sábado, outubro 18, 2014

CAPOEIRISTA ENCARA PIRATAS NO FAROL DA BARRA E EM PRAIA DO FORTE

HQ: Nova aventura do personagem criado por Flávio Luiz foi financiada pelos leitores

Residente em São Paulo há quase dez anos, o cartunista baiano Flávio Luiz teve de recorrer ao crowdfunding para conseguir lançar seu novo álbum de HQ, Aú, o Capoeirista e o Fantasma do Farol (Papel A2).

Estrelada pelo jovem e heroico lutador baiano criado por Flávio, o capoeirista Aú, a HQ dá continuidade às aventuras do personagem, iniciadas no álbum Aú, O Capoeirista (2008).

Recebido com aplausos da crítica, aquele primeiro álbum foi adotado e recomendado em um projeto de reforço escolar pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

O resultado se refletiu nos quase nove mil exemplares vendidos. Mesmo assim, Flávio conta que nenhuma editora se animou em lançar a segunda aventura do capoeirista.

“Passei mais de um ano com a carta da Lei  Rouanet (que dá a possibilidade de destinar o que se paga de imposto de renda para viabilizar projetos culturais) e não achei quem se interessasse”, diz.

“Ou melhor: até achei,  mas  que, além da isenção, queria também participação nos ‘lucros’, interferência no processo criativo, mudanças ideológicas e  etc. Me reservei o direito de declinar”, acrescenta Flávio.

Sujeito teimoso, que não desiste facilmente, Flávio partiu para o financiamento coletivo na plataforma Kickante.

“Como não abri mão de manter a qualidade gráfica do primeiro álbum (capa dura, papel cuchê), tive que reduzir a tiragem e secar o projeto ao máximo, sem direcionar verba para custos de criação ou assessoria de imprensa etc”, relata.

“Foi só custo de impressão, revisão do texto e correios para os colaboradores. E ainda assim, tive que negociar quase metade do que precisava arrecadar em permuta para serviços de publicidade, como mascotes, marcas e storyboards”, diz.

O sacrifício valeu: o álbum saiu e mantém o “padrão Flávio Luiz de qualidade”, com desenhos de encher os olhos e uma aventura vibrante para todas as idades, ambientada na Bahia.

Do Farol à Praia do Forte

Na HQ, Aú, seu melhor amigo Dó e o mico Licuri se envolvem no mistério que cerca o naufrágio de uma caravela, afundada por piratas em plena Baía de Todos os Santos.

Nos dias de hoje, quando Aú visita uma exposição no Museu Náutico (no Farol da Barra), acaba embarcando em uma aventura que o põe frente a frente com bandidos, nas ruínas de um casarão na Praia do Forte.

“Minha inspiração vem sempre do que me foi marcante na infância. Desenhos animados como Scooby-Doo, Johnny Quest e álbuns europeus de quadrinhos como Asterix e Spirou”, conta Flávio.

“Tentei dar uma valorizada num detalhamento mais trabalhado da arte, caprichar na retratação das locações familiares a quem vive em Salvador e, claro, mantendo uma ‘licença poética’ em alguns casos, para ter liberdade de contar a história nesses  locais”, detalha.

Com o livro lançado em São Paulo, Flávio prevê que só poderá vir à Salvador fazer uma tarde de autógrafos mais para o fim do ano: “Acho que só em dezembro, mesmo”, lamenta.

Agora ele já pensa em um terceiro álbum para o personagem, bem como outros lançamentos de sua produção de quadrinhos: “Tenho a esperança de lançar ainda vários números. Quanto mais fácil conseguir apoio e patrocínio ,mas rápido entre um numero e outro terei como dar conta e apresentar uma nova aventura”, afirma.

“Antes, quero ver se consigo, para 2015, lançar um livro da (série de tiras) Rota 66, com o melhor dos quatro anos que publiquei  em um jornal de Salvador, no começo dos anos 2000. Também já tenho um roteiro para um álbum d’O Cabra 2. Mas dessa vez só tendo editoras interessadas”, conclui.

Aú, o Capoeirista e o Fantasma do Farol  / Flávio Luiz / Papel A2/ 48 p./ R$ 55/ www.flavioluiz.net





sexta-feira, outubro 17, 2014

NOITE DE VETERANOS DO BROCK

Totalmente diferentes entre si, Ira! e Biquíni Cavadão compartilharam os dias de glória do BRock nos anos 1980. Hoje elas compartilham também o palco do Bahia café Hall.

A primeira faz seu primeiro show em Salvador desde a volta a atividade, depois de sete anos parada, após uma briga feia entre os membros e o empresário.

Já o Biquíni, que nunca parou, traz à cidade o show do último CD, Roda-Gigante.

Como o Biquíni é meio que habituê de festas e luaus de blocos de Carnaval, a expectativa maior recai sobre os ombros da dupla remanescente do Ira!, Nasi (vocal) e Edgard Scandurra (guitarra).

“Olha, os shows desde a volta tem sido acima de nossas melhores expectativas”, garante Nasi, por telefone.

“Tanto na parte musical quanto pessoal, a banda está entrosadíssima. Posso dizer com certeza: este é um dos melhores momentos de nossa carreira, desde que formamos o Ira!, em 1981”, afirma.

Com os músicos de acompanhamento Daniel Rocha (baixo), Evaristo Pádua (bateria) e Johnny Boy (teclados), o novo Ira! já soltou uma faixa inédita: ABCD. E Nasi diz que vem mais coisa nova por aí.

“Vamos pensar com muita calma, mas no prazo médio de um ano, o público pode esperar um novo disco e um novo DVD. Mas estamos maturando bem, porque nossa ideia é que esse material tem que estar a altura de nossos melhores trabalhos”, reitera.

Para o show de hoje, a expectativa é das melhores – até por que será um show de hits. E Nasi sabe que o público local é devotado: “O roqueiro baiano é muito retado – como vocês dizem aí. Talvez até pela primazia da cultura carnavalesca”, diz.

“O próprio rock baiano é radical, tanto artistas quanto público. Você tira por Raul, Camisa de Vênus, Pitty, Edy Star, Úteros em Fúria, Dead Billies. O rock aí sempre teve muita personalidade”, percebe Nasi.

