Blog (que, nos seus primórdios, entre 2004-05, foi de um programa de rádio) sobre rock e cultura pop. Hoje é o blog de Chico Castro Jr., jornalista formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente, é repórter do Caderno 2+ do jornal A Tarde, no qual algumas das matérias vistas aqui foram anteriormente publicadas. Assina a coluna Coletânea, dedicada à música independente baiana. Nossa base é Salvador, Bahia, a cidade do axé, a cidade do terror.
Em nota divulgada no Facebook, banda fundada por Fábio Cascadura alega dificuldade de conciliação entre compromissos profissionais e pessoais. Shows já acertados até novembro serão cumpridos
Cadinho, Thiago, Fábio e Di Txai. Foto Givas Santiago
A notícia foi publicada ontem no Facebook e gerou tristeza entre os fãs: a Cascadura, uma das principais bandas baianas, anunciou que estará encerrando suas atividades até o mês de novembro, quando cumprirá seus últimos shows.
“Nós do Cascadura desejamos comunicar à todos que acompanham nossa carreira (...) que, no segundo semestre deste ano de 2015, encerraremos as atividades da banda”, diz o anúncio.
Em seguida, vem a justificativa: “Tomamos essa decisão levando em consideração a circunstância de já não ser mais possível conciliar os muitos projetos profissionais e pessoais que temos, com as demandas de uma banda como o Cascadura”.
Procurado pela reportagem por telefone, o líder e fundador Fábio Cascadura Magalhães reforçou a posição: “Viemos conversando algum tempo sobre isso, então foi um processo natural. Já há algum tempo não conseguimos mais conciliar nosso projetos pessoais com a banda”.
"Inclusive, a gente faz pouco show e pouca turnê por que gostamos de fazer tudo com planejamento e cuidado. Isso acontecia quando tínhamos muito tempo livre e pouca atividade profissional fora da banda. Hoje, pra fazer uma simples reunião é uma ginástica. Não falta disposição (para shows e turnês), mas é tão difícil conciliar as demandas de cada um. Pô, se é difícil se juntar para uma reunião, imagina gravação de disco, turnê, shows? Então discutimos bem, fomos amadurecendo (a decisão de acabar), até voltamos atrás e depois repensamos. Chegamos a conclusão na boa, todo mundo entendeu. Uns entendem com tranquilidade, outros nem tanto, mas todos concordamos em terminar agora. Tudo foi discutido entre a gente, o que já tínhamos marcado, alguns shows, e aí, cancela ou faz? Mas dá para fazer de boa, sem inventar histórias, de foma honesta. Poderíamos levar a formação atá o fim do semestre e só depois anunciar, mas decidimos vamos falar logo e ser honesto para não rolar telefone sem fio", relata.
Fábio é hoje professor de História em duas escolas (uma particular e uma pública, estadual). “E também desenvolvo uma pesquisa sob orientação acadêmica. Estou terminando meu trabalho de iniciação científica”, conta.
Processo de dispersão
Cândido, Toni, Pochat, Jean e Fábio nos gloriosos 90's
Formada hoje em dia por Fábio, Thiago Trad (bateria), Du Txai (guitarra) e Ricardo Cadinho (baixo) a Cascadura surgiu no cenário em 1992, ajudando a compor uma geração brilhante do rock baiano, na qual se destacaram bandas como Úteros em Fúria, The Dead Billies e brincando de deus, além da Dois Sapos & Meio e Inkoma, as quais revelaram Peu Souza e Pitty.
Lançaram cinco álbuns, todos muito queridos pelos fãs da banda e do rock baiano em si: Dr. Cascadura #1 (1997), Entre! (1999), Vivendo em Grande Estilo (2004), Bogary (2006) e Aleluia (2012).
No próximo dia 31, a banda cumprirá no Portela Café a primeira data dos shows de despedida, executando todo o repertório do primeiro álbum, comemorando os 20 anos de sua gravação, realizada em 1995, nos Estúdios WR.
“A ideia desse show do dia 31 é resgatar o Cascadura das Antigas, um projeto que fazemos anualmente com ex- membros convidados, para tocar o repertório dos dois primeiros discos”, conta Fábio.
“Então temos algumas ideias de reeditar esses eventos nesse ‘processo de dispersão’ da banda. Deve rolar show acústico e homenagens as ex- membros. Ainda estamos definindo”, diz.
Depois do “processo de dispersão”, Fábio, Thiago, Du e Cadinho seguirão seus próprios caminhos, musicais ou não.
"A vida musical segue. Thiago tem vários projetos: Bailinho de Quinta, Bahia Experimental e aulas em comunidades carentes. Outro dia ele fez uma tour de quase dois meses pelo Brasil, Argentina e Uruguai com o Bahia Experimental. Nessa mesma época pintou convite para um show (do Casca) em São Paulo, daí veio outro. Esperamos Thiago terminar a turnê para irmos a SP. Fomos e daí rolaram ainda mais convites. Só que quando marcaram a data, chocou com minha agenda acadêmica. Protelamos para outubro. Essas coisas do cotidiano mostram para gente que ou vamos levando de qualquer jeito ou tomamos uma atitude mais séria, com um encerramento transparente, claro", conta.
“Carreira solo eu ainda não pensei. Vou deixar rolar. No momento eu me vejo mais dedicado a carreira acadêmica, que está sendo muito gratificante. A prioridade agora é dar um desfecho bacana para a banda”, conclui Fábio.
Show: Cascadura das Antigas / Com Cascadura e convidados / 31 de Julho, 22 horas / Portela Café / R$ 20 (antecipado, no www.sympla.com.br) R$25 (lista amiga) ou R$ 30 (na porta)
Enquanto por aqui os hipsters (com o perdão da má palavra) repisam Novos Baianos, trio elétrico e MPB de formas pouco convincentes, a cena roqueira do interior volta e meia surge com novidades reanimadoras. Feira de Santana que o diga.
Olha só a experiente banda Calafrio, que tem quase dez anos de estrada e lançou há alguns meses o ótimo EP Bater de Frente, seu terceiro.
Em cinco faixas, o quarteto liderado por Siddhartha Gautama (voz, guitarra) faz um pequeno tratado rocker contemporâneo (outra má palavra), que soa reconhecível em suas referências (Led Zeppelin, grunge, stoner) e de quebra aponta adiante, afinal, “pedra que rola não cria limo”.
“Bater de Frente é um disco conceitual, sobre quatro vidas dentro de um local. O trabalho de capa tem uma pegada visual de HQ”, conta o vocal.
Dostoievski e acordeom
“Começa com Nerva, que fala de nossa filosofia. Nos inspiramos nos dilemas do homem moderno, com referências do Crime & Castigo de Dostoievski, sobre uma pessoa que não consegue viver com um segredo e a culpa”, descreve Siddhartha.
Hein? Enquanto o colunista catava o queixo no chão, o rapaz continuou falando da sua faixa preferida do EP, Segunda Chance.
