sábado, junho 10, 2017

CENAS DA VIDA EM SP

Em Portugal para participar de festival de quadrinhos, o casal baiano Flávio Luiz e Lica de Souza lança sua HQ mais adulta

A SP de céu azul e cheia de verde na visão de Flávio
Um raro quadrinista baiano de destaque nacional, o premiado Flávio Luiz (Aú, O Capoeirista) se mudou para São Paulo há alguns anos.

Lá, entre outros trabalhos, vem desenvolvendo HQs em parceria com a esposa, a filósofa e produtora cultural Lica de Souza. O segundo trabalho do casal é Histórias Paulistanas.

Lançado há pouco pela sua editora independente, a Papel A2 Texto & Arte (via edital ProacSP, programa de incentivo à cultura), a HQ enfeixa, à moda Short Cuts: Cenas da Vida (1993, de Robert Altman), diversas narrativas paralelas protagonizadas por pessoas comuns, que parecem aleatórias mas se entrelaçam em determinados momentos.

As motivações dos personagens são as mais simples possíveis.

Há o garoto da comunidade carente que mal consegue dormir, ansioso para poder ir nadar no clube no dia seguinte.

O porteiro de prédio com a mulher grávida.

O aposentado que vive com a filha e a neta, mas que não recebe nenhuma atenção de qualquer uma das duas.

O guarda municipal que se depara com a namorada no protesto de rua que tem de reprimir.

Em meio ao conflito, um parto
“Tinha essas histórias na minha cabeça, ainda soltas, e queria transformar em roteiro. Quando abriram a inscrição no ProacSP, falei com Flávio e ele topou. Ele estava cheio de trabalho no período, então eu escrevi o projeto e uma sinopse, e quando ganhamos, desenvolvi. E quando ele começou a desenhar, fomos trocando ideias e amadurecendo. Como ele saca muito mais de quadrinhos, ele desenvolveu mais as 'quebras' do que viraria quadrinho e encaminhamento das páginas, 'timing', conta Lica.

“Lica já  tinha se aventurado nos roteiros em nosso trabalho anterior (3 Histórias de Terror e Uma Nem Tanto, 2015), e sempre acreditei que ela tiraria de letra escrever HQs. Ela tem uma pegada mais adulta, de quadrinho focado na história. Tem sido o nosso  álbum de maior repercussão no mercado nacional”, afirma Flávio.

Apesar de ficção, algumas situações foram inspiradas na vida real, como conta Lica: “Só a parte da história do velhinho na praça que foi inspirada em uma situação que Flávio viveu e me contou. A história do casal eu criei no sentido inverso, quando estava vendo as passeatas de 2013 pela TV. Que outras histórias, além da violência e revolta que era mostrada, estavam se passando naquele exato momento? E pensei no casal em lados antagônicos e no parto. Não seria uma loucura um parto em meio a uma passeata? E um casal de namorados brigando? E porque eles estariam brigando? A história do menino na piscina eu pensei quando li uma matéria dizendo que São Paulo era a terceira cidade em balas perdidas. A primeira é o Rio e a segunda, Salvador. Mesmo um único caso de bala perdida é um absurdo, mas eles estão aumentando e sendo banalizados. E são sempre casos de uma trivialidade angustiante”.

No sufoco entre bombas de efeito moral, o casal entra em uma amarga DR pública, na qual ressentimentos sociais afloram – mas sem maniqueísmos, uma armadilha que a autora soube evitar.

“A vida não nos afaga. Gosto de levantar questões, mesmo que não tenhamos as respostas. Acho que a vida não é preto no branco e queria passar isso na história. Esses personagens conflituosos refletem a vida mesmo. Nunca somos uma coisa só. Quando você cria, tem que saber de antemão que alguns vão adorar e outros odiar, e isso faz parte. Ainda mais em momentos tão polarizados. Mas não pensei nisso quando escrevi”, diz.

O velhinho na praça
"Will Eisner ,um dos meus maiores ídolos, acreditava no quadrinho como forma de arte capaz de abordar os mais variados temas em suas contradições e profundidades. Apesar de ter um traço cartunesco, tenho uma forte influência de Will na retratação dos tipos humanos e na forma de contar  historias. Espero ter acertado nesse álbum e feito o 'dever de casa' direitinho pra ele e pra Lica, a quem dedico tudo o que publico", acrescenta Flavio.

Apesar de bem adulta e realista na narrativa, a HQ ainda assim mostra uma São Paulo colorida, vibrante e de céu azul, contrastando com o clichê da cidade cinza.

"Eu e Flávio conversamos sobre isso e concordamos que seria muito colorida, porque vemos muita cor em São Paulo, sim. Inclusive a escolha da capa cinza foi para ir de encontro ao lugar comum das pessoas, mas aí você abre e tem aquele choque de luz e cor. Achamos que tinha tudo a ver com São Paulo", observa Lica.

"Tentei sair um pouco da minha zona de conforto e convidar o leitor acostumado aos meus títulos com  personagens solares a conhecer essa outra vertente do meu trabalho. Ao mesmo tempo, mantive a influência de Eisner e do quadrinho europeu (principalmente na paleta de cor), o que é inevitável, já que são minhas maiores fontes de inspiração. A capa tem um tom inspirado nesse clichê de Sampa cinza. Mas dentro, todas as cores, e principalmente o verde, que existe e muito na cidade, estão  presentes. Tá certo que o azul  do céu é bem clarinho, comparado ao cyan 100% de Salvador, mas as pessoas tem identificado esses tons e isso me deixa muito feliz", acrescenta Flávio.

No Beja BD

Flávio e Lica, foto Marina Ribeiro
Em bom momento, Flávio e Lica desembarcam hoje mesmo no XIII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, na região do Alentejo, em Portugal.

É a primeira vez que um quadrinista baiano é convidado para o evento.

“A internet possibilita um contato muito mais amplo na divulgação dos nossos trabalhos. Sigo alguns blogs e acabei conhecendo algumas pessoas que resenham banda desenhada em Portugal. Apesar de não ter ainda uma editora publicando meus álbuns, tive um retorno bastante positivo na imprensa especializada lusitana em relação ao que venho publicando, principalmente pela identificação com o estilo e temáticas tão caros ao público europeu. Acho que essas resenhas e alguns álbuns que chegaram por lá chamaram a atenção dos organizadores. Isso aconteceu em Angoulême em 2016, tanto que lá tive a oportunidade de palestrar sobre nosso mercado, levei mais de 30 títulos de diferentes artistas e, graças a Deus, isso contou muito por lá na divulgação do meu trabalho. O convite para Beja, esse ano, foi uma alegria e um alento nesses tempos tão difíceis para quem faz o tipo de quadrinho que faço aqui no Brasil. Espero voltar de lá cheio de motivação e esperança de melhores dias”, afirma.

Na programação, Flávio faz palestra, sessão de autógrafos, expõe artes originais (no Museu Regional de Beja), participa de mesa-redonda (A Incrível Banda Desenhada Brasileira, com Rafael Coutinho, Pedro Cobiaco e outros) e, para fechar com chave de ouro, comparece ao evento Tributo a Aú, O Capoeirista, do Grupo de Capoeira Gingartes.

Agora, só falta descolar um contrato para publicar no mercado europeu – mas  sem pressão.


“Já estou bastante feliz e honrado com o convite para um festival tão importante. Não quero criar  maiores expectativas. Quero curtir cada momento da exposição, da roda de capoeira, a integração com artistas do mundo todo e agradecer muito o reconhecimento ao meu trabalho. Vou continuar produzindo e lançando meus títulos e seja o que Deus quiser”, diz.

Ao voltar de Portugal, Flávio e Lica darão continuidade aos projetos de HQ já iniciados.

"Online, com certeza, deve sair O Agente Sommos (meu novo personagem) no segundo semestre. Impresso, só quando a crise der uma folga. O Cabra 2 também. Primeiro online, depois impresso. Do Aú tenho uns três roteiros prontos, mas só devo ter alguma coisa pra publicar do conterrâneo pra 2018", conclui.

Histórias Paulistanas / Lica de Souza e Flávio Luiz/ Papel A2 Texto & Arte/ 76 p./ R$ 46/ www.facebook.com/papela2editora / www.flavioluiz.net

A VOZ DO SILÊNCIO

Entre Salvador e São Paulo, a cantora Luedji Luna angaria fãs antes mesmo de gravar o primeiro disco

Luedji Luna, foto Carol Aó
Caladona na infância e adolescência, Luedji Gomes Santa Rita, menina do Cabula criada em Brotas, rompeu o silêncio quando começou a escrever e cantar – assumindo assim o nome artístico Luedji Luna.

