sábado, outubro 08, 2016

CAMINHANDO E MICRO-RESENHANDO E SEGUINDO A CANÇÃO ETC E TAL

Too much information

Famosa no Brasil no fim dos anos 1980, o trio synth-pop Information Society recorre ao LP de covers. Há releituras de hits do Devo (Beautiful World), Human League (Don’t You Want Me), Sister of Mercy (Dominium) e excentricidades a fim. Information Society / Orders Of Magnitude/ Lab 344 / R$ 29,90







Erudição em família

Violonista e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), Arthur Nestrovski junta-se à cantora (e filha) Lívia para recriar  uma coleção de composições de Ary Barroso, Arrigo Barnabé, Schubert e Tom Jobim. Delicado. Lívia e Arthur Nestrovski / Pós você e eu / Circus / R$ 34,90







Conspiração hipster

Deisy, uma ilustradora hipster, se envolve em uma estranha conspiração envolvendo extraterrestres e abduções alienígenas enquanto vaga entre casas noturnas, festinhas e cafés descolados. Sempre ao seu lado, seu cachorro Lino. A princípio interessante, esta HQ se perde na própria pretensão. Bulldogma / Wagner Willian / Veneta / 320 p. / R$ 59,90







Suicidando suicidas

Em primeira pessoa, o narrador conta suas aventuras como assassino de suicidas sem coragem. Inspirado em notícias reais publicadas em revistas semanais, o protagonista coloca um anúncio no jornal e aguarda os clientes. Este é o oitavo romance do autor maranhense. O Ofício de Matar Suicidas / José Ewerton Neto / Arte Paubrasil / 111 p./ R$ 30







Ed detona

Gravado em Los Angeles com músicos feras do jazz, o novo do Ed Motta segue a linha do último, AOR (2013): produção (de Kamau Kenyatta) com sonoridade cristalina, grooves precisos e Steely Dan na veia. Jazz funk de primeiríssima. Ed Motta / Perpetual Gateways / Lab 344 / R$ 29,90







Ainda o afrobeat

De Araraquara (SP), Caê Rolfsen se alinha em seu segundo álbum ao movimento afrobeat paulista – não a toa, conta com músicos do Metá Metá e Bixiga 70. Balançado, deve agradar aos fãs do estilo. Caê / A nave de Odé / Independente / Preço não divulgado




Muito além d'A Massa

Conhecido pelo hit A Massa, Raymundo Sodré é um dos maiores nomes da música do Recôncavo. Neste novo álbum,  reafirma suas origens em sambas e forrós cheios de balanço e poesia. Alegria e apego às raízes. Raymundo Sodré / Girassóis de Van Gogh / Independente (Fundo de Cultura BA) / Preço não informado 





Stoner cearense

Liderada pelo guitarrista Felipe Cazaux, referência do blues no Ceará, o quarteto Mad Monkees estreia com EP de quatro faixas no qual pratica um stoner rock pesadão, com letras em inglês e sem concessões. Som trampado. Mad Monkees / Mad Monkees / Independente / R$ 10







A fonoaudióloga canta

Fonoaudióloga e orientadora do CORALUSP, a paulista Beth Amin tece tramas delicadas com sua voz e os arranjos suaves no seu terceiro CD. Há chanson (Le Même Heure), poesia (Alma Desnuda) e mais. Bonito. Beth Amin / Túneis / Independente - Tratore / Preço não informado







Livro com trilha sonora

Ex-membro da banda punk carioca Jason, Panço fotografou superfícies, redigiu textos curtos e confessionais, compôs 21 músicas instrumentais e lançou tudo junto neste livro que vem com um CD. Um belo e sensível manifesto. Superfícies / Leonardo Panço / Tamborete / 64 p. (inclui CD)/  Preço não informado/ Vendas: leonardopanco@gmail.com



Contra outra, paiê!