"Então esperamos esse show com muita alegria, pois tenho muitas lembranças dos shows espetaculares que já fizemos na Concha Acústica (atualmente em reforma). Esperamos voltar lá também, mas o público deste show terá a oportunidade de nos ver depois muito tempo. Acho que o Ira! está sem tocar aí há uns 10 anos. Se não me engano, nosso último show em Salvador foi na turnê no Acústico MTV, acho que no Festival de Verão de 2005. Então é um grande hiato que esperamos concluir hoje em grande estilo, pois Salvador sempre foi uma praça de shows incandescentes", diz.

Nessa volta, Nasi diz que nem ele nem Edgard pretendem repetir os erros que levaram a separação de 2007, abrindo espaço para ambos tocarem seus projetos paralelos entre uma atividade e outra do Ira!.

"Até para não repetirmos os erros do passado, a ideia é ter alternância entre prioridades. A prioridade agora é o Ira!, pelo menos até o fim de 2015. Depois vamos dar prioridade aos trabalhos solos, com shows e álbuns, pois eles também continuam. O Edgard também esta planejando e lançando as coisas dele", conta.

Nasi aproveita e anuncia que está produzindo dois documentários para o Canal Brasil, um deles em parceria com o jornalista André Barcinski (do livro Pavões Misteriosos).

"Tenho dois projetos de vídeo. O primeiro é um musical no Canal Brasilm que também será lançado como um DVD ao vivo no estúdio. Deve ter 60% do repertório das músicas do meu último álbum, o Perigoso, mais algumas novidades", conta.

"O segundo é um projeto que faz parte da minha vida e é uma das minhas paixões. Estou produzindo com André Barcinski um documentário que retrata o culto de Ifá no Brasil, com foco no odudua (orixá) que tem sede aqui em São Paulo. Vamos acompanhar o trabalho de altos sacerdotes africanos, como Baba King, meu sacerdote, que mora no Brasil há 30 anos. Vem gente do mundo todo, do leste europeu, da Europa ocidental, dos Estados Unidos e América do Sul para se iniciar com ele. O documentário vai até a África, em Agbeokuta para contar a história desse culto, algo que vamos produzir ao longo de 2015", descreve Nasi.




Biquíni de respeito

Na estrada há 28 anos, o Biquíni Cavadão é uma das poucas bandas de sua geração que nunca parou.
Para o vocalista Bruno Gouveia, a longevidade é decorrente de uma postura.

“Acredito que tudo se resume em respeito. Respeito entre nós, nosso público, os profissionais de imprensa, contratantes etc”, responde, por email.

Claro que nem tudo se resume só a isso. Talvez mais do que respeito, o Biquíni sempre demonstrou um faro apurado para boas oportunidades de carreira e ampliação do seu público, não hesitando em firmar parcerias com compositores de largo alcance popular, como o baiano Manno Goes.

“Manno, além de amigo, é excelente compositor. Dani e Em Algum lugar no Tempo, compostas com ele, foram singles da banda nos últimos anos. Buscamos parcerias que nos proporcionem bom resultados musicais”, afirma.

Sobre o último álbum, Bruno acha que "Com certeza é um disco especial. A faixa título foi indicada ao Grammy (Latino) e o disco foi recebido muito bem por críticos e público. Isso sempre nos dá um estímulo a mais", conclui.

Ira! & Biquini Cavadão / Hoje, 21 horas / Bahia Café Hall / Pista: R$ 60, Área Vip: R$ 90, Camarote: R$ 120 / Classificação: 14 anos


quinta-feira, outubro 16, 2014

COMO REVISIONISMO HISTÓRICO É ACANHADO, MAS COMO COMPÊNDIO DE HISTÓRIAS NÃO CONTADAS, PAVÕES MISTERIOSOS É ESPETACULAR


A narrativa de Barcinski é ano a ano, começando em 73, com Secos e Molhados...
A bibliografia musical brasileira, ainda que deficiente (por incrível que pareça) já deu bastante destaque a determinados artistas e períodos da nossa música popular, como a era do rádio, a bossa nova, a tropicália, a jovem guarda e o rock dos anos 1980.

Os anos 1970 e o início da década seguinte, contudo, meio que permaneceram à sombra desses períodos supostamente mais frutíferos.

Agora, o livro Pavões Misteriosos - 1973 - 1984: A explosão da música pop no Brasil,  do jornalista André Barcinski, tenta, de forma até despretensiosa, preencher essa lacuna e fazer justiça a um período comumente visto como menor por muitos críticos e músicos.

“Meu objetivo foi traçar um panorama geral da época e tentar responder algumas questões que sempre me intrigaram”, escreve André Barcinski, na introdução.

“Por que tantos discos bons foram lançados no Brasil no meio dos anos 1970 e por que a qualidade dos lançamentos caiu logo depois? Como o crescimento da indústria musical afetou nossa música? (...) Por fim, (...) como surgiram no país tantos ‘pavões misteriosos’ – Ney Matogrosso, Tim Maia, Pepeu Gomes, Raul Seixas, Ritchie e vários outros – artistas que, nas palavras de Raul Seixas, ‘não tinham nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira’”, pergunta-se.

...passando pelas Frenéticas no fim dos anos 1970...
Para Barcinski, o período entre 1973 e 1975 foi um dos melhores da música brasileira em todos os tempos, quando foram lançadas obras-primas como Secos & Molhados, Gita (Raul Seixas), Racional Vol. 1 (Tim Maia), A Tábua de Esmeraldas (Jorge Ben), O Romance do Pavão Mysteriozo (Ednardo), Paebiru (Zé Ramalho e Lula Côrtes), Na Rua, na chuva, na fazenda (Hyldon), Sweet Edy (Edy Star) e outros.

Mas nem só de obras-primas de grandes artistas se apóia a pesquisa de Barcinski.

Dividido em capítulos dedicados a cada ano do período estudado, ele desvela histórias praticamente ignoradas da música pop brasuca, como a onda dos falsos gringos (Fábio Júnior, Morris Albert), a patrulha ideológica que perseguiu Guilherme Arantes e  Fafá de Belém, a explosão da discoteca (Frenéticas, Harmony Cats), ídolos fabricados (Sidney Magal, Gretchen), a MPB odara (Realce, de Gil), o mercado infantil (Turma do Balão Mágico, Xuxa) e, por fim, a espantosa história de ascenção e queda do cantor Ritchie.

