quinta-feira, fevereiro 13, 2020

LeGAL NA CONCHA

Com participação de Silva, Gal Costa traz de volta à cidade a bem sucedida turnê A Pele do Futuro

Dona Maria das Graças no show de 2019 no TCA, foto Mila Cordeiro
Verão em Salvador sem shows de Gal, Gil e Caetano deve ser bem ruim – felizmente ainda não conhecemos estação tão cinzenta.

Se na semana passada os dois últimos bateram ponto (brilhantemente, como sempre) nas dependências do Teatro Castro Alves, amanhã é a vez de Maria nos conceder a Graça de sua voz e presença no palco da Concha Acústica do mesmo TCA.

Esta é segunda apresentação que Gal faz em Salvador da turnê do seu álbum mais recente, A Pele do Futuro.

A primeira foi justamente há pouco mais de um ano, no dia 1º de fevereiro de 2019, na Sala Principal do Teatro Castro Alves.

Transferido na apresentação de amanhã para o ambiente mais descontraído da Concha Acústica, o show deve ganhar ainda mais animação, dado que traz vários momentos festivos no repertório.

Além da mudança de ambiente, outra novidade é a participação do cantor capixaba (cada vez mais baiano) Silva.

“É o mesmo show, a turnê do A Pele do Futuro que já rodou o país todo e o show está cada vez mais lindo. A única novidade é a participação do Silva”, confirma Gal, por email.

A relação entre Gal e Silva decorre de ele ter participado da turnê Ela Disse-Me Assim (aquela só com repertório do Lupicínio Rodrigues) e de ser dele uma das faixas de A Pele...: Palavras no Corpo, parceria com o poeta Omar Salomão (filho do vulcão tropicalista jequieense Waly).

“Com certeza cantaremos juntos Palavras no Corpo e o resto é surpresa, não quero estragar”, provoca.

Se esbanja talento na sua arte / profissão, dona Maria das Graças é bem econômica nas palavras e nas informações.

Cantora lendária, ótima banda, grande show. Foto Mila Cordeiro
Evita contar se a parceria com Silva renderá outros frutos: “Isso vamos deixar o tempo dizer. Ele é muito talentoso, adorei conhece-lo primeiro como músico do show de Lupicinio comigo, depois como lindo compositor e intérprete”.

E evita também dar qualquer pista sobre o que planeja fazer em seguida, finda a fase d’A Pele do Futuro: “Já estou pensando no próximo trabalho, mas também é surpresa ainda”.

Osso duro, mas OK. Ela pode.

Conexão sem explicação

Aos 31 anos, Silva vem aos poucos se tornando um dos nomes mais quentes da música brasileira: suas canções, muitas compostas com seu irmão Lucas, tem rendido gravações e duetos com nomes como Marisa Monte (Noturna [Nada de Novo na Noite]),  Ivete Sangalo (Pra Vida Inteira) e Ludmila (Um Pôr do Sol na Praia).

Seu álbum mais recente, Bloco do Silva, traz repertório só de sucessos da axé (e pré-axé) music, identificadíssimo que é o rapaz com a Bahia.

Silva, queridinho delas. Foto Breno Galtier
“Não sei explicar exatamente da onde vem essa conexão que tenho com Salvador, mas é muito forte. Deve ser alguma coisa de destino. E é muito bom saber que é recíproco, sempre recebo muito carinho dos amigos que são daí e vejo muita gente me acompanhando com amor”, conta.

Tudo isto posto, é fácil imaginar seu entusiasmo para o show de amanhã.

“Estou ansioso por isso, Gal é uma das minhas vozes favoritas do mundo. Passei bons momentos da vida ouvindo suas músicas. Tô muito feliz em cantar com ela em Salvador, na Concha Acústica”, afirma.

Axezeiro com orgulho, só falta ao Silva agora puxar um trio elétrico no circuito Barra - Ondina.

“Estamos fechando toda a agenda de Carnaval, mas vou dar um jeitinho de passar por Salvador”, garante, com aquele despiste de praxe.

Bom aluno, vai longe.

Gal Costa: A Pele do Futuro / Amanhã, 19h / Concha Acústica do Teatro Castro Alves / R$ 80 e R$ 40 / Camarote: R$ 160 e R$ 80 / Classificação: livre

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

PAGA AÍ, QUE EU TÔ DOIDÃO

Professor Doidão & Os Aloprados pisam fundo na Kombiruta em turnê com Marília Gabriela (a banda)

Aloprando: Cícero, Juliana, Isaac e Lucas, em foto de Dan Borges
Atenção, crianças! Silêncio na sala! Esta semana, o Professor Doidão está de volta às aulas, portanto, vamos prestar atenção.

Mestre em rock ‘n’ roll, Isaac Fiterman, o Professor Doidão, e seus assistentes, Os Aloprados, fazem mais um giro por Salvador e outras cidades, desta vez acompanhados de... Marília Gabriela?!? É isso mesmo, produção?

É isso mesmo: a banda paulista Marília Gabriela (que tem licença da titular para usar seu nome) se apresenta com o Professor Doidão & Os Aloprados sexta-feira (no Portela Café), dia 27 no Cultura Bacana Music Lounge Bar (Vitória da Conquista), dia 28 no Green Music Hall (Itabuna) e  no dia 29 em Itacaré (a confirmar).

Mas espera, não acabou ainda. As duas bandas ainda tocam no Palco do Rock 2020.

Achou muito? Que nada, maluco. Se tem uma coisa que o Professor & Os Aloprados conhecem bem são as estradas dessa Bahia. À bordo de sua (palosíssima) Kombiruta, o quarteto vem espalhando seus eflúvios psicodélicos por terras baianas e além.

“Ano passado rodamos bastante, divulgando nosso trabalho. Fizemos shows em Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Serrinha, Jequié, Vitória da Conquista, Itabuna, Uruçuca (Serra Grande), Lençóis, Palmeiras (Vale do Capão) e também em Belo Horizonte. Atualmente não temos um produtor fixo. O que tem acontecido são pessoas pontuais das diversas regiões que nos contactam e fazem a roda girar. Lula Palmeira, por exemplo, tem feito a nossa produção na região sul da Bahia e tem se arriscado em outras áreas também“, conta Isaac / Professor Doidão.

“Na sua maioria os shows tem as despesas (alimentação, hospedagem e transporte) bancadas pelos contratantes. A partir daí, cachê ou bilheteria – ou seja, risco só de ganhar. Em alguns casos (eventos solidários e novos espaços da grande Salvador), fazemos shows do próprio bolso”, diz.

Morda-se de inveja, Ken Kesey! Foto de Dan  Borges
Projeto em execução

Com dois EPs já gravados, a banda lançou no último dia 2 o single Eu e Você no Vale do Capão. “Foi gravado no Estúdios WR, e o clipe já está no forno. A ideia é  lançar mais uns três ou quatro singles e daí formar o terceiro EP”, conta.

Divertido e alto astral, o som do Professor Doidão tem sua contraparte gráfica perfeita na Kombiruta, um projeto ainda em execução: “Temos que finalizar o projeto da Kombiruta, nosso quinto elemento, com palco, gerador e equipamentos de som, para podermos levar nosso som aloprado para os quatro cantos da Bahia e do mundo”, ameaça Isaac.

“Vivemos tempos difíceis e a música precisa ter um papel diferenciado. Entreter é a palavra do momento.  Fazemos um som irreverente e dançante para quem quer se divertir mas também com letras para refletir. Bem-vindos à classe do Professor Doidão & os Aloprados”, conclui.

Marília Gabriela com Professor Doidão & Os Aloprados / Sexta-feira, 22 horas / Portela Café / (R. Itabuna, 304, Rio Vermelho) / R$ 20



NUETAS

Sintonize Pessoa

O cantor Pessoa faz show de lançamento do seu novo single, Sintonize. É sexta-feira, 21 horas, no Tropos Gastro Bar (Rua Ilhéus, 214, Rio Vermelho), R$ 10 (com direito a uma bebida).

Rock Baiano na Casa Ninja Bahia

Neste sábado, um evento muito legal rola na Casa Ninja Bahia (Largo da Mariquita, Rio Vermelho): é o Subterrâneo: Uma Homenagem ao Rock Baiano. Primeiro, roda de conversa com Ednílson Sacramento (autor do livro Rock Baiano: História de uma Cultura Subterrânea), Cairo Melo (NHL), Irmão Carlos, Ivana Vivas (pesquisadora), Maíra Morena (produtora), Rogério BigBross (o rock baiano em pessoa), Sandra de Cássia (Palco do Rock) e Sora Maia (fotógrafa). Na sequência, shows das bandas Bagum, Colibri, Tangolo Mangos e Astral Plane. 19 horas, R$ 10.

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

SONGS OF OUR LIVES

Grande banda nordestina, a sergipana Snooze sai de cena com belo álbum-tributo

A Snooze em ação em 2019, em um dos últimos show. Foto Saulo Coelho
Formada em 1993, em Aracaju, a banda Snooze foi, durante muito tempo, uma das principais representações do indie rock no Brasil, ao lado de outras pioneiras como a baiana brincando de deus, as paulistas Killing Chainsaw e Pin- Ups, a carioca Second Come e a brasiliense Low Dream, entre outras.

Encerrada no ano passado depois de mais de 25 anos de atividades e cinco álbuns gravados, a Snooze é agora homenageada pelo álbum-tributo Snoozing All This Time, já disponível nas plataformas de streaming.

Organizado pelo músico Gus Machado, via Noise Floor Records, o tributo traz bandas importantes do cenário indie, como Wry (SP), Renegades of Punk (SE), a baiana Pastel de Miolos e cantores solo como o próprio Gus, Panço (RJ) e o potiguar Dimetrius Ferreira.

