Blog (que, nos seus primórdios, entre 2004-05, foi de um programa de rádio) sobre rock e cultura pop. Hoje é o blog de Chico Castro Jr., jornalista formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente, é repórter do Caderno 2+ do jornal A Tarde, no qual algumas das matérias vistas aqui foram anteriormente publicadas. Assina a coluna Coletânea, dedicada à música independente baiana. Nossa base é Salvador, Bahia, a cidade do axé, a cidade do terror.
Diário escrito em clínica de reabilitação expõe alma destruída do líder da Legião Urbana
Primeiro de uma série de livros que trarão a luz os escritos de Renato Russo (1960-1996), Só Por Hoje e Para Sempre: Diário do Recomeço deverá interessar a basicamente dois tipos de público: fãs do cantor (e da sua banda, Legião Urbana) e adictos em recuperação.
Organizado pelo jornalista Leonardo Lichote, o livro traz a íntegra dos diários do cantor durante sua internação na clínica de reabilitação Vila Serena (Rio de Janeiro), entre abril e maio de 1993.
Excetuando-se pela capa feia de doer, a edição é bem cuidada, com a tipografia toda em azul escuro, notas explicativas e fac-símiles dos desenhos e planos de tratamento escritos de próprio punho por Renato espalhados por suas páginas.
Mais do que qualquer coisa, Só Por Hoje e Para Sempre é um documento revelador da intimidade profunda de homem extremamente sensível e de humor volátil, que naquele momento estava com sua alma destruída pelas drogas, álcool e carência afetiva.
É até de se perguntar se, vivo fosse, o autor concordaria com a publicação de material tão íntimo, tão confessional, autorizado pelo seu único descendente, o filho Giuliano Manfredini.
Amor platônico e cigarros
Por outro lado, para os fãs de Renato e da Legião, o livro tem muitos atrativos, já que, ao longo de diversas páginas, o autor analisa, como parte do seu tratamento, detalhes de bastidores da banda e de sua vida (com ênfase nos vícios e comportamentos autodestrutivos, claro) que restariam desconhecidos, caso não fossem publicados.
Uma revelação curiosa é sua confissão de amor platônico pelo guitarrista da Legião, Dado Villa-Lobos – um sentimento até bonito (já que o moço era casado), da forma como ele o descreve: “Muitas vezes resolvi problemas e encontrei soluções criativas, só porque Dado ficaria feliz. Acho que ele percebe alguma coisa, mas não deixamos que isso venha a ser realidade – só quero que ele esteja feliz, porque ele merece”.
Desenho de Renato
O seu conhecido caso de amor com um rapaz norte-americano, chamado aqui apenas de “S”, também tem espaço, como por exemplo, quando Renato analisa sua tendência de fantasiar demais: “Também tenho que tomar cuidado, pois vejo em mim uma tendência a deixar que lembranças eufóricas transformem o passado em um sonho ideal, quando na verdade nosso relacionamento sempre foi difícil e as duas últimas semanas em que estivemos juntos, especialmente insuportáveis e dolorosas”.
Especialmente chocante é a descrição de um período bem baixo-astral do ídolo: “Em agosto de 1990, quando estava morando no Marina Palace Hotel, no Rio de Janeiro, e alternando meu uso de álcool com heroína (os dois juntos não combinam), passei uma noite me queimando no rosto e nos braços com cigarros acesos”, escreve.
AA e NA
Apesar de ter terminado como terminou – destruído pela AIDS, três anos depois de escrever este diário – a internação de Renato Russo, foi , de certa forma, bem sucedida, dando novo fôlego ao ídolo, para continuar cantando e compondo pelos anos que se seguiram.
Por isso, talvez – só um especialista pode dizer com certeza – Só por hoje e para sempre pode ser uma boa leitura para alcóolatras e viciados em recuperação, ou que estejam pensando em iniciar um tratamento.
No livro, Renato detalha bem o que viu e viveu na clínica e nas reuniões do AA (Alcóolicos Anônimos) e do NA (Narcóticos Anônimos) que frequentou, sempre com uma atitude muito positiva e esperançosa, o que pode servir de incentivo para quem vive esse drama.
Só por hoje e para sempre é um livro curto e de fácil leitura, especialmente para quem é fã do autor, que buscava, ao escreve-lo, alcançar um pouco de luz em uma vida bastante sombria e complicada.
Só por hoje e para sempre: Diário do recomeço / Renato Russo / Companhia das Letras / 168 p. / R$ 34,90 / E-book: R$ 23,90
Estreia: O Agente da U.N.C.L.E., de Guy Ritchie, retoma antiga série de TV com potencial para franquia
A despeito do seu apelo nostálgico, adaptações cinematográficas de séries de TV de sucesso são sempre uma aposta alta: se a busca for para agradar aos fãs mais antigos, corre-se o risco de alienar o grande público – sendo o inverso também verdade.
Em O Agente da U.N.C.L.E., o diretor Guy Ritchie caminha com certa habilidade nessa corda bamba.
Adaptação da série norte-americana da rede NBC, exibida nos EUA entre 1964 e 1968, O Agente da U.N.C.L.E. era um produto típico da sua época, criado na esteira do sucesso dos filmes de James Bond: um drama de espionagem e aventura em meio a Guerra Fria e a ameaça nuclear, protagonizado por dois agentes secretos, o norte-americano Napoleon Solo e o russo Illya Kuryakin.
Já o filme de Guy Ritchie (diretor dos filmes do Sherlock Holmes com Robert Downey Jr.), é mais um típico produto do seu diretor: um blockbuster milionário, dirigido com sua habitual mão pesada, a qual costuma privilegiar o estilo antes de qualquer coisa.
Ainda assim, Ritchie acertou a mão em alguns pontos, como manter a ambientação nos anos 1960, conferindo ao desenho de produção (cenários, figurinos etc) o charme típico da mais psicodélica das décadas.
Acertou também no roteiro, ao mante-lo mais ou menos simples, sem tantos detalhes confusos como nos filmes do Sherlock Holmes, o que ajuda a manter o interesse do espectador aceso nas suas quase duas horas de duração.
Outro acerto é o tom: irônico, bem-humorado, sexy e violento, como, aliás, são os outros filmes do diretor.
De resto, é bobagem buscar profundidade ou metáforas neste tipo de filme – até por que não é sua função. Os protagonistas, interpretados por Henry Cavill (o criticado Superman de O Homem de Aço) e Armie Hammer (O Cavaleiro Solitário), apesar de muito charmosos, são rasos como um dry-martini.
Resgate em Berlim
Para o bem ou para o mal, a dinâmica dos chamados buddy-movies (filmes de parceiro) está toda lá: Napoleon (Cavill) e Kuryakin (Hammer) começam o filme em lados opostos, tentando literalmente matar um ao outro.
Mas quando a ameaça comum surge, os dois são obrigados se unir, criando uma tensão que oscila entre a pirraça e o respeito mútuo.
A trama começa em Berlim, logo após a construção do Muro que dividiu a cidade entre Ocidental e Oriental.
Napoleon precisa resgatar, do lado Oriental, uma garota (Alicia Vikander) que é filha de um cientista ligado aos nazistas da 2ª Guerra, o qual estaria empenhado na criação de uma arma que pode desequilibrar a balança do poder na Guerra Fria.
Sem que ele saiba, Kuryakin também está lá, com a mesma missão.
Após uma sequência de abertura eletrizante, com um balé automobilístico pelas ruas de Berlim, o trio parte para a Itália, onde se defrontará com uma organização criminosa obscura nos cenários luxuriantes de Roma e Nápoles.
No fim das contas, O Agente da U.N.C.L.E. cumpre bem sua missão de entretenimento escapista, segurando com habilidade o espectador nas suas duas horas de projeção.
Em tempo: outro destaque do filme é a incrível trilha sonora spy-jazz de Daniel Pemberton, que ainda inclui uma canção do Tom Zé, Jimmy Renda-se, além de Nina Simone, Roberta Flack, o ítalo-americano Louis Prima etc.
O Agente da UNCLE (The Man From U.N.C.L.E., 2015) / Dir.: Guy Ritchie / Com Henry Cavill, Armie Hammer e Alicia Vikander / Cinemark, Cinépolis Bela Vista e Shopping Salvador Norte, Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, UCI Orient Shoppings Barra, da Bahia e Paralela / 12 anos
Jazz: Membro da mais importante big band da atualidade faz oficina e jams
Mister Walter Blanding e seu sax tenor. Foto: Richard Corman
Aos 44 anos recém-completos (no dia 14 último), o saxofonista norte-americano Walter Blanding é um dos nomes em ascenção no cenário do jazz mundial. Nesta semana, ele está em Salvador para ministrar uma master-class e participar de sessions com músicos locais.
