sábado, junho 21, 2014

AYRAN NICODEMO, VIOLINISTA ENTRE DOIS MUNDOS

Ayran Nicodemo, foto: Ariel Subirá
 Tradição sinfônica, música cigana: o violinista mineiro Ayran Nicodemo partiu dessas duas (enormes) bases para construir a música do seu primeiro álbum de violino solo, Pedra Cigana.

Músico da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ex-spalla da OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira) Jovem, Nicodemo é, aos 25 anos, uma das promessas da música erudita nacional.

Das oito faixas de Pedra Cigana, apenas uma não é de sua autoria: Hora de La Munte, um tema folclórico romeno, que, curiosamente, ele descobriu durante uma visita à Bahia.

“Em janeiro de 2014 fui convidado para integrar o quadro de profissionais do Festival de Música e Danças do Mundo, em Imbassaí. Lá, ao ter contato com músicos de diversas culturas e países, está pérola apareceu, e encontrei nela o que faltava para o CD”, conta Ayran.

“'Hora' é uma dança característica romena, e 'Munte' é uma região. 'Hora de la Munte' é  a dança deste local”, ensina.

Diálogo, releitura

Ayran Nicodemo, foto: Ariel Subirá
Apesar de fascinado pela música e pela cultura ciganas, Nicodemo não tem ascendência  romani (etnia indiana que deu origem aos povos ciganos).

“Sou de ascendência italiana, minha família não tem relação alguma com a cultura cigana. Mas eu, desde o primeiro momento em que peguei o violino, passei a tocar de uma forma muito parecida e influenciada pelos ciganos do leste da Europa”, relata Ayran

“A música cigana é algo que me fascina antes de eu pensar (em) música, é muito visceral em mim. É isso que retrato em Pedra Cigana”, descreve.

Portanto, o que se ouve em no álbum não é “música cigana” de fato, e sim, a interpretação de Nicodemo para esta tradição, além de um diálogo entre esta e a escola da música sinfônica Ocidental – o que só  torna a obra  ainda mais interessante.

“Quando componho, procuro seguir minhas sensações, e o idioma musical do leste europeu encontra muita consonância em mim”, diz.

“Há características deste idioma, como ritmos, compassos e intervalos, mas não penso sobre isso, experimento e gosto ou não, totalmente através do universo sensitivo. Procuro estar aberto ao que vem de mim, mas claro que possuo inúmeras referências, e minha intenção não é traduzir, mas sim expressar o que sinto”, explica.

Na verdade o povo cigano é um povo muito perseguido em todo o mundo, e sua cultura é pouquíssimo respeitada e admirada verdadeiramente. Há no ocidente uma mistura de deslumbramento, medos e crenças sobre algo muito mais simples que é a cultura cigana, claro que há festas e rituais, assim como outras culturas, mas há também um ar de saudade e esperança. Com estas festas, saudade e esperança sim o disco dialoga muito”, constata.

“Sobre a tradição, por ser um disco de músicas autorais e com uma releitura, a ideia de tradição não está presente neste CD, mesmo porque não sou de família cigana, e o arranjo da música romena é mais uma preocupação de diálogo e referência do que de tradição”, observa o violinista.

Músico de orquestra erudita tradicional, Ayran se alimenta tanto da tradição sinfônica ocidental, quanto da musicalidade cigana, uma coisa alimentando a outra.

"Com toda certeza, apesar de serem universos bastante distintos, o músico e o instrumento são os mesmos, ou seja, são a ponte entre estes ambientes, e é muito interessante observar estas imensas forças agindo entre sí dentro de mim! Há momentos nos quais o pensamento sinfônico influência muito,e outros nos quais é o arquétipo cigano tocando na orquestra. Sempre gosto de observar e aprender com estes diálogos/forças", reflete.

Entre dois mundos (cigano e sinfônico), quem ganha é o ouvinte.

"É importante para mim que o ouvinte sinta algo, não importa se é o que eu senti. Claro que num país onde a musicalização (principalmente infantil) não é cultural ainda, a assimilação de uma música sem palavras se torna mais desafiante para muitos, mas jamais inacessível, pois este entendimento se dá mais ainda no mundo das sensações, e é isso que pretendo, quero que as pessoas ouçam e sintam o que reverbera dentro delas e dialoguem com isso! É isso que faço, quando componho, vou me conhecendo e dialogando comigo próprio, e este é o barato da música!", conclui Nicodemo.

Pedra Cigana - Violino Solo / Ayran Nicodemo / A Casa Discos / R$ 27 / www.facebook.com/ayran.nicodemo

quinta-feira, junho 19, 2014

A REVOLUÇÃO TELEVISIONADA E A CRISE DO HOMO AMERICANUS

No livro Homens Difíceis, Brett Martin analisa a predominância de personagens masculinos nas melhores séries da TV norte-americana

Familia Soprano: chefão da máfia com crise de pânico vai à psicóloga
Não é segredo: a melhor dramaturgia audiovisual norte-americana não está mais nos cinemas – está na TV. Pelo menos, desde que a HBO colocou o já clássico seriado Família Soprano (1999-2002) no ar.

No livro Homens Difíceis: Os bastidores do processo criativo de Breaking Bad, Família Soprano, Mad Men e outras séries revolucionárias, o jornalista Brett Martin refaz o antes, o durante e o depois desse processo, que transformou a TV norte-americana em uma fonte de teledramaturgia arrojada, personagens inesquecíveis e muita reflexão sobre a crise que se abateu sobre o homo americanus.

E que surpresa descobrir que o “antes” dessa revolução (na ótica de Martin) começou na TV aberta quase 20 anos antes, quando a rede NBC botou no ar o seriado Chumbo Grosso (Hill Street Blues, 1981-87), idealizado por Steven Bochco.

Com linguagem documental, atuações naturalistas, roteiros realistas e temas de relevância social, não havia nada como Chumbo Grosso sendo feito na TV.

Mad Men: publicitário bem sucedido de identidade incerta e passado insondável
Ironicamente, Bochco havia se inspirado no que o cinema havia feito e  que estava deixando de fazer: os dramas urbanos e adultos de Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Mike Nichols, Peter Bogdanovich etc.

O que ocorreu foi que, com a infantilização do cinema pós-Star Wars, ET e Indiana Jones, coube à dramaturgia televisiva abordar dramas humanos adultos

Foi aí que  roteiristas, produtores e showrunners como David Chase (Sopranos), David Simon (The Wire: A Escuta), Alan Ball (A Sete Palmos), David Milch (Deadwood) e Matthew Weiner (Matthew Wriner) viram sua brecha para renovar a TV.

Leitura magnética e indispensável para quem se interessa pelos bastidores da TV, dramaturgia e os seriados abordados em si, Homens Difíceis sustenta que as séries dramáticas mais bem sucedidas e elogiadas da última década e meia são com homens, sobre homens e criadas por homens – mas não exclusivamente para homens.

“Embora um grupo de mulheres desempenhe papéis altamente influentes nessa narrativa – como roteiristas, atrizes, produtoras e executivas –, elas não estão em número suficiente”, escreve Brett Martin.

Breaking Bad: pacato professor vira produtor de meta e torna-se um monstro
“Não apenas os programas mais importantes do período foram comandados por homens, como também eles falavam basicamente sobre (grifo do autor) masculinidade, em especial os contornos do poder masculino e as infinitas variedades de combates entre homens”, afirma.

Levando-se em conta que os  principais protagonistas dos três programas mais importantes do período – Família Soprano, Mad Men (AMC, 2007) e Breaking Bad (AMC, 2008-13) – são de (e sobre homens) vivendo crises  profundas, fica realmente difícil contestar o autor.

Ainda assim, seria pouco para Martin sustentar sua tese.

Problema resolvido ao detalhar a criação, produção e desenrolar (à frente e por trás das câmeras) de outras  séries de alto nível que partilhavam das mesmas características, como A Sete Palmos (HBO, 2001-05), The Shield (FX, 2002-08), Deadwood (HBO, 2004-06), Dexter (Showtime, 2006-13) e The Wire: A Escuta (HBO, 2002-08), entre outros.

