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| Paulo Cesar de Araújo, em foto de Bel Pedrosa |
Cinéfilo,
o historiador baiano Paulo Cesar de Araújo acertou em cheio ao comparar
seu confronto com Roberto Carlos no Fórum da Barra Funda (RJ), em 2007,
ao duelo final do filme
Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto,
il cattivo, 1966), de
Sergio Leone.
Após se encararem em silêncio por
breves momentos, todos sacaram suas armas (argumentativas e jurídicas).
O
tiroteio que se seguiu foi tão brutal e traumatizante que os disparos
ecoam até hoje nas planícies e planaltos Brasil afora.
Contado em
detalhes no capítulo nove do livro O Réu e o Rei, recém-lançado, o
relato do embate entre biógrafo e biografado é, como o próprio Paulo
diz, o momento “mais dramático” de um livro que se lê com inquietação.
Um
colega da imprensa sudestina o comparou ao relato de um acidente
aéreo. Já sabemos que vai terminar em tragédia, mas é impossível não se
angustiar ao conhecer os detalhes.
Mas nem só de decepções é feito O Réu
e o Rei.
Há história de um menino conquistense pobre que trabalhava de
engraxate e sonhava comprar um LP do Rei.
Há a inusitada amizade que
surge entre o autor e João Gilberto.
Há revelações, traições e o desejo
de justiça em uma leitura de tirar o fôlego.
Nesta exclusiva, o autor da
biografia proibida do Rei fala de tudo isso e um pouco mais. Sempre Em
Detalhes.
Suspirou de alívio após a notícia de que Roberto Carlos não ia tentar censurar este novo livro? Ou já esperava por isso?
Paulo Cesar de Araújo: Não
me preocupei muito. Se fosse me preocupar com a reação dele, não teria
feito o primeiro livro. Meu compromisso é com a História, as lacunas nas
historiografia. E depois, o contexto agora é outro. Avançamos muito
nesse debate. Os juízes – a sociedade está mais esclarecida. Então, não
me surpreendeu. Não havia possibilidade para ele censurar outro livro.
Isso é uma página virada. Esse negócio de proibir livros,
como diz Chico Buarque, é uma “página infeliz de nossa História”, que estamos
superando, felizmente.
Agora que o Congresso votou a mudança dos artigos 20 e 21 do Código Civil (que, entre outras coisas, permitiam o veto a biografias
não autorizadas) o senhor vai tentar liberar O Roberto Carlos em
Detalhes?
PCA: A Câmara votou em abril, e O Réu e o Rei saiu no mês seguinte. Estamos
aguardando agora a votação no Senado. Então, não houve ainda a
confirmação dessa mudança. Mas estamos bem encaminhados, foi um passo
importante. Aquilo (o acordo dos advogados de RC com a editora Planeta)
foi um acordo imoral, absurdo. Eu narro as circunstâncias dele no livro e
o questiono desde 2007. Eu estava sem advogado, na prática. Eles eram
da Planeta. Agora, com meu próprio advogado fica mais fácil esse
questionamento, pois temos jurisprudência. O acordo foi feito naquele
circunstância específica, mas o Direito se modifica em razão dos fatos.
Súmulas são alteradas e revogadas. Vamos à luta. Certamente, eu acho
que pro Roberto fica difícil. Devia partir dele essa iniativa de pôr um
ponto final nessa história. Meu livro seria o último proibido e RC, o
último censor. Eu acho que ele não quer esse título. Ninguém suporta
mais isso. A ‘
mão peluda’ da censura, como diz Elio Gaspari, é página virada. Vou tentar mais
uma vez e sempre que for possível. Espero que ele tome a iniciativa. Se
ele tiver um amigo, um conselheiro, ele vai tomar essa atitude. Censura
não cabe mais.
Pelo que você conta, Roberto e assessores já sabiam que você
estava escrevendo um livro sobre ele. E mesmo assim, nunca tentaram te
impedir antes que ele fosse publicado.
PCA: Eu mostro no livro
documentos que provam isso. É importante lembrar disso porque ele me
acusam de publicar o livro sem avisar o artista. Eu cito nos autos do
processo que Roberto diz: ‘Vocês não tiveram o cuidado de me avisar’.
Mas eles sabiam, sim. Nunca me disseram ‘não queremos o livro’. Eles só
protelaram. A editora os procurou. Tudo sempre nos caminhos legais,
oficiais do artista e sua equipe de assessores e empresários. E assim se
passaram 15 anos de pesquisa, consultando todas as fontes possíveis.
