quarta-feira, junho 17, 2015

RETRATO SUTIL DO ARTISTA

Pré-estreia Cauby: Começaria Tudo Outra Vez, de Nelson Hoineff, tem sessão única amanhã na Sala de Arte Cine Paseo

Cauby em cena do documentário. Fotos de Raphael Bocanera
Mesmo que não fosse dirigido por Nelson Hoineff, o maior documentarista brasileiro vivo (após a trágica morte de Eduardo Coutinho em 2014), o filme Cauby: Começaria Tudo Outra Vez já valeria uma conferida atenta por qualquer pessoa interessada em cultura brasileira.

Afinal, seu objeto de investigação é ninguém menos que um dos maiores fenômenos populares do país em todos os tempos, o cantor Cauby Peixoto.

Com pré-estreia marcada para hoje em Salvador (só entra em circuito na semana que vem), o documentário tem feito boa carreira nos festivais desde sua premiere no Festival do Rio em 2013, quando foi aplaudido de pé por minutos a fio.

No filme, acompanhamos a câmera de Hoineff quase sempre orbitando a estrela do show em vários momentos íntimos: Cauby no camarim, Cauby no quarto com a secretária escolhendo o terno de lantejoulas da noite, Cauby sendo maquiado, Cauby na coxia, Cauby no palco logo antes do show, aguardando a cortina subir – e até a sala de estar de Cauby, examinada pela lente atenta do diretor.

Sujeito reservado, poder-se-ia até pensar que o cantor se sentiu invadido em algum momento, mas não: “Nunca fui importunado. Nem no camarim, nem na coxia. Fui sempre respeitado. Nada foi feito que não  quisesse fazer”, conta Cauby, em breve entrevista por email.

Bom saber disso, por que aqueles que sempre especularam sobre a sexualidade do cantor terão um motivo a mais para assistir ao documentário: nele, Cauby conta que, na infância e adolescência, teve encontros sexuais com outros meninos, em uma declaração inédita.

Por telefone, Nelson Hoineff conta que o trecho, que parece espontâneo na tela, envolveu dias de negociação.

“Ele é complicado quando fala da sexualidade. Aquilo foi um processo que levou mais de uma semana”, revela.

“Ele estava mostrando os ternos que ia usar naquela noite, aí conseguimos um momento. Expulsei Nancy (a secretária) da cena, dei um pontapé na porta e evitei ter outras pessoas por perto. E aí ele falou”, relata Nelson.

Apesar da declaração difícil, Cauby diz ter apreciado o resultado final do filme: “Sim, gostei muito. Se faz jus, os que assistirem e me conhecem irão dizer”, afirma.

“Extrair coisas das pessoas as vezes é um processo penoso, mas bem sucedido se você ganha a confiança de maneira verdadeira, correta.  Aí a pessoa fica a vontade. É o que acontece nessa sequência”, conta Nelson.

“Depois ele diz que optou por mulher, mas aquela coisa toda que ele fala – e ele mesmo ri do que falou – isso é totalmente inédito”, diz.

Cauby no rock e nos EUA

Dupla de gigantes: Nelson Hoineff e Cauby Peixoto
Mas nem só de revelações picantes se faz este documentário. Além de depoimentos de  Rodrigo Faour, Ricardo Cravo Albim, Maria Bethania,  Agnaldo Timóteo, produtores, fãs e pessoas com quem Cauby trabalhou, Hoineff costura muitas cenas de arquivo (algumas delas bem raras) com Cauby fazendo o que sabe fazer melhor: cantar.

Pelo menos duas são bem curiosas e merecem menção: Cauby bem novinho, no filme Minha Sogra é da Polícia (1958), introduzindo o rock no Brasil, com That's Rock, música de Carlos Imperial.

Um ano antes, olha lá o cantor nos Estados Unidos, sob o pseudônimo Ron Coby, cantando I Go, versão para Maracangalha, de Dorival Caymmi, no filme Jamboree (1957), de Roy Lockwood.

Mas talvez o personagem mais interessante do filme – depois de Cauby, claro – seja um jovem de quinze anos, fã do cantor.

Hoineff o acompanha em sebos, no quais caça antigos LPs e finalmente em um show, no qual coloca fã e ídolo frente a frente.

Infelizmente, a cena pareceu não render tanto quanto o diretor esperava e a sensação que fica é de anti-clímax.



Fim da agressão

Documentarista de vasta experiência, Cauby é o quarto documentário de longa-metragem de Nelson Hoineff, depois de O Homem Pode Voar (2006, sobre Santos-Dumont), Alô, Alô, Terezinha! (2008, sobre Chacrinha) e Caro Francis (2009, sobre o jornalista  Paulo Francis).

Mas foi na TV que seu nome estourou, ainda  nos anos 1980, quando dirigiu a série (ousadíssima para a época) Documento Especial, na extinta TV Manchete.

Biógrafo não-convencional, Hoineff comemorou a liberação das biografias não-autorizadas pelo STF: “Isso é da maior importância e   muda a própria história do Brasil completamente, pois retira também dos documentários a necessidade ou de ser chapa branca ou de criar mil instrumentos para fugir a essa chapa branca. O que havia até agora era uma agressão tão grande que as vezes nem nos dávamos conta disso”.

Cauby - Começaria Tudo Outra Vez / Dir.: Nelson Hoineff / Pré-estreia: Amanhã, 21 horas / Sala de Arte Cine Paseo 02  / 12 anos



ENTREVISTA: NELSON HOINEFF

O senhor ficou satisfeito com o resultado final do filme?

Nelson Hoineff 
NH: Ficou exatamente como eu esperava, muito legal. Agora, na hora de fazer um filme sobre o Cauby, definir 'que recorte vamos fazer' é que é complicado. Ao mesmo tempo, a veia do Documento Especial está sempre presente em mim, então a gente acabou optando por fazer um recorte muito sutil e deixar o cauby ser a estrela do show. Eu acho que, se tenho algum mérito é o de nao querer ser mais do que o Cauby. Selecionei o que queria e deixei . Você pode observar que quase todos os números musicais estão ou na íntegra ou perto disso. Em alguns caso misturamos a mesma música em ocasiões diferentes, entao ficou excelente pra mim. Depois eu tenho a mania de entrar nos cinemas incógnito e sentar ali no meio do povo para assistir o filme. Aí a gente vê a reação da plateia - e a plateia gosta, se emociona. Uma vez me chamaram para falar em um cinema do Rio, aí um cara se levantou e disse que estava vendo o filme pela terceira vez.

No filme Cauby fala de sua sexualidade na infância ou adolescência. É impressão minha ou você conseguiu uma declaração inédita aí?

NH: Sim, é inédita. Em alguma cenas, parece que é facil mas ele é complicado quando fala da sexualidade dele. Aquilo foi um processo que levou mais de uma semana até chegar em um momento que parece uma coisa até pueril. Ele tava mostrando os ternos que ia usar na noite, aá conseguimos um momento de 'deitar na cama' Expulsei Nancy da cena, dei um pontapé na porta e evitei outras pessoas por perto. E aí ele falou. Essa coisa de extrair coisas das pessoas - você é jornalista, já viu isso inúmeras vezes - é um processo penoso, mas sempre bem sucedido se você ganha a confiança mas não de uma maneira falsa, ganha de maneira verdadeira, correta. Aí a pessoa se sente a vontade. É o que acontece nessa sequência. Depois ele diz que 'optou por mulher', mas aquela coisa toda que ele fala - e ele mesmo ri do que falou - isso é completamente inédito. Em geral as pessoas perguntam, mas não é assim, tem todo um processo que pode ser as vezes bem longo - que é como foi nesse caso. E não parece né? Parece que saiu facinho...


Por que o Cauby? O senhor o escolheu ou foi o contrário?

NH: Eu escolhi. Em geral eu faço filmes sobre personagens como o Francis, o Chacrinha, pessoas que eu gosto. Em segundo, são pessoas que tem uma veia transgressora. São formas transgressoras diferentes, mas da mesma natureza. Aí fica mais fácil, primeiro por que é prazeroso e de formas diferentes. O Francis foi meu melhor amigo por vinte anos. O Chacrinha eu nunca conheci. Já o Cauby tá vivo, então houve todo um processo de convencimento para fazer o filme. A primeira coisa é convencer a Nancy. Isso leva um tempo. Uns dois anos.

Como o senhor encontrou aquele personagem do garoto fã?