Pau de guaraná

...e terminando com a derrocada de Ritchie, pós-Menina Veneno
Com seu texto enxuto, que dá ênfase aos fatos pesquisados e / ou narrados pelos seus quase 70 entrevistados, Barcinski escreveu um livro que se lê com gosto, dadas as muitas revelações de histórias de bastidores e o alto grau de loucura – própria da época e dos artistas, rendendo causos divertidíssimos.

Um desses está no capítulo 1977: Na nossa festa vale tudo, em que Barcinski faz um grande relato da era disco desde suas origens nos Estados Unidos, mas também traz  um causo inestimável de Leiloca, astróloga e cantora do grupo As Frenéticas, que, na época, teve um caso com Raul Seixas.

Em um hotel no Nordeste, “o Maluco Beleza foi ao quarto da ex e ficou curioso com um pedaço de pau que viu em cima da mesa: ‘Leiloca, que barato é esse?’ ‘É um galho de guaraná, trouxe lá de Manaus’. ‘E dá barato isso aí?’. ‘Não sei, mas vamos tirar a prova já’”.

Solicitado um ralador de queijo na recepção do hotel, “ralamos o toco de guaraná e cheiramos tudo. E não é que deu o maior barato?”, jura Leiloca.

Mais do que uma peça de revisionismo histórico (peso que o autor parece querer evitar), Pavões Misteriosos é um delicioso compêndio de histórias de bastidores não contadas de ídolos (muitos deles esquecidos) e  heróis ocultos de nossa música popular.

Alem disso, Barcinski ajuda a entender a própria evolução da indústria fonográfica brasileira, já que, foi justamente nesse período que esta começou a se profissionalizar, processo que desembocou no empoderamento dos  departamentos de marketing e subsequente derrocada da criatividade e liberdade artística.

Pavões Misteriosos - 1973 - 1984: A explosão da música pop no Brasil / André Barcinski / Três Estrelas / 256 páginas / R$ 42

quarta-feira, outubro 15, 2014

NOVO RITMO PARA A ORQUESTRA SINFÔNICA DA BAHIA

Osba anuncia abertura de licitação para transferir administração para Organização Social sem fins lucrativos, mas com obrigação de levantar fundos

A Orquestra Sinfônica da Bahia na sua casa: o TCA. Fotos: Adenor Gondim
Um dos corpos estáveis do Teatro Castro Alves, a Orquestra Sinfônica da Bahia promete entrar em uma nova e decisiva fase a partir do ano que vem.

Após anos de muita discussão e debate, a Osba inicia em dezembro um processo de publicização.

Trocando em miúdos: sua gestão passará das mãos do governo estadual para uma figura jurídica conhecida como OS: Organização Social.

Antes que haja malentendidos, porém, os representantes da Osba junto ao governo se apressam para esclarecer que não se trata de uma privatização.

“O processo confere apenas a gestão gerencial. Não é uma terceirização do serviço, nem uma transferência de um bem do estado. Apenas transferimos a gestão”, afirma Moacyr Gramacho, diretor do Teatro Castro Alves.

“O estado lança o edital para a OS, que é uma figura jurídica de direito privado. Não é uma empresa, não pode ter fim lucrativo. E a OS que assumir a Osba  terá que atingir metas que nós, do estado, estamos determinando”, diz.

A previsão de Gramacho é que “na primeira quinzena de dezembro espero já termos escolhido a OS que vai operar a Osba. E no início de janeiro, comecemos operando no novo sistema”.

Neste novo sistema, o estado continuará repassando uma verba mensal para a manutenção da orquestra, mas a OS terá que buscar, junto a empresas privadas, patrocínio extra para atingir as metas determinadas pelo governo.

Gramacho diz que esse orçamento, que hoje é de R$ 8 milhões / ano, “deve passar para R$ 13 milhões a partir de 2015. Isso ainda tem que ser aprovado”, diz.

O sistema de OS desenhado para a Osba é exclusivo da Bahia e fruto de discussão que já se estendia há  anos nos âmbitos da Secult - Funceb - TCA, mas foi bastante aprofundada durante dois seminários realizados em 2012 e 2013.

Carlos Prazeres, maestro: confiante
Maestro e curador da Osba desde 2011, Carlos Prazeres lembra que foi o secretário estadual de cultura, Albino Rubim, quem sugeriu os encontros com músicos e administradores de orquestras de todo o  Brasil no TCA.

“Foi uma pesquisa profunda realizada por nós e pela Secult, que resultou em dois relatórios que são um legado  não só para a Osba, mas para a comunidade sinfônica do Brasil inteiro”, afirma.

“Estudamos a fundo como uma orquestra se desenvolve no regime público e como se desenvolve no modelo publicizado (OS). E vimos que há problemas e fragilidades em ambos. Não existe modelo perfeito”, admite Prazeres.

Ainda assim, ele diz acreditar que o formato de OS proposto para a Osba  é “o modelo mais apropriado”.

“Esse formato  baiano não permite que o funcionário público cedido a OS perca seus direitos. Pelo contrario: os músicos temporários que são REDA (Regime Especial de Direito Administrativo) vão passar ser regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o que melhora a vida deles,  terão carteira assinada”, detalha Prazeres.

Visto como um dos responsáveis por levantar o moral da Orquestra junto ao público e ao estado nos últimos anos, Prazeres poderá não fazer parte dessa nova fase.

“Não, eu não vou com ‘o pacote’”, confirma.

“Vou ter que fazer minha própria proposta de OS e torço para continuar, até por que a Osba é meu projeto de vida. Acredito que ela ainda vai ser uma grande referência. É uma orquestra muito especial, seus músicos tem muita vontade de crescer”, acrescenta.

O fato é que Prazeres está confiante no futuro da Orquestra sob o novo regime. “É realmente uma forma única no Brasil,  uma forma estudada. Estudamos inclusive o que o governo espera da atividade sinfônica na Bahia”, conta.

Entre os músicos da Osba, a expectativa é grande. Grupo que sempre atuou com um corpo abaixo do número ideal de membros, a Osba já passou por situações difíceis, atuando em estrutura precária, com direito a protestos públicos e cisões.

Hoje, a Osba parece mais unida – ao menos, vista de fora. Ainda assim, a solução da OS não é uma unanimidade.

Gilberto Santiago, percussionista: desconfiado
“A gente como músico profissional e funcionário público fica desconfiado, naturalmente”, afirma o percussionista Gilberto Santiago.