Com desenhos do fantástico Skottie Young (Rocky Racoon, da Marvel), Neil Gaiman conta a história de um pai que deixou faltar o leite das crianças. Ao sair para comprar, é sequestrado por um disco voador e se depara com aliens, piratas e vampiros. Lúdico. Felizmente, o leite / Neil Gaiman e Skottie Young / Rocco Jovens Leitores/ 128 p./ R$ 24,50/ E-book:R$ 16







Sorrisos entre automutilações

Fenômeno no Facebook, o cartunista catalão Joan Cornellà tem sua primeira obra editada no Brasil. Zonzo é uma coleção de HQs mudas, com quatro quadros e povoadas por seres sorridentes que, quando não se automutilam, o fazem com os outros. Com suas cores chapadas e design fofo, Cornellà estabelece um novo patamar em perversidade e humor negro. Zonzo / Joan Cornellà / Mino / 56 p. / R$ 48






O testamento do Camaleão

Passada a comoção da morte de David Bowie, ouvir seu testamento musical pode ser perturbador. É fúnebre, fantasmagórico em certos momentos. Mas também é adequado – e sim, genial. A faixa-título, em especial, é um épico espetacular. David Bowie / Blackstar / Sony / R$ 49,90







A vida do Killer

Gênio dos primórdios do rock ‘n’ roll, Jerry Lee Lewis incendiou pianos no palco e a moral da família tradicional ao se casar com sua prima de 13 anos. Nesta extensa e detalhada biografia, sua trajetória e os bastidores de uma época em que o rock ainda assustava as senhoras donas de casa. Jerry Lee Lewis: sua própria história / Rick Bragg / Ideal/ 480 p./ R$ 59,90






Brasileiros comuns em HQ

Premiado em Angoulême (França) este ano por uma HQ ambientada em Salvador, Quintanilha é, possivelmente, o melhor quadrinista pátrio vivo. Nesta coletânea de HQs curtas, flashes do brasileiro comum, que ele tão bem sabe retratar. Um narrador sofisticado e direto. Hinário Nacional / Marcello Quintanilha / Veneta/ 136 p./ R$ 49,90







Grandiloquência que cansa

O segundo álbum da banda carioca Baleia bebe com vontade nas fontes do Radiohead e Arcade Fire. O resultado, claro, soa grandiloquente e irregular. Há momentos, mas no geral, é cansativo. Baleia / Atlas / Sony Music / Disponível nas plataformas digitais / Preço Não divulgado







Trovador em easy listening

Trovador gaúcho consagrado no sul do país, Nei Lisboa relê parte de sua vasta obra ao vivo. Se o som é easy listening linha Steely Dan (baita elogio), as letras aliam poesia e desencanto com sensibilidade. Nei Lisboa / Telas, Tramas & Trapaças do Novo Mundo – Ao Vivo / natura Musical / R$ 39,90







Ensaios literários

Subtitulada Ensaios sobre artistas e escritores, esta coletânea de textos da articulista da revista New Yorker  traz suas afiadas análises sobre gente do porte de JD Salinger, Diane Arbus, Virginia Woolf e outros. Jornalismo literário atual por uma de suas melhores representantes. 41 Inícios falsos / Janet Malcolm / Companhia das Letras/ p./ R$ 54,90/ E-Book: R$ 37,90







País rachado em rimas

Envelopado em arranjos sofisticados, o rapper Rashid estreia com forte manifesto em que dá conta de um país rachado, que mostra sua cara feia nos discursos de ódio das redes sociais e na indiferença pelo próximo nas ruas. Paulada. Rashid / A coragem da luz / POMMELO / R$ 19,90







Placebo ainda emociona

Apesar do formato esgotado, o Unplugged MTV do Placebo funciona graças ao bom repertório da banda liderada por Brian Molko. Os arranjos podiam ser mais vivazes, mas hits como 36 Degrees e Without You I’m Nothing ainda emocionam. Placebo / MTV Unplugged / Universal Music / DVD: R$ 39,90 / CD: R$ 29,90






Fã e ídolo

Cultuado autor britânico de origem paquistanesa, Kureishi faz aqui uma bem humorada crítica à fogueira de vaidades do mundo intelectual e editorial. Quando um jovem escritor pesquisa a vida do seu ídolo para biografá-lo, depara-se com um gênio cínico e manipulador. A última palavra / Hanif Kureishi / Companhia das Letras/ p./ R$ 54,90/ E-Book: R$ 38,90






Austen em HQ

O clássico de Jane Austen ganha aqui uma adaptação de fôlego pelo roteirista  Ian Edginton e o desenhista Robert Deas, de traço anguloso  e elegante, adequado ao clima vitoriano. Óbvio, não substitui a leitura do romance, mas é ótima introdução. Orgulho & Preconceito / Jane Austen, Ian Edginton e Robert Deas / Nemo / 144 p. / R$ 39,90 / eBook: R$ 27,46