NH: Ele mandou uma mensagem para mim no Facebook, 'ah, eu sei que vocês estão fazendo o filme, eu tenho quinze anos, sou fã do Cauby' e tal . Aí eu pedi para a produção visitar o rapaz e ver se era verdade mesmo. Chamei o garoto, que mora no subúrbio do Rio, em Olaria e disse: vamos botar o garoto no filme. Aí tudo o que acontece é verdade. Ele diz, 'vai ter um show e eu vou ser o primeiro a comprar ingresso'. Aí criamos a situação para ele ir no show com o ingresso que ele comprou - mas lá dentro eu o apresento ao Cauby. Quando ele vai comprar disco em sebos na Praça Tiradentes ou na Praça XV, é tudo real. Só que, ao invés de fazer o garoto virar para a camera dizer 'meu nome é tal', eu botei o vendedor fazendo essa pergunta pra ele e ele começa a falar. Mas o garoto é real.

O senhor fez Paulo Francis, Chacrinha e Cauby. O senhor vê uma conexão entre esses filmes, eles formam uma trilogia?

NH: Tem o do Santos Dumont também. Mas vejo sim, uma conexão entre eles. São filmes sobre pesoas que gosto, admiro e que, como já disse, tem essa veia trangressora. E a estrutura é parecida, por que não são filmes biográficos, eles tem um recorte, cada um com o seu, mas você não vai saber por eles aonde nasceu, que escola estudou. Mas acho que há mesmo uma relação entre todos esse filmes: todos eles na verdade sao filhotes do Documento Especial

Como o senhor sabe, as biografias não-autorizadas estão liberadas. O que achou dessa história toda? O senhor tem algum projeto que estava emperrado por causa disso e agora vai retomar?

NH: Isso é da maior importância. Escrevi um texto para O Globo dizendo que isso muda a própria história do Brasil completamente, pois retira também dos documentários a necessidade ou de ser chapa branca ou de criar mil instrumentos para fugir a essa chapa branca. O que havia até agora era uma agressão tão grande que as vezes nem nos dávamos conta disso. Era uma agressão abrutal a liberdade de expressão, a democracia e ao direito da sociedade de ser informada. Você só podia falar sobre uma pessoa quando tinha a concordância dela em ser abordada e sobre tudo que se diz sobre ela lá dentro. Era impossível fazer um doc como Citizen Four ou um que ganhou o Oscar em 2010, esqueci o nome agora. O pior é que já existe uma legislação sobre isso, no Brasil é uma legislação por cima da outra. Se alguém faz um doc sobre você e há nisso calúnia, difamação ou injúria, você tem instrumentos legais para buscar seus direitos. Mas ali não: o que havia até ontem, você já era culpado. Você não poderia fazer no Brasil um doc sobre os mensaleirso ou um dos presos na Operação Lava Jato, coisas que sao do maior interesse da sociedade, pessoas que estão roubando bilhões de dólares. Mas para fazer um doc sobre isso precisava ter a autorização deles. Isso é inacreditável, é fora de qualquer parâmetro. Mas por que pode botar na TV (nos telejornais)? Por que a legislação é tão absurda que ela diz que noticiário na TV não tem interesse comercial! (risos) Mas documentário não pode. Você vê o Fantástico: 5 segundos do Fantástico é mais caro do que um documentário inteiro que eu faça, mas legislação dizia que eu, sim, estou em busca de resultados comerciais. Mas o Jornal Nacional, não. Essa decisão do Supremo muda a história do Brasil e permite, embora o centro das atenções seja as biografias, permite que o documentarista possa falar sobre sua sociedade. Agora vamos ver como vai se comportar.

Aquele material todo que o senhor fez para o Documento Especial está disponível em algum lugar? You Tube, DVD etc?

NH: Teve umas três temporadas de reprises no Canal Brasil. Agora estamos fazendo uma pesquisa para poder lançar uma quantidade grande de episódios em DVD. Estamos nos esforçando, por que para isso tem a parte jurídica e técnica, mas há uma chance muito grande que lancemos em DVD e video on demand.

terça-feira, junho 16, 2015

ENCONTRO DE BLUESEIROS REÚNE NATA DA CENA LOCAL NO RED RIVER SEXTA-FEIRA

Oyama, Brian e Jerry em maaais um dia de trabalho. Foto Angela Cristina
Nem só do mestre Álvaro Assmar (e do seu filho Eric, claro) vive a cena blueseira baiana.

Está aí a ótima banda Água Suja, capitaneando há anos o evento semanal gratuito Blues Free Salvador, para não deixar o colunista mentir.

Nesta sexta-feira, o grupo liderado pelo veterano baixista Jerry Marlon (ex-14º Andar, banda importante da cena dos anos 1980) promove a quarta edição de seu outro evento, o Encontro de Blueseiros.

No palco, a Água Suja manda ver seu repertório de standards com vários convidados: a cantora Candice Fiais (que acaba de lançar um belo disco), os guitarristas Lon Bové, Ícaro Britto, Nino Moura, Diego Andrade e Celso Dutra, o gaitista Diego Orrico, o baixista e cantor Keko Pires e Wylsel Júnior (da banda RestGate Blues).

A má notícia é que, pela primeira vez, o Encontro de Blueseiros terá de cobrar ingressos. “É  a mesma história de sempre, só que agora mais triste – ou mais blues”, diz Jerry”.

“O Encontro  foi um projeto que fizemos por três anos no Pelourinho, em 2008, 2009 e 2010. Depois disso, não conseguimos mais fazer lá. Mas o pessoal sempre perguntava quando ia ter outro”, conta.

Tributo ao Blues Boy

E foi no Red River Café, casa quer hoje ocupa o sítio arqueológico que confirmou a existência do Espaço Bleff no mesmo local nos anos 1980, que o Encontro achou o seu pouso.

Como não poderia deixar de ser, este ano o Encontro prestará tributo a um certo Blues Boy: “Com a morte do BB King, não tivemos alternativa senão prestar a nossa humilde homenagem”, afirma Jerry.

“Agora, o pessoal que conseguimos reunir para se apresentar é a nata da cena de blues que está na ativa. O casal Ícaro Brito e Candice, Diego Andrade e Diego Orrico são nomes mais recentes que estão buscando espaço para trabalhar de forma séria. E ainda tem veteranos como Lon Bové, Nino e Keko. Enfim, é um bom catado de siri”, ri Jerry.

Além de Jerry, a banda Água Suja conta com as feras Oyama Bittencourt (voz e guitarra), Zito Moura (teclados) e Brian Knave (bateria).

Fora isso, Jerry avisa que prepara seu “primeiro e único álbum solo, que deve sair até o fim do ano”.

"Vai ter músicas autorais, algumas instrumentais, duas ou três canções da época do 14º Andar em parceria com Hélio Rocha e João e um clássico de T-Bone Walker, In a Pix. Vai ter várias participações, um apanhado dos meu parceiros: Guimo Migoya, Mauro Tahim, Hélio, Oyama, Brian, Luizinho Assis, Luciano Calazans etc. É um trabalho sem muita pretensão, nem artística nem comercial. É mais um canto do cisne, na verdade. Sabe como é, baixista é foda pra fazer disco solo", ri a figura.

"A propósito, o show começará as 23 horas em ponto. Esperamos a casa lotada e uma noite bonita", conclui Jerry.

Encontro de Blueseiros de Salvador / Com Água Suja, Lon Bové, Candice Fiais, Ícaro Britto, Diego Orrico, Nino Moura, Keko Pires e outros/ Red River café / Sexta-feira, 23 horas / R$ 30 / Reservas: 71 3023-4655 / 9733-2555 

NUETAS


Big Bross agitando

Grandes notícias de Rogério Big Bross. Julho terá 5 quintas-feiras no Taverna, sempre com duas bandas. 1º de agosto os indies veteranos Wry (SP) e, em setembro, o mestre Wander Wildner (RS) em tour por Salvador, Feira, Alagoinhas e Camaçari. Em salvador, ambas as atrações se apresentarão no Dubliner's. Nas quintas de julho no Taverna, a programação é a seguinte: Theatro de Seraphin e Squadro (dia 2), Decliniun e Van der Vous (dia 9), A Flauta Vértebra e Cartel Strip Club (dia 16), Bilic Roll e Calafrio (dia 23) e Búfalos Vermelhos & Orchestra de Elefantes e Novelta (dia 30).  Tudo isso é só o Warm-Up do festival Big Bands. Tá bom ou quer mais? Mais detalhes aqui.

Sorry, Vendo147 e Pancreas

O colunista errou na última terça ao indicar a banda Pancreas no Quanto Vale o Show? da semana passada – mas era a Vendo 147. Hoje é que a Pancreas. Desculpas às bandas e aos leitores. Dubliner’s Irish Pub, 20 horas, grátis.

