quinta-feira, setembro 23, 2010

COQUETEL MOLOTOV CHEGA À SALVADOR, (ESPERA-SE) PARA FICAR

De vez em quando (bem de vez em quando, na verdade), uma graça divina concede um alívio para os sofridos roqueiros baianos e lhes oferece um show de rock internacional realmente interessante – para compensar as falácias anuais de verão.

Depois do Placebo em 2005 e do Mudhoney em 2008, chegou a hora de a Bahia conferir, ao vivo, as melodias e o peso que celebrizaram os norte-americanos do Dinosaur Jr. como uma das bandas mais representativas do rock alternativo na década de 1990.

O grupo, liderado pelo super guitarrista J. Mascis, se apresenta na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste próximo domingo, último dia do festival recifense No Ar Coquetel Molotov, que acontece todos os anos na capital pernambucana desde 2004 – e chega a Bahia para ficar, segundo a sua idealizadora, Ana Garcia.

Festa de três dias

Mas ainda há mais. No mesmo dia, a programação do festival ainda prevê apresentações da festejada Cidadão Instigado e da pernambucana A Banda de Joseph Tourton, que volta à cidade um mês depois de estrear em Salvador, no Pelourinho.

Um dia antes, no sábado, a Concha Acústica recebe a banda local Dubstereo Sound e duas (doces) cantoras: a brasileira Céu e a francesa Soko.

Mas essa festa toda começa mesmo é na sexta-feira, com uma festa de abertura animada pela banda Radiola e pelo trompetista Guizado, na Zauber.

Via Conexão

A sabedoria popular aconselha a sempre desconfiar quando a esmola parece muita. Daí a surpresa, nos bastidores da comunidade roqueira local, quando a notícia da vinda do festival No Ar Coquetel Molotov para Salvador – trazendo a adorada banda Dinosaur Jr. como atração principal – começou a se espalhar.

Mas a incredulidade foi, aos poucos, dando lugar à satisfação advinda da confirmação: o negócio era “quente“, mesmo. Surgido em 2004 em Recife, o No Ar Coquetel Molotov é um festival anual realizado pelo coletivo indie Coquetel Molotov, e que, em um esforço de expansão, crava sua primeira filial permanente em terras baianas.

“Salvador tem uma carência muito parecida com a de Recife, aonde tem muita coisa acontecendo, mas mesmo assim, não consegue entrar no rota dos eventos internacionais. Até por isso, não me sinto insegura de levar o festival aí“, observa a produtora Ana Garcia.

A ideia de trazer o evento para a cidade começou a se desenhar na cabeça de Ana quando ela esteve aqui conferindo a edição baiana do festival Conexão Vivo (parceiro do Coquetel), na Praça Wilson Lins, na orla da Pituba. “Estive aí no Conexão Vivo e me apaixonei pela cidade“, conta.

Ano que vem tem mais


Dias depois, durante um encontro de produtores em Belo Horizonte, ela encontrou duas figuras essenciais para a vinda do Coquetel: Dalmo Peres (da empresa baiana Caderno 2 Produções) e Maurílio Kuru Lima, coordenador do Conexão Vivo.

Este último foi, como Ana define, sua “inspiração“: “Eu vejo os eventos que ele consegue fazer em outras cidades fora de Belo Horizonte e o considero um exemplo a seguir“, define.

Já Dalmo foi o contato local que viabilizou o processo, através do Fazcultura: “Durante uma conversa com Dalmo, a gente viu que seria muito legal (levar o Coquetel para Salvador). Na hora, ele se prontificou a inscrever o projeto (no Fazcultura)“, conta Ana.

A ideia é que o NACM também seja anual em Salvador, e cada vez mais parecido com a matriz: ”Vamos fazer uma segunda edição aí sim, e espero que seja ainda mais parecido com o que fazemos aqui em Recife, com mostra de cinema, debates e oficinas, que são uma parte muito importante do conceito do festival”, detalha.

A seleção das atrações é feita pela própria Ana e seus parceiros, através de diversas fontes: ”A gente viaja muito e assiste ao máximo de shows, recebe muito material e utiliza todas as ferramentas da internet. É uma mistura disso tudo”, conta.

”Ano que vem é possível que role inscrição para bandas. Mas, por enquanto, a curadoria é feita por nós mesmos, pescando o que há de novo”, conclui.

SERVIÇO:

Festival No Ar Coquetel Molotov / Sexta-feira: Abertura com Guizado (SP) e Radiola / Zauber Multicultura / 22 horas / R$ 10 / Sábado: Dubstereo, Soko (França) e Céu (SP) / domingo: A Banda de Joseph Tourton (PE), Cidadão Instigado (CE) e Dinosaur Jr. (EUA) / 18 horas / Concha Acústica TCA / R$ 20 e R$ 10



CONCORRÊNCIA É ESTÍMULO PARA PRODUTORES LOCAIS

A realização do Coquetel Molotov em Salvador mexeu, de certa forma, com os brios dos produtores roqueiros locais.

Há décadas batalhando no ingrato cenário soteropolitano, alguns deles tiveram dificuldade em aceitar que uma produtora de fora da cidade de repente chegasse e conseguisse, aparentemente sem grandes dificuldades, realizar um festival na Concha Acústica, com uma banda internacional de respeito.

Para Rogério Big Brother Brito, idealizador do festival Big Bands, a dúvida é simples: “Se fosse alguém daqui, procurando o Fazcultura para botar bandas estrangeiras desconhecidas na Concha Acústica, será que seria aprovado?“, pergunta.

”Na verdade, nunca tentei pelo Fazcultura por que tudo isso ainda é uma coisa nova pra gente. Esse tipo de possibilidade só surgiu nos últimos anos. É só recentemente conseguimos o CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), exigência para poder dar entrada de um projeto no Fazcultura”, contemporiza.

”Mas tudo bem, ano que vem, também vou inscrever o Big Bands no Fazcultura”, diz.
”Confesso que de início fiquei meio pirado, mas agora caiu a ficha. Vamos lá curtir o Dinosaur Jr., claro. Mas ano que vem, vamos fazer um festival do caralho”, promete, motivado.

Já Sandra de Cássia, idealizadora do Palco do Rock, que rola há 16 anos no Carnaval, diz não ter ”nada contra”. ”Mas acho que esses apoios também devem estar acessíveis aos produtores locais. Isso gera uma frustração, parece que não somos capazes. Mas espero que dê tudo certo, claro”, conclui.


ENTREVISTA: J. Mascis

"Nunca pensamos em vender toneladas de discos"

Joseph Donald Mascis (pronuncia-se mass-kiss), cantor e guitarrista norte-americano de 45 anos, nascido no estado de Massachusetts, é um homem de poucas palavras. É fato: entrevistas não são o seu forte. Sua linguagem de preferência, como seus muitos fãs ao redor do mundo bem sabem, é a dos marcantes riffs de guitarra que notabilizaram sua banda, a Dinosaur Jr., como uma das mais representativas do rock alternativo norte-americano – um movimento que surgiu na esteira do pós-punk, se firmou no underground nos anos 1980 e arrebentou no mainstream na década seguinte, depois que o Nirvana meteu o pé na porta. Nesta entrevista exclusiva, J. Mascis fala pouco – mas diz tudo.

Pergunta: Como vai ser o repertório dos shows no Brasil? Vai ter alguma música de sua banda paralela, The Fog?

J. Mascis: Muitos hits, de quase todos os álbuns, mas nenhuma canção do The Fog.

P: Você é considerado um dos mais importantes músicos do rock alternativo norte-americano. Mas alternativo ao quê? As influências de rock clássico em seu som são bem claras – como Neil Young, por exemplo. Como você vê esse lance de "rock alternativo"?

JM: Suponho que é porque, quando começamos, éramos definitivamente alternativos, não tínhamos fãs. Só tínhamos uma ideia de que música queríamos ouvir. Nos espelhávamos nas bandas do (clássico selo independente) SST e queríamos excursionar no circuito que o Black Flag (banda punk pioneira dos EUA, liderada por Henry Rollins) estabeleceu. Não pensávamos em estar numa gravadora major ou vender toneladas de discos.

P: Após vários anos desativada, a banda voltou com a formação original. Está tudo bem entre os membros agora? Podemos esperar uma reunião definitiva, de longo prazo?

JM: Nós vivemos um dia por vez. E nossa relação está OK nesse momento.

P: Quem são suas influências como guitarrista? Por que seu som é tão barulhento?

JM: Greg Sage (da banda punk Wipers), Ron Asheton (The Stooges), Keith Richards, Mick Taylor (ambos dos Rolling Stones) são minhas influências. Sempre adorei barulho.

P: Farm (2009), seu último álbum, é um dos melhores da carreira do Dinosaur Jr. O que podemos esperar do seu próximo disco?

JM: Sem planos por enquanto. Mas vou lançar um novo disco solo em fevereiro.

P: É a primeira vez que a banda vem ao Brasil, não? Por que demorou tanto? Você conhece algo de música brasileira?

JM: Não sei muito de música brasileira. Não sei por que nunca tocamos no Brasil antes, sempre quisemos ir aí.

P: Se pudesse escolher um produtor, vivo ou morto, quem seria?

JM: John Leckie (produtor britânico, famoso por produzir, entre outros, álbuns como Stone Roses, da banda homônima e The Bends, do Radiohead).

