanta mulher fazendo coisas legais e ninguém conhece. Por que não fazemos um projeto para divulgar? A gente chama as pessoas para faz um grande evento com bandas de mulheres musicistas, mulheres fotógrafas, escritoras, chefs - pessoas que estão ao nosso redor. E tivemos um ótima resposta. Temos um site que abriga sem custo nenhum vários trabalhos. Divulgamos tudo o que recebemos que as mulheres estão fazendo: cursos, mostras, shows. É um incentivo, uma porta aberta para quem quiser chegar e agregar. Tem o www.minavu.com.br e uma fanpage no Facebook, que é mais mais ativa", detalha.

Até janeiro Renata vai lançar seu primeiro CD autoral, “com influências de reggae e samba, um pouco de dub. Kalu é o diretor musical e está selecionando algumas músicas com o guitarrista Átila Santana. Estamos amadureendo ainda as ideias, mas tenho certeza de que vai ser maravilhoso.

O colunista O blogueiro aposta que ainda vamos ouvir falar bastante de Renata Bastos por aí. “Tomara que sim, mas falando bem, né?”, ri a cantora.

www.soundcloud.com/renata-bastos-6



NUETAS

Toxic no Portela

Povo do metal, anotai em vossas agendas: a banda norte-americana Toxic Holocaust se apresenta 10 de outubro, no Portela Café. A night ainda tem Berzerkers (SE), Terrible Force (PB) e a baiana Suffocation of Soul. Antecipado: R$ 60.

Pedro ou Aracy?

Se você fosse  jurado do Silvio Santos, estaria mais para o Pedro de Lara ou  para a Aracy de Almeida? Assista às bandas Jato Invisível e Proliferação e responda:  Quanto Vale o Show? Hoje, 18 horas, no Dubliner’s.

Álvaro de disco novo

Papo sério agora: o blues master da Bahia Álvaro Assmar lança seu novo álbum (o sexto), The Old Road, quinta-feira, no Teatro do Irdeb (Federação). O colunista já ouviu e adianta: tá bonitão. 21 horas, R$ 30.

EM LIONEL ASBO - ESTADO DA INGLATERRA, MARTIN AMIS MIRA A INDÚSTRIA DOS TABLOIDES


Martin Amis, 65 anos, filho do escritor Kingsley Amis. Foto: Tom Craig.
A primeira vista, Lionel Asbo - Estado da Inglaterra, livro do autor inglês Martin Amis, parece remeter àqueles filmes de gangster britânicos do diretor Guy Ritchie, como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998) ou Snatch - Porcos e Diamantes (Snatch, 2000).

Assim como nos filmes do ex-marido de Madonna, suas páginas são habitadas por brutamontes violentos, mulheres vulgares, viciados, beberrões e uma ou outra boa alma para equilibrar as coisas – todos se debatendo nas ruas dos subúrbios de Londres, entre pubs esfumaçados e a sarjeta.

Ledo engano. Apesar de divertidos, os filmes de Ritchie estão mais para um vão exercício de estilo do que para a declaração artística de relevância.

Por outro lado, o livro de Amis, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um impiedoso raio-x da Inglaterra contemporânea – e por conseguinte, da sociedades ocidentais como um todo, com suas economias cambaleantes, desigualdade galopante e um senso de vale-tudo generalizado que parece permear tanto relações, quanto instituições.

A visão desencantada de Amis foi inclusive alvo de críticas em sua terra natal, com muitos resenhistas e intelectuais acusando-o de esnobismo e preconceito, dada a sua descrição pouco edificante das camadas menos favorecidas da população.

Pitbulls à base de Tabasco

Ilustração de El Cerdo para a Folha de S. Paulo
Lionel Asbo é o típico valentão de subúrbio: “o corpo semelhante a  uma laje, a cara feito um bloco inteiriço, a coroa da cabeça com o cabelo raspado bem curto”, descreve Amis.

Dono de dois pitbulls psicopatas, Joe e Jeff, alimentados a base de carne afogada em molho Tabasco para deixa-los ainda mais ferozes, Lionel vive de cobrar dívidas, receptação de bens roubados e partir crânios.

Na verdade, Asbo nem é seu sobrenome real. É Pepperdine. Ele adotou Asbo quando, ainda criança, recebeu essa classificação do serviço social. Em inglês A.S.B.O. significa Ordem de Comportamento Anti-Social.

Ele vive em um condomínio do subúrbio fictício de Diston com seu sobrinho, Desmond Perpperdine. Des, como é chamado, é o oposto do tio: sensível e inteligente, escreve até poesia, coisa que Lionel não entende.

“Às vezes você me deixa maluco, Des. Por que não vai para as ruas quebrar umas vidraças? Isso (escrever poesia) não é saudável”, recomenda.

Tudo leva a crer que a natureza violenta de Lionel – que se manifesta diversas vezes ao longo do livro – acabará por leva-lo a se tornar o “vilão” da história.

Amis é mais inteligente do que isso e dá um chapéu no leitor ao fazer do brutamontes o ganhador de um prêmio de 140 milhões de Libras na loteria. E aí, sim, surge o verdadeiro bad guy da narrativa de Amis: a imprensa britânica.

Dono de longa ficha criminal, subitamente transformado em milionário, língua solta incorrigível, Asbo se torna um prato cheio para os insaciáveis tablóides ingleses, que passam a perseguir o valentão por todo canto, ridicularizando-o nas manchetes hilariantes inventadas por Amis.