Natural de Cleveland, Ohio, Blanding, pelo que se vê (e ouve) na internet, demonstra muito swing, técnica e elegância com o sax tenor pendurado no pescoço.
Não a toa, é membro daquela que é, possivelmente, a mais importante big band do planeta hoje, a Jazz at Lincoln Center Orchestra, coordenada por ninguém menos que Wynton Marsalis – cujo quinteto ele também integra, além de já ter tocado com lendas da música, como Isaac Hayes, Paul Simon, Crosby Stills & Nash, Willie Nelson, Aretha Franklin e orquestras em Londres, Paris, Los Angeles, Berlim e outras.
"Fiz uma turnê curta com o Isaac, éramos um quinteto, e foi divertido. O interessante sobre colaborações com outros tipos de música combinado ao jazz é que é uma experiência sempre cheia de surpresas. Já colaborei com muitos outros tipos de música e músicos que normalmente não tocam jazz, como Paul Simon, Crosby Stills & Nash, Wilie Nelson, Aretha Franklin, Cleveland Symphony Orchestra, Boston Pops, New York Philharmonic, Los Angeles Symphony, Paris Radio Orchestra, London Symphony, Berlin Philharmonic, Oddaada (música de Gana), Tango e muitos outros", conta Blanding, em entrevista por email.
Para a oficina Jogos de Improviso, que ele ministra ministrou hoje ontem, no Piso C do Teatro Castro Alves, Blanding avisa que vem preparado para o que der e vier: “Venho para a oficina sem qualquer predisposição específica. A experiência tem me mostrado que é melhor não pressupor nada”.
“Vamos abordar um monte de coisas básicas em um curto período de tempo: por que a música é importante, harmonia, ritmo, fraseado, improvisação e muito mais. Não posso prever o futuro, mas estou muito animado quanto a essa experiência junto aos músicos locais”, acrescenta.
Além de ensinar e aprender com os músicos locais, o saxofonista também demonstra disposição para conhecer mais sobre a Bahia: “Estou também ansioso para aprender sobre a vasta riqueza da música e da cultura da Bahia, e também para compartilhar a profundidade do jazz. Uma coisa é certa, a oficina será uma experiência inesquecível e prazerosa para todos nós”, afirma.
Trabalho duro e diversão
Como em qualquer forma de atividade humana, Blanding acredita que também na música a troca de informações entre músicos de diferentes origens e é algo essencial: “O compartilhamento da cultura, por meio da música, ao redor do mundo, é muito importante. Nos últimos 25 anos eu tenho viajado tocando, ensinando e aprendendo pelas Américas do Norte, do Sul e Central, pela Europa, África, Oriente Médio, Ásia e Austrália”, conta.
“Durante todo este tempo, uma das lições mais significativas que aprendi é ter a cabeça e o coração abertos para permitir a possibilidade de experimentar as muitas coisas que temos em comum, assim como para apreciar nossas diferenças. Esta interação e compreensão da condição humana básica vai muito além do escopo da música”, filosofa.
Blanding começou a aparecer para o público apreciador do jazz a partir de 1991, quando lançou seu primeiro álbum, Tough Young Tenors, considerado um dos melhores discos do gênero pela crítica naquele ano. Em 1998, tornou-se membro da Jazz at Lincoln Center Orchestra.
“A Jazz at Lincoln Center Orchestra é uma big band com 15 excelentes músicos. Tenho sido parte desta banda por 18 anos”, conta.
“A maioria dos músicos, incluindo eu mesmo, também escreve e toca novas composições para a banda. Amo tocar com este grupo, e nunca paramos de aprender. É um desafio contínuo e trabalho duro, mas também divertido”, diz.
Temporada em Tel Aviv
Há alguns anos, o saxofonista se mudou para Israel, estabelecendo-se em Tel Aviv, onde atuou, com forte impacto na cena do jazz local, chegando a ser chamado de Embaixador do Jazz em Israel, pela revista Newsweek.
"As circunstâncias da minha vida na época me levaram a Israel, mas poderia ter sido em qualquer outra parte do planeta. Durante minha temporada por lá, meus esforços tiveram uma forte influência na cena do jazz local, e ajudaram a mudar a música em termos da compreensão do que é o jazz", afirma.
“Há grandes músicos em Israel, alguns dos quais ensinei por um breve período. Mas a grandeza desses músicos não é só resultado da minha influência. É também um resultado do desejo de cada um pela grandeza e expressão honesta que vem do fundo de suas almas. Isto é algo que podemos encontrar em todos os cantos do mundo”, conclui Blanding.
Agenda Walter Blanding em Salvador Workshop Jogos de ImprovisoHoje, das 14h às 17 horas / Inscrições encerradas Passo no Jazz / Hoje, das 18h30 às 21h30 / Com Ivan Huol (bateria), Bruno Aranha (piano), Alexandre Vieira (contrabaixo), Matias Traut (trombone) e Walter Blanding (sax) / Casa de Castro Alves (Rua do Passo, 52, Santo Antônio. Tel: 3178-2423) / R$ 10 Jam no Mam / Sábado, das 18 às 21 horas / Início de nova temporada / Museu de Arte Moderna da Bahia (Av. Contorno, s/n, Solar do Unhão) / R$ 7 e R$ 3,50
Amanhece no Rio Vermelho. HAO is in the house, bitch. Foto Iza Pinheiro
Salvador, uma cidade alucinante (no bom e no mau sentido - mais no mau, mesmo) tem visto ultimamente uma safra de bandas com forte influência psicodélica, como Van Der Vous, Teenage Buzz (ambas já vistas nesta coluna neste blog) e HAO, que é essa rapaziada na foto aí do lado.
No sábado passado, o quarteto lançou seu segundo EP, A Imoralidade das Rosas, em show no Dubliner’s, com a já citada Van Der Vous e Os Jonsóns, que também trafega neste circuito, dentro do NHL Festival, promovido pela revista underground Nihil, apoiadora de primeira hora desta cena.
A primeira vista (ops, audição), a HAO é quase um revival do grunge noventista mais pesadinho, linha Soundgarden / Alice In Chains, mas a medida que o som vai avançando, nota-se outras influências, tanto atuais, quanto mais antigas: “Com certeza o Tame Impala tem sido uma grande influência em termos de psicodelia, mas não diria ser o motivo causador da nossa”, observa o vocalista Rodrigo Reis.
“Outros sons também se somam a essa aura, como os atuais Sleepy Sun, Mini Mansions e o mais recente LP do The Flaming Lips, The Terror, assim como todo o experimentalismo setentista psicodélico e progressivo, como Jethro Tull e Yes, à música ambiente, de sintetizadores analógicos e afins, como o Tangerine Dream e o grandessíssimo Robert Rich”, acrescenta.
Como se pode perceber pelo jorro de referências, os meninos não são fracos, não.
Transcendência, sapiência
Dono de discurso tão psicodélico quanto sua música, ele crê que “vivemos emergentes tempos de quebra de paradigmas, de ressignificação de conceitos, de destruição e reconstrução filosófica e científica, de transcendência da sapiência humana. A psicodelia surge como reflexo da evolução, como consequência, como meio e também como fim”.
Parte integrante de uma cena emergente que já se configura como a mais interessante do rock local desde os anos 1990, Rodrigo é otimista: “Fomentadores como Big Bross, Brechó Discos, Rogério Gagliano, Irmão Carlos, Cairo Melo (NHL Produções), entre outros, e donos de casas como o pessoal do Dubliner’s Irish Pub – Messias Figueiredo e Roland Hollos – têm assumido a honrada responsabilidade de levar tudo isso aqui adiante”, diz.
Ao lado de Pedro Leonelli (guitarra), Pedro Canuto (baixo) e Igor Quadros (bateria), Rodrigo planeja levar o show da HAO para o interior do estado e além: “Temos planos de tocar em Alagoinhas, possivelmente em Feira de Santana e Lauro de Freitas. Correremos atrás de shows e festivais também fora daqui, como em Sergipe, Paraíba e outros estados nordestinos. Estamos totalmente abertos às possibilidades de expansão de fronteiras e trabalharemos para isso. A HAO pode ser uma banda nova, mas já ansiamos pelo mundo. E ele que nos aguarde”, avisa o músico.