P: Indicaria alguma banda surgida nos últimos dez anos de que gostou?

JM: Magik Markers (banda noise de Hartford, Connecticut. www.myspace.com/theemagikmarkers).

P: Qual seu álbum preferido do Dinosaur Jr? Por que?

JM: You‘re Living All Over Me (1987). Foi quando nos firmamos como banda e fizemos nossa música, nosso som. Nós meio que desmoronamos depois disso.

terça-feira, setembro 21, 2010

MARTIN & EDUARDO: MÚSICOS DE PITTY ALÇAM VOO PARALELO



Martin & Eduardo. Dito assim, poucos saberiam de quem se trata. Mas basta dizer que eles são, respectivamente, guitarrista e baterista de Pitty, para suas figuras (aqui, em foto de Otávio Sousa) – já familiares da TV e de diversos palcos – virem imediatamente à memória.

Com o lançamento de Dezenove Vezes Amor (Cornucópia Discos), trabalho que vão tocar em paralelo ao trampo com a cantora, eles devem mudar isso algum dia. Mas, na verdade, a pretensão nem é essa, e sim, dar vazão à produção de Martin Mendonça, um compositor febril – que se descobriu cantor.

“Sempre escrevi muito – para uma demanda muito menor que a produção. Então, eu estava com muito material excedente, dezenas de músicas completas“, conta Martin, por telefone, de São Paulo.

“Um dia, tinha voltado de uma tour, puto da vida, super cansado, aí saiu (a canção) Dezenove Vezes Amor. Quando pintou essa, eu gostei e meio que comecei a fazer mais. Quando juntou umas cinco ou seis, coincidiu de Duda (baterista) estar com seu estúdio pronto. Começamos a gravar demos, no ‘vamos ver o que dá‘“, relata.

Mesmo produzido sem pressão, não foi um processo fácil para Martin. Inseguro confesso, a gravação do CD foi, como ele mesmo define, “um exercício de desapego“. “Eu nunca tinha experimentado cantar. Então, quando eu gravei isso, levei um tempão para conseguir escutar e ver como estava“, conta.

Quem o incentivou a soltar a voz sem medo foi a própria Pitty: “Quando eu mostrei pra Pitty, ela falou: ‘você está cantando de um jeito que é seu, sem forçar trejeitos de cantor. Mantenha isso‘. Foi um exercício de desapego mesmo. Na minha cabeça passa um milhão de maneiras que eu poderia ter feito melhor, diferente. Mas o legal foi isso, de ser eu mesmo, de ser confessional“, conta Martin.

Com o CD na rua, lançado pelo recém-criado selo Cornucópia Discos, a dupla pretende divulga-lo na mídia e em shows pelo Brasil. Inclusive na sua terra natal, Salvador.

“Pegamos emprestado o guitarrista e o baixista da (banda gaúcha) Pública. E o Pedro Pelotas (tecladista da Cachorro Grande), sempre que pode, também aparece nos shows. Salvador vai rolar sim, espero que já primeira quinzena de outubro“, avisa.

Pelo que se ouve no CD, a espera vai valer a pena.

Martin & Eduardo / Dezenove Vezes Amor / Cornucópia Discos / R$ 19 / www.dezenovevezesamor.com.br

Micro-resenha: Dando a cara a tapa

Compositor prolífico, o músico Martin Mendonça, guitarrista de Pitty, resolveu dar a cara pra bater – como artista solo e cantor. Chamou o baterista e companheiro Eduardo (Duda) Machado, formou a dupla Martin & Eduardo e lançou este primeiro CD, com nove faixas. Os resultados soam desiguais, mas há faixas bem interessantes, como a que dá título ao álbum, a paulada Lírio, a “cascaduresca“ Passa Em Volta e o power pop Só. Estreia promissora. Dezenove Vezes Amor / Cornucópia Discos / R$ 19

terça-feira, setembro 14, 2010

ANTES DO 2º ÁLBUM, ENIO LANÇA O MALOCARD. NÃO VÁ PRA CASA SEM ELE

Guitarrista habilidoso e de estilo versátil, Enio, à frente da banda A Maloca desde 2005, resolveu inovar para o lançamento do 2º álbum do seu grupo.

No último sábado, a rapaziada tocou no evento Facom Som e, aproveitando a ocasião, distribuiu um cartão promocional do grupo.

Neste “Malocard“ (o apelido é do blogueiro, mesmo) está um código de acesso que libera o download do single Uma Parte do Todo, primeira faixa de trabalho do CD.

“Fizemos também uma parceria com a loja Adidas (Salvador Shopping), então, com esse cartão você também tem direito à um desconto nas suas compras lá“, avisa o esperto Enio.

Mas – por exemplo – e este colunista, que não foi no Facom Som? Como faço para adquirir meu Malocard, seu Enio?

“O cartão estará disponível no balcão da Saraiva Megastore e da própria Adidas, além de ser distribuído novamente em alguns eventos. É só chegar e pegar o seu“, acalma o músico. Ufa!

Verdade no que faz

Produzido por andré t. (já ouvi esse nome em algum lugar), Uma Parte do Todo, o álbum, seguiu para a fábrica por esses dias e deve chegar às mãos de Enio em novembro.

“Assim que eu receber a tiragem, marcamos a data de lanmento oficial“, garante Enio. Quem não estiver a fim de esperar, pode ter um gostinho do que vem por aí baixando o single e indo ao próximo show, no dia 24 (veja serviço).

“Esse disco vai mostrar um outro lado do meu trabalho. Até por que este eu gravei com a banda já fechada. O primeiro (Unidade Móvel, 2006), eu fiz sozinho. E só depois eu formei a banda. O Uma Parte do Todo foi todo construído no estúdio de ensaio, com a banda. É um outro processo“, reflete o músico.

Bem acompanhado, o rapaz está. Na bateria, ele conta com Vitor Brasil, enquanto Gabriel Pettenatti e Milton Pelegrini respondem respectivamente, por guitarras e baixo.

A praia da banda é, como gosta de definir Enio, “uma mistura de rock Brasil com black music e MPB“.

“Independentemente de as pessoas gostarem ou não, eu só sei fazer música sendo verdadeiro comigo mesmo. E esse CD é um registro dessa postura“, demarca. Grande Enio.

Enio & A Maloca e Maglore / 24 de setembro (sexta-feira) / Groove Bar / R$ 25, R$ 20 (lista amiga no Orkut) / Ouça: www.enioeamaloca.com.br


NUETAS, NUETAS

Baia e os Capitães

Maurício Baia e a banda Capitão Parafina & Os Haoles se apresentam no Pelô, dentro do Festival de Humor e Performance. O Capitão Parafina faz dobradinha com o Capitão Cometo nesta quinta-feira, às 20 horas. E Baia faz show na sexta (dia 18), às 22h30. Na Pça. Pedro Archanjo, por apenas R$ 5 e R$ 2,50.

Abismo em Brotas

Abismo Solar e Quanta tocam seu hard prog no Prospect Club 81(ex-Red Devils Mc, Brotas), neste sábado. 18 horas, R$ 10.

Bailinho de volta

O Bailinho de 5ª volta com suas marchinhas, pinçadas entre os anos de 1920 a 1960. Neste sábado, 22 horas, R$ 18 e R$ 15 (lista amiga), no Tom do Sabor.

quinta-feira, setembro 09, 2010

RELATOS DO APOCALIPSE ZUMBI

Livro Guerra Mundial Z, de Max Brooks, se inspira em conjunto de relatos da 2ª Guerra. E nasce um clássico do terror moderno

O mundo como o conhecemos não existe mais. Uma misteriosa pandemia global, iniciada na China, erradicou boa parte da população mundial, depois que os infectados se tornaram zumbis canibais, gerando a chamada Guerra Mundial Z. Dez anos depois, um funcionário da Comissão Pós-Guerra da ONU compila depoimentos de sobreviventes do conflito.

É esse relatório que agora chega às livrarias, em Guerra Mundial Z (Rocco), de Max Brooks. Aclamado pela crítica como uma reinvenção do subgênero de zumbis – dentro de um gênero maior, o de horror – o livro de Brooks é uma fascinante compilação de relatos orais que primam pela verossimilhança, de acordo com a atividade e a nacionalidade de cada entrevistado pelo agente da ONU.

Há médicos chineses, cientistas alemães, militares indianos, políticos sul-africanos, soldados norte-americanos, traficantes de órgãos taiwaneses e até um cirurgião brasileiro.

Pós-Katrina

Parte da crítica norte-americana saudou o livro como um típico romance pós-furacão Katrina e pós-11 de setembro: “As advertências iniciais são ignoradas, relatórios cruciais passam despercebidos, empresários lucram bilhões vendendo placebos, o exército se equipa de forma inadequada e a população desconhece a extensão da ameaça – até que a encara face-a-face. Eis aqui, portanto, um típico conto de zumbis pós-Katrina“, escreveu o crítico Alder Utter, do jornal The Eagle, de Washington.

Já o interesse por zumbis, que parece ter aumentado bastante nos últimos anos, graças a uma enxurrada de filmes, games, livros, HQs e até séries de TV, tem pelo menos duas explicações, na visão de Klaus‘berg Bragança, mestre em comunicação pela Facom (Ufba): “A representação do morto-vivo fascina porque a imagem que temos de um morto é que ele deveria continuar morto. Ele rompe uma barreira natural que é totalmente absurda, mas que, na ficção, é muito original“, reflete.