“Essa é sobre uma menina que se autodestrói. Se boicota para começar de novo. E tem um clipe bem legal, por que todo mundo imaginaria que teria uma mulher inconsequente, mas botamos um homem vestido de mulher, um crossdresser”, conta.
Já a última faixa, A Mão Pesada do Destino, é um tango-rock, com o acordeom de Rogerinho Ferrer emprestando uma sofisticação sônica inusitada ao som do Calafrio.
"Começamos a banda em 2006, eu e Pedro (Patrocínio, voz e guitarra). No início se chamava Dogma. Um ano depois passamos para Calafrio, pois já tinha uma banda chamada Dogma. Lançamos logo o primeiro EP em 2006 mesmo, aí mandamos para o Palco do Rock e fomos selecionados. Depois teve também uma seleção para o palco Guetto Square no Festival de Verão, com curadoria do Carlinhos Brown. Fomos selecionados, tocamos e foi ótimo. Lançamos o segundo EP em 2008, com a música Ácido, que se tornou um hit local, o pessoal pede bastante nos shows, popularizou mais o som da banda por aqui. Mas o cenário era um pouco diferente então a internet não estava ainda tão presente. Depois de um tempo, o batera teve que morar fora fora, mas mantivemos a banda. Com o início do Feira Coletivo rolaram alguns festivais, de um sacode na cena, aí voltamos a trabalhar mais, nos descobriram e muita gente começou a nos procurar por aqui. Começamos tudo de novo e particpamos de outros festivais", relata.
"Aí em Salvador, já tocamos no Palco do Rock, no Festival de Verão e em um bar que não lembro mais o nome. Na volta, quase fomos para as cucuias. O motorista bateu a van. O cara desmaiou no posto de gasolina e deu ré, quase que a van bateu na bomba. Depois disso ficamos meio traumatizados", ri Siddharta.
Se o(a) dileto(a) leitor(a) curtiu, vale baixar o trabalho da banda no seu site e mais: comparecer no show que eles fazem por aqui no dia 23, dentro da série de eventos Noites Big Bross - Brechó Discos.
“Vamos tocar o EP novo, mais músicas do primeiro EP com nova roupagem. É nosso melhor repertório. Estamos em nossa fase mais madura em letras e arranjos”, diz.
A Calafrio é Siddhartha Gautama (voz e guitarra), Pedro Patrocínio (voz e guitarra), Vinicios Borges (baixo) e Robson Souza (bateria).
Ouça / Baixe: www.calafrio.com.br Noites Big Bross - Brechó: Calafrio e Bilic Roll / Dia 23 (quinta-feira), 21 horas / Taverna Music Bar / R$ 10
NUETAS
Flauta e Cartel
O Noites Big Bross - Brechó Discos apresenta nesta quinta-feira as bandas A Flauta Vértebra e Cartel Strip Club. No Taverna, 21 horas, R$ 10.
Domingueiras do HC
O coletivo hardcore Tomanacara promove show colaborativo com as bandas Dimak, Sbórnia Social, Antiporcos e Barrunfo do Samba. Ainda tem bate-papo sobre mobilidade urbana com Daniel Bagdeve (Bike Anjo SSA), exposição de shapes da ESC Skate Art e mini-bazar cultural. Domingo, na pista de skate do Imbuí, 14 horas, colabore com o valor de um ingresso.
Encontro com Buenas Nosso amigo Tarcísio Buenas manda avisar que o lançamento do seu livro, 18 de maio, quanto tens por dizer..., é nessa sexta-feira. No bar O Líder, Largo 2 de julho, a partir das 19h30. Leia mais sobre aqui.
Conexão Brasil, show de Pepeu Gomes e os paraenses Marco André e Trio Manari, entra em cartaz por duas noites no Teatro Acbeu: amanhã e quinta-feira
Pepeu Gomes e Marco André: Conexão Brasil. Foto: Alexandre Moreira
Pepeu Gomes está em grande momento, explorando novas possibilidades.
Além do álbum inédito que lança ainda este mês – Alto da Silveira –, nesta semana, ele traz a cidade o show Conexão Brasil, em que se apresenta com o músico paraense Marco André e o Trio Manari, de percussionistas.
O espetáculo com ingressos a preço popular e patrocínio dos Correios tem duas datas em Salvador: amanhã e quinta-feira, além de uma oficina gratuita com Pepeu, Marco e o Trio Manari na sexta-feira.
Apesar de ainda ser pouco conhecido na Bahia, Marco André já conta com uma sólida carreira, tendo surgido no cenário até mesmo antes do hype da música paraense.
Não a toa, ele e Pepeu são parceiros musicais não é de hoje: “Há alguns anos, ele me convidou para fazermos um projeto juntando Bahia, Rio de janeiro e Pará”, conta Marco, por telefone.
“Daí saiu um projeto chamado Pa Ri Ba, com Pedro Luís, que teve uma resposta maravilhosa de crítica e público. Isso se desmembrou nesse projeto comigo e o Marco, onde mostramos o Pará e a Bahia para o Brasil. A ideia surgiu de forma natural”, completa Pepeu.
No palco, os dois estão à vontade e em família. Pepeu conta com seu enteado (Filipe Pascual, guitarra) e seu irmão (Didi Gomes, baixo). Marco conta com seus velhos amigos de Belém do Trio Manari.
“O Manari sempre tocou comigo nos meus discos e turnês. Temos um projeto também, o Cabloco Muderno, que sai no Carnaval em Belém e no Rio”, conta Marco.
“Inclusive, Pepeu participou do disco do Cabloco. Já fizemos tanta coisa em parceria, aí pensamos: ‘pô, vamos colocar nossas ideias juntas em um espetáculo pensado e coletivo’“, acrescenta.
E o resultado é o Conexão Brasil, que a trupe apresenta por aqui nesta semana, com canções do repertório dos dois músicos, mais releituras de Jorge Ben Jor, Paulo André & Ruy Barata e Mestre Lucindo.
“É um show em que a guitarra e a percussão aparecem demais. São três guitarristas (Pepeu, Marco e Filipe) e três percussionistas (Trio Manari) no palco”, diz Marco.
Sobre o Trio Manari, formado por Kleber Benigno, Márcio Jardim e Nazaco Gomes, Pepeu afirma se tratar do “grupo percussivo mais importante do Brasil na atualidade”.
“É uma percussão totalmente diferente da baiana e da carioca. Eles tem uma maneira indígena de tocar. Isso é muito legal, desafiador e diferente. Tem trazido muita alegria pra gente e tenho feito esse trabalho com o maior prazer”, elogia Pepeu.
Arrefecendo o hype
Didi Gomes (baixo) e Trio Manari participam. Foto: Alexandre Moreira
O show de Pepeu, Marco & cia vem em boa hora, quando o hype em torno da música paraense – uma campanha de marketing patrocinada por uma indústria de cosméticos – começa a arrefecer, deixando que a música daquele grande estado fale por si própria.
O próprio Marco chegou a ironizar o fenômeno em seu último álbum, Nem Révi Nem Laite (2014). “Houve um boom absurdamente grande em torno de um dos ritmos paraenses, que é o tecnobrega, que nem era tocado pelo mais jovens dentro de uma raiz verdadeira, até por que eles não viveram isso”, opina.