Mas o que mais surpreende no livro são suas revelações de bastidores sobre os criadores dessas séries – eles mesmos homens tão difíceis e mergulhados em crises quanto os personagens que eternizaram.

Homens Difíceis: Os bastidores do processo criativo de... / Brett Martin / Aleph/ 368 p. / R$ 54 / www.editoraaleph.com.br

terça-feira, junho 17, 2014

BABY LIXO, DE HEITOR DANTAS, QUER DESCONSTRUIR O ROCK

Heitor Dantas, em foto de Claudio Braga
Tá vendo o rapaz barbudo aí do lado? Se você é leitor(a) atento(a) desta coluna, já o viu antes.

Heitor  Dantas é o guitarrista do power trio de blues avant garde Laia Gaiatta e também da banda que acompanhou Tuzé de Areu na temporada do seu badalado show / evento, Novas Aventuras no País do Som, ambos já vistos neste espaço.

Desta vez, Heitor volta à Coletânea com outro trabalho: a banda Baby Lixo, mais uma aventura sônica de tons vanguardistas do músico, que tem formação acadêmica e intenções ousadas: Heitor quer desconstruir o rock.

Hein?!?

“Mas a ideia é fazer rock mesmo, sem muita... (pausa). É explorar os limites do rock. Tem a coisa dos riffs de guitarra muito presente. É uma linguagem de rock, com vocais mais agressivos”, explica Heitor.

“No nosso primeiro EP, Bon Appetit, Sucuri,  trabalhamos a partir de canções. Mas não vai ser só isso. Fazemos colagens. Pega um  riff aqui, um texto ali, uma harmonia acolá. Tem um trabalho de decupagem sonora”, detalha o músico.

Procura-se o roque

Por mais que doa ao colunista, é possível que Heitor esteja prestando um serviço: tem coisa mais desmoralizada e irrelevante do que o rock hoje?

A juventude, em sua maioria absoluta, não quer mais nem saber. Está ocupada demais se exibindo em redes sociais e engolindo a próxima modinha (funk, sertanejo, pagode) sem qualquer questionamento.

Talvez seja mesmo bom para o rock ser desconstruído, reinventado.

“Sem dúvida, e  isso não é uma ideia nova. Os Beatles fizeram isso, o rock progressivo, o punk fez isso. E  acho que essa forma de trabalhar é muito contemporânea. A coisa do mash up,  CTRL+C,  CTRL+V é por aí. Vejo muito isso por aí e acredito que vai ser cada vez mais vai ser explorado”, reflete Heitor.

É possível que, após 50 anos (ou 60, para os mais otimistas) de constantes revoluções musicais,estéticas e de comportamento, estejamos diante de um esgotamento de linguagem do rock?

"Quem me falou a mesma coisa foi Ronei Jorge: as coisas mais arranjadas, criativas e inovadoras e ousadas hoje em dia não estão mais do rock. É curioso, isso. Mas não sei a linguagem se esgotou. Desde o comecinho dos anos 2000 tem pintado muito revival, muita banda refazendo as mesmas linguagens dos anos 60, 70, 80. Talvez por que o século 20 foi muito... Talvez por a gente ter tido muitas inovações em um período relativamente curto, determinadas linguagens foram aprofundadas, e os músicos de agora tenham essa necessidade de retomar o que se fazia nessas épocas. Mas não acho que tenha esgotado. Acho que não esgota nunca. Mas a sensação de saturação é possível. Aí fica a sensação de que não tem tem mais nada o que ser feito. Acho que não esgotou, não, vira e mexe, aparece algo. Claro que nao mais como nos anos 60, por exemplo que tinha uma coisa aqui outra ali e... Mas ainda aparece. O Radiohead nos ano 90, Björk, QOTSA, Mars Volta... Tudo bem que Björk não é mais tão rock, mas acho que ainda aparece coisa, sim", reflete Heitor

O primeiro registro do Baby Lixo, o já citado EP Bon Appetit, Sucuri, foi produzido por Jorge Solovera e estará disponível para baixar a partir de 19 de julho, no site da banda.

No mesmo dia, show no Café da Walter. No site www.babylixo.com.br já dá para ouvir as faixas Mundonela e Henry Miller foi Mendigo.

No palco, Heitor será acompanhado por Antenor Cardoso (bateria) Eduardo César (guitarra) Vitor Magalhães (baixo).

Baby Lixo: lançamento de Bon Appetit, Sucuri / Café da Walter (Biblioteca dos Barris) / 19 de julho, 20 horas / Preço do ingresso a ser divulgado




NUETAS

Lacertae no sábado

Incrível arte de Bruno Aziz no cartaz do show
A grande banda sergipana Lacertae, da cidade de Lagarto, andou sumida por alguns anos, mas agora está voltando – e este sábado já tem show em Salvador. vai ser no Warm-Up Festival Big Bands 2014, com as locais Tentrio, Modus Operandi e o DJ Bruno Aziz. Quem ainda não conhece o Lacertae, vale a pena: trata-se de um duo, formado por um guitarrista endiabrado, virado na estética hendrixiana, acompanhado por um baterista de kit inusitado, que inclui um berimbau de cipó de imbé, típico da região.  Tentrio é rock instrumental épico. E Modus Operandi, nosso representante na estética do rock industrial / gótico. Dubliner’s, 22 horas, R$ 10.

One for the money...

Amanhã tem os fantásticos Les Royales detonando mais uma edição da festa Rockabilly Sessions. No Commons Studio Bar, 22 horas, R$ 15 (lista amiga no www.commons.com.br).

Lucas no Show Box


A mesma Commons inaugura, no dia seguinte (quinta-feira, 19) um novo formato de eventos na casa: o Show Box, que terá apresenações em formato reduzido, tipo voz & violão, duos, live PA. O primeiro traz  Lucas Santtana, voz e violão. 22 horas, R$ 15 (lista amiga).

segunda-feira, junho 16, 2014

SENTA, QUE O TITIO CREEPY VAI TE CONTAR UMA HISTÓRIA

Material da clássica revista Creepy dos anos 1960 ganha mais um volume

 Muito antes da invasão zumbi de The Walking Dead (a HQ), o terror já dava as cartas nos quadrinhos como uma grande sensação, além de atrair alguns dos maiores talentos da indústria.

Em Creepy: Contos Clássicos de Terror, podemos conferir um pouco dessa produção.

Aqueles com mais de 40 anos que liam HQ nos anos 1970 talvez já a conheçam: muito desse material foi publicado no Brasil na saudosa revista Kripta, da editora RGE (atual Globo).

Para apreciadores de qualquer idade, este segundo volume pela Devir (o primeiro saiu em 2013), é puro deleite.

Em 304 páginas desfilam algumas das maiores lendas dos quadrinhos, como Archie Goodwin, Frank Frazetta, Alex Toth, Wally Wood, John Severin, Joe Orlando, Steve Ditko, Gene Colan, Gray Morrow e muitos outros.

Esperteza que dribla censura

Fundada em 1964 por Russ Jones para Warren Publications, a Creepy ecoava, em temática e estética, as revistas de terror da EC Comics, fechada pelo governo americano durante a caça às bruxas da era McCarthista.

Creepy se safou da  graças a uma esperteza do seu editor, James Warren: rodada em  formato magazine (o mesmo da Veja, por exemplo), não lhe era exigido o selo de aprovação do Comics Code Authority, criado no auge da perseguição.

A mesma estratégia foi utilizada com sucesso nas duas outras revistas de terror da editora: Vampirella e Eerie – esta última, como Creepy, também está sendo republicada no Brasil em volumes, pela Mythos Editora.

Jones logo se desentenderia com Warren, dando lugar ao lendário editor e roteirista Archie Goodwin, que depois se tornaria um dos principais nomes da Marvel nos anos 70 e 80.

Em P&B, Goodwin e um dream team de desenhistas criaram milhares de páginas em que valia tudo para assustar e surpreender o leitor: desde adaptar contos de Edgar Alan Poe (O Barril de Amontillado) e Bram Stoker (Drácula) a recorrer a medos mais “modernos”, como guerras, robôs revoltados e conspirações de assassinato.