“E mais: a metáfora daquele que volta do túmulo resgata narrativas orais que remontam à tradição bíblica, com Lázaro e o próprio Jesus“, lembra.

O Grande Pânico

A Guerra Mundial Z, que durou dez anos, quase erradicou os seres humanos e, quando acabou, virou de cabeça para baixo a configuração geopolítica planetária. A China virou uma democracia. A capital dos EUA foi transferida para o Havaí. A Rússia se transformou numa teocracia ortodoxa expansionista. E a maior economia do mundo é Cuba. No leito dos oceanos, milhões de zumbis ainda perambulam, vindo dar em praias ou surgindo nas redes de pesca.

Tudo começou na China, de acordo do com o primeiro entrevistado, o médico Kwang Jingshu, que tratou do chamado “paciente zero“, um menino de 12 anos de um vilarejo rural.

Através da fuga em massa de refugiados chineses e do tráfico de órgãos a partir de Taiwan, o vírus começa a se espalhar e chega à África do Sul, aonde acontece o primeira epidemia.

A imprensa global logo chama a doença de “raiva africana“. Na sequência, Israel anuncia um período do quarentena total e se fecha para o mundo. O Japão é evacuado.

Nos Estados Unidos, o governo ignora os alertas que varrem o mundo e permite que um grupo farmacêutico lucre bilhões comercializando uma falsa vacina, a Phalanx.
Até que um massacre sem precedentes ocorre na cidade de Yonkers (estado de Nova York). A partir daí, o mundo entra em um período de caos e salve-se-quem-puder global: é O Grande Pânico.

As táticas de “choque e pavor“ ianques não causam qualquer efeito contra as hordas de milhões de zumbis, e para completar, todo o treinamento de tiro dos soldados é direcionado para mirar no peito – o chamado “centro de massa“ – dos oponentes. Mas este inimigo só cai ao ser atingido na cabeça.

Romero e a boa guerra

A opção narrativa de Max Brooks parte de duas influências bem claras – e assumidas: os filmes de George Romero, considerado o “pai“ do gênero zumbi, e o livro The Good War (1985), do radialista norte-americano Studs Terkel.

Pode-se dizer que, do primeiro – Romero –, Brooks aproveitou a temática do comentário social a partir da metáfora dos zumbis perambulantes.
Já de Studs Terkel, ele pegou a forma. Nunca publicado no Brasil, The Good War (A boa guerra) é uma compilação de relatos orais de sobreviventes da 2ª Guerra Mundial.

Guerra Mundial Z / Max Brooks / Tradução: Rita Vinagre / 368 páginas / R$ 49,50 / Editora Rocco


ENTREVISTA: MAX BROOKS

Nascido em Nova York, em 1972, Maximillian Michael Brooks veio ao mundo como um privilegiado: filho do genial comediante Mel Brooks e da atriz Anne Bancroft (a inesquecível Mrs. Robinson, sex-symbol nos anos 1960), ele conta em seus créditos, como escritor e roteirista, participações no programa Saturday Night Live e três livros: Guerra Mundial Z, Guia de sobrevivência a zumbis e Recorded attacks. Como ator (e dublador de desenho animado), participou de séries como Roseanne, Pacific Blue, Batman do Futuro e Liga da Justiça. É casado desde 2003 com a roteirista Michelle Kholos, com quem tem um filho, Henry.

Pergunta: É espantoso como seu livro cobre os mais diversos campos de conhecimento nos relatos. Há Psicologia, Política, Geografia, Medicina, História, Estratégias e Armamentos Militares, Relações Internacionais, Arquitetura e outros. Quanto tempo levou para você efetivamente colocar tudo em ordem? Ou você escreveu e pesquisou ao mesmo tempo?

Max Brooks: Redigir os relatos foi a parte fácil. A pesquisa... isso sim, foi difícil. Levou anos. Tive de organizar minha própria biblioteca, com milhares de livros e mapas. Também passei horas e horas conversando com pessoas que trabalham nos campos sobre os quais estava escrevendo. Chega a ser irônico o fato de que um livro de entrevistas fictícias não seria possível sem as entrevistas reais.

P: Há uma enorme variedade de diferentes vozes no livro, e cada uma delas utilizando uma linguagem especializada específica, de acordo com sua atividade. Como você fez para alcançar esse nível de verossimilhança?

MB: A linguagem (dos personagens do livro) foi um ponto muito importante para mim. Eu queria traçar as enormes diferenças que existem entre um soldado de classe média-baixa como Todd e um aristocrata dos tempos modernos, como Arthur Sinclair. A parte difícil foi a pesquisa sobre as gírias locais ao redor do mundo, tentando extrair aquelas pequenas nuances de forma a faze-las funcionar. Estou certo que falhei tanto quanto fui bem sucedido.

P: Ao invés de simplesmente narrar os fatos de forma linear, você compôs um mosaico de relatos orais. Como você chegou nesse formato? Já leu outros livros similares? Qual foi a inspiração?

MB: Minha inspiração foi The good war, de Studs Terkel (A boa guerra, 1985, conjunto de relatos sobre a 2ª Guerra Mundial, não publicado no Brasil). Seu uso da narrativa oral ficou comigo para sempre. Considerei que era a única forma de contar uma história gigantesca como a Guerra Mundial Z.

P: Nos últimos anos, os zumbis sofreram uma enorme popularização. Mas por que? Será que é por que, em última análise, eles somos nós – pessoas comuns que infelizmente morreram (e retornaram) – e não só mais um psicopata com uma máscara e um machado, e por isso, é muito mais fácil para o espectador se identificar com a situação?

MB: Eu acho que zumbis são uma forma de explorar nossos medos em relação ao apocalipse. Existem diversos problemas bem reais no mundo hoje: aquecimento global, recessão econômica, fome, doenças, ameaça de guerra nuclear. São quase reais demais para se pensar. Apavorantes demais. Numa história de zumbis, você está livre para falar sobre o fim do mundo. É algo seguro, por que zumbis não são reais.

P: Com a explosão dos filmes, o subgênero se misturou a diversos outros. De fato, essa característica jaz na sua própria gênese, com George Romero, que usava os zumbis para tecer comentários sociais sobre racismo e a Guerra do Vietnã. Que direção você acha que o gênero deve tomar nos próximos anos?

MB: Honestamente, não sei o que o futuro reserva para o gênero. Só espero que continue fiel ao (espírito de) comentário social preconizado por George Romero e não fiquem focados apenas nas cabeças decapitadas voando.

P: Em certos trechos, Guerra Mundial Z parece um estudo psicológico sobre as reações humanas às grandes catástrofes. Você teve algum tipo de consultoria?

MB: Quem dera eu tivesse tido psicólogos consultores. Teria tornado o meu trabalho bem mais fácil. O fato é que sempre fui fascinado pelas reações humanas aos grandes desastres. Eu moro em Los Angeles, aonde temos incêndios (na temporada de seca, durante o verão), enchentes, terremotos e tumultos sociais... fora os problemas regulares de crime, drogas e AIDS. Como as pessoas reagem às ameaças, é, para mim, mais interessante do que as ameaças em si.

P: E quanto ao filme baseado no livro? Brad Pitt está no elenco? Marc Forster está confirmado na direção? Quando estreia?

MB: O que eu posso te dizer é que Brad Pitt concordou em estrelar o filme, e que está previsto para estrear em 2012. É tudo o que sei até agora. Mantenho meus dedos cruzados.


P: Seu livro anterior, O guia de sobrevivência a zumbis (2006, Rocco), é mais uma peça no mosaico de Guerra Mundial Z?

MB: O Guia de sobrevivência a zumbis é, literalmente, um livro sobre como enfrentar zumbis. Ele te diz o que fazer no caso de uma epidemia; aonde ir, o que levar na mochila, que armas deve-se usar. É tudo o que você precisa saber. Espero que seja de alguma serventia, caso os zumbis ataquem algum dia.

P: O Internet Movie Database lista todos os seus três livros como "em desenvolvimento". Todos eles serão adaptados?

MB: Boa pergunta. Acho que a Paramount Pictures está focada em Guerra Mundial Z. Se / quando esse filme ficar pronto, eles devem começar a olhar para os outros livros.

P: O que você acha de The Walking Dead (Os Mortos-Vivos, publicada pela HQManiacs Editora), de Robert Kirkman? Já pensou em trabalhar, quem sabe, roteirizando a série de TV que está sendo lançada pelo canal AMC?

MB: Eu amo The Walking Dead e acho que será um enorme sucesso no AMC. É uma excelente série em quadrinhos e com Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, 1994) na direção, como pode dar errado? O cara é um gênio!

P: Vi no seu site pessoal que você escreveu uma minissérie em quadrinhos dos personagens GI Joe (os antigos Comandos em Ação, no Brasil), para a editora IDW, com desenhos do grande Howard Chaykin (Black Kiss, O Sombra). Como foi trabalhar com ele?