A graça do livro reside justamente em ver como até um sujeito que se considera invencível, praticamente de aço, tem seus nervos feitos em picadinhos pela implacável imprensa de fofocas britânica, uma indústria sem um pingo de ética, capaz até de grampear telefones de membros da família real, como se viu recentemente.

Fica claro que as  críticas ferozes dirigidas a Amis por seu suposto esnobismo não se sustentam, já que, no fim, os personagens oriundos dos subúrbios são, em diferentes momentos, herois ou vilões, capazes de cometer erros e acertos.

Pleno de humor ferino e com olho clínico para o ridículo, Lionel Asbo pode até ser uma leitura fácil. Mas nunca é vã.

Lionel Asbo - Estado da Inglaterra / Martin Amis / Companhia das Letras / 360 p. / R$ 49 / E-book: R$ 34,50 / www.companhiadasletras.com.br

Leia um capítulo de Lionel Asbo ilustrado por Tiago El Cerdo para Folha de S. Paulo aqui.

quinta-feira, setembro 18, 2014

O PIANO NO CENTRO DO PALCO

Festival de Pianistas Compositores da Bahia estreia hoje no TCA, com grandes nomes nacionais e locais a preços populares

Gilson Peranzzetta, foto João Mauro Senise
Instrumentos musical dos mais belos e complexos, o piano tem na Bahia uma grande safra de instrumentistas, que, além de tocar bem, também compõe peças exclusivas para as teclas.

Hoje e amanhã, o público poderá ter acesso a essa produção no primeiro Festival de Pianistas Compositores da Bahia.

Melhor: além dessa música baiana nova e interessante, que ignora as caquéticas regras do mercado local, dois dos maiores pianistas brasileiros das últimas décadas abrilhantam ainda mais o evento: o carioca Gilson Peranzzetta (hoje) e o paulista Benjamin Taubkin (amanhã).

Gilson, 40 anos de carreira, é uma enciclopédia, um gigante da música brasileira. Tocou e fez arranjos para praticamente todos os grandes nomes da MPB, além de ser respeitadíssimo no meio – no Brasil e fora dele.

Já Benjamin é outro prodígio. Já rodou o mundo solo ou com orquestras, sempre promovendo o diálogo da música brasileira com as culturas de outras partes do mundo.

O cast local não deixa por menos e hoje  traz o idealizador do Festival Saulo Gama (Mestre em Execução Musical - Ufba), Bira Marques (Orquestra Afrosinfônica), Zito Moura (acompanha inúmeros artistas de renome), Kadija Teles (mestre em piano pela Ufba) e Mikael Mutti (Percussivo Mundo Novo).

Amanhã tem Graça Ferreira (professora e pesquisadora), Marco de Carvalho (premiado instrumentista e arranjador), Aline Novais (Orquestra Juvenil  da  Bahia) e Paulo Gondim (veterano professor da Ufba e da UCSal, com álbuns lançados).

A pesquisa rendeu

Benjamin Taubkin
Saulo Gama teve a ideia de reunir todo este povo ao pesquisar para sua dissertação de mestrado na Ufba, lá em 2006.

“A pesquisa se chamava A Música dos Pianistas de Salvador. Nela, descobri que a grande maioria dos pianistas locais tinha um trabalho de composição que ficava guardado”, conta.

Em 2009, Saulo gravou um CD no qual executava parte dessa produção, intitulado, justamente, A Música dos Pianistas de Salvador. “Lancei digitalmente, mas no TCA a versão física estará a venda”, avisa Saulo.

Saulo já realizou diversos recitais com esse repertório, inclusive em outros estados do Brasil, além de Paris e Lisboa.

“A ideia deste festival  surgiu em 2010. De la para cá foi a batalha de inscrever em editais. Graças a um edital da Funceb de 2012, somente agora  a coisa realmente acontece”, conta.

Feliz com o convite para se apresentar em Salvador, Gilson Peranzzetta elogia o festival: “Projetos como estes precisam ser feitos para os músicos se aproximem das pessoas. É  que a música instrumental foi perdendo esse acesso ao público, né?”, diz Gilson, por telefone.

“Saulo merece todo aplauso por esse projeto maravilhoso e muito importante para que os  músicos não fiquem em casa compondo sem ter como mostrar essa produção”, observa.

Gilson diz não ver distinção entre erudito e popular: “A música erudita pode ser muito boa ou muito ruim. Todos os estilos tem música boa e ruim. O negócio é  procurar a música boa, ouvir de tudo. Quem não ouve não cresce, não aprende”.

“Ou você acha que Mozart, quando compunha aqueles minuetos para o povo dançar nos salões, sabia que aquilo era erudito? Só é erudito hoje o que já foi muito popular”, afirma.

“A música é minha religião. O palco é minha igreja e o piano é o altar onde humildemente faço minhas orações. Quando começa viagem de ego, você fica mais importante do que a música. Isso nunca é bom”, conclui Gilson.

Festival de Pianistas Compositores da Bahia / Teatro Castro Alves / Hoje e amanhã, 20 horas /  R$ 20 e R$ 10


quarta-feira, setembro 17, 2014

PODCAST ROCKS OFF: INDIE PARTE 2

Finalmente, um cantor de peso no SY!
Osvaldo Braminha Silveira Jr., Nei Bahia e Miguel Cordeiro seguem na discussão sobre o tal do indie rock.