“O tributo surgiu a partir de um post de Facebook onde o Gus Machado reverenciava a banda e tinha muito comentário bacana, e alguém (na verdade, o próprio Gus) deu essa ideia lá e ele resolveu levar a  adiante. Contactamos vários amigos da cena e bandas que já nos relacionávamos, de Aracaju e do Brasil. Basicamente pessoas que gostavam dos nossos discos ou se diziam influenciados. Depois apareceram mais bandas e artistas novos que nem tínhamos muita relação, e isso foi ótimo”, relata o baterista Rafael Jr., que junto com seu irmão Fabio Snoozer (baixo, voz) são os únicos remanescentes desde o início.

“Escrevi esse post depois de amanhecer com uma música do Snooze na cabeça. Eu dizia o quanto eles não eram apenas a minha banda sergipana favorita, mas sim uma das minhas bandas favoritas da vida. E que, graças a eles, por me fazerem sentir representado  - aos 12 anos de idade - no show de lançamento do Let My Head Blow Up (2002) -  pude entender que mesmo estando fora dos grandes centros, era possível fazer música e ‘soar como uma banda grande’, acrescenta Gus Machado.

Coletivo, o trabalho envolveu Gus, os irmãos Snooze, Wilson Santana (PdM) e Dimetrius.

“Foi criada uma lista de emails com orientações gerais, uma lista enorme de músicas e um prazo razoavelmente longo para a entrega da gravação. Não tínhamos dinheiro nenhum e cada banda arcou com sua gravação. É um trabalho coletivo, portanto, mas com algumas pessoas encabeçando. Formamos um grupo de Whatsapp com o Gus, Dimétrius de Natal (RN), que ajudou bastante na parte do site, o Wilson da banda Pastel de Miolos com várias ideias boas advindas de sua experiência com selos independentes, e eu e meu irmão Fabinho da banda, como 'curadores' do projeto. Cada banda escolheu sua música e ai riscávamos da lista geral. Gus fez as ilustrações de cada banda, e há depoimentos de cada artista no site, sobre a escolha da música e como conheceu a Snooze”, relata Rafael.

O cantor potiguar Dimetrius, foto José TM
"Eu não contava com a adesão imediata do Snooze ao meu projeto (que hoje nem é só mais meu), mas com a participação deles eu tive acesso a outras bandas que eram contemporâneas deles - Sem eles, eu nunca chegaria a bandas que dividiram a estrada com eles quando eu ainda era uma criança. Então, naturalmente Rafael e Fabinho assumiram o papel de curadores sugerindo e me colocando em contato com bandas que tinham vínculos emocionais com o Snooze. A seleção de bandas foi completamente parcial e guiada pela memória afetiva. Eles sugeriram artistas com quem eles dividiram a cena e eu sugeri artistas com quem eu dividi a cena", acrescenta Gus

O resultado está no site snoozingallthistime.com, com todas as músicas, links, fotos e textos. Infelizmente. não haverá um evento para marcar o lançamento do projeto, mas Gus não descarta gerar novos filhotes a  partir deste trabalho. “A cena tem mudado e hoje existe a música e todo o conteúdo gerado ao redor dela. Hoje é uma coletânea, amanhã pode ser um livro, e depois de amanhã, quem sabe, uma exposição”, aposta.

Uma conclusão

Indie rock "raiz", a Snooze ainda assim foi abraçada no projeto por artistas da geração mais nova do indie contemporâneo, que, como sabemos, é mais brasileiro, menos triste e mais tropical.

"Tento assimilar e entender o indie atual brasileiro, mas tenho dificuldades. Gosto de algumas coisas, mas cheguei à conclusão que sou mesmo 'old school' (risos). Acho ótimas as mudanças, mas não é muito meu gosto pessoal. Nossa posição nesse cenário é que fomos old school até o fim das atividades... Não sei se isso é bom ou ruim, apenas éramos 'de verdade', sempre fizemos o som que quisemos fazer, sem qualquer tipo de concessão", afirma Rafael.

"Fiz um caminho longo para chegar a música brasileira. Acho que nisso eu e o indie rock temos algo em comum. Acho sensacional essa redescoberta de influências brasileiras (e por que não latinas?) e a sua incorporação no indie rock. Acredito que isso vai fazer a música produzida aqui cada vez mais única. Concordo com o Rafael que a mudança é positiva. Discordo dele apenas pelo fato de gostar muito do que tem surgido. O Snooze é uma banda noise e oldschool, porém quem houve Má Love, do LMHBU vai ver uma deixa de ritmos mais brasileiros. (Será que foi o inconsciente?) Em tempo, acho que uma das vantagens de ser independente é não ter que ser fiel a nada, nem se quer ao seu trabalho prévio", observa Gus.

Valeu, Snooze! Viva o rock sergipano! Foto Saulo Coelho
Enfim, a banda acaba, mas o som fica.

"Essa é a notícia triste: tínhamos novas músicas e uns demos, tocamos em alguns festivais importantes em Sergipe em 2019, tinha o plano de fazer um disco novo já há algum tempo, mas sucumbimos e não sei dizer a razão exata. Apenas chegou a hora de fechar o ciclo depois de mais de 25 anos de atividade, e todos concordaram. Salvador sempre foi nossa segunda casa e bastava uma ligação pro Wilson, Tony ou Rogério Big Brother, e teríamos uma data. Fizemos muitos amigos na cena baiana e foram mais de 20 shows em Salvador e alguns no interior da Bahia. Sempre recebemos as bandas baianas em Aracaju também, desde os anos 90", conclui Rafael.

"Vamos ficar órfãos da Snooze. Eu desejo a cada um deles, dos irmãos Snooze aos membros da última formação, que continuem produzindo música autoral. De repente, deste fim, vem uma multiplicação de projetos e muito material bacana para se ouvir", conclui Gus.

Por fim: ouça o disco, visitem o site: http://snoozingallthistime.com/



NUETAS

Retrofoguetes X 2

Os fabulosos Retrofoguetes fazem duas sessões de seu show Surf Carnival nas próximas duas quintas-feiras (HOJE e 13), sempre às 20 horas. É no Teatro Sesc Senac Pelourinho, R$ 10 ou R$ 8 (cliente Sesc).

Metal no Teatro sábado

Behavior, Drearylands e Inner Call e Beyond The Evollution fazem a primeira edição do ano do evento Metal no Teatro. É sábado, 17 horas, no Cine Teatro Solar Boa Vista (Brotas), R$ 25 ou antecipado a R$ 15 + um kg de alimento não perecível.

BB sexta e sábado

O country rock do Only Cash - Johnny Cash Tribute na sexta-feira e o guitar noise de Os Reids e Célula Mekânika no sábado. Sempre às 19h no  Bardos Bardos, R$ 10.

quarta-feira, janeiro 29, 2020

RUMO AO ESQUECIMENTO

O Homem Sem Talento, de Yoshiharu Tsuge, é o mangá com menos cara de mangá que já foi publicado no Brasil. Clássico, é um périplo ao Japão dos grotões, longe da modernidade à luz neon de Tóquio

Quando se fala em mangás, logo nos vem à mente uma profusão de personagens de olhos enormes e espadas em punho, em meio à muitos efeitos de movimento e cenários fantasiosos.

Felizmente, nem só de Dragon Ball e Pokemon vivem os quadrinhos japoneses.

Um excelente exemplo que foge totalmente à estética e às temáticas usuais das HQs produzidas no Japão, O Homem Sem Talento, de Yoshiharu Tsuge, pode ser uma das melhores coisas que você vai ler neste início de 2020.

Semiautobiográfica, a HQ acompanha a vida nada interessante de Sukegawa, um homem de meia idade, casado e com um filho pequeno, que é desenhista de mangás mas desiste de trabalhar para a indústria, passando a exercer atividades absolutamente infrutíferas e desnecessárias – tentativas contínuas de auto-sabotagem.

Ele começa vendendo pedras, algo que parece completamente sem sentido para nós, ocidentais, mas que, de fato, existe como atividade comercial e espiritual no Japão.

Lá, a observação de pedras – ou suiseki – retiradas de lagos são encaradas como atividades de relaxamento e espiritualidade elevada.

Porém, as pedras catadas no rio próximo à sua casa simplesmente não tem valor.

O direito de desaparecer

Nos capítulos seguintes o loser nipônico tentará vender pássaros e câmeras fotográficas velhas, entre outras inutilidades – sempre para dar com os burros n’água e seguir na pobreza com sua mulher mal-humorada e seu filho choroso e catarrento – uma vida miserável que, no entanto, lhe parece bastante conveniente, já que ele insiste em não fazer nada realmente efetivo para tirar o pé da lama.

Descrito assim, parece horrível. No entanto, é uma das HQs mais belas já produzidas no Japão.

Sua consistência temática – e constância narrativa –, além dos desenhos belíssimos de Tsuge, constituem uma obra definida pela crítica internacional como nada menos que uma obra-prima – termo gasto, porém plenamente justificado aqui.

Em seus périplos, Sukegawa conhece tipos ainda mais excêntricos e tristes do que ele, como os participantes de um leilão de pedras, o dono de uma loja de pássaros que insiste em só comercializar aves japonesas de difícil criação doméstica e um livreiro de aspecto cadavérico e passado obscuro.

A cada parada em sua jornada rumo ao nada, Sukegawa – e os leitores – ouvem considerações e histórias extraordinárias que muito nos revelam do Japão dos grotões, muito longe da modernidade à luz neon de Tóquio, um país desconhecido, onde se contemplam pedras e pessoas podem se tornar andarilhas por livre e espontânea vontade.