“Não tenho ainda clareza de como isso vai acontecer. Talvez isso esteja ligado a minha posição ideológica de que o estado deveria ter sim, condições de tocar uma orquestra. Mas reconheço que é um caminho mais longo”, diz.

“O que me preocupa é que em breve haverá dois grupos diferentes atuando na orquestra: os REDAS que se tornarão CLT (mais os que virão) e os funcionários públicos. Esse grupo que é servidor publico, como vai interagir ideologicamente com esse outro grupo?”, pergunta-se Gilberto.

Trompetista da Osba e atual Diretor da Escola de Música da Ufba, Heinz Karl Schwebel vê com bons olhos o processo: “Sou a favor, sim. Acho que a Osba experimentou três décadas dentro de um sistema que provou não atender as expectativas para se tornar um corpo artístico de alto nível”.

“Agora, é uma tentativa. Não há garantia de sucesso. Mas há exemplos de tentativas bem sucedidas. Ou se continua nesse modelo ou se experimenta uma coisa nova. Sou a favor do novo”, conclui.

Um dos casos de tentativa bem sucedida a que Heinz se refere é a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), que migrou para OS em 2005.

“Pela nossa experiência, a gestão através do modelo de OS trouxe ganhos enormes na capacidade de planejamento, profissionalização da gestão, legalização das relações jurídicas e laborais, flexibilidade na contratação específica (sobretudo de artistas) e autonomia de decisão sobre o projeto artístico”, conta Marcelo Lopes, atual diretor executivo da Osesp.

“Adicionalmente, uma grande vantagem é o aumento das fontes de financiamento, com maior participação da sociedade”, acrescenta.

Já a jornalista Heloísa Fischer, fundadora do anuário VivaMúsica! e grande incentivadora da atividade sinfônica no país, diz que, “pelos exemplos que conheço, não tem comparação. O trabalho rende muito mais. E quando você rende melhor como organização artística, você rende melhor artisticamente”, aposta.

terça-feira, outubro 14, 2014

COM O PODCAST ROCKS OFF SÓ SE VIVE DUAS VEZES

"Vou encaçapar minhas bolas, gata. Todas elas"
Dose dupla de Rocks Off no seu juízo, baby!

No primeiro, nosso trio terrível (Nei Bahia, Miguel Cordeiro e Osvaldo Braminha Silveira Jr.) analisa Leonard Cohen, o melhor poeta judeu do rock - depois de Bob Dylan, claro.

Ou não?

"Baby, I was born in a suit".

Ah, OK, Leonardo, você venceu.

Bob, relaxa aí, valeu?










"Cara, acho que perdi meu septo nasal. Alguém viu ele por aí?".
E neste segundo, alguma novidades, com destaque para o lançamento do pacote CSNY 1974, que traz o registro de uma das turnês mais apocalípticas da história do rock, a do Crosby Stills Nash & Young no fatídico ano de 1974.

Diz que foi no camarim de um show desses que o velho Neil perdeu o septo nasal no case da guitarra de David Crosby .

E nunca mais encontrou - entre outras lendas.

 

OS JONSÓNS LANÇAM PRIMEIRO ÁLBUM E FAZEM SHOW COM HONKERS E PLÁSTICO LUNAR (SE)

Os Jonsóns, foto de Carla Galrão
Sábado tem um showzão para quem curte rock independente sem concessões.

A banda sergipana Plástico Lunar, muito respeitada no circuito roqueiro nacional pelo seu som psicodélico, e as locais The Honkers (instituição do rock baiano que dispensa apresentações) e Os Jonsóns se apresentam no Dubliner’s Irish Pub.

Esta última já esteve na coluna há uns dois ou três anos, logo que surgiu com seu estilo único no cenário local, de rock gaúcho made in Bahia.

Fãs de Cascavelletes, Júpiter Maçã, Graforréia Xilarmônica e Frank Jorge podem se jogar sem medo: Os Jonsóns honram a tradição gauchesca de fazer rock influenciado pela Jovem Guarda com toques de psicodelia e letras irônicas divertidas.

Um bom exemplo é a letra de Dia Triste: “Você suou o dia inteiro / O seu chefe é um idiota / A sua mente tá na rota / do desespero / Muita decepção / em um só  dia  / Você descobre que sua banda predileta mudou / de filosofia / (...) / Um dia triste no Rio Vermelho”.

Dia Triste e outras mais ou menos no mesmo nível estão no álbum EPgrafia Completa, que a banda lança no show de sábado.

“O disco é uma coletânea dos três EPs que já lançamos”, conta Marco Aurélio (baixo e vocal).

“Esse último ano tem sido bem produtivo pra gente. Além de termos evoluído como músicos, conseguimos fazer muitos shows legais pela Bahia e pelo Nordeste”, relata.



Pó da estrada é vitamina

Em julho último, Marco Aurélio, Ulisses Salomão (guitarra e vocal), Leonardo Leal (trompete) e Marcelo Bastos (bateria) se enfiaram em um carro e se apresentaram em  Fortaleza, Aracaju e João Pessoa.
Na Bahia, já tocaram em palcos de Vitória da Conquista, Feira de Santana, Conceição do Coité, Cruz das Almas e Candeias.

“Rapaz, Cruz das Almas tem uma cena legal, sabia? Tem uma casa de show com boa estrutura, um coletivo atuante. Bem aqui do lado e a gente acaba não se atentando muito. Foi muito divertido tocar lá”, elogia.

“Mas viajar pra tocar  sempre é bom, né? A poeira da estrada é a vitamina do rock”, nota.

Estimulados, Os Jonsóns seguem cheios de planos para continuar tocando e viajando.

“Depois do show de sábado teremos um outro semana que vem (terça, dia 21), no Largo Quincas Berro d’Água (Pelourinho) com a Teenage Buzz”, diz.

“Aí em 20 de novembro voltamos a Candeias. Estamos negociando novas datas em Conquista e Aracaju, que são  cidades que nos receberam muito bem”, planeja Marco Aurélio.

O impressionante de toda essa movimentação d’Os Jonsóns é que ela é 100% independente.

“Na verdade, só contamos com o auxilio de um edital da Secult em um show no Pelourinho. Mas o resto, até agora, temos conseguido na nossa batalha mesmo”, corrige o músico.