Conexão Brasil-Espanha

A voz quente e dramática da cantora espanhola Irene Atienza faz boa dupla com o violão brasileiro de Douglas Lora. O repertório tem Noel (Último Desejo), Gordurinha (Súplica Cearense), Baden / Vinícius (Samba em Prelúdio) etc. Irene Atienza e Douglas Lora / Parcerias / Casa do Som / Preço não divulgado






Estreia tardia, porém muito bem-vinda

Fundada em Salvador nos anos 1990, a Mercy Killing foi reformada em Curitiba pelo baixista Leo Barzi. Neste debut album, 16 pedradas thrash metal de altíssima octanagem. Destaque para a voz de Tati Klingel, que urra que é uma beleza. Mercy Killing / Euthanasia / Independente / Vinil: R$ 90 / CD: R$ 25







Poeta underground

Ex-Sombra Sonora, o baiano Marconi Lins estreia solo em álbum onde reafirma sua veia de poeta underground. A gravação da bateria é meio ruim, mas o punch roqueiro compensa, em faixas como O Tempo e Moscou Amsterdã. Marconi Lins / Idem / Independente / R$ 15 / Baixe: www.marconilins.com







Alceu não brinca em serviço

Trilha sonora de Alceu Valença para o filme homônimo, dirigido por ele mesmo. Em faixas e vinhetas curtas, é um mergulho no imaginário do Nordeste profundo, dialogando com o agora. Só um cara como Alceu, mesmo. Premiada em Gramado. Alceu Valença / A Luneta do Tempo / Deck / CD duplo: R$ 50,90







Boa estreia

Afinadíssima, a carioca Clara Gurjão estreia bem com um álbum de MPB descontraída, sem aquela preocupação de soar “moderna” que acomete tantos novos artistas. Artista pronta, poderia ter faixas como O Mundo É Tentador, Rapaz nas rádios. Clara Gurjão / Ela /  Independente - Tratore / R$ 19,90







Fantasia no caminho

Segunda parte da Trilogia Elenium, do escritor de fantasia David Eddings. Com a Rainha Ehlana enferma, Sir Sparhawk e seus aliados parte em busca da cura em território cheio de perigos e terror. Em seu encalço, uma criatura das sombras, capaz de rastrear seus passos. O Cavaleiro de Rubi / David Eddings / Aleph / 376 p. / R$ 46,90







Feminismo básico

Um dos documentos fundadores do feminismo, este livro da pensadora  iluminista Mary Wollstonecraft (1759-1797) reivindicava o acesso à educação para as mulheres. Precursora do amor livre, MW é referência fundamental para Simone de Beauvoir. Reivindicação dos direitos da mulher / Mary Wollstonecraft / Boitempo/ 256 p./ R$ 53







Gil no osso

A cantora e percussionista Vanessa Moreno junta-se ao contrabaixista Fi Maróstica para um tributo  a Gilberto Gil. Canções expostas ao osso em arranjos espartanos e muita afinação. Tenha o prazer. Vanessa Moreno e Fi Maróstica / Cores Vivas: Canções de Gilberto Gil / Independente / Preço não informado







Virtuoso das teclas

Pianista para nomes tão díspares quanto Céu, Dominguinhos e Teatro Mágico, Guilherme Ribeiro mostra sua produção própria neste quarto álbum solo. Virtuoso das teclas, relê Canto de Ossanha (Baden e Vinícius). Guilherme Ribeiro / Tempo / Sound Finger / Preço não informado







Lamento negro 21

Em um cenário de ostentação e egolatria, o rapper norte- americano Kendrick Lamar surge como a luz no fim do túnel. Premiadíssimo, este lamento negro do século 21 junta George Clinton, Isley Brothers e Fela Kuti para mandar seu recado. Kendrick Lamar / To Pimp A Butterfly / Universal Music / R$ 42,90







Assassinatos ilustrados

Compêndio de relatos curtos de assassinatos, compilados pelo autor espanhol Max Aub (1903-1972) e ilustrados pelo argentino Liniers (da cultuada série Macanudo). Os motivos (e métodos) são os mais absurdos: do garçom demorado à traição, há de tudo. Crimes exemplares / Max Aub / Livros da Raposa Vermelha / 96 p./ R$ 34,90







Nulidade gringa

Pense em uma trilha sonora de comercial para uma operadora de telefone celular. Agora piore umas dez vezes mais. É mais ou menos como soa a banda American Authors, uma dessas nulidades gringas que as gravadoras despejam por aqui. American Authors / Oh, What a Life / Universal / R$ 29,90