"Muita gente me pergunta isso, se 'sou de Salvador mesmo'. Alguns pensam que sou estrangeira, não sei se por causa do nome, da altura (1,80m) ou da minha feição com traços bem fortes. Mas nasci no Cabula, e fui criada em Brotas toda vida", conta.

Na ponte aérea Salvador - São Paulo, a artista é uma das vozes mais belas e originais a surgir na nova cena da música baiana.

“Tive uma infância e adolescência muito silenciosa, poucos amigos, muita contenção. A impressão que eu tinha é que nada acontecia fora, enquanto dentro de mim tudo se movia”, conta Luedji.

Não à toa, no que se pode ouvir de sua música – algumas poucas canções já gravadas – o silêncio é quase um parceiro de sua voz – uma daquelas vozes d’África que parece carregar milhões de outras em si.

“Escrever foi meu jeito de estar no mundo, e depois cantar isso. Então, a fonte da minha música é o silêncio, acho que esse minimalismo surge em respeito a esse lugar de partida”, acrescenta.

"Que eu tenha memória, desde a infância, cantar era minha brincadeira predileta! Cantar, fazer música, imitar a Mariah Carey e Whitney Houston no banheiro, todo o meu imaginário durante a infância era construído em torno da música, a escada era o palco, as plantas eram meu público. Eu fui muito influenciada pelo que meus pais ouviam, Milton Nascimento, Luiz Melodia, e Djavan eram os principais nomes, todo o reggae da década de 80 que meu pai escutava também: Gregory Isaacs, Alpha Blondy, Peter Tosh, Edson Gomes, é daí minha paixão pelos graves e pelos sopros. A música sempre teve um grande impacto sobre mim, sempre me tocou muito, lembro de uma vez uma professora no colégio ter colado no dia do estudante uma música do Milton em sala de aula para homenagear os alunos, e de eu ter chorado aos prantos, eu fui a única criança que chorou. Também me lembro das viagens à Feira de Santana, da batucada no quintal, do Raciocínio Lento, um grupo formado por amigos industriários, que nos finais de semana reuniam as famílias para beber e fazer boa música, minha primeira e principal escola", relata.

"Assumi a música tardiamente, com 25 anos. Não venho de uma família de músicos, e, terminado o colégio, então com 17 anos, idade que você tem de escolher o que fazer da vida, ela nunca foi uma opção. Nós não temos uma educação direcionada para nossas potencialidades, e o sonho não é uma possibilidade, sobretudo quando se é negro, e a garantia da sobrevivência é uma preocupação prioritária. Então, no meu caso, fazer música foi um processo de aceitação, comecei participando de grupos e coletivos de música na cidade, porque buscava essa força e incentivo no outro, com o dinheiro do estágio pagava as aulas de canto na Escola de Canto Popular da professora e cantora Ana Paula Albuquerque. Foi nesse período que decidi fazer isso da vida definitivamente. Ir à São Paulo nunca foi um plano, ou um desejo, mas tive duas experiências que foram determinantes na minha decisão. Eu fazia parte de um coletivo junto com outros compositores de Salvador, o Uns Zansoutros, e fomos convidados a participar de um tributo aos Novos Baianos na cidade. Tivemos uma receptividade muito boa, que para mim foi um grande incentivo. Depois retornei em um outro momento, porque um selo paulista muito bem conceituado teve conhecimento da minha música e mostrou interesse, me chamaram para uma audição do novo disco, na época, de um cantor / compositor que eu admirava muito, na ocasião estavam presentes vários outros artistas que eu admirava, e eu me perguntava: o que é que está acontecendo na minha vida? Naquela noite eu decidi que São Paulo era o lugar onde eu deveria estar! Não foi nada premeditado, a música foi costurando toda história", continua Luedji.

Na internet, sua produção mais bem acabada até o momento é o clipe (e a música) Um Corpo no Mundo, ambos inspirados no contato que teve com imigrantes africanos pelas ruas de São Paulo.

“É uma proposta para se pensar identidade, uma reflexão que surgiu desse encontro com a imigração africana em São Paulo”, conta.

“O projeto se fundamenta na ideia do não pertencimento, do corpo que ocupa o espaço, mas não se identifica, e da necessidade de conexão com a ancestralidade, essa inspiração nasceu dessa vivência, mas o single não fala só sobre isso”, diz Luedji.

A identificação com os desterrados na Terra da Garoa até por que ela também se sente longe do seu lugar de pertencimento: “O fato de estar em São Paulo e não pertencer a cidade reproduz em pequena escala a sensação do que é ser negro da diáspora no Brasil. A música também traz um questionamento sobre corpo, sobre quais são os corpos que merecem afeto, dignidade, respeito e amor. Eu cheguei em São Paulo em um momento em que estavam sendo noticiados muitos casos de xenofobia contra os imigrantes africanos na cidade, e a gente sabe que xenofobia no Brasil é racismo, porque os imigrantes não negros têm um tratamento completamente diferenciado. Em termos políticos, o que está acontecendo em São Paulo, no Brasil e no mundo é um retrocesso sim, mas que só acentua um problema que é sistêmico, a questão do racismo não é partidária”.

Campanha

Este primeiro single, Um Corpo no Mundo foi produzido pelo requisitado sueco Sebastian Notini, ex-percussionista de Eagle-Eye Cherry e responsável por produções, como o premiado Mama Kalunga (2015), de Virgínia Rodrigues, além de álbuns de Tiganá Santana, Ramiro Musotto e Jurema Paes.

Não a toa, Um Corpo no Mundo será também o nome do álbum que Notini começa a produzir em breve para a cantora. “Terá dez faixas, com músicas de minha própria autoria e em parceria”, conta.

“Conheço o Sebastian já há alguns anos, sempre cogitamos fazer algo junto, mas só ano passado foi possível ter essa primeira experiência, que foi a produção do single Um Corpo no Mundo, gravado parte em São Paulo, parte em Salvador. O disco, que leva o mesmo nome do single vai ser gravado na Bahia, terá dez faixas, com músicas de minha própria autoria e em parceria. O Sebastian trabalha com muito diálogo, é bastante sensível ao que a música pede. Então fiquei muito feliz com o resultado do single, que dará norte ao disco. Buscamos a mesma potência e verdade que conseguimos nessa primeira experiência”, afirma.

Para viabilizar a produção, Luedji recorreu ao financiamento coletivo (crowdfunding) na plataforma Catarse.

“A campanha segue a passos lentos, mas firme, me parece que o grande boom do financiamento coletivo de projetos já passou, mas ela segue crescendo de pouquinho em pouquinho. Para colaborar é só entrar no site Catarse, procurar pelo projeto Um Corpo no Mundo, e fazer a contribuição de qualquer quantia”, convida.

"Fiquei dois anos em São Paulo, e só voltava a Salvador em dezembro, nas festas de final de ano. Mas esse ano tem sido diferente, fiquei três meses ininterruptos em Salvador, fiz vários shows e uma mostra, a Palavra Preta: Mostra Nacional de Negras Autoras, idealizada por mim e Tatiana Nascimento, cantora, compositora e poeta de Brasília. A mostra reuniu em janeiro mais de 20 compositoras e poetisas negras da cidade de Salvador e de outras regiões do país. Então, depois dessa experiência no verão, esse ano decidi ficar nessa ponte São Paulo - Salvador. Minha cidade está bem viva, produtiva, com espaços novos, e com projetos pulsando. Estou na articulação para fazer a comemoração de um ano da mostra Palavra Preta em Salvador, além de shows, e a gravação do disco em outubro", conclui.

www.catarse.me/umcorponomundo_luedjiluna

terça-feira, junho 06, 2017

DEATH-THRASH DA ITÁLIA, METHEDRAS FAZ TURNÊ DE TRÊS DATAS PELA BAHIA

Methedras, foto Silvia Belloni
Na função ad aeternum (graças a Jah), Rogério BigBross Brito vai armando mais uma edição do festival BigBands, que deve rolar no segundo semestre.

Para esquentar as turbinas, sábado tem o Warm Up BigBands 2017, com a atração internacional Methedras (da Itália), mais as bandas locais Aphorism e Old Chaos.

Como gostamos de fazer as honras, batemos um papo por email com o baixista e fundador da Methedras,  Andrea Bochi, que parece bem feliz em vir ao país.

“É nossa primeira vez no Brasil, um sonho realizado desde que era garoto e ouvia uma grande banda como o Sepultura e me perguntava sobre seu país e sua cena metal, sua cultura, suas mulheres. Uma nação charmosa e cheia de contrastes entre sua natureza e vida selvagem, seu povo acolhedor, sua música, sua colorida vida social”, conta, idealizando.