“Se você faz com verdade, isso é o que interessa. Mas criar um factoide em cima de uma coisa que não é verdadeira, fica perigoso”, acrescenta.
Já Pepeu acredita que o movimentá “está só começando. A música do Pará é muito rica, assim como a da Bahia, só que não foi tao explorada”, diz.
“E lá tem uma diferença: harmonicamente, eles tocam melhor que o axé, por exemplo, que se limita em dois acordes. O Pará é mais ousado, tem mais melodia e musicalidade, não fica parecendo que a percussão é o mais importante. Isso é uma renovação que eu acho que tinha que acontecer na música baiana também”, sugere Pepeu.
Os planos de Pepeu
Baby & Pepeu, no histórico show do Rock in Rio de 1985
Em outra frente, Pepeu se prepara para lançar um álbum instrumental inédito, Alto da Silveira, título que homenageia a localidade em que nasceu, no bairro do Garcia.
“Quero ver se até o fim do ano chego com esse show em Salvador”, diz.
Em setembro, ele se reúne com Baby do Brasil para uma apresentação no Rock in Rio, comemorando os 30 anos do histórico show do então casal na primeira edição do festival, em 1985.
“Vai ser super legal. Ela me fez um convite pra participar como convidado e eu aceitei, claro”, conta.
“A geração atual quer ver, é uma música viva até hoje. E ela voltou muito bem ao trabalho dela, então foi uma oportunidade super legal”, afirma.
Outros planos de Pepeu são gravar um álbum de só guitarrada paraense – e um show com uma orquestra sinfônica, para comemorar os 40 anos de sua carreira solo, iniciada com o álbum Geração do som (1978).
“Ainda estou vendo qual sinfônica seria. Pode ser até a da Bahia (Osba), quem sabe?”, deixa no ar.
“A única coisa que eu não queria é deixar a Bahia de fora. É que tenho dificuldade de tocar aí, sabe? Santo de casa não faz milagre”, resigna-se.
Show Conexão Brasil – Com Pepeu Gomes, Marco André e Trio Manari / Quarta e quinta-feira, 21 horas / Teatro ACBEU (Av. Sete de Setembro, 1883, Corredor da Vitória) / R$ 20 e R$ 10 Oficina: sexta-feira, 15 horas / Vagas limitadas a até 30 participantes / Gratuito
HQ: O perfuraneve, de Jacques Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand é FC com forte tom político que ganhou adaptação cinematográfica à altura. Estreia dia 30 nas telas
É tradição na (boa) ficção científica: as situações projetadas no futuro refletem questões políticas e sociais atuais. Com a HQ francesa O Perfuraneve (Le Transperceneige, no original), cuja adaptação cinematográfica estreia no próximo dia 30 no Brasil, não é diferente.
Criada pelo trio Jean-Marc Rochette (desenhos), Jacques Lob (1932-1990) e Benjamin Legrand (roteiros), a obra chega em edição completa, com os três volumes originais em um álbum com feitio de tijolão: O Perfuraneve (1984), O Explorador (1999) e A Travessia (2000).
O conceito original da HQ foi desenvolvido por Lob, que trabalhou nas primeiras páginas com Rochette para a clássica revista francesa À Suivre.
Após seu falecimento em 1990, Rochette e o experiente escritor Benjamin Legrand retomaram O Perfuraneve, criando os dois álbuns subsequentes.
Na HQ, o mundo passou por um cataclismo climático que congelou o planeta, matando a maior parte da população mundial.
O que resta da humanidade se encontra a bordo do Perfuraneve, um trem gigantesco com centenas de vagões e tecnologia revolucionária de moto perpetuo, que alimenta a si mesma e nunca para.
Como se a metáfora da humanidade como um trem imparável e sem destino já não fosse o bastante, Jacques Lob ainda dividiu os vagões em classes: nos da frente vão os governantes, ricos e poderosos.
Quanto mais ao fundo do trem, mais pobres são seus ocupantes, até chegarmos aos chamados “fundistas”, miseráveis que vivem amontoados como animais nos últimos vagões, expostos ao frio, fome e doenças.
Só que até entre os privilegiados há insatisfeitos com essa situação, que gostariam de prestar alguma assistência aos mais desfavorecidos.
Entra em cena a jovem Adeline Belleau, do Grupo de Apoio ao Terceiro Comboio (uma ONG), que após tentar acompanhar a situação de um fundista capturado ao tentar penetrar na primeira classe, é também capturada e exposta a humilhações.
Adeline e Proloff (o fundista pego) tem de atravessar o enorme trem, escoltados por militares.
O caminho, claro, é cheio de perigos e surpresas, como o grupo religioso que evangeliza a população a rezar pela “Santa Locomotiva”.
Curiosamente, os fiéis deste culto não são lá muito solidários e querem mais é que os militares assumam o poder e, de preferência, desengatem logo os vagões do fundo, abandonando os pobres à própria sorte.
Qualquer semelhança com o que acontece hoje no Brasil (e na União Europeia) passa longe de coincidência.
Tudo isto, só no primeiro capítulo. Nos outros dois, escritos por Legrand, o tom político segue duro, com as lutas de classes e pelo poder a qualquer custo ditando a trama.
A vingança veio de trem
Cultuado na Europa, O Perfuraneve acabou ganhando uma adaptação cinematográfica a altura: O Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), dirigida pelo badalado sulcoreano Bong Joon Ho, dos excelentes O Hospedeiro (2006) e Mother: A Busca pela Verdade (2009).
No elenco internacional há o Capitão América Chris Evans, a premiada inglesa Tilda Swinton, Jamie Bell, John Hurt e Ed Harris. Produzido em 2013, o filme tinha tudo para arrebentar nas bilheterias quando do seu lançamento.
Só que, como sempre, os “gênios” do marketing norte-americanos queriam “mexer” no filme, mudando até as sequências de abertura e conclusão.
Como o diretor vetou essa interferência, perdeu contrato de distribuição com a poderosa Weinstein Company. Resultado: o filme estreou em apenas oito salas nos EUA.
A vingança veio com a aclamação crítica (95% de resenhas favoráveis no agregador Rotten Tomatoes) e uma audiência gigantesca nos serviços de video on demand (Netflix e similares).
No Brasil, após ter a estreia adiada algumas vezes, o filme chega as telas no próximo dia 30.
O Perfuraneve / Jean-Marc Rochette, Jacques Lob, Benjamin Legrand / Aleph/ 280 páginas/ R$ 59,90
Veterana do hardcore, banda capixaba Dead Fish é a atração principal de show que ainda terá as baianas Massa Sonora, Traje Civil, Semivelhos e Central Wallts
A rapaziada do Dead Fish. Foto Eduardo Orelha
Prestes a completar 25 anos de atividades ininterruptas no ano que vem, a banda capixaba de hardcore Dead Fish traz a Salvador o show de lançamento do novo álbum, Vitória.