O alívio cômico ficava por conta da apresentação sempre mordaz do anfitrião da revista, o tenebroso Titio Creepy, além dos muitos anúncios de produtos típicos da época, como o veículo do Frankenstein, bonecos do Drácula, óculos de raios-X etc. Uma delícia.

Creepy: Contos Clássicos de Terror – Volume Dois / Vários autores / Devir/ 304 p. / R$ 49 / capa dura: R$ 60 / www.devir.com.br

domingo, junho 15, 2014

PODCAST ROCKS OFF DISSECA: SLOWHAND - PARTE 2

  Osvaldo Braminha Silveira Jr., Nei Bahia e Miguel Cordeiro fecham a tampa nessa série de dois podcasts especiais, dedicados à vida e obra de Eric "Deus" (ou "Slowhand") Clapton.













sexta-feira, junho 13, 2014

BAIÃO ERUDITO NO TCA

De casa nova (temporária) e em outra Secretaria, o projeto NEOJIBA faz concerto junino domingo, com homenagem ao Rei  Luiz Gonzaga

Ensaio Neojiba em 10.06.2014 - Foto Maurício Serrra
Símbolo do Brasil em sua face mais popular e legítima, o Rei do Baião  Luiz Gonzaga (1912-1989) é o grande homenageado do Domingo no TCA deste mês, com duas orquestras do projeto NEOJIBA executando seus clássicos, pelo preço de nenhuma: R$ 1 e R$ 0,50, meia.

“Faremos Asa Branca e um pout pourri chamado Gonzagueando, tudo executado por duas orquestras no palco: a Juvenil da Bahia e a Castro Alves”, detalha o maestro Ricardo Castro, criador do projeto e seu diretor desde início, em 2007.

“O  restante do repertório é de inspiração nacional e latino-americana – com exceção da Dança Húngara, de Johannes Brahms (1833-1897)”, acrescenta o músico.

Desta forma, completam o repertório do concerto as peças Danzón nº 2, do mexicano Arturo Márquez (1950) e Malambo, do argentino Alberto Ginastera (1916-1983).

El Sistema

Hoje com sete orquestras juvenis, o NEOJIBA (sigla para Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) baseia sua metodologia de ensino no aclamado El Sistema, programa venezuelano criado em 1975, pelo economista e músico José Antonio Abreu.

“Como nos inspiramos no El Sistema, uma característica dele é o tratamento orquestral do repertório nacional popular. Por isso incluímos no nosso repertório o Danzón do Arturo Márquez, que traz em si toda a tradição das danças cubanas e mexicanas, transcritas para orquestra”, explica Ricardo.

“Inspirados nisso, provocamos nossos músicos a transcreverem, em arranjos eruditos, clássicos populares brasileiros. Então já temos transcritos, com sucesso, Aquarela do Brasil (de Ary Barroso), Tico-tico no Fubá (Zequinha de Abreu) e, finalmente, Asa Branca e Gonzagueando”, detalha o maestro.

O que é realmente impressionante é que, no caso das composições de Gonzagão, as orquestras executam essas peças sem partitura.

“Esta é uma ação pioneira  da arte orquestral, na qual atuamos sem os limitantes de precisar estar sempre vinculados à partitura”, afirma.

“Nossos meninos tocam Asa Branca de ouvido,  desenvolvendo a capacidade de improvisação e estabelecendo um vínculo direto entre músico e música, sem passar pela partitura”,  acrescenta Ricardo.

O concerto será dividido em duas partes, com a primeira a cargo da Orquestra Juvenil da Bahia. “A Orquestra Castro Alves entra na segunda parte do concerto”, conta Ricardo.

“É uma orquestra recém-formada, após a admissão de novo integrantes,  agora em maio. Ela exemplifica os resultado dos núcleos de prática orquestral implantados na Região Metropolitana e fora de Salvador”, diz.

"É uma satisfação enorme (dirigir o projeto), uma jornada muito intensa, de muitos desafios e batalhas, mas que vale muito a pena, por que estamos tratando do futuro de nossa comunidade, de nossa sociedade. A educação e interação são as chaves para um crescimento harmonioso para nossa sociedade, e a música tem se demonstrado como um meio mais rápido, eficaz e bonito de atingir resultados significativos nessas áreas", reflete.

Da Secult para a Sedes

Ricardo Castro (esq.) e o jovem maestro Yuri Azevedo. Foto: Tatiana Golsman
Renovado, o NEOJIBA respira novos ares em dois níveis: físico e administrativo.

Saiu do Teatro Castro Alves para uma casa (temporária) no bairro do Barbalho.

E foi transferida da Secretaria Estadual de Cultura (SecultBA), para a Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (SEDES).

“A evolução do NEOJIBA ultrapassa todas as expectativas, graças ao apoio incondicional do governo do estado na implantação deste projeto como política pública. Hoje temos mais segurança dentro da SEDES, que nos dá mais capilaridade e potencial de expansão”, afirma Ricardo Castro.

Ele conta que essa migração estava prevista desde o início – até por que o NEOJIBA segue a risca o El Sistema: “Na Venezuela eles também fizeram essa migração lá atrás, da Cultura para o Desenvolvimento Social, uma secretaria  mais adequada a nossa ação cultural”, explica.

“Foram muito importantes esses anos no SecultBA  por que as orquestras se inseriram numa dinâmica de excelência e visibilidade. Foi uma casa acolhedora ao NEOJIBA”, reconhece.

 "A finalidade das orquestras do Neojiba não é o concerto em si, mas sim o caminho que ele leva. Enquanto que, em uma orquestra normal, vinculada a área de cultura, a finalidade é a apresentação pública, a nossa meta é levar o público, a plateia, ao palco, a participar, pela linguagem musical, do processo de crescimento e desenvolvimento humano. Sem distinção de idade, ideologia, classe social, situação humana. É uma ação que abrange a todos, e por isso, pode ser considerada uma das políticas públicas mais importantes da Bahia", afirma Ricardo.

Agora é hora de alçar novos voos, pelo jeito. Mas antes uma questão séria precisa ser resolvida: “Ainda não temos sede definitiva. Nosso maior desafio hoje é conseguir isso”, diz.

“Esta é uma pendência importante que, esperamos resolver em breve. Não temos mais salas de ensaio do tamanho de nossas orquestras, nem salas de estudo em quantidade suficiente para  todos os inscritos”, diz.

Domingo no TCA – Orquestra Juvenil da Bahia e Orquestra Castro Alves / Domingo, 11 horas / Sala Principal do Teatro Castro Alves / R$ 1 e R$ 0,50 / Vendas: no dia, a partir das 9 horas


quarta-feira, junho 11, 2014

MIKE SOLTA O VERBO FAZ NÜ METAL COM MENSAGEM - E SHOW PRA CARAMBA

Mike Solta o Verbo na premiação do PDR 2014. Foto: Eduardo Lopes
A banda de hoje na coluna Coletânea no blog tem nome de comédia da Sessão da Tarde – ou de episódio de sitcom americana.

Mas o quinteto local Mike Solta o Verbo não é uma daquelas bandas engraçadinhas, não, tá?

"Ah todo mundo fala do nome", confirma o vocalista Betão.

"É diferente mesmo. Esse Mike surgiu de brincadeiras internas, eu criei como se fosse uma gíria. A gente chamava uns aos outros de Mike, como se fosse 'cara' ou 'joe'. Chegava nos ensaios 'e aí, Mike? 'Quolé, Mike?' Virou um personagem mesmo", relata.

"Como nossa banda é voltada para o protesto das questões sociais, a gente pensou que epodia criar um personagem e transforma-lo numa ideia, um cara que está já um tanto revoltado, indignado e resolveu deixar de ficar tão submisso, e resolveu soltar o verbo, dizer o que pensa, botar pra foder, botar as cartas na mesa. Foi através dessa brincadeira que surgiu o nome", continua Betão.