Em turnê de 12 datas pelo Brasil, o quarteto vai rodar bastante pelo Nordeste. Só na Bahia, faz três shows: quinta-feira em Vitória da Conquista, sexta em Serrinha e sábado aqui.

“Nossas expectativas são simples: tocar, conhecer novos metalheads, curtir com os amigos, desfrutar do seu estilo de vida por um tempo, relaxando na praia nos dias de folga e possivelmente fazer novos fãs, divulgando nosso nome e música pela cena brasileira”, diz.

Formada em Milão em 1996 e hoje baseada em Bérgamo, norte da Itália, a Methedras pratica death-thrash metal de altíssima octanagem, nada devendo a grandes bandas do gênero, muitas das quais eles já abriram shows pela Europa.

“Somos influenciados basicamente por bandas estrangeiras das cenas thrash da Bay Area (São Francisco, Califórnia) e  de death metal do norte europeu – de forma tal que decidimos fundir esses dois estilos diferentes em nossa própria visão de música extrema”, explica Andrea.

Da cena italiana, ele aponta três bandas para os brasileiros: “Se eu tivesse de citar duas bandas italianas interessantes próximas do nosso estilo, eu citaria Necrodeath e Extrema, ambas lendárias e bem conhecidas mesmo fora da Itália. Outra banda que amo muito, de amigos meus, mesmo que não exatamente nessa linha thrash-death-groove-black é a Sadist, uma banda incrível de metal avant garde progressivo que eu sugiro que seus leitores ouçam, vale muito a pena”, afirma.

"(Mas) A cena metálica italiana é estranha, é cheia de bandas incríveis e e talentosas, bandas até bem conhecidas, como por exemplo, a Fleshgod Apocalypse, que está chegando forte no mercado mundial do metal. Mas também é muito pobre internamente, sem o apoio necessário da mídia, de selos, dos tomadores de decisão, de caça-talentos e totalmente sem locais para shows de médio porte, ou os requisitos técnicos mínimos nos locais de pequeno porte, enquanto os locais de grande porte só são usados para grandes nomes ou turnês internacionais ou festivais locais nos quais apenas os mesmos velhos nomes são escalados, por que as plateias são envelhecidas, com interesse apenas nas bandas old school, o que impede o desenvolvimento de uma nova e moderna", descreve.

Methedras, foto Silvia Belloni
"Todas essas considerações nos levam a conclusão de que não há um mercado alternativo sólido para nós, forçando-nos a tentar pousar em outros países e mercados na tentativa de encontrar interessados em nossa música, o que acontece na Rússia, Estados Unidos, Canadá, países do leste europeu e esperamos, também no Brasil", acrescenta.

Piores pesadelos

Com letras entre a política e o apocalipse, a banda parece ter bastante fonte de inspiração hoje em dia.

“Sim, você está certo, hoje parecemos experimentar uma descida mundial em direção aos nossos piores pesadelos, aqueles que a humanidade temia desde o fim da 2ª Grande Guerra: recessão econômica braba, falência política generalizada, instabilidade sistemática, reascenção dos velhos demônios do nazismo e do socalismo extremo e até mesmo o retorno de uma das piores pragas do passado, o maldito terrorismo, que não tem nada a ver com religião, em minha opinião”, afirma.

“É muita coisa sobre as quais escrever, temos fartura de inspiração para letras nos últimos 10 ou 15 anos, desde o 11 de setembro. Mas será que tudo é mesmo como vemos na mídia? Ou será que a mídia faz tudo sob medida? E quem diz à mídia o que arranjar e mostrar às massas?”, desconfia Andrea.

"Bem, não quero parecer um apoiador de teorias de conspiração ou contra o sistema, mas pessoalmente não acredito que toda essa merda acontece ao mesmo tempo assim, parece  mais que algo ou alguém está conduzindo uma espécie de guerra interna oculta em nível mundial para interesses privados. Porque? Essa é a pergunta mais importante do século, talvez do milênio, pergunta que os analistas políticos, sociais e econômicos devem responder rapidamente no interesse de manter o mundo um lugar que as pessoas de fato conheçam e possam continuar vivendo. Caso contrário, melhor nem imaginar esse segundo cenário", teoriza.

Voltando à música, Andrea conta que já excursionou até pela Rússia com bandas brasileiras de heavy metal. "Claro, além do Sepultura conhecemos outras bandas brasileiras, como Angra, Nervosa (para a qual abrimos um show na Rússia em 2015), Nervo Chaos, Torture Squad. Não conhecemos muito mais devido a estarmos milhares de quilômetros distante, mas graças a tecnologia e ao fato de estarmos tentando aparecer no mercado internacional, estamos em contato com bandas brasileiras mais do que nunca, o que nos permite conhecer mais a cena".

Sobre o estilo "in your face" moderno do Methedras, Andrea reflete que ele vem sendo depurado ao longo dos anos. "Achamos nosso som próximo do som dos ícones do death e do thrash, considerando que amamos bandas como Testament, Slayer, Megadeth, Metallica inicial, Overkill, Anthrax, Exodus, At The Gates, In Flames inicial, The Haunted, Soilwork, Hatesphere, etc. Todas elas nos inspiraram profundamente desde o início de nossos anos de atividade. Então sentimos a necessidade de mudar algo em nosso som já que não queríamos ficar presos ao passado, evitando o selo 'old school', já que tudo isto já foi feito, a despeito de amarmos esses trabalhos. Como artistas contemporâneos vivendo nesta era, é minha opinião que devemos seguir adiante e tentar fazer algo diferente, algo mais novo, moderno e alinhado à nossa época. É por isso que você ouve teclados sob a parede de som feita de guitarras, baixo, bateria e vocais, é só um tempero de elementos modernos (não tão pesados) que poderiam abrir nosso som e desenvolve-lo até um novo patamar. Pelo menos, é isso que buscamos, ao adicionar alguns samples sublinhando nossas canções mais recentes", conclui.

Warm up Festival Bigbands 2017, com Methedras, Old Chaos e Aphorism / Sábado, 22 horas,  Dubliner’s Irish Pub / R$ 20 / www.methedras.com



NUETAS

Água Suja da boa

Nunca é demais lembrar: a banda Água Suja, formada por músicos veteranos da cena blues / rock, segue fazendo sua jam semanal gratuita toda quarta-feira no Dubliner’s, sempre às 22 horas.

Renata loves Bob 

Sexta-feira tem o tradicional tributo ao Bob Marley Three Little Birds, com a cantora Renata Bastos e banda na Commons. 22 horas, R$ 15 (lista amiga) ou R$ 20 (na porta).

Maria Bacana show!

A sensacional e rediviva Maria Bacana faz show para ajudar a arrecadar fundos para a gravação do disco de retorno. Domingo, matinê no Groove Bar, com as bandas Gravata de Vidro e Dom Sá: 15 horas, R$ 15. E colabora lá no www.catarse.me/mariabacana2017!

segunda-feira, junho 05, 2017

GÊNIO EM REVISTA

Mostra:  Tom Zé 80 Anos abre nesta quinta-feira na Caixa Cultural homenageando vida e obra do artista baiano que conquistou o mundo

Tom Zé chutando à esquerda... Foto André Conti
O estimado leitor veja como são as coisas. Nos idos do início dos anos 1950, ninguém apostava um tostão furado no então adolescente Antônio José Santana Martins, “tido como futuro delinquente”, como ele mesmo lembra, por telefone.

Pois bem, nesta quarta-feira, uma exposição na Caixa Cultural será inaugurada para celebrar e homenagear vida e  obra deste artista baiano de primeira grandeza.

Intitulada Tom Zé 80 Anos, a mostra, que tem sua primeira montagem na Bahia natal do gênio de Irará, reúne obras gráficas, digitais e interativas que ilustram sua trajetória.

Com curadoria do designer e produtor de mídia interativa André Vallias e idealizada pela produtora e cantora Bete Calligaris, a mostra ainda traz a instalação Estudando o Sampler, criada pelo coletivo Sangue no Silício, de Cachoreira.

Inspirada na trilogia tomzéniana Estudando o Samba (1976), o Pagode (2005) e a Bossa (2008), a atração transforma uma sala inteira em sampler, ativado pelos movimentos dos visitantes por meio de um sensor.

A cada item da exposição, textos do antropólogo e historiador  Antônio Risério iluminam o visitante.