MB: Nunca o encontrei. Todo o nosso trabalho em conjunto foi através de um editor. Mas eu AMO o seu trabalho. Ele e Antonio Fuso são as verdadeiras estrelas de GI Joe: Hearts and Minds. É como eu me sinto quanto a escrever quadrinhos. É uma forma visual de arte. Meu último livro de zumbis foi Recorded Attacks (Registros de ataques), uma adaptação visual do Guia de sobrevivência a zumbis. Foi desenhado por Ibraim Robertson, o qual, eu acho, é a verdadeira estrela deste projeto, e não eu.

P: Qual o seu filme de zumbi do George Romero favorito? Por que? E sem ser dele?

MB: Meu filme de zumbi do George Romero favorito é Amanhecer dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978). É um filme incrível, e diz tanto sobre os Estados Unidos nos anos 1970. Já meu filme de zumbi não-Romero favorito é Wild Zero (2000, inédito no Brasil), uma película japonesa com aliens, rock 'n' roll, travestis e, é claro, zumbis! Todos os fãs de zumbis deveriam correr para alugar Wild Zero agora mesmo!


GUERRA MUNDIAL Z: TRECHOS

“Aquelas bichas instruídas demais. Sabe quem as ouvia? Ninguém! Quem se importava com a minoria de mídia alternativa sem contato com a corrente dominante? Quanto mais os intelectuais gritavam ‘os mortos estão andando‘, mais os americanos da vida real davam as costas a eles“.

Grover Carlson, personagem do livro A Guerra Mundial Z, de Max Brooks

“Havia milhões de almas infelizes espalhadas pelo planeta, todas gritando em seus transmissores de rádio, enquanto os mortos-vivos passavam por suas defesas. (...) Mesmo que você não entendesse a língua, não havia como confundir o tom de angústia humana“.

Barati Palshigar, personagem do livro Guerra Mundial Z, de Max Brooks.

quarta-feira, setembro 08, 2010

REVERENDO T. REÚNE ALTO CLERO DA MÚSICA INDEPENDENTE BAIANA PARA ENTOAR SEUS CÂNTICOS SAGRADOS


Ele é o santo padroeiro do underground local. Senhoras e senhores, Tony Lopes, o São Rock em pessoa, está de volta ao circuito – e ele traz boas novas.

Dentro de cerca de dois meses, esse veterano da música independente baiana lança, em CD físico, seu novo trabalho: Reverendo T & Os Descrentes.

Trata-se de um álbum no qual ele reúne composições criadas ao longo dos últimos 25 anos. Mas o projeto em si, tem, pelo menos, duas particularidades.

A primeira é a sonoridade da produção, calcada em piano, baixo e bateria. A segunda é que é um CD com lado A e lado B.

O lado A, ou seja, as dez primeiras faixas, contam com o próprio Tony interpretando suas canções. Já o lado B – as dez faixas seguintes – consiste nas mesmas composições, só que interpretadas por uma abençoada legião de vozes angelicais.

Olha só a escalação: Ronei Jorge, Moisés Santana, Dão, Artur Ribeiro (Theatro de Seraphin), Álvaro Lemos, Nancyta, Dois Em Um, Paquito, Miguel Cordeiro e Cássia Cardoso.

Além de todos esses convidados soltando a voz, o CD contou com a participação de músicos do quilate de Paulinho Oliveira (guitarra), Vandex (piano), Ataualba Meirelles (baixo), Marcão (saxofone), Fernando Cardel (teclados) e outros.

Trajetória de ativismo

Por enquanto, já dá para baixar um single na revista virtual Verbo 21, com as faixas A Culpa (dele e de Luisão Pereira) e Os Bêbados.

“Mas são as gravações com minha voz. As versões com os convidados, só quando o CD sair, lá para novembro“, avisa.

Tony, para quem não sabe, tem uma longa história de ativismo no underground baiano. Nos anos 1980, integrou bandas como Dúvida Externa, Guerra Fria e Moisés Ramsés & Os Hebreus.

Em 1991, lançou, em vinil, seu primeiro disco solo: De Quem é a Culpa?, como Tony & Os Sobreviventes.

“Minha intenção era me lançar como compositor. Só que fui mal interpretado. Quem ouviu, só ficou preocupado em achar minha voz ruim – ninguém prestou atenção as composições“, diz.

Depois, abriu duas lojas: a Na Mosca e depois, a São Rock. Hoje, vende CDs independentes via internet e leva adiante seu projeto Reverendo T.

Em paralelo, toca bateria nas bandas Koyotes (de Miguel Cordeiro) e Tilt (do ex-parceiro de Guerra Fria Evandro Lisboa). Amém.

Conheça / baixe o single: http://discipulosdescrentes.blogspot.com

NUETAS, NUETAS

Shows a granel

Nessa época do ano, parece que todo mundo resolve sair da toca ao mesmo tempo. A lista de bons shows esta semana cresce a cada conferida no email. Abaixo, O Rock Loco recomenda:

Tem pra todo mundo

Na quinta-feira (dia 9), tem Vivendo do Ócio no Pelourinho (21 horas, grátis, no Largo Teresa Batista). No mesmo dia, Hélio Rocha e Nino Moura fazem a primeira de duas datas no Tom do Sabor, as 22 horas. Na sexta (dia 10), a brincando de deus faz o segundo show desde a volta em dezembro, no Groove Bar. 22 horas, R$ 25 (na hora). No sábado tem Você Me Excita, Maglore, Enio & A Maloca e Ministereo Público na Faculdade de Comunicação da Ufba, a partir das 17 horas. Grátis! E no domingão, tem Otto, Do Amor e Ministério Público na Concha Acústica. R$ 30 e R$ 15, as 18 horas. ‘Bora?

terça-feira, agosto 31, 2010

A TERRÍVEL VOLTA DO FILHO DA NOIVA DO VIZINHO DAS MIIIIIICRO-RESENHAS! PARTE 43

Cápsula do tempo

Múltiplas leituras podem ser feitas a partir do CD triplo de Messias (brincando de deus). Um tratado sobre a passagem do tempo. Uma declaração de independência absoluta (inclusive de sua banda). Um dedo médio estendido para a burrice generalizada. Uma carta de amor e ódio para a cidade em que vive. O resultado de uma crise de meia-idade. Seja lá qual for a leitura, trata-se de uma obra aberta e genial – e que só deverá ser reconhecida daqui a uns 100 anos. Este resenhista mesmo ainda não digeriu todos os três discos - só o primeiro. Que é bom do início ao fim, ouve-se de uma tacada só. Não a toa, o próprio show de Messias é calcado quase todo no primeiro CD. Obrigatório – e muito provavelmente, o lançamento independente mais importante de 2010. Agora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: Messias, cadê a prometida edição em vinil, meu fio? Messias / escrever-me, envelhecer-me, esquecer-me / Digitália / R$ 20 / www.reverbnation.com/messias / http://messias.ning.com/

TFC na ativa

Uma das melhores e mais importantes bandas da geração shoegaze britânica, a escocesa Teenage Fanclub evoluiu e se tornou a coisa mais próxima do pop perfeito e melodioso que era a busca de bandas como Byrds, Beatles e Big Star. Em seu oitavo álbum de estúdio, Shadows, o “fã-clube adolescente“ crava mais algumas pérolas para o seu já brilhante repertório, como Baby Lee, When I Still Have Thee e Sometimes I Don‘t Need to Believe In Anything. Teenage Fanclub / Shadows / Importado / Merge Records



A dura vida de um gênio

Um dos maiores gênios do século 20, Charles Chaplin tem sua vida – e a de seus pais – dissecadas nessa biografia do psiquiatra Stephen Weissman. Entre outras revelações, ele conta sobre a breve passagem que sua mãe, Hannah, teve pela prostituição, ao fugir para a África do Sul com um amante. Já o personagem Carlitos seria uma paródia do seu pai, um vagabundo alcoólatra. Chaplin, Uma Vida / Stephen Weissman / Larousse / 320 p. / R$ 44, 90 / http://www.larousse.com.br/





Muito doidos - em Marte!