Serafim e Marconi

O evento Sexta Elétrica rola no Taverna Music Bar com Serafim & A Vitrola Muderna e Marconi Lins & Banda. Sexta-feira, 23 Horas, R$ 10.

quinta-feira, junho 11, 2015

VOCÊ VIU MAICON CHALRLES?

DESAPARECIDO!!

URGENTE! Maicon Charles está desaparecido desde ontem à noite (09/06/2015) e a última vez que ele foi visto foi na frente do Dubliners Irish Pub – Salvador/BA, com um mixer nas mãos, às 21h. Depois disso ninguém mais tem notícias. O mixer foi encontrado, mas nada de Maicon. O mesmo trajava bermuda, chinelo e uma camiseta azul marinho. Fizeram buscas nas colônias de pescadores das praias do Rio Vermelho e Ondina, e também na orla, na Garibaldi, pelo Rio Vermelho. Por favor, quem tiver notícias ou o viu ontem, depois das 21h, por favor avisem! Vários amigos estão preocupados e se mobilizando para tentar encontra-lo.

Ele não tem hábito de sumir, é responsável, costuma avisar por onde anda e sempre volta pra casa, onde vive com outros amigos na Graça, na rua 8 de dezembro. Praticamente todos os hospitais possíveis já foram contatados, inclusive o IML e também em outras colônias de pescadores até as imediações da Ribeira. Polinter, policias, e nada. Nenhuma notícia.

Telefones para contato: 71 9367 0906 | 71 9999 0303

COM UMA PEQUENA AJUDA DOS AMIGOS

Crowdfunding: As plataformas de financiamento coletivo on line podem ser uma boa opção na crise 

Imagem do site http://canleafmart.net/
No pega pra capar das crises, o setor cultural é sempre o que recebe os primeiros cortes de verbas. Em 2016, o Ministério da Cultura não contará com 22.7% do seu orçamento, “contingenciado” pelo governo federal para sabe-se lá o que.

Apesar de estar na moda, explodir caixas eletrônicos pode ser meio insalubre, então, quem sabe os amigos não ajudam? Para isso, existe, já há algum tempo, as plataformas de crowdfunding na internet.

O termo em inglês pode ser traduzido literalmente para “financiamento coletivo”. São sites nos quais as pessoas podem lançar seus projetos e convidar os amigos e fãs a contribuírem com seu projeto, recebendo lá na frente o produto em si, mais recompensas, dependendo da contribuição.

Pode-se fazer crowdfunding para praticamente qualquer iniciativa, indo da cultura (livros, discos, filmes, espetáculos etc) a causas sociais, empreendedorismo e ONGs.

No Brasil há diversas plataformas: Catarse, Garupa, Embolacha, Kickante, Impulso, Startando e várias outras.

“É importante saber que o financiamento coletivo é um meio de captação de extrema credibilidade em vários locais do mundo, como EUA e Europa, e é o grande responsável por financiar projetos incríveis, de alto calibre”, afirma Tahiana D'Egmont, CEO do Kickante, uma das principais plataformas do Brasil. No ar desde 2013, arrecadou R$ 8 milhões em duas mil campanhas.

Só não chame a prática de vaquinha: “De fato, não tem a ver com vaquinha, tem a ver com uma decisão consciente de aposta em um projeto que vai ocorrer, é dar o poder de decisão sobre produtos, serviços e causas nas mãos de quem é mais interessado: o público final”, reivindica Tahiana.

“Estamos falando de uma ruptura de modelo em que poucos decidem o que todos nós consumimos para um modelo muito mais democrático, é algo muito maior do que a forma que é tratado em geral”, percebe a CEO.

Existem pelo menos dois modelos de financiamento coletivo: o “tudo ou nada” ou o “flexível”. No primeiro, o projeto só recebe se conseguir arrecadar todo o montante pretendido no prazo de 60 dias.

No flexível, o projeto recebe o valor que conseguir arrecadar – menos a comissão da plataforma, de 12% em média.

O Catarse, por exemplo, só atua no “tudo ou nada”. Já o Kickante é  “a única no Brasil que trabalha tanto com campanhas tudo ou nada quanto flexíveis”, vende Tahiana.

“90% dos projetos são bem-sucedidos na Kickante, até por termos o modelo Flexível como uma opção. Dentre as campanhas Tudo ou Nada, em torno de 60% atingem a meta”, completa.

Campanhas baianas

Imagem de Anunnaki, o musical da banda Mensageiros do Vento
Entre  artistas baianos, a prática surge como uma grande opção para fugir tanto da burocracia dos editais quanto da monocultura tapada imposta pelo empresariado local.

Entre eles, o mais ambicioso é sem dúvida o longa-metragem em animação Anunnaki, da banda Mensageiros do Vento, uma ópera-rock inspirada nos escritos das tabuletas sumérias. “Estamos com 90 % do áudio pronto. Falta gravar os vocais. A animação está 50% pronta. Vai sair um DVD com o filme e um CD duplo com a trilha”, conta o baixista e roteirista Fábio Shiva.

“Vamos concluir o projeto de qualquer maneira, mas se conseguimos essa verba ficará mais fácil”, garante.

Outras duas bandas baianas de destaque também estão em campanha. Xodó da cena local, a Vivendo do Ócio não está mais na gravadora Deck, por onde lançou dois álbuns e é  hoje “100 % independente”, como define o vocalista Jajá.

“Domingo fizemos um show acústico, na Ribeira. Já é uma recompensa para quem contribuiu. As pessoas podem se juntar e comprar um acústico por R$ 1,2 mil”, conta Jajá.

Já a Mercy Killing, pioneira do thrash metal baiano, tenta financiar a prensagem do seu primeiro álbum em LP de vinil. “A gravação está pronta. Resolvemos fazer o financiamento coletivo para ser independente. Os contratos que os selos oferecem simplesmente não vale a pena”, conta o baixista e fundador Leo Barzi.

Claro que nem todos que lançam campanha batem a meta. O Circo Picolino pleiteou R$ 138 mil em sua campanha Somos Todos Guerreiros. Levantou R$ 30 mil.

“Disseram que sonhamos alto demais”, conta o fundador do Picolino, Anselmo Serrat.

“Mas conseguimos um quarto do montante. Foi válido, com ele vamos reformar a parte predial e depois batalhar uma lona nova”, conclui Anselmo.

VOCÊ PODE CONTRIBUIR

Mercy Killing 

Uma das primeiras bandas de thrash metal locais, a MK se mudou para Curitiba há alguns anos.  Agora luta para lançar o LP de estreia em vinil. Meta de R$ 20 mil. Até o dia 26, no Kickante



Anunnaki  

A banda Mensageiros do Vento está na batalha para concluir “a primeira ópera-rock em desenho animado do Brasil”. Meta: R$ 24 mil. Campanha aberta até o dia 18 no Kickante





Vivendo do Ócio 

Fora da gravadora Deck, a melhor banda baiana de rock em atividade convoca seus patcharas (hein?)  para lançar o novo álbum, Selva Mundo. A meta é de R$ 53 mil. Até o dia 1º (Kickante)  






Cássio Sá

Este simpático músico baiano pleiteia R$ 3 mil para lançar seu álbum Folk Ya!, no qual pratica uma bem-humorada vertente de música folk. Contribua até o dia 18, no Kickante

3ª Mostra de Cinema de Urandi 

Organizada por Pepe Publio (foto), a mostra na cidade do centro-sul baiano pede R$ 6.8 mil para concluir curta-metragem. Contribua até o dia 26, no Kickante







Estranhos 

Produzido pela Araçá Azul Filmes, o longa-metragem Estranhos tenta captar R$ 57 mil para exibir  o filme em escolas públicas, ONGs e salas em todo o Brasil. Até o dia 29, no Kickante

BÔNUS: ENTREVISTA Tahiana D'Egmont, CEO Kickante

O crowdfunding é uma prática relativamente nova. Quando e como o Kickante entrou nesse mercado? A empresa é multinacional ou brasileira? Quanto o Kickante já levantou desde sua criação?