Breve histórico: como os membros se conheceram e formaram a banda: eram colegas de escola, da rua, do rock? Já tiveram outras bandas?
A HAO sábado passado, no Dubliner's. Foto: Pedro Maia
Rodrigo Reis: Na realidade, a formação atual da HAO já é a sua terceira. Da formação inicial, só restamos eu e Pedro Canuto (Baixista). Éramos colegas de colégio, do Vieira, onde desenvolvemos o interesse de tocar juntos. Dos gostos musicais em comum, surgiu a ideia de aprofundarmos um pouco mais as Jams de escola, transferindo-as para estúdio. Sondamos alguns conhecidos na época, meados de 2012, e formamos uma banda, até então sem nome, sem quaisquer pretensões, a não ser de fazer um som com amigos aos finais de semana. Começamos, basicamente, tocando músicas dos Red Hot Chili Peppers, desde as mais antigas, da década de 80, até as mais conhecidas, dos anos 2000. De tanto absorver essa musicalidade, foi chegado o momento de pô-la para fora. Foi assim que compus as primeiras músicas da banda, como Popeye, Filthy Box e Blue Man (esta última em parceria com João Nuno, o então baixista). À medida em que ensaiávamos, apenas crescia a necessidade de produzir algo original, que apetecesse de forma mais plena aos anseios dos ouvidos e da alma. A partir dessa súplica e da influência de outros sons, como do Rage Against The Machine e Funkadelic, foi formando-se aos poucos a HAO e o seu primeiro EP, Apache Groove. No final de 2013, João Nuno se despediu da banda e Canuto (então guitarrista) assumiu o baixo, abrindo espaço para que Pedro Leonelli, então amigo de Canuto e conhecido dos demais, assumisse a guitarra, posição a qual mantêm até hoje com excelência. Foi em janeiro de 2014 que tivemos a notícia de que João Gabriel (Biel), então baterista, se mudaria para São Paulo para cursar Produção Musical. Assim, concretizou-se o primeiro EP, da necessidade de ter em mãos o material que vínhamos produzindo nos então 2 anos de banda, que poderia simplesmente evaporar-se com a saída de Biel, caso não fosse registrado. Gravamos o Apache Groove, de forma bastante direta, crua e honesta e demos início à caminhada em cima dos palcos, ainda com amigos, vez ou outra, quebrando galho na bateria, até encontrarmos Igor Quadros, atual baterista, conhecido também da época de Vieira, hoje acréscimo essencial para a sonoridade que vimos alcançando.
O som lembrou muito bandas grunge dos anos 1990, como Soundgarden e Liquid Jesus, entre outras. Foi nessa fonte que vocês beberam mesmo?
RR: A aproximação com o grunge e gêneros adjacentes começou com influências como o Rage Against The Machine – principalmente - e, obviamente, Nirvana. Do Rage, tive contato com o som do Audioslave, superbanda dos anos 2000, cuja formação era, “basicamente”, os vocais absurdos de Chris Cornell do Soundgarden – grande influência pessoal – adicionados ao instrumental raivoso do Rage Against The Machine, encabeçado pelo grande Tom Morello. Como uma coisa leva a outra, acabei absorvendo também parte da musicalidade do próprio Soundgarden e de seus contemporâneos, como Alice In Chains, Kyuss e como, o já então conhecido, Primus – estes também, mas em proporções diferentes, influências dos outros integrantes da banda, em termos de peso.
HAO Foto Iza Pinheiro
Salvador tem visto uma nova leva de bandas de rock com influências claramente psicodélicas, como vocês, Van der Vous, Teenage Buzz (tem mais, mas agora não me ocorre). Por que isso, agora? Tem a ver com o surgimento do Tame Impala, Midlake e outras bandas nessa linha lá fora também?
RR: Com certeza o Tame Impala tem sido uma grande influência em termos de psicodelia, mas não diria ser o motivo causador da nossa. Não exatamente. Acho que a psicodelia sempre esteve presente, mesmo que ainda como um embrião filosófico, que agora começa a se aflorar mais, em nós, em forma de música. Talvez esse afloramento esteja sendo acelerado e amparado pelo aparecimento dessas bandas e consequente reabertura de espaço e visibilidade à música psicodélica no mundo, mas acho que está mais relacionado à evolução sensitiva e intelectual pessoal a um nível transcendental. É algo que emana – e sempre emanou – de nós, internamente, com potencial para romper com as barreiras do corpo – leia-se estrutura física genérica, também musicalmente falando. Vem de uma força caótica e incontrolável de criar movimento, de instigar a mente e os sentidos, de conectar-nos todos através da arte, da música, das frequências, das ideias, de uma forma que é melhor entendida e absorvida, por sua profundidade e infinitude, se acontecer através da psicodelia, justamente, também, porque a psicodelia tem a capacidade de representar todo o potencial gigantesco de comoção que é próprio da música em si. Essa ideologia é perfeitamente compreensível se lembrarmos do Pink Floyd, influência mais que essencial em todo esse processo. Outros sons também somam a essa aura, como os atuais Sleepy Sun, Mini Mansions e o mais recente álbum do The Flaming Lips, The Terror, assim como todo o experimentalismo setentista, do Rock Psicodélico e Progressivo, como do Jethro Tull e Yes, à música ambiente, de sintetizadores analógicos e afins, como o Tangerine Dream e o grandessíssimo Robert Rich. E, por isso, tudo, agora. Porque vivemos emergentes tempos de quebra de paradigmas, de ressignificação de conceitos, de destruição e reconstrução filosófica e científica, de transcendência da sapiência humana. A psicodelia surge como reflexo da evolução, como consequência, como meio e também como fim.
Como está o cenário de shows e bares para tocar na cidade? Rola muita dificuldade para tocar?
Ei, Rodrigo também toca sax! Foto Pedro Maia
RR: Na verdade, não. Apesar de Salvador ter fama de ser uma cidade pobre para o Rock e música alternativa, na realidade têm-se aberto um espaço muito importante e significativo para essa cena. Basicamente, não vê quem não quer. Fomentadores como Big Bross, Brechó Discos, Rogério Gagliano, Irmão Carlos, Cairo Melo da NHL Produções, entre outros, e donos de casas como o pessoal do Dubliners Irish Pub – Messias Figueiredo e Roland Hollos - têm assumido a honrada responsabilidade de levar tudo isso aqui adiante. E as oportunidades existem, é preciso estar atento e disposto a encará-las. Nós estamos e percebemos uma safra grande e crescente de artistas encarando essa realidade com mais ímpeto, não só em Salvador, mas em toda a Bahia. É só uma questão de tempo para que essa visão pequena do cenário soteropolitano e baiano caia por terra, porque as medidas para isso estão sim sendo tomadas e são perceptíveis para quem tem olhos.
Com o CD lançado, quais os planos da banda? Shows no interior, fora da Bahia e tal?
RR: Depois de um excelente show de lançamento do novo EP, “A Imoralidade das Rosas”, no Dubliners, pretendemos sim e já estamos em articulação para levar o nosso som para além da capital. Temos planos de tocar no interior da Bahia, como em Alagoinhas, possivelmente em Feira de Santana e Lauro de Freitas, entre outras cidades, em breve. Correremos atrás de shows e festivais também fora daqui, como em Sergipe, Paraíba e outros estados nordestinos. Estamos totalmente abertos às possibilidades de expansão de fronteiras e trabalharemos para isso. A HAO pode ser uma banda nova, mas já ansiamos pelo mundo. E ele que nos aguarde.
NUETAS
Thiago Trad convida
O Quanto Vale o Show? de hoje tem o Bahia Experimental, do baterista Thiago Trad (Cascadura, Bailinho de Quinta). Ele convida DaGanja, Caveira (Lisergia), Tati Trad, Cadinho Almeida, Pedro Degaut e Enio. Hoje, Dubliners, 20 horas, pague quanto quiser.
Wander Wildner X4 X3
Wander Wildner volta a Bahia em miniturnê: Salvador (quinta-feira), Feira de Santana (sexta), Alagoinhas (sábado) e Camaçari (domingo). O mestre divulga o oitavo CD, Existe Alguém Aí?. Por aqui o show é no Dubliner’s, com Os Jonsóns e o DJ Bruno Aziz. 22 horas, R$ 20.