“Eu já conhecia Bete, mas me surpreendi com essa equipe tão sofisticada!”, admira-se Tom Zé. “O Risério! Que luxo! Parece que sou um grande astro!”, gargalha.

“Mas eu e Neusa (esposa) ficamos admiradíssimos. A gente já conhecia o Risério, claro, mas o Valias foi um verdadeiro achado”, elogia.

De partida para os Estados Unidos, onde fez show sábado na prestigiada BAM (Brooklyn Academy of Music, Nova York), ele garantiu que estará na abertura da mostra: “Claro que vou, com grande alegria”.

"O cartaz (do show no BAM) apareceu um mês atrás, o David Byrne botou uma coisa no site dele convidando os amigos, o Tom Cavalcanti filmou o cartaz lendo o que tava escrito, comentando, os ingressos estão esgotados, uma maravilha", comemora.

“Mas soube que vem um ônibus de Irará (para a abertura da mostra), com Roberto Martins, Antonio Luiz, o presidente da banda de música, que agora me escapa o nome”, diz.

Meio nostálgico, ele passa a desfiar um rosário de nomes entre parentes, vizinhos e amigos (alguns conhecidos) e suas histórias.

“A principal emoção dessa exposição para mim é encontrar as pessoas, como Mestre Pastinha, que claro que já morreu, mas foi meu professor nos anos 50, depois conheci Gildo Alfinete e Roberto Satanás, e nos anos 60, com Pastinha já aposentado, fazíamos shows na casa dele, no Pelourinho, para os turistas. Os meninos dançavam capoeira, eu cantava aquelas músicas completamente loucas (risos) e aí passávamos o chapéu e dividíamos o dinheiro com Pastinha”, lembra.

“Então, além de rever Alfinete e Satanás, quero rever também o (José Carlos) Capinam e o pessoal do CPC (Centro Popular de Cultura) com quem trabalhei muito tempo – enquanto o CPC existiu, até 1964, quando a ditadura jogou tudo fora”, lamenta.

“Não sou gênio”

...Tom Zé chutando à direita. Foto André Conti
Aquela história de “futuro delinquente” lá do primeiro parágrafo se refere à essas lembranças: “Quero conviver com a lembrança de professores que salvaram minha vida nos anos 50. Os professores Belmira Santos e Armando Bahia Monteiro salvaram minha vida. Porque  em casa eu estava tido e tomado como futuro delinquente, e essas criaturas fizeram eu me apaixonar pelos estudos”, conta.

“Uma curiosidade é que eu era de família comunista e Dr. Armando era de família integralista! (risos) E ele nunca soube! Não é que eu escondesse, mas acredito que ele nunca soube”, diverte-se.

"Cheguei aí (em Salvador) em 1950, para fazer o ginásio. Salvador tinha 450 mil habitantes, já pensou? Quando passava um carro na rua você dizia "Lá vai Doutor Fulano para o hospital", ri Tom Zé.

"E meus colegas do seminário, Fernando Cerqueira, Jean Maria Oliveira, que foram de minha turma e juntos vermos as coisas, a própria exposição, e juntos prantearmos a ausência de (Ernest) Widmer e (Michael) Kollreuter, que foram grandes, e com outros professores, formaram uma das melhores escolas de música do mundo, onde tivemos o privilégio de nos formar. E depois meus parentes, meu irmão Augusto, que está muito recolhido. Tia Luiza, tia Nila, tia Wanda! E sim, receber o publico que viu os primeiros shows desse grupo e foi o nascimento do Tropicalismo no Teatro Vila Velha. Minha tia Gilka, que me tirou de Irará para vir seguir a carreira de compositor, porque eu tava ficando lá, morando lá tinha até uma loja lá e minha tia conseguiu que minha irmã Margarida consentisse que eu fechasse a loja para vir à Salvador. Renatinho, meu amigo dos Barris, já em 56, 57, nunca mais vi Renatinho", lamenta.

"Ver essas pessoas todas e avaliar esse mistério que é o tempo passando e gente continuando amigos e gente com saudade uns dos outros. E Nemésio Sales, Geraldo Sarno (cineasta), inclusive essa semana fiz uma música para um filme dele aqui em São Paulo. Morávamos em um só apartamento eu, Nemésio que era secretário-geral do Partido, e Zé Alberto Bandeira que era o atual secretário do Partido Comunista! (risos) Então, essas pessoas, eu tenho muita saudade. E tenho muita gratidão! Por que eu era muito tímido, nossa senhora, minha vida era um horror! Imagine, eu que era muito tímido, fui para o palco! (risos) Essas, as contradições mesmo", admira-se.

Na mostra, outra atração será alguns instrumentos criados por Tom Zé, a maioria deles inventado nos anos 1970. "Sim, criei antes de Estudando o Samba. Eles foram lançados no Teatro do GV, cerca de 1972 que fiz um disco, que não tinha nada a ver com isso, Correio da Estação do Brás. Tanto que o diretor da (gravadora) Continental, o Cesare Benvenutti, não queria ir. Aí no último dia botei até parente meu para tomar conta da filha dele que estava doente, ele foi no último dia, ele ficou vermelho, com a felicidade, me abraçou, quis levar o negócio adiante, quis refazer os instrumentos com mais cuidado. Agora os instrumentos já estão numa terceira geração, que foram modernizados, simplificados, em tamanho menor e com mais recursos, as buzinas agora podem fazer dinâmicas, podem fazer glissandos. Toda aquela parafernália agora se tornou um simples aparelhozinho, que não dá nem para fazer fotografia", relata.

"O instrumento das enceradeiras, não era ligar as enceradeiras que era o barato. Eram colocados microfones de contato, que tinham nascido naquele tempo, que vinham para uma mesa e os instrumentos eletrodomésticos naquele tempo eram de metal. Então, quando ligava, gerava uma vibração de metal em vários lugares diferentes, dava vários sons diferentes no próprio aparelho. A gente puxava para uma mesa e aí quando o público vinha a gente selecionava as coisas com os efeitos, não era um simples motor tocando. Mas as buzinas era o contrário. Se o lugar, o teatro fosse pequeno, derrubava o teatro! (risos). Não, não tinha influência de Smetak, por que nasceu por causa de outra coisa. Um dia a Neusa me mandou consertar uma enceradeira quebrada. Aí eu vi que um dos defeitos era que, quando você acionava o motor, ela disparava. Quando você soltava, ela parava imediatamente. Aí eu, ô! (admirado) Não ficava com aquele decrescendo longo. Ela parava imediatamente. Pensei: isso é um instrumento musical. Aí peguei uma outra velha e tentei remodelar para ficar como aquela. E aí fiz um instrumento com vários utensílios de casa. Lembro das reportagens que saíram na época: "A cozinha vai para o palco", diverte-se.

Artista que não tira férias, ele conta estar “sempre pensando no próximo disco. Eu trabalho dia e noite nisso. Não se se consigo fazer para este ano ou para o ano que vem. Mas tem uma expressão que fala aí na Bahia que diz que 'Mulher que fala muito perde logo o seu amor'. E em música é assim mesmo. Se você fala, você mata o disco. Não sou gênio, que chega em casa, faz uma música e o público canta o ano todo. Não, eu faço música por cognitivo, não por contemplativo. E  faço com dificuldade, elaborando, errando e tal”, ensina, humilde.


E aí, Tom Zé: Diretas Já? "Claro! Todo mundo tá diretas já e fora Temer e todo mundo é perseguido pelos direitistas de plantão, que não sei porque viraram a cabeça e passaram a apoiar Temer. Não sei que diabo tem na cabeça deles", conclui, reflexivo.

Exposição Tom Zé 80 anos / de 8 de junho a 6 de agosto, das 9h às 18h, de terças-feiras a domingos / CAIXA Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro) / Entrada franca

quinta-feira, junho 01, 2017

50 ANOS LIDERANDO A BANDA

Memória: 1º de junho de 1967: os Beatles lançavam Sargeant Pepper’s, Lonely Hearts Club Band, o disco de rock que mudou o rock – e, de quebra, a cultura ocidental

Na Magical Mystery Tour (1967). Parlophone Music Sweden / Wikicommons
Na história do rock, nunca  houve um ano como 1967.

Foi o ano em que o rock, sintonizado com as revoluções políticas e comportamentais que vinham em curso desde a década anterior, deixou, de uma vez por todas, de ser apenas música (e rotulada como  vulgar), para se firmar como grande arte, comportamento, política, estética, comentário social, revolução de costumes.