Tahiana D'Egmont: A Kickante foi lançada em outubro de 2013. Candice Pascoal, uma das fundadoras, trabalhava na indústria da música e viu de perto as mudanças na indústria e a queda das empresas da área por não saberem como lidar com o mundo digital. Ela também trabalhou fazendo arrecadação de fundos para as maiores ONGs do mundo e viu que tudo era feito com um custo enorme. Candice então conheceu o mercado de crowdfunding e viu que ele ainda estava muito atrás no Brasil e que o mercado poderia evoluir para uma solução completa de arrecadação digital onde se poderia ajudar mais o arrecadador se ele não se sentisse desamparado, para não dar sequencia à elitização que ela já havia visto de perto e enxergou no crowdfunding o potencial de democratização, de oferecer o poder a qualquer pessoa de tirar projetos do papel. Candice então se juntou ao irmão, Diogo Pascoal, para fundar a Kickante: uma plataforma de arrecadação digital onde os brasileiros pudessem de fato ter acesso a capital de forma democrática, tirando seus projetos do papel com todo o apoio e know-how necessários, utilizando técnicas avançadas de arrecadação de fundos que seguem os modelos internacionais de arrecadação. É uma plataforma brasileira que trás a tecnologia americana e as técnicas internacionais mais avançadas de arrecadação de recursos.  A plataforma já lançou mais de 2.000 campanhas e captou mais de R$ 8 milhões.

Que diferencial ele oferece em relação as outras plataformas de financiamento coletivo? 

TD: Somos a única no Brasil que trabalha tanto com campanhas “tudo ou nada” quanto campanhas flexíveis. Oferecemos uma estrutura completa de arrecadação que vai além do crowdfunding tradicional, oferecendo também a possibilidade de se arrecadar de forma recorrente (Clube de Contribuição Mensal) e de terceiros captarem para causas através do Kick Solidário. Oferecemos suporte de marketing: criadores de campanhas na Kickante recebem orientações sobre como divulgar seus projetos. Temos uma taxa de crowdfunding super competitiva no mercado brasileiro (12% para projetos que arrecadam de forma bem sucedida) e fazemos follow up de pagamentos, algo também exclusivo nosso, que aumenta as conversões de contribuições. Só no lado operacional, nosso serviço de atendimento é espetacular, com respostas em até 24 horas e ensinamos sobre crowdfunding, apoiando criadores e contribuidores.

Uma pessoa pode entrar com a mesma campanha em diferentes plataformas? O que acontece com quem faz isto?

TD: Não é recomendado de forma alguma. As campanhas possuem metas que devem estar ligadas ao seu objetivo de projeto, não faria sentido pedir a mesma meta em dois locais diferentes. Além disso, as campanhas precisam de dedicação para darem certo, divulgar duas campanhas diferentes ao mesmo tempo e com sucesso seria uma tarefa extremamente árdua.

Em cada dez campanhas, quantas o Kickante consegue viabilizar? Qual a percentagem de projetos que levantam todo o montante pretendido?

TD: 90% dos projetos são bem-sucedidos na Kickante, até por termos o modelo Flexível como uma opção (onde o criador leva o montante arrecadado mesmo que não atinja a meta). Dentre as campanhas "Tudo ou Nada", em torno de 60% atingem a meta.

O que acontece com as campanhas que não conseguem?

TD: Temos duas modalidades de captação: flexível e tudo ou nada. Na modalidade flexível o projeto vai ocorrer independente do valor arrecadado. Nesse caso, o criador da campanha recebe o valor arrecadado mesmo que não atinja a meta mínima estipulada. Na modalidade tudo ou nada, o projeto depende 100% da meta mínima para ser viabilizada. Nesse caso, se a meta não for atingida o valor é devolvido a cada contribuidor via plataforma de pagamento utilizada para a transação.

Aqui e ali vejo que há uma certa reclamação com a postura da imprensa em relação ao crowdfunding, que não é dar dinheiro, não é vaquinha: é venda antecipada, etc. Vc detecta essa má vontade? O que é preciso reiterar para estimular a consolidação de uma imagem positiva (e propositiva) do crowdfunding?

TD: Não vejo como uma postura negativa da imprensa e sim falta de conhecimento sobre crowdfunding, que ainda é um tema novo no mercado nacional. É importante saber que o financiamento coletivo é um meio de captação de extrema credibilidade em vários locais do mundo como EUA e Europa e é o grande responsável por financiar projetos incríveis, de alto calibre. De fato não tem a ver com vaquinha, tem a ver com uma decisão consciente de aposta em um projeto que vai ocorrer, é dar o poder de decisão sobre produtos, serviços e causas nas mãos de quem é mais interessado: o público final. Estamos falando de uma ruptura de modelo em que poucos decidem o que todos nós consumimos para um modelo muito mais democrático, é algo muito maior do que a forma que é tratado em geral.

Há três áreas para classificar uma campanha: Criativo (artes), Causas (social) e Empreendedorismo. Qual delas recebe o maior número de campanhas no Kickante? E qual delas tem o maior número de campanhas vitoriosas? Você vê uma tendência de aumento ou diminuição de interesse em alguma dessas áreas?

TD: Criativo e Causas são dois grandes segmentos de projetos na Kickante, Empreendedorismo vem crescendo mas ainda não tem a mesma quantidade de projetos lançados que Criativo e Causas. Causas arrecadam bem, até por terem uma cultura maior de estarem abertos a buscar financiamento, enquanto alguns segmentos ainda se mostram mais tímidos em tomar essa decisão, que só tem a beneficiar a todos. Empreendedorismo e Criativo vem crescendo a taxas mais rápidas visto que Causas já é um segmento onde somos líderes disparados no mercado.

O crowdfunding surge como uma alternativa ao difícil mercado cultural brasileiro, no qual ou se vende como produto comercial (ultracomercial, no mais das vezes) ou se recorre aos editais governamentais / leis de incentivo, um terreno que parece cada dia mais pantanoso. Vc vê futuro no crowfunding ou acha que pode ser só uma fase, uma moda? Vc vê a prática do crowdfunding consolidado nos próximos anos? 

TD: Não existem dúvidas de que o crowdfunding não é apenas uma moda, tanto que ele existe há vários anos pelo mundo e só continua crescendo. Todas as projeções de mercado nacional e internacional apontam para um grande crescimento nos próximos anos. Tem diversos motivos para isso: o próprio mercado vem mudando e as pessoas têm mais acesso direto à marcas, empreendedores, atletas, artistas etc, a dificuldade de acesso a capital por instituições tradicionais como bancos vem aumentando de forma geral, leis de incentivo estão sendo revistas e tendo seus budgets diminuídos e critérios apertados. Em resumo: tem muita coisa boa para acontecer com o crowdfunding ainda!

terça-feira, junho 09, 2015

FIGURA DA CENA UNDERGROUND DE SSA E SP, TARCÍSIO BUENAS LANÇA SEU PRIMEIRO LIVRO

Ainda não foi desta vez que os leitores do Caderno 2+ se livraram da Coletânea. Após as férias do colunista, eis aqui de volta o único espaço da imprensa impressa  local (na internet há vários outros, claro) exclusivamente dedicado a cena musical independente e alternativa.

(Obviamente o parágrafo acima só faz sentido publicado no jornal impresso, aonde a coluna Coletânea sai toda terça-feira. Reproduzo-o aqui por mera preguiça - ou vaidade, vai saber).

Devoto de São Bukowski, Buenas bebe e escreve.  Ou escreve e bebe? Foto:Lucas Mayor
E voltamos não com uma banda ou músico, mas com uma dica de leitura: o livro  18 de Maio, Quanto Tens Por Dizer..., de Tarcísio Buenas.

Trata-se do primeiro livro do livreiro, blogueiro e DJ cruz-almense Tarcísio Buenas Nascimento Santana, 43 anos,  em São Paulo desde 2011.

Quem frequenta o underground local talvez o conheça: Tarcísio foi vendedor em lojas de discos (pergunte pro seu pai) importantes, como Na Mosca, São Rock (ambas de Tony Reverendo T Lopes) e Flashpoint.

Estava sempre nos shows da cena (especialmente da brincando de deus) e ainda atuou como DJ Buenas.

Livraria no bar do Cemitério

Neste seu primeiro livro, Buenas reúne os melhores textos publicados em seus dois blogs: On The Rocks e La Verga del Buenas.

No primeiro, ele fala da vida difícil em SP e daquilo que o alimenta: música, cinema, literatura, a cidade. Já o segundo reúne sua produção de poemas e contos eróticos.

Em ambos, demonstra extrema delicadeza e humanidade em uma prosa pausada, sem rodeios nem metáforas.

“São os textos que mais gosto. Os mais relevantes. De como eu trato a vida. Eles mostram minha relação com a música, literatura, cinema, bares, amigos e mulheres. Presente e passado”, conta, por email.

O luxo fica por conta do prefácio, assinado pelo cultuado escritor / dramaturgo / ativista Mário Bortolotto, seu amigo.

“Quando conheci o Mário, ficamos amigos na hora. Em 2013, ele me convidou pra trabalhar no bar do seu teatro, o Cemitério de Automóveis. Foi lá que montei minha livraria, Buenas Bookstore”, relata.