Cascadura no teatrão
A Cascadura faz mais um show (em grande estilo) da sua série de despedida: é o Laboratório Acústico na Sala Principal do Teatro Castro Alves, no projeto Domingo no TCA. Domingo, 11 horas R$ 1.
Localizada à beira do Rio São Francisco, Bom Jesus da Lapa é conhecida como a “Capital Baiana da Fé”, por causa da bela Gruta do Bom Jesus, para onde acorrem todos os anos milhares de romeiros.
Agora, além do turismo religioso, a cidade pode ficar conhecida por outro motivo: é o lar de Hairton Gonçalves – um puta guitarrista, mano!
Brincadeiras a parte, este músico, paulista de nascimento (de São José dos Campos), surpreende pelas extremas habilidade e musicalidade demonstradas em seu primeiro álbum, Cordas e Dedos, viabilizado por meio de edital da apoio da FUNCEB –Fundação Cultural do estado da Bahia.
Fãs de guitar heros como Steve Vai e Joe Satriani podem se jogar de cabeça no disco do rapaz, que a satisfação é garantida.
“Sim, claro, curto esses caras aí e também os brasucas, como Pepeu, Robertinho de Recife, Armandinho, Álvaro Assmar. Aliás, sou apaixonado por blues e Stevie Ray Vaughan. Eu cresci ouvindo essas coisas”, conta Hairton.
O Lombra
No disco, Hairton apresenta um som mais para o AOR (Album Oriented Rock), com uma produção limpa e de fácil audição para leigos: “É bem clean: solo de entrada, solo de saída, um tema bonitinho”, descreve.
Filho de um oficial da Aeronáutica, Hairton chegou com a família a Bom Jesus aos 12 anos, em 1977, e ouvia os discos de rock clássico que seu irmão, mais velho, lhe passava. Só aos 16 ganhou seu primeiro violão.
“Aí eu ia para as festas, via o pessoal tocando, e, em casa, tentava repetir. Depois comprei um baixo, e meses depois, ai já estava tocando em banda de bailes aqui na cidade”, relata.
Na década de 1980, Hairton integrou a primeira banda de rock local: “Eu e um amigo, o Kiko Lisboa, formamos a banda O Lombra. A gente tocava Black Sabbath, Legião, Beatles e tal, mas acho que era muito avançada para a época, por que os bailes não enchiam”, diverte-se o músico.
Desde então, Hairton integrou diversas bandas que se apresentam na região, como a Papo de Anjo, além de dar aulas, oficinas e dirigir a banda base do festival Velho Chico Beat, entre outras atividades.
Apesar de ter gravado o CD Cordas & Dedos todo sozinho, ao vivo apresenta-se com uma banda (Libório nos teclados, Salatiel na bateria e Lucas no baixo), a qual espera trazer para Salvador em breve: “Tenho um amigo aí, o jornalista Cláudio Moreira, que está me ajudando a divulgar”, conta.
Projeto da atriz Luísa Prosérpio (que também é backing vocal da banda Limusine) e do baixista Jerry Marlon (Água Suja), a banda Salomé & Os Cangaceiros do Rock estreia sexta-feira no Dubliner’s. A moça sobe no palco de cangaceira, para cantar Led Zeppelin, Rita Lee & cia. 23 horas, R$ 20.
Tabuleiro de Lily
Tabuleiro Musiquim e Lily Braun no Commons. Sexta, 22 horas, R$ 10 (até zero h).
Jonsóns, HAO e VDV
Os Jonsóns, HAO e Van Der Vous fazem a night de sábado. Dubliners, 21 horas, R$ 15.
Atores do filme que estreia no dia 3, estão no Rio em divulgação do filme. Henry Cavill e Armie Hammer falaram com a imprensa no Copacabana Palace
Armie Hammer e Henry Cavill no Copacabana Palace, na manhã de ontem
Uma pequena multidão de fãs se aglomerou à porta do mítico hotel Copacabana Palace portando cartazes e fotos nesta segunda-feira, para ver os atores Henry Cavill (O Homem de Aço) e Armie Hammer (A Rede Social), que estão no Rio em turnê de divulgação do filme O Agente da UNCLE, novo evento cinematográfico do diretor inglês Guy Ritchie (Sherlock Holmes e Snatch, entre outros filmes).
Em rodada de entrevistas para a imprensa brasileira, os galãs falaram sobre o filme e a experiência de trabalhar com o badalado diretor.
"Guy é um sujeito incrível. O filme segue a máxima dele: 'se não está sendo divertido, então você está fazendo errado", disse Henry Cavill.
"Sim, tudo o que você vêna tela foi exaustivamente ensaiado, tivemos muitas horas de ensaio na casa do Guy", completou Armie Hammer.
Ambientado em cenários charmosíssimos de uma Europa em pleno auge da Guerra Fria, logo após a construção do Muro de Berlim, o filme reimagina a série de TV homônima dos anos 1960, sobre dois agentes secretos, o americano Napoleon Solo (Cavill) e o russo Illya Kuryakin (Hammer), que se veem forçados a trabalhar juntos, quando uma organização criminosa obscura se torna uma ameaça tanto para os EUA e aliados, quanto para União Soviética.
Uma típica estrutura dos chamados buddy movies (filmes de parceiros) do cinema americano, que se detestam inicialmente, mas tem de trabalhar juntos e acabam tendo respeito um pelo outro.
Alicia Vikander, Hammer e Cavill no cenário glorioso de Roma
"Não é necessariamente um buddy movie no sentido estrito, mas se torna interessante pelo fato de que estes dois personagens se odeiam no início. Mas acabam por se respeitar, mesmo com as formas diferentes que ambos tem de abordar as dificuldades", disse Cavill.
Sobre a química demonstrada entre os dois na tela, Armie Hammer disse que foi um processo. "Não é como se eu tivesse sido apresentado a ele e dissesse: 'sinto tanta química por você'", gracejou o mais descontraído dos dois, com a mão no ombro do parceiro.
"Mas ambos adoramos ter tido a oportunidade de fazer esse filme, ambos somos grandes fãs do trabalho do Guy Ritchie", acrescentou.
Cavill disse que sequer assistiu a série original, para pode compor seu personagem com total liberdade. "Só pegamos os nomes dos personagens originais", garantiu.
"Eu só peguei o cabelo louro. Dave McCallum (o Illya Kuryakin original) era louro, então...", brincou Hammer.
Sobre a ambientação nos coloridos anos 1960, Cavill disse que "o filme tem uma certa joie de vivre (alegria de viver) típica da época, as pessoas tentavam ser mais alegres, havia uma ameaça nuclear na época, e as pessoas, ao inves de ficarem deprimidas, começaram a amar a vida, só para o caso de não haver amanhã".
"E tinha LSD também", acrescentou Hammer, arrancando risos dos jornalistas.
O trio na escadaria da Piazza di Spagna, novamente em Roma
Um ponto alto do filme é a trilha sonora baseada no subgenero spy jazz, muito dinâmica, charmosa e cheia de balanço, que inclui até uma música do baiano Tom Zé, Jimmy Renda-se.
"Enquanto eu assistia o filme, várias vezes eu ficava pensando, 'que música sensacional. Opa, o filme está passando!' Mas sério, a música é tão boa, que adiciona tanto ao filme, são músicas perfeitamente colocadas. Se você gosta de música, eu recomendo fortemente que você assista esse filme, ou no mínimo compre a trilha sonora", disse Armie Hammer.
O Agente da UNCLE estreia nos cinemas no dia 3 de setembro.
O repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da Warner.
Teatro: Portuguesa Maria de Medeiros e carioca Laura Castro trazem a cidade peça que discute a questão das novas famílias
Maria em Cannes. Foto Geroges Biard / CC
Atriz portuguesa de maior destaque mundial, a lisboeta Maria de Medeiros está em Salvador para apresentar ao público baiano a peça Aos Nossos Filhos, na qual contracena com a própria autora do texto, a carioca Laura Castro. A direção é de João das Neves.
A peça terá oito sessões no pequeno teatro da Caixa Cultural, esta semana e na próxima, de sexta-feira a domingo, sendo que no sábado são duas sessões – a preços populares (detalhes no serviço).
No palco, Maria e Laura interpretam, respectivamente, mãe e filha. A segunda conta que terá um filho – só que pela barriga da companheira.
E aí a mãe, uma veterana da luta armada contra a ditadura, guerreira das causas sociais, se defronta, a partir daí, com os seus próprios preconceitos.