Nesse contexto, em 1967 foram lançados álbuns que até hoje são considerados fundadores do gênero “rock” – em oposição ao primordial rock ‘n’ roll dos anos 1950, que até então só servia para balançar as ancas, promover quebra-quebra em cinemas e reafirmar o racismo norte-americano, que elegeu Elvis Presley como  “Rei” do ritmo, em detrimento dos negros que realmente o criaram, como Chuck Berry e Little Richard.

Foi em 1967 que vieram à luz obras-primas que ajudaram a modificar a própria cultura ocidental, como Are You Experienced? (estreia de Jimi Hendrix), The Piper at the Gates of Dawn (estreia do Pink Floyd), Their Satanic Majesties Request (Rolling Stones), The Velvet Underground and Nico (estreia da banda que revelou Lou Reed), The Doors (primeiro da banda de Jim Morrison) e outros.

Mas o que melhor cristalizou o momento foi mesmo  Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles.

Outras vibrações

O Studer J37 4 pistas usado nas sessions. Josephenus P. Riley, Wikicommons
Superlativo, Sargeant Pepper’s reúne tantas informações, marcas e anedotas que livros e documentários já foram produzidos para investiga-lo e ainda assim, não cobriram tudo.

Consta que a ideia inicial partiu de Paul McCartney, que sugeriu ao produtor George Martin que o próximo álbum dos Beatles não seria “dos Beatles”, mas sim da Banda do Sargento Pimenta, uma filarmônica de coreto fictícia, mas parecida com muitas que ainda se apresentavam nas praças  do countryside inglês.

A sugestão de Paul se explica: em 1966, os Beatles estavam fartos de ser os Beatles. A banda havia desistido de fazer shows devido, entre outros fatores, à histeria das fãs, que berravam do início ao fim das apresentações, impedindo até os próprios músicos de ouvir o que estavam tocando.

Em outra vibração desde que conheceram Bob Dylan, a maconha, o LSD e o guru indiano Maharishi, os Fab Four queriam que sua música fosse de fato ouvida – e queriam ser respeitados como artistas e não mais como ídolos teen.

Não a toa, os dois álbuns anteriores dos Beatles, Rubber Soul (1965) e Revolver (1966) já apontavam para uma virada criativa na música da banda, que se tornava mais reflexiva, psicodélica e elaborada.
 Sargeant Pepper’s radicalizou essa tendência.

Nele, o quarteto, brilhantemente auxiliado por Martin e o engenheiro de som Geoff Emerick, incorporou diversos elementos até então estranhos à produção de um disco de rock, como instrumentos indianos (Within You Without You), cravos renascentistas (Fixing A Hole), fitas em reverso (Being For The Benefit Of Mr. Kite!), sons de animais (Good Morning Good Morning) e música erudita moderna (A Day In The Life).

Nas letras, Lennon & McCartney surgiam inspirados como nunca, fazendo a crônica de uma Inglaterra que vivia entre o provincianismo secular (Lovely Rita) e a modernidade do pós-guerra, com uma juventude que começava a despertar para a revolução de costumes (She's Leaving Home).

Depois de Sargeant Pepper’s, nada foi como antes – a começar pela dupla Lennon / McCartney, que teve no álbum sua última parceria de fato.

O pacotão comemorativo dos 50 anos lançado pela Apple / EMI
Dali em diante, eles apenas dispunham suas assinaturas juntas, mas já não compunham em conjunto. Resta a obra-prima, testemunho definitivo de uma época que parece não ter terminado.

Sargento na Bahia

Como esperado, a indústria marca a ocasião com seu habitual pacote de luxo, contendo o álbum original remasterizado, versões demo, livro, poster e outros badulaques.

Vale registrar também que, através de uma conjunção astral que só ocorre a cada mil anos, o cinquentenário coincidiu com a vinda de Paul McCartney à Salvador para um show em outubro.

Macca, como se sabe, está homenageando o Sargeant Pepper’s tocando algumas canções do álbum nos shows desta turnê, como a faixa-título, A Day in The Life e Being For The Benefit of Mister Kite!.

Quem diria que a Bahia faria parte da festa do Sargento Pimenta...

terça-feira, maio 30, 2017

DE VITÓRIA DA CONQUISTA, COLETIVO SUÍÇA BAIANA LANÇA SELO PIRIPIRI, MOSTRANDO A FORÇA DOS ARTISTAS LOCAIS

A rapaziada do Suíça Baiana no Bananada, em Goiânia. Ft Lhaisy Ferraz
Criado há oito anos em Vitória da Conquista, o Coletivo Suíça Baiana tem agitado a cena independente local desde então, com a realização de shows, festivais, palestras e workshops.

Agora, eles dão mais um passo importante ao lançar um selo fonográfico, o Piripiri (nome da serra vizinha à cidade).

Na estreia, o selo já lançou duas obras: o álbum Divino e Ateu, do cantor Achiles (ex-Caim) e o single Pode Crer, do duo Hotel Mambembe, ambos já disponíveis para download e / ou audição.

O lançamento foi em grande estilo, durante o festival Bananada, em Goiânia, um dos mais importantes do circuito indie brasileiro, ação viabilizada pelo edital de Mobilidade Artístico-Cultural (SecultBA).

“O lançamento em Goiânia foi de extrema importância para reconhecer território e dialogar com outros agentes culturais no país”, conta Tayná Protasio, gerente do Piripiri.

“Somos novatos nesta área, então buscamos aproveitar o máximo a oportunidade de estar no Festival Bananada para conhecer como atuam os outros selos e firmar parcerias. Já obtivemos ótimos resultados desde então”, acrescenta.

Inicialmente voltado para a cena conquistense, a ideia é que, futuramente, também possa atender outros artistas do Sudoeste baiano.

"O selo não tem um perfil específico de som. Estamos abertos a todos os gêneros musicais. Nesse momento inicial, optamos por trabalhar apenas com artistas de Vitória da Conquista. Porém, temos a intenção de futuramente ampliar estes horizontes para a região sudoeste da Bahia", afirma Tayná.

"Os artistas locais sempre tiveram a necessidade de um selo mais amplo, que não fosse de uma cena muito específica, como o caso dos outros dois que são bem ativos na cena local, o Mofaya, que trabalha com o hip hop, e o Tosco Todo, com foco no punk. Já que neste período de atividade do coletivo este selo sonhado não surgiu, então resolvemos topar mais essa missão, até pro nosso trabalho com a produção de eventos ter mais impacto, com uma cena local mais fortalecida com este suporte", acrescenta o produtor Gilmar Dantas.

Com o selo, também se espera uma maior integração de de artistas, selos e produtoras no território baiano - ainda que o próprio Gilmar lembre que a tarefa não é nada fácil.

“É muito difícil a integração num estado tão grande como a Bahia. Nem o próprio Governo consegue dar conta. Nosso selo nasce agora, mas creio que naturalmente vai conseguir se integrar mais com selos de Salvador, que tem em Rogério BigBross uma liderança importante, que vem buscando essa integração”, afirma o produtor Gilmar Dantas.

Conquista conquista

O primeiro álbum do Achilles (ex-Caim) saiu pelo Piripiri. Foto Brenda Matos
Cidade conhecida pelo clima agradável de serra, Conquista ainda tem muito a oferecer à Bahia e ao mundo, garante Gilmar.

"Da nossa parte, como Coletivo Suíça Bahiana, estamos sempre buscando integração. Temos dois projetos mensais de intercâmbio, as Noites Fora do Eixo, que já está na sua 75ª edição, e os Retiros Autorais, projeto idealizado por Achiles, que tem sido um ponta de lança muito importante do nosso selo, pois todo mundo quer cantar com ele. Já dividiu o palco com Márcia Castro, Larissa Luz, Helio Flanders (vocalista do Vanguart) e no próximo dia 15 de junho receberá Roberto Mendes e João Mendes como convidados”, conta.

“A própria cidade de Vitória da Conquista já é um mega atrativo. Todo mundo quer tocar aqui. A cidade tem um mercado musical excelente, com um público que adora novidades, vários eventos e festivais. Essas características atraem muitas bandas, mas ainda temos muita dificuldade em exportar nossos artistas”, afirma.

Nos próximos meses, o Piripiri vai dar continuidade à sua agenda de lançamentos, como conta Tayná.

"A banda Hotel Mambembe vai lançar outros dois singles no segundo semestre: "Um Tango na Cabeça" e "Ninguém é de Ninguém". As canções farão parte do EP que será lançado no final do ano, o "Pode Crer", que também dá nome ao primeiro single da banda, divulgado recentemente pelo PIRIPIRI. Outros artistas do selo estão em processo de gravação, sem previsão de lançamento, como Marcus Marinho (que foi parceiro de Achiles no duo CAIM), Ana Barroso, a banda Ciclanos de Tais e Marx Eduardo (ex-Os Barcos)", conclui.

www.coletivosuicabahiana.com.br



NUETAS

Santa Java e Basa

O cantador e poeta Maviael Melo: Varanda do Sesi
Santa Java e Banda Basa fazem o  Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, pague quanto puder.

