quinta-feira, fevereiro 09, 2017

HISTÓRIAS EM SOM, HISTÓRIAS EM LETRA

Fundador do punk no Brasil, Clemente Nascimento (Inocentes) lança primeiro álbum solo e um belo livro de memórias com Marcelo Rubens Paiva

Clemente & A Fantástica Banda Sem Nome, com Joe Gomes. Ft Tinho Sousa
Filho de um baiano de Cruz das Almas, Clemente Tadeu Nascimento é figura fundadora do movimento punk brasileiro.

Após mais de três décadas à frente da banda Inocentes, saiu no final do ano passado com seu primeiro disco solo e um livro, este em parceria com Marcelo Rubens Paiva.

“Agora só falta o filme”, diz ele ao telefone, encaixando na sequência sua famosa risada meio esganiçada.

Autor do histórico manifesto do punk brasileiro – “Vamos pintar de negro a Asa Branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer” – Clemente inaugura uma nova fase na vida e na carreira com  Antes Que Seja Tarde (o disco) e Meninos em Fúria (o livro).

No disco, lançado via selo Hearts Bleed Blue, ele toca acompanhado da Fantástica Banda Sem Nome, trio formado por  Joe Gomes (baixo), Johnny Monster (guitarra) e Rodrigo Cerqueira (bateria).

O baixista, anteriormente conhecido por Joe Tromondo, é figura histórica do rock baiano: é ex-baixista dos The Dead Billies, Retrofoguetes e Pitty. Clemente diz que é fã de Joe desde o tempo dos Billies.

"Conheço Joe desde o tempo dos Dead Billies em um Abril Pro Rock em Recife. Ele veio me entregar um CD da banda. Sou fã deles, fiz questão de leva-los para tocar no (extinto programa da TV Cultura) Musikaos (apresentado por Gastão Moreira, tinha Clemente como produtor). Gastamos uma grana para traze-los à São Paulo", lembra.

“Mas é isso, formei a banda com os caras que gosto, que tem o tipo de som que me agrada. Cada um complementa a banda de um modo. Joe é um maestro. Toda hora tá dando palpite: ‘vamos mudar um arranjo aqui’ e tal. Ele  apita em tudo e é e divertido demais”, conta.

Marcelo Paiva, sua "cadeira chique" e Clemente. Foto Julia Moraes
Ele diz que a estreia solo foi motivada pela busca de fazer algo diferente do que fez ao longo de décadas com sua antiga banda.

“Foi justamente esses 30 e poucos anos de Inocentes que me motivou, né? Você acaba querendo fazer alguma coisa diferente que a banda não permite. Ou até permite, já fizemos experiências, mas achei que não ficou legal. Desta vez, resolvi fazer fora da banda”, afirma.

Rock brasileiro, mas sem batucada ou fazer referências ao Tropicalismo para soar descolado, Antes Que Seja Tarde guarda como principal semelhança ao Meninos em Fúria, um certo um caráter intimista, um compromisso apenas consigo mesmo.

“A gente não queria ser nada nesse sentido, sabe? Tô cansado dessa coisa de ficar respondendo ‘o que é punk?’ de novo. Não representamos nada além de nós mesmos”, diz o homem que representou o punk.

O cadeirante doidão

Clemente no movimento punk do início dos anos 80, foto Rui Mendes
Já o livro Meninos em Fúria, sub-intitulado E o som que mudou a música para sempre, é um livro de memórias da dupla que o assina.

O texto de Marcelo, o célebre autor de Feliz Ano Velho, claro, predomina, o que é até natural.

Marcelo foi testemunha ocular da ascenção do movimento punk paulista no final dos anos 1970, início dos 80.

No livro, ele costura, com habilidade, sua própria biografia com a de Clemente e a contextualização política, social e artística daqueles anos agitados.

“A gente adorava ver o Marcelo no meio da bagunça dos shows punks. Era o cadeirante doidão, todo mundo queria empurrar a cadeira dele. Hoje ela é chique, mas na época, não, sempre tinha alguém pra empurrar. E todo mundo ficava doidão, se divertia, ninguém sabia que ele tinha escrito um livro”, lembra Clemente.

“Mas faz tempo que sentia isso, essa necessidade de contar minha história. O Ratos de Porão (banda de João Gordo) e o Inocentes começaram em 1981, mas o Inocentes já era uma banda veteranos. Eu comecei em 1978, com Restos de Nada, depois Condutores de Cadáver. É uma história que estava meio no vácuo, que precisava ser contada”, diz.

Em 1986, o Inocentes fez o impensável para uma banda punk: assinou  com uma multinacional e lançou seu primeiro disco, Pânico em SP.

“E depois teve esse lance de ter ido para a Warner, o que fez de mim ‘traidor do movimento’. Mas o movimento era uma bosta, os caras só queriam saber de brigar, e a gente, de tocar”, ri Clemente.

Curiosamente, o livro de Clemente e Marcelo saiu quase ao mesmo tempo que Viva La Vida Tosca (DarkSide Books), as memórias de João Gordo, em parceria com o jornalista André Barcinski.

Em entrevistas, o Gordo jura que teve a ideia primeiro e que a contou para Clemente durante seu programa Panelaço (You Tube).

“E foi mesmo! É que  o Marcelo escreve muito rápido!”, admite Clemente, às gargalhadas.

“Mas deixa eu te contar uma coisa: há vários anos, no site Showlivre (onde  trabalha), eu tinha um programa, Pé na Porta. Eu ia na casa dos artistas bater papo. Um dos primeiros foi o Gordo. Logo depois ele criou um programa igual na MTV, Gordo Visita”.

Agora tá tudo certo.

Clemente & A Fantástica Banda Sem Nome / Antes Que Seja Tarde / Hearts Bleed Blue Records / R$ 29,80 / www.hbbstore.com

Meninos Em Fúria / Marcelo Rubens Paiva e Clemente Tadeu Nascimento / Alfaguara - Cia. das Letras/ 224 páginas/ R$ 39,80

terça-feira, fevereiro 07, 2017

CONHEÇA BENETE SILVA, PRODÍGIO DE COSME DE FARIAS E MAIS NOVO GUITAR HERO BAIANO

Benete Silva, foto Lucas Cerqueira
Senhoras e senhores, esta coluna tem imenso prazer em apresentar aos leitores um jovem músico que com certeza ainda dará muito orgulho à Bahia: Benete Silva.

Guitarrista que honra com louvor a tradição dos guitar heroes baianos, Benete estreou em 2016 com o álbum Rock na Favela, um disco instrumental que deixa qualquer fã de Joe Satriani com um sorriso de orelha a orelha.

O surpreendente vem agora: morador do bairro de Cosme de Farias, Benete é um autodidata que aprendeu a tocar, compor, arranjar e gravar praticamente sozinho.

“Tenho 24 anos, comecei a tocar em 2010, quando ganhei a primeira guitarra dos meus pais. Porém tudo começou com meu primeiro instrumento, um violão que ganhei aos 8 anos de idade. Como meu pai sempre ouviu rock e sempre tive essa influência, migrar pra guitarra foi um processo natural. Nunca tive professor, aprendi três primeiros acordes com o meu pai e o resto com amigos, revistas e principalmente na internet”, conta.

"Eu cresci ouvindo rock como Beatles, Rolling Stones, AC/DC, Guns 'n' Roses, System of a Down etc. Mas a paixão por instrumental surgiu quando estava navegando na internet e achei um vídeo de um guitarrista americano chamado Paul Gilbert, tocando uma música chamada Technical Difficulties. Nesse momento eu pensei: 'Quero ser capaz de tocar essa música'. Além de me apaixonar por música instrumental, foi nesse momento que eu decidi virar guitarrista", relata.

Com o apoio dos pais, Benete se aplicou em seus estudos e logo estava gravando seu álbum.

“O disco foi gravado no meu quarto! Por muito tempo quis gravar minhas músicas, mas não tinha dinheiro pra pagar produção, mixagem ou músicos, então decidi aprender todo o processo de produção e mixagem, passei um ano pesquisando na internet e buscando informações. Depois gravei o álbum no meu quarto usando apenas um computador, a guitarra e pedaleira”, relata.