“O engraçado é que eu não indico meu livro pra ninguém. Nunca indiquei”, ri.

“O que ele traz de próprio? Relatos sobre minha vida. A única coisa própria que a gente tem é nossa vida. Mas costumo comentar com  amigos que ele foi escrito com o coração na ponta dos dedos”, conclui o boêmio.

18 de Maio, Quanto Tens Por Dizer... / Tarcísio Buenas / Buenas Books / 116 p. / R$ 25 / Vendas: buenasrocks@gmail.com / www.buenasrocks.blogspot.com

BÔNUS: ENTREVISTA COMPLETA COM TARCÍSIO BUENAS

Você é baiano de Cruz das Almas mas mora em São Paulo. Conte como foi essa trajetória: quando veio a SSa, o que fazia aqui, quando foi a SP, o que faz aí?

TB: Minha família se mudou pra Salvador quando meu pai faleceu. Eu tinha dois anos e meu irmão nove meses. Minha mãe, junto com meus avós e minhas tias, foram morar em um casarão na rua Direita de Santo Antônio, bairro do centro histórico. Foi lá que passei minha infância. Já minha adolescência foi em Cruz das Almas. Minha mãe se casou de novo retornando em seguida pra lá. Só que uma vez em Cruz, moramos, meu irmão e eu, com nossos avós paternos que também haviam retornado pra minha cidade natal. O segundo casamento de minha mãe foi conturbado. Então nossos avós acharam melhor que a gente vivesse com eles. Foi em Cruz que minha base musical e literária foi estabelecida. Em 1992, retornei pra Salvador, sozinho, porque minha mãe já estava lá (o casamento dela não deu certo). Uma vez em Salvador, concluí meus estudos no colégio Ypiranga, que fica no 2 de Julho, próximo da extinta loja de discos Kaya. Eu passava lá praticamente todos os dias quando saía da aula. Comprei muitos discos na Kaya. No livro tem um texto falando das minhas visitas à loja. Meu primeiro emprego foi como vendedor de iogurte no subúrbio. Minha filha nasceu em abril de 1993 e eu tinha que sustentá-la. Então eu acordava todos os dias às cinco da matina (detesto acordar cedo). Mas tinha que acordar por causa dela. Eu me sentia na obrigação de alimentá-la. Dar educação. Essas coisas que pais responsáveis fazem. Só que este emprego não deu certo, como muitos outros, e eu caí fora da empresa. Resolvi voltar ao teatro - eu havia iniciado meus estudos nas artes cênicas ainda em Cruz. Fiz um monte de coisas pra sustentar minha filha. Vendi discos por conta própria, pizza (entre outras coisas) enquanto fazia teatro - que durou uns cinco anos. Então eu caí fora (do teatro) e fui trabalhar em um órgão do governo, época em que meu filho veio ao mundo. Trabalhei por três anos como funcionário público. Foi só em 2002 que eu comecei o trampo mais prazeroso que foi como vendedor de discos nas lojas São Rock Discos e Flashpoint, no total de seis anos. Foi trabalhando na Flashpoint que eu tive a ideia de ir pra Londres. Meu casamento tava acabando e eu não tava suportando morar em Salvador. Durante o período como vendedor de discos, também discotecava na noite. Foi aí que surgiu o DJ Buenas. Foram várias discotecagens em bares e boates. Acontece que minha viagem pra Londres não vingou. É que não me deixaram entrar lá - fiquei detido por dezessete horas no aeroporto. Retornando pro Brasil, tive mais um trampo em outro órgão do governo. Foi relâmpago! Logo me mudei pra São Paulo. Aqui conheci o Mário Bortolotto. A gente já se falava por blogs e pelo facebook. Quando eu conheci o Mário, ficamos amigos na hora. Isto foi em 2011. Em 2013 ele me convidou pra trabalhar no bar do teatro Cemitério de Automóveis, ao qual ele é sócio com mais quatro amigos. Foi lá que montei a minha livraria, a Buenas Bookstore, sob o consentimento dele e de seus sócios. Eu vendo livros novos de algumas editoras e livros lidos também. Às vezes, 'ataco' como o DJ Buenas.

Seu background no underground de SSa: que shows frequentava, aonde ia, qual a sua ligação com esse cenário?

TB: Frequentava shows de rock, lojas de discos, livrarias, cinemas e bares. Adoro a brincando de deus. Já perdi a conta dos shows que assisti deles. Também assisti muitos shows da Brinde, Saci Tric, Theatro de Séraphin, Honkers, Cascadura, Dead Billies e Coyotes, entre outras. Sempre me senti confortavelmente bem no underground. Adorava bares como Calypso, por exemplo. Sinceramente, esqueci agora o nome dos outros. Tinha um próximo do Calypso que vivia mudando de nome... Bem, esqueci. Um dos meus bares preferido da cidade é O Líder, que fica no 2 de Julho. Não sei como tá agora. Me lembro de bebedeiras homéricas lá com meus amigos e minha ex-mulher. De sair torto do bar, sabe? - rs. Costumava andar pelos Barris - morei lá alguns anos. Adorava o boteco do Espanha. Acho que os Barris e o Rio Vermelho são ainda os bairros que mais gosto de Salvador. Minha ligação com esse cenário começou efetivamente quando comecei a trampar na São Rocks Discos. Foi lá que mantive contato direto com a turma do rock e, posteriormente, com poetas e escritores. Eu vivia nos shows dessas bandas que citei acima. Fiz grandes amizades e me relacionei com mulheres maravilhosas. Grandes momentos vividos.

O livro reúne textos dos seus dois blogs. Como selecionou o que entrou no livro? Do que tratam os seus textos?

TB: São os textos que mais gosto. Os mais relevantes. De como eu trato a vida. Esses textos mostram como é a minha relação com a música, literatura, cinema, bares, amigos e mulheres. Presente e passado.

Tarcisão é amigo do Mário. Conhece o Mário? Foto Lucas Mayor
Você acabou se embrenhando legal no underground de SP também, correto? Aonde você bebe, que shows frequenta? Você é amigo do Mario Bortolotto?

TB: Correto. Continuo pelo underground. Bebo religiosamente toda segunda-feira na Mercearia São Pedro, a Merça, com meus amigos. Em seguida, a gente vai pro Filial beber chopp escuro. Durante a semana, bebo no bar do teatro Cemitério de Automóveis e, às vezes, nos arredores quando a noite finda e o sol começa a raiar. Vou muito aos shows da Fábrica de animais e da Saco de Ratos. Toda vez que a Cigarettes, que é uma banda do Rio, vem a pra cá, eu assisto. E dos gringos, claro. Já assisti shows de bandas e artistas solo que adoro. The Jesus and Mary Chain, Bob Mould, Lee Ranaldo, Thurston Moore, Sebadoh e Mark Lanegan, são alguns deles. Sim, sou amigo do Márião. No livro tem um texto que escrevi pra ele:  "Cinquenta anos do Mário Bortolotto". A gente bebe todos os dias. Ele é citado em outros textos também. Outros amigos são citados.

Uma pequena provocação: incontáveis outsiders já escreveram seus livros de literatura pop sobre seu relacionamento apaixonado com a cultura underground da literatura, da música e do cinema. Por que eu devo ler o seu livro? O que ele traz de próprio, novo ou diferente nessa linha?

TB: Engraçado é que eu não indico o meu livro pra ninguém. Nunca indiquei - rs. Aliás, indiquei uma vez pra uma menina porque ela comprou um livro do Fausto Fawcett e outro do Danislau TB, que é o compositor e cantor da banda Porcas Borboletas, comigo. Sinceramente, não sei o motivo pelo qual eu indiquei o meu livro a ela. Apenas indiquei. O que ele traz de próprio? Relatos sobre minha vida. A única coisa própria que a gente tem é a nossa vida. O resto é passageiro - inclusive a vida - rs. De diferente? Costumo comentar com meus amigos que o "18 de maio, quanto tens por dizer..." foi escrito com o coração na ponta dos dedos. O que é raro. Escrever com o coração na ponta dos dedos. Leia os textos "Minha vida entre o amor e a escrotice" e "Entre satélites", por exemplo, e verá.

O livro já tem lançamento por aqui marcado?

TB: Viajo pra Salvador no final desse mês. Devo lançar o "18 de maio..." na primeira semana de julho. Os acertos estão sendo feitos ainda. Te aviso. De buenas.

NUETAS

Hoje: Pancreas free 

O Quanto Vale o Show? de hoje traz a banda Pancreas e convidados (ops, erro meu aí, foi mal, galera) Vendo 147. A banda Pancreas e convidados é na próxima terça-feira,m dia 16. Dubliner’s, 20 horas, pague o quanto quiser.