O capitulo final, sugestivamente intitulado Desaparecer, é especialmente belo, quando o livreiro esquisitão vende à Sukegawa um livro de Inoue Seigetsu, poeta errante do século 19 e cuja trajetória parece amarrar com perfeição esta ode – não ao fracasso, mas à liberdade absoluta, inclusive à liberdade de não querer ser alguém ou fazer algo.

Aqui, a ode é ao direito de se desvanecer em meio à bruma, rumo ao esquecimento.

O que não deixa de ser irônico, visto que tanto Seigetsu quanto Tusge são idolatrados no Japão e fora dele.

Enfim, até para ser um fracasso é preciso talento, é preciso ter arte.

Em tempo: a edição da Veneta, primorosa, como de costume, é em capa dura e traz dois textos: um do editor Mitsuhuro Asakawa e outro do premiado brasileiro Marcello Quintanilha (Tungstênio, Luzes de Niterói), que faz um bem humorado paralelo entre a HQ, Dodeskaden (1971, o clássico de Akira de Kurosawa) e a obra-prima brasileira Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

O Homem Sem Talento / Yoshiharu Tsuge / Veneta / Tradução: Esther Sumi / 240 p. / R$ 64,90

terça-feira, janeiro 28, 2020

ELECTRO ABSTRACT

Duo eletrônico Aurata faz temporada de três datas com convidados no Cabaré dos Novos 

Aurata, foto Ananda Brasileiro
Referência em música eletrônica indie, o duo Aurata faz temporada de três datas às quartas-feiras no Cabaré dos Novos do Teatro Vila Velha a partir de amanhã.

A cada dia, um convidado, abrindo com o trio psicodélico Bagum, seguido pelo coletivo feminino Fenda (dia 5) e a banda Suavv fechando (dia 12).

Surgido em 2014 em uma leva de novas bandas indie / psicodélicas que contava com nomes como Mapa, Soft Porn e Van Der Vous, o Aurata é o experimento multimídia / pseudônimo artístico do artista visual, poeta, músico e produtor musical Ramon Gonçalves.

No ano passado, reconfigurou-se em um duo, com a efetivação do multi-instrumentista e produtor Pedro Oliveira Barbosa.

“Essa temporada surgiu muito pelo vínculo gerado entre a gente e o Vila por conta d'A Tempestade”, conta Ramón, que é diretor musical da adaptação de Shakespeare  em cartaz no TVV.

“Assinamos parte da direção musical do espetáculo e durante o processo surgiu a possibilidade de nos apresentarmos durante algumas semanas. O Vila é uma potência e estamos muito felizes em poder experimentar nossa música em diversos formatos, durante as próximas semanas”, acrescenta o artista.

Não-lugar

Coletivo Fenda, foto Milena Abreu
Essencialmente eletrônico e experimental, o som da Aurata é inclassificável sob termos convencionais, já que – pelo menos em seus trabalhos mais recentes, como o álbum Satori (2018, lançado na gringa pelo selo holandês Whirling Wolf) –, o que se ouve é uma série de peças abstratas mais para o erudito contemporâneo (descontado o academicismo) do que para canções pop.

“No começo do projeto eu estava tentando entender como produzir música sozinho, mas ainda assim refratando muito de uma lógica de ‘banda’”, conta Ramón.

“Existe um fio condutor em minha produção e alguns anos e registros depois, sinto que temos nos aproximado desse aspecto ‘não-lugar’ que talvez eu tenha buscado desde sempre, utilizando de  texturas e a elaboração de pequenas camadas para que o aspecto circular da música crie seu próprio corpo, atmosfera”, descreve.

Bagum, foto Milena Abreu
Interessante e hipnótico, o som da Aurata vale aquela conferida – ao vivo ou no streaming. E ainda rola  as bandas convidadas.

“A cada semana iremos nos apresentar e dividir algumas faixas com cada um dos projetos. Estamos ansiosos para ver quais lugares (ou não-lugares) as próximas semanas nos guiarão”, conclui.

Aurata Convida / Amanhã (com Bagum) e dias 5 (com o Coletivo Fenda) e 12 de fevereiro (com Suavv), 20 horas / Cabaré dos novos do Teatro Vila Velha / R$ 10 e R$ 5



NUETAS 

Persie no Zungu hoje

DJ e ícone fashion do underground baiano, Persie era figura recorrente na night do Rio Vermelho até alguns atrás. Residente em São Paulo desde 2011, Persie começou a desenvolver um interessante trabalho por lá, com dois EPs lançados e um terceiro chegando agora em fevereiro. Hoje ela apresenta este trabalho em um show no Zungu Iyagbá com os convidados Alex Tico (guitarra) e Jeronimo Sodré (programação). 21h30, colabore quando chapéu passar.


Game Over quinta

A ótima Game Over Riverside lança o registro ao vivo Live no Bardos Bardos – mesmo local onde foi gravado. Quinta-feira, 19 horas, R$ 10.

Finde gordo no BB

E vale o registro: a casa da Travessa Basílio da Gama caprichou demais na programação para a festa de Iemanjá. Sábado tem sarapatel (R$ 20) ao som de Chocolate com Blues, Todo Meu Ódio e outros a partir das 14 horas. E no domingo (2) tem feijoada (R$ 20) com Casapronta, Calafrio, Meus Amigos Estão Velhos, Banda de Rock e outros. 14 horas, no Bardos Bardos.

quarta-feira, janeiro 22, 2020

BOMB THE BASS

Sábado tem encontro de blueseiros na Varanda do Sesi e a noite é dos baixistas

Jerry, foto Angela Pereira
Instituição do blues na Bahia, a banda Água Suja promove neste sábado a oitava edição do seu evento anual Encontro de Blueseiros.

Desta vez, sob a temática Noite dos Baixistas, tendo à frente a lenda viva local Jerry Marlon, sujeito de larga experiência no underground desde os tempos da Delirium Tremens, depois 14º Andar, bandas antológicas do rock baiano.

No palco, além de Jerry, Oyama Bittencourt (guitarra e vocal), Zito Moura (teclado) e Brian Knave (bateria), grandes baixistas convidados: Américo Paim (Banda Spectro), Humberto Batalha (Mil Milhas), Keko Pires, Luciano Calazans, Octávio Américo e Tony Duarte (Gerônimo).

Aí quem ficou se perguntando, “noite dos baixistas, como é isso?”, merece essa resposta: “Com muito ritmo e groove, logicamente. Experimenta tirar o baixo das músicas pra ver o que acontece”, diz Jerry.

“O formato será com cada um deles se presentando com a banda e depois comigo,  juntos. Com dois baixos. Vai ser bom demais”, garante.

E tem mais: mané achando que o blues só prestigia guitarrista e gaitista, se liga só no tanto de baixista lendário que o gênero legou. “Willie Dixon (pioneiro), Donald Duck Dunn (The Blues Brothers), Jack Bruce (Cream), Abraham Laboriel (lenda viva, tocou com Deus e o mundo), Jerry Scheff (Elvis, Bob Dylan), Tommy Shannon (Stevie Ray Vaughan), enfim... (essas influências) é algo muito pessoal, até porque muitos músicos possuem conceitos sobre blues que muitas vezes incluem o jazz, que veio diretamente do blues. Longa história, assunto pra muito, muito tempo”, enumera Jerry.

Sectos e conchavos

Água Suja: Jerry, Brian, Oyama, Zito, foto Angela Pereira
Conhecidos pelo vasto repertório de standards, o Água Suja chega em 2020 com uma grande novidade: em breve, lançam seu primeiro álbum autoral.

“Estamos em pleno desenvolvimento do nosso disco e estamos nos dedicando pra ele até com cautela demais”, pondera Jerry.

Então tá combinado: sábado é a noite de Jerry Marlon na Varanda do Sesi – até porque é também aniversário da figura. Então é ele quem manda, tá OK?

“O nome (desse show) poderia ser Encontro de Baixistas Amigos de Jerry Marlon. Uma vez que tudo é feito com sectos e conchavos, eu faço o meu”, provoca.

“Ainda mais no meu aniversário. Até porque,  desses que aí estão no cast do show, apenas Octavio Américo (ex-Mojo Blues Band, do saudoso Álvaro Assmar) tem algum feedback na história do blues local. Os outros são grandes músicos e profissionais pelos quais tenho o maior apreço”, conclui.

8º Encontro de Blueseiros de Salvador: Edição especial Noite dos Baixistas / Sábado, 22h / Varanda do Sesi / R$ 35 / Informações e Reservas: 71 99686-9963 | 8164-9058

NUETAS

Falaschi na sexta

Ex-vocalista das bandas Angra e Almah, Edu Falaschi traz à cidade seu show Moonlight Celebration. Apresentação acústica, para apreciar cedo e sentado. Sexta-feira, 20 horas, no Teatro Isba, R$ 120, R$ 60. Ingresso solidário: R$ 62 + um quilo de alimento. Vendas: ingressorapido.com.br.

Heitor no Bardos

O som experimental de Heitor Dantas fecha temporada aos sábados de janeiro no Bardos Bardos. 17 horas, valor sugerido: R$ 20.

Terráqueos sunset

Liderada pelo bluesman Lon Bové, a Banda Terráquea faz o pôr do sol deste domingo na Varanda do Sesi. Atenção para a gaita de Luiz Rocha e a seção de sopros dos Skanibais, todos no palco. Domingo, 17h, R$ 30. Doando camisa usada ganha ecobag de graça.

terça-feira, janeiro 14, 2020

EM CASA, DE BOA

Com álbum novo no forno, André Mendes solta EP “de verão” e quer tocar na sua rua

André, foto Cintia M.
Sujeito com uma história sui generis no rock baiano, André Mendes prepara uma volta marcante à carreira solo em 2020, após o breve retorno de sua banda original, Maria Bacana, em 2018.