Erudito carioca

Peças inéditas em gravações do compositor erudito carioca Tim Rescala, executadas por nomes acima de qualquer suspeita, como Quinteto Villa-Lobos, Quarteto Radamés Gnatalli, Maria Teresa Madeira (piano) Jessé Sadoc (trompete). Tim Rescala / Sete vezes / Pianissimo / R$ 25

quinta-feira, outubro 06, 2016

TRÊS DÉCADAS SOMBRIAS

Há 30 anos, HQs como O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Maus mudaram a paisagem dos quadrinhos e da cultura pop para sempre

Batman de Dave McKean em Asilo Arkham: sombrio é apelido
Bonzinho era o Superman do seu avô. Hoje, o Azulão é capaz de matar para proteger a humanidade (como no filme O Homem de Aço, de 2013).

Já na série Demolidor (Netflix), do herói chifrudo da Marvel, cabeças rolam e membros são decepados a golpes de espada.

Tudo isso parece muito normal no mundo ultraviolento e radicalizado de hoje. Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que super-heróis simbolizavam justiça e inspiravam pureza. Há 30 anos, isso foi enterrado de vez.

Há 30 anos, HQs como O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Maus eram lançadas, encerrando a chamada Era de Bronze dos Quadrinhos (de 1970 a 1985) e iniciando a Era Moderna – ou, mais adequadamente, Era das Trevas, na qual estamos até hoje, pelo menos até segunda ordem.

Na Era Moderna, os super-heróis ganharam licença para matar, pirar, entrar em crises de identidade, de consciência, trocar de lado, brincar de deus, ser juiz, júri, carrasco.

Em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, um Batman envelhecido retorna à ação para salvar Gotham City mais uma vez. Escolhe uma menina adolescente para ser a nova Robin, mata o Coringa e dá uma surra no Superman – que aliás, foi retratado como  um moleque de recados do presidente.

Rorschach (Watchmen), um dos personagens símbolo da Era Moderna
Em Watchmen, Alan Moore e Dave Gibbons imaginaram um mundo onde o surgimento de um único superser com poderes semidivinos desequilibra de vez o tabuleiro do poder mundial, em uma obra cheia de questionamentos filosóficos e políticos e desdobramentos dramáticos.

Em Maus, o artista Art Spiegelman conta a história dos seus pais, sobreviventes de Auschwitz, com riqueza de detalhes e a carga psicológica pesada que o tema exige.

Não a toa, estas (e outras HQs da época) foram múltiplas vezes premiadas e homenageadas ao longo dos anos, fazendo de 1986 “o ano que mudou os quadrinhos”.

Claro que as coisas não são tão estanques assim. 1986 cristalizou um movimento que havia se iniciado no fim dos anos 1960, quando a contracultura invadiu as HQs a partir dos comix marginais de Robert Crumb e Gilbert Shelton.

“O primeiro grande fator que leva a isso acredito ser o enfraquecimento do Comics Code, o código de ética que desde a década de 1950, vinha limitando a criatividade dos artistas, que tinham que criar histórias mais puras, digamos”, afirma Lucas Pimenta, editor e proprietário da comic shop local Katapow!.

Harry doidão em Homem-Aranha, já início dos anos 1970
Os reflexos no mainstream foram rápidos, com o Homem-Aranha tendo de lidar com seu amigo Harry viajando de LSD e o Arqueiro Verde flagrando seu parceiro mirim Ricardito com uma seringa no braço – para ficar só nos exemplos mais famosos.

"Com a influência da contra cultura, da efervescência política nos EUA na década de 80, esses novos autores sentiam a necessidade de contar histórias mais reais, explorando estéticas e estilos que o cinema já vinha explorando e com histórias mais maduras. Então foi uma junção de tudo isso. Era uma necessidade de usar a fantasia para solucionar os problemas do mundo real... Pelo menos nas páginas dos quadrinhos", observa Lucas.

Depois de 1986, a paisagem das HQs – e da cultura pop em geral – mudou de vez, com temáticas adultas ganhando proeminência. As consequências são sentidas até hoje.

Nos quadrinhos mainstream, o sucesso de HQs como Monstro do Pântano (de Alan Moore) e Sandman (1988), de Neil Gaiman, levou à criação do selo Vertigo, da DC, até hoje a maior referência em HQs adultas nos Estados Unidos.