"Sonic Youth não tem talento", afirma Nei.

"Odeio Radiohead de todo coração. E Pixies nunca foi indie rock!", dispara Miguel de lá.

E o pobre do Braminha tentando botar ordem na casa e sopesar opiniões tão radicais é o melhor de tudo.

Quem ganhou?

Alguém ganhou?

Não sei, ouçam aí e me contem!




terça-feira, setembro 16, 2014

O PAI DA DOR

Centenário, Lupicínio Rodrigues foi um dos criadores do samba-canção e imortalizou a dor de cotovelo com gênero importante da MPB em inúmeros sucessos

Pobre Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Poucos brasileiros devem ter sofrido tanto por amor.

Mas vejam o que separa o grande artista do homem comum: o primeiro transforma a dor na arte que vai consolar o segundo.

E Lupi, que hoje completaria 100 anos vivo fosse, foi um mestre neste ofício.

O gaúcho, autor de clássicos como Esses Moços, Loucura, Nunca, Ela Disse-me Assim, Felicidade, Vingança, Volta, Se Acaso Você Chegasse – a lista é enorme – vem embalando romances, rompimentos e, principalmente, a dor de cotovelo de gerações de brasileiros.

“Lupicínio, ao lado de Herivelto Martins (1912-1992), foi um dos pioneiros, um dos fixadores do samba canção na década de 1940”, define o pesquisador Rodrigo Faour, autor do livro-referência História Sexual da MPB (2006).

“Depois do seu primeiro grande sucesso, Se Acaso Você Chegasse, ele teve muitos sambas canções dor de cotovelo de sucesso, estilo que foi preponderante nos anos 1940 e 50. Foram gravados cerca de mil samba canções nesse período”, diz.



“E com essas músicas machucadas de amor ele munia o repertório de Linda Batista, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Isaura Garcia, Orlando Silva – todos os grandes cantores da era do rádio gravaram muito Lupicínio”, lembra Rodrigo.

E não só eles. Praticamente todos os grandes nomes da MPB pós-bossa nova também gravaram Lupicínio: Paulinho da Viola (Nervos de Aço), Maria Bethania (Foi Assim, Loucura), Gilberto Gil (Esses Moços), Gal Costa (Volta, Loucura), Elis Regina (Cadeira Vazia), Caetano Veloso (Felicidade) e essa lista também poderia seguir bem adiante.

"É muito difícil, até hoje, para quem não mora entre Rio e SP vencer na música. E o Lupicínio conseguiu isso. Pela universalidade das letras, sem dúvida. Era um compositor, coisa que na época tinha essa figura. Ele não precisava divulgar em rádios, cantar ao vivo. Não precisava fazer esse circuito tão frenético. O que o pessoal dessa época trabalhava era uma coisa insana", ensina Rodrigo.

"E ao contrário do que se costuma pensar, não foi só a bossa nova (que botou Lupicínio e os cantores do rádio de escanteio), Teve a Jovem Guarda também. A juventude arrumou outra linguagem. Tinha música de fossa também, mas era outro tipo de fossa. Não era o homem machucado, encantado com uma puta que não podia levar para casa. Era a época dos festivais, um tempo mais politizado. Aí veio a Tropicalia misturando tudo. Foi muita novidade nos anos 60. Quase todos os cantores dos tempos do rádio foram deixados embaixo do tapete nos anos 60. Mas ele continuou com sucesso ate morrer nos anos 70 por que era um ícone, não ficou ultrapassado. Ele parou de ter uma produção contemporânea, mas continuou um ícone. As pessoas mais velhas continuavam ouvindo. Os jovens que estavam em outra", explana.

"Assim como Caetano, Bethania, Gil, Chico, Gal nos dias de hoje nao perderam os tronos ainda, entende? Não teve uma geração tão forte para abafa-los. São até mais prestigiados hoje do que Lupicínio na sua época. O que ele teve foi os modismos de ocasião", acredita.

"Mas o grande interprete do Lupicínio, a voz que ele gostaria de ter tido foi Jamelão. Todos os discos do Jamelão tem canções do Lupicínio. Era a voz perfeita para cantar aquelas musicas dilacerantes e  dava densidade, força, virilidade. Jamelão tinha um alcance fantástico, era um grande tenor. Minha favorita é Ela Disse-me Assim. Você não acredita que ele vai dar aquela nota, de tão alta. Mas ele vai lá e dá", observa.



"Já Nervos de Aço nunca sai de moda apesar de tudo. A regravação do Paulinho da viola ficou no repertório clássico do samba com uma abordagem até mais moderna. O Paulinho tirou um pouco do dramalhão, suavizou um pouco. Aí ela ficou como Volta, que a Gal deu uma puta suavizada, uma sensualidade inesperada. Até a bossa nova, a música brasileira não tinha muito isso. Volta falava em corpo na cama, descreve uma cena de cama, coisa rara, pois na época não tinha essa intimidade. Não se falava de sexo na MPB", lembra.

Sofisticação melódica

Até mesmo Arrigo Barnabé,  um dos pilares da vanguarda paulista, se rendeu ao gênio de Lupicínio ao elaborar o show Caixa de Ódio (2011), só com canções do compositor, depois transformado em DVD.

O projeto fez tanto sucesso que, no próximo dia 10, ele estreia em São Paulo o show Caixa de Ódio 2.