Vale lembrar que naquele ano a MB lançou seu segundo disco, o adorável A Vida Boa Que Tem os Dias que Brincam Leves, fez alguns poucos shows e retornou ao estaleiro.

Há alguns meses, André tem gravado seu sétimo (!) álbum solo, já intitulado O Rei dos Animais, com lançamento previsto para “os próximos meses”, no Estúdios WR,  produzido por Apu Tude (que também produziu A Vida Boa...).

Porém, menino irrequieto, André não se segurou e soltou nos últimos dias de 2019 um EP com seis faixas, gravado em casa mesmo, via iPad: Casas Brasileiras.

“Casas Brasileiras é meu EP de verão... Um disco relaxado, um ‘ao vivo na sala de uma casa brasileira’, no caso, a minha. Um disco pra comemorar o verão. O disco novo pra valer é o Rei dos Animais, gravado com toda atenção e produzido por Apu Tude”, conta André.

“Gravei no dia 16 de dezembro. Tudo num take só, uma voz e um instrumento em cada faixa. Compus a faixa-título na hora e decidi que ela teria uma sonoridade diferente do resto, é voz e violão de nylon numa canção estilo Felicidade, de Lupicínio Rodrigues e letra inspirada em Guimarães Rosa. Apontando pro passado e pro (meu) futuro”, relata.

Como se vê, um prato cheio para fãs de registros despojados e lo fi, mas nem por isso desprovidos de pretensão artística – quem nunca, né?

"Sabe que esse disco rolou numa naturalidade tão grande que não teve uma racionalização prévia, tipo 'que tipo de som vou gravar? que disco/artista vou ter como referência?' Eu simplesmente tava tocando guitarra e cantando em casa algumas das minhas composições preferidas. Aí eu pensei 'como O Rei dos Animais ficou pra 2020, vou gravar essas musicas, como estão soando aqui, agora, na energia rústica, pra lançar o quanto antes e celebrar o verão'. Eu só sabia que queria aquelas musicas e que a capa seria amarela. Só", relata.

Aproveita a oportunidade

Caseiro por natureza, punk de coração, André não costuma fazer muitos shows.

Mas está tão de boa com essa brisa de verão que tem soprado nesta província besta e bela, (beijo, Franciel Cruz), que é capaz de aparecer uma hora dessas na esquina da sua casa, violão em punho e peito aberto.

“Quero muito tocar ao vivo nesse verão. Já me inscrevi em todas as feiras que rolam por agora em Salvador. Tô pronto com minha guitarra e meu violão pra tocar aonde me chamarem”, afirma.

Sobre a Maria Bacana, ele diz achar muito improvável uma nova reunião.

"'Nunca diga nunca', mas acho extremamente difícil que a Maria Bacana volte a tocar o disco A vida boa... Funcionou como celebração e ponto final na nossa história. Cada um foi pra um lado conceitual de levar a vida e acho que agora esse final consensual é definitivo. Foi uma ótima história pessoal e musical e os discos estão aí pra quem quiser ouvir", afirma.

Fora isso, ele aguarda o momento de mostrar ao mundo seu novo trabalho, O Rei dos Animais.

“É muito diferente de tudo que já fiz. Se o foco da minha carreira sempre foi letra e melodia, esse foco está ainda mais intenso. É a oportunidade de gravar num estúdio profissional com um produtor sensacional, que eu não sei quando terei outra igual”, afirma.

“Tô muito fascinado pela labuta, pelo refinamento no processo da criação. Ao mesmo tempo que estamos lidando com música pop, três minutos pra passar a mensagem. A brincadeira é tentar balancear a vontade de refinar e a vontade de comunicar”, observa.

E  o que mais, André?

"Queria convidar todos que gostam de música a ouvir meus discos nas plataformas de streaming e me seguir no Instagram (@andrelrmendes ) pra ficar por dentro das novidades e das minhas ideias.
Viva a arte brasileira! Viva a arte brasileira!", conclui.

Ouça: www.andreLRmendes.com.br



NUETAS

STU sex, sab, dom

Rapeize gente fina da Vivendo do Ócio, foto sem autor (se alguém souber avisa)
STU Festival chegando bonito, com três dias free no Parque Costa Azul. Entre outros, tem Vivendo do Ócio (sexta-feira), Nação Zumbi (sábado) e Ministereo Público Sistema de Som convida BNegão (domingo). 16 horas, gratuito.

Ronei sexta também

Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta. Show único. Sexta, 21h, no  Commons. R$ 20, uma pechincha pelo show mais f... do verão. Pardon my French.

Serafim, Lacertae...

A banda Serafim & o Nordeste Experimental faz show festivo com vários convidados neste domingo:  Lacertae (SE), Morotó Slim, Marculino e Seus Belezas, Igor Caxixi, Leandro Mellid (Agentina),  Sophia Mídian e Jenny (Potugal). Varanda do Sesi, 17h, R$ 25.

quarta-feira, janeiro 08, 2020

O NÓ DAS RELAÇÕES

Ao cantar a dificuldade das relações em tempos obscuros sob estética despojada, cantora Lara Aufranc produziu um dos melhores discos de 2019, embora pouco badalado

Lara Aufranc em foto de Gal Oppido
Pode-se dizer muitas coisas de 2019 – para começar, foi um ano muito difícil, claro. Mas, ao mesmo tempo, é na dificuldade que a arte parece florescer com mais força e pungência.

Muitos artistas se destacaram neste ano, mas foram tantos que sempre escapa um ou outro que não recebeu a devida atenção. A cantora paulistana Lara Aufranc certamente pode ser incluída neste rol.

Dona de uma voz  arrepiante de tão bonita, Lara lançou em 2019 seu segundo álbum solo, Eu Você Um Nó. Muito elogiado pela crítica, este disco parece marcar  uma virada criativa em sua carreira.

Mais introspectivo e reflexivo que os anteriores, Passagem (2017) e Em Boa Hora (2015) – este último lançado  com sua antiga banda, Lara & Os Ultraleves –, Eu Você Um Nó é um pequeno-porém-precioso tratado sobre as difíceis relações humanas neste lugar e nesta época.

"É uma continuação natural. Eu Você Um Nó é um trabalho diferente, mais denso que o Passagem.  Mas tem suas semelhanças, tanto que tenho tocado músicas dos dois discos nos shows e tá rolando super bem", afirma Lara, por email.

“Vivemos um momento conturbado. As pessoas estão com muita dificuldade de se ouvir, de enxergar o outro. Falta empatia. É a era do eu, do indivíduo autocentrado. A gente precisa começar a pensar em sociedade, cidadania”, acrescenta

De fato, Eu Você Um Nó pode ser definido como um  álbum sintético: tem apenas nove faixas e arranjos quase espartanos, só no baixo, guitarra, bateria e pouco mais.

"(Essa estética mais despojada) Foi uma escolha. Conseguimos aprovar o projeto do disco no Edital de Apoio à Criação Artística da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo – ou seja, dessa vez a gente tinha verba pra gravar. Eu quis fazer um disco cru, um som que funciona ao vivo, que não fica devendo nada pra gravação. Eu Você Um Nó é o resultado dessa escolha. Em paralelo, optei por remunerar muito bem a minha equipe, especialmente os músicos – que já foram parceiros em outros momentos, quando não tinha grana nem edital", conta.

Suas levadas são angulosas, secas às vezes, o que cria um contraste muito interessante com sua voz quente e sensual.

Em alguns momentos, lembra o que se fazia de melhor na cena paulistana dos anos 1980, entre a vanguarda paulista e o pós-punk.

“Eu gosto muito do Itamar (Assumpção) e do Jards (Macalé) – que não é paulista, mas tem a ver em loucura e criatividade. Tem um lance crítico nas letras, de contestação. Isso faz muito sentido pra mim, ainda mais nos dias de hoje”, observa.

“Talvez o momento histórico seja parecido. Tem uma desilusão, quase uma desesperança na humanidade. O som reflete essa angústia. Bowie, Iggy Pop, Nick Cave & The Bad Seeds, Portishead (já dos anos 1990). Tudo isso é muito atual”, acrescenta.



Cara, larguei o emprego

Lara. Foto Gal Oppido
Para produzir o álbum, Lara encontrou no cultuado Rômulo Fróes um valoroso aliado. Diretor artístico do disco, Rômulo ainda assina duas letras: a febril Só Dessa Vez e a contestadora Gritos na Avenida (que Lara canta em dueto com a cantora  Julia Branco).

“O diretor artístico é um cara que pensa não só a parte musical, mas também estética (capa, conceito). Foi a primeira vez que tive essa figura na hora de construir um disco. Me ajudou com a escolha do repertório, participou de todos os ensaios, deu pitaco nos arranjos… Ele foi o nosso norte, meu e da banda”, conta Lara.

Antes de se jogar na carreira musical, Lara trabalhou como editora de vídeo. Largou tudo para se dedicar à sua paixão.

“Minha trajetória não foi linear. Estudei canto e piano, e tinha banda na época da faculdade. Mas era insegura, demorei pra me assumir compositora. A música é um universo masculino, isso me intimidava – e intimida até hoje. Eu estava saindo de uma adolescência difícil e o palco me dava muito medo. Me expor era um sofrimento. Trabalhar com audiovisual foi o jeito que eu encontrei pra levar uma vida tranquila. Eu sou viciada em cinema e era feliz na ilha de edição”, relata.