"Eu fiz sozinho todo o processo musical, arrumei o baixo emprestado com um vizinho e grande amigo, Madson Expedito, e gravei. Também programei a bateria os teclados sintetizadores e percussões, também fiz a edição, mixagem e a masterização. O violão gravei na casa de um amigo talentoso chamado Lucas Pitangueiras, que me forneceu o seu violão e os equipamentos necessários de graça. A arte do álbum foi feita Cássio Sá, e as fotos por Jean Nogueira, Lucas Cerqueira e por minha namorada Carolaine Casais, que abraçaram o projeto e me ajudaram sem nenhum custo. É como diz o ditado: 'Quem tem amigos não precisa ter dinheiro'", acrescenta.

Planos com orquestra

Benete Silva, foto Carolaine Casais
Com um baixo emprestado de um amigo (Madson Expedito), o violão de outro (Lucas Pitangueiras) mais o auxílio de mais amigos e da namorada na arte e nas fotos do disco, Rock na Favela saiu.

“Esse processo me proporcionou um crescimento pessoal e musical incrível, aprendi na pratica que é possível fazer qualquer coisa, mesmo com pouquíssimos recursos, basta ter muita vontade e buscar o conhecimento”, afirma.

“Durante todo o ano de 2016 toquei sozinho, hoje estou acompanhado de músicos incríveis: Bruno Credidio na bateria e Tamires Estrela no baixo. Eles tocarão no álbum novo que começarei gravar esse ano”, promete.

Benete, que ainda estuda Engenharia Mecânica (Ufba) e dá aulas de guitarra, já planeja álbum novo e mais: com orquestra.

"Em 2017 quero tocar o máximo possível, em qualquer lugar que abrace o meu som, seja em Salvador, no interior ou até fora do Estado, se surgir oportunidade. Os shows naturalmente divulgam meu álbum. Além disso já estou trabalhando num álbum novo, que pretendo lançar no final do ano ou começo de 2018. Será um álbum que terá duas versões com oito músicas cada: uma versão heavy metal instrumental com muita guitarra e outra focada só em instrumentos de orquestra", revela.

Morador de bairro periférico, Benete espera, com seu talento e seu trabalho, ajudar a diminuir o preconceito de que só se ouve pagode e funk na favela.

"Exatamente, existe muito 'rock na favela' em Salvador. Na verdade, a grande maioria das bandas de nossa cena surgem na periferia, mas como o pagode e o arrocha são predominantes, criou-se um estereótipo de que apenas eles são gêneros que representam a favela, o que não é verdade. Existe diversidade e qualidade em termos de cultura na periferia, e eu quis, de alguma forma, expressar isso e despertar a curiosidade das pessoas colocando 'Rock na favela' como tema do meu álbum. A receptividade está sendo incrível, considerando todas as variáveis, pessoas que não gostam necessariamente de rock (e muito menos de rock instrumental) ouviram e aprovaram o álbum, e isso me deixou muito feliz", conclui,

https://www.facebook.com/benetesilvaofficial



NUETAS

Romanelli, Aurata, Elettra

Romanelli (DJ e produtor italiano residente em Florianópolis), Aurata (post-rock, chillout, jazz, experimental) e DJ Elettra (leia-se Messias Bandeira) fazem o Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s Irish Pub, 19 horas, pague quanto quiser.

Água Suja semanal

Não custa lembrar: a banda Água Suja segue fazendo a jam Blues Free Salvador todas as quartas-feiras. Dubliner’s, 22 horas, gratuito.

Laia Gaiatta sábado

Depois de um breve giro pelo sudeste, o trio de blues rock avant garde Laia Gaiatta traz o show Vaia à Tropos (Rua Ilhéus, 214, Rio Vermelho). Sábado, 19 horas. Pague quanto quiser (acima de R$ 20, leva CD da banda).

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

A BOSSA É PUNK NA IRONIA ERÓTICA DE VAN BOTTI

Van Botti, anteriormente conhecido como Vandex, lança álbum de bossa nova com convidados de primeira em show gratuito hoje, no Teatro Sitorne

Vandex - ops, Van Botti, em foto de Sora Maia
Ao longo da carreira, é comum artistas assumirem diferentes personas de acordo com o trabalho que desenvolvem no momento, como David Bowie ou mesmo Paul McCartney (com seu projeto Fireman). O baiano Evandro Botti, pelo visto, é adepto da prática.

Hoje, ele lança seu primeiro trabalho sob a alcunha Van Botti, Manifesto Punk Bossa, com um show gratuito no Teatro Sitorne, no fim da tarde.

A ocasião será filmada, gravada e posteriormente lançada em DVD e disponibilizada na internet.

Anteriormente conhecido como Vandex, Van Botti se apresenta como um cantor de bossa nova linha João Gilberto / Chet Baker (pelas letras em inglês).

A ideia é lançar o álbum no Brasil e depois tentar a sorte no circuito internacional de clubes e pequenos teatros de jazz / instrumental.

Vem daí a principal razão para a mudança de nome, de Vandex para Van Botti.

“O nome Vandex já é uma marca registrada nos Estados Unidos (de uma empresa ligada a construção civil), então não poderia usá-lo nas apresentações no exterior, por isso optei por um nome que é de fácil entendimento em outras línguas”, explica o músico.

Convidados ilustres

Surgido na cena rock local como fundador e baixista da antológica banda Úteros em Fúria (1986-1995), Evandro Botti se tornou Vandex na década passada, quando desfez sua banda posterior à Úteros, o duo Guizzzmo, que criou com o guitarrista Luis Fernando Apu Tude e pela qual passaram muitos músicos.

A fim de seguir uma nova direção na carreira, buscou na bossa nova que sempre apreciou – e que chegou a praticar em faixas gravadas do duo Guizzzmo – a nova orientação.

Para arredondar a nova proposta, concedeu à linguagem da bossa a irreverência que sempre lhe foi peculiar nas letras – daí o “punk” no título do trabalho –, e buscou também auxílio técnico / artístico de grandes músicos locais ligados ao gênero.

Gravado aos poucos em seu próprio estúdio (o Em transe) ao longo de um ano, Manifesto Punk Bossa contou com os arranjos de uma verdadeira autoridade da bossa nova, o violonista Aderbal Duarte, além da participação de músicos de primeira linha, como Tuzé de Abreu, André Becker, Gabi Guedes, Victor Brasil, Alexandre Vieira e Mou Brasil.

No site do músico (www. vanbotti.com) já é possível ouvir a primeira faixa liberada do projeto, Lost in The Storm, um suingado sambinha remetendo a coqueteis à beira-mar.

Van Botti, foto Sora Maia
Homenagem ao cinema

No show de hoje, Van Botti receberá diversos convidados que participaram do disco.

Além do vídeo do show completo, o show também produzirá as imagens que comporão o clipe da faixa já citada, que será uma homenagem ao cinema baiano.

“A ideia do clipe é uma homenagem à bossa nova, ao cinema e será uma grande brincadeira, mesclando o novo e o antigo no audiovisual baiano, uma mistura de gerações. Será algo inédito em Salvador”, afirma o músico.

Com trinta anos de atividades na música, Evandro Botti fundou a Úteros em Fúria ainda adolescente, em 1986.

Em 1993, após fazer nome na cidade e shows no Rio de Janeiro e São Paulo, banda lançou seu primeiro e único álbum, Wombs in Rage, pelo selo carioca Natasha.

Após o fim da banda em 1995, por problemas de saúde do guitarrista Emerson Borel, Evandro e Apu se juntaram no duo Guizzzmo, que chegou a contar com Magary Lord (pré-fama) na percussão e se apresentou duas vezes no festival Abril Pro Rock.

Já como Vandex, lançou em 2010 o álbum Ironia Erotica.

O projeto Manifesto Punk Bossa tem o patrocínio do Fazcultura, programa de incentivo fiscal da Secretaria de Cultura, Secretaria da Fazenda e Governo da Bahia.

Van Botti: Manifesto Punk Bossa (gravação de DVD) / Hoje, 16 horas / Teatro Sitorne (R. Dep. Cunha Bueno, 55 - Rio Vermelho) / Entrada Gratuita / Ouça: www.vanbotti.com

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

VOZEIRÃO SOLO

Ed Motta traz hoje e amanhã ao Café-Teatro Rubi seu show solo, no qual toca guitarra e teclados. No repertório, sucessos e releituras

Artista hoje em dia mais apreciado fora do que dentro do Brasil, Ed Motta traz a Salvador, pela primeira vez, seu show solo. As apresentações são hoje e amanhã, no Café-Teatro Rubi do Sheraton da Bahia Hotel.