Por isso, o livro foi feito, mesmo sem entrevista com RC.
A que você atribui esse comportamento de RC & cia?
PCA: Má
fé, descaso, acho que é tudo isso. Eles chegaram a adulterar trechos do
meu livro . O livro diz que a Jovem Guarda era “uma combinação de
sexo, garotas e playboys”. Na queixa-crime, trocaram “garotas” por
“drogas”. E depois, alegaram que foi erro de digitação. Fui acusado de
tudo, de ofender o artista, enfim. No livro, os fatos relatam tudo e os
leitores tiram suas conclusões.
Qual foi a sua maior decepção: ele nem ter lido o livro ou ele ter te processado criminalmente?
PCA: A
forma toda do processo, o radicalismo. Ele pediu
R$ 4.5 mil R$ 500 mil por dia (erro do repórter, sorry),
minha prisão por um tempo superior a dois anos. Me tratou como
criminoso, apenas por que exerci meu trabalho. Sou um profissional da
memória. A
Constituição cidadã de 1988 me ampara no seu artigo 5. Então,
ao escrever o livro do RC e mesmo o
Eu Não Sou Cachorro, Não (2002),
eu estou amparado. Sou um profissional e fui tratado como criminoso pelo
Roberto. Claro que com ele se agarrando numa aberração que são aqueles
artigos (20 e 21 do Código Civil), que vão contra a Constituição. Eles
negam o que a Constituição garante.
O senhor ainda ouve Roberto Carlos? É possível separar o artista do homem que quis vê-lo na cadeia?
PCA: Sempre
separei. Sou um admirador. Não acho que Detalhes ficou feia. Sempre
separei o homem da música. Embora ele seja um dos meus ídolos, nunca o
acompanhei. Ele nunca gostou de política, eu, sim. Ele é supersticioso.
Eu, não. Eu gosto de marrom. Ele é Vasco, eu sou Flamengo. Sempre
estivemos em posições opostas em relação a tudo. Sou leitor desde
criança. Ele não gosta de ler. Minha relação com ele é em relação a
obra. Em relação ao resto, continuamos em lados opostos. Ele podia ser
Flamengo, pelo menos. Mas nem isso! (risos)
O Réu e o Rei expõe uma face de RC que poucos viram: autoritária, radical. O senhor se sente mal por isso?
PCA: O
homem é seu contexto também. Essa parte mais conservadora dele ficou
mais a sombra no livro Em Detalhes. Falo do
processo movido contra Ruy Castro em 1983 e
contra seu mordomo, em 1979. Conto detalhes, mas foi coisa de menor repercussão. Na
época, a sociedade brasileira era mais tolerante com a censura. Vivíamos
uma época de autoritarismo que RC compartilhava. Mas agora, quando ele
veio com a mesma atitude, como se fosse 1979, assustou. São outros
tempos. E o radicalismo do processo, minha resistência... Eu poderia ter
aceitado e tudo ficaria por isso mesmo, mas ele se deparou com alguém
com uma posição progressista. Eu não poderia admitir a censura em
relação a minha obra. Aí ficou explicita essa face dele mais
obscurantista. Isso fica claro em O Réu e o Rei por que é um fato novo,
que o livro atualiza. O capítulo 9 do livro, o mais dramático, mostra o
RC que ninguém conhece, o RC que não sorri e diz ‘que emoção, bicho’.
Mas o que diz ‘minha história é patrimônio meu’ e bate no peito. Isso
surpreende e mostra que ele é humano, não é um super homem, um herói. É
um grande artista, mas como ser humano, tem falhas e contradições. O
livro mostra isso com fatos, declarações e atitudes.
Me parece que ele realmente acreditou nesse papo de “Rei”, e portanto, achou que estava acima do bem e do mal.
PCA: Ele
já disse que ‘
o Brasil me mima muito’. Isso foi no início dos anos
2000. Acho que está na hora de o Brasil lhe dar um puxão de orelha.
Igual suposição, pelo jeito, fizeram os artistas do Procure Saber, correto?
PCA: No
episódio do Procure Saber, os artistas se uniram achando que bastava
comunicar que não queriam aquilo.