“Lupicínio foi um grande criador, tinha um poder de síntese, uma capacidade de sintetizar comportamentos afetivos em observações e comentários que tem uma lucidez muito aguda”, opina Arrigo.

“Embora possam achar ele politicamente incorreto, meio machista para os dias de hoje. Ainda assim, as canções dele também foram muito cantadas por mulheres. Ele não era tão parcial assim”, ressalva.

Apesar de mais lembrado como letrista, intimamente ligado à dor de cotovelo, Arrigo nota na obra do gaúcho certa sofisticação melódica: “Apesar da aparente simplicidade melódica de suas canções, há ali várias peculiaridades, marcas de estilo do compositor”, afirma.

“Tenho a impressão de que ele foi muito influenciado pelas coisas da época: marchinhas, hinos de igreja, óperas – e tudo isso era recurso que ele tinha para compor. É interessante isso, por que ele não tocava nenhum instrumento. Ele tinha esses recursos e, com eles, produzia algo muito interessante”, nota.



Na cidade de Lupicínio

Na sua Porto Alegre natal, de onde pouco saiu em vida, Lupicínio deixou marcas profundas na cidade e seu povo. Por exemplo, é dele o hino do seu time de coração, o Grêmio.

Hoje, dia do centenário, a capital gaúcha viverá uma série de ações em homenagem ao compositor, com corais em pontos importantes da cidade, excursão a pé e de ônibus por locais que ele frequentava, shows nos bares e sessão do musical Lupi, o Musical: Uma Vida em Estado de Paixão, em cartaz desde o mês passado.

Haverá ainda uma estátua em tamanho natural, um longa-metragem (Nervos de Aço, de Maurice Capovilla), uma biografia (do jornalista Marcello Campos), palestras, versos do compositor  nas laterais dos ônibus e muito mais.

“Para quem é de Porto Alegre, Lupicínio é muito forte no imaginário musical da cidade”, confirma o músico Frank Jorge, referência do rock gaúcho com a banda Graforreia Xilarmônica e professor do curso de  Produção Fonográfica da Unisinos.

“Mesmo entre a minha geração, mais impactada pelo punk rock, Lupicínio sempre teve um espaço, um reconhecimento da vida dele aqui em Porto Alegre, por conta de sua natureza notívaga, boêmia”, afirma.

“Suas  canções eram muito sentidas, passionais, fortes. Por algum tempo foram até vistas como de mau gosto. Mas essa visão já foi superada e hoje o que se ressalta é  sua beleza inegável”, conclui o gaúcho.


segunda-feira, setembro 15, 2014

AH, VOCÊ QUER MICRO-RESENHA? ENTÃO TOMA!

Hardcore avant-garde

Super ativista  underground, ex-guitarrista da banda Jason (RJ), Panço faz ótima estreia solo, em álbum com vários vocalistas, incluindo nossa Nancy Viegas. Hardcore, indie, psicodelia, experimental: sem concessão ou frescura. Leonardo Panço / Tempos / Tamborete / Baixe: www.soundcloud.com/leonardopanco









Maurão detonação

O quarto EP da banda  Orange Poem traz Mauro Pithon nos (furiosos) vocais. Mas não é hard rock convencional. Child's Knife lembra Jethro Tull. The Green Bee tem intervenção poética em português. Doido, pesado, diferente. The Orange Poem / Balance / Independente / Baixe: www.soundcloud.com/theorangepoem









Recife, anos 1990

Surgida na ascenção da cena recifense pós-manguebeat, a banda JC&DEQSTI andou sumida. Agora volta com coletânea comemorativa de 20 anos e duas faixas inéditas. Rock nordestino, Hendrix e Zé Ramalho no juízo. Jorge Cabeleira & o Dia em que Seremos Todos Inúteis / Trazendo Luzes Eternas / Independente / R$ 25







A origem da guerra

No centenário da Iª Guerra Mundial, uma enxurrada de livros veio explicar o conflito. Este explica e reconstitui apenas o evento que originou o banho de sangue: o assassinato de Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, em Sarajevo. Pesquisa de fôlego. O Assassinato do Arquiduque / Greg King e Sue Woolmans / Cultrix / 400 p. /  R$ 52 / www.pensamento-cultrix.com.br







É "fantártico"

O crítico literário barceloneta David Roas faz o elogio dos gêneros fantásticos nas artes, reconstruindo e analisando a trajetória do estilo. Segundo Roas, o Iluminismo e seu culto a razão desbancaram a fé no sobrenatural, liberando os autores para “brincar literariamente”, inclusive com a ciência. A Ameaça do fantástico / David Roas / Unesp/ 216 p./ R$38/ editoraunesp.com.br




Massacre em HQ

Um dos episódios mais sangrentos da República e do Exército brasileiro é recontado nesta bela HQ roteirizada por Daniel Esteves. A história do Beato Antonio Conselheiro e seus seguidores mereceu boa pesquisa dos autores, incluindo uniformes e características da fala popular de então. A Luta Contra Canudos / D. Esteves, Jozz e Akira Sanoki / Nemo/ 64 p./ R$ 42/ editoranemo.com.br






Promessa potiguar

A banda potiguar Far From Alaska estreia em CD com erros e acertos. A princípio, soa genérica. Mas cresce na audição, graças às boas guitarras e ao vozeirão da cantora Emmily. Potencial até tem, mas precisa comer  mais feijão aí. Far From Alaska / modeHuman/ Vigilante - Deck / Preço não divulgado