“Mas isso é algo histórico no undergroud baiano. Você tem que fazer tudo com suas próprias mãos”, conclui.

Os Jonsóns, Plástico Lunar (SE) e The Honkers / Sábado, 22 horas / Dubliners Irish Pub / R$15

Ouça: www.soundcloud.com/osjonsons




NUETAS

Folha de Chá no Pelô

A banda de reggae Folha de Chá é, formalmente, um trio de baixo, guitarra e bateria. Mas quem for hoje prestigiar a estreia do show Casa de Farinha vai se depara com uma big band no palco do Largo Pedro Archanjo, com direito a naipe de metais, dois percussionistas, teclados etc. Ah! E ainda tem uma participação especial do cantor Rafael Pondé. Hoje, 21 horas, com entrada gratuita.

Lo Han no Portela

Lo Han, Overturn, Noite Vermelha e Instinto Secreto  fazem prévia do Itaparica Moto Praia 2014 nesta quinta-feira, no Portela Café. 20 horas, R$ 20.

Tabuleiro e Giovani

Giovani Cidreira e Tabuleiro Musiquim fazem show no Dubliner’s, com canja de Josy Lélis. Sexta, 22 horas, R$ 15.

quinta-feira, outubro 09, 2014

MICRO-RESENHAS, E DAÍ? VAI CHORAR, É?

Aquele toque beatle

O segundo álbum da banda pós-Oasis de Liam Gallagher vem com produção mais moderna  – no bom sentido – de Dave Sitek (TV On The Radio), mas sem perder aquele acento beatle que marca toda a carreira do guitarrista vocalista. Audição agradável, com um toque de estranheza. Beady Eye / BE / Sony Music / R$ 27,90









A honestidade do rock ortodoxo

Ortodoxa, a banda paulista Ted Marengos canta em inglês e pratica classic rock como se fosse 1974. Os estilos vão do hard rock ao folk. Há até uma releitura para Ohio, do Crosby Stills Nash & Young. Nada contra: antes uma cópia honesta à originalidade árida (ou chata, mesmo) da “nova” MPB pós-Los Hermanos. Ted Marengos / First Prints / Independente / Preço não divulgado









Vanguarda universitária

O segundo álbum do trio paulista O Terno até que começa legal, com o metabrega Bote ao Contrário e a psicodelia de O Cinza. Mas logo sucumbe a um certo experimentalismo universitário de dar sono. Pena, pois potencial não lhe falta. O Terno / O Terno / Independente / R$ 24,90 / Baixe grátis: www.oterno.com.br










Guitarra Made in Brazil

O veterano guitarrista Tony Babalu (ex-Made in Brazil) apresenta seis belos temas instrumentais neste álbum gravado ao vivo no estúdio. O som vai na linha jazz easy listening, com texturas suaves e solos melodiosos, como em Halley 86. Tony Babalu / Live Sessions at Mosh / Amellis Records / R$ 24,90









Um contrabaixo ao sol

O contrabaixista Zéli Silva sai da sombra do músico de acompanhamento e faz um elo álbum de jazz brasileiro com colaboradores de primeira linha, como Tatiana Parra, Chico Pinheiro, Arismar do Espírito Santo, Léa Freire e outros. Zéli Silva /  Una: Zéli Silva convida / Independente / R$ 24,90








Feminismo em cartuns

Cartunista e feminista até o osso, a alemã Franziska Becker finalmente é publicada no Brasil nesta bela coletânea que inaugura o selo de HQs Barricada, da Editora Boitempo. Mesmo com boa parte do material produzido nos anos 1970, ainda é bem atual. Política, moda, trabalho, religião, sexo etc em cartuns matadores. Último aviso / Franziska Becker /  Barricada/ 130 p./ R$ 49






Barroco, latino e asmático

Obra máxima do cubano Lezama Lima (1910- 1976), Paradiso é uma radicalização do barroco na literatura latina, no qual mais valem as imagens e sugestões literárias do que a trama em si. Esta, meio autobiográfica,  se desenvolve em torno de um idoso asmático às voltas com  suas muitas memórias e divagações. Paradiso / José Lezama Lima / Estação Liberdade / 612 p. / R$ 74






Noites sem dormir

O famoso relato multivocal e sem rodeios do underground novaiorquino entre os anos 1960 e 70 ganha nova edição em versão pocket em um único volume (a edição pocket anterior era dividido em dois). Das orgias na Factory de Andy Warhol às muitas noites sem dormir no CBGB’s, uma sequência de causos roqueiros às vezes hilariantes, às vezes  assombrosos e até tristes. Mate-me por favor / Legs McNeil, Gillian McCain / L&PM/ 464 p./ R$ 42






Assim ou Asimov?

Um dos maiores épicos da ficção científica, a trilogia Fundação saiu entre 1942 e 1953. A pedidos dos fãs, Isaac Asimov ampliou a mitologia da série nos anos 1980, com mais quatro livros: dois pré e dois pós-eventos da trilogia original. Este é um dos “pré”. Como tudo que Asimov fazia, é entretenimento com (muito) cérebro. Origens da Fundação / Isaac Asimov / Aleph / 408 p./ R$ 54







A odisseia de Homer. Não o Simpson.

O experiente autor infantojuvenil Luiz Antonio Aguiar arrisca narrara vida do autor grego Homero, autor de Ilíada e Odisseia. Como ninguém sabe direito da vida do homem, nem mesmo se ele realmente escreveu esses livros, Luiz solta a imaginação e cria uma grande aventura épica. Homero: aventura mitológica / Luiz Antonio Aguiar / Galera Record/ 248 p./ R$ 58







Só cantar  bem não é o bastante

Cantora de certo sucesso nos anos 1990, a canadense Sarah McLachlan oscila perigosamente entre a grandiloquência e a diabetes em seu novo álbum, Shine On. Ser dona de uma linda voz e senhora de técnica refinada nem sempre é o bastante. Sarah McLachlan / Shine On / Universal / R$ 29,90








Beethoven, bitch!