"Muita gente acha que o Mike seria eu. Tem uma galera que me chama de Mike. Acho massa, acabou virando uma gíria, um termo corrente entre a banda e a galera que está a nossa volta. Na verdade, acho que no fundo todo mundo é um pouco Mike e está indignado, chateado com a situação e quer desabafar, soltar o verbo", acredita.

Influenciada pelo funk metal dos anos 1990 (Red Hot Chili Peppers, Rage Against The machine, Faith No More) e pelo seu não tão feliz desdobramento, o nü metal (Korn, Slipknot, Limp Bizkit), a banda surgiu em 2012, formada pelos amigos Betão (voz), Digão (guitarra), Borracha (bateria) e Daniel Iannini (baixo).

“Antes do Mike, a gente  tinha uma outra banda, que não vingou. Pensamos em criar um outro projeto, voltado ao nü metal e ao protesto, com mensagens de conscientização e a crônica das coisas que acontecem no dia a dia e nos incomodam”, conta o vocalista Betão.

Mike de agenda cheia

O colunista alerta: se soou ingênuo, é por que deve ser mesmo.

Mas, ei: sinceridade é essencial no rock, certo?

E vamos dar um desconto: a rapaziada faz um som honesto e toca bem, com uma pegada pesada das boas.

Tão boa, que, em votação pública, foi eleita Banda Revelação do Palco do Rock 2014, após um show particularmente arrasador no festival do último Carnaval.

“Foi muito gratificante, pois  é o maior evento do rock aqui na Bahia. Foi o nosso maior show até agora”, conta.

E os caras tão bem de produção. Nos próximos meses, Mike Solta o Verbo tem uma boa agenda de shows – em Salvador e  no interior do estado.

“Temos sete ou oito shows marcados para breve”, conta Betão.

“Sábado e São João, tocamos no Dubliner’s. 4 de julho, Dubliner’s de novo e no dia seguinte, no Imbuí Skate Park. Dia 20 de julho, no Esplanada Rock Metal Fest”, enumera.

“Em agosto, tocamos pela primeira vez no Portela Café, com Circo de Marvin e Marcão , guitarrista do Charlie Brown Jr., que é uma banda que nos influenciou muito. Estamos acertando também shows em Feira de Santana e Irecê”, comemora.

Mas nem tudo são flores para Mike. O baixista Daniel saiu, substituído temporariamente por Yuri Oliver, mas eles  estão procurando um definitivo. Interessou? Fale com o Mike!

Festa rock Inflamando Cabeças / Com Mike Solta o Verbo, Produto do Meio e  Bilic Roll / Dubliner’s Irish Pub / Sábado, 15 horas / R$ 10

Ouça: www.soundcloud.com/mike-solta-o-verbo




NUETAS

Falsos, Toco, nana

nana, foto: Agnes Cajaíba
As bandas Falsos Modernos, Toco y Me Voy e a cantora nana lançam novos clipes em show amanhã hoje, na Commons. A night é para lançar o site Clipeteca, ótima inciativa da produtora Flávia Santana, que pretende mapear a produção videoclípica baiana e foi contemplada em edital da Secretaria de Cultura municipal, o Arte por Toda Parte. Discotecagem a cargo de Camilo Fróes (Baile Esquema Novo). 20 horas, R$ 5. A Toco y Me Voy volta ao palco sexta-feira, só que no Dubliner’s. 23 horas, R$ 10.

Rebelião@Vacachorro

Que mané fanfest! Se saia de programa chapa branca pra turista ver. A coisa real é sexta-feira 13 (brrr), no evento Estádios Não Matam Fome, com The Honkers, Barrunfo do Samba, Zuh, Van der Vous, Derrube o Muro, Saca Só, Vandal, Mapa e Galf. Rock, psicodelia, samba macô, punk rock, hip hop. Mais uma ousadia Coletivo Das Ruas, a partir das 15 horas, leve um quilo de alimento. É no Vacachorro (aquele cachorro gigante feito de garrafa pet por Bel Borba), no Largo da Dinha.

terça-feira, junho 10, 2014

DEZ ANOS SEM EMERSON BOREL

Colégio Maristas, 1984. Quinta série. Emerson é o 2º da dir. para a esquerda, na 2ª fila de cima para baixo
Certo dia, há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante, quatro meninos chamados Emerson, Francisco, Rozendo e Bruno saíram da escola e foram à casa do primeiro, aonde iriam almoçar e passar o resto da tarde ouvindo música.

Entre os 12 e os 13 anos, os meninos, de farda de colégio, se refestelaram no quarto que Emerson dividia com seu irmão Marcelo e tome-lhe ouvir rock pesado: um Iron Maiden aqui, um Ozzy Osbourne ali, um Kiss acolá, um AC/DC alhures (?).

Até aí tudo bem. Acontece que, à medida que a tarde avançava, uma espécie de torpor, uma sensação narcotizante ia tomando conta dos garotos.

Não havia bebida álcólica, cigarros, nada. Nenhum tipo de droga - lícita ou ilícita - foi consumida naquele quarto.

Ainda assim, por volta das quatro da tarde, os quatro meninos pareciam bêbados. De riso frouxo, falavam bobagens sem nexo e caíam no chão às lágrimas, segurando as barrigas de tanto rir.

Intrigada, a cozinheira da casa de Emerson, dona Naíldes, resolveu servir um lanche aos garotos. Só piorou a situação.

Na algazarra, o saco de salgadinhos cheetos explodiu no quarto, espalhando aquele isopor amarelado pelo chão, cama, estantes etc.

A gelatina de morango veio em seguida e teve efeito ainda mais alucinógeno. Com o olhar vidrado, Rozendo batia na gelatina com a colher e repetia com uma voz que não era a dele, como num mantra: "A água tá dura, a água tá dura".

Por alguma razão inescrutável, isso era motivo de gargalhadas.

O auge foi quando Emerson, tentando fugir do quarto com o que restava do pacote de salgadinhos, resolveu pular de uma cama para outra, numa tentativa de chegar à porta do quarto.

Rozendo, que estava no chão, o interceptou em pleno ar, segurando-o pelo pé. Emerson, que era alto e  magro como um varapau, despencou com tudo no chão.

"Meus pais vão pensar meus amigos são uns pivetes", choramingou, massageando o joelho machucado, entre cheetos, gelatina e discos de vinil do Iron Maiden. O que só serviu para os meninos rirem ainda mais.

Depois daquela tarde, eles, mesmo sem perceber, notaram que aquele tal de rock era mesmo uma coisa que mexia com a cabeça das pessoas.

Não sabíamos da missa a metade.

Em tempo: na foto, o blogueiro está bem no centro da terceira fila, de cima para baixo.

Leia mais sobre Emerson aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, junho 09, 2014

PAULO CESAR DE ARAÚJO: "FUI TRATADO COMO CRIMINOSO"

Paulo Cesar de Araújo, em foto de Bel Pedrosa
Cinéfilo, o historiador baiano Paulo Cesar de Araújo acertou em cheio ao comparar seu confronto com Roberto Carlos no Fórum da Barra Funda (RJ), em 2007, ao duelo final do filme Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966), de Sergio Leone.

Após se encararem em silêncio por breves momentos, todos sacaram suas armas (argumentativas e jurídicas).

O tiroteio que se seguiu foi tão brutal e traumatizante que os disparos ecoam  até hoje nas planícies e planaltos Brasil afora.

Contado em detalhes no capítulo nove do livro O Réu e o Rei, recém-lançado, o relato do embate entre biógrafo e biografado é, como o próprio Paulo diz, o momento “mais dramático” de um livro que se lê com inquietação.

Um colega da imprensa sudestina o comparou ao relato de um acidente aéreo. Já sabemos que vai terminar em tragédia, mas é impossível não se angustiar ao conhecer os detalhes.

Mas nem só de decepções é feito O Réu e o Rei.

Há história de um menino conquistense pobre que trabalhava de engraxate e sonhava comprar um LP do Rei.

Há a inusitada amizade que surge entre o autor e João Gilberto.

Há revelações, traições e o desejo de justiça em uma leitura de tirar o fôlego.

Nesta exclusiva, o autor da biografia proibida do Rei fala de tudo isso e um pouco mais. Sempre Em Detalhes.