Apresentação solo significa dizer que o cantor se apresentará sozinho no palco, sem banda – ora tocando guitarra, ora tocando piano.

No repertório, um apanhado da carreira e dos gostos pessoais do artista: Colombina, Fora da Lei, Daqui pro Méier, Tem Espaço na Van e até clássicos dos flashbacks, como Ebony Eyes (1983, de Rick James e Smokey Robinson).

“Essa coisa do show solo eu comecei faz uns dez anos”, conta Ed por telefone do Rio de Janeiro.

“Fiz muito em pequenos bares, eventos de empresas. Canto músicas de artistas que eu gosto e coisas minhas. Em Salvador mesmo eu nunca tinha feito. Até já fiz em Ilhéus e Feira de Santana, em shows corporativos”, acrescenta.

De caráter intimista, o show solo é meio como passar uma noite na sala de estar do artista, uma forma de testemunhar até mesmo seu método de composição.

“Eu diria que é uma forma de mostrar como eu faço as músicas, que é sempre ao piano ou violão”, diz.

“(Para o show solo) Eu tenho um mapa de músicas, tem tipo umas trinta, que  eu vou sentindo o clima pra montar o repertório. Aí dentro disso eu vou mexendo, às  vezes rola um Burt Bacharach, uma Rita Lee, um Tom Jobim, a famosa Ebony Eyes, Ainda Lembro (dueto com Marisa Monte, de 1991), esse tipo de coisa”, detalha o músico.

Possível DVD em Frankfurt

Indo e voltando do exterior direto para shows no próspero circuito jazzístico internacional (europeu, principalmente) Ed lamenta não estar conseguindo circular pelo país com sua banda para fazer shows. Seus últimos dois álbuns, AOR (2013) e Perpetual Gateways (2016) quase não tiveram shows no país.

Em ambos, Ed perseguiu a estética de gravação denominada AOR, muito utilizada entre os anos 1970 e 80, com uma diferença: o álbum AOR foi gravado no Brasil, enquanto o Perpetual foi gravado em Los Angeles, com muitos dos músicos originais do estilo.

"Mas olha, se der bobeira, eu até gosto mai do AOR. Foi um disco gravado no Brasil com músicos brasileiros. Tem um cuidado ali que é fora do normal. E eu adoro o disco novo, claro. Mas o outro tem algo... acho que é meu melhor disco até hoje", afirma.

“O Perpetual só teve um show de lançamento no Brasil, em São Paulo. Semana que vem vou fazer a oitava tour desse disco na Europa, com quase vinte dias. Ele já  foi apresentado em milhares de cidades. Semana que vem faço Alemanha, Itália, Suíça, Dinamarca e Suécia”, enumera.

“O Brasil é um mercado que mudou muito,  e não só pra mim. Outro dia  eu estava em São Paulo para um show solo e tinha um outro colega, surgido na mesma época que eu, fazendo o mesmo formato de show solo. É que os custos estão mais altos mesmo”, vê.

"Mas também tem uma coisa natural do tempo. Vou fazer 30 anos de carreira, então é meio natural também. Mas que bom que eu consegui abrir um espaço. Na Europa é como se eu fosse artista novo, no segundo disco. Para parte do público alemão é isso, a divulgação da gravadora foi forte nesses últimos dois discos. Antes até tinha meus discos lançados no Japão, Europa. Quando o cara (a gravadora) paga o disco, tem que ter algum retorno. Como os alemães pagaram, isso muda tudo. Mas aqui (no Brasil), o Perpetual foi bem também, a imprensa foi muito generosa, está em algumas listas de melhores do ano. Então fiquei bem surpreso, contente e agradecido", afirma.

Contratado por um selo alemão, o Must Have Jazz (o mesmo de nomes como Tangerine Dream e do pianista revelação  Jacob Collier), Ed se faz acompanhar na Europa por uma banda local.

“Qui no Brasil minha banda é pequena. Outro dia até fiz um show em Porto Alegre, no Pepsi on Stage com minha banda e tudo. Fazia tempo que eu não tocava com a banda - em qualquer lugar do Brasil. Infelizmente (essas ocasiões) tem sido raras pra mim. Já lá na Europa, minha banda tem um alemão, um francês, um finlandês e um holandês. A gente se encontra uns dias antes, ensaia e pega a estrada. Tem uns cinco anos que trabalho assim”, diz.

Nome de peso (sem trocadilho) no selo, Ed tem sua imagem ornamentando a foto de capa do Facebook do Must Have Jazz. Não a toa, o show da turnê em Frankfurt será gravado e talvez saia em DVD.

“Mas nada certo ainda. Tem que esperar pra ver como vai ficar.  É uma apresentação ao vivo que não posso repetir, então talvez vire um disco ao vivo e DVD. Vou ser acompanhado pela minha banda de lá e uma big band de Frankfurt, a HR Big Band”, conta Ed.

Ed é fã do Beto

Gourmet e enólogo, Ed frequenta o restaurante Paraíso Tropical (do chef Beto Pimentel) todas as vezes que vem a Salvador, chegando a se referir a ele como o melhor restaurante do Brasil.

“Gosto demais de ir no Beto, sou fã dele. Acho que a comida dele influenciou um monte de gente no Brasil que hoje faz  uma coisa parecida, que é a comida moderna brasileira, algo que  ele é pioneiro, já faz desde os anos 1990”, diz.

“Mas também gostaria de prestigiar alguma coisa que ainda não conheço. Queria conhecer alguma coisa na onda do Beto, da  comida afrobrasileira”. Fica a dica aos chefs.

Ed Motta Solo / Hoje e amanhã, 20h30 / Café-Teatro Rubi – Sheraton da Bahia Hotel / R$ 120 / Vendas: Bilheteria Café Teatro Rubi (3013- 1011) ou no site www.compreingressos.com

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

COM OS PÉS NO CHÃO

Financiado pelos fãs, Animal traz uma Scambo mais rock em um álbum de muitas inquietações soteropolitanas

Graco, Pedro Pondé e Alexandre Tosto. Foto Walter Abreu
Banda local que conta com um vasto (e apaixonado) público, a Scambo contou com o apoio deste para gravar e lançar seu novo álbum, Animal.

Lançado com um concorrido show no último dia 13 no Pelourinho, o álbum foi viabilizado por bem sucedido crowdfunding (financiamento coletivo) via plataforma Catarse.

A meta da banda era arrecadar R$ 50 mil para bancar produção, gravação, mixagem, masterização, arte, prensagem, direção de arte etc. Arrecadaram quase R$ 65 mil.

“Sinceramente, eu esperava (um resultado assim)”, diz o guitarrista / baixista / tecladista  Graco, que integra a banda com Pedro Pondé (vocais) e Alexandre Tosto (guitarra).

“Mas sempre dá aquele frio na barriga, né? Foi minha primeira experiência (com financiamento coletivo), mas ao mesmo tempo sei que a Scambo tem público, tem fãs, as pessoas tem um carinho enorme pela banda”, acrescenta.

Produzido por Luis Fernando "Apu" Tude nos Estúdios WR, Animal chega com uma marca: apesar de manter a pegada pop, é o disco mais rock da Scambo.

Mas não é isso que o torna melhor ou pior do que quaisquer outros álbuns da banda. É apenas sua característica mais evidente.

No som há ecos de Los Hermanos (Saída, Por Fora), Strokes (Animal) e até Camisa de Vênus (Ei Você, arrasadora).

“Apu é um cara que é parceiro nosso há muito tempo. Os discos Vermelho (2005) e Preto (2004) foram feitos com ele também, então é um cara que sempre gostou da banda, sempre acreditou. E  a gente vê o prazer dele em trabalhar conosco”, conta Graco.

“A gente podia ter pego a grana do crowdfunding e ido gravar em São Paulo. Mas isso não tem ver com a Scambo. Apu é um cara com um conhecimento grande, que somou no conjunto. Esse disco foi feito por cinco pessoas: eu, Pedro, Alexandre, Apu e Fernando (Maia, produtor executivo da banda)”, enumera.

