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| Cauby em cena do documentário. Fotos de Raphael Bocanera |
Afinal, seu objeto de investigação é ninguém menos que um dos maiores fenômenos populares do país em todos os tempos, o cantor Cauby Peixoto.
Com pré-estreia marcada para hoje em Salvador (só entra em circuito na semana que vem), o documentário tem feito boa carreira nos festivais desde sua premiere no Festival do Rio em 2013, quando foi aplaudido de pé por minutos a fio.
No filme, acompanhamos a câmera de Hoineff quase sempre orbitando a estrela do show em vários momentos íntimos: Cauby no camarim, Cauby no quarto com a secretária escolhendo o terno de lantejoulas da noite, Cauby sendo maquiado, Cauby na coxia, Cauby no palco logo antes do show, aguardando a cortina subir – e até a sala de estar de Cauby, examinada pela lente atenta do diretor.
Sujeito reservado, poder-se-ia até pensar que o cantor se sentiu invadido em algum momento, mas não: “Nunca fui importunado. Nem no camarim, nem na coxia. Fui sempre respeitado. Nada foi feito que não quisesse fazer”, conta Cauby, em breve entrevista por email.
Bom saber disso, por que aqueles que sempre especularam sobre a sexualidade do cantor terão um motivo a mais para assistir ao documentário: nele, Cauby conta que, na infância e adolescência, teve encontros sexuais com outros meninos, em uma declaração inédita.
Por telefone, Nelson Hoineff conta que o trecho, que parece espontâneo na tela, envolveu dias de negociação.
“Ele é complicado quando fala da sexualidade. Aquilo foi um processo que levou mais de uma semana”, revela.
“Ele estava mostrando os ternos que ia usar naquela noite, aí conseguimos um momento. Expulsei Nancy (a secretária) da cena, dei um pontapé na porta e evitei ter outras pessoas por perto. E aí ele falou”, relata Nelson.
Apesar da declaração difícil, Cauby diz ter apreciado o resultado final do filme: “Sim, gostei muito. Se faz jus, os que assistirem e me conhecem irão dizer”, afirma.
“Extrair coisas das pessoas as vezes é um processo penoso, mas bem sucedido se você ganha a confiança de maneira verdadeira, correta. Aí a pessoa fica a vontade. É o que acontece nessa sequência”, conta Nelson.
“Depois ele diz que optou por mulher, mas aquela coisa toda que ele fala – e ele mesmo ri do que falou – isso é totalmente inédito”, diz.
Cauby no rock e nos EUA
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| Dupla de gigantes: Nelson Hoineff e Cauby Peixoto |
Pelo menos duas são bem curiosas e merecem menção: Cauby bem novinho, no filme Minha Sogra é da Polícia (1958), introduzindo o rock no Brasil, com That's Rock, música de Carlos Imperial.
Um ano antes, olha lá o cantor nos Estados Unidos, sob o pseudônimo Ron Coby, cantando I Go, versão para Maracangalha, de Dorival Caymmi, no filme Jamboree (1957), de Roy Lockwood.
Mas talvez o personagem mais interessante do filme – depois de Cauby, claro – seja um jovem de quinze anos, fã do cantor.
Hoineff o acompanha em sebos, no quais caça antigos LPs e finalmente em um show, no qual coloca fã e ídolo frente a frente.
Infelizmente, a cena pareceu não render tanto quanto o diretor esperava e a sensação que fica é de anti-clímax.
Fim da agressão
Documentarista de vasta experiência, Cauby é o quarto documentário de longa-metragem de Nelson Hoineff, depois de O Homem Pode Voar (2006, sobre Santos-Dumont), Alô, Alô, Terezinha! (2008, sobre Chacrinha) e Caro Francis (2009, sobre o jornalista Paulo Francis).
Mas foi na TV que seu nome estourou, ainda nos anos 1980, quando dirigiu a série (ousadíssima para a época) Documento Especial, na extinta TV Manchete.
Biógrafo não-convencional, Hoineff comemorou a liberação das biografias não-autorizadas pelo STF: “Isso é da maior importância e muda a própria história do Brasil completamente, pois retira também dos documentários a necessidade ou de ser chapa branca ou de criar mil instrumentos para fugir a essa chapa branca. O que havia até agora era uma agressão tão grande que as vezes nem nos dávamos conta disso”.
Cauby - Começaria Tudo Outra Vez / Dir.: Nelson Hoineff / Pré-estreia: Amanhã, 21 horas / Sala de Arte Cine Paseo 02 / 12 anos
ENTREVISTA: NELSON HOINEFF
O senhor ficou satisfeito com o resultado final do filme?
| Nelson Hoineff |
No filme Cauby fala de sua sexualidade na infância ou adolescência. É impressão minha ou você conseguiu uma declaração inédita aí?
NH: Sim, é inédita. Em alguma cenas, parece que é facil mas ele é complicado quando fala da sexualidade dele. Aquilo foi um processo que levou mais de uma semana até chegar em um momento que parece uma coisa até pueril. Ele tava mostrando os ternos que ia usar na noite, aá conseguimos um momento de 'deitar na cama' Expulsei Nancy da cena, dei um pontapé na porta e evitei outras pessoas por perto. E aí ele falou. Essa coisa de extrair coisas das pessoas - você é jornalista, já viu isso inúmeras vezes - é um processo penoso, mas sempre bem sucedido se você ganha a confiança mas não de uma maneira falsa, ganha de maneira verdadeira, correta. Aí a pessoa se sente a vontade. É o que acontece nessa sequência. Depois ele diz que 'optou por mulher', mas aquela coisa toda que ele fala - e ele mesmo ri do que falou - isso é completamente inédito. Em geral as pessoas perguntam, mas não é assim, tem todo um processo que pode ser as vezes bem longo - que é como foi nesse caso. E não parece né? Parece que saiu facinho...