“Em 2012, eu comecei a pesquisar as origens do rock e descobri várias pérolas do blues. Música do começo do século 20, visceral, feita por descendentes de escravos. Me bateu forte e eu resolvi montar uma banda. Foi aí que surgiu Lara & Os Ultraleves. Pra mim foi importante parar de editar, foi o primeiro passo. O segundo foi assumir a minha identidade, meu nome e sobrenome. Passei a criar sem as amarras de um gênero musical, e sem me esconder atrás de uma banda. E no meio disso tudo, encontrei meu lugar no palco”, conta.

Ousada, Lara não hesita em se mostrar nua tanto na capa do disco novo quanto no clipe Llena de Agua, do álbum anterior. De fato, já passou da hora disso - um corpo nu à vista - ser algo que cause escândalo, quando há tanta coisa - essas sim, indecentes - nos estapeando na cara a todo momento.

"Sim, eu vejo dessa forma. A nudez é natural. Os defensores da moral e dos bons costumes tem o olhar deturpado. Enxergam pecado nos lugares mais absurdos. Um corpo é só um corpo, não tem nada demais. Em tempos de repressão e ignorância, não podemos retroceder", afirma.

Em plena atividade, evoluindo a cada álbum, Lara planeja agora levar seu show para outras plateias, fora de São Paulo.

"2019 foi um ano puxado pra mim. Além do disco e toda a burocracia do edital, eu fiz um curso técnico de teatro. Em 2020, quero gravar três videoclipes do Eu Você Um Nó, e também procurar outras oportunidades de atuar, especialmente no audiovisual. Gostei muito de sair de São Paulo com o disco novo, vou viajar mais no ano que vem. Tenho planos de ir para o Sul e Nordeste, talvez até uma pequena turnê na Europa. E tem outro lançamento previsto, mas ainda é surpresa!”, promete.

Então vem, Lara.

Eu você um nó / Lara Aufranc / YB Music / Disponível nas plataformas digitais

terça-feira, janeiro 07, 2020

ANTIFAFEST

Festival Saco de Vacilo domina o sábado no Mercadão CC com rock e hardcore antifa

O quarteto de hardcore crustfeminista Räivä, de Maceió. Foto Luiz Bgz
Antes de mais nada, cabe um aviso: se a sua onda  é tipo reacionarismo, misoginia, racismo e outros medievalismos a fins, evite as proximidades do Mercadão CC neste sábado.

É, tô ligado que tá na moda, mano, mas vai por mim, não vai ser bom pra você.

Neste sábado rola uma reunião de bandas antifa puro sangue no olho: é a terceira edição do Festival Saco de Vacilo.

Se liga no line up, só neguinho furioso: Räivä (hardcore crustfeminista de Alagoas), Splattered Genocide (com esse nome até eu fiquei com medo), Pastel de Miolos (veteranos do punk baiano), Macumba Love (riot grrrls), SuRRmenage (hard rock 90’s), Bosta Rala (clássica do HC local), Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes (duo da pesada), Belzebul Drinks (a conferir), Injúria (outra veterana da cena punk HC) e Aphorism (death metal).

A realização, zero por cento patrocinada por quem quer que seja, é do coletivo contracultural Saco de Vacilo, formado por Rodrigo Gagliano, Gabriel Gomes e Eduardo Lima. “Contamos com o suporte e apoio de toda uma cena”, conta Eduardo Lima.

“Algumas dessas pessoas têm seus coletivos ou selos, que também são bem ativos na cena local: Entorte Discos, Choice Made Records, Monstrinho Reckords, Coletivo dos Pombos”, acrescenta.

O duo Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes. Foto Denisse Salazar 
"O esquema é total Faça Você Mesmo. Na real, nunca buscamos um patrocínio, mas como disse anteriormente diversas pessoas fazem nossos eventos acontecerem. Nessa edição, por exemplo, tivemos um bom suporte de Rogério BigBross, da Big Bross Records e nossos amigos da Pojuca Crew. Não chega a ser uma patrocínio, pois não tem esse lance comercial. É uma brodagem, uma ajuda de amigos mesmo. Por não ter verba em caixa, e colocarmos o ingresso a um valor que atraiam as pessoas a colarem no evento, não temos fluxo de caixa para bancar cachê para as bandas, porém sempre garantimos a logística da banda convidada de fora do estado, ajuda de custo mesmo, e minimamente uma estrutura legal para as bandas se apresentarem, assim como os valores dos custos do evento mesmo em si, que acabamos retirando da bilheteria. As duas edições conseguiram pagar esses custos, esperamos que nessa terceira edição não seja diferente. Como já adiantei acima, Big foi o responsável por esse contato com o Mercadão CC, ele fez acontecer que Festival esse ano saísse do Centro Histórico e migrasse ao Rio Vermelho, as duas edições anteriores ocorreram no Buk Porão, que sempre nos acolheu de forma excepcional", relata Dudu.

Rock e bate-papo

Pastel de Miolos, foto Alaim
Oriundos da cena hardcore local, a iniciativa toda é 100% política, mesmo. E mais: só entra banda nordestina.

“Não apenas o festival, como todas as atividades que fazemos durante o ano tem a filosofia básica do punk, que é o Faça Você Mesmo. Como gostamos de frisar, somos um coletivo hardcore e hardcore é política. Assim, não fechamos com fachos (fascistas) ou qualquer espécie de pessoas escrotas, racistas e preconceituosas”, afirma.

“Entendemos que a cena nordestina merece seu lugar de destaque, nem que esse lugar seja conquistado na tora. Também não repetimos atrações de edições anteriores para poder abarcar a maior quantidade possível de bandas de uma cena tão rica como a que temos no Nordeste. Outros pontos que analisamos são relativos a heterogeneidade das bandas, pois apesar de sermos um coletivo hardcore, gostamos que o Festival seja um momento para as bandas se conhecerem, saírem dos seus nichos para expandir suas relações. E sempre tentamos trazer grupos novos, como a Belzebul Drinks, e clássicas, como é o caso da Bosta Rala, Pastel de Miolos e Injúria, que estarão nessa edição”, acrescenta Dudu.

Além do festival, o coletivo bate ponto toda última quinta-feira do mês no Bardos Bardos, quando promove uma roda de conversa. “É o Bate Papo Saco de Vacilo, o qual aborda diversos temas ligados ou não à cena hardcore, sempre com um convidado ou convidada para falar sobre o tema em questão. A ideia é ter pessoas com um vasto currículo, trazendo a academia, tão distante da população para um bar”, descreve Dudu.

O power trio SuRRmenage, Foto: Fernando Udo
Já teve conversa com o sindicalista Denis Soares (blog Trampo), o jornalista Fausto Arruda Filho, (A Nova Democracia), Evanilson Alves (poeta) e Leila Grave (psicóloga), entre outros.

Quem quiser sentir um gostinho do que vai ser o festival tem um pré-show nesta sexta-feira, que é a Micareta Saco de Vacilo, com a surf music da banda Ivan Motosserra e discotecagem do DJ Ivan Motosserra. 19h no Bardos Bardos.

Festival Saco de Vacilo 2020 / Com as bandas Räivä (AL), Splattered Genocide, Pastel de Miolos, Macumba Love, SuRRmenage, Bosta Rala, Búfalos Vermelhos e a Orquestra de Elefantes, Belzebul Drinks e Injúria / Sábado, 14h /  Mercadão CC (Rio Vermelho) / R$ 10

NUETAS

Sequestro no Sesi

A banda local Sequestro Relâmpago faz show acústico amanhã na Varanda do Sesi Rio Vermelho. No repertório, autorais e clássicos do rock e MPB marginal. 22h, R$ 20.

O trio carioca Pietá: sábado no Commons
Pietá no Commons

O trio carioca Pietá traz à Salvador o show do seu segundo álbum, S A N T O S O S S E G O (revisão, é coisa de artista, deixa assim mesmo!), dentro das sessions Intercenas Musicais. Diz que é o novo boom da neonovanovissimanewhype MPB. A conferir. R$ 20.

Babuca domingo

O cantor e compositor Babuca Grimaldi faz show de lançamento do seu álbum de estreia, Pindorama Utrópicos, neste domingo, 20h, no Teatro Sesi Rio Vermelho. Experimental, Babuca trabalha com referências tanto populares quanto eruditas em busca de uma linguagem própria. A conferir (mais um pra lista). R$ 20 e R$ 40.

Ronei & Ladrões dia 17

E agora o melhor show que você não vai ver neste verão porque não pode perder o Globo Repórter:   Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta, a inigualável banda de um compositor fundamental para a música baiana deste século, faz um showzinho para matar a saudade da galera. Programe-se: 17 de janeiro, sexta-feira, às  21 horas, no Commons Studio Bar. Avisei. Depois não diga que o verão foi fraco.

segunda-feira, dezembro 23, 2019

PODCAST ROCKS OFF PEDE A SAIDEIRA DE 2019

Lara Aufranc: longe de ser só mais um rostinho bonito. Foto Gal Oppido
Nei Bahia, Osvaldo Braminha Silveira Jr. e este blogueiro se reúnem mais uma  vez para dar uma geral em alguns dos melhores sons que ouviram este ano.

Como nossos gostos são muito esquisitos, não espere encontrar aqui (quase) nada do que rola por aí nas listas dos críticos / palpiteiros / apreciadores mais ou menos convencionais que tem por aí hoje em dia.

(Tradução: somos velhos.)

Então temos Sebadoh, Casapronta, Dona Iracema, Rodrigo y Gabriela, Tedeschi-Trucks Band, Stray Cats, The Budos Band, Cold War Kids, Leonard Cohen, Chemical Brothers, Rival Sons, Lara Aufranc, Lloyd Cole etc.