Autor de diversos clássicos da ficção científica, o americano Philip K. Dick (1928-1982) misturava conceitos de metafísica (geralmente associados ao uso de alucinógenos) com noções pouco ortodoxas do gênero da FC. Neste livro de 1965, ele relata o vício em drogas exóticas de colonos em Marte. Deprimidos pela vidinha miserável no planeta vermelho, todos buscam uma fuga. Os Três Estigmas de Palmer Eldritch / Philip K. Dick / Aleph / 248 p. / R$ 42 / http://www.editoraaleph.com.br/



Terror no interior paulista

O encontro entre um artista fracassado e uma cantora decadente – por sua vez, perseguida por um psicopata, é o ponto de partida para uma trama de terror e erotismo ambientada numa cidade do interior de São Paulo. Romance finalista do Projeto Nascente (da Pró-Reitoria de Cultura da Universidade de São Paulo e do Grupo Abril), Anjo de dor tem ritmo cinematográfico e leitura ágil. Anjo de Dor / Roberto de Sousa Causo / Devir / 207 p. / R$ 25 / http://www.devir.com.br/





Sexo e poder

A parceria entre o conceituado escritor e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky (O Incal) e o mestre italiano do erotismo Milo Manara (O Clic) não poderia dar em outra: a série Bórgia, aqui em seu 3º volume, é uma investigação sobre a corrupta família italiana, que, mesmo envolvida em golpes, escândalos e orgias, viu dois de seus membros ascenderem ao papado no século XV. Bórgia 3 - As chamas da fogueira / Jodorowsky & Manara / Conrad / 56 p. / R$ 43 / www.conradeditora.com.br






Raridade da Astrud

Taí um negócio raro: a cantora baiana Astrud Gilberto, em plena década de 1980, usando um diáfano vestidinho preto transparente, arrasando no festival de jazz da cidade suíça de Lugano, bem acompanhada por uma banda competente. Um raro e belo registro que traz os hits Águas de Março, Dindi e Girl From Ipanema. Astrud Gilberto / Lugano Festival Jazz 1985 / Coqueiro Verde / R$ 29,90





Sargento dubificado

Depois de verterem para o dub e o reggae os clássicos Dark Side of the Moon (Pink Floyd) e o OK Computer (Radiohead), o trio Easy Star All-Stars parte para a sua empreitada mais ambiciosa: conceder o tratamento “dubificante“ ao absoluto Sargeant Peppers Lonely Hearts Club Band (Beatles). Obviamente, os resultados soam desiguais, com pontos altos na faixa-título (com Junior Jazz) e She‘s Leaving Home (com Kirsty Rock). Easy Star All-Stars / Easy Star‘s Lonely Hearts Dub Band / Coqueiro Verde / R$ 20


A pequena família

O que aconteceria se A Grande Família fosse adaptada por Maurício de Sousa? Os Sousa, sem dúvida. Esta divertida série de tiras, publicadas em jornais entre 1968 e 1989, traz (quase) todos aqueles tipos das comédias de situação familiares: o esforçado pai de família, a dona de casa vaidosa, e claro, o jovem desempregado que vive encostado e procurando encrenca. Para dar boas risadas. Os Sousa - Desventuras em família / Maurício de Sousa / L&PM / 144 p. / R$ 11 / www.lpm.com.br


Bruxas classe média de meia-idade

Celebrado como um dos maiores escritores americanos do século XX, John Updike (1932- 2009) era também um dos mais ferozes críticos do seu tempo. Em um dos seus romances mais conhecidos (adaptado para o cinema em um filmaço de 1987), a chegada de um estranho de ares diabólicos à uma sonolenta cidadezinha vira a vida de três donas de casa desesperadas de cabeça para baixo. As bruxas de Eastwick / John Updike /Companhia de Bolso / 360 p. / R$ 26 / www.companhiadebolso.com.br



No que deu o hype

MGMT, a banda mais hypada de 2007, chega ao seu 2º CD andando na corda bamba entre o experimentalismo progressivo psicodélico e a chatice pura e simples – uma armadilha armada por eles mesmos e incentivada pela facção hypeira da imprensa. Há bons momentos, como Song For Dan Treacy (tributo ao líder da banda cult Television Personalities) e a faixa-título. Siberian Breaks, com 12 minutos (!) só fica boa na 2ª metade. Nem todos conseguem ser o Flaming Lips, certo? MGMT / Congratulations / Sony Music / R$ 19,90


Um, dois, três hits

O duo sergipano The Baggios lançou para download o matador single O Azar Me Consome, com três músicas. A faixa-título, um delicioso pastiche de Led Zeppelin (riff pesadão e suingado), Can’t Find My Mind (bom cover para uma paulada do The Cramps) e Canção dos Velhos Tempos, um folk que também lembra um pouco o Led e o Jethro Tull, pela flauta. Quando é mesmo que esses caras tocam em Salvador? The Baggios / O Azar me Comsome / Independente / Download gratuito: www.verbo21.com.br



Aprendam, crianças

Tom Petty volta a se reunir com sua banda original, The Heartbreakers, após uma década sem gravar nada juntos. O resultado é uma coleção de 15 canções de rock ‘n‘ roll estilo clássico cheias de tesão (mojo), baseado no rhythm ‘n‘ blues do sul dos EUA. Se parece coisa de veterano, é por que é isso mesmo – mas sem cheiro de mofo. O frescor criativo de Petty se mostra em rocks encharcados do pântano, como Running Man‘s Bible e The First Flash of Freedom. Tom Petty and The Heartbreakers / Mojo / Reprise-WEA / Importado

Lenha para queimar

Quem não dava mais nada por Billy Corgan deu com os burros n‘água depois de ouvir este EP, o primeiro de uma série que o líder dos Smashing Pumpkins está preparando. Com apenas quatro faixas, Billy & Cia dão o recado de que ainda tem muita lenha para queimar em faixas como Widow Wake My Mind (a melhor do disco, poderia estar no clássico CD Siamese Dream, de 1993) e A Song for a Son (com um pianão cheio de classe). The Smashing Pumpkins / Teargarden By Kaleidyscope Vol. 1: Songs For A Sailor / Importado



60 anos esta noite

Transmitido ao vivo pelo rádio, este concerto da orquestra de Duke Ellington em Zurique, em 1950, atravessou quase 60 anos no esquecimento para ter sua gravação encontrada (por acaso) há poucos anos, tendo sido lançada lá fora somente em 2007. Com uma qualidade de áudio surpreendente para um registro tão antigo, este CD traz diversos clássicos do jazz das big bands, como Take The A Train e St. Louis Blues, entre outros. Duke Ellington And His Orchestra / Live In Zurich, Switzerland 2.5.1950 / Biscoito Fino Internacional / R$ 34,90

Pop sem marketing

Dez anos atrás, Goldfrapp, o duo britânico formado pela cantora Allison Goldfrapp e pelo músico e produtor Will Gregory era uma das coisas mais vanguardistas a surgirem no cenário eletrônico alternativo, graças ao quase hermético CD Felt Mountain (2000). Em Head First, porém, a dupla abraça o eletropop radiofônico com a mesma abordagem classuda com que teceu seu manifesto da década anterior. Suave e melodioso, dá um banho nas cantoras de pop marketeiro atual, como Lady Gaga. Goldfrapp / Head First / EMI / R$ 29,90



Novos contos americanos

Um rapaz dirige pela estrada em direção ao litoral, com uma urna contendo as cinzas do avô. Uma dupla de picaretas encontra abrigo na fazenda de um casal de idosos. Um roteirista é internado com diagnóstico de suicida. Nos contos de Charles D‘Ambrosio, considerado um um dos mais hábeis narradores atuais, são os pequenos dramas americanos que ganham destaque. O Museu do Peixe Morto / Charles D‘Ambrosio / Grua Livros / 256 p. / R$ 42 / www.grualivros.com.br

quinta-feira, agosto 26, 2010

MUSAS OITENTISTAS DE VOLTA, EM BOA FORMA

Cyndi Lauper e Suzanne Vega lançam bons discos: a primeira, com standards de blues. E a segunda, com novas gravações de suas próprias músicas

Enquanto Madonna queria o vil metal, ela só queria se divertir. Quem se lembra de Cyndi Lauper como o contraponto maluquete (e de maquiagem borrada) ao materialismo patricesco da Rainha do Pop nos anos 1980, vai se surpreender com seu novo álbum, Memphis Blues (Lab 344), que acaba de chegar às lojas brasileiras.

O disco traz uma seleção de clássicos do blues tradicional norte-americano, com a participação de diversos músicos ligados ao estilo, como Sua Majestade B. B. King, o lendário pianista de Nova Orleans Allen Toussaint (em três faixas), a cantora Ann Peebles, o guitarrista da nova geração Jonny Lang e o gaitista Charlie Musselwhite.

A edição brasileira ainda traz duas faixas bônus, sendo que uma delas, a balada I Don‘t Want To Cry, traz o brazuca Leo Gandelman em um duelo “sax versus vocal“ com a cantora.

Memphis Blues traz Cyndi Lauper, aos 57 anos, de fôlego novo, em um momento especial da sua já longa carreira. O CD foi lançado logo após sua participação no reality show norte-americano The Celebrity Apprentice – uma versão de O Aprendiz, com celebridades.

Comandado pelo topete mais rico do mundo – o megaempresário Donald Trump – o programa teve direito a uma ousada performance da cantora no seu episódio final, cantando I‘m Just Your Fool (faixa de abertura do CD), enquanto se retorcia na imaculada mesa de reuniões do tubarão de Wall Street.

Não por acaso, Memphis Blues é seu álbum de maior vendagem desde 1986, quando lançou, ainda no auge da carreira, True Colors. Lançado nos Estados Unidos em junho ultimo, o CD debutou no Top 200 da Billboard em 26º lugar.

Nada como aparecer na TV para ajudar a levantar uma carreira na corda bamba.

O disco também marca sua saída da Sony / BMG, gravadora major que lançou todos os seus discos até então, para estrear em um selo independente, o Mercer Street Records.

Independente, mas limpinho: nas fotos de capa, encarte e divulgação, Lauper aparece como uma diva dos cabarés de Memphis (cidade berço do triunvirato blues / country / rock ‘n‘ roll) clicada pela badaladíssima fotógrafa da revista Vogue, Ellen Von Unwerth.

Blues X pop

Há pelo menos duas formas de se avaliar Memphis Blues. Uma é sob o viés pop que sempre a caracterizou. O outro, mais rigoroso, diz respeito ao pantanoso terreno no qual se aventurou: o blues.