Os jovens que leram estas HQs na época  cresceram e foram fazer suas próprias HQs, filmes, série de TV e games.

Resultados? Preacher, Y: O Último Homem, Supremos, Game of Thrones, Grand Theft Auto e por aí vai.

Batman toma e dá muita porrada em Cavaleiro das Trevas
Claro quem nem tudo são flores (secas) no jardim cinzento da Era Moderna.

O quadrinista baiano Flávio Luiz (Aú, O Cabra) é um grande crítico dessa estética.

“Sempre acreditei que a função primeira dos quadrinhos era o entretenimento. A coisa ficar pesada e densa, para mim, afastou muito leitores como eu”, afirma.

"Mas Will Eisner sempre apostou na capacidade da HQ em contar historias mais profundas, sem perder sua missão de entreter. Joe Kubert (Sgt. Rock) Schulz (Peanuts) também fizeram isso. A influencia do quadrinho japonês e europeu no trabalho de Frank Miller foi o que norteou essa 'mudança', já que ele, desde os tempos de Demolidor, oferecia histórias criativas com um cunho mais sério e profundo. O retorno em vendas foi o que garantiu que sua proposta inovadora e muitos o seguiram, com as editoras dando carta branca para quem quisesse embarcar nessa nova onda. Na Europa e no Japão, as histórias oferecidas já traziam um conteúdo mais profundo e complexo, mas como tem que acontecer nos EUA para se ter uma repercussão dessas, tome lá", observa Flavio.

Ele lembra que, depois, até precursores e arquitetos desta linguagem, como John Byrne e Alan Moore, buscaram suavizar sua abordagem, em busca da leveza perdida: "Concordo com Byrne ,de quem sou fã há mais de 40 anos. Ele tem histórias muito ricas, com temáticas sérias e profundas, tanto trabalhando com o Claremont quanto sozinho. Seu trabalho em Next Men ou em Cold War,  ou mesmo na reformulação do Superman prova disso, mas conserva a missão do encantamento, do escapismo necessário a quem admira esse tipo de arte. A 'overdose de realidade' dos autores modernos pós-Miller acabou prejudicando o surgimento de novos leitores e, à longo prazo, até afastando muitos, como eu, de manter a leitura na regularidade que estava acostumado. Acho que, baseado na criança que fui e que conservo em mim, não vejo historias mais 'tranquilas' e 'faceis de ler' como algo depreciativo. Reflito isso em meu trabalho até mesmo como O Cabra, onde abordo questões sérias, mas com leveza e objetividade. Tentar transportar para os quadrinhos tanta realidade dificulta o trabalho, torna-o pesado, chato, tanto pra quem faz, como pra quem lê", afirma.

“Alan Moore, no seu Tom Strong, mostra um caminho que devia ser mais apreciado. Não levar tão à sério facilita a relação autor / leitor”, diz.

Rei do Crime na arte de B. Sienkiewicz em Amor & Guerra
“Mike Allred, no novo Surfista Prateado, também acerta nessa postura. Em determinado momento, num diálogo que tenta levar a coisa para essa complexidade nociva atual, o Surfista responde sempre: ‘poder cósmico’. E é suficiente. Pelo menos, deveria ser”, acredita.

Enfim, o que surgiu como inovação,  foi banalizado pela indústria. A lição que fica é que não importa se você é “sombrio” ou “colorido”: o importante é sem criativo.

"Tenho tido contato com crianças leitoras de HQ graças ao Aú, e percebo um grau maior de 'maturidade', retrato dos novos tempos, mas também vejo clara a vontade de querer se divertir antes de tudo com uma boa leitura. Se é bem feito, criativo, ,não precisa pesar a mão em complexidade e informações técnicas que justifiquem o que está sendo contado da realidade. O caso do sucesso de Harry Potter é um pouco do que quero dizer. Existe mais do que a realidade, existe uma riqueza lúdica poderosa que preenche anseios do leitor de todas as idades e que justificam tanto sucesso", destaca Flavio.