Maviael na Varanda

Maviael Melo, Camyla Pereira e Carlos Vilella se apresentam na Varanda dos Cantadores, evento mensal de cultura popular. Quinta-feira,  21h30, na Varanda do SESI, R$ 30.

Buk Porão faz festa

O Buk Porão Bar faz aniversário de dois anos com três dias de shows: sexta-feira, sábado (19 horas) e domingo (14 horas). Vai ter Metropolys (sex), Modus Operandi (sáb), The Honkers, Antiporcos (dom) e outras. R$ 5.

sábado, maio 27, 2017

VAZAMENTO DE MICRO-RESENHAS

Hard revival

Coletânea de bandas brasileiras de hard rock oitentista, que buscam revitalizar o gênero: Marenna (RS), Adellaide (SP), Fair Off (SP), Vallet (SP), Hot Foxxy (PR) e Trigger, de Salvador. Prato cheio para apreciadores. Como dizia aquele comercial, “o sucesso”. Vários Artistas / Road Songs Collection / Independente / R$ 20







Choro 21

Os irmãos Pedro e Paulo Ramos formam este excelente trio de choro com o baterista Diego Pereira. Aqui, joias que levam a gloriosa tradição do choro para o século 21 e garantem sua imortalidade. Brilhante. Trio Choro Moderno / Bolo de Fubá / Independente - Tratore / Preço não divulgado






Roots pop

O reggaeman mineiro Ben Roots manda bem em seu terceiro álbum. Boa novidade para quem curte som na linha Ponto de Equilíbrio ou Planta & Raiz, competente no que se propõe: reggae de pegada pop, good vibes. Sotaque forte. Ben Roots / Ben Roots / Independente / Baixe: www.benroots.com






Fuleirage de primeira

O primeiro álbum do duo alagoano de lambada hipster Figueroas até que é divertido e muito bem produzido – Dieguito Reis da Vivendo do Ócio toca bateria. É tudo muito simples, mas eficiente. Nota dez em fuleiragem. Figueroas / Swing Veneno / Laja Records - Deck Disc / R$ 27,90 / LP: R$119,90







O futuro do jazz

Residente em Nova York, o guitarrista brasileiro Ricardo Grilli mostra nesta álbum por que vem sendo considerado uma revelação do jazz por veículos como NY Times e Downbeat. Som de gente grande, sem concessões e referências claras aos mestres. Ricardo Grilli / 1954 / Tone Rogue Records / Preço não informado







Levanta-te e anda

Autora da série da HBO True Blood, Charlaine Harris faz parceria com o romancista Christopher Golden  e o desenhista Don Kramer para criar sua nova heroína, Calexa Rose, uma menina que acorda desmemoriada em um cemitério. A Garota do Cemitério: Livro 1 / Charlaine Harris, Christopher Golden e Don Kramer / Valentina / 128 páginas / R$ 49,90






X-Men alternativos

Derivado da série de fantasia O Lar da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, este livro traz dez contos protagonizados por alguns personagens da saga, compilados por outro: Millard Nullings, o fleugmático menino invisível. Estrambótico e divertido. Contos peculiares / Ransom Riggs / Intrínseca/  208 páginas/ R$ 44,90/ E-book: R$ 24,90







Romance geracional

Considerado um dos maiores nomes da literatura latina das últimas décadas, o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) escreveu este livro nos anos 1980. Narra o dia a dia de dois jovens poetas na Cidade do México, nos anos 1970. O espírito da ficção científica / Roberto Bolaño / Companhia das Letras/ 184 páginas/ R$ 39.90 /  E-book: R$ 27,90







Dubman rises

Baterista da IFÁ Afrobeat, Jorge Dubman lança  trabalho solo com direito a versão em fita cassete pelo selo norte- americano 77 Rise. Hip hop instrumental com muita colagem e scratches. Cool, viajandão. Dr. Drumah / 90’s Mindz / 77 Rise / Ouça: www.77riserecordings.bandcamp.com







Som animal

A trilha sonora da  animação Sing é uma festa pop sem reservas. Tem clássicos 60’s (Gimme Some Lovin’), jazz (Let’s Face The Music and Dance), versões (fraquinhas) de hits de Stevie Wonder, Elton John e por aí vai. Vários artistas / Sing - Quem canta seus males espanta (TSO) / Universal / R$ 27,90







Categoria de veteranos

Formada por membros destacados da resistente cena HC local, a Rosa Idiota lança primeiro álbum com categoria de banda veterana. Quem curte Hüsker Dü e similares vai se amarrar. Ouça: Circle, See You There, Big Days e Fastio. Rosa Idiota / Circle / www.rosaidiota.bandcamp.com







Daddy issues

Autor da ótima Sweet Tooth - Depois do Apocalipse (Vertigo - Panini), Jeff Lemire tem mais esta bela HQ lançada no Brasil. Soldador subaquático em uma plataforma de petróleo no Canadá, Jack se depara com algo estranho no fundo do mar. Real? Alucinação? Suspense e drama familiar em trama algo surreal. O Soldador Subaquático / Jeff Lemire / Mino / 224 páginas / R$ 59,90







Mommy issues

Nascido e criado em uma prisão de segurança mínima no Nebraska, onde sua mãe cumpre pena, Perry Cook é retirado de lá aos 11 anos, contra sua vontade, para morar com a família do promotor local. A partir daí, ele cumpre sua jornada para descobrir porque a mãe foi presa. Todos de Pé Para Perry Cook / Leslie Connor / Harper Collins/ 288 p./ R$ 34,90







Manchas no branco da Casa Branca

Badalado thriller político / policial sobre o desaparecimento da filha de um senador norte-americano. Dez anos depois, já  vice-presidente dos EUA, ele contrata um hacker e ex-marine para o caso. Conforme as investigações avançam, o lamaçal de corrupção chega mais perto da Casa Branca. Morte Lenta / Matthew FitzSimmons / Faro Editorial/ 320 páginas/ R$ 44.90

terça-feira, maio 23, 2017

MÚSICA DE QUINTA NA CASA D'A OUTRA

Grupo A Outra Companhia de Teatro dialoga com o Politeama com Música de Quinta

A rapaziada do Música de Quinta, foto Andrea Magnoni
Não conta pra ninguém, mas o colunista curte musicais. Tipo de teatro, sabe?

Daí ter gostado da proposta do grupo (atenção para as atribuições) “cênico-musical-performático” Música de Quinta, que promove espetáculos de música na Casa d'A Outra, espaço da A Outra Companhia de Teatro.

O grupo tem Roquildes Júnior na direção musical e  cordas (guitarra, violão).  Anderson Danttas, Eddy Veríssimo, Gabriel Carneiro, Moisés Rocha, Israel Barretto, Luiz Antônio Sena Jr. e Thiago Romero se revezam na percussão, sanfona, triângulo, gaita, violino, escaleta etc.

Nesta quinta, estes animados trovadores ainda recebem a participação do grupo de drag queens da  Casa Monxtras: Malaika SN, Mamba Negra e Frutífera Ilha.

“O Música de Quinta surgiu com dois objetivos: o primeiro era ampliar a pesquisa musical que o grupo vinha desenvolvendo e influenciam diretamente na poética da companhia”, conta Roquildes.

“O segundo foi a ideia de promover uma ação artística que dialogasse com o bairro do Politeama, sendo uma ação importante do Movimento Poli-Te-Ama (movimento criado pel'A Outra Companhia de Teatro em 2014 com o objetivo de provocar o olhar da cidade para esse bairro que já foi tão importante culturalmente para Salvador e que hoje vive um ostracismo cultural, sendo muitas vezes negligenciado pelo poder público). Aos poucos fomos nos apresentando no Calçadão do Politeama, na frente da Casa da Outra, foi juntando gente, começamos a ser convidados para nos apresentar em outros lugares tocando em festas, eventos privados, e hoje o Música de Quinta é mais uma ação artística no repertório do grupo”, acrescenta.

Esse movimento, criado pelo grupo para tentar revitalizar o bairro, inicialmente sofreu a resistência dos vizinhos. Os shows, que começaram na calçada, acabaram interrompidos.