A ocasião também terá shows das bandas baianas Massa Sonora, Traje Civil, Semivelhos e Central Wallts.
Conhecida pelo HC gritado, veloz e de letras politizadas (sem panfletarismo), o DF produziu o novo álbum via crowdfunding em uma campanha que evidenciou sua popularidade ao quebrar o recorde de arrecadação da plataforma (Catarse) e angariar o quádruplo da meta necessária.
Para uma banda brasileira que não faz concessões no som (nem nas ideias) e trafega basicamente no underground, foi um feito e tanto.
Pena que, como nota o vocalista Rodrigo Lima, eles parecem estar sozinhos na privilegiada posição: “Chegamos num patamar que acredito que estamos quase sozinhos, o que não é nada legal. Somos uma banda de tamanho médio/pequeno, mas que criou – ou soube entender o próprio nicho”.
“Particularmente, eu gostaria de ver mais bandas, mais rádios, selos, casas de show, editoras e gente envolvida, tanto tecnicamente como no público em si”, afirma.
Onda de estupidez
Em todo caso, a experiência do financiamento coletivo e o resultado no CD o agradaram: “Gosto muito desse álbum, foi bastante emblemático pra nós. Não só o lance todo do crowdfunding mas de ter músicos novos e muito bons conosco. De o álbum ter sido feito no (estúdio) El Rocha com o (produtor) Fernando Sanches. É um álbum de um momento ímpar da banda – tanto pro bem quanto pro mal”, diz.
No CD, tome-lhe letras batendo em racistas, reacionários e golpistas de Facebook, refletindo bem o momento atual do Brasil: “Confesso que não esperava uma onda de estupidez tão grande, mas é só reflexo do que já vivemos até aqui. Fomos o último país a abolir a escravidão, nosso torturadores militares estão em casa recebendo aposentadoria enquanto os do Chile, Argentina e Uruguai estão presos”, afirma Rodrigo.
“Enfim as coisas só estão mais claras agora que todo mundo é muito corajoso nas redes sociais. Mesmo com tudo isso, sou otimista que essa onda passa, as pessoas tem discutido mais política em todos os lugares”, diz.
No show, o DF apresenta as pedradas do CD novo e também preferidas dos fãs: “Basicamente o lançamento do álbum. Queremos mostrá-lo pro soteropolitanos, mas não podemos deixar de tocar alguns clássicos, senão o povo mata a gente”, brinca Rodrigo.
Dead Fish, Massa Sonora, Traje Civil, Semivelhos e Central Wallts / domingo, 15 horas / Coliseu do Forró (Patamares) / R$ 30 / Vendas: Ticketmix / 16 anos
ENTREVISTA Rodrigo Lima - Vocalista do Dead Fish
O crowdfunding foi uma uma experiência muito boa para vcs, correto? Chegamos à sonhada independência total de gravadoras, produtores, programadores? Ou ainda há muito terreno para ganhar mais a frente?
Rodrigo Lima: Chegamos num patamar que acredito que estamos quase sozinhos, o que não é nada legal. Somos uma banda de tamanho médio/pequeno mas que criou ou soube entender o seu próprio nicho. Particularmente gostaria de ver mais bandas, mais rádios, mais selos, mais casas de show, mais editoras e mais gente envolvida tanto tecnicamente como no público em si. Acredito muito que algo possa acontecer pra melhor tanto pra banda quanto pro meio em que estamos encaixados, apesar de todos aqui onde estou terem cometido muitos erros, fomos e somos muito perseverantes e resistentes em nossas idéias, então, grosso modo, acredito que existe ainda um espaço razoável a ser ocupado ainda. Só que isso deve levar mais uma ou duas décadas, talvez o Dead Fish nem esteja mais aqui pra ver a coisa toda acontecendo. É um país de processos e mentes mais lentas do que gostaria de ter vivido.
Depois de cinco anos sem álbum de inéditas, como vocês avaliam o novo disco dentro da discografia do DF? Ele marca alguma coisa?
RL: Gosto muito desse álbum, foi bastante emblemático pra nós. Não só com o lance todo do Crowdffunding mas, de ter músicos novos e muito bons conosco. De o álbum ter sido feito no El Rocha com o Fernando Sanches, é um álbum de um momento ímpar da banda tanto pro bem quanto pro mal. Pra mim marcou demais este álbum. Tomara que pro público marque também.
Vitória / Vila Velha tem tradição em rock underground, HC e movimentação independente. Como está o cenário atual por lá?
RL: Estes dias estava pensando nisso. O cenário do ES, principalmente Vitória, Vila Velha e a região metropolitana já é bastante tradicional não só na música mas nas artes em geral. Somos meio diferentes, um pouco inseguros por sermos um ponto pequeno na Federação, bastante marrentos por justamente termos esta coisa de ilhéu, minoria mesmo mas, criamos algo, sim, definitivamente temos uma história do cassete pra contar. Eu sei das coisas do cenário do ES por amigos e pelas coisas que o Fábio Mozine posta nas redes, gosto de muitas coisas mas sei pouco do que rola no cotidiano por estar em SP. Sei que tem muita coisa rolando em Vila Velha, o Alex Vieira com a sua editora/loja, as bandas de punk/hardcore de lá sempre produzindo, sei de algumas pessoas que se destacaram e saíram de lá como o Marcel Dadalto que esta em Berlim, do Leo do Supercombo que vive aqui em SP, dos meninos da Quase que hoje vivem entre Rio e SP fazendo um zilhão de coisas, do Silva que faz uma parada bem diferente do que imaginava sendo do ES e tudo mais... Sempre teve muita coisa acontecendo ali e acredito que sempre vai ter, só não somos muito conhecidos.
Como será o show em Salvador? Músicas do Vitória, mais clássicos?
RL: Basicamente o lançamento do álbum. Queremos mostrá-lo pro soteropolitanos coisas novas mas, não podemos deixar de tocar alguns clássicos senão o povo mata a gente.
O Brasil passa por um levante conservador / neofascista / racista etc vergonhoso neste momento. O que vocês acham que está acontecendo? É um fenômeno novo? Ou parte da população sempre foi assim, mas não tinha canal (Facebook) nem coragem para se manifestar abertamente? E como vocês trabalham essa realidade em suas músicas?