"Tudo que faz sucesso, tende a ser copiado repetidas vezes até à exaustão. Com as histórias surgidas na Era Moderna foi assim também. Toda uma geração de autores que surgiram após Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, John Byrne, Chris Claremont entre outros, foram no rastro desses autores. E a própria indústria querendo seguir a mesma fórmula, para tentar repetir sucessos. Então os quadrinhos nos EUA sofreram sim essa influência negativa da Era Moderna. As principais editoras dos EUA estão hoje tentando resgatar a inocência nas HQs, com histórias bem elaboradas, e que possam agradar públicos de todas as idades, mas ainda é perceptível essa questão histórica", acredita Lucas.

“Acredito mesmo é que os quadrinhos precisam ser vistos e valorizados como forma de arte, até mesmo pela indústria que os produz, e que os autores tenham mais liberdade criativa para contar suas histórias, sem sofrer tanto o peso das "amarras" editorias. Quando isso acontecer, os EUA terá um mercado criativo forte para a Nona Arte, como existe no poderoso quadrinho franco-belga”, conclui Lucas Pimenta.

CINCO DICAS DE LEITURA DOS PRIMÓRDIOS DA ERA MODERNA

Watchmen (1986)

Um superser de poderes semidivinos surge na Terra e se depara com a humanidade à beira da guerra nuclear. Ele então se retira para Marte, onde filosofa se merecemos ou não sobreviver como espécie





Asilo Arkham (1989)

De Grant Morrison, com arte do inglês Dave McKean, mostra Batman tentando conter uma rebelião no asilo onde ficam presos o Coringa e demais vilões. O vilão aparece de salto alto e passa a mão no bat-derriére: “Relaxa, bundinha de ferro”. Inspirou uma série de games








Demolidor: Amor e Guerra (1986)

Graphic novel de Frank Miller, com a arte impressionista  de Bill Sienkiewicz. O Rei do Crime manda um psicopata sequestrar a esposa de   um psiquiatra e o chantageia para tratar sua esposa Vanessa, catatônica após um atentado a bomba








Maus: A história de um sobrevivente (1986)

Obra-prima de Art Spiegelman, é a única HQ premiada com o Pulitzer. Mostra a via-crúcis dos pais do autor em Auschwitz, campo de concentração do monstruoso Dr. Mengele. Psicológica, mostra também as graves consequências do período na sanidade mental do casal






O Cavaleiro das Trevas (1986)

Uma das HQs mais cultuadas de todos os tempos, mostra um Bruce Wayne aposentado retomando o manto do Batman para botar ordem em Gotham City. Frank Miller atira para todo lado: autoridades, mídia, Superman, populares, gangues de rua. Tudo é sordidez e só Charles Bronson (Batman) pode restabelecer a ordem e a paz. Nem que seja quebrando a cara de todo mundo

terça-feira, outubro 04, 2016

RICARDO ELÉTRICO, QUE TOCA NA NOITE NHL, FAZ INDIE ROCK CHEIO DE NONSENSE

Lucas, Aniel e Alon. Foto Bruna Castelo Branco 
Em tempos idos, dizia-se que as bandas de indie rock locais faziam “rock triste” – rótulo que acabou pegando e usa-se até hoje, dada a alta carga de melancolia que o indie rock original gringo trazia, uma herança da geração no future punk e pós-punk, que vivia sob a ameaça de aniquilação nuclear da Guerra Fria.

Com o passar das décadas, o indie rock foi mudando de perfil e – para o bem ou para o mal –  substituindo a melancolia por outros elementos, como ironia, nonsense, um certo hedonismo.

O trio Ricardo Elétrico é um bom exemplo desse indie rock contemporâneo.

“A banda surgiu com a proposta de não ter gênero definido, porém possuímos diversas influências desde o rock alternativo, passando pelo emo, hip hop experimental, rock progressivo e o matemático. O que nos inspira é justamente a necessidade produzir algo que não encontrávamos no cenário nacional”, apresenta Lucas Nunes, guitarra e vocal.

"O nome Ricardo Elétrico surgiu de uma brincadeira durante um dos ensaios da banda em 2012, quando dizíamos que iríamos parar de fazer rock para fazer música eletrônica, daí, alguns meses depois, decidimos que Ricardo Elétrico era realmente um nome bom, pois representa a forma despretensiosa que lidamos com a nossa imagem", relata.

Se, no instrumental, chega a lembrar a saudosa gaúcha Superguidis, as letras são puro nonsense – de um jeito bem divertido.

A começar pelos títulos: Ela Me Disse Que Toda Criatura Viva Morre Só, De que Adianta, Se Amanhã Eu Posso Acordar Como Um Fazendeiro Em Bangladesh e Talvez Ela Crie Asas e Se Junte Ao Circo  são apenas três exemplos.