Aprovaram a lei do Ecad passando por
cima dos trâmites, brincando. Acharam que ‘somos muito fortes’, mas
foram surpreendidos. A sociedade tem um bem maior, que é a liberdade de
expressão. A assessoria deles diz agora que o Procure Saber não discute
mais biografias, isso desde que
RC saiu. Foram surpreendidos com reação
contra a censura.
O senhor, de fã e biógrafo, passa a ser também personagem na própria biografia de RC. Imaginou isso alguma vez?
PCA: É
um fato curioso, incomum. É verdade. Isso agora é História. Mas
certamente é um dos fatos mais polêmicos em que ele (RC) se envolveu.
Ele sempre se preservou, sempre evitou se envolver em polêmica. Fosse de
igreja, política, Diretas Já, anistia. Sempre evitou bola dividida para
ficar como o cantor romântico. Agora, aos 70, se mobiliza com
advogados, tentando modificar leis. Encontrou uma causa pública para
lutar, mas é obscurantista. Em época de
Comissão da Verdade, ele
continua na contramão. Em pleno século 21, quer defender uma pauta tão
velha quanto a censura a livros... Vai ser um capítulo na vida dele para
sempre. Não tem como apagar isso. Só nas biografias autorizadas. Por
isso elas são limitadas, o cara bota o que quer. Mas nos livros
independentes, o capítulo da briga dele contra um livro e a liberdade de
escrever livros de História – isso será narrado para sempre.
No livro o senhor relata que os advogados de RC chegaram a
adulterar trechos do seu livro para tentar incriminá-lo. O senhor pensou
em tentar alguma medida legal contra eles?
PCA: Claro! Está na
justiça, está tudo anexado aos autos. Mas para RC a justiça foi rápida.
Para mim, a lei é a normal: lenta. RC entrou na justiça contra o livro
em janeiro de 2007. Em fevereiro, o livro estava fora das livrarias. Já
eu vou aguardar anos, né?
Depois daquele episódio do juiz fã, o senhor tomou alguma providência legal?
PCA: Tudo
isso está relatado nos autos. Tentamos pelo cível. Lá foi no criminal.
Eu não tinha sido citado no cível por um erro. Foram me procurar pela
lista telefônica e encontraram um outro Paulo Cesar Araújo. Aí tudo foi
enviado para esse rapaz, cabista telefônico. E eu não fui citado. Na
defesa, relatamos como se deu o acordo no criminal.
Caetano Veloso em principio se pronunciou a favor do seu livro.
Depois fez parte do Procure Saber. O que o senhor acha que motivou essa
mudança?
PCA: Caetano teve essa mudança. Mas na época, ele falou
mal de RC. Disse que o livro era carinhoso, defendeu o livro. Depois
teve essa mudança que surpreendeu o país. Mudou de lado, depois se
desentendeu com RC e ele saiu. Eles mesmos não se entenderam por que não
tinha lógica, era uma contradição com as biografias deles, de Caetano e
Gil, que são artistas de vanguarda... Como a vanguarda vai se aliar ao
atraso? Não tinha como dar certo. Espero que eles reavaliem isso e se
mostrem defensores da liberdade da expressão.
Sua relação com João Gilberto é uma das passagens mais bonitas do livro, uma revelação. O senhor ainda é amigo dele?
PCA: A
Bahia em si é um personagem do meu livro, né? Começa em Vitória da
Conquista, depois Salvador. A Bahia está bem representada nesse livro.
Fiquei muito contente de contar essas histórias que eu não poderia
contar se não tivesse a oportunidade. Ao tirar meu livro, ele (RC)
acabou me dando um tema para outro. Ele me tirou um livro e me deu
outro. É uma história afetiva, a história de um menino que sonhava
comprar um disco dele. Em 1976, finalmente eu consegui. Foi no mesmo
ano que ele conseguiu vender seu primeiro milhão de LPs. 30 anos depois
eu lanço meu livro e ele pede minha prisão. É uma história brasileira.
Mesmo que não tivesse acontecido comigo, eu gostaria de contá-la. Me
senti na obrigação. São as surpresas da história. O João Gilberto, de
vez em quando eu falo com ele. Quando dá. Mas o que eu vivi com ele fica
para sempre. Ele influenciou toda a música brasileira e me influenciou
de alguma forma. Minha reaproximação com meu pai foi por causa de João.
Posso me incluir no rol dos que foram influenciados por ele de alguma
forma. Ele tem essa imagem de difícil, mas eu me surpreendi.