RL: O Brasil sempre foi um país muito preconceituoso e nem é uma questão só de classe isso, é uma questão do rumo que tomamos historicamente, um assunto pra livros e mais livros. Confesso que não esperava uma onda de estupidez tão grande mas, é só reflexo do que já vivemos até aqui. Fomos o último país a abolir a escravidão, nosso torturadores militares estão em casa recebendo aposentadoria, enquanto os do Chile, Argentina e Uruguai estão presos. Enfim, as coisas só estão mais claras agora, que todo mundo é muito corajoso nas redes sociais. Mesmo com tudo isso, sou otimista que essa onda passa, as pessoas tem discutido mais política em todos os lugares. Posicionamentos toscos estão sendo muito contestados também, sou otimista que as coisas mudam pra melhor a médio prazo, mas não sem grandes rupturas. Não digo guerra civil nem nada, por que esta a gente já vive há uns quinhentos anos, mas rupturas de postura mesmo, uma polarização brutal que provavelmente tenderá para algo mais democrático e aberto. Já a curto prazo só vejo uma cagada brutal patrocinada tanto pelo executivo local e nacional, pelo congresso, pela mídia de massa e por que não dizer também pelo povo, né? O momento é de marcar opinião, de deixar as coisas claras, de debate onde quer que seja. Esses dias fui obrigado a bater boca na fila do mercado e acho que será assim por um tempo, até que as coisas fiquem mais claras. Tomara que o senso republicano vença a curto/médio prazo e não este ganguismo neoteocrático agrofascista pósestúpido que estamos vendo. Eu escrevo o que vejo, leio e ouço, nada mais que isso. Esse álbum tem muito dessa nova realidade que vivemos.
Com quase 25 anos de banda, o DF é uma das bandas de HC mais importantes do Brasil, sem favor nenhum. Quando vocês começaram moleques lá atrás imaginaram que chegariam tão longe?
RL: Não mesmo. Ainda temos um caminho a trilhar, ainda sinto tesão em estar no palco e em abrir caminho nesse meio.
Entrevista: Thiago Andrade, baterista do Massa Sonora.
Pode me corrigir se eu estiver errado: apesar de ser uma banda de rock, o MS aparece pouco no cenário local, se limitando a abrir shows de atrações de fora. É uma estratégia deliberada? por que? Não vale a pena se apresentar nos inferninhos locais?
A banda Massa Sonora. Thiago é o de camisa branca. Foto: Edgar Chaves
Thiago Andrade: A questão não é se limitar a abrir shows para bandas de fora, acontece é que sempre quando essas bandas vem pra salvador recebemos o convite para fazer parte da grade. Temos uma boa relação com diversas produtoras a nível nacional, por um lado é um prazer dividir o palco com grandes artistas, mas também temos que ter cuidado justamente para não ficar com esse rótulo. Inferninhos já tocamos várias vezes e gostamos muito. É muito bom estar próximo da galera e ficar à vontade. O grande problema é que alguns lugares aqui em salvador não têm uma estrutura adequada para fazer um show 100%. Pois existe a carência de bons equipamentos, boas parcerias e uma estrutura básica para banda chegar e ter seu espaço... Na maioria das vezes, tudo acontece no improviso, precisamos acabar com esse rótulo de que banda de rock toca em qualquer lugar e com material de baixa qualidade. Fazemos rock and roll e queremos mostrar o nosso melhor, mas pra isso precisamos ter no minimo uma estrutura básica para o show acontecer.
Aos seis anos de banda, qual a avaliação que vocês fazem do caminho precorrido até aqui? É possível formar público de rock em salvador?
TA: Nada foi muito fácil, ainda mais se tratando de rock na bahia. Quebramos muitos paradigmas e ainda tem muita coisa a se fazer. Tivemos uma grande oportunidade de tocar em um dos maiores festivais de música e surf aqui na bahia (Surf Eco Festival), com isso foi aberta uma porta muito grande pra banda, dando espaço para outros convites e até mesmo tocar novamente no festival. É possível sim, formar público aqui em salvador. Tudo bem que as maiores bandas de rock daqui da Bahia tiveram que fazer o caminho inverso, sair de Salvador, estourar no Sudeste e voltar com peso.. Acreditamos que a boa música tem um poder muito grande, então formar público aqui ou na Amazônia vai ter o mesmo peso pra nós. O que importa é nossa troca de energia e levar o nosso melhor.
Quais são os planos do MS daqui para frente?
TA: Atualmente estamos em estúdio preparando nosso EP, que está vindo com força total, lançamento previsto para agosto. Contaremos também com algumas participações de nível nacional. Vamos cumprir nossa agenda normal até o mês de agosto. Logo depois vamos fazer um pequena temporada aqui em Salvador e começaremos a nossa turnê Nordeste/Sudeste. Estamos ansiosos com algumas surpresas que estão por vir, grandes encontros com ícones da música brasileira e sempre fortalecer com nossos parceiros e amigos daqui de Salvador, como a galera das bandas Circo de Marvin, Scambo, Efeito Manada entre outras.
Um dos motivos pelo qual o colunista gosta de bandas de moleques é que elas costumam compensar a pouca experiência técnica com um ataque instrumental feroz e cheio de gás, algo fundamental para que o rock ‘n’ roll continue sendo o rock ‘n’ roll e não a sub- MPB que ora nos aporrinha.
Bom, eis aqui uma banda de moleques que consegue aliar conhecimento e técnica com uma ferocidade digna de um vilão do Jiraya.
Mas ei, foi justamente um vilão do Jiraya que “emprestou” seu nome à banda Kazenin Mafia, power-trio instrumental que impressiona por que a) são moleques que tocam muito bem e b) justamente por serem moleques estão com muito tesão pra tocar.
“Olha, cada um na banda teve uma experiência bem diferente”, conta o baixista Gabriel Wirz.
“Eu estudei baixo mesmo, por que pretendia fazer música na Ufba. Cheguei a fazer curso de extensão em regência e estudei contrabaixo erudito no Neojibá. Mas acabei fugindo por que gosto mesmo é dos Stooges”, confessa.
“O guitarrista, Gregory Baratoux, também já teve aulas de música como eu. E a família dele é de músicos também, ai já facilitou”, continua.
Mas a melhor história é a do baterista, Luciano J: “Ele aprendeu sozinho, nunca teve aula. A família era de uma igreja e tinha uma bateria lá para os cultos. Quando não tinha ninguém por perto ele aproveitava pra tocar”, conta.
“Não é por que ele toca na minha banda não, mas eu acho Luciano um prodígio”, diz.
Hard stoner kraut post-rock
O curioso é que, apesar de ainda ser pouco conhecida na cena, a Kazenin Mafia nem é tão nova: foi formada em 2012: “Eu já conhecia Greg e Luciano, que era meu colega de faculdade na Ufba. Um dia fui no show da Metacórtex, que era a banda do batera. Depois do show rolou uma jam”, conta.
“Ali mesmo decidimos fazer uma banda. Só que fugimos da proposta, que era na linha Wolfmother (power-trio australiano), para uma coisa totalmente diferente, maluca e instrumental”, conta.
Pesado, suingado, afiado, o som da Kazenin Mafia passeia do hard rock ao post-rock, com escalas pelo progressivo, stoner e kraut, sem perder o rebolado. Vamos acompanhar.
O Quanto Vale o Show? de hoje bota no palco do Dubliner’s os cantores Dimazz e Elotério Brás. Hoje, 20 horas, pague o quanto quiser.
Kaoll, foto Luis Fernando Figueiredo
Kaoll faz Pink Floyd
Banda instrumental que acompanha a lenda viva Lanny Gordin, os paulistas da Kaoll trazem a cidade um show em tributo ao Pink Floyd. A divulgação promete “experiência audiovisual marcante”. Confira quinta-feira, 21 horas, Teatro SESC Casa do Comércio, R$ 20 e R$ 10.