Warm-up Big Bands sexta-feira. Agora com download de coletânea

Rogério Big Bross anuncia o warm-up do festival Big Bands nesta sexta-feira, com o duo uruguaio Antibanda, mais as locais The Pivos, Derrube o Muro e Pastel de Miolos. Dubliner’s, 21 horas, R$ 15. A propósito, aqui você baixa gratuitamente uma coletânea das bandas do Warm-up. Enjoy.

Rave Aurora sábado

O pioneiro coletivo baiano Soononmoon realiza neste sábado mais uma edição da  rave Aurora, na reserva ambiental homônima, em Camaçari. A estrutura, como sempre, é de primeira: dois palcos, 24 DJs (locais e internacionais), 14 horas de som, camping, UTI móvel, segurança etc. Vendas: Ticketmix e Chilli Beans e aqui.


ATUALIZAÇÃO: O ROCK LOCO RECOMENDA:

Fala, Sputter!

"Tive a honra de ser convidado para um um bate papo musical nessa sexta (12/06), vou colocar uns sons e falar um pouco dos artistas ou o que eles significam pra mim...escolhi a black music dos mais variados gêneros em homenagem ao nome da loja Afreeka e fazer um tributo aos artistas afro descendentes que me influenciaram como músico e artista. A seleção musical vai focar-se mais em artistas gringos, dos EUA e Jamaica em sua grande maioria...vai passar por Free Jazz, Blues Sujo (e nem tanto) antigo, R&B dos velhos tempos, Garage Punk, Blues Punk, Garage Soul, Soul Music, Northern Soul, R´N´R, Doo Wop, Ska, Rocksteady, Early Reggae e por aí vai... De graça, cedo, apareça, leve seu companheir@ e vamos participar desse bate papo com muita música..."

segunda-feira, junho 08, 2015

FUNNY GIRL É NICK HORNBY NO TOPO DE SUA FORMA: ÁGIL, TERNO E DIVERTIDO

Hornby durante tarde de autógrafos em Seattle. Foto Joe Mabel / Wikicommons
Pode ser que eu esteja enganado (e isto frequentemente acontece), mas o   inglês Nick Hornby está longe de ser um escritor do tipo “imortal”, daqueles que será reverenciado por acadêmicos barbudos em bibliotecas empoeiradas por séculos a fio.

Mas, de uma coisa, qualquer um que já leu algum de seus livros, sabe: o homem escreve de uma forma que é praticamente impossível largar um de seus romances sem chegar à página final.

E prova isto mais uma vez, em seu sétimo romance, Funny Girl, lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

OK, escrever de forma a prender o leitor não é determinante de qualidade: até Sidney Sheldon e Paulo Coelho conseguem.

Só que Hornby, diferente desses dois, escreve realmente bem: seus personagens parecem mesmo pessoas reais.

Suas páginas são capazes de trazer o leitor para dentro do seu mundo, envolvendo-o, enriquecendo seu entendimento das motivações dos personagens, de seu tempo, lugar e cultura.

Enfim: Hornby não é Aldous Huxley – mas é, sem sombra de dúvida, um escritor de respeito.
Beldade rumo ao estrelato

Mas talvez sua maior qualidade não seja a dignidade e a habilidade com que exerce sua função. A maior qualidade de Hornby é o seu profundo amor pelos seus personagens.

Em Funny Girl, assim como em Alta Fidelidade ou Um Grande Garoto, esse amor está impregnado em cada página do romance.

No centro de sua narrativa está a jovem Sophie Straw, Miss Blackpool 1965, que abdica de sua coroa para deixar a sonolenta cidade natal no norte da Inglaterra e tentar a sorte em Londres.

Bonita, loira e carismática, Sophie é fã número 1 da comediante Lucille Ball, estrela da sitcom americana I Love Lucy. Seu sonho é se tornar uma espécie de Lucy britânica.

Hornby conduz sua personagem com tanta habilidade – entre empregos ruins e encontros fortuitos – que, em questão de 100 páginas, a moça realiza seu sonho e se torna uma espécie de namoradinha da Grã-Bretanha – via BBC, em plena Swingin’ London.

A esta altura, o romance já capturou de vez o leitor, graças ao rico elenco de personagens cheios de vida com que Hornby cerca Sophie, além do cenário trepidante de uma Londres em meio a  Beatlemania e a revolução de costumes.

Em sua jornada ao estrelato, Sophie tem quatro homens como companhia: Clive, o galã fútil; Bill, o roteirista gay combativo; Tony, o roteirista gay discreto (e casado) e Dennis, o produtor intelectualizado e menosprezado por uma esposa pedante  e adúltera.

Cronista social, o autor  registra com habilidade o clima vibrante de Londres nos anos 1960. Merece atenção também o conflito de atitudes  entre os dois roteiristas homossexuais em meio à revogação da lei britânica que criminalizava o homossexualismo.

No fim das contas, o livro é a crônica de Hornby de uma sociedade conservadora  que experimentava mudanças sociais profundas: enquanto alguns pulam de cabeça, outros resistem. Mas tudo sempre com muita leveza e humor.

Literatura peso pena, Funny Girl não vai ganhar o Nobel – mas renderá ao leitor várias horas de entretenimento iluminado e enriquecedor. Agora é aguardar o filme.

Funny Girl / Nick Hornby / Tradução: Christian Schwartz/ Companhia das Letras/ 424 p./ R$ 44,90/ E-book: R$ 29,90

Bônus: Teaser da Penguin Books com a abertura fictícia de Barbara (And Jim), a sitcom idem descrita no livro

terça-feira, maio 05, 2015

ENCONTRO DE COMPOSITORAS REÚNE MUSICISTAS TODAS AS QUINTAS DE MAIO NO XISTO

As moças do Encontro de Compositoras
Eis aqui uma iniciativa de coletivo de fato interessante: sete musicistas baianas de diferentes origens, estilos e formações, unidas para uma série de apresentações semanais.

Essa é a proposta do ECOA - Encontro de Compositoras, que leva ao palco do Espaço Xisto Bahia, todas as quintas-feiras de maio, com sete artistas.

São elas:  Mônica Freire (com vasta folha de serviços, na ativa desde 1971), Priscila Magalhães, Jana Vasconcellos (as duas últimas premiadas no Festival da Educadora), Illa Benício, Ana Luisa Barral, (as duas últimas do grupo Samba das Moças), Carla Suzart (do grupo Canela Fina) e Aline Novais (coordenadora da Orquestra Castro Alves -  NEOJIBA).

No palco, elas fazem tudo (sem músicos de apoio): Jana e Mônica tocam violão, Ila é baterista, Priscila é cantora, Ana Luisa toca violão, bandolim e percussão, Carla é baixista e Aline é pianista acordeonista.

“E todas são compositoras”, completa Jana.

Trabalho relido

Ela conta que o projeto nasceu de um convite da coordenadora do Espaço Xisto.

“Aí Ana Luisa reuniu a gente para mostrar nosso trabalho autoral. Juntas fica mais fácil de viabilizar do que fazer um show solo para cada uma, então tem sido uma experiência bem bacana”, relata.

“Não é só chegar lá e tocar. Temos que meter a mão na massa para que as coisas aconteçam. Como dividimos as composições, e assim cada uma mostra um pouco  seu trabalho, a gente na verdade faz releituras, readaptamos as composições para este novo formato”, detalha Jana.

Além dessa leva de moças talentosas, o ECOA também recebe a cada semana uma convidada para participar: Rebeca Matta, Manuela Rodrigues, Mariella Santiago e Verônica DuMar.

Além das quintas, a segunda-feira 18 terá pocket-show no Cafofeira: bazar e comidinhas, das 18  às 20 horas.

Senhoras, boa sorte.

ECOA – Encontro de Compositoras / todas as quintas-feiras de maio, às 20 horas / Espaço Xisto Bahia (Biblioteca Central, Barris) / R$ 30 e R$ 15


NUETAS

Lacertae hoje

A espetacular banda sergipana Lacertae e Serafim & A Vitrola Muderna são as atrações de hoje do Quanto Vale o Show?. O duo de Lagarto (SE) vem lançar o DVD Lacertae 25 anos - Aperipê Session. Dubliner’s, 18 horas.


Bixiga 70, OQuadro

Os paulistas do Bixiga 70 e OQuadro (de Ilhéus) fazem grande show no Largo Pedro Archanjo. Os ilheenses esquentam os motores para turnê europeia. Os gringo pira. Sábado, 21 horas, R$ 20.