Em entrevista exclusiva, concedida no Gabinete Português de Leitura, Maria afirmou que a peça “não é só sobre a questão da mulher na sociedade, e sim, sobre novas formas familiares e de se relacionar com cônjuges e ter filhos”.
“A peça trata dos preconceitos de cada geração. Mesmo a mãe super prafrentex, que foi de todas as lutas, os tem de alguma forma. E a filha é mais careta do que a mãe, mas tem aí um limite que a mãe não consegue vencer”, conta.
“Ela se encontra com o próprio preconceito, com o limite de sua abertura de espírito, por que ela também esperava uma descendência ‘nos cânones’. E o que a filha leva a peça toda para explicar é que ela oferece uma descendência, mas de outra forma”, acrescenta.
Série de coincidências
Maria e Laura Castro em Aos Nossos Filhos
Aos Nossos Filhos vem sendo apresentada em diversas capitais desde 2012, tendo passado por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Lisboa.
E ela não acaba quando sair de cartaz: em 2016, Maria dirigirá um filme, coprodução Brasil - Portugal, baseada na peça – só que com Marieta Severo no papel da mãe.
”Curiosamente, a Laura tinha pensado na Marieta para a peça, até por que ela corresponde muito mais ao papel, por tudo que ela viveu – mas aí ela não pôde”, conta Maria, que também é cantora e foi levada ao projeto por uma série de coincidências.
Em 2013, ela lançou Repare Bem, um documentário sobre o caso de Denise Crispim, que teve marido e filho torturados e mortos pela ditadura militar no Brasil.
“Aí a Laura soube do Repare Bem e ainda ouviu minha versão da música que dá título a peça (Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vitor Martins). Ela percebeu que estávamos falando sobre as mesmas coisas. Aí me mandou a peça, que eu li e achei que tinha tudo a ver”, relata.
“Agora, atrás da câmera, eu acho um processo muito bonito e natural que o papel volte para a Marieta”, afirma.
“Vai ser diferente, por que ela vai trazer outros aspectos da personagem. Mas isso é que é lindo no teatro: o mesmo papel pode ser abordado por atrizes diferentes, com perspectivas muito diversas”, diz.
Em tempo: o sotaque de Maria é bem leve e ninguém terá dificuldade de entende-la.
Aos Nossos Filhos / Com Maria de Medeiros e Laura Castro / de amanhã até domingo e de 28 a 30 de agosto, às 20 horas (sexta-feira), às 17h e às 20h (sábado) e às 19 horas (domingo) / CAIXA Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro) / R$ 8 e R$ 4 / vendas: bilheteria da CAIXA Cultural, a partir das 9 horas do primeiro dia de apresentação, exclusivamente para as sessões da semana / 16 anos
ENTREVISTA COMPLETA: MARIA DE MEDEIROS
Muito oportuno essa peça neste momento, quando você interpreta uma mulher que lutou contra a ditadura, temos uma presidente que fez o mesmo e, por incrível que pareça, temos também manifestações nas ruas pedindo a volta da ditadura. Como a senhora, como estrangeira próxima ao Brasil, vê este momento tão caótico?
Maria de Medeiros: Vejo com preocupação, por que sou apaixonada pelo Brasil há muito tempo. E o fato da Laura me propor essa peça já foi um conjunto de coincidências que me surpreendeu muito. Eu tinha acabado de dirigir um filme, o Repare Bem, que foi premiado em Gramado, que me foi proposto pela Comissão de Anistia e Reparação, e no filme, eu retrato a história de uma família onde só a mãe e a filha sobreviveram, mas os homens foram mortos em circunstâncias monstruosas, terrivelmente torturados e assassinados pelo militares, e nesse filme já tem essa temática, além da relação mãe e filha. E ainda tem outra coincidência: em homenagem a elas, eu escolhi cantar essa canção tão bonita do Ivan Lins e Vítor Martins, chamada Aos Nosso Filhos, que é uma carta dos pais para os filhos, diante de um contexto de luta pela liberdade em que os pais pedem desculpas pela ausência. Mas, mesmo fora de qualquer contexto politico, sempre há boas razoes para pedirmos desculpas aos nossos filhos, por que erramos muito. Em todo caso, essa canção já estava na minha vida, aí aparece essa peça com essa temática que eu vinha abordando há tempos. Achei que era um sinal que eu deveria aceitar essa aventura, essa proposta. E depois de ter trabalhado em várias projetos sobre a violência que foi essa ditadura aqui, qualquer um fica muito perplexo quando ouve que há minorias, mas ainda assim, que fazem apelos a uma ditadura militar, fica parecendo que tanta luta, tanto sofrimento foi em vão. E apesar de tudo, o fato de podermos protestar hoje significa que vivemos em uma democracia, um direito adquirido por quem deixou a pele, a alma e a vida nessa luta.
Vejo que a senhora vai dirigir um filme baseado nesta peça, só que com Marieta Severo no seu papel. Como é esta transferência de papeis entre a senhora e Marieta?
MM: Curiosamente, a Laura tinha pensado na Marieta para a peça, até por que ela corresponde muito mais ao papel, por tudo que ela viveu – mas aí ela não pôde. Aí a Laura soube do Repare Bem e ainda ouviu minha versão da música que dá título a peça. Ela percebeu que estávamos falando sobre as mesmas coisas. Aí me mandou a peça, que eu li e achei que tinha tudo a ver. Agora, atrás da câmera, eu acho um processo muito bonito e natural que o papel volte para a Marieta. Vai ser diferente, por que ela vai trazer outros aspectos da personagem. Mas isso é que é lindo no teatro: o mesmo papel pode ser abordado por atrizes diferentes, com perspectivas muito diversas
Maria em Pulp Fiction (1995), deitando e rolando com Bruce Willis
A senhora se tornou mundialmente conhecida trabalhando em filmes de grandes diretores de Hollywood, como Philip Kaufmann e Quentin Tarantino. Mas desde então vemos que senhora só tem filmado na Europa. Por que?
MM: Eu achei super divertido trabalhar em Hollywood, gostei muito, mas nunca tive assim, um 'sonho americano'. Gostei como experiência, mas nunca considerei a possibilidade de me instalar lá nesse sistema, por que me identificava mais com a Europa. E também tinha um grande sonho, que era fazer meu filme, Capitães de Abril. Foram treze anos de luta e insistência. Acho que me deixaram fazer por que já estavam tão fartos de minha insistência (risos). Nessa altura, para mim, era essa a prioridade, não era ficar lá (nos EUA). Mas adorei a experiência, e tive muita sorte de ter trabalhado com artistas tao interessantes e criativos. O Tarantino, eu acho extraordinário, e ele, naquela época, já tinha essa consciência de que é genial, ele sabia que o espetáculo era ele também.
A senhora também dirigiu um filme sobre o fim da ditadura em Portugal, Capitães de Abril e um documentário sobre a ditadura no Brasil, Repare Bem. Eles se complementam? É uma continuação de um pensamento seu?
MM: Certamente, é uma continuação de um pensamento meu, apesar de terem formas muito diferentes, o Capitães é uma ficção, ainda que muito fiel aos dados históricos e as perspectivas dos militares. Eu fui muito fiel aos acontecimentos históricos vividos pelos militares, mas é uma ficção, um filme de guerra, foi tudo muito dirigido como um filme de guerra. Já o Repare Bem é um documentário de depoimentos, está a serviço das pessoas entrevistadas, não tem efeitos especiais, nem nada, é despojado. Mas do ponto de vista da perspectiva e do pensamento, tem a ver um com o outro, sobre essas ditaduras dos dois lados do Atlântico.
A senhora também é cantora. Eu procurei videos seus no You Tube e te vi cantando Chico Buarque e no próximo, The Clash. Mas quem influenciou a senhora enquanto cantora?
MM: (risos) Olha, só virei compositora muito recentemente, e quase envergonhada por que sou filha de um grande maestro e compositor de Portugal, e minha irmã Ana de Medeiros também é compositora, então eu fico meio inibida de compor algumas cançõezinhas, mas me considero mais intérprete, e o que tento trazer é o flerte entre teatro e música, até por que já fiz bastante musical também, com dança e tudo. Eu gosto dessas áreas onde essas artes dialogam e as fronteiras se perdem.
A senhora já apresentou esta peça em outras cidades do Brasil. Nota alguma diferença na recepção do público de cidade para cidade?