“Os títulos das canções possuem referências que, talvez, possam parecer obscuras ou nonsense ao público, embora não sejam”, afirma Lucas.

“O nonsense é uma doença que aflige aos três integrantes da banda. Gostamos dele nas músicas,  filmes, livros, humor, etc. É algo que faz parte da cultura ricardoelétrica. E, talvez, também porque nossas cabeças não funcionem muito bem”, acrescenta.

"Aniel (bateria) tinha uma banda com Alon (baixo), banda que surgiu no colégio, em 2009, e não teve progresso. Logo em seguida, em 2010, Aniel montou uma banda com Lucas (guitarra) através de um amigo em comum, que também não teve progresso. Já em 2011 formamos a Ricarco Elétrico - que na época se chamava Ilena Ersoas", conta.

Na terça-feira que vem (dia 11), véspera de feriado, Lucas, Alon Graziliano (baixo) e Aniel Soares (bateria) se apresentam em mais uma Noite NHL com as bandas Amandinho (de Recife), Rivermann, Derrube o Muro e Buster.

“Quando inciamos a banda, tínhamos uma média de dois a três por ano. Quando conhecemos NHL a partir de um contato de Cairo Melo, passamos a fazer apresentações com maior frequência, o que gerou uma maior uma visibilidade em torno da banda. Para além disso, a NHL tem contribuído bastante para a cena local, fazendo uma movimentação crescente, inclusive trazendo muitas bandas de outros estados. Vivemos um momento de grande otimismo com relação a esse cenário”, afirma
Lucas.

"Pretendemos lançar um álbum, talvez esse ano, que represente melhor a fase atual da banda - já que o registro que possuímos, o ep, reflete apenas a fase incial da banda. Embora não tenhamos condições financeiras para emplacar uma turnê, há uma ambição em levar nossa música aos quatro cantos da terra. A dominação mundial é iminente", conclui.

Noite NHL - Com: Amandinho (PE), Rivermann, Derrube o Muro, Ricardo Elétrico e Buster / Terça-feira (dia 11) / Buk Porão / 20 horas, R$ 10



NUETAS

Rosa Idiota, Macumba

Rosa Idiota e Macumba Love estão no Quanto Vale o Show? hoje. Dubliner’s, 19 horas.

Baggios quinta-feira

O Festival Radioca lança sua edição 2016 com o fantásticos sergipanos The Baggios. Quinta-feira, no  Portela Café, 20 horas, R$ 20.

Retrofoguetes & Ivan

Retrofoguetes e Ivan Motosserra mandam ver no  Dubliner’s: sexta-feira, 22 horas. R$ 15 (até 00h) e R$ 20.

André Mendes free

André LR Mendes (Maria Bacana) faz show de lançamento do disco Todas as Cores. Sábado, no Haus Kaffee (Pátio do ICBA), 19 horas, gratuito.

segunda-feira, outubro 03, 2016

O HORROR É REAL

Nobel de Literatura 2015, bielorussa Svetlana Aleksiévitch tem dois livros lançados no Brasil: Vozes de Tchernóbil e A guerra não tem rosto de mulher

Svetlana. Foto Elke Wetzig / Wikicommons
Mark Twain uma vez disse que “a diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido”.

Certamente, a  jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch tem uma compreensão profunda deste fato. Não a toa, os relatos orais que ela apresenta em seus livros lhe valeram o prêmio Nobel de Literatura em 2015.

Neste ano, coincidindo com a visita da autora ao Brasil durante a última Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, a Companhia das Letras começou a publicar seus livros no Brasil, com tradução direto do original russo.

Primeiro, saiu Vozes de Tchernóbil, traduzido por Sonia Branco. Mais recentemente, chegou às livrarias A guerra não tem rosto de mulher, vertido para o português por Cecília Rosas. Outros virão.

Os dois já publicados compartilham uma estrutura idêntica: são compilados de relatos orais, colhidos pela autora, de centenas de pessoas.

Juntas, as histórias que essas pessoas contam formam uma história maior e até então não revelada.

Juntos, seus livros contam uma outra história, ainda maior: o fim dos homens e mulheres soviéticos.

Catástrofe nuclear

Ocorrido há 30 anos, o desastre nuclear de Tchernóbil assombrou o mundo por várias (e óbvias) razões.