“O Música de Quinta na verdade surge para estabelecer esse diálogo com o bairro do Politeama. Quando chegamos lá, A Outra Companhia, era difícil a relação com os moradores que não entendiam muito bem nossa rotina em meio ao complexo comercial que estamos inseridos (Edifício Centro Comercial Politeama) e por isso não se agregavam as nossas atividades. Por outro lado, as pessoas que nos conheciam de antes e de outros bairros não frequentavam nossa nova sede porque diziam que o bairro era violento. Ai veio o estalo: a música em qualquer lugar é uma linguagem aglutinadora, a gente toca em cena, temos instrumentos e equipamentos de som, vamos colocar as coisas no Calçadão e tentar fazer um som pra chamar a atenção das pessoas, dizer quem somos e tentar trazer um pouco mais de vida pra esse lugar que esta sendo só uma zona de passagem, um lugar onde as pessoas não se enxergam, não convivem. Surge ai o Movimento Poli-Te-Ama - numa tentativa de criar um espaço onde as pessoas do bairro pudessem se afetar e pouco a pouco fomos percebendo miúdas transformações no que tange a sociabilidade do entorno. Os comerciantes foram tornando-se nossos parceiros, os moradores começaram a nos visitar”, conta Luiz Antônio Sena Jr.

"Mas nem tudo são flores e como levantamos o discurso contra homofobia, racismo, invisibilidade social... fomos atraindo públicos muito diversos dentre eles travestis e moradores de rua recebidos com todo encanto como qualquer outra pessoa afim de curtir nosso som, mas alguns moradores sentiram-se feridos e começamos a ser alvejados por denúncias que fizeram com que parássemos os shows por cerca de 06 meses até voltarmos aos poucos, mas agora ao invés de fazermos na rua, temos convocado as pessoas de fato para dentro de nossa sede, porque ai recebemos quem se afina com nossa arte para além dos padrões sociais, econômicos e políticos. Ai estão inclusos os moradores do bairro, os comerciantes parceiros, os gays e travestis, quem quer chegar na Casa d'A Outra pra ser De Quinta com a gente", acrescenta.

Liberdade aos afetos

Em cena na Casa da Outra, foto Andréa Magnoni
No repertório, o grupo explora o que há de mais moderno na música popular: Liniker, Jaloo, Céu, Phil Veras, As Bahias & A Cozinha Mineira.

“Sim, fazemos releituras, mas também temos algumas composições. O repertório é feito a partir do tema. Sempre escolhemos um eixo que pode ser um "estilo" como rock dos anos 80, carnaval baiano, bossa nova, samba ou um assunto como nesse próximo show: liberdade aos afetos! Daí revisitamos, cada um, o seu baú de referências musicais, compartilhamos e vamos pra sala ensaiar, algumas músicas acabam caindo, outras são fundidas e nesse caminho percebemos onde os textos entram, qual sua "função" e passamos a escrita construindo uma narrativa / roteiro”, conta Luiz.

Específico para esta edição o repertório dialoga com a participação das drag queens da Casa Monxtras, nota Luiz Antonio.

"Nessa edição traremos canções de uma cena musical mais alternativa, dita até marginal, de protesto, numa tentativa de convocar o público a enxergar esses artistas que pouco a pouco tem invadido o cenário de modo nacional, criando uma linguagem mais teatral, arriscada nos questionamentos, validando os afetos, como a Liniker, o Phil Veras, o Jaloo. Nesse sentido as meninas da Casa Monxtra estão completamente mergulhadas, porque fogem do padrão de drag, apresentando performances onde a beleza está no que é considerado estranho e as dublagens são de músicas pouco populares, questionando os padrões instituídos socialmente como ideais onde negros, pobres, gays não se reconhecem", percebe.

Em breve, o grupo poderá fazer um espetáculo inteiro com repertório autoral, sinaliza Roquildes.

"Já fizemos algumas canções autorais nos shows, mas tratamos isso de maneira muito natural, sem uma pressão para a composição. Como somos do teatro, o show é sempre muito atravessado por textos, depoimentos, poemas, narrativas, que normalmente tem a ver com a temática do show e são escritos por Luiz Antônio Sena Jr., Thiago Romero, Anderson Danttas, Roquildes Junior. Esse material sempre é acompanhado por uma textura musical, se valendo bastante das estratégias de música para teatro, como se fossem cenas. Aos poucos esse material vai se repetindo, se estruturando, ganhando corpo, virando canção e entrando no repertório. Mas ainda não fizemos um show inteiro autoral. Tá aí uma boa ideia para um próximo show", afirma.

Roquildes também planeja um registro audiovisual para o trabalho: "É um desejo. As pessoas sempre cobram um registro, principalmente desse material mais autoral que fica no limite entre trilha e canção, que são textos musicados ou mesmo os que assumem uma estrutura de canção mesmo. Ainda não temos um projeto para fazer a gravação desse material, mas temos um desejo grande de gravar principalmente em audiovisual, por que como somos do teatro o show acaba sendo mesmo uma experiência ou de habitar as rua do Politeama a noite (um lugar que não é muito comum de ter um grande fluxo de pessoas após às 18 horas), ou na nossa sede, na qual o show assume um formato mais íntimo, olho no olho, quase uma confissão. Seria possibilidades interessantes de registrar esse trabalho. A ideia é fazer isso em breve", conta.

Selecionado pelo Edital de Apoio a Grupos e Coletivos (SecultBA), o Música de Quinta promete continuar com os shows ao longo do ano.

Música de Quinta #02 / Com participação das drag queens Casa Monxtras / Quinta-feira, 19 horas / Casa d'A Outra (Rua Politeama de Cima, 114, Centro Comercial Politeama) / Pague Quanto Quiser

NUETAS

Flamingo e Conjunto

Flerte Flamingo e Conjunto Estofado fazem a Noite NHL no Quanto Vale o Show? de hoje. 20 horas, Dubliner’s, pague quanto puder.

Atos, Rosa e Devaz

Menores Atos, Rosa Idiota e Devaz fazem matinê sábado. Dubliner’s. 16 horas,  R$ 15.

Irmão, Búfalos, Elefantes e Maus Elementos

Irmão Carlos, Búfalos Vermelhos & A Orquestra de Elefantes e Maus Elementos fazem o show da 3ª edição do projeto Incubadora Sonora. Viabilizado pela SecultBA (Fundo de Cultura), a Incubadora visa a profissionalização de artistas independentes. Sábado, 22 horas, Portela Café, R$ 5.

segunda-feira, maio 22, 2017

O PODEROSO NEIL

Neil Gaiman investe na Mitologia Nórdica. Desta feita, sem modernizar nada

Odin, O Andarilho. Obra de Georg von Rosen, 1886
Tornado amplamente conhecido pelo grande público desde os anos 1960 ao ser incluído pela Marvel Comics em seu elenco de super-heróis, Thor, o Deus do Trovão, é parte de um panteão de deuses muito antigos, adorados por séculos nos países escandinavos.

Em Mitologia Nórdica, o aclamado escritor inglês Neil Gaiman (Sandman, Deuses Americanos) vai na raiz desse imaginário para recontar suas principais histórias.

Fabulista convicto e narrador de sensibilidade poética ímpar, Gaiman é certamente o melhor nome atual para esta tarefa.

Até pela seu antigo fascínio pelo tema. Nas suas duas obras anteriores citadas, personagens como Odin (o Pai de Todos, deus supremo), Thor e Loki (o príncipe das mentiras) já haviam aparecido, seja como um dos protagonistas (Odin, em Deuses Americanos,  atualmente uma série de TV exibida pelo serviço Amazon Prime), seja como coadjuvantes (Sandman).

Na apresentação do livro, Gaiman chama atenção para o fato de que essa mitologia panteísta quase desapareceu após a disseminação do Cristianismo pela Europa (e vale lembrar que o mesmo aconteceu na África).

Mal comparando, “É como se as únicas histórias conhecidas de deuses e semideuses da Grécia e da Roma Antiga fossem os feitos de Teseu e Hércules. Perdemos muita coisa”, percebe o autor.

Elementos fundadores

Odin ampara Brunhilda. Konrad Dielitz, 1892
Narrador de imenso apreço pela fábula, não é de hoje que Gaiman cria versões próprias e modernizadas de personagens clássicos como A Bela Adormecida e Branca de Neve (que se beijam, em A Bela & A Adormecida), João Pestana (entidade mítica do sono, recriado  em Sandman) etc.

Em Mitologia Nórdica, o inglês resiste à tentação da revisão modernizadora, atendo-se às narrativas consagradas há milênios.

Desta forma, Gaiman consegue enfeixar 15 contos (mais texto de  apresentação e glossário) em ágeis 288 páginas.