Suspirou de alívio após a notícia de que Roberto Carlos não ia tentar censurar este novo livro? Ou  já esperava por isso?

Paulo Cesar de Araújo: Não me preocupei muito. Se fosse me preocupar com a reação dele, não teria feito o primeiro livro. Meu compromisso é com a História, as lacunas nas historiografia. E depois, o contexto agora é outro. Avançamos muito nesse debate. Os juízes – a sociedade está mais esclarecida. Então, não me surpreendeu. Não havia possibilidade para ele censurar outro livro. Isso é uma página virada. Esse negócio de proibir livros, como diz Chico Buarque, é uma “página infeliz de nossa História”, que estamos superando, felizmente.

Agora que o Congresso votou a mudança dos artigos 20 e 21 do Código Civil (que, entre outras coisas, permitiam o veto a biografias não autorizadas) o senhor vai tentar liberar O Roberto Carlos em Detalhes?

PCA: A Câmara votou em abril, e O Réu e o Rei saiu no mês seguinte. Estamos aguardando agora a votação no Senado. Então, não houve ainda a confirmação dessa mudança. Mas estamos bem encaminhados, foi um passo importante. Aquilo (o acordo dos advogados de RC com a editora Planeta) foi um acordo imoral, absurdo. Eu narro as circunstâncias dele no livro e o questiono desde 2007. Eu estava sem advogado, na prática. Eles eram da Planeta. Agora, com meu próprio advogado fica mais fácil esse questionamento, pois temos jurisprudência. O acordo foi feito naquele circunstância específica, mas  o Direito se modifica em razão dos fatos. Súmulas são alteradas e revogadas. Vamos à luta. Certamente, eu acho que pro Roberto fica difícil. Devia partir dele essa iniativa de pôr um ponto final nessa história. Meu livro seria o último proibido e RC,  o último censor. Eu acho que ele não quer esse título. Ninguém suporta mais isso. A ‘mão peluda’ da censura, como diz Elio Gaspari, é página virada. Vou tentar mais uma vez e sempre que for possível. Espero que ele tome a iniciativa. Se ele tiver um amigo, um conselheiro, ele vai tomar essa atitude. Censura não cabe mais.

Pelo que você conta, Roberto e assessores já sabiam que você estava escrevendo um livro sobre ele. E mesmo assim, nunca tentaram te impedir antes que ele fosse publicado.

PCA: Eu mostro no livro documentos que provam isso. É importante lembrar disso porque ele me acusam de publicar o livro sem avisar o artista. Eu cito nos autos do processo que Roberto diz: ‘Vocês não tiveram o cuidado de me avisar’. Mas eles sabiam, sim. Nunca me disseram ‘não queremos o livro’. Eles só protelaram. A editora os procurou. Tudo  sempre nos caminhos legais, oficiais do artista e sua equipe de assessores e empresários. E assim se passaram 15 anos de pesquisa, consultando todas as fontes possíveis. Por isso, o livro foi feito, mesmo sem  entrevista com RC.

A que você atribui esse comportamento de RC & cia?

PCA: Má fé, descaso, acho que é tudo isso. Eles chegaram a adulterar trechos do meu livro . O livro diz que a Jovem Guarda era “uma combinação de  sexo, garotas e playboys”. Na queixa-crime, trocaram “garotas” por “drogas”. E depois, alegaram que foi erro de digitação. Fui acusado de tudo, de ofender o artista, enfim. No livro, os fatos relatam tudo e os leitores tiram suas conclusões.

Qual foi a sua maior decepção: ele nem ter lido o livro ou ele ter te processado criminalmente?

PCA: A forma toda do processo, o radicalismo. Ele pediu R$ 4.5 mil R$ 500 mil por dia (erro do repórter, sorry), minha prisão por um tempo superior a dois anos. Me tratou como criminoso, apenas por que exerci meu trabalho. Sou um profissional da memória. A Constituição cidadã de 1988 me ampara no seu artigo 5. Então, ao escrever o livro do RC e mesmo o Eu Não Sou Cachorro, Não (2002), eu estou amparado. Sou um profissional e fui tratado como criminoso pelo Roberto. Claro que com ele se agarrando numa aberração que são aqueles artigos (20 e 21 do Código Civil), que vão contra a Constituição. Eles negam o que a Constituição garante.

O senhor ainda ouve Roberto Carlos? É possível separar o artista do homem que quis vê-lo na cadeia?

PCA: Sempre separei. Sou um admirador. Não acho que Detalhes ficou feia. Sempre separei o homem da música. Embora ele seja um dos meus ídolos, nunca o acompanhei. Ele nunca gostou de política, eu, sim. Ele é supersticioso. Eu, não. Eu gosto de marrom. Ele é Vasco, eu  sou Flamengo. Sempre estivemos em posições opostas em relação a tudo. Sou leitor desde criança. Ele não gosta de ler. Minha relação com ele é em relação a obra. Em relação ao resto, continuamos em lados opostos. Ele podia ser Flamengo, pelo menos. Mas nem isso! (risos)



O Réu e o Rei expõe uma face de RC que poucos viram: autoritária, radical. O senhor se sente mal por isso?

PCA: O homem é seu contexto também. Essa parte mais conservadora dele ficou mais a sombra no livro Em Detalhes. Falo do processo movido contra Ruy Castro em 1983 e contra seu mordomo, em 1979. Conto detalhes, mas foi coisa de menor repercussão. Na época, a sociedade brasileira era mais tolerante com a censura. Vivíamos uma época de autoritarismo que RC compartilhava. Mas agora, quando ele veio  com a mesma atitude, como se fosse 1979, assustou. São outros tempos. E o radicalismo do processo, minha resistência... Eu poderia ter aceitado e tudo  ficaria por isso mesmo, mas  ele se deparou com alguém com uma posição progressista. Eu não poderia admitir a censura em relação a minha obra. Aí ficou explicita essa face dele mais obscurantista. Isso fica claro em O Réu  e o Rei por que é um fato novo, que o livro atualiza. O capítulo 9 do livro, o mais dramático, mostra o RC que ninguém conhece, o RC que não sorri e diz ‘que emoção, bicho’. Mas o que diz ‘minha história é patrimônio meu’  e bate no peito. Isso surpreende e  mostra que ele é humano, não é um super homem, um herói. É um grande artista, mas como ser humano, tem falhas e contradições. O livro mostra isso com fatos, declarações e atitudes.

Me parece que ele realmente acreditou nesse papo de “Rei”, e portanto, achou que estava acima do bem e do mal.

PCA: Ele já disse que ‘o Brasil me mima muito’. Isso foi no início dos anos 2000. Acho que está na hora de o Brasil lhe dar um puxão de orelha.

Igual suposição, pelo jeito, fizeram os artistas do Procure Saber, correto?

PCA: No episódio do Procure Saber, os artistas se uniram achando que bastava comunicar que não queriam aquilo. Aprovaram a lei do Ecad passando por cima dos trâmites, brincando. Acharam que ‘somos muito fortes’, mas foram surpreendidos. A sociedade tem um bem maior, que é a liberdade de expressão. A assessoria deles diz agora que o Procure Saber não discute mais biografias, isso desde que RC saiu. Foram surpreendidos com reação contra a censura.

O senhor, de fã e biógrafo, passa a ser também personagem na própria biografia de RC. Imaginou isso alguma vez?

PCA: É um fato curioso, incomum. É verdade. Isso agora é História. Mas certamente é um dos fatos mais polêmicos em que ele (RC) se envolveu. Ele sempre se preservou, sempre evitou se envolver em polêmica. Fosse de igreja, política, Diretas Já, anistia. Sempre evitou bola dividida para ficar como o cantor romântico. Agora, aos 70, se mobiliza com advogados, tentando modificar leis. Encontrou uma causa pública para lutar, mas é obscurantista. Em época de Comissão da Verdade, ele continua na contramão. Em pleno século 21, quer defender uma pauta tão velha quanto a censura a livros... Vai ser um capítulo na vida dele para sempre. Não tem como apagar isso. Só nas biografias autorizadas. Por isso elas são limitadas,  o cara bota o que quer. Mas nos livros independentes, o capítulo da briga dele contra um livro e a liberdade de escrever livros de História – isso será narrado para sempre.