Por que o Cauby? O senhor o escolheu ou foi o contrário?
NH: Eu escolhi. Em geral eu faço filmes sobre personagens como o Francis, o Chacrinha, pessoas que eu gosto. Em segundo, são pessoas que tem uma veia transgressora. São formas transgressoras diferentes, mas da mesma natureza. Aí fica mais fácil, primeiro por que é prazeroso e de formas diferentes. O Francis foi meu melhor amigo por vinte anos. O Chacrinha eu nunca conheci. Já o Cauby tá vivo, então houve todo um processo de convencimento para fazer o filme. A primeira coisa é convencer a Nancy. Isso leva um tempo. Uns dois anos.
Como o senhor encontrou aquele personagem do garoto fã?
NH: Ele mandou uma mensagem para mim no Facebook, 'ah, eu sei que vocês estão fazendo o filme, eu tenho quinze anos, sou fã do Cauby' e tal . Aí eu pedi para a produção visitar o rapaz e ver se era verdade mesmo. Chamei o garoto, que mora no subúrbio do Rio, em Olaria e disse: vamos botar o garoto no filme. Aí tudo o que acontece é verdade. Ele diz, 'vai ter um show e eu vou ser o primeiro a comprar ingresso'. Aí criamos a situação para ele ir no show com o ingresso que ele comprou - mas lá dentro eu o apresento ao Cauby. Quando ele vai comprar disco em sebos na Praça Tiradentes ou na Praça XV, é tudo real. Só que, ao invés de fazer o garoto virar para a camera dizer 'meu nome é tal', eu botei o vendedor fazendo essa pergunta pra ele e ele começa a falar. Mas o garoto é real.
O senhor fez Paulo Francis, Chacrinha e Cauby. O senhor vê uma conexão entre esses filmes, eles formam uma trilogia?
NH: Tem o do Santos Dumont também. Mas vejo sim, uma conexão entre eles. São filmes sobre pesoas que gosto, admiro e que, como já disse, tem essa veia trangressora. E a estrutura é parecida, por que não são filmes biográficos, eles tem um recorte, cada um com o seu, mas você não vai saber por eles aonde nasceu, que escola estudou. Mas acho que há mesmo uma relação entre todos esse filmes: todos eles na verdade sao filhotes do Documento Especial
Como o senhor sabe, as biografias não-autorizadas estão liberadas. O que achou dessa história toda? O senhor tem algum projeto que estava emperrado por causa disso e agora vai retomar?
NH: Isso é da maior importância. Escrevi um texto para O Globo dizendo que isso muda a própria história do Brasil completamente, pois retira também dos documentários a necessidade ou de ser chapa branca ou de criar mil instrumentos para fugir a essa chapa branca. O que havia até agora era uma agressão tão grande que as vezes nem nos dávamos conta disso. Era uma agressão abrutal a liberdade de expressão, a democracia e ao direito da sociedade de ser informada. Você só podia falar sobre uma pessoa quando tinha a concordância dela em ser abordada e sobre tudo que se diz sobre ela lá dentro. Era impossível fazer um doc como Citizen Four ou um que ganhou o Oscar em 2010, esqueci o nome agora. O pior é que já existe uma legislação sobre isso, no Brasil é uma legislação por cima da outra. Se alguém faz um doc sobre você e há nisso calúnia, difamação ou injúria, você tem instrumentos legais para buscar seus direitos. Mas ali não: o que havia até ontem, você já era culpado. Você não poderia fazer no Brasil um doc sobre os mensaleirso ou um dos presos na Operação Lava Jato, coisas que sao do maior interesse da sociedade, pessoas que estão roubando bilhões de dólares. Mas para fazer um doc sobre isso precisava ter a autorização deles. Isso é inacreditável, é fora de qualquer parâmetro. Mas por que pode botar na TV (nos telejornais)? Por que a legislação é tão absurda que ela diz que noticiário na TV não tem interesse comercial! (risos) Mas documentário não pode. Você vê o Fantástico: 5 segundos do Fantástico é mais caro do que um documentário inteiro que eu faça, mas legislação dizia que eu, sim, estou em busca de resultados comerciais. Mas o Jornal Nacional, não. Essa decisão do Supremo muda a história do Brasil e permite, embora o centro das atenções seja as biografias, permite que o documentarista possa falar sobre sua sociedade. Agora vamos ver como vai se comportar.
Aquele material todo que o senhor fez para o Documento Especial está disponível em algum lugar? You Tube, DVD etc?
NH: Teve umas três temporadas de reprises no Canal Brasil. Agora estamos fazendo uma pesquisa para poder lançar uma quantidade grande de episódios em DVD. Estamos nos esforçando, por que para isso tem a parte jurídica e técnica, mas há uma chance muito grande que lancemos em DVD e video on demand.