Declinium e Van Der Vous
Também na quinta-feira, duas das melhores bandas baianas atuais se apresentam no Taverna Music Bar: Declinium (quem curte Legião precisa conhecer) e Van Der Vous (psicodélico). 21 horas, R$ 10.
EXTRA: Duo Robatto em concertos gratuitos
Duo Robatto, foto Adenor Gondim
Formado por dois músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia, o Duo Robatto, dos irmãos Lucas (flauta) ePedro (clarineta), fará duas apresentações gratuitas em Salvador e Cachoeira, dentro do projeto Música de Agora na Bahia (MAB): hoje, 9 de julho, na Reitoria da Ufba, às 20 horas, e sábado, no Cine-Teatro Glória (Cachoeira), 19 horas. O Duo interpretará composições de autores contemporâneos, como Paulo Costa Lima (Ibejis 3), Alex Pochat (2zero1) e Túlio Augusto (Segredo das Folhas).
Diferente do filme anterior, Salvação, o roteiro confuso não enterra Exterminador do Futuro: Gênesis, quinto capítulo da saga
É uma pena, mas ainda não foi desta vez que a franquia O Exterminador do Futuro ganhou uma continuação a altura dos seus dois primeiros filmes.
Não que O Exterminador do Futuro: Gênesis seja simplesmente ruim.
Não é o caso de joga-lo na vala, como seu antecessor, o fracassado O Exterminador do Futuro: Salvação (2009), produzido no período em que Schwarzenegger desempenhava o papel de Governator da Califórnia, com Christian Bale de protagonista.
Gênesis nunca chega a entediar, pelo contrário: tem bom ritmo, diverte, entretém e espanta (no bom sentido) o espectador com suas elaboradas cenas de batalhas, lutas e perseguições, além dos efeitos especiais de primeira, cortesia do orçamento dilatado de costume.
Até mesmo ícones da franquia estão presentes, como o androide T-800 original (Arnoldão jovem, recriado em CGI), o T-1000 de metal líquido e as maravilhosas frases de efeito: “Venha comigo se quiser viver” e “I’ll be back”, esta última dita com o velho charme austríaco do brucutu-mór.
O problema do filme, visto como um renascimento da franquia com as bênçãos do seu criador James Cameron, é que seu roteiro não faz absolutamente nenhum sentido.
E este é o problema de brincar com o tema das viagens no tempo. A cada filme, mais e mais paradoxos temporais (impossibilidades geradas pelos deslocamentos entre épocas) vão surgindo, até que a trama fica muito complicada – ou simplesmente deixa de fazer sentido, mesmo.
É um tal de volta no tempo e avança no futuro, que, a certa altura do filme, o espectador apenas desiste de tentar entender e resolve só apreciar o espetáculo multimilionário.
O resumo do filme surge na boca de um dos personagens, quando diz: “Viagem no tempo dá muita dor de cabeça”.
O trio nas ruínas (palco?) do Cine-Teatro Jandaia. Foto: Renata Marzola
Pequena, mas resistente e organizada, os góticos (apesar de não curtirem o termo) formam uma sub-cena consistente dentro do rock baiano, com bandas de espectro variado indo do industrial (Desrroche, Modus Operandi) ao pós-punk mais ortodoxo, linha Depeche Mode, The Cure etc.
Nessa linha, encaixa-se o trio local Jardim do Silêncio, que acaba de lançar um EP bem legal com três faixas: Carmim, Aurora e O Sétimo Dia.
A primeira, inclusive, ganhou um belo clipe gravado no interior do Cine Teatro Jandaia, monumento arquitetônico baiano reduzido a ruínas pela nossa eterna falta de memória (e vergonha na cara).
“Estamos na ativa desde 2007 e agora preparamos nosso segundo álbum, que vai se chamar Aurora / Depassé”, conta o baixista, Ranniere.
Formado em 2006, trio mostra no EP Carmim uma boa mão para compor canções de clima soturno: “Esse EP é uma prévia com download gratuito. Com o clipe do Jandaia nós aderimos ao movimento Salve o Jandaia, que pretende, junto ao Ministério Público, fazer com que ele seja tombado”, afirma.
Ele conta que o clipe foi feito com recursos mínimos e que, mesmo arruinado, o Jandaia impressiona: “Eu mesmo fiz o roteiro e minha namorada filmou com uma câmera só”.
“Foi bem underground, mas ficou mais legal do que esperávamos. O teatro é muito bonito e tá daquele jeito. A acústica é surreal. Basta falar que você sente o retorno do som. Um negócio de outro mundo”, garante Ranniere.
Pelos palcos do Brasil
Mesmo fazendo parte de uma cena que está no underground do underground, o trio, que é claro, não depende de música para viver, já rodou pelo Brasil, tocando em festivais e redutos como Alquimia e Treffen (ambos em São Paulo), Woodgothic (São Tomé das Letras - MG), Subterrâneo (Campina Grande - PB), Future Gothic Nights (Recife) e Darktronic Live (Bahia).
“Fazemos aquilo que gostamos de verdade. Não nos preocupamos com reconhecimento ou retorno financeiro. Isso é o que gente gosta e escuta”, afirma o baixista.
No momento, o trio conclui as gravações do novo álbum e busca local para fazer um show de lançamento.
“Estamos tentando marcar uma data, mas todo mundo diz que tá com a pauta fechada até novembro. Em todo caso, estamos abertos a convites”, conclui.
Patrocinado pela Natura Musical, o Festival Radioca divulgou sua grade de atrações. Dia 1º de agosto tem Cidadão Instigado (CE), Apanhador Só (RS), Ifá Afrobeat e Pirombeira. Dia 2 tem Siba (PE), Anelis Assumpção (SP), Mulheres Que Dizem Sim (RJ) e OQuadro. Uma programação consistente, variada e sintonizada com as tendências mais atuais da música brasileira. Tocado pelo trio Luciano Matos, Ronei Jorge e Robertinho Barreto (Baiana System), o festival surge do programa homônimo apresentado pelos três na Educadora FM. Os shows serão no Trapiche Barnabé (Comércio). O preço dos ingressos ainda não foi divulgado.
Paquito no Gamboa
Sexta-feira e sábado tem Paquito no Teatro Gamboa Nova, no show Por Enquanto. No repertório, composições próprias e parcerias com Gerônimo, Ronei Jorge, Arto Lindsay. 20 horas, R$ 20.
Rock: Entre shows gratuitos e esquentes para festival, Rogério "Big Bross" Brito segue movimentando a cena local
Produtor-ícone da cena roqueira baiana, Rogério Big Bross Brito parece carregar nas costas o que restou do movimento.
Só isso explica a agenda cheia de shows que ele apresenta até pelo menos outubro, quando realiza mais uma edição do seu festival anual, o Big Bands. Detalhe: sem qualquer apoio – público ou privado.
Melhor dizendo: há apoio, sim – mas dos interessados: bandas, casas de show, coletivos, selos independentes e frequentadores. “Tô me ocupando disso, né?”, diz Big.