MM: É o terceiro ano que fazemos esta peça. Passamos por Brasília, Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Lisboa e agora, finalmente, Salvador. Mas não noto muita diferença nas recepções dos públicos de cada cidade. As vezes, a sala determina a diferença. Já fizemos em salas muito grandes, com o Tuca, (SP) de 800 lugares. E aqui, que é uma sala bem pequena. Eu penso que isso é melhor para peça, pois quando a fazemos em lugares grandes demais, se perde um pouco de intimidade. A peça é uma conversa entre mãe e filha e o público é convocado para esta conversa. O que é muito interessante na peça é que as personagens são muito inteligentes e ambas tem muitos bons argumentos. Você ouve uma e diz: 'ah tem razão'. Aí você ouve a outra e diz 'ah, ela também tem razão'! É como uma conversa que o público vai seguindo.
A mulher tem assumido cada vez papeis de protagonismo na sociedade, mas a senhora sente que há um retrocesso também, um avanço conservador homofóbico e misógino em curso?
Maria e Laura na peça que estreia em Salvador
MM: Sim com certeza, é evidente que a mulher está assumindo mais protagonismo, apesar da misoginia ambiente no mundo inteiro. Mas felizmente, as mulheres estão com mais força na sociedade, e o que acho interessante é que a peça trata dos preconceitos que cada geração, de alguma forma, tem. Mesmo com uma mãe super 'prafrentex', por que foi de todas as lutas, lutou a vida toda contra preconceitos raciais, na defesa da mulheres, por justiça social e ainda hoje é engajada por crianças soropositivas, e de alguma forma, a filha é mais careta do que a mãe. Mas tem aí um limite que a mãe não consegue vencer, ela se encontra com o próprio preconceito, com o limite de sua abertura de espírito, por que ela também esperava uma descendência 'nos cânones'. E o que filha leva a peça toda para explicar é que ela esta oferecendo uma descendência, mas de outra forma. É muito interessante como cada geração tem suas lutas, não é só uma questão da mulher na sociedade, e sim, a de novas formas familiares e de se relacionar com cônjuges e ter filhos. E o filme vai ser ainda mais sobre as várias formas de filiação que não é só a 'standard'.
Como está o cinema em Portugal? No Provocações, a senhora disse que esperava-se uma nova lei. Houve algum avanço? A gente quase não vê filmes portugueses por aqui.
MM: Tenho muita gratidão a Mostra de SP, por que sempre tem olhar para o cinema português. Na verdade, ainda há muita gente boa fazendo cinema interessante em Portugal, apesar das dificuldades. A máquina vai funcionando devagar, mas a criatividade está lá, felizmente.
Aqui no Brasil quase não conhecemos a música e o cinema de Portugal. A senhora arrisca alguma opinião sobre o por que disso? Será o sotaque, que os brasileiros tem dificuldade de entender?
MM: Mas é verdade, o brasileiro não entende o sotaque português. Mas penso que não só tem essa dificuldade em nos entender, mas é que é muito difícil exportar cultura, e um peixe pequeno como Portugal... Isso precisa vir de uma vontade política. Eu vivo na França, e lá eles tem uma política cultural interna e externa, o estado francês ajuda a promover muito de sua cultura, já o governo português, não, é um grande trabalho. Ainda assim, tem muitos fadistas portugueses bem conhecidos aqui no Brasil.
Agora, dois anos depois, a rapaziada faz nesta sexta-feira o show de lançamento do seu primeiro álbum, o redondíssimo Generation Dreams.
Produzido pela dupla Tadeu Mascarenhas e Nancy Viégas, o disquinho foi viabilizado após o grupo vencer o Desafio das Bandas 2014, concurso organizado pelo Grupo A TARDE e Nossa Agência, em parceria com Oi Galera e Faz Cultura.
O prêmio deu direito à TB de gravar um EP de seis faixas, além de R$ 3 mil em instrumentos.
Acabou que os caras gravaram não um EP com seis, mas um álbum de 11 faixas.
“A gravação foi feita no estilo antigo: ao vivo no estúdio. O que é até mais difícil, por que todo mundo tem que estar no tempo certinho”, conta o baterista Andrés Mayan.
“Acho que traz um toque mais sincero. Também não criamos nada em computador. Só gravamos arranjos que podemos executar ao vivo. A gente gosta muito de fazer shows, então a gravação é sempre a mais sincera possivel”, diz.
Naturalmente, o álbum foi gravado digitalmente, no programa Pro-Tools como todo mundo faz, mas apenas como método de registro – e não de edição: “Até cogitamos gravar em fita magnética, mas o tempo era corrido e a fita só vende no exterior, ia ser bem complicado. Aí utilizamos o Pro-Tools de forma bem rudimentar. A bateria mesmo não tem nenhuma maquiagem”, conta.
Sem mancha de dendê
Com gosto de Beatles, Velvet Underground e britpop em geral, Generation Dreams deverá agradar em cheio aqueles que dispensam mancha de dendê no seu rock de cada dia.
O resultado é um disco de uma banda que soa absolutamente verdadeira em seu estilo, algo muito mais importante do que cantar em português e citar Novos Baianos só para agradar hipster.
Mas se engana quem pensa que esses caras só ouvem velharia. "Ouvimos bandas atuais sim, as que mais ouvimos é o britpop: Blur, Oasis. Gostamos de Cachorro Grande, adoramos o disco novo do Relespública, Faichecleres, O Terno. Do que tem atualmente lá fora, eu sou o que ouço menos, mas na banda tem quem goste de Tame Impala, Kasabian e tal. Mas uma das bandas que a gente mais gosta é The Moons, que tinha um tecladista brasileiro que tocava com Paul Weller. Temos muita influência dessa banda", conta. "Sobre o título e a capa do disco, o propósito é uma referência a viagem que separa a juventude da idade adulta. Então as letras falam dessas situações, como sair de casa, responsabilidades, os relacionamentos que mudam, trabalho etc. A gente quis trazer isso para o disco: começamos esta banda adolescentes e agora já estamos quase na idade adulta, com tudo o que isso traz", reflete.
“Chegamos a conclusão que os discos que nos dão mais tesão não são perfeitos, tem até falhas de execução. Você ouve os discos gravados hoje e parece uma máquina tocando. Queremos gravar como antigamente, mas usando a tecnologia de agora”, conclui.
Teenage Buzz, Cartel Strip Club e Bilic Roll / Sexta-feira, 18 horas / Largo Tereza Batista (Pelourinho) / gratuita facebook.com/theteenagebuzz
NUETAS
Incubando sons
O Quanto Vale o Show? de hoje tem a Noite Incubadora Sonora, projeto de profissionalização de bandas tocado por Irmão Carlos e sua galera. 19 horas, Dubliner’s, pague quanto quiser.
Contando Raul
Wilson Aragão e Marcus Clement no show
Muito legal o espetáculo Contando Raul, da banda Arapuka, sábados e domingos de agosto no Teatro Eva Herz. Marcus Clement & cia até jogam para a torcida, tocando clássicos cansados como Metamorfose Ambulante e Maluco Beleza, mas também mostram canções menos populares, como Canto para Minha Morte e um samba obscuro, composto ainda nos anos 1960. Outro ponto alto é a participação do compositor e contador de causos (hilários) Wilson Aragão, parceiro de Raul em Capim Guiné. O ingresso é salgado, mas vale: R$ 25 (a meia!), 20 horas (sáb.) e 19 horas (dom.).
Falsos, Conversíveis
As bandas Falsos Modernos e Conversíveis fazem a festa Mudernage no Taverna Music Bar. A primeira lança músicas novas e a segunda tem repertório de releituras de Robertão, Tim Maia e Jorge Ben. Sexta-feira, 22 horas, R$ 15.
Bate-Papo: Maior editora de ficção científica do Brasil, a Aleph promoveu encontro com fãs no Teatro Eva Herz. Salvador foi a cidade mais votada no Facebook para receber evento
Daniel Lameira e Adriano Fromer com a galera do Conselho Jedi Bahia
A conformação estelar brilhou no céu. A Força estava conosco. E o portal interdimensional se descortinou gentilmente na noite da última quarta-feira para Salvador receber os editores Adriano Fromer e Daniel Lameira, da Editora Aleph, para um bate-papo com os fãs.
Mas que tipo de editora é essa, que tem... “fãs”? Fácil: é a maior editora de ficção científica do Brasil – e mais: é a editora dos livros de Star Wars, ora essa.
Por isso, não chegou a ser uma surpresa ver os membros do Conselho Jedi Bahia, a caráter, invadindo o Teatro Eva Herz (Livraria Cultura).