Enjoy – se puder...!

terça-feira, dezembro 17, 2019

BELO E FURIOSO (MA NON TROPPO)

Casapronta fecha 2019 com um dos melhores  do ano: Como a fúria da beleza do sol

Casapronta e Pablues (último à direita), foto Rafael Santos
Senhoras e senhores, é uma honra escrever esta última coluna este último post de 2019 (sim, voltamos em 8 de janeiro) dando destaque para um dos melhores discos que o colunista ouviu este ano: Como a Fúria da Beleza do Sol, da banda feirense / cachoeirana Casapronta.

Projeto paralelo de Pablício Pablues Jorge, da fundamental banda feirense Clube de Patifes, o Casapronta estreia em álbum cheio com uma obra que demonstra a absoluta maturidade artística de seu líder, ainda um ilustre desconhecido para muitos fora de seus redutos entre Feira (onde vive) e Cachoeira (onde estuda).

Em Como a Fúria..., Pablues logrou produzir aquele tipo de obra que somente grandes artistas são capazes: é profundamente (local)  baiana, mas também absolutamente universal.

Partindo de seu gênero de escolha há mais de 20 anos, o blues, Como a Fúria... se espraia pelo rock ‘n’ roll, pelo folk e pela Bahia (atenção: não necessariamente pelos ritmos baianos) como poucos foram capazes antes. Os paralelos mais evidentes para o colunista são Raul Seixas e Fábio Cascadura.

Além da competente banda que o acompanha, formada por Ígor Skay e Rodrigo Borges (guitarras), Rafael Razz (baixo) e Luiz Neto (bateria), o álbum traz participações igualmente iluminadas de Martin Mendonça, Isa Roth, Marcia Porto, Julio Caldas, Pedro Pondé, Juli, Roça Sound e outros não menos cotados.

“Desde que montamos o Casapronta determinamos que não ficaríamos presos a rótulos, deixando livre o processo criativo e que a música imperasse”, afirma Pablues.

“O rock n roll é o alicerce do Casapronta, junto tem o folk, que é um expressão que venho adotando faz um tempo, o blues é a vida, e a Bahia é o estado onde a gente entendeu, desde pequeno, que é necessário respeitar as diferenças aprendendo com elas ao mesmo tempo. Então, tem Bahia, rock, folk, blues e uma pitada de dendê”, acrescenta.

Encontro em Cachoeira

O fato é o seguinte: enquanto muito roqueiro arrependido se traveste de mpbista e muito roqueiro camisa preta se apega à estereótipos mortos, Pablues encontrou um saudável caminho do meio, evitando a caricatura que são aqueles dois extremos. Mas não se trata de fórmula. É uma mistura de talento com maturidade.

“A minha ida pra Cachoeira, enquanto estava na graduação em Museologia, me favoreceu muito a entrar em contato mais comigo e perceber a música baiana mais de perto, bem no seu berço”, conta.
Lançado o disco, Pablues & Cia meterão o pé na estrada no Ano-Novo. Em fevereiro passam por Salvador.

Ouça já.



BÔNUS: ENTREVISTA COMPLETA COM PABLUES

Ao mesmo tempo que é rock 'n' roll, o disco é profundamente baiano, algo que muita gente do rock tem dificuldade em aceitar / cultivar, mas está na raiz do rock local desde Raul Seixas, passando pelo Cascadura. Foi pensado como um manifesto mesmo ou simplesmente aconteceu assim?

Pablues e Casapronta, foto Rafael Santos
Pablues: O Casapronta é um banda, que um dia foi projeto, que relutei muito em trazer às vida. Que medo era esse? Tinha receio de não conseguir fazer nada que fosse tão bom quanto ao trampo que desenvolvo no Clube e seus 21 anos de estrada. Isso me atrapalhava bastante. Mas eis que um dia a coisa acontece e o Casapronta tá aí caminhando para o seu terceiro em 2020. Esse disco foi uma surpresa pra mim. Quando pensei em gravar... a ideia era um ep com 3 canções, gravadas no violão e elementos estranhos de percussão. Um folk bicho grilo. Daí, em meio ao processo de gravação, o ep foi tomando outra direção dando espaço pro disco. Desde que montamos o Casapronta determinamos que não ficaríamos presos a rótulos, deixando livre o processo criativo e que a música imperasse. O rock n roll é o alicerce do Casapronta, junto tem o folk que é um expressão que venho adotando faz um tempo, o blues é a vida, e a Bahia é o estado onde a gente entendeu, desde pequeno, que é necessário respeitar as diferenças aprendendo com elas ao mesmo tempo. Então, tem Bahia, tem rock, folk, blues e uma pitada de dendê no disco “COMO A FÚRIA DA BELEZA DO SOL”. Gosto d’uma frase de Raul, quando ele fala: “Não importa o sotaque e sim o jeito de fazer”. O Casapronta tem seu jeito de lidar com o rock e com a música. Os temperos usados na mistura é muito bem pensando, sem perder a mão, buscando não azedar nada nesse caldeirão de influências e sentimentos. Venho já há um tempo tentando fazer a música com mais liberdade, sem estar preso a alguma norma ou rótulo, deixando sair bem mais “eu” nas composições e interpretações. A coisa fica mais leve e fluida. Faz tempo que deixei pra trás aquela sisudez do roqueiro bravo, tradicional, e intransigente. Não que eu seja contra, não é nada disso, gosto ainda de muita coisa que ouvia e que me influenciou, e que muito ainda influência, mas quis tentar soar diferente. A minha ida pra Cachoeira, enquanto estava na graduação em Museologia, me favoreceu muito a entrar em contato mais comigo e perceber a música baiana mais de perto, bem no seu berço. Essa música baiana perpassa pelo reggae, samba de roda e afins, samba de terreiro de candomblé, a música que está nas pessoas, no conversar, no caminhar e no simplesmente ser baiano. A gente quando é novo sai de casa querendo descobrir o mundo, sustentando bandeiras que nem sequer nas guerras tivemos. Mais tarde alguns conseguem perceber que o único mundo não desbravado foi o seu, o interior. Interior de interior, cidade de onde vem, de onde nasceu, mas também o seu interior, seu “eu”. Pra que maior descoberta? E assim a gente vai se reinventando, se redescobrindo e vendo possibilidades outras que a vida apresenta, inclusive a maneira de fazer música. Então, o Casapronta tá nessa caminhada de fazer música como der na telha, uma espécie de #folkbluesrockexperinceforall. A gente tem auto rotulado nossa música como “música mundana”, acho que assim define. Esse disco é parte de um processo que a gente não sabe bem como vai se desenrolar, mas sabemos que vem muita coisa diferente pela frente, sem perder nossa essência, sem soar nada forçado, nem tampouco piegas. Aí tenho que citar Raul de novo: “Não sei onde estou indo, mas sei que estou no meu caminho”. Quanto a soar como um manifesto? De repente sim. Hoje em dia pra gente sair do mais do mesmo, pensar fora da caixa, ser fora da curva, é muito arriscado. Mas arriscado pelo que os outros podem pensar ou falar. Não estamos muito preocupados com esse tipo de risco. Eu venho do rock como formação musical básica. Mas também já fui zabumbeiro de banda de forró tradicional, tenho máximo respeito pela cultura do nordeste. Meu pai tinha uma loja de discos em Cruz das Almas onde a música baiana e o axé music, eram campeões de venda, então lá em casa era isso que rolava bastante, além de clássicos como Altemar Dutra, Nelson Gonçalves e afins. Sem contar que os meninos da banda, cada um traz suas referências pra dentro da musicalidade do Casapronta, e assim vamos construindo nosso universo e esperamos que o público entenda nossa proposta. O Casapronta posso dizer que um caldeirão de bruxos. Soul suspeito, mas tá bonito o “negoço”.

O disco está cheio de participações muito bacanas, de gente daqui de SSa e daí de Feira. Como foi reunir essa galera em torno desse disco?

Pablues: Bicho, essas participações, nem eu mesmo acredito que conseguimos colocar tanta gente foda nesse disco. A ficha demorou de cair. Quando começaram a chegar as primeiras canções da mixagem pra gente aprovar, é que a coisa foi se tornando real. O primeiro foi Martin Mendonça, né? Broder dos tempos do Callypso e um cara que sempre tive um máximo respeito e também por ser um dos caras que leva a música até as últimas consequências. A gente sempre se fala, ele de lá e eu de cá, e trocamos algumas ideias. Uma vez o Casapronta fez um show com o projeto dele em Serrinha em 2018. Ele adorou o som da banda. Daí convidar pra fazer a guitarra em “o visitante de carvão”, foi fácil. Gravou de lá de Sampa e me mandou. Ficou foda. Aí pensei em convidar uma galera, cada um pra cada música. Pow, foi loucura, mas deu tudo certo. Julio Caldas no banjo e bandolin, Pedro Pondé e sua “calma pra recomeçar”, sangue bom. Roça Sound, o novo fenômeno de Feira de Santana com seu sound e seu “mete dança”, putz, ficaram foda as participações. Juli, uma menina aqui de Feira também, que vai aparecer pra geral muito brevemente, participa em “Não tem mais volta”, um mix dicotômico, o hard e o suave, falando do encontro das vozes. Ficou linda a canção. Muitos amigos ainda participam e cada um deixou sua marca e nos apontou possibilidades para com nossa música. Muito aprendizado envolvido e principalmente, muita amizade e respeito. Sou muito grato a todxs que dedicaram um tempo pra visitar o Casapronta no disco. Véi, você num tem noção, é muita gente “bala” nesse disco e em todo o processo. Jera Cravo mixou o bagulho, imagina? O cara manda super bem. Grande amigo. Eu tenho um amigo no Canadá rsrsrs. Eu sinceramente não esperava ter essa galera no disco, não. Mas cada convite foi aceito de bate pronto, e vieram, vieram bonito. Muito feliz em poder ser respeitado por toda essa galera, e isso é saber que nossa história no meio da música vale o quanto pesa, e ter parceiros assim, como o Casapronta tem é bom demais. A palavra chave é: felicidade.