“Aproveitando o suporte do Dubliner’s (Irish Pub) e ocupando outros espaços, como o Taverna (Music Bar)”, conta.
No primeiro, Big comemora um ano do projeto gratuito Quanto Vale o Show?, que botou todas as terças-feiras, mais de 100 bandas para se apresentar – com as agendas de julho e agosto fechadas.
Já no Taverna ele abre uma série de shows Warm-Up (esquente) do Big Bands, com duas bandas baianas todas as quintas-feiras de julho.
É o Noites Big Bross - Brechó, associação do seu selo ao Brechó, da banda Pastel de Miolos.
“As dez bandas do Noites BB-Brechó são de uma variedade incrível. São duas bandas por noite, uma não tem nada a ver com a outra. O primeiro dia, por exemplo: Theatro de Seraphin e Squadro não tem nada a ver uma coma outra. E é assim todos os dias. Quem ainda não vi ao vivo é a Calafrio, que saiu com um CD bala. Cartel Strip Club pra mim é uma banda de futuro: são organizados e correm atrás. Eles tem uma pegada folk psicodélica que tá bem em voga, acho incrível como essas bandas novas tem buscado o prog, o folk. Vejo moleque novo com discos do King Crimson debaixo do braço. A (banda) Kazenin Mafia, por exemplo, é prog total, moleques na faixa etária dos 19, 20 anos curtindo pegada prog. O lance é esse, muita gente com liberdade de fazer o que quiser e quem monta banda hoje em dia faz exatamente o que quer. Isso é muito legal. Ainda ficou muita bandas de fora, por que não tinha mais espaço para outras, aí vou inventando mais Warm-up pra botar pra tocar. E como tento estimular que as bandas se comuniquem, todos os membros de todas as bandas são convidados a assistir gratuitamente aos shows em todos os dias do Noites BB-Brechó. Elas é que tem que se movimentar, na verdade”, afirma.
“Não faço nem crowdfunding. Quem quiser contribuir pode comprar um poster numerado em papel especial (de uma série de 30) ou uma camisa. A renda vai para custear hospedagem e coisas mínimas para as bandas”, conta Big.
“Não quero vaquinha. Vou vender esse produtos e pronto. Quem quiser reserva pelo Facebook. É tudo sem apoio, do tamanho que a perna alcança. Até prefiro assim”, afirma.
Non-stop, hoje ele encerra a temporada de junho do Quanto Vale o Show?, com as bandas Pã e Rivermann, para começar o Noites Big Bross - Brechó já na quinta, com Theatro de Seraphin e Squadro.
Na outra terça-feira (dia 7), Dimazz e Eleotério Brás abrem temporada de julho do Quanto Vale... e assim por diante.
Em agosto, ele traz de volta os paulistas do experiente quarteto indie Wry, que já fez grandes shows por aqui e do outro lado do Atlântico.
Já em setembro ele gira por quatro cidades com o mestre gaúcho do punk brega, o veterano Wander Wildner.
"Será uma mini tour com Wander pela região metropolitana: Salvador, Feira de Santana, Alagoinhas e Camaçari. Em cada cidade ele toca com uma banda local de abertura. A banda que acompanha ele aqui é formada pelos irmãos Rogério (baixo, Les Royales) e Rodrigo Gagliano. Primeiro ele faz um segmento acústico e depois os caras se juntam a ele formando um power trio", detalha.
E em outubro, finalmente, o festival Big Bands de fato, que por enquanto só tem uma banda confirmada, o duo paulista Test.
Movimentar, circular
“Tudo isso é a necessidade de movimentar as bandas que lançamos pelo Big Bross-Brechó. Só ano passado saíram 14 discos. Esse ano já foram seis: Nalini Vasconcelos, Novelta, Calafrio, Elefantes Elegantes etc”, enumera.
“Tem que movimentar esse povo. Não adianta botar os discos na rua e não circular. E na medida do possível, sempre incluo bandas do interior com as locais”, acrescenta.
Enquanto há quem ache que a cena de agora é inferior (ou mesmo menor) à de 15, 20 ou 30 anos, Big acredita no contrário: “Hoje, ao contrário dos anos 90, quando só tínhamos um ou dois shows por fim de semana, hoje você vai ao Rio Vermelho e pode escolher aonde vai. O público não diminuiu: ele se dividiu”, observa.
“Quando comecei o Quanto Vale, achei que só banda inexperiente ia tocar. Agora temos Júlio Caldas, Lo Han e até bandas de fora da cidade, da Bahia e até do Brasil, como os finlandeses que tocaram no início do ano”, conclui.
Hoje: Pã e Rivermann / Dubliner’s Irish Pub / 20 horas, gratuito 2 de julho: Theatro de Seraphin e Squadro / Taverna Music Bar / 21 horas, R$ 10 7 de julho: Dimazz e Eleotério Brás / Dubliner’s / 20 horas, gratuito 9 de julho: Decliniun (Camaçari) e Van Der Vous / Taverna / 21 horas, R$ 10 14 de julho: Ádamas e RestGate Blues / Dubliner’s / 20 horas, gratuito 16 de julho: A Flauta Vértebra e Cartel Strip Club / Taverna / 21 horas, R$ 10 21 de julho: Noite Incubadora Sonora / Dubliner’s / 20 horas, gratuito 23 de julho: Bilic Roll e Calafrio (Feira de Santana) / Taverna / 21 horas, R$ 10 28 de julho: TenTrio e Subaquático / Dubliner’s / 20 horas, gratuito 30 de julho: Búfalos Vermelhos & Orchestra de Elefantes e Novelta (Feira de Santana) / Taverna Music Bar / 21 horas, R$ 10 1º de agosto: Wry (SP), Mapa e Tsunami / Dubliner’s 4, 11, 18 e 25 de agosto: Quanto Vale o Show?, com Irmão Carlos, Júlio Caldas, Noite Incubadora, Batrákia e Lo Han / Dubliner’s
3, 4, 5 e 6 de Setembro: Wander Wildner (RS) / Salvador, Feira de Santana, Alagoinhas e Camaçari Outubro: Festival Big Bands / Confirmada: Test (SP)
Um dos idealizadores e organizadores da Festa Literária de Cachoeira – Flica – o escritor e produtor cultural Emmanuel Mirdad lança na terça-feira seu terceiro livro, O grito do mar na noite, pela editora itabunense Via Litterarum.
Segundo volume de contos após Abrupta sede, de 2010 (Nostalgia da lama, de 2014, trazia só poemas), O grito do mar na noite traz dez contos, posfácio de Mayrant Gallo e orelhas de Márcio Matos.
O título faz referência a três livros do escritor baiano Hélio Pólvora (1928-2015): O grito da perdiz (1983), Mar de Azov (1986) e Noites Vivas (1972).
A homenagem se estende com trechos pescados dos livros de Pólvora, o qual Mirdad considera como seu mentor, introduzindo cada conto.