A leitura é um deleite, não apenas pelo sabor de fantasia clássica, mas também pelo texto apurado de Gaiman.

É como se ele estivesse tentando resgatar a arte há muito perdida da fábula, investindo em narrativas curtas, diretas e sem firulas, mas carregadas de significados.

Ele não tentou, como é tendência em muitos narradores modernos, “descomprimir” a narrativa, uma estratégia para esmiuçar nos mínimos detalhes contos clássicos (ou mesmo contemporâneos, como Star Wars), adicionando-lhes cada vez mais capítulos, sequências, prequels, spin offs e outros recursos atuais.

Em Mitologia Nórdica Gaiman faz um giro completo na saga dos deuses dos vikings, começando na criação da vida e terminando no fim do mundo, o chamado  Ragnarok.

No miolo, muitas aventuras estreladas, claro, por Odin, Thor e Loki, mas também por Balder (o mais belo e gentil dos deuses), Tyr (deus da guerra), Freya (deusa do amor), valquírias (que recolhiam as almas dos mortos em batalha), gigantes de gelo e fogo, gigantes de múltiplas cabeças, anões, elfos e todos os outros elementos fundadores que influenciaram a fantasia moderna, desde Tolkien (Senhor dos Aneis) até George R. R. Martin (Game of Thrones) e além.

Mas entre todos os (magníficos) contos, um merece destaque pelo esplêndido bom humor: O Hidromel da Poesia, no qual descobrimos de onde vem a poesia: a boa e a ruim – e por que esta costuma cheirar mal.

Mitologia Nórdica / Neil Gaiman / Tradução: Edmundo Barreiros / Intrínseca / 288 páginas / R$ 44, 90 / E-book: R$ 29,90

terça-feira, maio 16, 2017

O "PEACE PUNK MELÓDICO" DA suRRmenage

Power trio liderado por Arthur Caria (ex-Dead Easy) lança novo EP com show gratuito sexta

Arthur Caria, Mark Mesquita e Maynard Passos, foto Fernando Udo
Baixista veterano do hard rock em Salvador e no Rio de Janeiro, Arthur Caria (ex-Dead Easy e X-Rated) volta à cena com um novo trabalho de sua banda atual, a suRRmenage.

Headphoning Life é o título do EP de quatro faixas que a banda lança em pocket show gratuito nesta sexta-feira, inaugurando o evento Casarão Pocket, do novo e reformado Estúdio Casarão, de Candido Soto Jr. (ex-Cascadura).

Mais coeso e maduro do que the suRRmenage sessions (2009), o trabalho anterior, o EP é rápido e nada rasteiro, trazendo três composições inéditas e um resgate dos tempos do X-Rated, Moonshine.

“O novo trabalho é produto de uma banda tocando junto por mais de dois anos com a mesma formação”, conta Arthur.

“Além disso, o disco de agora é bem diferente do anterior em termos de letras, traz mais positividade (Ubuntu, Transition), esperança (Someday) e amor (Moonshine). O anterior trazia uma certa frieza poética e desesperança”, observa.

"À maneira do anterior, foi mixado e masterizado por Jera Cravo, hoje radicado no Canadá. E terá a distribuição da Trinca de Selos (#AquiTemRockBaiano). Tanto as músicas inéditas quanto a regravação que fizemos, buscam revisitar algo de um terreno sonoro que prezo muito, da minha adolescência aos 16 anos tocando punk-metal em bares da Pituba, na Residência Universitária da UFBA, ou nos recreios do Colégio Social, em 1987 com a banda Saci Monstro (com o hoje bluesman Celso Dutra e o vocalista Jorge Calvo)", detalha Arthur.

"O disco anterior (2009) vinha de um projeto amplo que envolvia outras áreas do conhecimento como literatura e ciência, mas que no final migrou para uma experiência poética pessoal minha, combinada musicalmente com alguns parceiros na gravação (Jera Cravo e Flávio Maranhão) e outros nas diversas jam sessions (como Jorge King Cobra, Maynard Passos e Igor Tavares para citar alguns à época)", observa.

Ladeado por Maynard Passos (guitarra) e Mark Mesquita (bateria), Arthur lança hoje mesmo, no You Tube, o clipe da faixa Ubuntu (dirigido e filmado por Fernando Udo), com letra sobre o conceito sul-africano de harmonia entre o indivíduo e o universo, rejeitando o narcisismo e o individualismo exacerbado.

“Juntando música e letra, o disco novo é uma espécie de peace punk (punk da paz) melódico”, ri o músico.

Uma curiosidade é a faixa Moonshine, do repertório da banda carioca de hard rock X-Rated, que ele integrou após a extinção da Dead Easy, de Salvador, e com a qual tinha ido ao Rio tentar a sorte no circuito rock do eixo Rio-SP.

Capa do EP, com pintura de Antonio, filho de Arthur, de 5 anos
"A música Moonshine é do disco Untold Story do X-Rated, que gravamos em 1994 no Rio de Janeiro, e que foi lançado via Tratore em 2010. Eu (baixo e backing vocals), Rodrigo Van Stoli Eymael (vocalista), o guitarrista Mark D.B. (ex-Azul Limão) e o baterista André Chamon (ex-Stress). Eu pincei Moonshine como um tributo ao X-Rated, mas também por ela se encaixar, com o novo arranjo, na proposta que pensamos para o EP Headphoning Life", conta.

Apesar do grande número de bandas do estilo, o hard rock no Brasil nunca foi muito popular, muitas vezes subestimado por público e crítica.

"Exatamente. Concordo. Tomando minha experiência pessoal com as bandas Dead Easy e o X-Rated, penso que os grupos de feição Hard Rock no Brasil sempre foram subestimados porque elas traziam (mais do que os outros estilos), elementos estranhos para um público que não estava - na época - pronto para consumi-los, características estéticas e musicais muito específicas. Sempre éramos muito elogiados pela crítica (que decifravam aquilo que fazíamos), e recebidos mornamente pelo público daqui", conta Arthur

Show intimista

Nesta sexta, vale dar um pulo no Casarão para conferir a performance deste afiado power trio. Mas se ligue: é bom chegar cedo.

“Vamos inaugurar o Casarão Pocket, um formato para a realização específica de pocket shows intimistas, concentrando-se na estética do micro-evento, do show íntimo com mini-plateia (máximo de 20 pessoas), idealizado também para o registro em vídeo e para a banda sentir de perto a reação do público”, conta.

"Em 2016 fizemos alguns pilotos desse formato com seis bandas baianas no Home Pocket da Clipoems Rock (com Fernando Udo, Cândido Martínez e Mark Mesquita) e foi algo bastante gratificante. A banda recepcionará os convidados com comes e bebes, exibição de vídeos da banda, músicas inéditas e antigas, e ao final, o pocket show na sala grande do Casarão. As pessoas presentes receberão o disco da banda gratuitamente", acrescenta.

"Eu criei o Clipoems como uma reunião de iniciativas audiovisuais experimentais sem fins lucrativos, estritamente de cunho artístico e científico. Já o Clipoems Rock é uma seção dessas mesmas iniciativas (Clipoems) que é dedicada à captação e à divulgação de trabalhos autorais, principalmente em rock and roll. Sempre realizadas de maneira colaborativa e compartilhada", acrescenta.

Lançado o novo trabalho, agora é fazer planos para prosseguir produzindo e tocando.


“Depois de meses concentrados na produção do EP, os planos são divulgar o  novo trabalho, tocar com mais frequência e produzir mais material. Temos inclusive novos singles que tocaremos em breve, antes mesmo de os gravarmos”, conta Arthur.

suRRmenage / Sexta-feira, 20 horas / Casarão Pocket (Av. Mario Leal Ferreira, 310, Bonocô Center, próximo à Estação Brotas do Metrô) / Gratuito / www.surrmenage.com

NUETAS

Jigsaw e Louder

Álvaro Assmar, foto Mauricio Requião
As bandas Jigsaw e Louder estão no Quanto Vale o Show? de hoje.  19 horas, Dubliner’s, pague quanto puder.

Álvaro aos sábados 

No sábado, o bluesman master Álvaro Assmar cumpre a terceira data de uma temporada de quatro noites na Varanda do  Sesi. É a segunda edição do Projeto Blues na Varanda, que já tinha rolado com sucesso em março último. 22 horas, R$ 30.

Led e Rush sábado

O sábado também tem uma night de classic rock de respeito com as bandas Celebration Day (fazendo o Led Zeppelin) e Fountainhead (fazendo o Rush). Músicos experientes de competência comprovada em ambas garantem o bom nível. Dubliner’s, 23 horas, R$ 20.