Tango em família

Formado por uma mãe (Estela, piano) e dois filhos (Alexandre, sax e Marcelo, acordeom), o trio brasileiro LiberTango mistura o gênero argentino com choro e baião. E não é que funciona? Belíssima prova de que a (boa) música não tem fronteiras. Grupo Libertango / Tangos Hermanos / Mills Records / Download: R$ 12,99







Samba de boca

Com três vozes femininas e uma masculina, o quarteto vocal carioca Arranco de Varsóvia faz samba em releituras elaboradas de Lenine (O Dia em Que Faremos Contato), Egberto Gismonti (Saudações), Sombrinha (Saudade) e autorais. Bonito. Arranco de Varsóvia / Na panela pra dançar / Mills / R$ 29,90







Vade retro rock cristão

Rock cristão é como pagode carola: não dá. Aí você vai ouvir, são as mesmas mensagens que John Lennon, Renato Russo e outros rock stars messiânicos já mandavam décadas antes – e sem precisar agradecer à CNBB. Raulzito, me salva! Beatrix / Lugar Comum / Universal / R$ 18,90







Amadurecer não é ficar chato

O curitibano Rapha Moraes é o típico ex-roqueiro brasileiro arrependido, convertido em bom rapaz que faz música “séria” e sensível. Nada contra  um suposto amadurecimento artístico, mas o excesso de bom mocismo apenas entedia. Rapha Moraes / La Buena Onda / Independente / Preço não divulgado







Diálogo entre o sertão e os Jardins de Luxemburgo

Parisiense radicado no Brasil, Nicolas Krassik dialoga com a música nordestina através de seu violino arretado. Ecos de Villa- Lobos, Grapelli e Hendrix em dez faixas, com destaque para a rabeca de Marcos Moletta. Gilberto Gil e Lenine dão o ar da graça. Nicolas Krassik / Nordeste de Paris / Independente / R$ 27,90








Aula de história sem tédio

Ótima quadrinização do livro homônimo da historiadora Lilia Moritz Schwarcz pelo ilustrador Spacca (Jubiabá). D. Pedro II e o Brasil da época decifrados e ajudando a entender o Brasil de hoje em leitura ágil e clara. As barbas do imperador / Lilia Moritz Schwarcz e Spacca / Quadrinhos na Cia. / 144 p. / R$ 49 / www.companhiadasletras.com.br







Perturbados em Atenas

Ao sol de Atenas, um macabro jogo de vida e morte se desenrola quando Rydal Keener segue alguém se parece com seu pai. E a mestra do suspense Patricia Highsmith faz gato e sapato dos nervos do leitor. As Duas Faces de Janeiro / Patricia Highsmith / Benvirá / 320 p. / R$ 39,90 / www.benvira.com.br








Casa, comida e roupa lavada

E se Shakespeare tivesse uma irmã? E se ela fosse tão talentosa quanto ele? Neste ensaio, Virginia Woolf nos lembra a grande arte não surge do nada. Ela precisa de terreno fértil: “um teto todo seu e 500 libras por ano” ou nada feito. Um teto todo seu / Virginia Woolf / Tordesilhas / 240 p. / R$ 34 / www.tordesilhaslivros.com.br








Umbigada britpop

Em seu primeiro registro solo, o  homem do Blur e do Gorillaz escolheu uma chave mais intimista e, dizem, autobiográfica. Apesar do giro em torno do umbigo, é uma audição agradável, contida, com muitas cordas, sopros e alguma eletrônica. Damon Albarn / Everyday Robots / Warner / R$ 29,90









Jesus do subúrbio

A obra do compositor erudito contemporâneo John Adams, O Evangelho Segundo a Outra Maria –  no caso, a Madalena. A regência do venezuelano Dudamel confere o seu vigor habitual ao oratório, que traz uma  visão moderna de Jesus. John Adams, Gustavo Dudamel / The Gospel According To The Other Mary / Universal / R$ 42,90








Chutando cachorro morto

Quando uma banda como Fresno – poser, cria da onda emo, essencialmente narcisista – resolve fazer um “manifesto contra a futlidadade”, a conclusão é uma só: estamos no mato sem cachorro. Em cinco faixas, muita hipocrisia, falta de noção e chupação do My Chemical Romance. Fresno / Eu Sou a Maré Viva / Independente / R$ 19,90






Pelo menos morreu de banho tomado

Sequência de Sete Dias em River Falls, Um Outono.. nos leva de volta à pequena comunidade do título, atormentada por assassinatos periódicos. Pior para o xerife Mike Logan e a arquivista Jessica Hurley, que terão de fuçar a vida de um advogado, encontrado frito na banheira. Um outono em River Falls / Alexis Aubenque / Vestígio / 416 p. / R$ 39,90 / www.grupoautentica.com.br/vestigio







Buddy movie à escocesa - e em livro

Um imigrante ilegal morto em um cortiço de Edimburgo, dois esqueletos debaixo de uma ponte e o desaparecimento de uma adolescente. Um dia comum para o obstinado investigador John Rebus e sua assistente Siobhan, da polícia escocesa. Beco dos Mortos / Ian Rankin / Companhia das Letras / 536 p. / R$ 62,50 / E-book: R$ 49,50 / www.companhiadasletras.com.br

domingo, setembro 14, 2014

HOMENAGEAR CEDRAZ É GARANTIR QUE SUA OBRA NÃO SEJA ESQUECIDA

Antonio Cedraz  (1945-2014). Foto: Chico Castro Jr.
Memória: O criador do Xaxado nos deixou, mas seu trabalho fica e precisa ser conhecido

”A vida é o que acontece enquanto fazemos planos”, disse certa vez o autor de Imagine durante uma entrevista.