De fato é inescapável neste momento, mas o disco saiu também muito político. Pode comentar? 

Pablues: O disco tem seus momentos. Começa com uma intro tratando de uma assunto que muita gente passa em silêncio, que é a depressão e todas essas síndromes que destroem as pessoas por dentro. O caos interior de cada um, que bagunça tudo. Mas a gente mostra que tem um jeito, tem uma saída. Não chega a ser auto ajuda, mas é real. O amor é tema recorrente sempre, o produto que mais vende no mundo. Tem amor no disco. Duas canções (Une Versos e Meu sangue tem dendê) tem como tema a religiosidade, mais especificamente a religião do candomblé, e uma outra (O visitante de carvão) de forma bem humorada, trata da intolerância e do preconceito. É necessário falar sempre que possível desses assuntos. O mundo anda tão estranho e o Brasil vem acompanhando com suas intolerâncias, preconceitos,  racismos e demais crimes que são praticados contra o povo de santo, o povo preto, nossa gente “baiana”, que tanto fez por essa território. O Casapronta tem filhos do candomblé em sua formação, não todos, e entendemos que estamos numa guerra pra combater esses crimes contra os direitos“humanos”, e com nossa arma é a música, contribuindo com a conscientização daqueles ignorantes conservadores preconceituosos. Religião também é política. Discutir religião e política se faz necessário e urgente. E a gente fecha o disco com uma pedrada na vidraça, contra as violências, policial e do sistema, que calam, humilham e assassinam nosso povo preto e pobre, aqueles que levantam as vozes, nossas crianças, nossos jovens e seus direitos de ir e vir. Tudo isso velado por uma fé que mata através da bíblia e milícias na política, uma “ordem e progresso” pra poucos. Isso é histórico, né? São centenas de anos clamando por justiça e liberdade. Ainda bem que a arte resiste. Resistiremos.

A sonoridade ficou também muito bem resolvida, com uma alquimia entre o blues folk mais tradicional e um clima - não diria ritmos - bem baiano. Como foi trabalhar isso no estúdio?

Pablues: Tomei a liberdade pra produzir o disco. Quis colocar ali muito do que acredito e aprendi ao longo desses anos fazendo música autoral com o Clube e vivências com outros amigos e artistas. O folk é ponto de partida do trabalho com o Casapronta. Nomes como Neil Young, Jackie Greene, Bob Dylan, Carlos Posada, Ortinho, Renato Godá, e o maior artista do Brasil que é Raul Seixas, foram algumas de nossas referências para “startar” o projeto e o disco. As músicas, todas, já tocava no violão nas rodinhas de prosa e afins, e vez outra rolava nos ensaios. Algumas já estavam no repertório do Casapronta, como as versões de “Retalhos” de Posada e “É demais” de Sine Calmon. Então, basicamente os outros instrumentos foram sendo colocados em cima dessas bases de violão. Pode parecer simples, mas deu um trabalhinho. Muita coisa ficou tudo dentro do esperado, outras, a mágica aconteceu no estúdio – Estúdio Netuno em Feira de Santana, do querido PV – nos  surpreendendo, encaixando como uma luva. Esse clima de “Bahia” que você tanto fala, a gente deixou chegar numa boa. Até pra fazer o disco soar “livre”, sem amarras, mostrando realmente o que é que a Bahia pode ter. Tem rock? Tem. Tem folk? Tem. Blues, samba reggae e beat eletrônico? Tem sim, senhoras e senhores. A Bahia é possível em todos os ritmos, mundos e universos. Nós temos a Bahia bem guardada, tem que mostrar mais. Sem preconceitos. A música em primeiro lugar. Foi de uma certa forma bastante tranquilo fazer essa mistura inicial e montar esse repertório, até porque o técnico do estúdio, Pv (Paulo Vitor), contribuiu muito com as observações e deixando as coisas mais fluidas possíveis. Foi uma verdadeira vivência esse tempo no Estúdio Netuno. Temos um bom disco. Estamos felizes com o resultado.

Quais os planos do Casapronta? Tá rolando shows em Feira, outras cidades? E Salvador? Quando rola?

Pablues: O plano principal é poder divulgar o disco nos shows. As plataformas digitais já estão fazendo a parte delas e temos recebido um feedback maravilhoso. O nosso foco agora são os shows. É no palco que vemos a coisa funcionar “à vera”. Fizemos apresentações em Feira de Santana na Cervejaria Sertões e no Feira Noise divulgando o disco. Com esse período de festa e férias a coisa dá uma parada obrigatória. Já estamos montando a agenda para 2020,em circular no interior da Bahia, através de contatos de produtores parceiros – Feira, Serrinha, Cruz das Almas, Camaçari - e em Salvador devemos nos apresentar em fevereiro. Esquentar o couro subindo o Nordeste é nossa pretensão, além de tomar um sereno na terra da garoa. Uma coisa de cada vez, afinal os tempos atuais requerem cuidado e atenção. Os planos foram traçados...

O Clube de Patifes ainda existe? Tem planos?

Pablues: O Clube de Patifes ainda existe, sim. Demos uma recuada pra cada um resolver assuntos pessoais, pois é tempo de mudanças pra todos da banda. Mas não estamos parados totalmente. Em novembro, mês que completamos 21 anos de banda, fizemos um show no Feira Noise e foi vibrante, com direito a música nova no repertório. Iniciamos as gravações do nosso novo disco, intitulado “Macumba”, nos Estúdios T, em Salvador, com o queridíssimo André T, e já temos música nova gravada. O Clube de Patifes lança o primeiro single no começo de 2020. A música já tá pronta e se chama “Bebi com um Deus”. Vem coisa nova aí. Os planos são os mesmos: Trazer nossa música à vida e ocupar nosso espaço nesse “latifúndio cultural”.

Soledad (CE): sábado no Intercenas. Ft Julia Moraes
NUETAS

Eric Assmar e Ícaro

O prodigioso Eric Assmar convida Icaro Britto para uma session de blues no Solar Gastronomia Rio Vermelho.  Sexta-feira, 20h30.

Josyara e Soledad

Josyara é a última atração de 2019 no Intercenas Musicais. A baiana convida a cearense Soledad para show de abertura e participação. Sábado, 20 horas, no  Commons Studio Bar. R$ 10 (promocional), R$ 15 (lista), R$ 20 (porta).

Overdose sábado

A banda Overdose Alcoólica comanda a primeira edição do Samba Canção Fest recebendo uma pá de convidados e a banda Cães. Sábado, 17h, no   Bardos Bardos Casa da Trinca (Rio Vermelho). Sugere-se colaboração de R$ 10. Bagaceira e rock ‘n’ roll no talo.

quarta-feira, dezembro 11, 2019

VIVENDO O SONHO

Saga do blues baiano segue viva com a RestGate Blues, que lança primeiro EP dia 19

RestGate Blues, foto Nti Uirá
Salvo engano, o  blues chegou tarde à Bahia, ali na virada entre as décadas de 1980 e 1990, quando bandas como Talkin’ Blues e 14º Andar começaram a fazer sessions semanais em bares como o Atelier (Nazaré) e Club 45 (Barra).

Foi no primeiro que Jr. Wyll, que já ouvia blues em casa, nos vinis do pai, se batizou no gênero ao som do saudoso mestre Álvaro Assmar e de outros que estão aí até hoje, como Oyama Bittencourt (hoje Água Suja), Cláudio Lacerda (Ramal 12), Mario Danneman  etc.

Muitos anos se passaram, Wylsel (seu nome) se alistou na Marinha  e se tornou fuzileiro naval. Curiosamente, foi entre colegas de caserna que teve suas primeiras experiências tocando blues em uma banda.

Depois de dar baixa, formou com o amigo Viriato um duo. Ele na gaita e voz, Viriato no violão.

Em 2002, tocavam em um ponto de ônibus no bairro do Resgate.

De lá para cá, a RestGate Blues já teve diversas formações, se mudou para o Capão e depois voltou à capital, acabou e retornou.

A partir de 2014, Wylsel e sua esposa / produtora, Nanci Nunes, resolveram botar o antigo projeto pra frente, começando a se apresentar regularmente em bares e restaurantes da cidade.

Agora, finalmente, Jr. Wyll (voz e harmônica), Atila Caribé (guitarra), Uirá Tiago (bateria) e Rayan Ribeiro (baixo) lançam o primeiro trabalho da RestGate Blues: é o EP Vivendo Blues, que terá show de lançamento no dia 19 próximo (uma quinta-feira), no Jazz na Avenida (Boca do Rio).

No mesmo dia, o EPzinho de cinco faixas estará disponível no Spotify, iTunes, Amazon,  Google Play e YouTube.

“Gravamos tudo de forma totalmente independente, e com aquela velha ajuda de grandes amigos”, conta Wyll.

Blues on the road

Lançado o disquinho, que terá versão física em breve, garante Wyll, a ideia do quarteto é cair na estrada e tocar muito.

“Estamos preparando uma turnê por cidades da Bahia para 2020. Já se confirmaram Feira de Santana, Serrinha, Amargosa, Santo Antonio de Jesus e algumas cidades da Chapada Diamantina: Lençóis, Itaberaba, Palmeiras, Vale do Capão”, conta o bluesman.

“Também estão nos planos e em negociação, casas noturnas em Aracaju, São Paulo e Rio de Janeiro. Bem como alguns festivais de blues pelo Brasil que também já sinalizaram interesse nos nossos attacks”, afirma.

Além disso, a RestGate pretende lançar simultâneo ao EP de estúdio uma versão acústica, que já está pronta e deve sair também estes dias.