Ponto fora da curva

Scambo, foto Walter Abreu
Outra coisa que se pode perceber rapidamente é que, apesar de não parecer a intenção da banda, Animal é um compêndio de inquietações pessoais e sociais bem comuns aos soteropolitanos.

Essas inquietações tipicamente soteropolitanas estão bem explícitas nas letras das duas últimas faixas, Carnaval e Ei Você.

A primeira, em ritmo de ska, é a crítica mais franca e virulenta à indústria carnavalesca já posta em canção na Bahia: “Festa sacana feita por gente com grana que ganha muito mais grana / Manipulando a cultura / Muitos artistas aceitam esses senhores pra não / Ficarem longe dos refletores / (...) / Não vou tirar meus pés, meus pés do chão”.

Já Ei Você é um punk rock light na sonoridade mas pesado na mensagem: “Você que não tem sobrenome olhe pra mim você / Não é gente bonita / Hoje eu não vou sair porque eu tenho medo de assalto / Eu tenho medo de ser sequestrado eu morro de medo de morrer porque / Porque eu sou o idiota perfeito”.

“Esse conflito é nosso também, vivemos em uma cidade violentíssma e todos sofremos com isso. Mas acreditamos em ocupar a cidade em todos os sentidos, precisamos ter intimidade com a rua, ela não pode ser estranha. Então essa música é  um desabafo nesse sentido”, afirma Graco.

Bastante requisitada para shows pela cidade e pelo interior do estado, a Scambo é mesmo um ponto fora da curva no cenário da música independente local – na cena rock então, nem se fala.

De carreira errática, surgiu no fim dos anos 1990 e formou público rápido. Em meados da década passada, alçou voo para o eixo Rio - São Paulo, mas as pressões foram demais e um rumoroso conflito interno pôs fim à banda em 2006.

Somente em 2011 o trio remanescente se reuniu, graças à intervenção do já citado Fernando Maia. Em 2012, lançaram Flare, um belo disco acústico para marcar o retorno.

“Nossa carreira é meio caótica. Ela não é bem desenhada. Mas mesmo assim o público só cresce. A Scambo passou cinco anos parada e quando voltou era outro público, que se juntou ao publico antigo”, diz.

Em 2016, a banda ganhou nova projeção nacional ao participar do reality show Superstar, da Globo.

“Com o Superstar e agora no crowdfunding, vimos a força que temos na vida das pessoas. Pessoas que botam o cartão de crédito em um site e compram um álbum que ainda não ouviram. Isso foi muito bom e estamos muito agradecidos”, conclui.

Animal / Scambo / Produção: Apu Tude e Scambo / Independente / Preço não divulgado / www.scambooficial.com.br



Faixa a faixa: Animal

Inevitável: Três batidas na porta anunciam o riff de guitarra slide e a voz suave de Pedro: “Na hora certa veio / me acertou em cheio”. Boa abertura, ganha o ouvinte de cara

Saída: De início surf music e miolo pop rock, parece uma crítica ao sadismo de quem curte ver a miséria alheia

A Sombra: Riff de guitarra e sequência synth que emolduram lembrete: “Tudo isso que está para acontecer / Já foi decidido muito antes de você”

Por Enquanto: Balada melancólica que cresce e pesa com intensidade

Por Fora: Lembranças de início de namoro, vistas de longe, de fora

Eu Quis Dizer: Terceira faixa melancólica, formando miolo tristonho. Levada blues

Animal: De Tosto, a  faixa-titulo é sobre instintos animalescos e retoma peso e velô

Quase: Acelerada, um tratado sobre o cansaço

Carnaval: Direto de esquerda na festa rica

Ei Você: Punk rock com letra de punk rock. Cool

terça-feira, janeiro 31, 2017

A DAMA DE VERMELHO

Famosa marca italiana de bebidas contrata diretor oscarizado e astro de Hollywood para filmar curta. O blogueiro esteve no lançamento em Roma a convite da Campari, representando o jornal A Tarde

Clive Owen e a deusa Caroline Tillette em Killer in Red
O cenário feliniano de Roma no inverno é o pano de fundo perfeito para o diretor italiano Paolo Sorrentino e o ator inglês Clive Owen lançarem o curta-metragem Killer in Red.

O evento, com direito a premiere, tapete vermelho e sessões de entrevista para repórteres do mundo inteiro, é uma ação da tradicional fabrica italiana de bebidas Campari.

Assim como outra famosa marca italiana, a Pirelli, a Campari lança todos os anos um sofisticado calendário reunindo grandes fotógrafos e top models.

Este ano, para sair da rotina, foi criada uma ação intitulada Campari Red Diaries, na qual se insere o curta do Sorrentino com Clive Owen.

Além do super produzido filme de sete minutos, a marca também escolheu doze bartenders do mundo inteiro para contar histórias e apresentar seus drinques exclusivos criados para a marca.

Entre os doze, há dois brasileiros: Thalita Alves, que representa a Austrália com o coquetel Anita, uma homenagem à Anita Garibaldi, que leva cachaça Sagatiba Envelhecida, e o ítalo-brasileiro
Fabio La Pietra, do bar Peppino, em São Paulo, que apresenta no mês de agosto a receita de “A Hora Incomparável”.

Diretor conhecido pela verborragia visual que costuma derramar em filmes premiados como A Grande Beleza (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) e A Juventude, Sorrentino admite que teve
de se conter para dar seu recado em apenas sete minutos.

"Eu tenho a tendência de falar muito, mas eles (os produtores) queriam um filme curto, então tive
de me segurar. Mas é difícil para mim ser conciso, é complicado", afirmou.

Mesmo assim, o diretor fez um belo filme, ainda que de cunho mais publicitário. Seu Floyd, o bartender vivido por Clive Owen, é tão desiludido e relutante quanto os personagens principais
que povoam seus longas.

"A ambiência do bar ajuda muito, por que é um lugar em que as pessoas estão naturalmente
propensas a se socializar. Então é um cenário ótimo a se explorar".

Já o ator principal não se fez de rogado. Vestiu o uniforme de bartender e foi aprender in loco
como misturar drinques. "O figurino é muito importante. Até por que se a roupa não estiver correta, o papel não parte do ponto certo. Até os sapatos contam", afirmou o ator, que ainda contou que fez um estágio de bartender no bar de um amigo em Los Angeles.

Thalita Alves, a simpática bartender brasileira residente na Austrália
Sobre seu diretor em cena, Owen também não poupou elogios: "Sou um grande fã de Paolo, é um grande profissional no auge da forma".

A sessão de rasgação de seda, claro, teve volta. "Clive é um dos melhores atores desta época. Foi uma honra trabalhar com um ator inglês que traz em si toda a tradição da atuação teatral inglesa", disse Sorrentino.

De estética noir-publicitária, Killer in Red não poderia prescindir de um dos principais elementos da estética noir: a femme fatale, aqui interpretada pela atriz franco-suíça (e ruiva) Caroline Tillette, sempre de vermelho, citando a cor da bebida.

"Caroline é um exemplo perfeito de desejo masculino e nos filmes noir, o desejo masculino é sempre fatal. Nesse sentido, Caroline é devastadora", disse Sorrentino.

Diante da plateia de jornalistas do mundo inteiro, Bob Kunze-Concewitz, CEO do Gruppo Campari, pontuou que, "depois de 70 anos de calendários, é fácil cair na zona de conforto. Desta vez, fizemos questão de subir o nível".

"Clive Owen, neste contexto, representa o carisma e a paixão de Campari. E o filme ficou ainda
melhor do que eu esperava. Na verdade, eu fiquei arrepiado", acrescentou.



ENTREVISTA (OU TENTATIVA DE): PAOLO SORRENTINO

Em A Grande Beleza e também em A Juventude, seus personagens principais são homens desiludidos, cansados do mundo que os cerca. Você diria que Floyd, o bartender de Killer in 
Red, segue esse padrão?

Signore Sorrentino orienta Clive Owen em cena
Paolo Sorrentino: Não, eu não acho que Floyd está cansado do mundo. Eu acho que Floyd está excitado com o mundo. Eu acho que este homem entende que o casamento é melhor que a transgressão fora do casamento. E acho que isto é sempre uma boa notícia.

Killer in Red é esta grande e bela peça de propaganda. O senhor acha possível conceder sentidoo artístico à linguagem publicitária?

PS: Não sei dizer, por que na verdade não estou nem certo sobre o que é arte. Eu não sei.