Em novembro do ano passado, o quadrinista baiano Antonio Cedraz delineou diversos dos seus (muitos) planos para este jornalista, durante uma entrevista para a revista Muito.

Após um longo período de combate ao câncer, Cedraz curtia um momento positivo: estava em remissão e planejava retomar a produção das tirinhas da Turma do Xaxado, interrompida desde que iniciara o tratamento, alguns anos antes.

Mais: tinha em vista a produção de uma série de animações do Xaxado para a TV e outras publicações infanto-juvenis de cunho educativo.

Conversei durante um par de horas com Cedraz na sala de sua casa, em Brotas.

Quando terminamos, o lépido cartunista me ofereceu uma carona de volta para o jornal. Ia acertar alguma  exposição do Xaxado em um shopping da região do Iguatemi / Av. Tancredo Neves.

Na saída, notei o majestoso mandacaru que adorna a saída de sua garagem. O estalo foi imediato: “Cedraz, posso tirar uma foto sua na frente dessa planta?”.

Apressado, ele concordou e posou do jeito que estava: chaves do carro na mão, a fralda da camisa parcialmente dentro das calças. Saquei o celular e cliquei duas vezes.

O retrato íntimo, seguido da carona, foi a última vez que vi Cedraz pessoalmente. Algumas semanas depois, soube por amigos em comum que o câncer tinha voltado. “A vida é o que acontece enquanto”...

Ainda nos falamos por telefone depois disso, mas nem por um segundo senti medo ou tristeza em sua voz.

Esta semana, Cedraz nos deixou, engrossando a lista que fará de 2014 um ano farto de perdas incalculáveis para a cultura e o jornalismo baianos: João Ubaldo, João Carlos Sampaio, André Setaro, Antonio Cedraz.

E que pare por aí, pois já está de mau tamanho.

Xaxado é nossa Mafalda

Tudo isto posto, afirmo que, antes de lamentar a perda de Cedraz (algo inevitável), prefiro celebrar sua brilhante passagem por este planeta.

Maior nome dos quadrinhos baianos, era da Bahia que ele tirava inspiração para suas criações, mas ao mesmo tempo, era também aqui que tinha menos reconhecimento – não que tivesse mágoa por isso. Não havia lugar no seu peito para ressentimento.

Ainda assim, foi múltiplas vezes premiado com o Trofeu HQMix, maior premiação dos quadrinhos brasileiros.

Foi consagrado Mestre do Quadrinho Nacional pelo Prêmio Ângelo Agostini, outra importante premiação.

Viajava constantemente pelo país, recebendo homenagens em feiras e convenções de quadrinhos.

Sua obra é objeto de estudo por pesquisadores, mestrandos e doutorandos no Brasil e no exterior.

Enfim: um raro baiano contemporâneo reconhecido nacionalmente por algo mais do que um belo par de pernas ou uma dancinha de gosto duvidoso.

“Meus próximos projetos são para contar a história de Maria Felipa e de Caramuru. O que não falta na Bahia é assunto: Guerra dos Alfaiates, Revolta dos Malês, Cosme de Farias... Eu quero é dar ênfase à nossa história, à nossa cultura”, disse ele a este jornalista durante uma de suas (muitas) entrevistas.

Não sei em que pé ele deixou estes projetos – ou mesmo se chegou a inicia-los. O que ele já deixou já é o bastante para içá-lo à condição não só de Mestre do Quadrinho Nacional, mas da própria cultura baiana.

Mais importante do que agora pensar em estátua ou dar-lhe um nome de rua, é se certificar que sua obra não será esquecida ou relegada ao mofo das prateleiras.

É levar sua obra, tão importante e cheia de significados, universal e acessível tanto para crianças quanto adultos, às escolas públicas e privadas, centros culturais – aonde for.

Por que Xaxado está para os baianos como Mafalda está para os argentinos.

Em suas tiras aparentemente infantis, Cedraz e a valorosa equipe do seu estúdio fizeram todas as perguntas que não ainda cansamos de fazer: por que nosso povo vive na miséria, na fome e na ignorância enquanto a classe política goza de todas as benesses? Por que a seca? Por que o racismo? Por que a igreja? Por que os coronéis? Por que você isso? Por que eu aquilo?

Tudo sem abrir mão da leveza, do humor, da inteligência. Isso, definitivamente, não é pouco.

Talvez por tudo isso eu, inconscientemente, tenha tido o impulso de pedir a ele para posar com o mandacaru.

Era óbvio que se tratavam de semelhantes: sertanejos fortes, talhados para  prosperar na adversidade.

Nunca o esqueceremos.

sexta-feira, setembro 12, 2014

O LEGÍTIMO CUBANO

Acompanhado da banda Afro-Cuban Messengers, pianista Chucho Valdés se apresenta amanhã no Teatro Castro Alves

Chucho, elegante em seu terno vinho de veludo. Foto: www.valdeschucho.com
Já disse um sábio que “nome é destino”.

Jesús Valdés Rodríguez parece confirmar a regra, ao conjurar música que parece vir dos céus quando deita suas mãos sobre o piano.

Os fiéis estão convocados para testemunhar amanhã, no Teatro Castro Alves.