RestGate Blues / lançamento Vivendo blues / Dia 19 (quinta-feira), 19 horas / Jazz na Avenida / Colaborativo

EXTRA: Jr. Wyll relata sua história e a da RestGate Blues em suas próprias palavras:

RestGate Blues, foto Nti Uirá
"Então, da formação original hoje só temos o Wyll (eu) o vocalista e harmonicista. Inicialmente eramos apenas um duo (voz e harmônica - Wyll, e violão - Viriato Sampaio), que tocava num ponto de ônibus no bairro do Resgate em Salvador, em 2002. Em 2009 mudei para o Vale do Capão, onde passei a tocar sozinho na taberna de um cordobês. Dois anos depois, o Viriato que acabava de concluir a sua faculdade de engenharia, foi também para o Vale e voltamos a tocar juntos. E no réveillon de 2010/2011, tocamos pela primeira vez com o formato atual: voz, harmônica, guitarra, baixo e bateria. Foi quando o duo virou banda, no Vale do Capão. Um ano depois, percebendo que algo estava dando certo naquele projeto, e somando isto à vontade de continuar com o sonho antigo de fazer blues, e com o término de um casamento no Vale do Capão, resolvi que não ficaria por lá, pois já estávamos tendo alguns convites para tocar em Salvador e que no Vale não seria possível seguir com o projeto sem ter muitas dificuldades (não que em Salvador fosse ser fácil..rsrs). Acontece que, pouco tempo depois em uma visita ao Vale, juntamente com o Viriato, ele iniciou um relacionamento e resolveu ficar por lá. Então voltei a procurar um guitarrista em Salvador que soubesse tocar o blues - missão quase impossível (até hoje)! Tendo em vista que eu não fazia parte do grupo fechado de músicos que se dedicavam ao estilo em nossa cidade. E isso iniciou um processo de entra e sai de músicos na banda, que atrapalhava muito os processos e a intenção de gravar. Tamanha demora para o lançamento de um trabalho, reside basicamente aí. Sou um ex-fuzileiro e tive a minha primeira banda de blues no quartel. Lá, tinha acesso a excelentes músicos que tocam todo tipo de música. Inclusive o blues! Só que a partir do momento que saí de lá, e não conhecia ninguém que sequer ouvisse o blues - por mais que frequentasse - aos 20 / 21 anos, o Atelier Presciliano Silva e conhecesse o nome de cada um dos caras que lá tocavam. Então foi muito difícil formar e manter uma formação longeva de uma banda de blues, em Salvador, com músicos que não eram do blues. Este primeiro guitarrista do qual falei antes, quando o conheci, estava começando a aprender o violão, e tocava uma coisa que ele chamava de 'funkeado' (rs). Ele pegava musicas como Odara do Caetano, e umas coisas da Ivete Sangalo, e tocava em ritmo de funk. Ao ver que ele se iniciava no instrumento, tratei de contaminá-lo logo com 200 CDs de blues dos mais variados. E quando ele começou a tirar alguns sons, começamos a tocar no tal ponto de ônibus. Pouco tempo depois, comecei a encorajá-lo a comprar uma guitarra. Foi quando partimos para tocar em bares como o Etrusco, Whiskritório, Sankofa e Zen Thai, bares de Salvador onde tocamos muitas e muitas vezes, a convite da amiga, atriz e cantora Denise Correia, da banda Na Veia da Nega, que nos deu uma força imensa no inicio dessa trajetória, abrindo espaço para tocarmos em vários lugares na cidade. Cerca de um ano depois quando conheci a Nanci Nunes - minha mulher, cuja entrada na banda como produtora ajudou a elevar com muito trabalho, organização e muita dedicação o nível do projeto - começamos a tocar no D'Venetta, no Santo Antonio, onde passamos quase três anos tocando todas as quartas, e reunindo um publico que já começava a disseminar por aí o nosso trabalho".



"O blues chegou à Salvador no final dos anos 80, talvez mais no começo dos 90. O Atelier se inicia em '93. O Atelier reunia essa turma! E eu frequentava o lugar. Ia com uns amigos do quartel e ficávamos lá meio 'peixe fora d'água', querendo tocar, mas sem coragem para abordar os caras. Era pra gente um lugar especial, onde caras especiais (Álvaro Assmar, Mario Danneman, Jerry Marlon, Oyama Bittencourt, Guiga, Miguel Arcanjo, Mauricio Simões, Carlos Lacerda, entre outros...), estavam fazendo algo que gostaríamos de fazer. Blues. Digo que fui 'iniciado' no blues dentro de casa pelos meus pais, ainda que eles não tivessem noção de que faziam isso - pois tudo era dentro da minha cabeça e coração, e depois de adulto, foi que eu também concretizei isso. Mas eu não encontrava esse tipo de música fora de casa. E descobrir o Atelier foi incrivel! Eu nunca fui do Rock. Curtia o LP dos Secos e Molhados aos 6 anos de idade, por conta de duas musicas e que 'coincidentemente' eram dois blues - ou pareciam muito: Mulher Barriguda e Prece Cósmica. Na primeiro, pode-se ouvir uma gaita estridente, e era o que me chamava a atenção. Um dia encontrei numa coleção de chaveiros da minha mãe, um que era uma pequena gaita, e passei fazer barulho com ela quando percebi que tinha o mesmo som do instrumento que eu gostava na música do Secos & Molhados. Até que entre os tantos LPs que o meu velho comprava surgiram BB King, Junior Wells e mais tarde o Harp Attack (um álbum que reúne Billy Branch, Junior Wells, James Cotton e Carey Bell, quatro dos maiores harmonicistas do mundo), e isso pra mim foi a maior pancada! Dos outros integrantes da gang, apenas o Átila (guitarrista) já veio por caminhos de blues, é ex-integrante da Meia Noite no Ali, banda parceira que se fez presente nas casas noturnas da cidade há uns cinco ou seis anos atras. E que acabou. O Uirá (baterista) tem outras influências, vindo a conhecer o blues após entrar na banda primeiramente como roadie, depois passou a substituir o Samuel (baterista entre 2016 / 17), passando a assumir a bateria da gang. E o Rayan (baixista) está pouco mais de um ano na gang, é estudante de musica popular na UFBA e também tem uma influência bastante variada. Iniciando seu contato com o blues, também ao entrar pra gang".

"Gravamos Vivendo Blues que é o single do EP, há dois anos no Estúdios WR. No 'WR de Portas Abertas', um projeto que viabilizou a muitos artistas o sonho de gravar com extrema qualidade uma música. Isso nos ajudou muito e nos aproximou da possibilidade de um lançamento. Só que não basta ter a música para lançá-la, né? Então todas as outras coisas que rodeiam este processo - e muito disso é dinheiro, foram e voltaram varias vezes, inclusive com o anuncio de um lançamento em 2018, que não aconteceu. Neste ano de 2019 decidimos que não dava para terminarmos mais um ano sem lançar um trabalho que já estava completamente concebido, e que só precisava de ação. E então metemos a mão na massa! Gravamos tudo de forma totalmente independente, e com aquela velha ajuda de grandes amigos. Um deles, o Diogo Rios, cantor e compositor, possui equipamentos e muito boa vontade, de cara topou e incentivou muito para que iniciássemos este processo logo. Gravamos na casa dele guitarras, baixo, gaita e vozes com um amigo do Diogo, que possui uma placa e que também se disponibilizou a um custo de amigo fazer a gravação. Por questão de tempo, a bateria só foi ser gravada depois... o que fez com que quase tudo tivesse que ser gravado novamente rsrs. Pois ficou tudo meio fora do beat! Então pegamos quase do zero, gravamos uma das baterias inicialmente no estúdio Carmo44, da banda Vivendo do Ócio, com os irmãos Luca e Davide Bori. E demos continuidade no estúdio O Puleiro, do produtor e amigo Rodrigo Medeiros - dessa vez, com um novo amigo e grande promessa para a produção musical - ao meu ver, que é o Victor Jessy, que também é cantor e compositor e estagia na WR, onde refizemos as vozes. Daí foi necessário regravar algumas guitarras e pronto, o Victor começou a mixar. Foi uma semana que se encerrou no dia 3 último, com uma sessão que começou 9h da manhã e acabou as 23h no estúdio O Puleiro, em Piatã. Acredito que hoje seja perfeitamente possível se virar sem o produtor fonográfico profissional. Evidentemente que se o artista leva realmente a sério o seu trabalho e deseja lançar bons materiais, precisa estudar e trabalhar muito para conhecer profundamente o caminho no qual está passando. Existem grandes exemplos não somente no Brasil, e não somente de artistas novos, mas muitos grandes artistas que conhecem o caminho e se desenrolam independentemente. Penso que isso poderá ser cada vez mais possível para bandas novas e independentes".

NUETAS

Amigos Velhos sexta

Uma das melhores novidades do rock local em 2019, a banda Meus Amigos Estão Velhos faz seu último show do ano no esquemão street do Bardos Bardos. A coluna recomenda. Sexta, 19h, sugere-se uma colaboração de R$ 10.

Carne Doce, Andréa

Alimentada por certo hype, a banda goiana Carne Doce estreia em Salvador sábado, na despedida do TOCA! 2019. Andrea Martins (Canto dos Malditos na Terra do Nunca) faz as honras da casa, apresentando set list do primeiro álbum solo (sai em 2020). 20 horas, no Pátio do Goethe Institut, R$ 50, Lote 2: R$ 30 e R$ 60.

Scalene, Informais, Iorigun

A banda brasiliense Scalene volta à cidade para show com as baianas Os Informais e Iorigun. Domingo, 16h, no Portela Café. R$ 35 (Sympla).