Percebo uma grande influência da fotografia de moda e da publicidade em seus filmes. Você diria que essas linguagens são uma influência em sua carreira, em sua arte?

PS: Nada disso. Por que não sei quase nada de moda e muito pouco de publicidade.

O senhor disse na coletiva que a ambiência do bar o fascina, por que nele as pessoas estão propensas à se socializar. Fazendo um paralelo com sua série da HBO The Young Pope, o senhor diria que o bartender seria uma espécie de padre e o bar, sua igreja? Afinal, o bartender ouve as confissões das pessoas...

PS: (Pensa por um momento). Va bene. Eu aprecio sua interpretação. Gostei, faz sentido.

Que espécie de oportunidade o senhor vislumbrou neste projeto? O que o trouxe a ele?

PS: Não é por aí. Para nós, italianos, Campari é uma marca familiar, algo que te acompanha ao longo da vida, algo a que você se apega. Campari é parte de nós. O projeto era bom, e a proposta, interessante. Haviam características neste projeto que achei que eu poderia fazer algo a respeito, então, eu fiz.

FESTIVAL RUÍDOS NO SERTÃO, DE POÇÕES, CHEGA À 4ª EDIÇÃO COM TAURUS, EDU FALASCHI E MAIS SEIS BANDAS

Taurus, do Rio de Janeiro, comemorando 30 anos do primeiro LP
E o movimento do rock no interior do estado não para.

Este sábado tem a quarta edição do festival de heavy metal Ruídos no Sertão, na cidade de Poções (Centro-Sul baiano, a 444 quilômetros de Salvador).

Para quem não lembra, foi o RnS que levou à Poções em 2016 as lendas do metal Udo Dirkschneider (ex-Accept) e Blaze Bayley (ex-Iron Maiden).

Desta vez, a atração internacional quase foi a banda inglesa Grim Reaper, legítima representante da New Wave of British Heavy Metal (o LP Fear No Evil, de 1985, é um clássico entre connoisseurs).

Mas problemas de saúde do vocalista Steve Grimmet levou ao cancelamento de toda a turnê.

Em seu lugar, duas atrações nacionais de peso: a veterana banda carioca Taurus, comemorando 30 anos de seu primeiro álbum, o clássico Signo de Taurus (1986) e o cantor Edu Falaschi (ex-Angra), com seu show-tributo Metal Classics.

Além dos dois headliners, mais seis bandas: Venereal Sickness (de Caratinga, MG),  Fúria Louca (MA), Social Freak (Vitória da Conquista), Human, Erasy (ambas de Feira de Santana) e a prata da casa de Poções, Suffocation of Soul.

Fúria Louca, hard rock de São Luís (MA)
Na raça

Realizado sem apoio governamental, o RnS conta apenas com a obstinação de seu realizador, Gildásio Correia e algum apoio do comércio local.

“Dependemos da bilheteria para realizar o evento, o resto é investimento próprio, com apoio do comércio. Nem apoio da prefeitura tivemos esse ano, por conta da transição entre governos”, conta Gildásio.

“Mas a expectativa é muito boa, apesar das reclamações por causa da  crise. Esperamos casa cheia”, afirma.

Para selecionar as atrações – fora headliners – o RnS abre inscrições para receber material de todo o Brasil.

"Trabalhamos em duas frentes. Com as atrações principais, temos uma rede de contatos muito boa, aí fazemos as negociações. Tentamos sempre trazer uma atração de nível internacional. Tínhamos fechado já com o Grim Reaper, mas o líder da banda teve um problema sério de saúde, aí tive que cancelar. Com o Taurus, nós já estávamos em contato desde meados do ano passado, mas acabou não avançando. Com a situação do GR, retomamos e acabamos conseguindo encaixa-los. É uma banda histórica do heavy metal nacional e mantém  o nível do festival", afirma.

Human, uma das duas bandas de Feira. A outra é o Erasy
“Recebemos material de cerca de 300 bandas de 22 estados, mais Argentina e Uruguai. Isso mostra o alcance do evento. Aí é um processo bem longo. Depois de avaliar as bandas, começamos a conversar com elas para negociar, já que não temos muita grana”, conta.

“Mas temos ótima estrutura, com banheiros, área coberta, lounge para descansar, praça de alimentação com comida vegetariana e  cervejas artesanais. Como a programação é extensa, com 12 horas de evento, teremos dois intervalos de 40 minutos a uma hora para o pessoal tomar uma cerveja, tirar foto com os artistas etc. Tem caravanas vindo de Salvador, Ipiaú, Ilhéus, Itabuna e Vitória da Conquista. Quem vem de caravana paga ingresso com desconto e também oferecemos descontos em hotel. Damos suporte às caravanas, elas são muito importantes", conclui.

4º Festival Ruídos no Sertão / Sábado, 14 horas / Área de Eventos Os Primos (Rua Santa Cruz, 314, Poções - BA) / Informações: www.ruidosnosertao.com.br



NUETAS

Júlio com Benete

Dois guitar heroes no Quanto Vale o Show? de hoje: o veterano Júlio Caldas e o novato Benete Silva (ouçam seu disco Rock na Favela, é um espetáculo). Faíscas para todo lado a partir das 19 horas. Dubliner’s, pague quanto quiser.

Rancore, Semivelhos

Em turnê pelo país, a cultuada banda paulista Rancore se apresenta em Salvador com a juazeirense Semivelhos. Amanhã, Portela Café, a partir das 18 horas. R$ 40 (na porta).

Pietro Leal estreia

Notabilizado como frontman da banda Pirigulino Babilake, Pietro Leal estreia seu show solo Estereótica neste sábado, 20 horas, no Teatro Eva Herz (Salvador Shopping). Show concorrente no  Prêmio Caymmi de Música. R$ 30.

sexta-feira, janeiro 20, 2017

A FICHA CORRIDA DE UM GRUPO EXTRAORDINÁRIO

Páginas em 3D do Dossíê Negro
A Liga Extraordinária: Dossiê Negro é mais uma amostra humilhante do talento de Alan Moore. A obra compila dados “secretos” do grupo de personagens clássicos da literatura

Nesta vida, existem poucas verdades universais à prova de negação, como, por exemplo, “o dia precede a noite” e “Alan Moore nunca decepciona”.

A Liga Extraordinária: Dossiê Negro é mais um delírio deliciosamente elaborado pela mente mais brilhante dos quadrinhos modernos.

Criada em parceria com o desenhista Kevin O’Neill, o Dossiê Negro é a última HQ da série A Liga  Extraordinária  que ainda estava inédita no Brasil – via editora Devir, ela  chega às livrarias e comic shops do Brasil  com seu complexo esplendor quase intacto.

Explica-se: como o título dá a entender, trata-se de um dossiê contendo (muitos) dados e alguma memorabilia sobre o exótico grupo de aventureiros dotados de talentos especiais à serviço da coroa inglesa.

Mais páginas em 3D
Assim, a edição original norte-americana trazia, entre outros objetos acondicionados em um envelope de papel pardo encartado no livro, até um compacto de vinil sete polegadas, com duas canções de rock estilo anos 1950 compostas e cantadas pelo próprio Alan Moore (imitando Elvis Presley), atribuídas a  fictícia banda Eddie Enrico & His Hawaiian Hotshots: Immortal Love e Home With You (ouça no vídeo abaixo).

A edição brasileira não se dá a esse luxo todo, até por que encareceria ainda mais uma edição já dispendiosa o bastante (R$ 150).

Mas o fã que se coçar para adquiri-la certamente se sentirá recompensado com o seu conteúdo.

Além da obra em si, que é magnífica, o envelope de papel pardo da Devir traz  oito cartões postais, um “catecismo” (HQ erótica vintage), um óculos 3D, o encarte do compacto já citado e um marcador de página em forma de espada, que também serve para romper o lacre de uma  narrativa erótica no álbum.

Fugitivos do MI5

Trecho d'A Vida de Orlando
Criada pela dupla inglesa no fim dos anos 1990, A Liga Extraordinária reúne personagens famosos da tradição literária europeia (e alguns norte-americanos) para atuar de forma secreta, como Mina Murray-Harker (de Drácula, de Bram Stoker), Allan Quatermain (As Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard), Capitão Nemo (20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne), Orlando (de Virginia Woolf) e muitos outros.