Patrimônio nacional, o pianista Nelson Freire executa aqui, sob a regência de Riccardo Chailly, o Concerto Para Piano nº 5 (Imperador) (não confundir com a 5ª Sinfonia, aquela do tchan-nan-nan-nan) e a Sonata Nº 32, de Beethoven. Não dá para ser melhor que isto. Nelson Freire, Riccardo Chailly / Concerto Nº 5 Emperor / Universal / R$ 29,90






Punkcreas rock

O segundo EP do quinteto local Pancreas traz  um rock despretensioso e debochado, com ênfase na boa interação entre a dupla de guitarristas. Destaque para Ela Gosta de Forró com cara de hit e a balada ginecológica Priscilla. Pancreas / Na Esquina / Independente / Baixe: soundcloud.com/pancreasrocknroll 









Madeira de dar em doido

O quarteto de violões Maogani presta belo tributo ao verter as obras para piano de Ernesto Nazareth (1863 - 1934) em arranjos para cordas. Tango brasileiro, polca, valsa e foxtrot em sofisticação erudita. Maogani / Pairando - Maogani interpreta Nazareth / Biscoito Fino / Preço não divulgado








800 páginas para te convencer a ter juízo

Muito já se estudou sobre as religiões, suas fundações, contradições, massacres. A descrença, contudo, é pouco pesquisada. Aqui, o historiador Georges Minois busca preencher a lacuna, indo desde a Antiguidade Clássica até o Século 21. Com quase 800 páginas, pode-se dar a missão como cumprida. História do Ateísmo / Georges Minois / Editora Unesp/ 762 p./ R$ 84/ editoraunesp.com.br






Pantera, vista do baixo

Uma das bandas que renovaram o heavy metal nos anos 1990, a texana Pantera teve fim abrupto (e definitivo) quando o guitarrista Darrell Dimebag Abbott foi abatido a tiros em pleno palco, em 2004 (durante um show de sua banda Damage Plan). Neste livro, a história da banda é contada pela visão do baixista Rex Brown. Drogas, sexo, caos absoluto etc. Verdade Oficial: nos bastidores do Pantera / Rex Brown e Mark Eglinton / Ideal / 288 p./ R$ 39,90/ edicoesideal.com








Ato final

O sexto e último EP da banda Orange Poem traz Teago Oliveira (Maglore) nos vocais em três faixas sombrias e de acento prog rock linha Pink Floyd – com direito a homenagem. Experimento  interessante, vale ouvir. The Orange Poem / Crowd / Independente / Baixe: elmirdad.blogspot.com.br









A Augusta vive

Um raro representante do (hoje combalido) rock paulista que soa interessante, o quarteto Inky mistura indie rock, eletrônica e a velha new wave em um som ao mesmo tempo energético e climático. Ouça: Echoes in The Groove e Massive. Inky / Primal Swag / Independente / Preço não divulgado









Já ouviu? Já.....

Crispim Soares é um quarteto indie rock moderninho de Blumenau e este é seu primeiro álbum. Acrescenta pouco ao que já se ouviu nessa seara já tão batida, mas mantém a aura cool nas faixas O Leão e Sobrenome. Crispim Soares / Algumas Pessoas Dançam / Preço não divulgado / crispimsoares.com









Sempre teremos Paris?

Uma série de assassinatos estranhos na Paris da Belle Epóque levam o livreiro Victor Legris a investigar o que, afinal, está acontecendo. Premiado, este romance é elogiado não só pelo mistério e suspense, mas também pela ambientação caprichada, por captar o clima da Cidade Luz. Assassinato na Torre Eiffel / Claude Izner / Vestígio/ 256 p./ R$ 29,90/ grupoautentica.com.br







Diversão ectoplasmática

O escritor Claudio Blanc selecionou e adaptou 13 contos de assombração clássicos. Tem Lovecraft, Maupassant, Stevensson, Tchekov, Le Fanu, Conan Doyle, Yeats e claro, Poe. As ilustrações macabras de Kako ajudam a criar o clima. Para ler nas noites de chuva.Avantesmas: 13 histórias clássicas de fantasmas / Claudio Blanc e Kako Autêntica/ 208 p./ R$ 39/ grupoautentica.com.br






Há quem não goste

Deus da soul music sensual mas nunca vulgar, Reverendo Al Green tem essa coletânea de 1975 lançada no Brasil. Ou seja: é só o filé. Citar faixas é até covardia, mas estão aqui Let’s Stay Together, Love And Happiness, Tired of Being Alone etc. E ainda tem gente que ouve MC Guimê. Lord have mercy! Al Green / Greatest Hits / Deck / R$ 29,90







Moz preocupado

Cinco anos desde o último álbum de inéditas, e eis o Príncipe da Dor e da Discórdia de volta ao seu ofício. Em 12 faixas, uma geral na geopolítica (World Peace...), na barbárie (Istanbul) e nas prisões irlandesas (Mountjoy). Moz está preocupado com o mundo, gente. Morrissey / World Peace Is None of Your Business / Universal / R$ 29,90







Dupla esquecida

Hoje meio esquecida, dupla Luhli & Lucina já teve canções gravadas por grandes nomes da MPB. Neste belo tributo, o cantor Dhenni Santos e seu vozeirão grave recuperam 20 composições (há inéditas) em arranjos prefrentex. Bonito. Dhenni Santos / Pedra de Rio: A Obra de Luhli e Lucina / Mills / Preço não divulgado








As duas únicas coisas

Vovó já dizia: as únicas coisas certas na vida são a morte e os impostos. Os últimos ainda se pode (mas não se deve) sonegar. Já a morte... Neste livro fofo, a morte, de vários pontos de vista. Se você é um dinossauro, todos os seus amigos estão mortos. Se você é uma fita cassete, todos os seus amigos estão ultrapassados - e assim por diante. Todos meus amigos estão mortos / Avery Monsen e Jory John / Ideal/ 96 p./ R$ 19,92/ idealshop.com.br




O terceiro episódio

Comparada por Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisseia no Espaço) ao Senhor dos Aneis de Tolkien, tamanha a sua grandiosidade, a saga Duna, de Frank Herbert tem seu terceiro volume lançado. Nove anos após os eventos de O Messias de Duna, os filhos de Paul Atreides vivem sob o jugo de sua tirânica tia. FC épica, de tons ecológicos. Filhos de Duna / Frank Herbert / Aleph/ 432 p./ R$ 54/editoraaleph.com.br

 





O rei da comédia farsesca

A mais famosa peça de Oscar Wilde (1854-1900) é uma comédia farsesca que, como tudo  mais que ele fazia, evidenciava o jogo de aparências e as frivolidades da aristocracia e da alta sociedade. Muitas de suas frases mais famosas estão aqui, como “Estou enjoado de tanta inteligência. Todos hoje são tão sagazes. (...) Como eu gostaria que ainda restassem alguns imbecis”. A Importância de Ser Prudente / Oscar Wilde / L&PM/ 104 p./  R$ 16,90/ E-book: R$ 11,90/  lpm.com.br

terça-feira, outubro 07, 2014

TOCO Y ME VOY, DE SALVADOR, NÃO TEM SOTEROPOLITANO, MAS TEM SANFONA E RODA O MUNDO

Toco Y Me Voy. Foto: Ariano de Luccia
Na ativa desde 2011, o quarteto Toco Y Me Voy tem rapidamente se tornado uma das bandas preferidas da rapaziada que todo fim de semana faz o circuito alternativo do Rio Vermelho, entre o Commons, o Dubliner’s e o Portela Café etc.