Direto ao ponto: como um disco de pop norte-americano, o CD em questão bate um bolão com seu acento bluesy e reabilita a cantora, um dos talentos mais subestimados do cenário nos últimos 25 anos.

Já como um CD de blues propriamente dito, é arriscado bater na trave do óbvio dizer que a moça ainda precisa beber muito bourbon e fazer muito pacto com o coisa-ruim na encruzilhada para convencer, de fato.

Em suma: para os apreciadores hardcore do gênero, Lauper ainda é, digamos, café-com-leite.

Bronx X Memphis

Com sua característica voz meio esganiçada, Lauper se esforça para convencer e fazer bonito como cantora de blues, atingindo de fato boas performances em faixas como Down So Low, How Blue Can You Get? (com Jonny Lang cantando e solando sua guitarra) e Shattered Dreams, com Allen Toussaint.

B. B. King arrepia como só ele sabe fazer, cantando e tocando sua amada Lucille (incrível como uma única guitarra pode ter um som tão característico) em Early in the Morning.

Já em Rollin‘ and Tumblin‘, com a fantástica roufenha Ann Peebles, Lauper – inadvertidamente ou não – vira o jogo contra ela mesma. Seu sotaque do Bronx soa fake ao lado do gostoso (e legítimo) tom caipira do sul de Lady Peebles.

No saldo final, Memphis Blues é um bom CD – para fãs de Lauper e apreciadores não radicais de blues urbano.

Memphis Blues / Cyndi Lauper / Mercer Street Records - Lab 344 / R$ 27,90

SUZANNE, EM CLOSE-UP ÍNTIMO E PESSOAL

Ao surgir no cenário da música pop na segunda metade dos anos 1980, a cantora norte-americana Suzanne Vega proveu àquela década – até então, fortemente colorida em tons cítricos – a reserva de cinza (e sutileza) que lhe faltava.

Parte do repertório que a notabilizou retorna agora, no seu novo CD, Close-Up Vol 1, Love Songs, que acaba de chegar às lojas em edição nacional pelo selo independente Lab 344.

Parte de um projeto previsto para ter quatro volumes, a chamada Close-Up Series recupera, em novas gravações, as canções mais significativas do seu repertório, pescadas dos sete discos de estúdio lançados pela cantora e violonista desde sua estreia no LP homônimo Suzanne Vega, de 1985.

Cada volume terá um tema específico. Neste primeiro, o destaque são as canções de amor. O segundo volume será People and Places (pessoas e lugares). Seu maior sucesso, Luka, a comovente crônica urbana de um menino que sofre calado com a violência doméstica dos seus pais, está prevista para este segundo CD.

Divisora de águas

Fascinada desde criança por pioneiros da canção folk norte-americana como Woody Guthrie e Pete Seeger, Suzanne Vega encontrou seu caminho artístico após ver um show do Lou Reed, em 1979.

Foi ali, na junção da crônica urbana enegrecida pela fuligem da cidade grande, aliada às qualidades literárias das letras de Reed – e Bob Dylan e Leonard Cohen, também influências assumidas – que Vega soube reprocessar com personalidade suas raízes folk.

Seu enorme sucesso, com o estouro mundial de Luka, em 1987, abriu caminho para uma série de cantoras que seguiam mais ou menos o mesmo caminho do folk sutil e urbano, como Tracy Chapman, Natalie Merchant (revelada na banda 10,000 Maniacs), Michelle Shocked, Edie Brickell e outras.

Lou Reed e João Gilberto

De uma elegância à toda prova, as novas versões de Love Songs evidenciam a maturidade artística de Suzanne Vega, hoje aos 51 anos recém-completos, em julho último.

Ao invés de reinventar suas antigas composições, a cantora optou por simplesmente despi-las de eventuais exageros de produção, como os sintetizadores inseridos por Lenny Kaye em faixas como Marlene on the Wall (uma das melhores do álbum) e Small Blue Thing, ambas do já citado disco de estreia.

Os arranjos priorizam o violão dedilhado e a voz suave de Vega, adicionando uma guitarrinha elétrica aqui e uma percussãozinha ali.

A influência de Lou Reed aparece com toda a sua força em (If You Were) In My Movie, com seu canto falado e refrão melodioso no melhor estilo reediano – descontado o climão pesado quase sempre presente nas letras do ex-Velvet Underground.

Já Caramel traz a insupeitada sombra bossa-novística de João Gilberto, com Vega levando um quase sambinha ao violão, acompanhado de um estalar de dedos. Até a letra lembra bossa-nova: “não adianta / sonhar com caramelo / pensar em canela / e sentir saudades suas“. De fato, um doce de CD.

Close-Up Vol 1, Love Songs / Suzanne Vega / Lab 344 - Cooking Vinyl / R$ 32,90

terça-feira, agosto 24, 2010

SIRIUS ROCK: A INSPIRAÇÃO CÓSMICA DA ACORD







A luz branco-azulada da estrela Sirius, distante 2,6 parsecs (ou 8,57 anos-luz) da Terra (obrigado, Wikipédia), enviou suas vibrações cósmicas e inspirou a rapaziada da banda Acord (em foto de Pedro Coelho).

Sirius Rock, “a estrela mais brilhante que se pode observar“, como diz a letra, é uma das nova faixas da banda, liberadas para audição no MySpace.

O rockão empolgante, de estilo setentista e com a participação de Nancy Viegas nos vocais, compõe o primeiro álbum da banda soteropolitana, Não Há Mais Tempo Para Ficar Parado, com lançamento previsto para outubro.

O disco, produzido por andré t. (mas esse cara não tira férias, não?!?), marca um novo momento para a banda – que reformulou seu som, após alguns anos batalhando no cenário local: “A gente sentiu necessidade de criar uma música mais simples“, conta Pedro Caetano, cantor e guitarrista.

“Vínhamos de muitas mudanças em relação ao que estávamos produzindo antes. As composições estão mais simples, mais diretas. Mas apesar da simplicidade, a gente tem todo um cuidado com os arranjos“, garante.

Banda é prioridade

Formada por Pedro, Samir Carvalho (guitarra), Thiago Brandão (bateria), Diego Cerqueira (percussão) e Henrique Duarte (baixo), a Acord, assim como diversas outras bandas locais, nutre o sonho de se profissionalizar e, quem sabe, poder viver de sua música.

“Estamos investindo, plantando para colher. Queremos nos profissionalizar mesmo, criar um barulho por aqui, fazer um público local tocando com bandas que já tem uma certa audiência. E depois estender para outros mercados. Festivais são fundamentais“, diz Pedro, já esperto no circuito a seguir.

A tarefa é ingrata – vide a recente pausa forçada da excelente banda Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta – mas os carinhas estão na pilha: “Todos os componentes são muito envolvidos e priorizam a banda, mesmo. Seja compondo, arranjando ou ensaiando“.

Enquanto o CD não sai, vale a pena conferi-los dia 31 no Beatles Social Clube e no Tom do Sabor em setembro. Pelo que se ouve, a diversão é garantida.

Show: Acord e Maglore / Dia 11 de setembro de 2010 (sábado), 22 horas / Tom do Sabor (3311-3300) / R$ 15 até meia noite / R$ 20 após

Ouça: www.myspace.com/bandaacord



NUETAS, NUETAS

Rock triste em dobro

Quem estava com saudades da brincando de deus, pode ficar feliz (ops). Depois do show de retorno da banda (dezembro último, na saudosa Boomerangue), o quarteto de indie rock clássico sobe no palco do Groove Bar no próximo dia 10 de setembro (sexta-feira). Mas, antes disso, Messias faz mais um show de divulgação do seu espetacular CD triplo, escrever-me, envelhecer-me, esquecer-me, nesta sexta-feira (27), no Largo Tereza Batista (Pelô), 21 horas, de graça. Vamos lotar essa praça?

Navegação no ar

O álbum Bem-vindo à Navegação, do ex-Maria Bacana André Mendes, está todo disponível no endereço www.myspace.com/andremendesmusica. Diz ele que o CD físico sai em breve. Um show de lançamento bacana e um site oficial também estão nos planos e logo serão divulgados.

sexta-feira, agosto 20, 2010

BAIA É DA SOM LIVRE

Após quatro anos divulgando o extraordinário CD independente Habeas Corpus, Baia lança DVD gravado ao vivo pela major carioca, ganha prêmio e inicia nova fase na carreira. E hoje já tem show no Tom do Sabor



Na noite de 18 de dezembro de 2009, o cantor baiano (naturalizado carioca) Maurício Baia lotou o Circo Voador no Rio de Janeiro para gravar seu primeiro DVD ao vivo (foto de Clever Barbosa). O evento fechou um ciclo.

Afinal, quase 18 anos antes, em 1992, ele subiu pela primeira vez na vida em um palco: justamente no mesmo circo da Lapa, com sua antiga banda, Baia & Os Rockboys.

Agora, o cantor e compositor coroa o início de uma nova fase em sua carreira, em grande estilo, uma espécie de momento decisivo, o tudo ou nada: o DVD e CD gravado no Circo Voador saiu pela gravadora major Som Livre, que contratou o rapaz e aposta nele como uma grande promessa de sucesso.

Isso significa que, em breve, Baia deve ser figura mais ou menos fácil nos programas da Rede Globo (dona da Som Livre), nos canais por assinatura da rede, e, quem sabe, nas trilhas sonoras das novelas.