Mais conhecido como Chucho Valdés, este cubano de 71 anos é um dos responsáveis por elevar a fama da música cubana a nível mundial – transcendendo embargo injusto, regime caquético etc – tudo com muito suor e a força de sua arte arrebatadora.

Em turnê pelo Brasil, Chucho traz a Salvador o show do seu último álbum, Border-Free (Sem fronteiras), no qual trabalha elementos da sua praia – o jazz afro-cubano –, misturando elementos díspares como Gnawa (música marroquina), flamenco e até da música Comanche, tribo ativa norte-americana.

“Ah, o show será muito variado”, conta ele, do seu quarto de hotel em São Paulo.

“Estou apresentando músicas de meu último disco, no qual faço uma fusão dos elementos de música afro-cubana, jazz afro-cubano, danza e contradanza de Cuba a elementos da música dos índios comanches, mais o jazz clássicos, flamenco e música do Marrocos”, detalha.

Além de temas de Border-Free, ele promete executar clássicos do “puro son cubano e também um tema composto por meu pai”.

Para quem não sabe, o talento de Chucho vem de berço. Seu pai, o também pianista Bebo Valdés (1918-2013), foi figura central da chamada era de ouro da música cubana, pré-Fidel.

Foi em casa, sob as asas do pai, que o jovem Chucho aprendeu os primeiros acordes ao piano.

Não é o Buena Vista

“Papai me ensinava música cubana, afro-cubana, jazz e todos os gêneros sul-americanos, incluindo o samba”, conta.

“Mas a educação formal, acadêmica, também foi muito importante. Uma coisa completa a outra, claro”, reflete.

Se a descrição da música do último disco de Chucho, com tantas influências díspares misturadas, pareceu estranha, o músico lembra que elas, na verdade, não são tão estranhas assim.

“Por exemplo, o flamenco nasce da influência árabe (moura) na música espanhola. Procuro o ponto em comum entre essas diferentes tradições, o elo que as une, como um ponto de partida”, explica.

Na música brasileira, Chucho já gravou com Ivan Lins, Hamilton de Holanda e fez shows com Ed Motta e Egberto Gismonti.

“Com Ivan, gravamos (com a banda Irakere) um concerto ao vivo em Havana, em 1996. E há um músico brasileiro que para mim é um gênio, que é o (bandolinista)  Hamilton de Holanda, com quem gravei Pixinhguinha (Benguelê e Lamentos, no álbum Mundo de Pixinguinha, de 2012)”, elogia.

“Aqui em São Paulo acompanhei o cantor Ed Motta. Fiz três concertos com ele e foi uma maravilhosa experiência”, conta Chucho.

Agora, ganha um doce quem adivinhar a cantora brasileira que ele mais admira: “Mas adoraria gravar  com Simone. É uma grande cantora”, surpreende, ao citar a pouco lembrada baiana de Eu Tô Que Tô, entre outros hits.

Agora, vale o aviso a quem pretende ir ao show: Chucho não é Buena Vista Social Clube. É jazz mesmo, no duro – estilo afro-cubano.

Ainda assim, ele conta que o efeito do filme de Wim Wenders (1997) foi benéfico para ele.

“Quando o filme saiu, eu já  tinha muito trabalho e muito reconhecimento. Depois do filme, com a música cubana na moda, ficou ainda melhor. Para mim e para a música cubana. Chamou atenção, o mundo passou a ouvir e se interessar mais”, conta.

Hoje residindo na Espanha, na cidade de Málaga, Chucho conta que visita a ilha periodicamente, tanto para fazer concertos, quanto se atualizar com a nova geração de músicos cubanos.

"Sim, viajo muito a Havana. Inclusive, vou fazer dois concertos lá em breve. Um para piano e orquestra com a Sinfônica de Havana, com regência de Leo Brouwer. E outro com minha banda", conta.

“Em Cuba se mantém a tradição e há muita renovação, também. Este meu novo trabalho é todo  com músicos muito talentosos da nova geração”, conclui.

Afro-Cuban Messengers (uma citação aos Jazz Messengers de Art Blakey), a banda de Chucho, conta com Yaroldy Abreu (percussão), Dreiser Durruthy Bombalé (tambores e voz), Reinaldo Melián (trompete), Gastón Joya (baixo) e Rodney Barreto (bateria).

Série TCA 2014: Chucho Valdés & Afro-Cuban Messengers / Teatro Castro Alves / Amanhã, 21 horas / R$ 140 e R$ 70 (filas A a P); R$ 110 e R$ 55 (Q a Z) e R$ 80 e R$ 40 (Z1 a Z11)


terça-feira, setembro 09, 2014

O ROCK 'N' ROLL DO PANCREAS É ÓTIMO PARA DESOPILAR O FÍGADO

Pancreas, com Shinna ao centro. Foto Ana Prado
Uma coisa que o colunista o blogueiro costuma sentir falta no rock baiano é um certo toque de humor.

No rock, contudo, isto pode ser uma faca de dois gumes, já que ninguém ri da mesma piada (ou musiquinha engraçada) duas vezes.

Aqui, só o Camisa de Vênus foi capaz de tal feito, com músicas que eram engraçadas (e cruéis), mas resistiam ao tempo, como Primo Zé, O Adventista, Bete Morreu etc.

(Na verdade, eram antes músicas de forte conteúdo crítico que se valiam do humor ácido para afiar a própria crítica, melhor dizendo).