Faz sentido ao se ouvir as faixas que a banda já soltou em um EP: de espírito livre, a Toco Y Me Voy não é rock, não é MPB, não é música regional e ao mesmo tempo tem um pouco de tudo isso em sua receita sonora, bem ao gosto da rapaziada que hoje está na casa dos 20, 30 anos.

À frente do grupo está o sergipano de Aracaju Thiago Ribeiro (voz, guitarra e bandolim), que admite: “Eu tava de saco cheio do rock queria uma concepção diferente”, conta.

Ao lado do baterista argentino Andrés Cisilino, Thiago recrutou Daniel Neto (de Ilheús, no acordeom e escaleta) e Gustavo Marimbá (de Florianópolis, no baixo).

Ou seja: uma banda soteropolitana na qual ninguém é de Salvador.

“Pois é, deu uma liga nisso. Eu moro aqui há 20 anos e o Andrés está no Brasil há muito tempo. Nos conhecemos na Escola de Música da Ufba, onde fomos colegas”, conta.

Aracaju, Floripa, Itália

Toco Y Me Voy em Roma. Foto: Ariano de Luccia
De um ano para cá, a Toco Y Me Voy começou a rodar mais.

“Já fizemos muitos shows por aqui, tocamos em Sergipe algumas vezes e em Floripa fizemos dez shows. E era para ser só uns dois, de tão boa que foi a recepção lá. Acho que eles tem mais familiaridade com essa textura de som que a gente faz. No quarto ou quinto show já tinha gente cantando junto”, relata.

E em setembro agora a trupe invadiu o sul da Itália no festival Brasilicata Tour, que botou um monte de músicos brasileiros para tocar pelas cidades da região da Basilicata (Nápoles, Maratea, San Paolo Albanese etc).

De Salvador, a cantora de reggae Soraia Drummond (já vista na coluna) também foi lá.

“Marcou demais. Foram  sete shows. Eles disponibilizaram um furgão com todo o equipamento e roadies. A gente só entrava no carro e ia tocar. Foi maravilhoso”, conta Thiago.

“Inclusive, só fomos por que fomos aprovados em um edital de mobilidade artística da Secult, que disponibilizou o dinheiro das passagens. Sem isso, não teria rolado”, agradece.

Agora, a banda prepara mais um EP e planeja voltar a Florianópolis e à Europa, para os festivais da temporada  2015.

Neste sábado, o quarteto se apresenta no Dubliner's, com outro expoente dessa nova cena local de MPB jovem: Kalu.

Toco Y Me Voy e Kalu / Sábado, 23 horas / Dubliner’s Irish Pub / R$ 15

Ouça: www.tocoymevoy.com.br


NUETAS

Billic Roll,  Cobra City

As bandas Billic Roll e Cobra City abrem o mês de outubro do projeto Quanto Vale o Show?, no Dubliner’s. A partir das 18 horas, pague quanto  você acha que vale. Ainda vai ter hip hop e Eduardo Cachaça, se ligue.

Nelsons no Pelô

Os Nelsons, celebrada  banda de Paulo Afonso, faz show de lançamento do EP  Gravidade no Largo Pedro Archanjo (Pelourinho), com abertura de TrapFunk & Alívio, mais  Mr. Armeng e Vandal participando. Sábado, 20 horas, R$ 5 e R$ 10.

Agora vai, Van?

Anunciado nesta coluna semana passada, o show das bandas Van Der Vous, Teenage Buzz e Mapa seria sábado passado no Dubliner’s, mas acabou sendo transferido para este sábado, dia 11. 18 horas, R$ 5.

Inventura cá e em Feira

Inventura, banda bacana de Alagoinhas vista há poucos meses por aqui faz uma série de shows para lançar seu primeiro álbum. Depois da cidade natal e Vitória da Conquista, o quarteto chega à Feira de Santana (sábado, no Antiquário, com Os Jonsóns e Insert a Coin) e Salvador: domingo, 16 horas, no Espaço Cultural Dona Neuza, com  Irmão Carlos & O Catado e A Flauta Vértebra, grátis.

domingo, outubro 05, 2014

EDUARDO CACHAÇA VOLTA AO CIRCUITO COM GRAVAÇÃO DE DVD E SHOWS COM NOVA BANDA

Eduardo Cachaça: um brinde! Fts: Emerson Borba
Lorde de Villas do Atlântico, orgulho de Lauro de Freitas, o cantor e compositor Eduardo Cachaça (ex-Movidos a Álcool) comemora a gravação do seu primeiro DVD, viabilizado através de um edital da Secretaria de Cultura da cidade vizinha.

Principal nome do rock brega em terras baianas, Cachaça inaugura nova fase em sua carreira, assumindo todo o repertório da antiga banda e ensaiando uma volta ao circuito alternativo com banda de acompanhamento após alguns anos vivendo de voz e violão em barzinhos de Lauro de Freitas.

“Sim, é um reencontro com o alternativo. Aquele  velho dilema, né?”, ri Cachaça.

“O lance é que voltei a ensaiar de maneira mais focada, com uma banda enxuta: baixo, guitarra e bateria”, conta.

A ideia de retomar a carreira autoral ganhou impulso ao ser contemplado em edital: “Demorou oito meses para o recurso sair, mas saiu. Então vamos fazer quatro shows em locais inusitados para a comunidade,  pessoas que não costumam ter acesso aos shows”.