Até junho, galera

O colunista blogueiro recarrega as baterias em férias e volta em junho. Ademã, diria Ibrahim.

CHINA MIÈVILLE, O NOVO ESQUISITO, ESTREIA NO BRASIL COM A CIDADE & A CIDADE

China Mièville. Foto Emma Bircham
Foi com expectativa que os fãs de literatura fantástica e ficção científica aguardaram a publicação dos livros do autor inglês China Mièville no Brasil.

A espera acabou  com o recente lançamento de A cidade & a cidade, pela editora Boitempo.

Badalado, o londrino de 42 anos é volta e meia saudado por outros escritores de sucesso, como Neil Gaiman (Sandman) e Michael Moorcock (Elric de Melniboné) pelas inovações que tem trazido a chamada ficção especulativa.

Além disso, Mièville, um aguerrido ativista e acadêmico de esquerda (que engraçado: um esquerdista chamado China), já foi várias vezes agraciado com as maiores premiações da sua seara literária, como o World Fantasy Awards,  Arthur C. Clarke Award, Nebula, Hugo, Bram Stoker... Enfim: o homem passou o rodo.

Tudo isso mais do que justifica a expectativa da chegada do autor ao mercado brasileiro. E, em sua estreia por aqui, ele tanto agrada como decepciona. Explicações à frente.

Beszel e Ul Qoma

Em A cidade & a cidade, o autor narra um conto policial noir de tons políticos e fantasiosos em uma ambientação das mais estranhas. Uma garota é encontrada morta no rio de Beszel, uma cidade decadente nos cafundós do leste europeu.

Entra em cena o investigador Tyador Borlú, encarregado do caso.

Acontece que Beszel compartilha o mesmo espaço geográfico com outra cidade, chamada Ul Qoma.

Na verdade, trata-se da mesma cidade, mas com línguas e culturas diferentes. Seus habitantes são proibidos de interagir. Não podem sequer observar uns aos outros, praticando desde criança o ato de se “desver”.

Qualquer interação não autorizada entre os habitantes das duas cidades implica no crime de “brecha”, algo pior do que assassinato e severamente punido por um poder absoluto e secreto, denominado também de Brecha.

Nesse cenário complexo, Mièville, que se autodenomina “um  trotskista genuíno e atual”, se esbalda em longas, longas descrições do funcionamento das duas cidades, suas peculiaridades históricas, usos e costumes, correntes e dissidências políticas, arquitetura, paisagem, cheiros, sabores.

E aí está a decepção. As constantes descrições sem fim de Mièville, apesar de denotar toda a sua profundidade conceitual e criatividade ao conceber um cenário rico, travam, de certa forma, o desenvolvimento da trama, frustrando leitores menos pacientes (e mais afeitos ao aspecto aventuresco da literatura especulativa) com suas digressões descritivas.

Em suma: A cidade e a cidade é um livro para o qual é necessário certo esforço da parte do leitor para não larga-lo de mão ali pelo meio.

New Weird

O lado bom é que, apesar dessa mão pesada, Mièville recompensa os fortes que o seguem com uma trama que fica mais e mais estranha a medida que as páginas avançam, ganhando velocidade ali, a partir da ducentésima página.

Não a toa, próprio autor se diz integrante de um movimento literário chamado  New Weird (Novo Esquisito), um mash-up de literatura pulp, FC e horror – Lovecraft style.

Em suas investigações, Borlú, um decalque de Philip Marlowe (o detetive noir de Raymond Chandler) se depara com grupos subversivos que querem unir ou manter separadas as duas cidades, escavações arqueológicas misteriosas e outras esquisitices.

Mistura alucinada de romance noir, ficção especulativa, drama político a la 1984 e algum horror, A cidade e a cidade é uma opção interessante para quem procura algo radicalmente diferente nas prateleiras das livrarias, de um autor afeito a neologismos, como “desver” e “brutopicamente”.

E não, o fato do autor ser um declarado esquerdista, não “contamina” a obra com mensagens políticas subliminares. A não ser, claro, que o seu fundo humanista seja interpretado dessa forma. Tem paranoico pra tudo.

A cidade & a cidade / China Miéville / Tradução: Fábio Fernandes/ Boitempo/ 292 páginas/ R$ 45

quinta-feira, abril 30, 2015

DIA INTERNACIONAL DO JAZZ GANHA COMEMORAÇÃO EM ALTO ESTILO

Jazz na Avenida, evento espontâneo das sextas, tem dose dupla no feriado com festival 

Laurent (dir.), com Isaías Rabello e Alexandre Montenegro
A Bahia tem dessas: evento espontâneo de perfil não exatamente popular cai no boca a boca de um público interessado e acaba virando um must na cidade.

Assim aconteceu com a jam session semanal Jazz na Avenida, que esta semana tem edição dupla em seu primeiro festival.

Claro que os fatos de ser a) gratuito e b) em plena happy hour de sexta-feira ajudaram muito a lotar o estacionamento da gráfica na orla onde o evento é realizado desde março do ano passado.

“Começou numa festa privada”, conta o baterista francês residente em Salvador desde 2004 Laurent Rivemales, organizador da jam.

“Eu  quis reunir o pessoal pra comemorar a volta de um amigo meu, Patrice, a Bahia. Como em casa era muito pequeno, pensei em fazer no estacionamento do meu terreno. Peguei a bateria, a aparelhagem e fizemos. Como todo mundo gostou, pensamos: ‘vamos fazer de novo’”, conta.

E fizeram de novo na semana seguinte, com os amigos trazendo outros amigos, que na outra semana trouxeram mais dois amigos, que trouxeram mais amigos na outra semana.

“A cada semana, as pessoas comentavam mais e mais. Aí virou ponto de encontro. E como eu capricho na qualidade do som, botei piano e instrumentos de primeira, foi agradando o pessoal nas redes sociais, com o boca a boca se espalhando”, conta Laurent.

“Toda semana temos bandas e convidados diferentes. É um conceito um pouco diferente da Jam no MAM, que tem uma banda base fixa”, diz.

Experiência de noite

Alissa Sanders, foto Chaia Decher
Depois de comemorar um ano de evento logo após o Carnaval, Laurent resolveu aproveitar que hoje é o Dia internacional do Jazz (instituído pela UNESCO) e amanhã é feriado e criou o I Festival Jazz na Avenida, com dois dias de show.

A programação traz a banda do anfitrião,  Laurent Rivemales Trio, a cantora californiana Alissa Sanders (Tributo aos 100 anos de Billie Holiday) e as bandas Deon Jazz e  Quintet Jazz Tzigane Bahia (Tributo a Django Reinhardt). No Facebook do evento a programação está mais detalhada.

Natural de Montpellier, uma joia incrustada à beira do Mediterrâneo no sul da França, Laurent frequenta a Bahia desde 1997, mas se estabeleceu definitivamente aqui, ao se casar com uma baiana em 2004. Há alguns anos, abriu a casa de shows Fuar Fuia.

“Depois eu quis fechar, por que ser empresário não combina muito com ser músico. Eu não conseguia mais tocar em turnê. Aí eu aluguei o prédio para uma gráfica, a qual gentilmente me cede o estacionamento às sextas-feiras para o evento”, relata Laurent.

“Tenho mais de vinte anos de música andando em vários festivais, com muita experiência de vida noturna, então sei da minha estrada e sei organizar um evento”, afirma.

Mário Pereira, da Tzigane Bahia
Seguro de si, como se vê, Laurent não esquece que o mais importante é o apoio do público que seu evento cativou.

“O evento é gratuito, sem patrocínio e dele não tiramos lucro, então o mais importante é o público que percebe isso. Você vê a verdadeira alma das pessoas. Não sei como explicar, o pessoal que aparece é incrível. Já vi gente no final nos ajudando a arrumar a casa. É uma coisa bonita”, conclui.

I festival Jazz Na Avenida / Hoje e amanhã, a partir das 18 horas / Avenida Simon Bolívar, s/n, Armação (ao lado do Boi Preto) / Gratuito / Facebook

quarta-feira, abril 29, 2015

PODCAST ROCKS OFF BOTA SORA MAIA E ROGÉRIO BIG BROSS NA RODA E AVISA: NEGO TUDO

Soritcha fala de fotografia e rock
Nesta edição, Nei Bahia e Osvaldo Braminha Silveira Jr. tem a honra de receber a fotojornalista e "fotógrafa style" Sora Annie Leibovitz do rock baiano Maia e Rogério Nego Tudo Big Bross Brito, verdadeiras sumidades do rock local.

Sora entrevista Braminha, que confessa que botaram alguma coisa na bebida dele quando decidiu trazer a MTV para a Bahia nos anos 1990.