“Tive a sorte de o Hélio ler este livro antes de falecer (em 26 de março). Me disse ele que gostou”, afirma Mirdad.
Ele vê o lançamento deste novo livro como etapa vencida para atingir um objetivo: “Com esses contos eu faço uma nova ficção, que é o que eu quero fazer em literatura mesmo: me especializar como autor de ficção. É o primeiro passo para chegar ao meu objetivo de escrever romances”, explica.
Tipos universais em SSa
Segundo volume de uma trilogia de livros de contos, o escritor de 35 anos incompletos diz já ter o terceiro volume pronto: “Chama-se Paisagem da insônia e sai daqui a alguns meses. Aí eu fecho minha relação com contos. Agora parto para escrever romances. Questão de foco, mesmo”.
Mesmo dando adeus à narrativa curta por enquanto, Mirdad cita seus autores favoritos do gênero: “Gosto muito dos contos de Anton Tchekov, Guy de Maupassant, Dino Buzatti. Na Bahia, eu gosto de Hélio Pólvora e Mayrant Gallo”.
Ultra-contemporânea em temáticas e estética, a produção de Mirdad em O grito do mar na noite aborda uma gama bem familiar de personagens urbanos.
Há o putão de academia com tendências homossexuais ocultas (no conto Bonecas), a mulher de meia idade que nunca teve orgasmo (Assexuada), o idoso que é abandonado pela filha em um hospital (Chá de boldo) e até uma narrativa-painel, na qual uma situação leva a outra, refletindo um caos social bem soteropolitano (O banquete).
“São tipos que poderiam estar em qualquer lugar, mas estão aqui em Salvador”, conclui Mirdad.
Lançamento do livro O grito do mar na noite / terça-feira (30), 19 horas / Confraria do França (Rio Vermelho) / Entrada gratuita O grito do mar na noite / Emmanuel Mirdad / Via Litterarum/ 172 p./ R$ 30/ www.mirdad.com.br
O ambiente do mangue, de terreno movediço e vegetação entrelaçada sugerindo formas sinistras, tem se mostrado bastante fértil para autores de terror brasileiro.
Depois do filme de zumbis Mangue Negro (2008), de Rodrigo Aragão, a HQ Lavagem, do paraibano Shiko, traz outra abordagem para este cenário lamacento.
Curiosamente, a HQ fez o caminho inverso costumeiro: trata-se de uma adaptação do curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio Shiko, Menção Honrosa do Júri Jovem no Curta Cinema 2011 - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro.
De narrativa ágil e essencialmente visual, Lavagem mostra um casal paupérrimo que vive isolado em um barraco no meio do mangue em uma ilha.
Eles mal se comunicam, embrutecidos pela pobreza e pelo ambiente selvagem em torno.
Cada qual, porém, tem seu refúgio: ela, na religião evangélica e nas fugas extra-conjugais durante as idas a igreja. E ele, no chiqueiro onde cria porcos e com os quais costuma conversar.
Uma noite, recebem a visita inesperada de um pastor, cujo característico poder de persuasão sobre mentes menos sólidas levará a um desfecho para lá de sangrento.
Esse fiapo de roteiro é desenvolvido às últimas consequências por Shiko, um quadrinista que vem despontando como talento a ser acompanhado, dada a sua versatilidade narrativa e de traço.
Versatilidade que pode ser verificada em outra obra sua recentemente publicada: a graphic novel Piteco: Ingá, da série Graphic MSP, de Maurício de Souza.
Nela, Shiko pega o clássico personagem cômico da idade da pedra criado por Maurício e o transforma em um herói pré-histórico brasileiro, na melhor tradição de um Tor (do mestre Joe Kubert, 1953) ou Turok: Dinosaur Hunter (personagem da Dell Comics, criado em 1954).
Escrita, desenhada e pintada em aquarela pelo paraibano, Piteco: Ingá, é uma das melhores HQs da inovadora série de graphic novels de temática mais adulta lançada pelo criador da Mônica.
Pena que, ao contrário do Astronauta de Danilo Beyruth e da Turma da Mônica de Vitor e Lu Cafaggi, Piteco ainda não teve uma continuação anunciada por Maurício de Souza.
Fãs das levadas tropicais-stoneanas do Barão Vermelho e afins tem uma opção legal na cena local.
É o quarteto Radiatta, que vem surgindo meio de mansinho, mas trabalhando direito, tocando para quem os quiser ouvir, sem escolher público: escolas, confraternizações de empresas, batizados e inferninhos, sem distinção.
“Já tocamos juntos há muito tempo, desde os tempos da escola. Sempre fizemos esse som meio Rolling Stones”, conta o vocalista e guitarrista-base Carlos Magno.
O grupo soltou dia desses um álbum com dez faixas autorais, nas quais se destaca o excelente trabalho de Bruno Uzeda (também da Síncope, de heavy metal), guitar hero insuspeito, ainda por ser devidamente apreciado na cena.
“Bruno é um puta guitarrista, e muito versátil: toca jazz, rock, metal”, afirma Magno.
Nesta sexta-feira, a banda se apresenta no Red River Café.
Esperto, o quarteto joga para a torcida, atacando um repertório eminentemente classic rock, com releituras dos já citados Stones e Barão, mais Beatles, Creedence, Elvis etc, com as canções próprias inseridas ali pelo meio, para a galera ir se familiarizando.
Na verdade, a Radiatta, de início, seria só uma banda cover da gangue do Mick Jagger, mas depois, os caras resolveram chutar o balde: “Se Salvador já não suporta a gente tocando rock, vamos fazer logo autoral. Pelo menos, fazemos algo nosso”, raciocina.
Não morreu: ficou seletivo
Material lançado, banda na ativa, Carlos Magno & Cia vão curtindo e tocando por aí – pelo menos, quando não estão trabalhando em seus empregos formais.
“Sou professor no Sartre COC e no Antonio Vieira, no primeiro e segundo anos do ensino médio. Ah, os alunos adoram, dá até um alívio ver que tem uma parte que se salva no rock. Sinal de que não morre tão cedo”, conta.
“Esse papo de que o rock morreu é furado. O rock morreu para quem não procura pelo rock. Pode não tocar nas rádios de Salvador, mas as bandas que eu gosto ainda estão aí. Eu costumo dizer que o rock não morreu: ele só ficou mais seletivo”, diverte-se.
Como é feriado, hoje não tem Quanto Vale o Show?. Mas a sexta-feira no Dubliner’s tem Abismo Solar (Black Sabbath cover) e Fountainhead (Rush cover). 23 horas, R$ 20.
União hardcore
O pessoal do coletivo TomanacaraHC, inconformistas incorrigíveis, organiza show (cartaz ao lado) com Motim 13 (Pojuca), Culinária Guerrilha, Ivan Motoserra e Derrube o Muro – mais bate-papo com César Oliveira (BSB Hardcore), intervenções, exposição da revista Nihil e Mini Bazar Cultural. Domingo, no Diqbrada (Av. Dorival Caymmi, em frente as dunas de Itapuã). A partir das 14 horas, pague o quanto puder.