Mas não para por aí, não. Hoje, ele começa a turnê nacional de divulgação de Baia no Circo com um show pequeno no Tom do Sabor.

Daqui, parte para rodar pelas regiões Sul e Sudeste. Em dois ou três meses, volta para um show maior no Pelourinho. E em janeiro, deve estrear no Festival de Verão.

Em outra frente, seu projeto paralelo 4 Cabeça ganhou, semana passada, o prestigioso troféu de Melhor Grupo (MPB) no Prêmio da Música Brasileira.

Show de Lançamento CD e DVD Baia no Circo / Hoje, 23 horas / Tom do Sabor (3311-3300) / R. João Gomes, 249 / R$ 20

ENTREVISTA



Pergunta: Depois de passar a maior parte da carreira na independência, seu primeiro DVD ao vivo saiu por uma gravadora major, a Som Livre. Como foi isso?

Baia: A Som Livre é a gravadora que está mais diretamente ligada aos canais da Rede Globo, então, tem os programas de TV, os canais Multishow, GNT e tal – o que a torna muito interessante para qualquer artista.

Mas como foi que você chegou a eles? Ou eles chegaram a você?

Baia: Isso é que é o mais legal: as pessoas que hoje fazem parte do departamento de novos negócios estão ligadas no meu trabalho. Desde o primeiro momento que eu cheguei lá, disseram que eram fãs e cantavam os refrões (das minhas músicas). Eles gostam do meu trabalho, vão aos meus shows. Então, acabou sendo foi um movimento natural – tanto da minha parte, quanto da deles também.

Então, esta foi uma boa hora para você se filiar à uma major?

Baia: O que acontece também é que a Som Livre está em um momento muito bom com a Maria Gadu. Eles estão voltando a investir em artistas novos. O clima tá muito bom, sim, a turma está amarradona, feliz com o produto final. O que ajuda muito, né, quando as pessoas acreditam. E nem rodei muito as gravadoras, não. Apesar de até ter sido procurado por uma outra.

E agora? Você assinou contrato? Ele prevê que você vai lançar quantos discos pela gravadora? Vai rolar Domingão do Faustão, música em trilha de novela?

Baia: Assinei. O contrato prevê pelo menos mais um disco de estúdio e é negociável. Agora, a assessoria da Som Livre vai tentar me encaixar nos programas (da Rede Globo), mas ainda não há data marcada. Até por que o DVD acaba de chegar ao mercado. Você é a primeira pessoa (da imprensa) com quem eu falo. Novela, a Som Livre tá tentando. O problema é que não costuma rolar música ao vivo em trilha de novela. Então, ainda não sei se vamos recorrer a alguma gravação antiga ou se vou regravar algo em estúdio. Estamos chegando junto, batalhando aos pouquinhos.

Você está em um momento muito especial da carreira, correto? Semana passada, seu projeto paralelo 4 Cabeça ganhou o Prêmio de Música Popular Brasileira de melhor grupo...


Baia: Pois é, o 4 Cabeça é um projeto que eu capitaneei com o (compositor carioca) Luís Carlinhos. Fomos os produtores do CD que foi premiado no Prêmio da Música Brasileira. É uma premiação muito importante e ganhamos na categoria principal (MPB), o troféu de melhor grupo. Então (esse prêmio) acabou chegando junto com o DVD no mercado. É mesmo um momento de muita felicidade para mim.

A produção do DVD ficou caprichada. Como foi esse processo?

Baia: Meu primeiro pensamento foi não fazer economia porca, entende? Não teve “o barato que saiu caro“. O DVD foi feito, inicialmente, como produção minha. Aí eu uni todas as partes artísticas: diretor, cenografista etc. A produtora, a Carioca Filmes, eu mesmo contratei eles, foi um investimento meu, pessoal. Contratei a equipe de som, escritório de design, tudo de primeira. Não queria esse negócio de juntar três amigos com câmeras e cruzar os dedos. Só procurei gente do mais alto padrão. E, modéstia a parte, consegui. Trabalhei feito um cavalo, também (risos).

Sua música tem várias facetas e influências diferentes. Você se vê como um artista de MPB ? De rock? De folk? Ou esse negócio de rótulo não é contigo?

Baia: Não é que eu tenha nada contra rotulo, mas se você um dia disser que meu estilo é rock, só está me definindo em parte, por que rock, enquanto gênero, é muito abrangente. Então, hoje, eu eu me definiria como rock MPB. Ou melhor: MPB rock, por que o rock já foi absorvido (pela MPB).

No Rio, você já tem um bom público formado, mas muita gente Brasil afora ainda não te conhece. O recurso do DVD ao vivo, gravado diante de uma grande plateia, foi justamente para apresentar ao Brasil esse artista que está, digamos, “pronto“ para as grandes multidões?

Baia: Todo produto que a gente lança, a gente tenta atingir o maior público possível. Eu sei que não sou um artista tão fácil de as pessoas saírem cantando junto – mas essa também é minha força. Eu não tô indo atrás de nenhum segmento constituído. Eu faço um tipo de MPB rock que é segmentado, mas não é axé, nem sertanejo. Sim, o DVD visa me popularizar mais, mas assim como esses outros ritmos, eu faço uma linha de música que também é muito popular. Você vê aí Zé Ramalho, Lenine, Raul. Eu acredito em um fortalecimento desse segmento, que é um rock MPB. Não é o rock juvenil de agora. Tô até vendo aqui agora, o Serguei esculhambando n‘O Globo, dizendo que o rock virou melacueca, que todas as bandas estão iguais. Então, o meu trabalho é rock ‘n‘ roll – mas com com raízes fortes na música brasileira, no Nordeste. E tem sido assim, desde o meu primeiro trabalho.

Como foi receber Zé Ramalho, um dos seus ídolos, no seu show? Deu tremedeira?

Baia: Não, o Zé é meu amigo há mais de dez anos, sempre foi atencioso comigo, demonstrou conhecer meu trabalho, dava feedbacks. Desde a primeira vez que ele me viu no palco, ele disse que eu era um artista pronto. Isso me norteou. E como eu tinha participado do DVD dele, foi muito natural convidá-lo. E não foi o tipo de convite só para ele “abalizar“ o meu lance. Agora, estamos vendo a oportunidade de fazermos shows em dupla. Se der tudo certo, deve rolar também na Concha Acústica, no ano que vem.

E a turnê do DVD?

Baia: Começa por Salvador, que é minha cidade natal, como um renascimento. Depois de rodar o sul, devo voltar aí para um show maior no Pelô, em setembro ou outubro. E vamos começar a negociar para o Festival de Verão também.
Estreia em gravadora major traz Baia no auge da forma

BAIA NO CIRCO: RESENHA

Em recente entrevista para a revista Billboard, Lobão decretou: “a internet não vai salvar ninguém“. E arrematou: “lugar de artista é na gravadora“.

Descontada a possibilidade de que, daqui a mais ou menos uns dois anos, ele poderá se desdizer, o fato é que, conjunções astrais influindo ou não, Maurício Baia faz sua estreia numa major em momento que parece muito favorável à uma virada decisiva na carreira.

Artista maduro, cantor de voz própria e personal, performer carismático e letrista inspiradíssimo, o homem está no auge em Baia no Circo. Aqui e ali, até parece um pouco intimidado com a escala da coisa toda. Mas é uma impressão que passa rápido, dada sua larga experiência de palco.

Com 21 faixas no DVD e 17 no CD, Baia no Circo traz, além dos hinos da fase com os Rockboys (Na Fé, Doce Doçura) e de clássicos instantâneos como Habeas Corpus, Lembrei e Fulano, Beltrano e Sicrano, quatro faixas inéditas: Tá Tudo Mudando (em dueto com Zé Ramalho), Em Nome da Fome, Quando Eu Morrer (seu primeiro samba) e Os Dias de Hoje.

Tudo executado com garra por uma numerosa banda e um artista incomum.

Baia no Circo / Maurício Baia / DVD: R$ 27,90 / CD: R$ 17,90 / Som Livre

4 CABEÇA: LEMBREI (de Maurício Baia e Gabriel Moura)

terça-feira, agosto 17, 2010

BOÇALIDADE (E COMPETÊNCIA) CONSERVADAS PARA A POSTERIDADE


Passado pouco menos de um ano do anúncio que decretou o fim da banda britânica Oasis, chega às lojas Time Flies... 1994-2009 (Som Livre), coletânea dupla que repassa a carreira dos irmãos mais birrentos do rock inglês desde Ray e Dave Davies, da lendária The Kinks.

Não que Noel (guitarra e vocais) e Liam (vocais) Gallagher estejam preocupados com isso. A banda, adorada por milhões e detestada por outros tantos, está, no que depender da dupla, morta e enterrada.

Recentemente, ao ser perguntado se aceitaria voltar ao Oasis, Liam declarou: "O único motivo que levaria o Oasis a se reunir é se nós estivéssemos quebrados. E eu estou longe da falência, e ficarei longe dela por muito, muito tempo".

Garoto símbolo da boçalidade brit pop, estilo de vida muito em voga a partir de meados dos anos 1990, Liam não apenas planeja lançar, com sua nova banda Beady Eye, “o disco que você vai ouvir nos próximos 50 anos”, como ele declarou para um canal de TV, como também já se expandiu para a moda, com a grife Pretty Green, inaugurada no último dia 29.