Surpresa mesmo foi saber que Salvador, em votação proposta pela editora no Facebook, ficou em primeiro lugar entre todas as capitais brasileiras (exceto Rio e São Paulo) para receber o Encontro Intergaláctico (nome do evento).
“Criamos esses Encontros este ano e já fizemos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Aí abrimos a votação no Facebook para saber a próxima cidade”, conta Adriano Fromer.
“Salvador foi a mais votada. Recife, a segunda e Fortaleza, a terceira. Daqui vamos para essas cidades. E sim, foi uma surpresa. Você sempre espera Belo Horizonte ou Curitiba em primeiro nesse tipo de coisa”, acrescenta o jovem sócio e diretor editorial da Aleph.
Fundada em 1984 por Pierluigi Piazzi, pai de Adriano e entusiasta da ficção científica, a Aleph é, muito provavelmente, a editora que mais cresce no Brasil.
“De 2013 para 2014, crescemos 101%. E só este ano, já crescemos mais 110%. Claro que também éramos uma empresa pequena para média, agora somos média”, conta.
O motivo desse salto quântico no hiper-espaço editorial brasileiro tem nome: Star Wars, claro.
“Vencemos uma concorrência pesada entre várias editora para assinar contrato com a Disney pelos direitos de publicar os livros do chamado Universo Expandido de Star Wars no Brasil”, diz.
Foi graças a Star Wars, com as 60 mil cópias vendidas do livro Herdeiro do Império, de Timothy Zahn, que a editora conseguiu cravar seu primeiro livro na lista de mais vendidos do Publish News, site dirigido ao mercado editorial.
“Tô feliz da vida que a Aleph relançou esse livro”, comemorou o contrabandista espacial Talon Karrde – ou melhor, o tecnólogo terráqueo e cosplayer Antônio Autran, 44 anos, membro do Conselho Jedi local. “Eu o li em 1993, mas estava esgotado”, conta.
São fãs como Talon / Antônio que propulsionam a Aleph: “Quando começamos, éramos vistos como loucos, aventureiros. O mantra do mercado editorial era: FC não vende. Mas acreditamos que os bons livros de FC são também bons livros de literatura”, defende.
“E a FC é um nicho com fãs tão ardorosos – que tem crescido tanto nos últimos anos, que o nicho é hoje praticamente um mainstream”, observa.
FC = boa literatura
Adriano e Daniel durante o bate-papo, falando do Asimov. Fotos do blogueiro
Mas nem só da turma do Darth Vader se fez a fama e a fortuna da Aleph.
Em seu catálogo constam os títulos mais significativos dos maiores autores da FC, como a Série Fundação e Eu, Robô, de Isaac Asimov; O Homem do Castelo Alto e Valis, de Philip K. Dick; 2001: Uma Odisseia no Espaço e Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke e Neuromancer, de William Gibson, entre outros.
“No início, lançávamos esses livros dizendo aos leitores e a imprensa que são grandes livros de literatura – o que de fato são, claro. Só que as vezes se passam no espaço, entre robôs e naves espaciais”, disse Daniel, arrancando risos da plateia.
“Agora a gente perdeu a vergonha, bate no peito e diz que é FC mesmo”, riu.
Após uma instrutiva aulinha de história da FC detalhando todas as suas fases, os editores deram boas pistas do que vem por aí entre este ano e 2016.
Para os fãs de Star Wars, a maré está mais do que boa: por contrato, a Aleph terá de lançar até o fim de 2016, 30 livros, de 15 autores (já saíram sete livros).
Um destaque (a ser lançado) é Como Star Wars Conquistou o Universo, de Chris Taylor, um relato do império erguido por George Lucas e adquirido pela Disney.
Entre os clássicos, teremos Robert A. Heinlein, o único entre os chamados Três Grandes (Clarke e Asimov são os outros dois) ainda não publicado pela editora.
“Estranho numa terra estranha (1961), o maior clássico hippie da FC, sai ano que vem”, avisou Daniel.
Outro clássico a sair em breve é Eu Sou a Lenda (1954), de Richard Matheson.
Fora da FC, a Aleph solta em 2016 Transformer, biografia do poeta maldito do rock Lou Reed, por Victor Brockis.
“Esse livro sai pelo Goya, nosso selo de livros autodesenvolvimento e espiritualidade”, disse Adriano.
Lançamento: Julio Caldas lança, com show hoje no Teatro Sesc Pelourinho, seu novo álbum, Blues, Baiões e Psicodelia – um título auto-explicativo para um ótimo CD. NOTA: matéria publicada no sábado 8, o show já passou. Mas hoje Julio toca de novo no Quanto Vale o Show?. Veja nota no pé da matéria
Julio e sua banda. Foto André Oliveira
Já há algum tempo que apreciadores notam as semelhanças do lamento negro do blues norte-americano com o lamento do baião nordestino.
Em seu novo álbum, o guitarrista baiano Julio caldas estreita ainda mais essas similaridades.
Adequadamente intitulado Blues, Baiões e Psicodelia, o disco tem show de lançamento hoje, no Teatro Sesc Senac Pelourinho.
Traz onze faixas autorais de Julio e parceiros como Emílio Cunha, Bule Bule, Illa Benício, Claudio Diolu (baixista de Júlio), além de seu pai, Durval, e o tio, Paulinho Caldas.
“O título é auto-explicativo, mesmo”, afirma Julio, que, além de tocar guitarra e uma infinidade de outros instrumentos de cordas, também canta em todas as faixas.
Quem acompanha a carreira deste virtuose sabe que depois do álbum Pitecantropus Erectus (2008), ele não abriu mais a boca em seus discos seguintes, todos instrumentais.
“Muitos me veem em Salvador como o cara da música instrumental. E eu tinha mesmo a ideia de produzir meus trabalhos assim”, conta.
“Então eu tenho um disco de guitarra baiana (Choro Rock – Circuito Guitarra Baiana, 2012) e outro de viola caipira (o duo Viola de Arame, 2011). Como já os realizei, agora vou fazer o que sou, mesmo. Não vou fazer mais discos pensando no instrumento em si, e sim usar esses instrumentos na minha música”, afirma Julio.
Psicodelia do sertão
Gravado com a banda toda ao vivo, nos Estúdios WR, Visgo de Jaca e no Teatro Sesc Senac Pelourinho, o mesmo onde toca hoje, o disco é uma tour de force entre as sonoridades do delta do Mississipi e da foz do São Francisco, desaguando em aboios e repentes ao som de guitarra lap steel, banjo e violão de sete cordas.
E como ele mesmo diz, Julio agora faz o que ele bem entende. Assim, o disco apresenta desde canções mais simples e com formato radiofônico, como a bela Juazeiro, até longas digressões no estilo rock progressivo, como nas faixas Não mais o Fim (com oito minutos) e Mata Ciliar (doze minutos).
“As rádios não vão tocar mesmo, então eu vou fazer como quero, vou tocar de forma livre, sem me preocupar com tempo de rádio”, percebe.
“E esse estilo progressivo que você notou é a porção de psicodelia da coisa. A psicodelia está nessas faixas longas com solos de sintetizador. Até por que o progressivo era uma mistura de elementos, de jazz, rock, erudito e blues”, diz.
Dito isso, não chega a surpreender que um dos sonhos de Julio era fazer uma banda do chamado prog rock (para os íntimos): “Sempre tive vontade, mas aqui é difícil. Os músicos daqui acham que as vertentes do rock são algo menor, aí preferem tocar jazz”, nota.
Enquanto não surge uma oportunidade, Julio segue se definindo como o que de fato é: um guitarrista de blues – e com estilo próprio.
“Eu toco blues e esse disco afirma bem isso. A música cantada é uma coisa real pra mim, que meu coração manda, independente de minhas pesquisas na guitarra baiana e na viola caipira. A onda agora é focar no que meu coração manda”, afirma.
100% independente
Vale registro também as participações de dois legítimos artistas populares: Miguelzinho Violeiro (em Não Mais o Fim) e Manoelzinho Aboiador (abrindo o CD, em Meu Santo), ambos de Serrinha. “Fui lá gravar os dois”, conta Julio.
Cem por cento independente, Blues, Baiões e Psicodelia foi bancado do próprio bolso pelo músico: “Por incrível que pareça, é meu único CD todo independente, sem edital. Claro que contei com a ajuda dos músicos que participaram”.
“Agora é levar o show por aí. Toco dia 11 no Quanto Vale o Show? (Dubliner’s Irish Pub). Depois é circular, ir para o interior”, conclui.