Foram lançados três álbuns do grupo: Volumes I, II e III (o último também intitulado Século), este Dossiê Negro e uma aventura solo de Janni Dakkar, a filha do Capitão Nemo: Coração de Gelo.

Em todas essas obras, Moore e O’Neill criam verdadeiros caleidoscópios de referências culturais diversas, que vão desde a alta literatura a personagens pulp esquecidos – e nada, absolutamente nada é  jogado de forma gratuita. Cada referência é matematicamente apoiada no contexto.

No Dossiê Negro, estamos em 1958, em pleno governo totalitário do Grande Irmão (referência à George Orwell) e os aparentemente imortais Mina e Allan, tornados clandestinos pelo MI5 (o serviço secreto britânico), invadem o quartel-general da instituição em Londres para roubar o Dossiê.

Com ele em mãos, começam a ler documentos sobre as várias encarnações da Liga, existente desde o século 16.

Irados, os governantes mandam seu principal agente, um certo Jimmy (sobrenome Bond) atrás da dupla.

O leitor acompanha a narrativa em dois níveis: a perseguição de Jimmy a Mina e Allan e a leitura do dossiê feira pelos dois últimos.

O Dossiê, em mais uma amostra humilhante de talento do seu autor, chega ao luxo de trazer textos apócrifos de Shakespeare e Jack Kerouac, além de relatórios de agentes, crônicas, excertos, mapas, diagramas e outros mimos.

A Liga Extraordinária: Dossiê Negro / Alan Moore e Kevin O’Neill / Devir / 208 p. / Edição de Luxo (capa dura): R$ 150

quinta-feira, janeiro 19, 2017

TRÊS DIAS DE MÚSICA ORGÂNICA

Khusugtun, da Mongólia: canto, percussões e sons ancestrais
Festival: 21ª edição do PercPan - Panorama Percussivo Mundial não decepciona, com grandes atrações e uma noite gratuita no Pelourinho 

O PercPan - Panorama Percussivo Internacional, um dos festivais de música mais tradicionais da Bahia, tem sua  edição 2017 realizada em pleno verão, em tempo de esquentar ainda mais a estação mais agitada do ano em Salvador.

Realizada desde 1994 – com alguns poucos anos de intervalo – o PercPan já trouxe à cidade grandes shows, tanto de artistas consagrados quanto de ilustres (e surpreendentes) desconhecidos.

Esta edição, com patrocínio da Petrobras, Vivo e Governo da Bahia, não será diferente.

De um casal polonês que toca um instrumento feito de taças de cristal à uma africana de Gâmbia que toca o kora, tradição masculina de sete séculos (que ela quebrou), passando por um grupo de mongóis da China e outro de cadeirantes congoleses, o PercPan 2017 não deixou por menos.

Coletivo Rumpillezinho é coisa nossa
Méritos para o curador desta edição, o aclamado produtor musical Alê Siqueira. Ele pensou em três noites: duas (quinta e sexta-feira) no palco tradicional do festival, o Teatro Castro Alves – e uma outra mais democrática, gratuita, no Terreiro de Jesus (sábado).

Cada noite tem um tema definido por Alê.

“Pensar por temas é uma coisa que me acompanha na minha vida. É uma maneira de dar organicidade, unidade à tudo que eu faço, seja um festival, um disco ou um DVD. No caso do PercPan, mais do que uma coletânea de atrações, pensei em enfatizar enfoques curatoriais, conceituando cada noite”, explica.

Desta forma, ele conceituou a primeira noite como RIME – Ritmo e Melodia: “Ela vai na contramão da percussão grandiloquente, é uma noite mais delicada, com o grupo da Mongólia, que tem uma poética delicada, a cantora da Gâmbia e o duo polonês”, diz.

Glass Duo, da Polônia: o maior instrumento de cristal do mundo
A noite seguinte, INCLUA, privilegia grupos oriundos de projetos sociais.

“É um convite para refletir a música como instrumento de  inclusão social. Daí temos projetos lindos, como o Rumpillezinho, o Trio MultiFaces, que saiu do Neojibá e o  Grupo de Referência de Ourinhos (São Paulo)”, diz.

A última noite, CELEBRE, é  festiva, com Roberto Mendes, Lucas & Orquestra dos Prazeres (PE), Staff Benda Bilili (Rep. Democrática do Congo), Muzenza e Patax (Espanha).

Além dos shows, o PercPan estende suas atividades até Santo Amaro, onde haverá encontros e uma mesa-redonda.

“Outra coisa é a descentralização do festival, o que transcende a questão da música pela música, utilizando o recurso do festival para levar cultura para o Recôncavo. Então teremos quatro ações sócio-educativas em Santo Amaro: três workshops e uma mesa-redonda”, conta o curador.

Mateus e Jorge

Staff Benda Bilili, da República Democrática do Congo
Convidado por Alê para ser o mestre de cerimônias das três noites de show em Salvador, Mateus Aleluia, o eterno Tincoã, não poderia estar mais honrado.

“O que existe de mais real é um festival como o PercPan. Afinal, antes de tudo havia o ritmo. E o festival  sintetiza isso”, afirma o artista.

A expectativa para que Aleluia cante entre um número e outro é grande, mas ele despista: “Meu papel é dar a conhecer as atrações, interagir com os convidados. Entre um e outro, pode ser que alguma coisa  altamente intuitiva saia. Quem é mestre de cerimônia tem que recorrer ao que sabe fazer”, afirma, enigmático.

Quem também está animadíssimo para o festival é o percussionista espanhol Jorge Pérez, líder da banda Patax. “Vamos fazer uma festa!”, avisa.

“Alguns dos mais talentosos músicos de jazz da Espanha estarão lá, fazendo um baile de força, felicidade e boas energias. Tocaremos algumas músicas de Michael Jackson, do álbum que gravamos em seu tributo (Patax Plays Michael, 2015), além de músicas novas”, conta, por email.

Apesar de já ter visitado Salvador, ele diz que tocar com sua banda aqui é “o início da realização de um sonho”.

Bienvenidos, Jorge e Patax.

21º PercPan / de 18 a 21 de janeiro / Salvador e Santo Amaro / Programação e informações: www.facebook.com/festivalpercpan


ENTREVISTA: SONA JOBARTEH

Você é a primeira mulher instrumentista do Kora, quebrando uma tradição de sete séculos. Como foi isso? Enfrentou algum tipo de preconceito masculino?

Sona Jobarteh e seu kora,da Gâmbia
Sona Jobarteh: Isto é algo que faço com grande responsabilidade, porque entendo e respeito muito a tradição, ainda que eu a tenha quebrado enormemente, apenas por ser mulher. Então, sinto que carrego uma grande responsabilidade. Em relação às reações, por não me colocar no velho contexto de tocar o kora em cerimônias, casamentos etc, e sim como artista, acredito que esta condição me concede um alto grau de liberdade dentro da tradição. Muitos anciões me deram suas bênçãos por que ficaram felizes em ver alguém da nova geração dando continuidade à tradição e a espalhando em outros territórios.

Pode nos contar um pouco sobre o que vamos ouvir no seu show? Você vem com sua banda e seu kora?

SB: Sim, vou com minha banda completa, com o kora, guitarra, baixo, percussão e bateria. Vou apresentar o repertório do meu último álbum, chamado Fasiya. Este repertório é baseado na música tradicional do povo mandinka, à qual minha família pertence. Mas as músicas são composições minhas mesmo, mesclando tradição e modernidade.

Já esteve na Bahia? Tem algum interesse na música e nas tradições percussivas locais?

SB: É a minha primeira vez  no Brasil, então estou muito animada para encontrar o povo brasileiro e assistir às performances dos outros artistas e músicos. Há muitos anos eu queria ir ao Brasil, por conta do meu interesse na tradição de sua música, então será uma experiência muito interessante para mim.


ENTREVISTA: JORGE PÉREZ

Pode nos contar um pouco sobre o que vamos ouvir no seu show? Vi que vocês gravaram um álbum só com músicas do Michael Jackson (Patax Plays Michael, 2015). Elas estão no repertório também?