Mas talvez a principal – para o mundo ocidental, especialmente – é que o regime socialista soviético, totalitarista por natureza, sempre escondeu a real extensão de suas consequências.

Não adiantou muita  coisa, como sabemos – e o acidente em si acabou apressando a dissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), então já em marcha.

Em Vozes de Tchernóbil, Aleksiévitch oferece uma visão completa e inédita do pior acidente nuclear de todos os tempos.

Há depoimentos de bombeiros,  esposas,  filhos, liquidadores (os pobres coitados – armados de pás – que eram enviados para recolher a terra contaminada), engenheiros  químicos, moradores das localidades próximas, professores – todo tipo de gente.

A cada depoimento, lemos não apenas histórias tristes de pessoas que deram suas vidas para tentar debelar o incêndio e o posterior vazamento de radiação.

Lemos relatos de vidas inteiras, famílias, cidades inteiras evacuadas – tudo dito com a simplicidade e a sinceridade das pessoas comuns, distante do trololó oficial (e mentiroso) das autoridades.

O que fica óbvio é que, ocorrido o acidente, ninguém, absolutamente ninguém, nem cientistas, nem governo, nem populares, ninguém tinha noção do que era aquilo.

Pilotos de helicópteros militares foram alguns dos primeiros a serem mobilizados para debelar o incêndio no reator nuclear, despejando pranchas de chumbo e depois, areia – tudo isso, pairando sobre as chamas radioativas. Nenhum deles viveu muito tempo.

“Para atingir o alvo corretamente, os pilotos abriam as cabines e cravavam os olhos para determinar a inclinação necessária: direita-esquerda, acima-abaixo. As doses (de radiação no local) eram uma loucura!”, relata Guenádi Gruchevói, diretor da Fundação para as Crianças de Tchernóbil.

Em torno da usina, foi estabelecida uma zona de exclusão de 30 quilômetros. Mas muitas pessoas – camponeses, principalmente, nascidos e criados ali – simplesmente ficaram, ao léu.

Camadas de terra superficiais precisavam ser removidas e enterradas profundamente. Todos os animais, domésticos e silvestres, eram abatidos a tiros.

“Enterrávamos o bosque... Serrávamos as árvores, reduzindo-as a metro e meio, envolvíamos em plástico e as empurrávamos para uma fossa. (...) Não sei em qual poeta li que os animais são outros povos. E eu os exterminava às dezenas, centenas, milhares, sem saber sequer como se chamavam”, relata o liquidador Arkádi Filin.

Passadas três décadas, a catástrofe ainda parece um fenômeno maior do que aquilo que os depoimentos dão conta: “Depois de Tchernóbil, o que restou foi a mitologia de Tchenóbil. Os jornais e as revistas competem entre si para ver quem escreve as coisas mais terríveis, e esses horrores agradam, sobretudo, àqueles que não os viveram. (...) Por isso, o que se deve fazer não é escrever e sim anotar. Documentar os fatos. Mostre-me uma novela fantástica sobre Tchernóbil. Não há! Nem haverá! Garanto”, afirma o jornalista Anatóli Chimánski.

Heroínas soviéticas

A pegada dura, sem retoques, mas ainda assim, extremamente tocante, é a mesma é A guerra não tem rosto de mulher, que compila depoimentos das mulheres soldado soviéticas que combateram na 2ª Guerra Mundial.

Publicado na URSS em 1985, teve muitos trechos censurados pelo Partido Comunista, porque eles  “destronavam a mulher heroína”, dada a crueza de detalhes.

Nesta edição, os trechos censurados estão incluídos.

Eis um deles, a título de amostra: “Capturávamos prisioneiros e levávamos para o destacamento. Mas não fuzilávamos, era uma morte leve demais para eles: nós os esfaqueávamos como porcos, com as baionetas, cotávamos em pedacinhos. (...) O que você sabe a respeito dessas coisas?! Eles queimaram minha mãe e irmãzinhas em uma fogueira no meio da aldeia”.

Vozes de Tchernóbil - Crônica do futuro / Svetlana Aleksiévitch / Companhia das Letras / 384 p. / R$ 49,90/ E-Book: R$ 34,90 

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher / Svetlana Aleksiévitch / Companhia das Letras/ 392 p. /R$ 49,90 / E-Book: R$30,90


Abaixo, vídeo do encontro de Svetlana com leitores em São Paulo, promovido pela Companhia das Letras