No livro o senhor relata que os advogados de RC chegaram a adulterar trechos do seu livro para tentar incriminá-lo. O senhor pensou em tentar alguma medida legal contra eles?

PCA: Claro! Está na justiça, está tudo anexado aos autos. Mas para RC a justiça foi rápida. Para mim, a lei  é a normal: lenta. RC entrou na justiça contra o livro em janeiro de 2007. Em fevereiro, o livro estava fora das livrarias. Já eu vou aguardar anos, né?

Depois daquele episódio do juiz fã, o senhor tomou alguma providência legal?

PCA: Tudo isso está relatado nos autos. Tentamos pelo cível. Lá foi no criminal. Eu não tinha sido citado no cível por um erro. Foram me procurar pela lista telefônica e encontraram um outro Paulo Cesar Araújo. Aí tudo foi enviado para esse rapaz, cabista telefônico. E eu não fui citado. Na defesa, relatamos como se deu o acordo no criminal.

Caetano Veloso em principio se pronunciou a favor do seu livro. Depois fez parte do Procure Saber. O que o senhor acha que motivou essa mudança?

PCA: Caetano teve essa mudança. Mas na época, ele falou mal de RC. Disse que o livro era carinhoso, defendeu o livro. Depois teve essa mudança que surpreendeu o país. Mudou de lado, depois se desentendeu com RC e ele saiu. Eles mesmos não se entenderam por que não tinha lógica, era  uma contradição com as biografias deles, de Caetano e Gil, que são artistas de vanguarda... Como a vanguarda vai se aliar ao atraso? Não tinha como dar certo. Espero que eles reavaliem isso e se mostrem defensores da liberdade da expressão.

Sua relação com João Gilberto é uma das passagens mais bonitas do livro, uma revelação. O senhor ainda é amigo dele?

PCA: A Bahia em si é um personagem do meu livro, né? Começa em Vitória  da Conquista, depois Salvador. A Bahia está bem representada nesse livro. Fiquei muito contente de contar essas histórias que eu não poderia contar se não tivesse a oportunidade. Ao tirar meu livro, ele (RC) acabou me dando um tema para outro. Ele me tirou um livro e me deu outro. É uma história afetiva, a história de um menino que sonhava comprar um disco dele. Em 1976, finalmente eu consegui. Foi  no mesmo ano que ele conseguiu vender seu primeiro milhão de LPs. 30 anos depois eu lanço meu livro e ele pede minha prisão. É uma história brasileira. Mesmo que não tivesse acontecido comigo, eu gostaria de contá-la. Me senti na obrigação. São as surpresas da história. O João Gilberto, de vez em quando eu falo com ele. Quando dá. Mas o que eu vivi com ele fica para sempre. Ele influenciou toda a música brasileira e me influenciou de alguma forma. Minha reaproximação com meu pai foi por causa de João. Posso me incluir no rol dos que foram influenciados por ele de alguma forma. Ele tem essa imagem de difícil, mas  eu me surpreendi.

Outra surpresa foi saber que João viu Roberto cantando antes de virar roqueiro, quando tentava imitar o próprio João.

PCA: Esta é  uma das revelações do meu livro. O RC fez dezenas de tentativas de levar o João para seu especial de fim de ano na Globo. Ele tenta e João vai escapulindo. João Gilberto é o Roberto Carlos do  Roberto Carlos. Desde 1974 que ele convida João, mas não  levou. Todo mundo  quis aparecer no especial do Roberto. Menos João. Seria lindo esse encontro. Mas até agora RC não foi feliz.

Em seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não o senhor deu uma outra ótica à chamada música brega dos anos 1970, valorizando-a. Isto também gerou algumas críticas. Como o senhor  vê a produção similar feita hoje? Merece o mesmo respeito? Ou só daqui a vinte anos?

PCA: Primeiro, vamos constatar que o Brasil avançou. Há uma maior democratização social. Uma doméstica hoje é bem melhor tratada do que nos anos 1970. No campo da memória, isso tem acontecido. As pessoas estão mais atentas a esses processos. E meu livro faz parte desse processo. Ele foi lançado no ano da eleição do Lula (2002) Isso se reflete no campo da memória. Então essa nova geração de artistas populares merece um tratamento melhor. Claro que gosto é gosto, ninguém é obrigado a gostar, mas hoje há um olhar menos preconceituoso, há menos apartheid, há uma mistura, uma incorporação, uma inclusão. Embora, como todo mundo, tenho o direito de gostar do que quiser. Nem eu escuto e gosto de tudo. (risos)

O senhor está preparando algum outro livro?

PCA: Eu tenho cerca de 250 entrevistas com músicos da MPB. Usei parte desse material nesses três livros, mas a maior parte, ainda não. Certamente, vou escrever sobre música, mas ainda não defini o foco. Mas tenho material para mais dois livros. Não sei se vai ser uma biografia ou de análise mais geral de estilos, mas focando a MPB clássica a partir dessas entrevistas que tenho com Tom Jobim, João Gilberto, Chico, Caetano, Gil. Vou pensar nisso depois. O material esta à mão. Sabe, estou apenas começando a minha carreira. Agora lancei meu terceiro livro. Claro que com a mudança da legislação, sem ter que perder tempo com advogados, vou produzir mais. Sou professor, dou aula, corrijo provas. Isso tudo atrapalha. Mas, virando essa ‘página infeliz de nossa história’, vai sobrar mais tempo. Sou um estudioso, pesquisar é meu  trabalho, então vou escrever mais livros. E minha ideia é não demorar mais tanto. O Réu e o Rei levou cinco anos para ficar pronto. Por que tinha que ir em foro, dar aula, etc.

O senhor ainda tem parentes na Bahia? Costuma vir qui? Qual a sua relação com a Bahia?

PCA: Estou para voltar a Conquista agora. Prometi aos meus tios e meu pai, que ainda moram lá. E tenho parentes em Salvador, tios e primos, mas a maior parte mora em Conquista. Em Salvador, onde eu passava minhas férias, minhas lembranças são muitas, lembranças das canções de RC aí na casa do meu tio Euclides. Na época em que os discos eram lançados, eu estava em Salvador, as primeiras audições sempre eram no verão em Salvador. Tenho as melhores lembranças de Conquista também, que é minha cidade e espero voltar brevemente mas a Bahia nunca saiu de mim. Eu que saí da Bahia. Tenho saudade dos cinemas de Salvador. Quando chegava aí, ia aos cinemas todo dia. por que  em Conquista só tinha duas salas. Vi Tubarão no Guarany – inesquecível. Os verões que eu passei aí são minhas  melhores lembranças. Sou fissurado em cinema.

Previsão de uma noite de autógrafos por aqui?

PCA: Tô querendo fazer, sim. Vou ver com a editora. Tenho que  fazer lançamentos em alguns lugares e Salvador tem que ter, claro, por conta da minha relação afetiva com cidade.

O Réu e o Rei / Paulo Cesar de Araújo / Companhia das Letras / 528 p. / R$ 45 / E-book: R$ 31,50 / www.companhiadasletras.com.br

Entrevista publicada no Caderno 2+ do jornal A Tarde, no dia 9 de junho de 2014.

quinta-feira, junho 05, 2014

OS SAMBAS SONHADOS DE UM SULISTA NORDESTINO COM CULPA CRISTÃ

Compositor prolífico, Wado lança coletânea com o melhor de seus sete CDs

Wado. Foto Pedro Ivo Euzébio
Um dos músicos mais interessantes de sua geração, o catarinense (radicado em Maceió) Wado é também dono de uma discografia bastante significativa: sete álbuns em doze anos.

No recém-lançado O Ano da Serpente, o rapaz faz o primeiro balanço  de sua carreira.

Com livre trânsito nos circuitos alternativos do Brasil, Wado é um daqueles talentos que apesar de ainda não ter atingido o grande público – algo cada vez mais difícil para músicos de veia autoral como ele –, é amplamente apreciado pela crítica e seus próprios pares.