Bem ativa no cenário alternativo local, a Pancreas (sem acento) parece tentar algo na linha do rock ‘n’ roll bem humorado e bagaceiro, mais na linha Velhas Virgens.

Pelos títulos de algumas músicas já dá para ter uma ideia: Renata Sem QI, Ela Gosta de Forró, A Lenda de Leopoudo.

Formada em 1994 por alguns amigos de colégio, a primeira encarnação do grupo durou pouco, mas voltou em 2010 com outros músicos, além do vocalista / letrista original, Shinna.

De lá para cá, já gravou dois EPS de cinco faixas cada: Mau Humor é Para os Fracos (2013) e Na Esquina (2014), ambos produzidos por Irmão Carlos.

Mas mais importante do que ser bem humorada, o Pancreas tem duas outras características que a tornam digna de nota: a dupla de bons guitarristas formada por Daniel e Cléber soa afiada, bem entrosada.

A segunda? A banda  não para – nem espera shows caírem do céu.

Todo mês no Dubliner’s

“Eu confesso:  só penso em bobagem e dar risada. Então tudo que fazemos tende a ser divertido“, admite Shinna sendo modesto, já que foi ele mesmo que pensou num esquema para a banda não parar.

“Temos uma data fixa no Dubliner’s, que costuma ser no quinto dia útil do mês. Em alguns casos não da. Esse mês é no dia 19, com Os Tios, Mike Solta o Verbo, Trigger e Instinto Secreto. Pinta lá”, convida.

“Esse projeto rola desde maio, mas desde 2011 nós tocamos pelo menos uma vez por mês. E o resultado dessa ‘residência’ no Dubliner’s é um absurdo de positivo. Sempre dá no mínimo 100 pessoas, as vezes até 200. E mulher não paga, então está sendo sensacional pra gente”, conclui.

Além de Shinna, Daniel e Cléber, a Pancreas tem Ricardo (baixo) e André (bateria).

Ouça: www.soundcloud.com/pancreasrocknroll




NUETAS

Os Retros e os peruanos

O Tangolomango - Festival Latino-Americano da Diversidade Cultural traz do Peru os grupos SambaLandó e Negro Mendes para apresentação no Teatro Vila Velha. De Salvador, os Retrofoguetes e Orquestra de Berimbaus Afinados fazem as honras da casa. Às 20 horas (como estamos civilizados), quase de graça: R$ 4 e R$ 2. Cool.

Os Tios e Grux, hoje

Hoje, as bandas Os Tios (do guitar hero André Poveda, ex-Zona Abissal) e Grux se apresentam no evento Quanto Vale o Show?, no Dubliner’s.  18 horas (palmas para o horário), pague  quanto quiser / puder.

As jovens tardes de domingo

Todo domingo de setembro tem Cascadura e uma banda convidada no Dubliner’s. Às 18h30 (olha!), por R$ 10.

sábado, setembro 06, 2014

O ROCK LOCO É TOTALMENTE CONTRA A FLEXIBILIZAÇÃO DA LEI DO SILÊNCIO. E VOCÊ?



Leia mais:

http://atarde.uol.com.br/coluna/levivasconcelos/ja-viu-lei-do-silencio-dar-barulho-vai-dar-1618823

http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/alteracao-em-lei-do-silencio-e-criticada-1619651

http://www.bahianoticias.com.br/noticia/159611-carballal-teria-negociado-nova-lei-do-silencio-para-aprovar-desafetacao-de-terrenos.html

http://www.tribunadabahia.com.br/2014/09/02/vereadores-aprovam-aumento-do-barulho-em-salvador-durante-festas

Futuro ameaçado

Esse cara quer lucrar com a venda de nossa (frágil) paz social
Estão querendo vender o que nos resta de sanidade, sossego e silêncio a troco dos trocados do turismo sexual.

Isso é um atentado criminoso contra a população que vive, trabalha e paga os altos impostos de Salvador.

Liberar (ainda mais) o barulho na cidade é estimular o stress, o ódio e a violência, que já não são poucas.

E afinal, Salvador precisa de música boa ou música alta?

A flexibilização da lei do silêncio, caso aprovada, apenas tornará esta cidade ainda mais inabitável, condição que já é flagrante no dia a dia das pessoas que precisam trabalhar a troco de baixos salários e se deslocar por ruas perigosas, engarrafadas, violentas, poluídas, atulhadas de lixo, ambulantes e carros estacionados de qualquer jeito.

Igualmente ultrajante é saber que proposta tão esdrúxula e nociva à população parte de um edil, o vereador Henrique Carballal (PT), visto na foto acima, pago com o dinheiro dos nossos impostos.

Afinal, a serviço de quem mesmo está esse homem, com uma proposta que vai contra qualquer tipo de razoabilidade civil?

E a Câmara, que aprovou esta estupidez? É paga por quem mesmo para legislar? Por nós ou pelo empresariado interessado em lucrar com o projeto?

Prefeito, seu almejado futuro político repousa nesta decisão.

Fique do lado do povo que o elegeu (só para constar, este blogueiro não votou em ACM Neto) - e não dos que só vem à cidade beijar na boca e depois se mandam.

Não traia a confiança de quem votou em sua administração. As ruas estão aí - e com certeza irão cobra-lo por isso.

Fica o aviso.

Foto do vereador Henrique Carballal (PT): Max Haack / Ag. Haack / Bahia Notícias