NUETAS
Julio vale o show
O Quanto vale o show? de hoje tem Julio Caldas e o gaitista Emilio Cunha. Julio lança seu novo álbum, o sensacional Blues Baiões e Psicodelia. Hoje, 19 horas, Dubliner’s Irish Pub. Pague o quanto quiser.
Retrofoguetes’ back
Os Retrofoguetes fazem retorno triunfal em nova formação na sexta-feira. O baixista Fábio Rocha se junta a Morotó Slim, Rex e Julio Moreno. Commons Studio Bar, 22 horas, R$ 30 (porta) ou R$ 20 (nomes para www.commons.com.br/listaamiga).
Pancreas & Pacmen
Também sexta-feira, as bandas Pancreas e The Pacmen se apresentam no 30 Segundos Bar (Rua Ilhéus, 21, Rio Vermelho). 22 horas, R$ 25 (rapazes), R$ 15 (moças).
Desde o clássico Maus, de Art Spiegelman, única HQ premiada com o cobiçado Pulitzer, relatos biográficos (ou autobiográficos) em HQ se tornaram uma espécie de tábua de salvação para quadrinistas que querem ser levados a sério enquanto artistas.
Assim, muitas vidas desimportantes acabaram ganhando relevo em HQs sensíveis e bonitas, enquanto o inverso também é verdadeiro: vidas importantes foram mal-retratadas em HQs irrelevantes.
Felizmente, Uma metamorfose iraniana pertence ao primeiro grupo: se não estivesse deitada em papel e nanquim, dificilmente os brasileiros teriam acesso a incrível história do cartunista persa Mana Neyestani.
Em 2006, Neyestani trabalhava no jornal iraniano Jomeh, cuidando da parte menos política do periódico: o suplemento infantil, quer circulava aos sábados.
Um belo dia, o cartunista criou uma pequena HQ, na qual seu personagem recorrente, um menino de dez anos chamado Soheil, encontrava uma barata, com a qual conversava.
A certa altura, a barata respondeu ao menino com apenas uma palavra: “Namana”.
O termo, que é de origem turca, denota um não-entendimento, como se dissesse: “Como assim?”, um termo coloquial comum no Irã.
Situação kafkiana
Infelizmente para Neyestani, no norte do Irã há duas províncias chamadas Tabriz e Ardabil, densamente povoadas pelos azeri, um povo de origem turca (e turcófono, ou seja, que fala turco) que se sentiu extremamente ofendida ao ler uma palavra de sua língua na “boca” de um inseto abjeto.
Como se sabe, os povos islâmicos não costumam precisar de muita ofensa para começar um banho de sangue.
No caso de Neyestani, não chegou a tanto, mas tão logo cópias xerocadas do cartum começaram a circular, multidões tomaram as ruas nos territórios azeri pedindo a cabeça do autor daquela agressão.
Junte-se a isto o fato de que os azeri sofrem muito preconceito junto aos persas (que falam a língua oficial do Irã, o farsi) e foi o bastante para o pobre cartunista ter sua vida virada do avesso.
A partir daí, Neyestani e seu editor, Mehrdad, se veem enredados em uma complicada situação jurídica e política digna dos romances de Franz Kafka (1883-1924).
Em diversas passagens, Neyestani faz referências explícitas ao romance mais conhecido do autor tcheco, A Metamorfose, no qual o personagem principal se vê transformado em uma barata.
Em Uma metamorfose iraniana, Neyestani se vê não como uma barata, mas perseguido pela barata “turca” do seu cartum.
Mas o paralelo kafkiano mais óbvio de sua desgraça está no romance O processo, no qual o personagem K. é levado a um severo julgamento sem saber a razão.
Nas profundezas
Leitura ágil de perder o fôlego, o relato de Neyestani traga o leitor para as profundezas das cadeias iranianas cheias de presos políticos, entre torturas, interrogatórios desumanos e outras práticas comuns aos regimes totalitários, seja no Irã ou em Guantánamo.
Narrador hábil, o iraniano conta, além da sua própria, as incríveis (e tristes) histórias de alguns companheiros de cela, como a de um senhor que só andava nu, agarrado a uma bolsa – e que defecava em qualquer lugar.
Da mesma forma arbitrária como foi preso, Neyestani foi libertado, mas de forma provisória. A partir daí, ele e sua mulher empreendem fuga cinematográfica do Irã. Mais detalhes, só lendo a HQ.
Estreia: Nova versão do Quarteto Fantástico faz várias mudanças para permanecer o mesmo, mas falha em empolgar
Foi com esperança que os fãs de quadrinhos receberam a notícia de que a Fox reiniciaria o Quarteto Fantástico no cinema sob a direção de Josh Trank.
Afinal, trata-se do mesmo diretor de Poder Sem Limites (Chronicle, 2012), um filmaço de baixo orçamento que já analisava, em contornos trágicos e tão realistas quanto o possível, o fenômeno dos super-heróis no cinema.
Depois das versões meio infantilizadas do diretor Tim Story lançadas em 2005 e 2007, Trank parecia a escolha ideal para um novo Quarteto.
Com o filme finalmente nas telas, porém, vê-se que ainda não foi desta vez que a amada criação de Stan Lee e Jack Kirby ganhou sua transposição definitiva para o cinema.
Trank fez quase tudo o que se esperava dele: reinventou a origem do Quarteto, trocando a viagem espacial original por teleporte entre dimensões.
Também mudou a paleta de cores, trocando o colorido berrante dos filmes anteriores por uma fotografia mais sóbria e escura. Da mesma forma, subiu uma ou duas notas o tom dramático da trama e das relações entre os personagens.
Mas, como dizem os franceses, plus ça change, plus c'est la même chose: quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas.
Até aí, nada demais, afinal, o Quarteto é o Quarteto e é isso que as pessoas querem ver.
O problema é que Trank se preocupou tanto com os detalhes, que simplesmente se esqueceu do principal: empolgar os espectadores.
Fracasso que se anuncia
O filme até começa bem, centrando a narrativa no jovem gênio científico Reed Richards (Miles Teller, de Whiplash) e sua amizade com Ben Grimm (Jamie Bell, de Billy Elliot).
Levado a um centro de pesquisas pelo Doutor Franklin Storm (Reg E. Cathey), Reed conhece seus filhos Sue (Kate Mara, de House of Cards) e Johnny (Michael B. Jordan, de Poder Sem Limites), além do antipático Victor Von Doom (Toby Kebbell).
Eventualmente, o grupo sofre um trágico acidente que o leva a ganhar super poderes. A caracterização dos personagens em si está correta, especialmente Ben Grimm / Coisa, mais monstruoso e menos amigável que de costume.
E é a partir da transformação do grupo que o caldo de Trank desanda. Ao invés de partir para a ação super-heroica de uma vez, o diretor, no afã de conceder mais “realismo”, quebra o ritmo da narrativa com um desvio na trama, adiando o quebra-pau final. O qual, como se não bastasse, se resume a uma única cena que é, francamente, meio chinfrim.
O que se comenta na imprensa internacional é que o estúdio Fox não apostou tanto assim na produção, concedendo ao diretor um orçamento modesto em termos de filmes de super-heróis: 120 milhões de dólares – menos do que os 130 milhões do filme anterior, Quarteto Fantástico e O Surfista Prateado – de 2007.
Adicione-se a isto os diálogos bisonhos cheios de clichês das cenas de ação é o resultado geral do filme é, com o perdão do termo, brochante.
É de se perguntar, após este fracasso que se anuncia, se a Fox não pretende largar o osso e entrar em um acordo para devolver os direitos sobre os personagens ao Marvel Studios, como fez a Sony com o Homem-Aranha.
Afinal, sob sua tutela, a Fox já produziu três filmes com o Quarteto – nenhum deles satisfatório. OK, a Fox ainda detém os X-Men, com os quais tem feito bons filmes, apesar de uma ou outra derrapada.
Mas os planos já anunciados do filme crossover juntando os dois grupos deverão passar por uma séria revisão após este resultado desanimador.
Quarteto Fantástico / (Fantastic Four, 2015) / Dir.: Josh Trank / Com Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell / Cinemark, Cinépolis Bela Vista, Cinépolis Shopping Salvador Norte, Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, Orient Shopping Center Lapa, UCI Orient Shopping Barra, UCI Orient Shopping da Bahia, UCI Orient Shopping Paralela / Censura: 10 anos