N’O Ano da Serpente, a seleção de faixas foi de Zeca Baleiro, que lançou o CD pelo seu próprio selo, o Saravá Discos.

Nas faixas, participações de nomes como  Marcelo Camelo, Chico César e Mallu Magalhães.

“Acho que foi um caminho bonito, rolaram coisas que não imaginaria que fossem acontecer”, confessa Wado.

“Fiz sete discos, toquei em cinco países, tive música em novela, música em filme, fui gravado por Marcelo Camelo, Maria Alcina, Marcos Valle, Chico César, Zeca Baleiro e tantos outros. Foi massa”, relata.

“E isso foi fruto de um grande esforço que fiz quando era novinho, comecei com 23 profissionalmente. Foram 13 anos bem vividos”, considera.

"Sou muito prolífico e como me proponho a viver de música sempre que começa a ter uma baixa na venda de shows preparo um disco novo, na minha carreira a venda de show tá sempre ligada ao consumo do disco, trabalho ainda num nicho muito específico, então essa tem sido a minha matemática", detalha Wado.

"Vou fazendo os discos para suprir as minhas demandas de expressão também, minha alegria e realização pessoal, então a equalização vem desses fatores, disco é arte e produto. Vou surfando essa linha tênue", observa.

Sobre a seleção das faixas, feita em parceria com Zeca Baleiro, ele conta que "Fomos no que pode ser mais pop, amplo e até radiofônico, achei o resultado bem redondo e consistente. O Zeca tem um bom gosto danado, o panorama é dele, eu fui com ele mais no ajuste fino".

Sambista onírico

Sulista criado no Nordeste, Wado acredita ser mais “brasileiro” do que propriamente catarinense ou alagoano: “Sinto o Sul comigo na culpa cristã, na obsessão pelo trabalho, mas sinto ele pouco na música, assim como sinto pouco o Nordeste. Talvez o Nordeste esteja comigo nos axés e ijexás que faço”.

“De fato, acho que sou mais baiano do que alagoano quando componho. Trabalho pouco com ritmos regionais mas, sobretudo, o que prevalece quando componho é um sentimento de Brasil, de fazer valer e tentar me manter no nível dos que acho que levam nossa música adiante”, acrescenta.

Figura fácil nos palcos de Salvador, aonde vem tocar todos os anos há algum tempo, Wado diz que gostaria até mesmo de morar aqui um pouco.

“Quero fazer show em Salvador! Na verdade, gostaria de morar ai um pouco, é uma das minhas cidades prediletas”, declara o músico.

Curiosamente, uma característica que poucos parecem notar no trabalho de Wado é sua estreita relação com o samba, ritmo que aparece muito em suas canções.

“É engraçado você perceber isso, pouca gente percebe, acho que captaste meu segredo”, ri Wado.

“Sempre me achei sambista, daquele tipo boêmio. Quando digo isso, ninguém acredita. Na minha cabeça tudo que fiz de relevante ou é ijexá ou samba. Acho o samba a mãe de tudo que é Brasil”, afirma.

Outro traço bem evidente em suas canções é um certo caráter onírico em suas letras, como se fossem anotações de sonhos.

“Já fiz isso sim, mas a hora de acordar é um tempo de muita preguiça, muitas ideias se perdem nesse estado de semiconsciência. As vezes sonho com novos acordes, mas nem sempre eles tem o mesmo som quando nas brumas do sono”, conta.

"Qualquer coisa que me emocione (me inspira a compor), uma vez ouvi o Bono Vox falar e concordei com ele: 'a música antes de ser pertinente tem de nos comover'. Pode ser o tema mais bobo, se comove ou te tira de uma zona de conforto, missão cumprida", conta.

Com O Ano da Serpente e seu último de inéditas, Vazio Tropical, ainda frescos, Wado conta que logo grava seu primeiro registro ao vivo.

“Esse ano quero fazer um DVD e em 2015, um álbum de inéditas. Vou a São Paulo e Minas em maio, quem sabe alguém nos convida (para tocar em Salvador)”, arrisca.

Wado / O Ano da Serpente / Saravá Discos / Preço Não Divulgado / www.facebook.com/wadooficial / www.wado.com.br

quarta-feira, junho 04, 2014

BOBBY McFERRIN: "A VIDA TODA É UMA IMPROVISAÇÃO"

Seis anos depois de sua última passagem por Salvador, o deus do gogó Bobby McFerrin volta à cidade (e ao palco do Teatro Castro Alves).

Desta vez, porém, é um show diferente: acompanhado de competentíssima banda (em 2008 era só ele no palco) e de sua filha Madison, também cantora, Bobby vem mostrar o repertório do seu último álbum, Spirityouall.

Trata-se de uma linda homenagem ao seu pai, Robert McFerrin Senior, um dos primeiros cantores de ópera negros da história.

No repertório, hits de Bob Dylan, Stevie Wonder e cânticos religiosos clássicos (spirituals), como Swing Low Sweet Chariot, Fix Me Jesus e outros. Imperdível.

ENTREVISTA: BOBBY McFERRIN

Seu último álbum, Spirityouall, é uma homenagem ao seu pai, pioneiro cantor negro de ópera. Como você se relaciona com este legado em disco e  show?

Robert McFerrin Sr.: pioneiro
Bobby McFerrin: Eu sempre conto meu pai entre minhas primeiras influências como cantor. Mas há muitas outras diferenças entre nós também. Eu nunca poderia fazer o que ele fazia, e eu nem gostaria de tentar. Ele já o fazia melhor do que eu jamais poderia fazer. Sua disciplina, ética de trabalho e reverência pelo seu ofício eram fenomenais. E aquela voz! Era o barítono mais maravilhoso (que já ouvi). Eu era só um garoto, então eu não percebia o quão sortudo eu era por poder ouvi-lo praticar e ensinar, especialmente poder ouvi-lo trabalhar com Hall Johnson (cuja avó foi escrava), ensinando-o a cantar os spirituals corretamente.

Você traz ao palco sua filha, Madison. Tem aí algum sentido de ritual para você, como uma passagem de bastão?

BM: Eu cresci numa casa cheia de música, em uma família que cantava junta o tempo todo – e meus filhos cresceram assim também. Eles são todos realmente talentosos. Taylor acaba de lançar seu primeiro álbum e tem feito grande sucesso no Japão. Jevon está no elenco de Motown - The Musical, na Broadway, tocando algumas partes e cobrindo o papel do Smokey Robinson. E Madison acaba de se formar na Berklee College of Music. É ótimo te-la em turnê.

Um crítico norte-americano disse que seus concertos são experiências que modificam  vidas. Quem modificou sua vida em um concerto? Porque?

BM: Duas experiências me ocorrem imediatamente. Uma foi Herbie Hancock com a Mwandishi Band. Eles tocaram uma música que durou uns 45, 50 minutos de pura improvisação. Aquela noite mudou toda a minha ideia do que é uma improvisação. Depois daquilo eu entendi: a vida toda é uma improvisação. A segunda foi Miles Davis e sua Electric Band. Minhas memórias mais claras são de antes do show. Não havia mais ingressos e uma mulher na fila deu seus ingressos para mim e minha namorada, como se fosse predestinado. E depois, quando eu senti que todo o meu corpo estava diferente. Aquela música me modificou em nível molecular.

Em Spirityouall você gravou um clássico de Bob Dylan, I Shall Be Released. No concerto de estreia, Madison canta com você a linda Don't You Worry 'Bout a Thing, de Stevie Wonder. Pode nos contar como você escolhe essas canções tão conhecidas e as torna tão suas?

BM: Eu apenas canto o que me parece certo, o que 'fala' comigo. Seja em um improviso, seja na melodia em si, eu estou todo ali, sou eu falando para a audiência, tentando cantar para ela a música que ouço na minha cabeça.

Algum artista novo te chamou atenção ultimamente?

Soa terrível, mas tenho viajado muito, e entre shows, eu só busco o silêncio. Só ouço música ao visitar amigos.