“Vamos tocar na  CAPS (Centros de Atenção Psicossocial)  e em bairros da  periferia de Lauro, como Jambeiro. O legal é que isso gera mais convites para shows, como na  Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos de Lauro de Freitas (APADALF)”, acrescenta Edu, feliz.

O auge dessa leva de apresentações será no dia 12 de outubro, quando o cantor gravará seu primeiro DVD.

Debaixo da amendoeira

Edu quer VOCÊ na gravação do seu DVD
“Quando você pensa em gravação de DVD imagina 100 mil pessoas, iluminação a laser e dançarinos no palco. Comigo não tem nada disso. Vamos gravar no chão, no estacionamento do Bença Gastro Bar, em Villas do Atlântico”, avisa Cachaça.

“Não tem grandiosidade, essa não é a minha. Serei eu, meus três músicos, convidados e uma equipe de vídeo e áudio. Tudo muito simples, debaixo de uma amendoeira. Mas a sonorização vai ser de primeira”, descreve.

"A ideia é registrar meu show e fazer de maneira diferente. Até pensamos no Teatro Municipal, mas isso é tão comum, né? Aí resolvemos fazer na rua, com o movimento dos carros passando e tudo. Vou usar meu figurino e tal, mas tudo sem frescura", continua.

O show contará com três convidados: a cantora Elaine Fernandes, Belvis (antigo parceiro de Cachaça no Movidos à Álcool) e Onofre, o argentino do arrocha.

“Inclusive vamos tocar uma música nova chamada Love de Mim, que lembra muito o clima do Pablo. É o primeiro arrocha-rock da história”, ri.

"De tanto brincar com isso, com essa linguagem que mistura rock com brega, fazemos algumas misturas (mash-ups), como cantar uma música do Nirvana com letra do É o Tchan. Na verdade, não é uma musica a sério, está mais para um número em um espetáculo, uma descontrução. É Polly com Pau que Nasce Torto", conta.

"Também peguei a letra de Fiorino, de Gabriel Gava e meti em Stairway to Heaven. Alguns roqueiros mais ortodoxos ficam chateados, mas é brincadeira, né? Também fiz uma versão de Learning to Fly, do Foo Fighters e fiz Lúcia, uma música brega", acrescenta.

Em breve, ele também pinta pelos palcos do Rio Vermelho. "No dia 28 de outubro eu vou estar no Quanto Vale o Show, projeto de Rogério Big Bross no Dubliner's. E estamos vendo outros bares do Rio Vermelho para outras apresentações. Quero voltara  frequentar a cena alternativa. Aonde aparece, eu toco. Para qualquer público", garante Eduardo.

"Não quero me limitar. E eu gosto de estar em contato com o pessoal do rock. Inclusive, o pessoal da Pastel de Miolos me convidou para fazer alguma coisa com eles. Aguardem", avisa.

www.facebook.com/eduardo.cachaca


quinta-feira, outubro 02, 2014

COM A BOCA ARREGANHADA CHEIA DE DENTES ESPERANDO A MORTE CHEGAR

A Morte de Ivan Ilitch, obra-prima de Tolstói ganha adaptação em quadrinhos

Filão de mercado bastante rentável às editoras, as adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos não dão sinal de enfraquecimento, chegando com rara regularidade às livrarias.

Uma das mais recentes é A Morte de Ivan Ilitch, uma das principais obras de Liev Tolstoi.

Quem sabe qualquer coisinha de literatura russa tem consciência do peso, da dificuldade da tarefa. Literatura russa em geral – e Tolstói em particular – não são para principiantes.

Seus textos são densos, extensos e apontam para diversos níveis de leitura, além de, como no caso de  A Morte de Ivan Ilitch, tratarem de temas da pesada. Neste caso, da morte.

Delegada ao quadrinista Caeto (paulista de Assis), a adaptação atinge resultados até melhores do que seria de se esperar, dada a dificuldade.

Considerada pelo cânone literário como a novela mais perfeita da literatura mundial, A Morte de Ivan Ilitch (1886) é obra de destaque em meio aos outros trabalhos de Liev Tolstói (1828-1910), aquele sujeito que escreveu “apenas” alguns monumentos da cultura universal, como Guerra e Paz (1869) Anna Karenina (1877).

Em Ivan Ilitch, Tolstói narra a história do personagem título: um sujeito comum, juiz de instrução bem sucedido, que cai enfermo e, de um dia para o outro, vê-se definhar e morrer aos poucos.

Enquanto agoniza, deitado em seu quarto, Ivan rapassa toda a sua vidinha medíocre de burocrata e se confronta com o fato de que vai morrer – e até com a própria ideia de morte. Como já se disse, uma leitura “leve” para o fim de semana.

Perturbadora, a narrativa de Tolstói se passa quase que inteiramente na mente de Ivan Ilitch, que, apesar de ser um homem de família, casado e com filho, vê-se solitário na escuridão do seu quarto, remoendo suas memórias e dando-se conta de sua insignificância.

Exercício vão

Nas mãos de Caeto, a obra de Tolstói ganha em certo dinamismo. O quadrinista, premiado pela sua obra autobiográfica Memória de Elefante (2010, Companhia das Letras), demonstra cancha na decupagem do fluxo de memória de Ivan Ilitch, com seu traço mezzo expressionista em preto & branco.

O problema da adaptação de   A Morte de Ivan Ilitch em quadrinhos é a mesma de quase toda adaptação: até que ponto ela é válida como obra por si? Ela se sustenta?

Por que, vamos ser francos: uma coisa é adaptar uma rotina aventuresca, como A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ou a ficção científica vintage de Julio Verne, obras cinemáticas desde o seu princípio, dadas à incendiar a imaginação do leitor em cenas de correria, lutas e buscas em cenários exóticos.

Já  A Morte de Ivan Ilitch é algo inteiramente diferente. Traduzir em imagens sequenciais o mergulho memorialístico-filosófico de um homem que, em seu leito de morte, se dá conta de sua mediocridade, é como querer engarrafar a luz do sol: um exercício vão.

Apesar disso – e dos enormes blocos de texto que por vezes truncam a leitura –, Caeto está de parabéns. Ao menos, pelas suas mãos, muitos que jamais leriam uma obra de Liev Tolstói terão aqui seu  primeiro contato com o gênio russo.

A morte de Ivan Ilitch /Liev Tolstói, Caeto / Tradução: Boris Schnaiderman/ Editora Peirópolis/ 80 p./ R$ 39