Jorge Pérez, seu cajón e a dançarina flamenca
Jorge Pérez: O que vocês vão ouvir no show do PercPan é uma verdadeira festa! Alguns dos mais talentosos músicos de jazz da Espanha estarão lá, fazendo um baile de força, felicidade e boas energias. Tocaremos algumas músicas de Michael Jackson, do álbum que gravamos em seu tributo, além de músicas novas. Mas o show do Patax não é só algo para ser ouvido, você o aprecia com os olhos também! E não apenas pelos rostos sorridentes (da banda) transmitindo sinais entre os músicos enquanto improvisam, mas também por que o Patax tem uma dançarina flamenca que interage com a música. Um mimo para seus sentidos.

O Patax se define com uma banda de jazz fusion. Quais ingredientes entram nessa receita de fusão?

JP: Sou formado pelo Berklee College of Music, compositor e arranjador da banda, além de tocar congas e cajón. Então, as influências do Patax vem diretamente do meu background musical. Nasci na Espanha e me formei entre a Espanha, Cuba e Estados Unidos. Os ingredientes são flamenco, música afrocubana, jazz, rock, pop e funk. O ritmo é, assim, o núcleo do entendimento para a fusão de gêneros musicais do Patax.

Já esteve na Bahia? Tem algum interesse na música e nas tradições percussivas locais?

JP: O Patax nunca esteve no Brasil, mas eu estive em Salvador quando era adolescente e fiquei louco com a música e a cultura profunda da cidade. Desejei voltar algum dia e ser parte deste excitante ambiente musical. O concerto do Patax no PercPan é o início da realização deste sonho.

terça-feira, janeiro 17, 2017

BOA NOVIDADE DE 2016, A SOROCABANA PAULA CAVALCIUK FAZ SHOW SEXTA-FEIRA EM SALVADOR

Paula Cavalciuk, foto Camila Fontenelle
O Brasil tem tradição de grandes cantoras. E a cada ano, surgem tantas cantoras novas que é difícil se destacar em meio a concorrência.

Em 2016, uma das cantoras mais interessantes que ouvi foi a sorocabana Paula Cavalciuk.

E não foi só eu que achei, não. Seu primeiro álbum, Morte & Vida, rendeu à Paula, de cara, uma indicação de artista revelação da música brasileira pelo júri da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Enquanto escrevo isto, Paula e banda de três músicos se revezam na direção de um carro rumo ao Nordeste, onde farão turnê por oito estados.

Em Salvador, eles se apresentam sexta-feira, na Tropos. Eu sei que a cidade tá agitada, o verão tá bombando e tal. Mas se eu fosse você, reservava espaço na agenda para conferir Paula e sua banda.

“A gente acredita muito na estrada como ferramenta de transformação, de formação de público. E o Nordeste sempre foi um destino pretendido, pela cultura riquíssima que só chega a conta-gotas pra nós do Sudeste”, conta Paula.

“(A turnê é) Tudo feito na raça e na coragem. Todo o longo percurso de quase oito mil quilômetros será feito de carro, revezamento de direção e bora lá, porque esperar as oportunidades baterem à nossa porta tá difícil, ainda mais nesse período político doido, de desmonte da cultura, etc. Bora cair na estrada”, convida.

A faixa de abertura do seu álbum, Morte & Vida Uterina, versa na letra sobre questões de opressão contra as mulheres. Quando mais uma notícia de estupro coletivo - algo que parece ter se tornado rotineiro - foi explorada pela mídia, Paula convidou fãs, amigos e contatos de redes sociais para enviarem mensagens em vídeo.

O resultado é clipe aí embaixo.



Paula e banda, foto André Pinto
"O machismo é parte da estrutura da nossa sociedade colonizadora e seu combate só se dá com a prática de empatia, auto-análise e exercício diário de tudo isso. Quando os homens entenderem que também perdem muito com o represamento de seus reais sentimentos, com o cumprimento de expectativas de como ser um macho, talvez caminhemos lado a lado e fique mais fácil e fluído", afirma Paula.

"Com a ascensão dos meios de comunicação, tudo veio à tona, as opressões, mas também o inconformismo. A gente não fica mais calada diante da injustiça e esse barulho ameaça os privilégios dos grupos opressores, então isso incomoda pois ninguém quer abrir mão de privilégios, nem para equalizar melhor a sociedade. Mas eu sou otimista e prefiro seguir o caminho da compreensão nesta luta. Penso que não são os piores tempos para se viver, em termos de opressão, eles são só mais transparentes porque as máscaras caem e isso facilita saber quem está do seu lado e quem ainda poderá estar, se quiser compreender", reflete.

Sem auto-engano

Cheia de personalidade, Paula é dona de uma voz que é, digamos, só dela. E olha que ela até tentou não ser artista. Mas não teve jeito, a música falou mais alto. Até por que ela sempre fez parte de sua vida.

No You Tube, um vídeo de Paula cantando em dueto com sua irmã, Lucile, não deixa dúvidas de que o talento é coisa de família.

"Lucile é minha irmã, minha metade. A criança com quem desenvolvi a fala, o canto, o humor, os medos. Duas meninas que viveram boa parte da vida no meio do mato (interior do Vale do Ribeira) e criaram uma linguagem própria, um universo para fugir do tédio e do mundo dos adultos. Nós mapeávamos os tipos de dicções, sotaques, jeito de falar e cantar das pessoas. Tudo que era diferente de nós, era fascinante. A música sempre esteve presente em nossa formação, pois a TV pegava mal e o rádio não pegava de jeito nenhum, então o jeito era ouvir os discos do meu pai (de Beatles a Duduca e Dalvan). Minha mãe tinha música em suas veias, um cantar profundo, simples, sofrido e o palco que lhe coube foi o grupo de canto da capelinha que ela mesma construiu em nosso quintal. Eu e a Lucile acompanhávamos minha mãe e nossos timbres muito parecidos e afinados, junto com a facilidade em assimilar diferentes músicas, sempre facilitaram a tarefa de ensaiar um bom coral", conta.

Paula. Foto Camila Fontenelle
“Não consigo me lembrar da minha primeira cantarolada, mas eu ainda nem frequentava a escola, quando cantava na igreja, coisa de 4, 5 anos de idade. Na adolescência eu já morava em Tapiraí e o contato com a rádio, o empréstimo de CDs, as revistas de música me trouxeram outras opções e referências. Acho que a música sempre foi tão vital pra mim que talvez por isso eu só tenha encarado a opção de viver dela aos 25. Antes, eu estava presa às lendas de mercado competitivo, tutoriais de como se dar bem numa entrevista de emprego, etc. Mas bicho do mato preso em escritório não dá muito certo e depois de muito penar com as divisórias de eucatex e a pilha de papelada sempre atrasada em cima da minha mesa, fui cantar em barzinhos com meu amigo Vinicius Lima (hoje, guitarrista da minha banda) e estamos aí”, acrescenta.

O resultado está no álbum, disponível para download e já reconhecido pela crítica - algo que a surpreendeu.

“Eu fiquei muito feliz! A gente quando tá imersa dentro de um processo (composição, gravação, lançamento) perde um pouco a noção do todo, do seu próprio tamanho. Cantar minhas músicas para outras pessoas é uma conquista bem recente, começou, de fato, em 2014 e veio de um exercício de conquistar auto-confiança. Eu comecei a responder minhas dúvidas, minhas perguntas mentais, mostrava minhas músicas para pessoas próximas, depois para estranhos e fui perdendo a vergonha, gostando da sensação, e mais ainda, da sonoridade que eu fui alcançando. Depois que vi meu vizinho cantarolando uma música minha no estacionamento do prédio, eu pensei ‘acho que agora eu posso cantar pra qualquer pessoa’”, afirma.

Sexta-feira, Paula finalmente traz seu próprio show à cidade. Antes, ela veio à Salvador com o show
Dolores in Blues, com repertório da Dolores Duran.

"A primeira vez que estive em Salvador foi em 2014 apresentando o show "Dolores in Blues", com repertório da Dolores Duran, em arranjos de jazz e blues. Na ocasião, foi uma correria danada e só deu tempo de dar entrevistas e tocar. Eu voltei embora aos prantos, pois desde que botei os pés nessa cidade senti uma vontade de conhecer, zanzar por aí, pisar no chão, conhecer a história. Só deu tempo de tomar uma cachaça no Cravinho, mas desta vez, quero curtir a cidade um tantinho mais", lembra.