Vi esse vídeo do show de lançamento de Spirityouall no You Tube (abaixo). Teremos o mesmo show aqui? Ou você costuma mexer no repertório?

Temos um repertório, mas nunca o seguimos estritamente. Com certeza haverá surpresas!

Abertura da Série TCA 2014: Bobby McFerrin no show Spirityouall / Hoje, 21 horas / Teatro Castro Alves /  R$ 140 e R$ 70 (filas A a P); R$ 110 e R$ 55 (Q a Z) e R$ 80 e R$ 40 (Z1 a Z11)



EXTRA: THEATRO DE SERAPHIN FAZ SEGUNDO SHOW ACÚSTICO

Nossos chapas da Theatro voltam a se apresentar neste sábado no temporariamente redivivo Calypso em sua série de shows acústicos que comemoram seus anos de banda e deverão ajudar a rapaziada a levantar uma grana para gravar seu próximo álbum.

Desta vez, a discotecagem fica por conta da cantora, DJ e artista visual Andrea May.

Na parte visual do evento, o pessoal do LabFoto/Ufba, coordenado pelo professor da Faculdade de Comunicação (Facom) José Mamede, fará uma exposição de imagens instantâneas.

Os fotógrafos do grupo produzirão as imagens que serão impressas e expostas ali mesmo, na hora, e que serão postas a venda.

Na noite de inauguração, tivemos mostra das lindas e tocantes imagens de Miguel Cordeiro - e todas foram vendidas em questão de meia hora, quarenta minutos (média de preço: R$ 100, R$ 150). Um sucesso.

Outra notícia legal: haverá mais uma data (a quarta) deste evento no Calypso, desta vez com os ex-membros César Bill Murray Vieira (guitarra, brincando de deus) e JW Dantas (bateria), mais o baixista Nuno Chuck Norris. Mais detalhes, mais adiante.

Vale lembrar: "Os shows não serão abertos. Apenas amigos convidados por email ou através do Facebook poderão entrar. A contribuição mínima obrigatória para ter acesso a cada apresentação é R$ 10. Só será vendida cerveja premium ( mas a preços honestos, garante a produção) e somente em espécie (o mesmo vale para a entrada)", avisa o release.

Segunda edição do projeto Theatro de Séraphin Acústico (com exposição de imagens do LabFoto/Ufba e discotecagem de Andrea May) / Sábado, 07 de junho, às 18 horas / Café Calypso (Rio Vermelho) / R$ 10 (contribuição mínima)

EXTRA 2: DOIS EM UM SOLTA CLIPE DE SATURNO, COM TULIPA

Fala, Luisão!
 
"É com uma felicidade tremenda, que mostro a vocês o clipe que acabamos de subir da música 'Saturno' do disco 'Agora'. A direção foi do Tiago di Mauro e teve a participação da Tulipa Ruiz".
 

terça-feira, junho 03, 2014

THE ORANGE POEM, BANDA / PROJETO DE EMMANUEL MIRDAD, SOLTA EP COM NANCY VIEGAS

The Orange Poem & Nancyta Foto Germano Estácio
Ontem, a banda baiana The Orange Poem soltou seu terceiro EP, Wide, para download gratuito.

Até aí, tudo normal, não fossem alguns fatos incomuns.

O EP com três faixas traz a cantora / referência local Nancy Viegas (hoje na Radiola).

Ground, o primeiro, lançado em janeiro, trazia Glauber Guimarães (Teclas Pretas, Dead Billies) na voz.

E o segundo, Unquiet (de abril), saiu com  a voz de Rodrigo Pinheiro (Mulher Barbada).

Não se trata de uma banda com três vocalistas. É uma banda sem vocalistas, que atua basicamente em estúdio e que recruta um cantor diferente a cada gravação, de acordo com a proposta de cada trabalho.

O homem por trás dessa proposta incomum é o escritor / poeta/ produtor cultural / compositor Emmanuel Mirdad – e essa história começou há vários anos, em meados dos anos 1990, quando ele era o relutante vocalista da primeira encarnação da Orange Poem, então uma banda convencional, típica do undergroud local.

“Na época, minha limitação enquanto vocalista ocultou a força dessas canções. Agora, com essa galera,
eu mesmo me surpreendi: ‘ah, agora sim’!”, ri Emmanuel.

Antes dessa encarnação da OP, o compositor, Glauber e Rodrigo tinham "um grupo, se chamava Sad Child. Era bem deprê, folk progressivo. Ensaiamos, mas depois o pessoal debandou, após a gravação de uma demo. Aí ficou essa pendência. Mas Glauber topou gravar com o Orange e eu chamei Rodrigo, depois Nancy", relata.

"O que eu procuro são timbres mais peculiares. Depois de Glauber, com aquela voz de rouca de facão, veio Rodrigo Pinheiro, que tem uma voz meio indie e pronúncia perfeita em inglês. Agora eu precisava de uma mulher, mesmo. Pensei logo em  Nancy", conta.

Salvando canções do limbo

Auxiliado pelo super produtor Tadeu Mascarenhas, mentor da Radiola e que também passa a fazer parte da Orange Poem, Emmanuel (violão de 12 cordas), Marcus Zanom (guitarra), Fábio Vilas-Bôas (guitarra), Hosano Jr. (bateria) e Artur Paranhos (baixo) recriaram as antigas canções compostas pela banda nos anos 1990.

“Tadeu, que foi quem conduziu as gravações originais dos anos 90, tomou um susto. Então salvamos essas músicas que não ficaram legais, estavam no limbo e iam se perder”, diz.

“Tiramos os excessos, ajeitamos aqui e ali, rearranjamos e incluímos novos solos, teclados  etc. A ideia é no fim do ano reunirmos todas as faixas em um único disco cheio e fazer um show de lançamento”, conta.

Para Emmanuel, este último EP se revelou o "mais surpreendente" até agora. "É o mais surpreendente. Ela (Nancy) é uma monstra. Não desperdiça uma nota, afinadíssima, uma plasticidade vocal absurda. São três músicas bem distintas entre si: um blues, uma mais psicodélica a la Floyd e outra meio groove rock, mais prafrente. Em todas ela abordou de uma forma diferente", avalia.

"Na faixa mais psicodélica, ela canta em tom grave. Era para um homem cantar, mas saiu incrível. Foi a maior satisfação que já tive na minha carreira. O grau de profissionalismo dela é demais. Ela é produtora, professora, cantora - Nancy bota pra lascar", derrete-se Emmanuel.

Pensa que acabou? “Ainda quero gravar mais dois EPs de três faixas até o fim do ano. Um com uma voz bem grave, orquestral, de barítono, que tenha uma pegada ancestral. A definição de Tadeu é ‘ancestrodélica’. E o outro vai ser de rock pesado. Ainda estou vendo alguns nomes do pessoal do hard rock local para este”, conclui.

Em tempo: a bela arte de capa dos três EPs é de Glauber Guimarães, a quem Emmanuel diz caber a autoria da identidade visual da banda.

Baixe: www.elmirdad.blogspot.com.br



NUETAS

Rebeca & luvebox

Rebeca, Junix e Andrea May: supra sumo experimental
A cantora Rebeca Matta e o duo luvebox FX se apresentam no Commons Studio Bar nesta quinta-feira. Bissexto, o luvebox é o trabalho do guitarrista Junix com a cantora e artista visual Andrea May. Ela e Rebeca, que também milita na área visual, aproveitam e a oportunidade e promovem uma exposição conjunta no mezanino do Commons, em cartaz até o dia 30. 20 horas, R$ 20.

Álvaro & Eric = blues

Depois do duo / casal aí em cima, o duo pai & filho: Álvaro & Eric Assmar fazem o show Acoustic Blues no Ciranda Café. Sábado, 22 horas, R$ 15.

Maglore, tour Bahia

Programe-se: quinta-feira, dia 05: Vitória da Conquista (Viela Café), sexta, dia 6: Jequié (Praça. Rui Barbosa), sábado, dia 7: Cruz das Almas (Fornalha Show). Uma semana depois, domingo dia 15: Salvador (Parque da Cidade, 11 horas).