E Sora, uma irmã para este blogueiro e membro fundador deste blog, fala da relação fotografia vs. rock local, ontem e hoje.

"Strobo é ruim e fumaça é a miséria do mundo miserável, horrível para fotografar".

Big, como sempre, distribui os sopapos, a experiência e a sabedoria que lhe é peculiar.

"Já recebi cartão vermelho de Varella".

MOEBIUS À LA CARTE

Com O Mundo de Edena e Os Olhos do Gato, Nemo segue lançando o melhor do artista francês

Finalmente, os fãs do icônico quadrinista / artista francês Jean Moebius Giraud podem dizer que estão bem servidos de sua obra no Brasil.

Com os recentes lançamentos do álbum Os Olhos do Gato e a conclusão da série O Mundo de Edena, parte significativa de sua produção está à disposição do público.

Mérito do Nemo, selo da Editora Autêntica que, desde sua criação, em 2011, vem lançando, sistematicamente, em edições de luxo (capa dura, papel cuchê) a obra do artista, morto em março de 2012.

Logo na inauguração o selo lançou a Coleção Moebius, que teve sete volumes e trouxe, entre outras HQs, inéditas ou já publicadas no Brasil, a série A Garagem Hermética, uma das mais famosas do artista.

Já a partir de 2013 iniciou-se a publicação da série em seis volumes O Mundo de Edena, totalmente inédita no país.

Além dessas coleções, ainda houve fôlego para lançar duas belíssimas parcerias de Moebius com o escritor e dramaturgo franco-chileno Alejandro Jodorowsky: Garras de Anjo e Os Olhos do Gato.

Do grosso de sua obra (além de O Incal - sua parceria mais importante com Jodorowsky -, já publicado no Brasil pela Devir), só falta a Nemo lançar Blueberry, uma das séries mais definitivas do western em HQ, em parceria com o escritor belga  Jean-Michel Charlier. Fica a torcida.

Gato e Edena

Os Olhos do Gato, título mais recente de Moebius nas prateleiras, foi sua primeira parceria com Jodorowsky.

A HQ, que quase não tem texto e se desenvolve de forma ágil, é um desbunde visual místico e psicodélico em glorioso P&B.

É obra que, para ler, leva-se menos de dois minutos. Mas para admirar, pode-se levar a vida inteira, graças aos desenhos magníficos de Moebius.

Já O Mundo de Edena tem uma gênese curiosa: inicialmente, era uma HQ promocional criada sob encomenda da montadora francesa Citröen, na qual dois personagens, Stel e Atana, cruzavam um planeta alienígena a bordo de um modelo recém-lançado, em 1983.

Moebius gostou tanto dos personagens que decidiu aproveita-los em uma HQ própria, transformando Stel e Atana em mecânicos espaciais, às voltas com espaçonaves à deriva em planetas estranhos.

Ao longo dos seis volumes da série, Moebius fez gato e sapato (no bom sentido) dos personagens, lançando-os em situações (e planetas) surreais, abertas à interpretações várias e de viés psíquico.

Os Olhos do Gato / Moebius, Alejandro Jodorowsky/ Tradução: Arnaud Vin / Nemo/ 56 páginas/ R$ 54,90


O Mundo de Edena (seis volumes) / Moebius/ Tradução: Fernando Scheibe Nemo/ 56 páginas (cada vol.)/ R$ 49 (cada)

terça-feira, abril 28, 2015

OS ELEFANTES ELEGANTES DE TONY LOPES LANÇA ÁLBUM COM POEMAS MUSICADOS DE CHARLES BUKOWSKI

Tony Lopes AKA Reverendo T e Elefante Elegante. Foto Rogério Big Bross
Veterano do underground local, Tony Lopes atua no cenário desde os anos 1980.

Em 1991, lançou com sua banda Tony & Os Sobreviventes um LP de vinil hoje raro, De Quem é a Culpa? – título que, aliás, virou piada interna no rock local quando algo dá errado...

De lá para cá, teve lojas de discos / centros culturais independentes importantes como Na Mosca (anos 1990) e São Rock (anos 2000), integrou outras bandas e hoje tem dois projetos autorais: Reverendo T & Os Discípulos Descrentes e Os Elefantes Elegantes.

Enquanto no primeiro ele atua com uma banda (o pessoal da Pastel de Miolos), o Elefantes é só ele e um iPad equipado com o programa Garage Band.

“Uso o aplicativo pra musicar meus poemas e, com o tempo, cheguei a algo próximo do que chamamos de ‘música’. É uma colagem: vou colando acordes e instrumentos e, eventualmente chegamos numa canção”, conta.

Fã do escritor e poeta underground Charles Bukowski (1920-1994), Tony teve a ideia de musicar os poemas do Velho Safado ao ler as traduções do curitibano Fernando Koproski: “Pra mim, são as primeiras traduções de poemas dele que achei muito boas, representando de forma exata o que ele quis dizer. Ele é poeta e já traduziu os poemas de Leonard Cohen. Não conheço nenhuma tradução melhor de Bukowski no Brasil”, opina.

Performance de elefante

O passo do elefantinho. Foto Rogério Big Bross
Koproski traduziu dois livros do Velho Buk: Essa Loucura Roubada Que Não Desejo A Ninguém A Não ser a Mim Mesmo Amém (2ª edição em 2012) e Amor é Tudo Que Nós Dissemos Que Não Era (2012), ambos pela editora 7 Letras.

Tony entrou em contato com o tradutor, pedindo autorização para musicar os poemas: “Foi tranquilo, ele aprovou a ideia. São 12 faixas curtas, com um minuto e meio a dois minutos. O arremate foi o envelope absurdamente genial desenhado pelo cartunista Bruno Aziz. Sem essa capa linda o projeto não teria o valor que tem”, elogia.

Lançado em versão física pela joint venture de selos independentes Big Bross, Brechó e São Rock, o álbum Os Elefantes Elegantes Mergulham na Poesia Ácida de Charles Bukowski teve uma performance para marcar o lançamento terça-feira passada no evento Quanto Vale o Show?, no Dubliner’s.

“Me vesti de elefante (foto ao lado), fiz um discurso e puf!,  lancei o disco. Vendi vários exemplares, tirei foto com todo mundo e tal. Faço performances em aniversário, batizado, casamento, bodas de ouro e formatura”, diverte-se.

“Minha filha ficou meio assustada com a fantasia, mas a vida real é bem mais difícil”, afirma Tony.

Inquieto, o poeta / cantor / performer / elefante cor-de-rosa tem mais de 150 outras faixas autorais criadas sozinho de madrugada e planeja gravar material novo do Reverendo T ainda este ano.

"O Reverendo eu tô pensando em gravar coisa nova, dar continuidade ao single Azul Profundo (lançado em 2014). O caminho é aquele, a ideia é acrescentar algo aquilo ali", conta.

“Outra ideia é pegar discos antigos do rock baiano, como o do Treblinka, Tony & Os Sobreviventes e outros e botar bandas novas para fazer releituras. Tira-los do limbo, mostrar que temos história”, conclui Tony.

www.elefanteselegantes.blogspot.com.br

NUETAS

Glauco & Motoserra

Glauco Neves & Sua Orquestra Elegante e Ivan Motoserra são as atrações de hoje do Quanto Vale o Show?. Dubliner’s, 18 horas, pague quanto quiser.

Incubadora Sonora 

Dia 1º abrem  as inscrições do Incubadora Sonora 2015. Cinco bandas passam por  processo de profissionalização, com  show e gravação. O material de divulgação nos diz que: "Estas bandas, durante o processo da incubadora, passarão por oficinas, como a de gravação, com o produtor Irmão Carlos; de fotografia, ministrada pela fotógrafa Denisse Salazar, de mídias sociais, ministrada pela produtora Edmilia Barros, de cenografia, ministrada pelo cenógrafo Klaus Schuenemann, assim como oficinas de projetos culturais, produção e comunicação. No final do projeto, as bandas selecionadas entrarão na coletânea 'Incubadora Sonora 2015', receberão uma cópia digital do ensaio fotográfico e realizará um show na sua região ao lado da banda Irmão Carlos e o Catado". Inscreva sua banda no site www.incubadorasonora.com.br. Não vacile: as inscrições se encerram no dia 15 de maio.

Blues no Rhoncus

O power trio Pedrão, Uzêda & Cândido toca quinta no  Rhoncus Pub. 22 horas, R$ 20.

Malefactor sábado

Malefactor sábado, no  Dubliners Irish Pub. Abertura: Papa Necrose. 16 horas, R$ 20.