"A Bahia é maravilhosa! Tem uma coisa, uma arte pulsante, então a música é coisa de doido! Não tem como não falar de música brasileira sem citar a importância de Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa, Daniela Mercury, Novos Baianos, Raul Seixas, mas há de se admitir que produção musical baiana vem se reinventando dum jeito bem bonito, com BaianaSystem, Marcia Castro, Vivendo do Ócio, Maglore. E como não falar da minha querida amiga baiana Assucena Assucena, que ao lado de Raquel Virginia, toma a frente duma das mais importantes bandas da atualidade, As Bahias e a Cozinha Mineira. Bahia é muito amor mesmo", conclui Paula.

Paula Cavalciuk: Morte & Vida / Sexta- feira, 21 horas / Tropos (Rua Ilhéus, 214) /  Pague quanto puder

Ouça, baixe: www.paulacavalciuk.com.br



NUETAS

Sens, Hot Coffees

As bandas Sens e The Hot Coffees tocam no Quanto Vale o Show? de hoje. Dubliner’s, 19 horas, colaborativo.

Dórea, Squeeze, Bia

O Hot Dougie’s Rendezvous (Porto da Barra) está com uma baita oferta de bons sons. A coluna indica Dórea (sábado, 16 horas), Squeezebox (sábado, 18 horas) e Bia Táui (domingo, 16 horas). O primeiro faz Neil Young e Bob Dylan, o segundo é uma superbanda de clássicos do rock e a terceira canta soul. Tudo free.


FUBA sábado no MAM

Astralplane, Kazenin Máfia, Nágila Maria, Daniele Moreira, WWL Rap, Afrochoque e Novas Escutas tocam no FUBA (Festival Universitário Baiano de Arte e Cultura). Sexta, 10 horas, no MAM.

sábado, janeiro 14, 2017

O BLOCO DAS MICRO-RESENHAS 2017 ABRE ALAS E PEDE PASSAGEM

Uma vida sem limites


Lançada pela Conrad em 2000 e esgotada há anos, esta biografia do cultuado escritor Charles Bukowski (1920-1994) volta às livrarias em nova edição pela Veneta. Sounes fez um bom trabalho de pesquisa, entrevistas e buscou ser imparcial, a fim de revelar as diferentes faces do Velho Safado: o menino aterrorizado pelo pai, o jovem sem rumo, o adulto alcóolatra, o poeta underground, o ídolo dos doidões. Livro essencial para os fãs. Bukowski: Vida e loucuras de um velho safado / Howard Sounes / Veneta / 384 p./ R$ 59,90




Périplo interestelar

Uma das melhores séries de HQ atuais, a ficção científica Saga mostra a fuga do casal Marko e Alana, soldados de duas raças em guerra, e seu bebê, Hazel, pela galáxia. No caminho, estranhos aliados e caçadores de recompensa mais estranhos ainda. Poderia ser banal, mas o escritor Brian K. Vaughan (Y: O Último Homem, Lost) tem ótimo ouvido para diálogos bem-humorados e viradas de trama inesperadas. Arte majestosa de Fiona Staples. Saga - Volume 3 / Brian K. Vaughan e Fiona Staples
/ Devir / 152 p. / R$ 65




Um escritor necessário

Um dos grandes gênios de nossa literatura, Lima Barreto (1881-1922), tem reunidos aqui dezenas de textos e crônicas para diversas publicações cariocas entre os séculos 19 e 20. A maioria jamais foi republicada, o que torna este volume uma verdadeira preciosidade já de antemão. O trabalho hercúleo da organização foi do pesquisador Felipe Botelho Corrêa. Atualíssimo, Lima deixou para a posteridade  lições como esta, sobre a troça: “Nada de violências, nem barbaridades. Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo. O ridículo mata e mata sem sangue”. Sátiras e Outras Subversões / Lima Barreto / Penguin Companhia/  552 p./ R$ 44.90 /  E-book: R$ 30.90


Resgate parisiense-recifense

Clássico da discografia de Alceu, Saudade foi gravado em Paris e lançado de forma independente, com poucas cópias. Agora volta via Deck. Essencialmente acústico (violas do mestre Paulo Rafael), é uma joia da música nordestina. Alceu Valença / Saudade de Pernambuco / Deck / R$ 29,90







O Natal já passou, mas a ideia fica

Bela coletânea de canções natalinas com renda revertida ao NASPEC (Núcleo Assistencial para Pessoas com Câncer). Tem Alavontê, Luiz Caldas, Eric Assmar Trio, Retrofoguetes,  Lazzo, Saulo, Durval, Eva etc. Belo disco, boa causa. Vários artistas / Natal Feliz pra Todos / Independente / R$ 25







Potencialmente promissora

Bem rodada nos palcos do Rio de Janeiro, a  banda Drenna, liderada pela cantora homônima, faz um álbum de rock competente, mas sem grandes novidades. Vale ouvir Ela Vai Chamar Sua Atenção e Anônimo. Drenna / Desconectar / Toca Discos / Preço não informado







Piano arrojado

Um dos maiores talentos do piano contemporâneo no Brasil, Leandro Cabral explora territórios  pouco usuais no jazz ortodoxo, como toques de ijexá (Alfa) e samba  reggae sutil (O Amor Que Se Deu). Não a toa, Letieres Leite é fã declarado. Leandro Cabral Trio / Alfa / Independente / R$ 25







Releituras contemporâneas

Virtuose do violão, Badi Assad investe em repertório de  pop alternativo contemporâneo, relendo hits de Lorde (Royals), Alt-J (Hunger of The Pine), Hozier (Sedated), Skrillex (Stranger) etc. Resultado interessante, oxalá a molecada ouça. Badi Assad / Singular / Eldorado / R$ 24,90







Fatto con amore

Descendente de italianos, o paulista Carlos Careqa foi em busca das raízes às margens do Rio Po e de lá voltou com esta leva de composições, gravadas ao vivo. Teatral, irônico e vigoroso, um manifesto digno de um Dario Fo. Bravo. Carlos Careqa / Facciamo L'amore / Independente / R$ 24,90







Conta aquela história da Princesa de novo

Nem o Lado Negro da Força é suficiente na hora de Darth Vader botar as crianças Luke e Leia para dormir. Nesta nova HQ indicada para crianças, o Lorde Sombrio dos Sith passa maus bocados nas mãos do quadrinista Jeffrey Brown (Academia Jedi). Fofura e bom humor para jovens padawans. Boa Noite, Darth Vader / Jeffrey Brown / Aleph / 64 p./ R$ 32,90






Cai o pano vermelho

Prêmio Nobel de Literatura de 2015, a jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch cria em seus livros grandes paineis nos quais dá voz a todos os envolvidos em suas monumentais reportagens. Aqui, ela investiga a dissolução da mentalidade soviética. O fim do homem soviético / Svetlana Aleksiévitch / Companhia das Letras / 600 p. / R$ 64,90 / E-book: R$ 39,90







Creindeuspai

Legítimo representante do novos autores do terror nacional, Bravo amplia neste livro a mitologia do anterior, Além da Carne. Pactos demoníacos (selados em latim, claro) e intrigas entre o céu e o inferno dão a tônica dos quatro contos aqui apresentados. Sangue, rituais, sexo e muito terror. Ultra Carnem / Cesar Bravo / Darkside/ 384 p./ R$ 49,90







Um pingo no oceano alucinógeno

Maestro da anarquia, gênio indomável, iconoclasta incansável. Zappa era (é) um oceano em forma de música e ideias mirabolantes. Conhece-lo por meio desta coletânea é como pingar uma gota deste oceano alucinógeno bem no olho. Frank Zappa / Zappatite / Universal / R$ 29,90







O samba baiano está vivo e chutando

Legítimo representante do samba de raiz baiano, o Grupo Botequim bota todos os seus bambas em campo e dá de goleada neste álbum. Tem samba de roda, de breque, samba canção, partido alto, choro. Bonitão. Grupo Botequim / Festa no Botequim / Independente / Preço não divulgado






Power trio avant garde

Após três anos de atividades, o trio avant-garde local Laia Gaiatta lança seu primeiro trabalho, o EP Vaia. São três faixas: Pátria Mingau, Circo Pobre e Peixebook. Letras irônicas, guitarras dissonantes e um oboé alucinando. Laia Gaiatta / Vaia / Sê-lo! / Ouça: www.laiagaiatta.bandcamp.com