Outra surpresa foi saber que João viu Roberto cantando antes de virar roqueiro, quando tentava imitar o próprio João.
PCA: Esta
é uma das revelações do meu livro. O RC fez dezenas de tentativas de
levar o João para seu especial de fim de ano na Globo. Ele tenta e João
vai escapulindo. João Gilberto é o Roberto Carlos do Roberto Carlos.
Desde 1974 que ele convida João, mas não levou. Todo mundo quis
aparecer no especial do Roberto. Menos João. Seria lindo esse encontro.
Mas até agora RC não foi feliz.
Em seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não o senhor deu uma outra
ótica à chamada música brega dos anos 1970, valorizando-a. Isto também
gerou algumas críticas. Como o senhor vê a produção similar feita hoje?
Merece o mesmo respeito? Ou só daqui a vinte anos?
PCA: Primeiro, vamos constatar que o Brasil avançou. Há uma maior
democratização social. Uma doméstica hoje é bem melhor tratada do que
nos anos 1970. No campo da memória, isso tem acontecido. As pessoas
estão mais atentas a esses processos. E meu livro faz parte desse
processo. Ele foi lançado no ano da eleição do Lula (2002) Isso se
reflete no campo da memória. Então essa nova geração de artistas
populares merece um tratamento melhor. Claro que gosto é gosto, ninguém é
obrigado a gostar, mas hoje há um olhar menos preconceituoso, há menos
apartheid, há uma mistura, uma incorporação, uma inclusão. Embora, como
todo mundo, tenho o direito de gostar do que quiser. Nem eu escuto e
gosto de tudo. (risos)
O senhor está preparando algum outro livro?
PCA: Eu tenho
cerca de 250 entrevistas com músicos da MPB. Usei parte desse material
nesses três livros, mas a maior parte, ainda não. Certamente, vou
escrever sobre música, mas ainda não defini o foco. Mas tenho material
para mais dois livros. Não sei se vai ser uma biografia ou de análise
mais geral de estilos, mas focando a MPB clássica a partir dessas
entrevistas que tenho com Tom Jobim, João Gilberto, Chico, Caetano, Gil.
Vou pensar nisso depois. O material esta à mão. Sabe, estou apenas
começando a minha carreira. Agora lancei meu terceiro livro. Claro que
com a mudança da legislação, sem ter que perder tempo com advogados, vou
produzir mais. Sou professor, dou aula, corrijo provas. Isso tudo
atrapalha. Mas, virando essa ‘página infeliz de nossa história’, vai
sobrar mais tempo. Sou um estudioso, pesquisar é meu trabalho, então
vou escrever mais livros. E minha ideia é não demorar mais tanto. O Réu e
o Rei levou cinco anos para ficar pronto. Por que tinha que ir em foro,
dar aula, etc.
O senhor ainda tem parentes na Bahia? Costuma vir qui? Qual a sua relação com a Bahia?

PCA: Estou
para voltar a Conquista agora. Prometi aos meus tios e meu pai, que
ainda moram lá. E tenho parentes em Salvador, tios e primos, mas a maior
parte mora em Conquista. Em Salvador, onde eu passava minhas férias,
minhas lembranças são muitas, lembranças das canções de RC aí na casa do
meu tio Euclides. Na época em que os discos eram lançados, eu estava em
Salvador, as primeiras audições sempre eram no verão em Salvador. Tenho
as melhores lembranças de Conquista também, que é minha cidade e espero
voltar brevemente mas a Bahia nunca saiu de mim. Eu que saí da Bahia.
Tenho saudade dos cinemas de Salvador. Quando chegava aí, ia aos cinemas
todo dia. por que em Conquista só tinha duas salas. Vi Tubarão no
Guarany – inesquecível. Os verões que eu passei aí são minhas melhores
lembranças. Sou fissurado em cinema.
Previsão de uma noite de autógrafos por aqui?
PCA: Tô
querendo fazer, sim. Vou ver com a editora. Tenho que fazer lançamentos
em alguns lugares e Salvador tem que ter, claro, por conta da minha
relação afetiva com cidade.
O Réu e o Rei / Paulo Cesar de Araújo / Companhia das Letras / 528 p. / R$ 45 / E-book: R$ 31,50 / www.companhiadasletras.com.br
Entrevista publicada no Caderno 2+ do jornal A Tarde, no dia 9 de junho de 2014.