Grandes demais para o indie



(O nome da loja / grife, Pretty Green, é o título de um hit clássico do The Jam, banda inicial de Paul Weller. Weller foi para o britpop o que Neil Young foi para o grunge: godfather - padrinho. Não a toa, Liam Gallagher e Paul Weller, hoje, são sócios na Pretty Green - a loja).

Surgida para o grande público em 1994, e a princípio muito identificada com o indie rock inglês e a cena de Manchester, o Oasis rapidamente demonstrou que era grande demais para o fechado circuitinho indie.

Até por que, juntos, os irmãos Gallagher reuniam presunção o bastante para deixar para trás qualquer integrante dos Smiths, Jesus and Mary Chain ou My Bloody Valentine – todos reconhecidos malas, independente de suas óbvias qualidades.

Hoje, o Oasis é visto (e ouvido) muito mais como uma banda de classic rock – com claras, declaradas e fortíssimas influências dos Beatles – do que como uma banda indie.

Daí o deleite que é ouvir este Time Flies. O filé da produção de Noel, principal compositor da banda, está concentrado no disco 1, com os hits perfeitos dos três primeiros álbuns, insuperáveis em sua discografia: Supersonic, Roll With It, Live Forever, Stand By Me, Don't Look Back in Anger e, claro, Wonderwall, entre outras. Só faltou Champagne Supernova.

No disco dois, ainda há ótimos momentos, como Lyla, D'You Know What I Mean, The Shock of Lightning, Go Let It Out e Some Might Say, além de faixas inéditas, como Whatever e Lord, Don't Slow me Down. No saldo final, o testemunho inegável da passagem de mais uma grande banda.

Time Flies... 1994-2009 / Oasis / CD duplo / Som Livre / R$ 27,90

quarta-feira, agosto 11, 2010

RONEI JORGE & OS LADRÕES DE BICICLETA: A PAUSA, OS PLANOS ETC

A notícia de que a elogiada banda Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta ia parar por tempo indeterminado, enviada por meio de comunicado à imprensa, na quinta-feira passada (dia 5), pegou os apreciadores do grupo meio de surpresa.

No comunicado, o quarteto formado por Ronei Jorge (voz e guitarra), Edson Rosa (guitarra, teclado e vocal), Sergio Kopinski (baixo e vocal) e Maurício Pedrão (bateria), atribuía a decisão à “impossibilidade atual de os integrantes se dedicarem à banda com a entrega e o envolvimento que marcaram a sua trajetória até aqui“.

Ainda meio triste com a decisão, Ronei justificou, dizendo que “a coisa chegou num ponto em que começou a ficar difícil arranjar tempo até para todo mundo ensaiar e fazer show. Não conseguíamos nem viajar, as vezes“, conta.

Ele revela que “a disponibilidade maior esse ano era minha e de (Maurício) Pedrão“, mas evita colocar o peso da culpa pela pausa forçada nos outros dois integrantes.

“Não é uma coisa individual, não vejo assim. Como a banda são os quatro, o tempo tem que ser dos quatro. Não é uma coisa que dá para colocar tudo em uma pessoa. Claro que Edinho (Rosa) e Serginho (Kopinski) tiveram uma carga maior de trabalho esse ano, é verdade. Mas não acho que (a culpa) seja localizada em uma pessoa. Até por que somos um conjunto: ou vai todo mundo ou não vai ninguém“, demarcou, com a elegância que lhe característica.

“A vida é assim“, diz Edson Rosa. “Temos uma enorme sintonia de trabalho e um sonho em comum, mas tem horas que você tem demandas ainda maiores do outro lado. Temos que ser maduros para assumir que não dá mais“, acrescenta.

Já Maurício Pedrão faz questão de dissipar qualquer dúvida quanto à amizade que une os quatro integrantes, independente da banda. “O comunicado ficou meio formal, aí o pessoal achou até que a gente tinha brigado. Mas a banda só parou“, reitera o baterista.

“Teve que parar, até por estávamos recebendo muitos convites para tocar fora. Até no exterior – e recusando todos. Isso é chato, fica parecendo que somos arrogantes“, reflete.

Apesar de chateado, Ronei não pensa de forma alguma em parar. Ele só não definiu ainda qual será o formato do seu próximo trabalho: “Não tem como eu parar. Eu continuo compondo e estou pensando em fazer alguma coisa daqui para o fim do ano“, adianta.

“Se vai ser como artista solo, eu com uma banda, ou ainda, uma outra banda com nome próprio, eu ainda não defini“, continua.

De certo mesmo, Ronei aponta que o trabalho terá músicas do repertório dos Ladrões e “mais algumas que tem a ver com a direção que eu quero seguir“, conta.

Aos que, desde já, esperam pelo breve retorno da banda, Ronei acena com a possibilidade, mas não arrisca uma previsão: “Pode ser até ano que vem, quem sabe? Até por que não foi uma separação. Foi um acordo ocasionado pela impossibilidade levar a banda como queríamos“, afirma.

“Então, quando dizemos que é uma pausa, o fazemos muito honestamente. Não estamos fingindo que a banda acabou, ou algo assim. É pausa mesmo“, garante.

Ronei Jorge: um resumo

Ronei Jorge é cantor e compositor ligado ao rock local desde o início dos anos 1990, quando surgiu com a banda Mütter Marie.

De caráter meio lendário, deixou apenas duas faixas gravadas na coletânea em LP Bazar Musical Ssa Vol. 1 (1993).

Poucos anos depois, liderou a banda Saci Tric, com a qual lançou o CD Ao Vivo no Theatro XVIII (1999).

Em 2003, explicitou suas influências de música popular brasileira no seu projeto mais bem sucedido, Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta.

O segundo CD da banda, Frascos Comprimidos Compressas (2009) frequentou diversas listas da imprensa de melhores lançamentos do ano passado.

Baixe o CD Frascos Comprimidos Compressas:
www.roneijorgeeosladroesdebicicleta.com


Clipe de Vidinha, dirigido por Alessandro Soares.

terça-feira, agosto 10, 2010

MARCONY SCARAMUSSA, UMA NOVA VOZ PARA O ROCK BAIANO



Fãs do Radiohead, prestem atenção neste cara aí do lado. Marcony Scaramussa (na foto de Ricardo Soares) é o mais novo nome promissor do rock baiano. Bom guitarrista, o rapaz é dono da voz mais impressionante ouvida por este colunista desde a estreia da Formidável Família Musical – Damm, cada você, rapaz? – em 2005.

Sua voz é cristalina, cheia, ligeiramente aguda – mas com suavidade. “Ué? É Thom Yorke cantando em português?“, perguntaria um desavisado.

Não, mas a sensação é quase essa. Vamos aos fatos. Oriundo de bandas cover da cidade nas quais tocava guitarra, Marcony resolveu, há alguns anos, alçar voo e se mandar para a Califórnia.

”Eu sempre compus, apesar de ser meio tímido para assumir a frente uma banda. Era mais guitarrista mesmo. E compunha só para mim”, conta.

”Aí, morei um ano na Califórnia e lá tomei aulas de canto. Comecei a cantar nas ruas de São Francisco. Botava o case de guitarra no chão e o pessoal jogava uns trocados. Mas o foco nem era esse. Era mais a curtição de cantar na rua”, diz.

Quando Marcony encontra andré

Ao voltar, em 2007, resolveu gravar suas composições. Chegou a andré t. através do burburinho em torno do requisitado produtor.

Com andré, resolveu botar em prática no estúdio o que tinha aprendido com seus professores e no show do Radiohead que assistiu nos EUA.

”Esse show mudou minha vida e minhas concepções de música. Vi como eles se preocupam com a sonoridade dos discos, dos shows, a iluminação, o capricho todo na coisa”, conta

”Quando cheguei, disse: ‘vou trabalhar certo e fazer o melhor disco que eu puder, com uma sonoridade universal'. Nos preocupamos com cada detalhe dos arranjos, tudo para que as pessoas ouvissem cada detalhe”.

As gravações com andré t., que se apaixonou pelo trabalho do rapaz, levaram 1 ano e 3 meses – uma eternidade para um artista independente. O resultado está no MySpace, já que não há dinheiro para viabilizar o lançamento físico.

No momento, eles ensaiam para iniciar uma série de shows de divulgação, com o próprio andré nos teclados, Rafael Zumaeta no baixo e Mark Mesquita na bateria.

”Com certeza, teremos show em algum momento de setembro ou outubro”, promete. Tomara.

www.myspace.com/marconyscaramussa

NUETAS

Vote Vendo 147

A Vendo 147 está em campanha para tocar no festival Starts With You (SWU), que rola em Itu (SP). Para votar e dar uma força à banda: www.swu.com.br/pt/servicos/voce-faz-o-show.

Caçadores das Trevas

Caçadores das Trevas V reúne as bandas de heavy metal Keter, Metalwar, Behaviour e Rattle, no Prospect Club 81(antiga garagem dos Red Devils). 21 de agosto, 16 horas, R$ 10.

Nancy e Radiola free

Sábado tem Nancyta & Radiola grátis na Praça Pedro Archanjo (Pelô). Às 20 horas.